Chico Preto

De smoking ou de Smurf?

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Escrito para o site do Deputado Chico Preto.

Um artigo do IG causou um grande alvoroço e muita discussão sobre a língua portuguesa nessas últimas semanas. Para quem estava em Marte, um resumo: uma jornalista abriu um livro didático de língua portuguesa (Por uma vida melhor, de Heloísa Ramos), viu que lá dizia que “nós pega o peixe” também é língua correta e passou a dizer que tanto a autora do livro quanto o MEC, que o distribui em escolas públicas, estavam ensinando os alunos a falar errado.

Sou linguista. Ou seja, tenho formação para meter meu bedelho nessa confusão. E sou professor. Ou seja, me sinto na obrigação de esclarecer a coisa toda do ponto de vista de quem estuda a linguagem. Outros linguistas também o fizeram, como Sírio Possenti (UNICAMP) e Marcos Bagno (UNB). Assino embaixo, mas quero assinar em cima também.

Do ponto de vista técnico, o livro está correto. “Nós pega o peixe” é uma construção utilizada por muita gente na oralidade. Portanto, é língua. Língua é tudo aquilo que sai de sua boa e comunica. O livro diz – mas a matéria não diz e muitos dos que repetiram seus argumentos sem ver o livro também – que a frase está correta, porque comunica, em determinados contextos. E continua dizendo que para outros contextos é necessário o sujeito utilizar a “norma culta”. Eu prefiro usar norma “padrão” em vez de “culta” porque é menos valorativa (como se as outras formas fossem “incultas”, numa relação rasa entre variação e cultura). Veja o livro aqui.

A norma padrão é uma das variações da língua portuguesa. Extremamente importante, a padrão é a norma de investimento social. É a variedade das revistas, dos jornais, dos contratos, da regulação social. Acontece que essa variedade, diferente da oralidade (um item de fábrica do ser humano), precisa ser adquirida. E só vai ser adquirida de forma sistemática na escola.  Portanto, é função da escola ensinar a norma padrão. “Ah, então o livro está ensinando errado!”. Calma lá!

Entra aí uma questão metodológica e conceitual do que é língua. Ensinar a norma padrão pode ser feito de várias formas. Uma delas – a mais comum – é  pelo ensino da sua gramática normativa. O conceito é de que estudando a gramática se aprende a língua. É a crença em que saber o que é uma oração subordinada sindética adversativa vai fazer o aluno a falar e escrever melhor. É como decorar bula de remédio para querer ser um bom médico ou memorizar as leis para querer ser um bom advogado, forçando a barra na comparação. O objetivo não se atinge ou se atinge de forma capenga, penso eu. Um bom médico, um bom advogado e um bom falante de sua língua precisam muito mais do que saber sobre. Precisam saber articular tudo isso no uso real. É disso que o livro fala.

A autora afirma que existem variações linguísticas – e existem – e que dentre elas a norma padrão é imprescindível – e é. Afirma também, com outras palavras, que é preciso aprender a norma padrão utilizando não a decoreba da gramática, mas as outras linguagens pelas quais o aluno já circula. É de uma lógica cristalina para quem é professor: quanto mais eu uso o que o aluno já tem, melhor será a minha aula. É Paulo Freire: se o aluno não sabe tudo, ele não ignora tudo. Inclusive em termos de língua.

Mas então, por que tanta confusão?

A confusão começou com a falta de informação. Se tivesse feito o dever de casa e ouvido qualquer linguista – o que a mídia pouco fez e quando fez o fez para desconstruir a opinião –, a jornalista que fez a matéria iria perceber que sua pauta seria outra: a diversidade linguística na formação do cidadão. Assim, do jeito que saiu, a matéria acabou dando sustentação a um discurso de  que há uma língua que presta e uma que não presta, o que para a linguística é uma compreensão há muito superada. Quem concorda com essa visão e nela embarca com todos os seus pertences e de óculos Ray-ban acredita que a língua portuguesa é monoliticamente aquela descrita nas gramáticas normativas, que prescrevem normas do certo e do errado, dizendo como o sujeito deve falar em qualquer situação.

Quanto ao “preconceito linguístico” de que fala a autora, eu tenho umas notas. O livro afirma que falar “nós pega o peixe” está certo porque serve para comunicar em determinadas situações de fala e em outras não. Seu uso inadequado pode levar o falante a ser vítima de “preconceito linguístico”.

Em linguagem, nunca se julga a língua, mas sim os seus falantes. Dizer que não gosta do sotaque nordestino é reconhecer simbolicamente que os nordestinos, como povo, incomoda por algum aspecto. Não adianta refutar: é simbólico, portanto inconsciente. O mesmo vale para a situação em discussão. Como a variante do “nós pega o peixe” é utilizada por quem geralmente não teve acesso à norma padrão pela escolaridade, a utilização desse tipo de linguagem remete a uma ressalva de classe. E isso não é papo de linguista “boçal e petista”, como afirmou boçalmente um articulista n’O Globo, politizando com a política pequena uma discussão que é política em mérito. Só para informação dos afoitos, pensar sociolinguisticamente nos livros didáticos, um avanço, foi introduzido na época em que Paulo Renato dirigia o Ministério da Educação, na era FHC. Não é coisa do “Lula que quer que todo mundo fale errado como ele”, como li por aí e alhures. O preconceito é real porque se funda no já falado discurso da língua que presta e língua que não presta. É gente que presta e gente que não presta. Os diferenciados linguisticamente, para usar um termo da moda.

O embate é discursivo. Um discurso – que é o que circula mais –  diz que o português é feito exclusivamente da norma padrão e essa norma deve ser usada 24 horas por dia, sete dias por semana. Entraram defendendo esse discurso o gramático  Evanildo Bechara, o presidente da Academia Brasileira de Letras, o presidente do Senado  José Sarney e boa parte da mídia. Outro discurso, no qual eu e as ciência da linguagem nos inserimos, diz que a língua é rica, dinâmica, plural. Reconhece que a sociedade elege uma variante para ser a norma padrão e que sem ela o cidadão não circula com cidadania linguística. Sabe que o lugar para aprender isso é na escola, mas não de forma gramatiqueira ou chata, mas com todos os elementos de linguagem disponíveis para que o professor atinja seu objetivo junto ao aluno. Identidade se faz por alteridade: uma norma só é padrão porque outras que existem não são. Fica mais fácil, não?

Passando a régua: como qualquer língua natural, a língua portuguesa é feita de diversidade. Língua é roupagem, é adequação. A norma padrão é a roupa de aceitação social.  O alfaiate dessa roupa social é a escola. Mas às vezes tem festa a fantasia. E não dá para ir vestido de smoking onde só tem gente vestida de Smurf, Bob Esponja e Teletubbies. Assim como não dá, em uma festa de casamento, para chegar vestido de Super-homem ou pintado de verde, que nem o Hulk. Até dá. Mas fica ridículo. Quanto mais roupas linguísticas o sujeito tiver em seu guarda-roupa, sendo um poliglota em sua própria língua, mais efetivo ele será como cidadão. Pense aí. E fala sério: você percebeu o pronome oblíquo átono iniciando frase lá em cima no segundo parágrafo do meu texto?

Em tempo: acrescentei a entrevista do Prof. Ataliba Castilho sobre o assunto. Ele mata a pau a questão: