Arca

Professor: nota zero?

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ÂNGELA SOLIGO, doutora em psicologia pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas, é professora da Faculdade de Educação da Unicamp e coordenadora do curso de pedagogia da mesma universidade.

[Publicado na Folha de São Paulo, em 14 de fevereiro de 2009]

NOS ÚLTIMOS 15 anos, proliferou no país uma “febre” avaliativa nas políticas educacionais, que marca também as propostas do Estado de São Paulo. Para atender aos índices de desenvolvimento impostos pelo FMI e a pretexto de garantir a qualidade da educação, Provão, Enade, Enem, Saeb, Provinha Brasil e Saresp passaram a fazer parte do cotidiano de
instituições de ensino em todos os níveis e, aos poucos, foram retirando do professor -responsável pela organização do processo de aprendizagem- a competência para avaliar segundo critérios realistas e justos.

Esses processos avaliativos baseiam-se em instrumentos padronizados, inspirados na ideia de meritocracia: padronização na desigualdade – provas iguais para realidades e condições de aprendizagem e de existência desiguais. Agora, no Estado de São Paulo, além do aluno, torna-se o professor alvo dessa política. Em especial, o professor temporário. Por meio de uma prova, decide-se quem é o bom professor e confere-se a ele o direito de escolher a escola em que irá trabalhar. Tal medida garantiria a melhoria da educação oferecida aos estudantes das escolas paulistas.

Mas a experiência mostra que os professores mais bem avaliados escolhem as escolas com as melhores condições de trabalho, o que só contribui para ampliar o abismo educacional e social que marca o nosso Estado. Não defendo aqui que não se avalie, mas me contraponho a esse processo avaliativo. É possível pensar em outros mecanismos de avaliação: pelos pares, pelos alunos, pelos produtos do processo de ensino-aprendizagem, que representam perspectiva mais democrática e realista, pois levam em conta os sujeitos do processo e as condições de produção. Mas há outros pontos a considerar.

O primeiro deles é o princípio meritocrático, que “enche a boca” de políticos, estudiosos, curiosos etc. A questão do mérito não pode ser desvinculada das condições de produção do sujeito e suas competências. Não se pode de fato falar de mérito em condições tão desiguais de existência, seja de alunos, seja de professores. Na desigualdade profunda que nos marca, no máximo podemos falar em mérito relativo, o que torna os instrumentos de avaliação -as provas- um fraco indicador de qualidade. Pior ainda quando são publicadas notícias espetaculares que acabam por generalizar para todos os docentes a marca da incompetência. A consequência de um processo democrático não pode ser um ranking e a delação dos incompetentes, mas a busca e a produção coletiva de soluções adequadas a cada realidade escolar, promotoras de compromisso e solidariedade, não de desespero e vergonha.

Ora, os discursos oficiais, que colocam na competência do professor e nos cursos de capacitação toda a responsabilidade pela melhoria da educação, vêem reforçada nesses dados sua tese de que, para que a educação “ande nos trilhos”, basta o esforço do professor e a liderança do gestor. Mas será isso mesmo? Será que podemos esperar que a educação melhore se promovermos cada vez mais processos avaliativos e classificatórios que somente apontam culpados, mas não levam a efetivas mudanças nas condições educacionais?

Podemos esperar um professor altamente qualificado com os baixos salários praticados no Estado, a carga horária desumana, as salas de aula superlotadas, as escolas sucateadas, as bibliotecas empobrecidas ou trancadas, os processos de exclusão da cultura do aluno e de sua família? Já nos esquecemos de que as políticas para a educação no Estado têm sistematicamente sequestrado a autonomia do professor, relegado ao papel de mero executor de tarefas? Será que podemos esperar que as coisas melhorem se o investimento do Estado com educação não se tem ampliado, e reivindicações nessa direção não têm eco?

Sabemos que não se pode reduzir os problemas da educação à questão salarial nem a qualquer um dos fatores mencionados. É o conjunto deles, conjugado e democraticamente instituído, que pode garantir verdadeiro salto de qualidade nos rumos da Educação do Estado de São Paulo.

Ângela  Soligo

O medo da meritocracia

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[Texto que circulou na Comunidade Virtual da Linguagem – CVL -, que responde o artigo de Ângela Soligo e que acredito que vale a pena ler. Uma boa discussão]

Rerisson Cavalcante

Sobre o eloqüente artigo de Ângela Soligo, publicado na Folha de São Paulo:

Eu me pergunto: por que certas pessoas odeiam tanto a meritocracia? Não falo simplesmente de apontarem supostas incoerências ou falhas no processo.   Falo de odiar mesmo. Desprezar. Coisa que podemos perceber pelo tom de voz… ou pelo tom do texto. Nas primeiras referências da autora à  “meritocracia” no texto, ela nem se sente na obrigação de apresentar os  defeitos. Só mais à frente é que faz isso, com argumentos que ficam lindos de serem recitados, mas que não passam de clichês de que têm mais  atrapalhado a educação do que ajudado.

