Anjo

Anjos eficientes

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Um belo dia um grupo de anjos-crianças dirigiu-se a Deus. Estavam preocupados com o mundo e seus habitantes. Deus explicou a eles que havia dado ao homem livre arbítrio e que, portanto, ele era responsável por seus atos e por levar o mundo por caminhos não tão promissores. Preocupados, os anjos fizeram uma proposta a Deus. Como se sabe, Ele ama a todos os seus filhos e mais especialmente as crianças.

O primeiro anjo disse: “Senhor, os homens na Terra estão precisando ver melhor as coisas. Não conseguem vislumbrar que toda causa gera uma conseqüência. Vou dar a eles, Senhor, a minha visão para que possam enxergar a necessidade de cuidar uns dos outros e do planeta”, disse.

“Estão assim porque não dialogam mais”, afirmou o segundo anjo. “Falam de si, mas são incapazes de ouvir o outro. Pensam no individual e esquecem que ninguém vive só. Pois dou a eles, Senhor, a minha audição. Que com ela os homens escutem o próximo e as vozes da natureza com o coração”.

“Deixa eu lhes ajudar, irmãozinhos, doando aos homens a minha fala. Quem sabe possam conversar mais e superar as dificuldades entre os diferentes. Quero que conversem e se entendam. Permita, Pai, que eu lhes doe a linguagem perfeita que sai de minha boca”..

Um quarto anjo voou para perto e disse: “Além de não ver, não ouvir e não dialogar, os homens estão se arriscando em caminhos tortuosos. Suas pernas os levam por duvidosas trilhas nas bifurcações da vida, muito desgastada pelo corre-corre desenfreado. Consintais, Deus, que eu lhes ofereça as minhas pernas, para que com pernas novas os seus passos possam caminhar por caminhos mais primaveris”.

“Os pobres homens estão com a sensibilidade exposta”, interveio um anjo que acompanhava atento a conversa. “Posso entregar-lhes minhas fibras para que reforcem seu sistema nervoso, protegendo-se assim dos males de seu desequilíbrio. Isso, claro, se o Senhor me facultar fazê-lo”. Deus a tudo ouvia.

Um sexto anjo pronunciou: “Não poderia me furtar a ajudar a melhorar o mundo. Quero entender os homens. Deixe-me, Pai Grandioso, buscar na Terra um cromossomo para ver se melhor compreendo no DNA da humanidade o porquê de tanta guerra, de tanta discórdia”.

O sétimo falou: “Eu também quero ajudar. Preocupa-me o uso descuidado do cérebro humano. O homem já não raciocina direito. Como minha parte, Senhor, quero lhes doar a capacidade dinâmica de meu cérebro. Quem sabe assim as pessoas ajam mais fraternalmente”.

E assim foi: uma multidão de anjos-crianças juntou-se em volta de Deus, cada um com sua oferta, que de tão generosa e altruísta foi prontamente aceita por Ele.

Para quem não sabe, os anjos-crianças vêm ao mundo em forma de bebês. Dos que fizeram a proposta a Deus, o primeiro nasceu cego. O segundo, surdo. O terceiro, disléxico. O quarto, com pernas mais curtas. O quinto, com esclerose múltipla. O sexto, com síndrome de Down. O sétimo, com paralisia cerebral. O oitavo e nono, que não aparecem na história, com autismo e com síndrome de Williams, respectivamente.

Assim, cada criança que nasce com o que os humanos chamam de deficiência é a mais pura manifestação da doação dos anjos por um mundo melhor. Na sua sabedoria, Deus concedeu aos pequenos uma benção em troca de sua entrega: determinou que esses anjos nascessem em famílias especiais. Essas famílias sabem, cada uma delas, do que estou falando. Deus sempre dá um jeito de lhes contar a história de seus anjos eficientes.

