Aníbal Beça

Palavras viúvas

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Para o Aníbal Beça, com poesia.

Aníbal Beça, marido das palavras...Tenho que me acostumar com o inacostumável. Dia 06 de setembro faço 41 anos. Terei, cada vez com mais frequência, a notícia de que alguém se foi. A morte é a única certeza do futuro. Por isso assusta, desafia, inquieta e nos desconforta.

Hoje se foi o Aníbal. Sempre gostei da poesia de Aníbal. Desde quando a conheci, nos anos oitenta, em uma aula de literatura amazonense na faculdade. Depois, nesses ziguezagues da vida, convivi profissionalmente com o ele quando ele foi Presidente do Conselho de Cultura da Prefeitura de Manaus, na época em que Manaus era mais feliz. O Conselho era ligado à Secretaria de Educação, da qual eu era subsecretário. Vez por outra me reunia com o poeta para tratar de coisas burocráticas. Ou nem tanto. Suas conversas de poeta desburocratizavam a vida, paralisavam o dia, me anestesiavam do corporativismo sufocante da classe. Gordo daquele jeito, Aníbal era de uma leveza…

A admiração pelo escritor, que ganhou vida concreta nessa breve convivência, virou respeito mútuo e um carinho gratuito. Sem muita razão para lhe dar – ele, ao contrário, deu-me sua poesia –, o poeta gostou de mim, gratuitamente, como fazem os poetas. Encontrávamo-nos por aí e sempre com muito afeto nos cumprimentávamos. Passei a receber seus belos poemas como scraps no Orkut, pelo seu perfil hoje cheio de justas saudades. Também os recebia por e-mail. Um deles me tocou sobremaneira. Chamava-se “A primeira falta”. Ela escrevera para sua mãe, dona Clarice, que havia partido. “Colher de pau/Solitária na parede/Onde os doces da mãe?”

A gratuidade do afeto fez com que um dia me ligasse, pedindo meu endereço para me mandar seus livros. Foi em dezembro de 2008. Fiquei envaidecido pela deferência do maior poeta amazonense, para mim sem controvérsias. Recebi os livros com as dedicatórias, cada uma aproveitando o título do livro: “Para o Sérgio Freire, uma incursão à arte oriental pelas Folhas da Selva”, “Para Sérgio Freire, estes 50 poemas escolhidos pelo autor” e “Sérgio querido, eis aqui a Palavra Parelha e outros poemas”. Todos com um desejo também de um “Natal Feliz”. Em outro encontro, sugeriu-me que resenhasse os livros em minha coluna de jornal. Nunca o fiz porque quem sou eu para falar da poesia de Aníbal Beça como crítico? Falo como leitor. Falo com sujeito de linguagem tocado pela sua sensibilidade. “Anúncio” é uma obra-prima: “Há um desejo que me faz cantor/ Há uma paixão saída da sua cor/ Há um amor na contramão da dor”.

Nos “50 poemas escolhidos”, Aníbal abre o livro dizendo “Passei a vida inteira com as palavras. Casado com elas”. É isso. Hoje elas ficaram viúvas. Aproveite os doces da mãe, amigo. Porque “há um amor na contramão da dor” que egoisticamente os que ficam sentem. E também “há uma paixão saída da sua cor”.  Ah, dá licença, poeta… Deixa eu me enxirir para falar da minha tristeza: “Caneta e papel/ Solitários sobre a mesa/ Onde os versos do Aníbal?”…