Censura

Carmelitas digitais

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Caro amigo. É com grande tristeza que sinto informá-lo: você está sendo deletado desta rede social como meu amigo. O motivo é simples. Sou ciumenta e controladora – sei que isso não deve ser novidade para você – mas enfim, eu e meu namorado entramos em um acordo, e a fim de cumprir minha parte neste acordo estou deletando todos os meus amigos do sexo masculino apenas de minhas redes sociais, exceto parentes. Dou a você o direito de achar isto uma idiotice, uma puta falta de sacanagem, etc, imaturidade, etc. Chame do que quiser, mas saiba que espero continuar contando com sua amizade e vice-versa. Meu e-mail está sempre disponível e você poderá contar sempre comigo, menos para aquilo que você já sabe o que é – pedir dinheiro emprestado. Se quiser culpar alguém, não culpe a mim, que sou uma pessoa apaixonada e boboca, não culpe o meu namorado tampouco – culpe a Deus que te fez homem, porque se tu fosses mulher continuarias na minha lista. Kkkkkkkkkkkkk Um grande abraço. E um Feliz 2011.

Recebi essa mensagem de uma ex-aluna no Facebook e achei um barato. Ela é um exemplo prático da paranoia que as redes sociais trouxeram para o relacionamento a dois.  Merece alguns comentários.

Por que as redes sociais digitais assustam algumas pessoas no quesito pôr em risco o relacionamento? Que perigo podem representar para uma relação do mundo real? Há perigo de fato? Fiquei pensando com minhas teclas…

Somos dependentes de nosso mapa do amor. Seguindo o raciocínio estatístico, quanto mais estivermos expostos aos círculos sociais, maior a probabilidade de encontrarmos alguém que preencha os requisitos desse nosso mapa do amor, composto das características que uma vez preenchidas fazem acender a luz: pode ser amor! Assim, quanto mais convivemos com pessoas, real ou virtualmente, maior será a nossa vulnerabilidade para que isso aconteça.

Até aqui beleza: as redes sociais são mais possibilidades de conhecermos pessoas legais que talvez nos interessem. Um achado para quem é solteiro. Dá para conhecer as pessoas a fundo porque ninguém consegue não ser si mesmo por muito tempo. Mas para os casados e comprometidos, o  potencial positivo das redes passa a ser encarado como uma bomba de nêutrons para os relacionamentos: pode fazer a pessoa amada se evaporar para outras bandas. Do jeito que vem, vai. É quando há algumas possibilidades de encarar as coisas.

A primeira: as partes do casal (ou uma delas) passam a proibir, abertamente ou não, que o parceiro participe das redes sociais. Como o casal aí em cima. É o princípio “melhor não arriscar”. Na minha avaliação, é enxugar gelo. Por essa lógica, logo estarão proibidas as amizades do trabalho, da faculdade, de infância e afins. A verdadeira liberdade do amor se encontra na certeza da reescolha no livre arbítrio. Por poder escolher é que a escolha em mim faz dessa escolha uma escolha especial. Desse jeito aí de cima, retirando espaços de circulação, ambos viverão numa mosteiro feito as irmãs carmelistas descalças: isolados do mundo. It’s trying to catch the deluge in a papercup… Fail.

Uma segunda opção: entende-se que o caminho dos relacionamentos na sociedade da informação é feito pelos nós das redes sociais e que isso necessariamente não coloca em risco o relacionamento a dois. Não é bom nem ruim. É assim. Pelo menos não há mais risco do que na própria convivência nos demais círculos sociais. Ficar monitorando à distância é o que resta ao cônjuge – casado ou não – com aquele ciuminho regulatório, aquele que não faz mal e sinaliza que a gente está ligado. Vez por outra pode vazar algo para além do aceitável e uma dê-errezinha corrige tudo. Cada casal acaba definindo sua ética online do que pode ou não. Acho digno. Faz parte da construção da vida a dois. É com o tempo que percebemos que podemos querer bem as pessoas sem querê-las para si. Quando um dos dois não está online, aí o problema se dilui consideravelmente. Só sobram os olhos de Deus a olhar nossos tweets e status.

Uma terceira opção é mais radical. O casal vive as redes sociais como se realmente elas fossem uma second life. Ali, naquele universo digital, tudo que se fala e se faz não tem nada a ver com a vida real. Ou pressupõe-se que. Acompanho alguns casais assim no Twitter. Eu acho estranho. Não dá para esquecer que entre o mundo real e o mundo virtual existe o dedo no mouse como ligação. Que o suporte é digital, mas os sentimentos são analógicos e bem humanos. Para mim, essa escolha é um ato inconsciente e sintomático de egoísmo. E sem valoração aqui. Egoísmo como escolha paradigmática subjetiva. É uma escolha válida. Não é a minha, mas está valendo também.