Carta de recomendação de mãe

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Esta carta foi mandada por minha mãe para a Bia, sem eu saber. Eu estava viajando para Campinas para vê-la pela primeira vez, depois de já estar namorando  à distância  há quase um mês. Tinha saído em frangalhos de um casamento. Apostava todas as minhas fichas restantes na Bia.  Jackpot! Mãe é mãe. Amo as mulheres de minha vida.

Anjos

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ANJOS

Anjos passam e sopram nossos corações...Anjos. Eles existem? Anjos nos aparecem de várias formas, de muitos jeitos. Anjos surgem do nada e entram na nossa vida para fazer o bem. Sabe aquela pessoa que lhe deu uma informação que lhe mudou a vida? Era um anjo. E aquele sorriso que mudou seu dia? Anjo. Aquele estanho que ajudou quando seu carro pifou, de noite, naquele lugar ermo? Anjo. Aquela amiga que te apresentou o amor da sua vida? Coisa de anjo, claro.

Anjos estão escondidos em corpos mais insuspeitos. Num chefe que faz a gente pensar após uma dura. No subordinado que, na sua simplicidade profissional, lembra ao chefe que no mundo real todos somos iguais. No policial que assusta por sua postura solícita. No bandido que te assalta os bens e te devolve o senso de finitude, lembrando com o susto que o ser humano é efêmero e passageiro, forçando um repensar de valores. Mas anjos gostam mesmo é de vir em forma de crianças. A menininha de trança que sorriu e correu, lembra? Era um anjo.

A palavra “anjo” vem de “ángelos”: mensageiro. Os anjos são mensageiros que executam as ordens do Criador. Os anjos são pura energia e assumem a forma que lhes convir. São representados com asas, simbolizando sua leveza e rapidez de locomoção. Uma auréola na cabeça lembra sua origem divina. Às vezes, são crianças que cedem sua figura aos anjos, simbolizando a inocência e a pureza. Os anjos são criaturas puras, evoluídas, com grande capacidade de amar e que, diferentemente dos seres humanos, não sofrem influência do meio físico.  Anjos são bons. Os anjos são certos e certeiros. Por mais que a gente não entenda qual é a deles, qual é sua missão, por mais fora da racionalidade que essa missão possa parecer, saiba que os anjos não dão ponto sem nó. Eles sabem o que fazem.

Muitos anjos já apareceram na minha vida. Muitos eu vi, muitos passaram sem serem vistos. Muitos me acalmaram a alma, muitos me seduziram para momentos únicos e inesquecíveis. Muitos anjos tomaram conta de mim quando minha alma se achava inquieta e a colocaram no prumo. Muitos anjos me sacudiram a alma quando ela, muito quieta, se atrofiava com a vida. Muitos me puseram no colo e me ninaram. Muitos eu ninei. Muitos deitaram no chão comigo e olharam a lua sorridente. Muitos silenciaram e me deixaram sorver minha dor em um silêncio cúmplice. Muitos me inspiraram a escrever poesia. Muitos me fizeram rasgar poemas. O anjo não espera compreensão: ele compreende. Franciscanamente, o anjo não odeia: ama. O anjo não ofende: perdoa. O anjo não traz discórdia: une. O anjo não duvida: crê. O anjo dá sem receber. O anjo não sofre: faz cafuné e consola. Mas anjos transgridem para nos lembrar que as regras do mundo humano são reconfiguráveis. Sempre.

Anjos são inexplicáveis. Anjos não cabem em textos. Anjos são a própria linguagem do afeto, do bem-querer, do segredo divino. Meu anjo da guarda, guarde meus anjos para que nunca deixem de povoar meus sonhos mais reais e minha realidade mais onírica. E quando eu estiver distante da mulher que eu amo, sejam segundos ou anos, traga para mim o seu bem querer acostado na brisa mais compassada, que sopra sem rumo, mas que, com certeza, sopra pra mim. Com certeza, sopra pra mim.

19 de outubro de 2006