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Casamento? Deixa que eu comento!

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[Escrito em 23/02/2003]

Estava em um aniversário de uma grande amiga e, inevitável, rolou na roda da conversa de um grupo agradabilíssimo o papo sobre relações pessoais. Mais especificamente sobre casamento. Fato é que essa minha amiga que ofereceu o bolo três camadas está noiva. Discutia-se se a cerimônia formal, terno-gravata e tal, era ou não era um mico para os homens. Os homens da discussão achavam que  era.

Estava observando o papo de longe. Não quis, assim, sabe, falar nada logo de cara para não parecer um boçal. Sabe como é: com dois casamentos no lombo, um terceiro certamente por vir, a gente tem uma certa cancha para opinar com mais propriedade. Mas fiquei na minha até ser solicitado a dar meu pitaco, me sentindo o próprio Drauzio Varela do matrimônio, pronto a ceder meus conhecimentos de pseudo-expert ao grupo.

É ou não mico? Vestir-se de terno, ensaiar com os padrinhos, levar esporro do fotógrafo no ensaio… É ou não é mico, afinal? Acho que é preciso contextualizar melhor o assunto antes de emitir um laudo. Resolvi então dar minha opinião e escrever um pouco sobre o casamento, essa instituição social dita falida, afirmação da qual discordo veementemente para começo de conversa.

Sou a favor do casamento formal, oficial, com tudo que se tem direito. As duas vezes que casei foram assim. O primeiro poderia até ter recebido o prêmio ISO 9002 dos casamentos: namoro de portão com horário para entrar, pedido de noivado com a presença das famílias, curso de noivos – no qual passei raspando, confesso -, ensaio na véspera, passando pelo até-que-a-morte-vos-separe, marcha nupcial, e, claro, a lua-de-mel em Fortaleza. Durou quatro anos. Começou gloriosamente um pouco antes da Copa dos Estados Unidos e terminou, sintomaticamente, um pouco antes do fiasco da Copa da França.

Quando casei a primeira vez, casei para sempre. Juro pela felicidade das noivas em véspera de casório. Só que aí vieram alguns probleminhas de incompatibilidade de gênios, de visão de mundo diferenciada e de ciúmes que culminaram com uma relação que não se sustentava mais. E isso foi a morte. Foi como o prometido: até o dia em que essa morte nos separou. Hoje minha primeira équis está feliz, recasada com um ex-amigo meu –  que é ex-amigo por contra própria, pois ele deixou de falar comigo. À época, o cognato (falso amigo) se ofereceu de ombro acolhedor e tal. Bom, ela hoje está pronta para ser mamãe dentro em breve, coisa que sempre quis e que Deus, sabiamente, adiou para nós. Que sejam felizes.

O segundo casamento foi mais informal no princípio do que o primeiro. Eu e a minha segunda équis unimos nossos trapos e começamos uma vida a dois. Não teve casamento no religioso, apesar da religiosidade de ambos ter falado muito forte durante grande parte da relação. Mas pelo menos teve a indefectível lua-de-mel em Fortaleza. E como sempre caso para sempre, casamos mais tarde também no civil, coletivamente na vara de família. Nosso “sim”, acompanhado de seiscentos outros “sins”, de trezentos outros casais, ecoou por quatro anos. Começou um pouco antes da Copa da França e terminou exatamente durante a Copa do Japão-Coreia.

Mas por que estou eu falando dos meus casamentos? Primeiro, para mostrar que eu acredito mesmo nesse troço. Tanto acredito que casei essas duas vezes dos vera, com perspectivas de me embolar de novo. Nesse negócio de casamento, eu sou tinideira, para usar mais uma expressão do nosso amazonês. Segundo, porque acho que o ser humano é como meia: foi feito para viver em par. Tem uma época da vida que não dá mais para ficar pulando de um lado para outro, feito macaco trapezista. Temos mais é que sossegar o facho e encontrar alguém para misturar calorzinhos à noite, vendo o Jô, comendo pipoca de microondas.

Dito isso, apresentarei algumas considerações mais pontuais baseadas na recorrência dos meus casórios. Ok, tudo bem: são considerações minhas que podem até não servir para ninguém. Também são considerações teóricas que vieram da minha prática e que na prática de outros podem dar tchó. Mas ando tão enxerido ultimamente para dizer o que penso que, feitas essas ressalvas, ouso colocá-las no papel. Ei-las:

