Bia

A vida é simples

Postado em

[Achando textos antigos e postando…]

A vida é simples, a despeito do que falam muitos. Tudo que precisamos é saúde e amor. A saúde é um presente de Deus e cabe a nós cuidar dela no dia a dia. O amor é um presente de Deus e cabe a nós cuidar dele.

O amor nasce sem que ninguém plante, como as mais belas orquídeas nas florestas. Os encontros de dois estranhos metaforizam o encontro da semente adormecida no solo fértil e do sol que alimenta de luz a vida que nasce. Brota simplesmente. A mão de eventuais jardineiros amigos às vezes interfere para que esse encontro aconteça.

A flor, quando brota, busca o sol. Ela precisa de luz. Ela aposta na luz. Tem dificuldade de romper o broto e desafiar suas próprias raízes em busca de novos caminhos para seu caule e suas louras pétalas. Por vezes, no início, não consegue ver o sol de primeira, pois as copas das árvores a iludem dizendo que não há sol, que não há essa luz que busca, que a busca é em vão. Mas teimosamente, e por crer na luz, a flor desafia suas forças, estica seu caule, distancia-se da sua raiz. E vai em busca da luz.

A luz, por sua vez, tem como missão divina iluminar a flor. Atravessar a copa das árvores em lâminas finas de energia para cumprir a determinação divina. E insiste também em rasgar o manto verde em busca do solo abaixo para que possa tocar, com seus lábios, a flor que anseia por seu beijo.

O encontro da luz com a flor aconteceu. Embora cansados, a luz e a flor ainda acreditavam no desígnio divino do encontro. A flor encheu-se de felicidade por cumprir sua missão de ser flor: bela, encantadora, cheirosa, flor. A luz encheu-se de esplendor por saber-se útil nos planos de Deus: a luz ainda aquecia, a luz ainda aconchegava.

A flor foi crescendo e afastando-se de sua raiz. Sempre e eternamente ligada à sua raiz, mas distante dela para viver a felicidade de ser flor. A luz, revigorada pela beleza e pelo sorriso que a flor lhe ofertava diariamente, viu-se apaixonada.

A flor virou árvore frondosa. Aproximou-se cada vez mais da luz e, cada vez mais, era luz pelo brilho inegável das pétalas da flor, agora folhas da árvore. E eis que, em um novo presente de Deus, maravilhado com suas criaturas, surge um novo broto de flor. Esse broto de flor, fruto do amor da flor em ser flor e em buscar cada vez mais sua floritude, vai frutificar. Um fruto de amor. Um fruto do amor. Um fruto do presente de Deus, desenhado desde sempre por sua suprema sabedoria.

Tu és minha flor. Longe das raízes. Bela, bonita, forte. Teu caule sustenta a minha existência. Tuas folhas refrescam-me do calor que às vezes emano em demasiado pelo correr do dia a dia. Teus galhos acolhem-me nos meus dias mais frágeis e mais cansados, como os galhos acolhem o lar de um joão-de-barro ou o ninho do uirapuru.

Quero ser tua luz. Aquela que veio de longe para te conhecer. Aquela que veio de longe pra te iluminar. Te fazer crescer. Te fazer dar frutos. O fruto que trazes hoje no ventre, como Maria trouxe um dia o menino Jesus.

A vida é simples a despeito do que muitos falam. Basta uma flor, basta uma luz, basta um encontro de amor. O resto, Deus providencia. E quero que tu saibas que cada lampejo que da minha luz vier será para iluminar a ti e ao nosso jardim ainda por vir. Porque Deus não te colocou na minha vida e me colocou na tua à toa. Foi pra tu me perfumares a alma. Foi pra eu te iluminar o coração. Eu te amo, minha flor. E te quero do meu lado até minha luz apagar de tanto te amar.

Bodas

Postado em Atualizado em

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Para a Bia.

Vivi bastante, meu amor, atento.
Eu te esperava muito e tanto, tanto…
Vaguei mil mundos pelo teu encanto,
Te encontrar era meu pensamento.

Apareceste no justo momento
E me encantaste com teu doce canto.
Foi teu sorriso  que enxugou meu pranto,
E a tua presença findou meu tormento.

E assim, quem vier que venha e nos procure
Vai encontrar em nós um amor que vive,
Vai encontrar em nós um amor que ame

E que apagou a tristeza que eu já tive.
Bem na frente, no dia em que Deus chame
Que  a tua mão, bem forte, a minha segure…

Ao que vai chegar

Postado em Atualizado em

[Escrevi este texto no dia em que soube que iria ser pai. Havia publicado no site antigo. Republico agora aqui.]