São trechos do texto:  “Esses processos avaliativos baseiam-se em instrumentos padronizados,  inspirados na ideia de meritocracia (…) Para atender aos índices de  desenvolvimento oimpostos pelo FMI .”  Ah, entendi! É baseado na meritocracia? Deus do céu! Faz parte das metas de  desenvolvimento do FMI? Que absurdo! Isso não presta! Precisamos combater com isso! Porcos imperialistas!!!  “O primeiro deles é o princípio meritocrático, que “enche a boca” de  políticos, estudiosos, curiosos etc”  Políticos concordam em premiar o mérito? Patéticos! Estudiosos concordam com eles? Traidores! E os curiosos? Típico deles, tão ingênuos…

E eu repito a pergunta: por que há tanta gente, principalmente na área de educação, que ODEIA a existência de métodos objetivos de avaliação? Aviso aos pedagogos navegantes: querem ser cientistas? Querem ter a pedagogia reconhecida como ciência de fato? Pois saibam: Faz parte da  ciência desenvolver métodos objetivos de tratamento dos fenômenos, físicos ou sociais. Quer dar um fim completo ao tratamento objetivo e adotar apenas, unicamente, o subjetivo? Vá assistir o Big Brother! Lá se pode escolher o vencedor apenas pela simpatia.

Eu posso até entender facilmente porque os incompetentes odeiem a premiação baseada no merecimento. É previsível. O que choca mesmo são os intelectuais terem comportamento idêntico. Eu, por exemplo, sou totalmente incompetente em futebol, e é exatamente por isso que eu ficava chateado quando não era escolhido para jogar. Em se  tratando de futebol, no meu caso específico, pouco importa para mim o mérito, a competência. Eu quero ter o mesmo direito de Pelé ou Maradona de  jogar uma copa do mundo.  O que me surpreenderia realmente é se o próprio Pelé ou Maradona fossem contra a idéia de que só os melhores jogadores fossem jogar na seleção. Afinal, vocês sabem como é: “ser um bom jogador de futebol é relativo. Não podemos avaliar um bom jogador de modo desvinculado das condições de produção do sujeito e suas competências”… Ninguém no mundo do futebol diria isso. Para eles, é muito fácil avaliar quem é o melhor centro-avante: é o que faz mais gols. Simples, objetivo, eficaz. Mas acontece que os nossos Pelés e Maradonas da educação, aqueles que se  passam por elite intelectual da nação, tomam exatamente esse tipo de postura  suspeita e a elevam a pensamento científico. Não, não se trata simplesmente  de defender a inclusão de outros meios avaliativos. Não se trata de defender a análise da “condição humana”. Trata-se de renegar, desprezar e desqualificar totalmente a idéia de que é preciso, sim, haver  método. Que é  preciso, sim, haver objetividade. Que é preciso, sim, haver avaliação de desempenho. Que é preciso, sim, incentivar, premiar o mérito, a capacidade, a superação.

Soligo é apenas mais uma das que defende que não se pode “avaliar desiguais”. O argumento soa convincente, soa lógico, parece ter sentido. Não  tem. É primitivo, é tolo. Carece de reflexão. Carece de compreensão do próprio sentido de se avaliar. Toda avaliação é avaliação de desiguais.  Simplesmente, porque não há iguais. Um professor de São Paulo e um professor de interior do Acre estão em condições desiguais? É claro. Dois professores de São Paulo, formados na mesma universidade, no mesmo ano, na mesma turma também estão. Tiveram todas as mesmas aulas? Um sempre terá dito experiências de vida, de leitura, de relacionamentos diferente do outro. O  que isso significa? Nunca avaliar? Só eu percebo como esse raciocínio já  nasce viciado?

Avaliar é exatamente identificar desigualdades. Até para poder saber lidar com elas. O desempenho é diferente por que as condições são diferentes? Nós podemos simplesmente aceitar isso como um fato da vida e, como conseqüência, nos opormos a avaliar. Ou podemos justamente usar instrumentos para mediar essa diferença de desempenho, para diagnosticar os problemas. A primeira postura é a do que diz “as coisas caem porque caem, é um fato da vida.  Aceite!”. A segunda postura é de quem acha que essa resposta não é
suficiente e que é preciso criar conceitos, métodos, testes para entender o fenômeno da “queda das coisas”. Adivinhem qual dessas duas posturas é a  científica.

Mas quem quer destruir o pouco da cultura meritocrática que ainda nos resta  (ou que se tenta adotar, após quinhentos anos de jogo de comadres) sempre  tem uma desculpa que faz parecer que o objetivo deles não é bem esse. Por  que não adotar outros métodos de avaliação? Avaliação “pelos pares”, “pelos alunos” (no caso de serem os professores a serem avaliados), pelos “produtos do processo de aprendizagem” (seja lá o que se queira dizer com isso), diz a  autora. Eu acho que ela devia ter ao menos coragem de admitir se é ou não a favor de instrumentos de avaliação.  Se ela é a favor, então o emprego dessas formas de avaliação não invalida  e, mais importante, não substitui um processo geral de avaliação, mas o
complementa. Até porque não dá para confiar inteiramente nesses “outros”  método. Sempre há corporativismo na avaliação pelos pares; os alunos podem  sempre avaliar por critérios deturpados. E a avaliar os “produtos do  processo de aprendizagem” significa o que, na fala dela, além de não avaliar nada. Se o aluno teve aulas de matemática, o “produto do processo de aprendizagem” significa ele saber fazer contas de multiplicação.