Número um: para mim, só deve casar quem estiver disposto a colocar na mesa toda a sua história, suas angústias, felicidades, medos, vergonhas, projetos, gostos e desgostos, para que outro saiba e conheça. Além, é claro, da carteira de identidade para que seja vista a foto. Ver a identidade é essencial para qualquer relação. Argumento contra: “Não! Tem coisas que não tem porque contar para o outro. Uma relação começa a partir do dia xis. Antes disso, não interessa!”. Contra-argumento: se há algo que eu não posso saber, não dá para eu te dar minha vida para o resto dela. Sinto muito. É preciso evitar o que chamo de efeito-surpresa. Acredito cada vez mais que o casamento deva subverter a matemática e dividir somando vidas. Isso inclui, por direito, não ser surpreendido com nada daquilo que está ao alcance de ser evitado como surpresa desagradável para qualquer um dos dois. Se a gente parar bem para pensar, o que mata qualquer relação é, no fundo, no fundo, ser pego de surpresa e ficar com cara de leso. É como construir um prédio com alicerces de isopor: mais cedo ou mais tarde esse World Trade Center afetivo vem abaixo. A única surpresa aceitável é a surpresa de amor, como bem disse minha amiga aniversariante do alto dos seus vinte e quatro aninhos fresquinhos.

Número dois: jogo limpo. Também acho igualmente complicada a relação que deixa em suspenso questões fundamentais para que essa própria relação se desenvolva e ganhe sustância. Jogar limpo não quer dizer jogar duro, o que também pode eventualmente acontecer. Dando uma de Gilberto Gil, é preciso cheguevarizar deveras a relação amorosa: hay que endurecer, pero perder la ternura jamás! Apesar de escatológica, a metáfora da meleca é muito boa aqui: quanto mais se enrola, mais a bustela cresce. Pupila na pupila é básico. Inegociável. Fale as coisas antes que os fatos falem por si. E eles, cedo ou tarde, batem à porta de nosso conhecimento, trazendo dossiês arrasadores, implacáveis como os cossacos russos.

Número três: exercício de tolerância. O casamento aumenta tudo aquilo que existe antes dele, funcionando como uma lente de aumento: o que é bom fica muiiiito bom. E o que é ruim, se não for trabalhado, fica muiiito ruim. Ele realça delícias e evidencia carências. Para essas horas é preciso ter uma paciência de monge budista baiano. E como eu disse, tolerância é exercício. Estourar com alguém que a gente ama é muito ruim. É, para mim, um forte sinal do apagamento da disposição do “venha o que vier, eu vou brigar com você por nós”. E o com aqui é um com de junto, de nós dois unindo forças. A sensação de brigar sozinho, meu povo amado, é desalentadora. Já passei por isso e sei que é murchante. Seca a alma, esvazia os porquês da existência. Quando se deixa de brigar com alguém por algo e se passa a brigar com alguém por algo está na hora de verificar a biela. Alguma coisa errada tem aí.

Número quatro: planejamento. Não sou cartesiano a ponto de achar que temos que planejar tudo minuciosamente em nossa vida e se ater a esse plano incondicionalmente. Não sou tampouco anarquista a ponto de deixar tudo também ao belo sabor das marés. A relação a dois envolve, sim, uma boa dose de como a gente quer gerenciar o resto de nossas vidas. Vem, senta essa bundinha linda aqui ao meu lado e vamos lá: o que queremos para nós? Em quanto tempo? O que queremos e não dá? Por que não dá? E a gente, dá sem isso que não dá? Se dá, vambora, entre por essa porta agora. Se não dá, adeus também foi feito pra se dizer, bye-bye, so long, farewell.

Número cinco: Para esse que vos fala, na questão confiança o troço ou é oito ou oitenta. Aqui as outras setenta e duas possibilidades intermediárias são problemáticas. Na humilde opinião desse escriba, uma relação de casamento só deve começar se a confiança for cega e tranquila. Oitenta. Saber que se alguém vier do nada e perguntar “você apóia a decisão da sua mulher?”, você vai poder dizer, sem saber qual é essa decisão: “Sim. Apóio”, tendo a certeza que essa decisão, ainda que desconhecida, jamais seria uma decisão que afetaria deliberadamente a relação de forma negativa. Se não for oitenta, espere. Namoro é isso: a busca do oitenta. O tempo que for preciso: dois meses ou doze anos, como meu primo Nirou. Por isso não podemos apressar o rio, que corre sozinho. Quando digo que tem que ser uma confiança cega, remeto esse texto a Saint-Exupéry: “o essencial é invisível para os olhos. Só se vê bem com o coração”. O coração tem alma de cordeiro, mas olhos de águia.

Número seis: só case se você tiver disposto a botar o nome de vocês dois nos cd’s e livros. Entenda a metáfora. Se não dá para pensar nisso de forma tranquila e suave, segura as pontas, brother. Ainda não é hora. Aí eu sou das antigas: se é para casar vislumbrando uma futura separação lá na frente, esquece. Namorem, se curtam e, em pegando o bicho casório, kiss goodbye. Volto a dizer: é muito sério você propor dividir o resto de sua vida com alguém. Não dá para brincar com isso, não. Agora, se você passa o seu dia pensando em como fazer o outro se sentir bem, aí creio jo que já há um sinal de fumaça de que dá para começar a brigar pelo lençol de noite e discutir se o papel higiênico deve sair por cima ou por baixo do rolo. Para o meu amigo noivo da minha amiga aniversariante: já pensou todos os teus cd’s do Geraldo Azevedo com o nome dela? Se não te der uma certa sensação de invasão, pode mandar fazer o terno que está na hora.

