Bondade

Oração de pai pra Pai

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Pai e paiPai nosso que estás nos céus, quem Vos fala é um pai de filhas que estão na terra.

Que santificado seja o vosso nome e santo também sejam o meu nome e a imagem que minhas filhas construam de mim, por minhas ações, atos e também omissões. Sim, às vezes é preciso se omitir de certas práticas nefastas que se nos apresentam no enredo da vida.

Pai, que venha a mim o Vosso reino e que no meu pequeno reino, aqui nessa terra, eu consiga à imagem e semelhança do Vosso, construir castelos de respeito, com fossos para nos separar do mal, do vil, do indigno, do sórdido. E que esse meu pequeno reino seja um reino onde habitem crianças de alegria e júbilo, de paz no coração e de mente sadia. Que nos prados e campinas dessas terras minhas crianças genuinamente fiquem felizes com a felicidade alheia. Crianças que colham flores, que riam com pássaros, que brinquem com as formas das nuvens e, sobretudo, que façam o bem.

Que seja, Pai, feita a Vossa vontade, assim na terra como no céu. Que essa vontade Vossa possa guiar-me na terra quando meu livre arbítrio fraquejar, quando minha pequenez humana engasgar nos desafios da vida. Minhas filhas precisam de mim. Os filhos precisam do Pai, bem sabeis. Quando eu chegar ao céu, quero olhar para baixo e para trás na certeza de que nossas vontades coincidiram ao máximo. Vivo dia a dia a esperança que minhas meninas vivam isso. Quero a certeza para segurar as mãos de minhas filhas ao atravessar a rua da vida com que Vós segurais a mão desse Vosso filho. Nesse aperto de mão, se apertam também os laços de amor, de cuidado, de preocupação, de afeto.

O pão nosso de cada dia dai hoje. E dai permitindo que eu vá atrás, que eu o busque. Permita, Pai, que o faça no limpo, respeitando outros pais que igualmente buscam o seu pão de cada dia. Para isso, peço mais: além do pão, dê-me saúde, serenidade, paciência e altruísmo genuíno, sem os quais a jornada diária pelo trigo que alimenta é muito mais árdua.

Perdoai minhas ofensas, assim como eu perdoo a quem me tem ofendido. E seja complacente nesse pedido. Pois se para Vós que sois Pai maiúsculo é fácil perdoar, para mim que sou pai minúsculo é laborioso por vezes desendurecer o coração com os outros, quando esses outros são pequenos, mesquinhos, invejosos, cruéis. Perdoai-me quando não conseguir perdoar. Sei que o perdão prolonga a vida ao expelir a mágoa para fora da alma. Então, Pai, que o perdão seja o desjejum diário de minhas filhas.

Não me deixeis cair em tentação. A tentação do desânimo, a tentação da desistência, a tentação da impaciência, a tentação da desatenção, a tentação da naturalização dos afetos. Minhas filhas compõem-se de cada gesto meu digerido por suas existências. A atenção que não lhes dou é preenchida com outra coisa. O cansaço que me impede de com elas brincar lhes rouba a brita do alicerce da alegria em família. A impaciência no trato com duas pequenas coisinhas, frágeis e dependentes, experimentando e descobrindo um mundo tão complexo, sinaliza uma falta que não posso deixar acontecer. Eu sou responsável por parte do sentido que o mundo terá para elas. Poupe-me das tentações, Pai, para que esses sentidos sejam os melhores no que depender de mim.

E livrai-me do mal. Livrai-me do mal da dor da impotência diante das doenças. Livrai-me do mal da dor do desrespeito mútuo. Livrai-me do mal da dor de falhar como pai. Afasta de mim tudo aquilo que tire das minhas filhas seus lindos e iluminados sorriso de suas bocas. Tudo aquilo que lhes façam se sentir menos gente nesse mundo em que o humanismo é visto como besteira bolorenta. Que o mal se afaste e o bem prevaleça. É o que eu, pobre pai aprendiz, Vos pede, com fé e de todo o coração. Com a certeza de um filho que terá seu pedido atendido. Assim seja. Amém.

Quintana de madrugada

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A arte de ser bom

Sê bom. Mas ao coração
Prudência e cautela ajunta,
Quem todo de mel se unta,
Os ursos o lamberão..