Voa, coração
a minha força te conduz
que o sol de um novo amor em breve vai brilhar
Vara a escuridão, vai onde a noite esconde a luz
Clareia seu caminho e acende seu olhar
Vai onde a aurora mora e acorda um lindo dia
colhe a mais bela flor que alguém já viu nascer
e não se esqueça de trazer força e magia,
o sonho e a fantasia, e a alegria de viver
Voa, coração
que ele não deve demorar
e tanta coisa a mais quero lhe oferecer
O brilho da paixão, pede a uma estrela pra emprestar
e traga junto a fé num novo amanhecer
Convida as luas cheia, minguante e crescente
e de onde se planta a paz,
da paz quero a raiz
E uma casinha lá onde mora o sol poente
pra finalmente a gente simplesmente ser feliz

Toquinho

Hoje, com a lua cheia belíssima, cantei a música do Toquinho de uma forma diferente. Busquei dentre os cds da estante o que contém a música e o pus para tocar. Ouvi com calma, prestando atenção em sua letra, em cada uma de suas frases, em cada uma de suas palavras. É impressionante. Como linguista, tenho como verdade científica o fato de que as palavras adquirem seu peso no contexto de uso. Mas nunca essa verdade esteve tão clara para mim como hoje. Vejamos, pois, como a letra da música do grande Toquinho se estende na minha compreensão redesenhada.

“Voa, coração. A minha força te conduz. Que o sol de um novo amor em breve vai brilhar”. Meu coração está leve. Como um passarinho que salta do ninho na certeza de que pela primeira vez suas asas vão levá-lo ao longe, a lugares nunca idos, às experiências nunca vividas. Um primeiro vôo. Minha alegria e meu sorriso insistentes e indisfarçáveis são a minha força. A força que conduz meus pensamentos, meus movimentos, meus dedos quando escrevo este texto. De repente, à tarde, um beija-flor anuncia a chegada da luz do sol de um novo amor. Amor que não conheço, mas que já me treme as carnes; luz que ainda não vi brilhar, mas que já me incandesce os olhos. Em breve, esse sol vai iluminar as vidas de onde surgiu, numa supernova de amor explodindo e expandindo suas partes pelo universo da vida. Aguardo o dia desse raiar como nunca esperei por nada nessa vida. Nada.

“Vara a escuridão, vai onde a noite esconde a luz. Clareia seu caminho e acende seu olhar”. A tua luz vai rasgando a escuridão como as naus portuguesas rasgaram os mares desconhecidos no século XVI. Ela abrirá caminhos nos breus do dia-a-dia e nos mostrará onde se escondem as alegrias que te esperavam para que pudessem vir à tona, ter sentido, vir ao mundo. Tua incandescência faz da noite luz, com teu brilho próprio. Somente o aviso de tua vinda fez os ares mais leves, limpando as brumas das pequenezas das vidas humanas, mostrando que há céu azul em dias nublados. Vem e clareia com teus mil sóis o caminho que hás de percorrer, primeiro segurando minha mão pelos passos cambaleantes teus, depois com as mãos livres para percorrer tua estrada individual e, por fim, segurando minha mão pelos passos cambaleantes meus, com o corpo velho e cansado, que rejuvenesce ao ver o brilho dos teus olhos, a minha fonte de juventude, refletindo para mim o mesmo brilho ofuscantes dos meus olhos quando soube de ti.

“Vai onde a aurora mora e acorda um lindo dia. Colhe a mais bela flor que alguém já viu nascer”. Vai onde as rosas são feitas, os perfumes pensados, as estrelas recortadas antes de serem cuidadosamente penduradas no céu infinito, como infinita também é a felicidade que me inunda. Acorda um lindo dia, desenha a mais bela paisagem com o mais belo sorriso, que é  o teu. Colhe a mais bela flor. Colhe-te. Decreta como tua e finca bandeira na nascente do meu rio para tu te banhares na água de afeto da fonte mais pura e cristalina que há em mim e que eu, antes de ti, nem pensara que existisse. Traz, junto com a mais bela flor, o mais belo olhar, a mais macia mão, os mais pequenos pés, me fazendo transgredir a gramática para tentar dizer o que quero na certeza de que ainda não inventaram em nenhuma língua palavras para te descrever.

“E não se esqueça de trazer força e magia, o sonho e a fantasia, e a alegria de viver”. Venha com força para viver nesse mundo que me assusta porque sei que não vou estar 24 horas ao teu lado, ainda que até para depois de minha morte eu te sempre leve na alma, sem trégua, numa certeza de amor que Deus me dá de presente, de Pai para filho. De pai para filho. Traga magia. A mágica de nos fazer mudar rumos, planos e prioridades sem dor, com prazer, com orgulho. A magia de roubar minha mulher e fazer com que eu ainda te ame mais por isso. A magia de sorrir para mim como quem diz: “Estou aqui. Para onde vamos?”, com a mais absoluta e cega confiança na entrega contida nessa pergunta. Vamos aos mais belos pastos, à mais bucólica paisagem, à cumplicidade sem fim. Nós vamos ao sol, ao rio, à piscina. Vamos ao parque, comer pipoca, tomar sorvete de taberebá. Vamos comer algodão doce e pão com tucumã, ainda que deles eu não goste. Comerei só para ficar mais pertinho de ti. Vamos dar banho no cachorro. Vem e traga, meu sonho, o sonho de uma vida, minha vida. O sonho de ver tuas duas mãos pequenas – que nem mesmo a chuva tem, como diz Zeca Baleiro. O desejo de ver teus olhos graúdos como os da mulher que eu amo e que não por acaso te ama mais do que a mim, como eu amo a ti mais do que a ela e tu a nós como nós a ti mais do que tudo. Jogo de pronomes que confunde, mas que carrega a certeza do amor entre nós três. Traga com a tua chegada a fantasia porque teu anúncio já nos trouxe a alegria de viver. Alegria que me faz agora chorar um choro que nunca chorei, em mais uma das tuas novidades que vais me mostrar. Pauso. Choro mesmo. Soluço. Porque não te conheço, mas já te amo mais que tudo. Mais que tudo, como me disseram os que já choraram como eu e me confirmaram que isso é melhor do que tudo.