Número sete: casando, seja leal. E estou falando em lealdade no sentido amplo da palavra: companheiro, sincero, honesto, fiel. Situações provocantes aparecem para todo mundo o tempo todo. Saber lidar com elas quando um compromisso de vida a dois já está firmado é fundamental e, para mim, um sinal de maturidade afetiva. Segundo um dos meus irmãos, o tempo de contagem de resistência é trinta segundos. Se em trinta segundos a tentação sumir da cabeça, pronto! Ufa! Senso estético, qualquer pessoa tem. Achar alguém bonito é normal, desejar alguém, vá lá que seja. Daí a consumar um ato que joga para o ralo fétido de um banheiro mijado de estádio de futebol todo um projeto de uma vida a dois, sem que um dos participantes saiba, é cruel. Se é inevitável começar um novo amor, que surge sobrepondo-se ao velho, jogue limpo. Eu sei às vezes que isso é difícil como tirar cd do plástico só com as mãos e é doloroso como arrancar um pelo do nariz com pinça. Mas faz parte, pelo menos, de um mínimo de consideração que a outra pessoa merece por tudo que lhe deu até ali. Carregar uma informação de falta de lealdade para o resto da vida, informação crucial para uma relação, sem partilhá-la com outro, fere de morte vários princípios já falados acima. Além, claro, de pesar na cabeça o resto da vida. Sem necessidade. Para ninguém. Isso é infelicidade calculada. Muito ruim.

Poderia escrever ainda alguns outros princípios sobre o casamento. Mas vou parar em sete, que é conta de mentiroso, para deixar um certo quê de incerteza no ar. Tenho a mais absoluta certeza que tem gente que vai concordar comigo e, pela lógica formal, gente que vai discordar de mim. Não sou dono da verdade, até porque acredito que ela não existe per si, mas é construída contingencialmente, no momento mesmo em que acontece a relação. Meus trinta e quatro anos de vida e meus dois casamentos me fizeram entrar na conversa e, refletindo, decidir escrever sobre isso. Como qualquer texto, dê a esse, prezado leitor, o sentido que você quiser ou puder.

Minha namorada linda está chegando essa semana. Vamos estudar esse texto juntos (já começamos a fazê-lo de certa forma). Vou ler igualmente o texto que ela me traz para considerações e, juntos e sempre juntos, tentaremos escrever um outro texto, a quatro mãos. E textos são versões, sempre diferentes uma das outras, apesar de trazerem quase sempre uma estrutura padrão. Isso: casamento é um texto. Se já há elementos para escrevê-lo a quatro mãos, então entrar na igreja de terno e gravata não é mico, não. É uma frase que faz parte do parágrafo introdutório. Consideradas essas questões que pus em letras e mais outras muito particulares de cada casal, é preciso perguntar: no balanço, somos felizes? Se sim, então, maestro, que toque a valsa nupcial e, pajem, traga as alianças. Que elas sejam simbolicamente o que são fisicamente: infinitas, sem quebras, douradas. Até que a morte vos separe. Amém!

A propósito: alguém aí sabe se pode pedir aproveitamento de estudos do curso de noivos e se as passagens para Fortaleza estão com desconto?

Conselhos práticos para um recém-casado

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Meu primo Amaro Jr, webdesigner da Suframa, casou sábado. Isso depois de treze anos enrolando a moça. Sei que o texto de hoje é o do dia 1º de abril e que essa história pode até parecer mentira. Mas não é. Ele casou mesmo. Diz o meu tio Babá que esse casamento  será igual à chegada do homem à Lua. Vai passar muito tempo, as pessoas irão ver as fotos e o filme, e ainda assim vai ter gente que não vai acreditar, achando que foi tudo montagem.

A cerimônia foi muito bonita, apesar do engasgo da minha tia na leitura do Cântico dos Cânticos. O texto da segunda leitura trazia uma frase evocando “minha rola que vive nas fendas”. Não sei o que passou na cabeça dela, mas que ela engasgou com a rola, engasgou. Na hora do braço estendido em direção aos noivos, confesso, cometi um pecado venial. Virei o meu braço na direção de um tio, no momento muito mais necessitado do que os noivos. O tio reconheceu mais tarde sua necessidade bençal e os nubentes, muito caridosos e sensibilizados, entenderam o desvio de benção.