Mas se, por outro lado, ela simplesmente é contra a “avaliação”, a “cultura  da meritocracia”, coisa hodienta do FMI, do BIRD, da CIA ou do Mossad, blábláblá, que seja honesta e não use a desculpa da existência de outros  tipos de avaliação como instrumento estratégico para combater a incipiente  cultura avaliativa.  Eu sou a favor do fortalecimento da cultura meritocrática no Brasil. Sou a favor do pensamento liberal clássico de que as pessoas devem ser livres, mas  consideradas responsáveis pelos seus atos. E sou contra todas essa baboseira  esquerdista de que todos somos vítimas ingênuas do sistema, e, portanto, não  devemos nos esforçar porque sempre podemos jogar a culpa do nosso fracasso nas costas dos outros. E eu gosto de dar nome aos bois.

Rerisson Cavalcante

Flifloresta

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Foi muito bom participar do Flifloresta ontem. Estive numa mesa sobre leitura junto com o professor Marcos Krüger, mesa essa mediada pelo Gabriel Albuquerque. De novo, eis que surge a Arca. Pena não ter dado tempo de debater, pois o auditório da UEA tinha de ser entregue a outro evento. Mas vou responder as perguntas aqui. Aguardem.

Arca de Noé

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[A pedidos, o texto da minha vida]: A Arca de Noé

O mundo ia acabar e Noé, reencarnado, foi convocado novamente. Dessa vez foi pedido a ele que colocasse na Arca professores. Um de cada tipo. Acostumado a salvar animais do dilúvio, Noé resolveu fazer uma correspondência dos tipos de professores com os tipos de animais para lhe facilitar a vida.

O primeiro que Noé encontrou foi o professor-coruja. Esse professor é um sabe-tudo e nada tem a aprender com ninguém. Crê que já galgou o conhecimento e pronto. Vive corrigindo todos do alto de seu pedantismo. Desconfiou, claro, quando soube do dilúvio. Como era possível que ele, que tudo sabia, dele não soubesse? O diligente Noé continuou cumprindo sua missão. Deparou-se com o professor-preguiça. Folgado, o preguiça enrola para tudo. Sempre faz no seu ritmo, pouco se importando com os outros. Faz par com ele o professor-avestruz, que evita assumir responsabilidades. Sempre que isso se lhe impõe, enfia a cabeça na terra e faz de conta que não é nem com ele.

Trabalho mesmo foi convencer o professor-galo a subir a bordo. O galo é travoso, posudo e vive a entoar discursos contra a globalização e o neoliberalismo, mas dar aulas mesmo que é bom, nada. Acabou entrando, mas não sem antes pendurar na Arca uma faixa vermelha com frases de protesto, sua especialidade. Depois do galo, subiu o professor-pavão. Extravagante, o pavão faz tudo para aparecer. Impossível não notá-lo.

O professor-cobra também foi à Arca. Por Noé, o cobra não iria, pois é venenoso e maledicente. Mas Noé estava cumprindo ordens e o cobra ficou. Outro convidado a contragosto a embarcar foi o professor-urubu. Como todos sabem, o urubu gosta de carniça, da coisa podre. Faz parte do grupo do quanto pior, melhor. É catastrófico e tudo para ele é razão do apocalipse. Ele ficou feliz com o iminente dilúvio porque a perspectiva do fim do mundo, justificativa que sempre o impediu de trabalhar, estava virando realidade.

E assim foi. Entraram ainda o professor-anta, que é professor não se sabe como, o professor-lombriga, que por qualquer coisinha tira uma licença médica, o professor-borboleta, que fica ali quietinho na sua crisálida, alheio à floresta que o cerca como se nada fosse com ele. Vieram ainda o professor-hiena, que ri de tudo, o professor-onça, que ensina na base do medo, e o professor-leão, líder dos outros professores. Chegaram juntos o professor-morcego, que voa às cegas e dá aulas sem prepará-las, o professor-peixe, que se não estiver num ambiente 100% perfeito não sobrevive (e até agora me pergunto porque salvar um peixe do dilúvio) e o professor-aranha, que gosta de pôr armadilhas para seus alunos caírem. Muito aplaudido foi o popular professor-cigarra, que com seu violão sempre anima as culminâncias pedagógicas.

Quando a Arca já ia sair, alguém se lembrou de avisar Noé que ele havia esquecido o professor-formiga. O formiga faz seu trabalho individual, mas pensando no coletivo. É eficiente sem muito alarde. Noé parou e foi buscá-lo. Se os outros estavam na Arca, por que logo o formiga, o exemplo, ficaria de fora? Se bem que na vida real, quase sempre os outros não deixam muito espaço para ele mesmo. Suspeita-se até que está em extinção. Poucos sabem, mas o nome da Arca de Noé era Escola.