Nas redes sociais as pessoas podem se encantar por alguém. Podem odiar alguém. Podem se apaixonar e desapaixonar. Podem conhecer o grande amor da vida ou podem chegar a conclusão de chegaram atrasadas naquela história. Quando há compromisso afetivo, são sensações reais que vão aparecer não por causa das redes sociais, mas por causa de algum vácuo no relacionamento que se dá fora delas. Porque no trabalho, na política, na guerra e no amor é assim: quando não se ocupa o lugar vem alguém e o ocupa. É uma lei da física. Da física dos afetos, inclusive.

Mas essas são só impressões minhas. Pode discordar à vontade, leitor. Há pessoas que encontram nas redes sociais o espaço para o exercício de seus outros eus. Um eu-lírico, um eu-literário, um eu-personagem. Nesses eus abrigam-se desejos inquietos, querência contidas, deslimites. E, como num romance pós-moderno, o personagem vaga de rede em rede social, cutucando, aparecendo, sumindo, brincando de esconde-esconde, numa ludicidade que faz bem à alma. A graça está aí. Ser um nó na rede não significa que se precisa ficar parado, feito um nó-cego. Assim, forçar alguém a sair da rede sem querer sair é estragar o gozo do menino na brincadeira de roda. É igual à cena d’O Meu Malvado Favorito: dá o balão para ter o prazer de estourá-lo. Não é amor: é maldade. Fail de novo.

Não busquemos atribuir nossas neuras ao suporte quando elas são dos sujeitos. Vamos resolvê-las aqui fora, numa boa conversa, com olhos nos olhos, porque o sol continua a passar pelos furos da peneira. Aliás, hoje tudo é liquido hoje e escorre pelas mãos. Quem consegue viver fechado para o mundo conectado? Nem as irmãs carmelitas descalças. Dá uma olhada no perfil do Papa no Orkut e vê lá as últimas visitas. É uma metáfora, claro. O Papa não tem Orkut. Só Facebook.

Sabe como eu respondi a mensagem da minha ex-aluna? Assim: Beleza. Feliz 2011. Até a volta. =)

A bunda da Siemens

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[Texto publicado originalmente em 05 de fevereiro de 2004. Já discutia o bloqueio de informaçõe na internet].

Muita gente me pergunta a razão de eu não publicar os escritos em algum jornal. A resposta é que, primeiro, eu nunca ofereci e, segundo, nem sei se eles aceitariam essas mal digitadas. Até que poderia ser uma boa, pelo menos em termos de alcance de leitores. Mas enquanto eu não recebo uma proposta irrecusável da Folha de São Paulo, eu publico aqui mesmo no meu site e envio os textículos – com xis! – para uma lista de amigos, parentes e alunos que, gostando, vão passando e vão passando e vão passando…

Adoro feedback. Gosto de saber o que as pessoas pensam a respeito do que escrevo. Sempre recebo mensagens muito legais, como o gentil e-mail que me foi enviado pela mãe do meu cunhado Digão, a Dona Nazaré, se dizendo minha fã. Ganhei o dia. Mas na última semana, quando escrevi sobre reuniões de condomínio, uma resposta me surpreendeu. O e-mail era da Siemens, a fábrica. Primeiro pensei que pudesse ser obra sacana do My Doom, o vírus que encheu o saco e as caixas de entrada semana passada. De repente poderia ter vindo atachado nas infinitas e pesadas  apresentações de Powerpoint enviados pela Ana Célia. Mas como diria a Néia, que trabalhou para a minha mãe: O “peor” é que não era o vírus, não. Era um e-mail automático da empresa mesmo dizendo que meu texto havia sido sumariamente deletado assim que chegou a seus servidores pelo fato de conter a palavra “bunda”.  Parece que essa é uma palavra proibida de circular na Siemens. Será que lá ninguém tem bunda? Curioso com o fato, analisei detalhadamente o e-mail e verifiquei que se tratava de um programa censor automatizado que se baseia numa série de palavras para vetar alguns e-mails recebidos pelos funcionários, no caso em tela uma aluna minha da pós-graduação que lá trabalha e que, suponho, não recebeu o texto e, por conseguinte, não viu minha bunda passar.

São duas as questões que tilintam nos meus dedos por causa desse episódio: os limites da liberdade de expressão e o controle da linguagem. As perguntas que se colocam são: até que ponto podemos selecionar previamente um conteúdo para outras pessoas, seja ele qual for? Até que ponto podemos decidir para terceiros o que é ou não desejável, bonito, ofensivo ou abominável, tirando-lhe assim o direito de conhecer para escolher ou, inclusive, para não escolher? Taí: se tem uma coisa que é abominável e ofensivo na minha opinião é a censura prévia. Não concordar com algo e fazer uso de qualquer nível de poder para forçar que outras pessoas também não concordem é uma violência simbólica ferrada. Não gosta, mermão? Então não lê, não assiste, não compra, não usa, muda de canal. Há quem goste, quem leia, quem compre, quem use e até quem grave o canal. Tem gosto para tudo. Tem gente que veste amarelo. Tem até quem seja Flamengo! O direito à escolha é uma prerrogativa do seres humanos e dos Flamenguistas  e temos vários momentos na história da humanidade em que esse direito foi cerceado, estando a própria história aí para dizer como foram ruins esses momentos e como eles não deixam nenhuma saudade.