Tem uma frase que usamos quando acontece algo que ninguém acredita: “Não!!! Vai chover!!”. Pois o dia estava chuvoso como na frase.  Caiu mesmo o maior pé-d’água. O celebrante foi o Pe. Canio, personal father da família. Ele também fez o meu primeiro casamento, que não deu certo e foi anulado. Mas não foi culpa do padre, não, que é um puta padre e tem um puta prestígio com Deus. Foi mais a famosa incompatibilidade de gênios. Mas o casamento do Amaro tem tudo para dar certo. Teve bastante tempo para ser exaustivamente ensaiado. A certeza de que vai dar certo pode ainda ser mais certa se o Nirou – apelido do neo-marido – seguir uns conselhos que lhe foram dados no dia seguinte ao casamento, no aniversário da minha sobrinha.

Estava reunido o conselhão consultivo composto por mim (três casamentos nas costas), pelo Paulo (também três), o Mauro (ainda no primeiro), meu pai (um, de quase quarenta anos) e o Fábio (nenhum casório no currículo, presente apenas na condição de estagiário-trainee). Vou sintetizar os conselhos dados para o Nirou e que, acredite, servem para manter um casamento por um longas primaveras.

Primeiro conselho: nada de cada um ter seu lado na cama. Isso ajuda a rotina chegar mais cedo. Faça como os políticos: um dia durma na esquerda e no outro na direita. Variação é o nome do jogo. Isso também vale para o lugar na mesa para comer ou em frente à TV. Falando em TV, mostre para a patroa desde cedo que o controle remoto é, prioritariamente, seu. Circunstancialmente pode até ser dela. Mais especificamente no dia do aniversário dela ou em 08 de março, como parte da homenagem pelo dia.

Segundo conselho: se atenha à lista do supermercado. Nunca compre além do que consta nela e nem deixe a patroa ganhar muita autonomia na compra. Vá com ela sempre para tutorar. Nas primeiras compras, cerceie a liberdade dela com movimentos leves, sem chamar atenção. Aproveite e compre duas latas de leite condensado para você chupar direto no furo, pois se sua mãe não deixava, agora, negão, você é o dono da casa e pode. Mate esse desejo. Outra coisa: o primeiro supermercado sabidamente é só compra de porcaria. A gente enche o carrinho de quibe, hambúrguer, coxinha, pizza, lasanha de caixinha, Ruffles, chocolate e castanha-de-caju. Permita a compra dessas porqueiras somente nos dois primeiros supermercados que fizerem, depois corte. Porque senão você vai engordar. Mais ainda. Quando a gente casa, um dos presentes que nós, maridos, ganhamos é uma caixa com 4 ou 5 quilos para botar na barriga. Todo mundo, com exceção do Tio Alencar, engorda com o casamento. É fato. Por isso, nunca vá para o supermercado com fome. Quando esfomeados, tendemos a comprar tudo que pinta na prateleira. Farinha do Uarini é maná dos deuses.

Terceiro: não permita que ela brigue com seu computador. Computador é computador e mulher é mulher. Se você tiver trabalhando no computador – a gente sempre tem de usar o termo trabalhando para ganhar respeitabilidade – e ela lhe chamar para dormir, diga a verdade. Não diga que vai daqui a uns minutinhos, porque você não vai. E ela vai cobrar. Diga logo que vai demorar umas duas horas. Jogue por cima. Se você for para cama antes do estipulado é lucro. De vez em quando, vá lá no quarto, dê um cheiro no pescoço dela ou faça um cafuné para manter o contato e não deixar brecha para ser acusado de abandoná-la sozinha na cama. Ou então faça logo como o meu irmão, que colocou o computador do lado da cama e só estica o braço direito para mexer no cabelo da patroa, mantendo o tal contato. Tá certo que vez por outra ele clica na cabeça dela, mas isso é um detalhe.

Outro conselho dos veteranos: evite padrões. Nunca chegue no mesmo horário em casa. Se você tende a chegar sempre no mesmo horário, dê uma voltinha a mais, reduza a velocidade do carro, pare num Select para comprar sorvete. Permita uma variação de quinze minutos para mais e quinze para menos, no mínimo. Se você criar um padrão de horário, no dia que houver um engarrafamento ou um pneu furado de verdade, ela não vai acreditar. E o pior: você mesmo vai passar a ligar para avisar, tenso, numa espécie de autovigilância: “Oi, meu bem… tô chegando, tá? É que teve um acidente aqui na Paraíba  e está tudo engarrafado.”