“Voa, coração, que ele não deve demorar e tanta coisa a mais quero lhe oferecer”. Ai, meu coração leve das dores do mundo! Voa! Logo, logo tu vais chegar e a ansiedade de tua chegada já adoça minha boca, acalma minha alma, apaga minhas dores, apequena problemas,ressignifica meus sentidos. Eu quero te oferecer o meu amor, a minha vida, o meu tempo, o meu sorriso, a minha comida, o meu carinho. Quero ser a madeira a crepitar no fogo para te aquecer no tiritar do frio e ser a infinita água da cachoeira a te refrescar do calor dessa terra, dessa Terra. Quero te oferecer o que tenho de bom em mim e quero humildemente reconhecer o que de mau me habita para te mostrar o que deves evitar ser. Seja bom de verdade, como teu avô. Ame de verdade e brigue pelos teus, como a tua vó. Viva leve, musical e poeticamente, como o teu primeiro tio. Viva focado sem perder a ternura jamais, como teu segundo tio. Seja determinado, como sua primeira tia. Seja doce, como tua segunda tia. E seja, na mistura do que quero pra ti, tu próprio. Quero ouvir teus porquês sem fim. Respondê-los a todos sem cansar e, nas tuas perguntas, aprenderei mais o mundo.

“O brilho da paixão, pede a uma estrela pra emprestar. E traga junto a fé num novo amanhecer”. Faça as coisas com paixão, sem ela as coisas não passarão de coisas. Com ela, as coisas saem do seu casulo coisificante e viram vida, borboletas de asas azuis que pousam nos acontecimentos dando a eles significados únicos e eternos, singularizando fatos, trazendo o brilho que, na vida, não deve ser uma meta, mas uma doce conseqüência do viver com dignidade. Tenha fé. Em Deus e nos homens. Se há homens maus, pequenos, famintos de alma, há também homens bons, grandes e que compartilham o banquete da vida. Seja um desses. Ande com fé que a fé, já dizia um ministro da música, não costuma faiá. Aposte na humanidade do homem, na solidariedade, na honestidade, na justiça, no olhar sincero, no sorriso franco, no tratar bem. Busque não ferir, não magoar, não machucar. Mas defenda-se com grandeza, sem tripudiar dos adversários vencidos nas batalhas da vida. E nas prováveis derrotas em outras batalhas, erga-se, olhe para o Sol e siga em frente, tirando lições.

“Convida as luas cheia, minguante e crescente. E de onde se planta a paz, da paz quero a raiz”. Na lua nova te soube. Quero-te nas demais até que as luas se cessem para mim. Quero-te ao meu lado, segurando a minha mão quando meu corpo já não mais quiser respirar; quando meu coração, de tanto te amar, pedir para repousar e a vida me quiser levar pelo tanto que me deu; quero-te ao meu lado, junto dela, quando teus dedos fecharem os meus olhos dos teus… Quero para ti a paz. Mas não quero te dá-la (porque não posso). Quero te ensinar a conhecê-la e reconhecê-la. A tê-la como principio e meta. A tê-la como aliada. A fazê-la. Seja alguém que traz a paz na alma, branquinha como a doce tez daquela que te dará à luz.

Quero a paz. E com ela “uma casinha lá onde mora o sol poente pra finalmente a gente simplesmente ser feliz”. Eu, você, a doce ela. Nossa casa. Nosso canto. Nossa cama. Nossa vida. Nossa história. História que começou com um telefonema ousado e um convite para uma fisioterapia de emergência em minha alma. Mãos mágicas curaram-na. E te me deram. Para viver. Para materializar um amor. Para simplesmente a gente ser feliz, meu filho.

Eu vou ser pai, meus amigos.

17 de outubro de 2005

Constatação

Postado em Atualizado em

Ontem, olhando para minha filha mais velha, Clara, vi a menina rosa de Renoir, em “As Meninas Cahen d’Anvers”.

Esse post é só pra dizer que nenhum problema do mundo, nenhum mesmo, é tão grande quando eu olho e vejo que tenho uma família feliz. Fica tudo miudinho.