Escolher seja lá o que for não é um ato neutro. O programador – ou alguém que manda nele – listou uma série de palavras e decidiu por todos, como se tivesse procuração geral. Decidiu que eles não deveriam ler aquilo que ele acha indecente, imoral ou inapropriado, conceitos, aliás, bastante subjetivos e definidos por formações discursivas diferentes de formas diferentes. Sei não, mas eu estou mais na turma do “Deixa eu ver para ver se quero” do que na do “Vixe! Tira isso daqui! Deusulivre, mana! Pé-de-pato, mangalô, três vezes!” Recebo todo dia um monte de mensagens sobre coisas que não importam, muitas das quais não preciso, como aquelas mensagens de enlarge your penis . Eu passo a vista e decido se me útil ou não. Nesse caso, diga-se de passagem, não é. O importante disso tudo é que eu decido e não quero ninguém decidindo por mim.

Agora pára e pensa, leitor amigo: e se o programador – ou o chefe dele, ou o chefe do chefe etc – for Testemunha de Jeová e colocar “doação de sangue” na lista negra de palavras e expressões abomináveis? Quantos potenciais doadores não deixariam de participar, digamos, de uma campanha convocada pelo e-mail? Se for do PSTU e vetar “Estados Unidos”, quantos negócios a empresa não perderia? E se o censor for o meu primo Amaro Junior, webdesigner da Suframa, que enrola a noiva há treze anos, detonando toda e qualquer ocorrência de “casamento” ou “matrimônio”, como tem feito por mais de uma década? As possibilidades são infinitas. Basta fazer um rápido exercício mental e ver como é injusto o outro decidir por nós baseado em suas crenças, valores, conceitos e preconceitos. Já pensou se uma empresa chamada World Bunda Incorporated, de Singapura, digamos, manda uma mensagem a fim de encomendar negócios milionários em aparelhos de telefones da Siemens. Sua bunda não passa da porta digital. É barrada na chegada.

A empresa tem todo direito de ter suas regras, claro. Mas controlar a linguagem é uma das crenças mais pueris do ser humano. Linguisticamente, dizemos que mais do que falar a língua, é ela que nos fala através dela. E a língua é líquida. Escorre pela mãos e acha por onde escorrer. Ninguém aprisiona o sentido, pois ele sempre escapa, ele é fluido. Pode-se, por exemplo, escrever b*u*n*d*a, em vez de bunda, para burlar o bedel digital. Ou, como diria o Didi dos Trapalhões, pode-se falar “região glútea”. Mais opções? Nádegas, popozão, anca. Enfim…

É preciso saber que se pode dizer muito através do silêncio, como faziam os jornais na época do regime militar. Censurados, eles publicavam um vazio ou uma receita de bolo na primeira página, no lugar da matéria cortada. Pode-se dizer dizendo de outra forma. As músicas duplex de Chico Buarque são obras-primas nisso. A “Bárbara” da música de Chico, mais do que um nome de mulher bonita – e estou pensando na minha prima Bárbara Cyrino, para ser sincero –  era um adjetivo para a ditadura. “Cálice” falava pela homofonia: “Pai, afasta de mim este cálice/cale-se”.

A questão de fundo é: quem pratica a política do silenciamento lingüístico fomenta o silenciamento da política, entendida como a capacidade do ser humano de tomar decisões. Hoje sabemos que o que se quer é gente no mundo e nas empresas para pensar e decidir a partir das informações que chegam – que chegam! – e não somente para executar tarefas mecânicas, como o Carlitos de Charles Chaplin em Tempos modernos. Há um grande choque de objetivo quando uma empresa decide que seu empregado não precisa decidir porque já decidiram. É um contra-senso, uma verdadeira pavulice para os tempos de hoje.

Penso sinceramente que gastar dinheiro em sistemas de censura é alocar mal os recursos que já são poucos em tempo de estagnação econômica. A propósito, a palavra bunda entrou na Língua Portuguesa através de mbunda, de um dialeto da Angola, trazida pelos escravos, segundo o honesto Houaiss. Censurar a bunda é coisa de gente bun… digo, gente nadegona. Ah, deixem minha bunda em paz. E minha aluna, coitada, que não vai ler essa de novo…