Conselhos de banheiro: antes de tudo, nunca faça cocô de porta aberta. Quem gosta de cocô é fossa e tia bioquímica, como minha tia Elisa. Nenhum amor resiste ao cheiro do excremento alheio. Sem falar nos grunhidos, gemidos, caras e bocas. No caso do Amaro, há mais um agravante: ele faz cocô de cócoras, virado para a parede. Imagine essa cena ridícula e dantesca! É de acabar com qualquer casamento. Ah, e dê descarga, porque o primeiro cocô do outro é como o primeiro Valisére, só que  reverso: a gente nunca esquece, por outros motivos. Segundo o DataSérgio, cada tolete de cocô do outro visto pelo cônjuge, geralmente inchado pela fermentação, corresponde a um mês a menos na relação. Ainda no quesito banheiro, quem tem de escolher as revistas do banheiro é o marido. Nada de Casa Cláudia, Nova ou Marie Claire. Tem de ser Vip ou, para os advanced, Playboy. Talvez uma ou outra revista de fofoca, desde que apareçam os peitos da Débora Secco ou a bocarra convidativa da Aline Moraes.

Em tempos de politicamente correto, o marido deve ajudar nas tarefas domésticas. Mas imponha limites. Leve o lixo – que deve ser previamente recolhido e fechado, deixe isso claro -, pregue as coisas na parede, mate as baratas. Lavar louça só como higiene mental e só naqueles dias em que você estiver a fim de refletir sobre a vida. Tem de haver uma motivação intrínseca. Cuidado para não deixar sabão ou gordura nos pratos e talheres, pois haverá inspeção posterior da patroa. A mulherada passa o dedo para ver se desliza ou não, checando se você lavou direito ou deu apenas uma demão. Lavar roupa ou limpar casa, nem pensar. Quando muito, lave apenas as freadas da sua cueca no chuveiro.

Um fato doloroso e inevitável: as contas vão chegar. IPTU, luz, água, telefone, aluguel. Por mais paradoxal que seja, esse é um dos aspectos positivos de casar. A gente passa a ser mais consciente e começa a economizar. Começamos a apagar luzes acesas, televisores ligados para ninguém, ar-condicionado no meio da noite sob a alegação de frio. Mas você só vira mesmo dono-de-casa quando se vê obrigado a trocar aduela. Marido que é marido tem que comprar aduelas para as portas. Enquanto não fizer isso, não ganha o ISO9002.

Defina algumas regras básicas: quem está mais perto é que tem de ir. Seja lá o que for. Isso evita exploração e é mais democrático. Tocou o telefone, vai quem está mais perto. A TV está desligada no botão e não dá para ligar no controle, vai quem está mais perto. Desligar ou ligar o ar-condicionado? Quem está mais perto, claro. Teia-de-aranha? Limpa quem vê primeiro. Como nós maridos quase nunca prestamos atenção nesses detalhes menores, a obrigação quase sempre passa a ser delas. Mas mantenha a regra: dura lex, sed lex.

Um conselho sábio: entregue certas coisas na mão dela. Deixe que ela decida as suas roupas, o sabor da pizza, o restaurante, o supermercado, o sabonete, a pasta de dente, a cor da parede, a cor e o tipo da persiana, o sofá, suas cuecas, suas meias, seu perfume, os presentes a dar. Nada, absolutamente nada, vale a dor de cabeça de ter que argumentar sobre essas coisas. Vai por mim, um casado três-ponto-zero que sabe o que diz. Deixe que ela seja a responsável da casa pelas ligações telefônicas para pedir comida, reclamar de algo, marcar consultas, fazer reservas e afins. Fique perto apenas para o caso de ela entrar em pânico e precisar de ajuda.

Mantenha seus limites. Lembre-se: esposa é como pano-branco. Começa com um espacinho de nada e, se não cuidar, se espalha por todo o espaço. Pano-branco, para quem não sabe, é o mesmo que pitiríase alba. Futebol com a moçada e a reza da família de domingo são sagrados. Um pouco de espaço ajuda a crescer e não sufoca o relacionamento. É bom lembrar que esse negócio de ser um só faz do casal dois meios. Não dá.

Pratique a paciência com o xixi dela. Mulher tem problema no retentor e faz xixi de meia em meia hora. E vai fazer nos momentos mais cruciais: quando estiver em cima da hora do filme começar, ou no meio da estrada onde não há sequer uma cidadezinha por perto, ou ainda no meio de um passeio noturno de canoa para focar jacaré. É batata. Ou fazemos o tai-xixi-chuan para relaxar ou teremos colapsos frequentes.

Bom, conselhos práticos dados, vamos a algumas considerações finais menos sérias, mas importantes também. Casamento é escolha, portanto priorize a sua escolha, ou seja, o outro. Sempre. O outro só deve deixar de ser prioridade quando vierem os bacuris – Falando nisso, quando é que vêm os bacuris, hein, Amaro? Ok, ok, vamos lhe dar uma carência de trinta dias antes de começar a nova pressão. Mas não deixe demorar treze anos também senão a Janaína vai acabar sendo avó dos próprios filhos.

Busque a cada dia motivos para continuar admirando a pessoa com quem você casou. Uma relação acaba quando acaba a admiração e o orgulho que sentimos pelo outro. Use as pequenas coisas do dia-a-dia como termômetro da relação. Uma das grandes provas de que existe amor é ceder a última almôndega para o outro e, mesmo ficando com fome, se sentir feliz. Abrir mão de comida é sinal de que a relação se guia pelo bem-estar do outro e não pelo nosso. Quando um casal passa a avançar sobre o último bife é mau sinal. Abrace, beije e diga sinceramente o quanto você é feliz e ama seu convivente sempre que tiver vontade. Isso nunca é demais e funciona como água nas flores. Rega e alimenta. As coisas ruins? Essas podem ser ditas quando a raiva do momento evaporar. Durma antes de tomar qualquer decisão mais séria.

Por fim, desejo sinceramente toda felicidade do mundo para vocês. Muita paciência um com o outro e ambos com a vida a dois, que não é fácil, mas é muito boa. Tanto é boa que eu, por exemplo, casei três vezes e não me arrependo. Minha única preocupação real mesmo é com a moça que pegou o buquê.  Ela saiu toda feliz, coitada. Mal sabe ela que o buquê carrega uma praga. Nele estão embutidos treze anos de espera. Ela não sabia que a Janaína havia pego um buquê também  treze anos atrás…

É como diz o velho deitado: “se conselho fosse bom, não se dava: vendia-se”. Mas se estamos metendo a colher é porque torcemos muito por vocês, seu Amaro e dona Janaina. Lembrem-se: que venham logo a Amarina e o Janaro para brincar com os priminhos. E que vocês sejam felizes até que a morte vos separe. Amém. Eu continuo invocado com a engasgada da minha tia…

PS:  A Neila, a menina que limpa e arruma aqui casa e que está de férias, mandou um e-mail desejando felicidades para o Amaro e para Jana. Aproveita para avisar que depois de Machu-Pichu foi para a Ilha de Páscoa. Está visitando os Moais, aquelas estátuas gigantes enigmáticas. Ela disse no e-mail que desenvolveu uma teoria nova sobre a origem das pedras esculpidas, mas que não pode ainda falar porque acha que está sendo grampeada  pela NASA. Essa Neila…

01 de abril de 2004

Um certo alguém

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um certo alguémPai e mãe são escolhas de Deus. Caímos na vida de um casal e dele dependemos de toda sorte na formação de nosso caráter, na consolidação de valores humanos, no modo de ver o mundo e a relação com o próximo.  Assim é com irmãos e irmãs. Não os escolhemos. Calhamos de co-existir e nessa relação inevitável aprendemos a compartilhar, a dividir, a brigar por espaço, a brigar pelo sangue, a tomar dores pelo amor que atravessa a convivência e as cicatrizes na pele e na alma. Assim é com filhos. O bebê que vem habitar o ventre da mãe e o sonho do pai, num primeiro momento, e o berço no quarto e o espaço mais nobre no coração dos pais, num segundo, é posto em nossa existência também por escolha direta de Deus. O livre-arbítrio não chega ao ponto de definir qual filho queremos. Filho vem, nasce e se demora por toda a vida.

Contudo, com a pessoa com quem dividimos a vida é diferente. Essa somos nós que escolhemos. Por ser nossa, não faz sentido ser infeliz se a escolha tiver sido infeliz. Por isso as pessoas casam e descasam às vezes. Erro humano de análise. Há ex-maridos e ex-mulheres, mas não há ex-pais, ex-filhos, ex-irmãos. Eu, por exemplo, passei por três escolhas, sendo as duas primeiras equivocadas às suas formas. Por inversão, este texto se apresenta para dizer que a terceira foi a escolha certeira, feliz e inequívoca. Se Deus não mete o bedelho como faz no caso dos pais, irmãos e filhos, ele certamente trisca no traçado que nos permite encontrar um certo alguém que, dentre 6,6 bilhões de pessoas, vai mexer com você, fazer você perder o ritmo da respiração, causar suor nas mãos e fazer seu corpo cair morto de prazer. Alguém com quem você dividirá alegrias, comida, sorrisos, vitórias. Alguém com quem você amargará tristezas, vazios, lágrimas, derrotas. Alguém de quem você conhecerá segredos. E cada forma de olhar.  Alguém que saberá no tom da sua voz que algo ameaça a ordem das coisas.

Não somos perfeitos. Acertamos no atacado e erramos no varejo. Por isso, entre as belas paisagens de nosso trajeto a dois, vez por outra escorregamos e magoamos esse certo alguém. Sem querer deixar de chegar ao objetivo conjunto – repousar lado a lado no sono eterno – , desviamos por caminhos estranhos, desaconselháveis pela censura social. O que nos resta é lembrar que nosso certo alguém é escolha nossa e, por isso, somos responsáveis por sua proteção, por sua impermeabilização dos sofrimentos do mundo. Nas falibilidades humanas, saber cair antes para poder amortecer a queda do nosso certo alguém passa a ser a arte da convivência feliz, a condiçào da permanência da escolha certa.

Meu certo alguém é uma linda mulher de 35 anos hoje. De público,  eu peço que tome as minhas eventuais cambaleadas como passadas passadas no passado. Espero e desejo, como na música, que você me dê a mão, porque é ela que me dá a firmeza mais firme. Venha ser a minha estrela, para iluminar o que nos resta de percurso a dois no caminho da existência. Com você, toda complicação é tão mais fácil de entender. Hoje é seu dia: vamos dançar? Vamos luzir a madrugada? Porque eu desejo com todas as minhas forças que você seja a inspiração para absolutamente tudo que eu viver. Pai, mãe, irmãos, filhos: não escolhemos. Mas você eu escolhi. Meu certo alguém, que cruzou o meu caminho, que me mudou a direção. Mais do que meu certo alguém: o meu alguém mais certo. A minha melhor escolha na vida. Parabéns, Bi.

Propaganda é a alma do negócio.

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Este anúncio é bem direto. Alguns anos atrás mandaria para meu primo Amaro, que enrolou a moça por uns onze anos…

Do fundo do baú de novo

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sMais um texto dos antigos. Um meio fora do meu estilo, mas é meu. Eu juro.

O DIA DA CAÇA

Aproveitou que tinha que pagar a casa no banco que ficava no shopping e resolveu passear. Entrou pela porta próximo à papelaria e, pasmo, se deu conta do quanto é amargo ao ver duas mulheres se espocando de rir, quase às lágrimas de cartões do Garfield para todas as ocasiões. Como poderiam rir daquilo? Tudo bem, vá lá que se ria de cartões engraçados, mas daquele jeito ao frouxo?! Aproximou-se para confirmar as suspeitas e confirmou: era amargo mesmo. Saiu da papelaria e olhou no relógio. Tinha que buscar a mulher na casa da mãe. Dela, lógico.

Passou em frente à Drugstore, uma drograria de importados, e percebeu uma gorda vomitando ódio e humilhação em cima da vendedora que tinha falado bruti, dissilabicamente e sem sotaque, para o desodorante Brut, que ela, a gorda, usava. Talvez o dela fosse bruti mesmo. Cheirou alguns perfumes franceses de 2a. linha (alternativos, para os politicamente corretos), imitações que traziam na caixa o nome dos imitados. Não perdeu a oportunidade de perfumar-se com as amostras até os cotovelos e saber que Eternally é o primo pobre do Eternity. Ao ver a cena, ele pensou em rir, mas lembrou que na infância usou calção Adibas para fazer educação física e mudou de idéia e de rumo.

Loja de discos. Parou e olhou o relógio: tinha que apanhar a mulher. Tinha tempo. “Pois não, posso ajudá-lo?”, perguntou a vendedora, mal sabendo que ele detestava ser cerceado em sua liberdade de olhar as coisas sem ninguém fungando em seu cangote, vendedor atrás de comissão, urubu atrás da carniça. Ignorou e disse, dispensando-a: “Só estou olhando”, frase clássica de quem detesta hienas sedentas por comissões. Percorreu as promoções, olhando CD a CD. Teco-teco-teco-truuuu. (puxa CD, puxa CD, puxa CD, empurra os CD’s de volta). Tinha uns a nove paus. Comprou três. Música clássica. Não gostava de música clássica, mas pelo menos engordara sua coleção de CD’s (o número de CD’s na coleção é um dos parâmetros do nível social entre os pequenos burgueses). Saiu, não sem antes dar uma olhadinha para vendedora com um ar triunfante de quem escolheu, pegou, pagou, enfim, fez tudo sozinho, sem ajuda.

Olhou o relógio. Tinha que recolher a esposa. Tinha tempo. Parou em frente à loja de calçados. Viu um doquissaide beleza. Viu também um vendedor vindo. Fuzilou: “Só estou olhando”. Viu o preço. Pensou no aparelho de ar-condicionado do quarto que precisava consertar e nas peças do carros para pagar. Esqueceu o doqui. Podia comprar um Le Chaval na Riachuelo, a prazo, ou um Caribu, hecho en Venezuela, nas Lojas Americanas, parcelado em dez vezes. Resolveu descer. A escada rolante estava subindo. Teve que andar até o outro lado para descer.

Parou na banca. Aproveitou que a mulher não estava ali (pois tinha que pegá-la em breve), olhou quem era a capa de Playboy, VIP, Sexy, Newsweek e Time. Tinha que disfarçar. Com elegância poliglota, lógico. Riu de revistas como Gula, para glutões, Fluir para garotões. Percebeu que uma gorda ria da Info, a revista sobre informática (seu hobby) que ele estava folheando. Era a gorda da drogaria. Sem perceberm, se vingara. Olhou o relógio. Tinha que catar a patroa. Desceu as escadas. A de descida não estava rolante. Resmungou algo e desceu. Um garotão riu e disse: “que coroa mais boko-moko, meu!”. Vingança dos garotões.

Fixou os olhos, como que encantado, num som PIONEER NSX HIGH POWER 2000 MPO WITH BBE. Na noite anterior tinha sonhado com um som assim. Tinha quase certeza que era um PIONEER NSX HIGH POWER 2000 MPO WITH BBE. Chegou tão perto do vidro que fez bafinho. Recuou. Lembrou das peças do carro. Tinha que continuar com seu CD player que, para abrir, precisa usar uma caneta para puxar a gaveta. Olhou o relógio. Tinha que pegar a esposa. Tinha tempo. Tinha que pagar a casa no banco. Fora ali para isso.

Entrou no banco, entrou na fila, entrou bem. Tinha um só caixa para uma fila de 25 pessoas fora os velhinhos e três caixas para os clientes especiais. Não se sentiu especial. Ficou deprimido. O cara da frente falou: “É um desrespeito!”, a mulher de trás (já havia gente atrás para seu consolo) disse: “Vou à gerência!”. “Isso!”, pensou, voltando-se para solidarizar-se com a mulher. Era a gorda. Passou a gostar da gorda. Começou a rolar um sentimento. Olhou o relógio. Tinha que buscar a esposa na casa da sogra com hora marcada. Já não tinha tanto tempo assim. “Próximo”, gritou a caixa, não lhe tratando nem um pouco como o próximo do preceito cristão. Pagou. Saiu. Mas antes, olhou um a um os que estavam na fila como quem dizia: “Fiquem aí que eu, o bom, já vou, galera!”. Apenas aquele momento perverso de que somos acometidos de vez em quando naquele sadismo de fila. Olhou o relógio. O tempo estava escasso. Tinha que pegar a esposa.

Ia entrar na livraria, lembrou-se do ar-condicionado. Deu meia-volta. Devia subir e pegar o carro no estacionamento. A única escada rolante que rolava agora estava descendo. Lusitanamente descendo. Resmungou algo e subiu. Olhou de novo a garota da capa, tranqüilo por saber que seu primo já tinha comprado. Ele, o primo, não perdia uma.

Olhou o relógio. Pensou em fazer um lanche. Uma coxinha e uma coca. Olhou o relógio. Pensou: “Não vai dar. Não vou deixar meu amorzinho esperando. Tenho consideração com minha general!”. Ficou orgulhoso do amor que nutria por sua cara-metade, por seu outro eu.

Caminhou para saída. Olhou o relógio. Tava quase na hora. Tinha que pegar a esposa. Abriu a porta do shopping. Entendeu, na pele, o conceito abstrato de choque térmico das aulas de química. O bafo quente de fora e frio polar de dentro brigavam numa pororoca invisível. Os óculos embaçaram. Ficou com medo que a boca entortasse, igual a do Ayrton Senna. O carro estava mais quente que o sol no verão. Suou. Ligou o ar-condicionado do carro. Mas não gelou. Estava sem gás. Tinha de escolher: ou dirigia ou dormia no friozinho. Preferiu dormir. Olhou o relógio. Estava na hora. Saiu do shopping.

Chegou na casa da sogra. Buzinou, assobiou o som característico (cada casal tem seu código assobiado). Ninguém. Surge Paula Toller, a empregada (ela nasceu na época do New Wave, daí o nome), que lhe vê e diz: “Ah, é senhor… Ela saiu agorinha, agorinha. Disse pro senhor esperar”. Lembrou da coxinha.

Esperou. Esperou. Esperou. E então, sem opção alguma, esperou ainda mais. A esposa, que ele tinha que apanhar, chegou. Abraçou-lhe o pescoço e beijou-lhe. Parou. Afastou-se. Perguntou: “De quem é esse perfume? E pra quem são esses CD’s de música clássica que eu sei que tu não gostas? Tu tens outra!!”, decretou. Partiu como uma louca para cima dele que, sem poder explicar, correu em direção ao carro. Quando estava a caminho, com a esposa, a mãe, o pequinês neurótico, todos correndo atrás e latindo, ouviu o barulho de um carro batendo em outro. “Só pode ser no meu!”, pensou para completar. Era. A motorista da Brasília 79 perdera a direção e entrara no dele. Literal e metaforicamente. Parecia machucada. Que dia! Ainda teve que socorrer a gorda.

20 de dezembro de 2003