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Morada do Sol

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Teatro AmazonasManaus faz aniversário. Nasci aqui. Aqui cresci. Só saí daqui para estudar e morrer de saudades. Da tua gente, do teu calor, dos teus peixes, da tua murupi, do teu caos. Não, Manaus, apesar da boca banguela não te abandono como a Cidade Sorriso. Apesar do trânsito infernal, não me perco nos teus caminhos que, certamente, são os meus.

Não, minha nega, não sou daqueles que abre os olhos para apontar para ti mirando tuas cicatrizes, teu cabelo desgrenhado, tua fome de justiça. Porque esses que o fazem por proselitismo, hobby ou qualquer outra razão apontam o dedo para o lugar errado. A minha cidade tem sido vítima, mais do que algoz. A minha cidade tem sofrido desgovernos, desmandos, desabonos, desabrigo por pessoas que num desagravo desacanhadamente desacampam de suas terras, desadornam teus encantos, desacatam tua vergonha e desacorçoam tua gente. A esses, eu  desembainho despiedoso a minha espada. Que não fresquem contigo, maninha, que eu vou pra cima.

Inocente terra, minha terra. Muitos te inventam modas que não te pertencem. Travestem-ti de penas, luzes, brilho, quando tu querias o sossego da tua rede, dos teus igarapés gelados, da sombra das castanheiras que hoje rareiam em ti. Sei que crescer é inevitável. Sei que querer-te criança para sempre é ilusão. Mas que futuro te demos, moça? Que futuro te demos?…

Quero sempre ir no anseio de voltar. Ser aquecido pelo teu sol que renasce mais quente a cada manhã. Receber teu bafo quente no peito em sinal de carinho. Te reverenciar como fazem os dois gigantes das águas, que vêm se encontrar a teus pés em reverência. Quero tomar café na estrada, comer pupunha, tucumã com queijo coalho, tapioca de coco, tomar Guaraná Baré. Quero olhar sem fala teus monumentos, da época em que tu eras a debutante abastada. Teu teatro, teus palácios, tua memória, senhorinha.

Numa rede, numa quarta-feira, quero ler Aníbal Beça, Luiz Bacellar, Alcides Werk, Thiago de Mello, Milton Hatoum, Ernesto Penafort. Quero num sábado à tarde dançar ouvindo Paulinho Kokay, Raízes Cabocla, Pereira, Candinho e Inês, Eliana Printes. Quero olhar para os lados e perder a respiração vendo a arte de Moacir Andrade, Turenko Beça, Otoni Mesquita, Arnaldo Garcez, Berna Andrade.

Minha caboquinha, te agradeço por acolheres nos teus centenários anos as minhas décadas de memória, de saudade, de indignação, de felicidade, de tristezas, de alegrias, de orgulho, de decepção, de participação, de omissão por ti. E te desejo, do fundo do coração baré, maninha, o melhor dos futuros, porque no teu tempo e no teu espaço coloquei para brincar de manja, de barra-bandeira e queimada os meus bens mais preciosos: as minhas duas caboquiras, minhas filhas caboclas/capiriras, que, como o pai, chiam no “S” e gostam demais daqui. Porque, como diz o Aníbal Beça em sua bela poesia, mais do que morar em ti, tu é que moras na gente…

Faroeste caboclo

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Beavis vs Butt HeadRecebi um telefonema de uma amiga professora da Ufam. Ela  me relatou o ocorrido com o professor Gilson Monteiro, do Departamento de Comunicação. Para quem não sabe, o professor foi agredido por Amim Aziz, irmão do vice-governador do Estado, Omar Aziz. Gilson comentou em sala de aula que a imprensa de Manaus sofre influência política e citou como exemplo a cobertura insossa da mídia local no caso da CPI da pedofilia, em que circulava o nome do vice-governador.  A agressão se deu quando uma sobrinha de Omar, aluna do curso, sentindo-se ofendida, chamou o tio Amim. O tio chegou dando uma voadora em Gilson.

Vivemos em um estado democrático de direito, que pressupõe direitos e responsabilidades. Não sei o que o professor efetivamente disse, mas nada justifica o desfecho. Ao se sentir ofendida, a aluna deveria buscar os caminhos jurídicos que protegem os cidadãos. O código penal prevê os crimes de calúnia, injúria e difamação, julgados a partir de todo um processo com amplo contraditório, arrazoados e testemunhas que subsidiam a justiça em seu julgamento, absolvendo ou condenando alguém pelos crimes.

Ao optar pela lei de talião (do latim Lex Talionis, lex: lei e talis: tal, parelho), que consiste em retaliação, frequentemente expressa pela máxima “olho por olho, dente por dente”, o agressor ignorou a justiça, seus limites e se pôs, portanto, sujeito às penas jurídicas. Sem limites, a sociedade entra em colapso. Daí a necessidade de regramento. Gilson tomará suas providências jurídicas pela agressão sofrida e Omar, se quiser, tomará as suas pelo alegado crime de calúnia. Mas há desdobramentos.

O soco que Amim deu em Gilson o atingiu empiricamente, deixando-lhe um olho roxo. Mas tão grave quando a agressão empírica é a agressão simbólica. Essa não foi só em Gilson, mas na Universidade como um todo. Eu mesmo, como parte dessa Universidade, ainda sinto o pontapé no estômago. A Ufam, a meu ver, deveria ter reagido imediata e veementemente para resguardar o institucional. Hoje foi Gilson, amanhã serei eu. Imagine, leitor, se os professores da Arca de Noé resolvem me pegar no estacionamento por causa do meu “crime” de opinião? Se em uma aula de Análise de Discurso, ao criticar o discurso militar da perda de soberania ou o discurso falacioso dos rizicultores sobre a falência econômica de Roraima no imbróglio Raposa-Serra do Sol sou preso ou levo uns cascudos do arrozeiro Paulo Quartiero?

Interessante foram os comentários dos políticos estampados nos jornais e as opiniões emitidas em rádios como a Difusora e CBN. Todos condenam o professor por “estar se metendo onde não deveria”. Nenhum fala do crime que cometeu Amim ao agredir o professor dentro de uma Universidade Federal. “Professor deveria dar aula e não formar opinião”, diz uma deputada-professora, querendo formar opinião.  É assim que funciona: o poder político determina os limites do dizer e para que lado pendem as opiniões daqueles que orbitam ao seu redor. A cobertura do caso prova a tese de Gilson em sala de aula.

Fato é que esse episódio deve ser levado juridicamente às últimas consequências. A Ufam, como instituição, deve reagir. Se a moda pega, viveremos na música do Legião Urbana.

Dia das Crianças em São Sebastião

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Fui curtir um pouco o dia das crianças com a família na Praça São Sebastião. Estava movimentada e cheia de gente. Na foto, Bia e Clara e Nina e Vó Gracia. No fundo, o Palácio da Justiça. Na outra foto, o Teatro Amazonas, em foto artistística do fotógrafo que vos escreve. Ficou tão legal que estou usando como wallpaper.
Ser criança é tecer memórias para o mundo futuro. Que as minhas filhas tenham belas memórias dessas épocas de hoje.
Lembrei-me do religioso sorvete na Vila, aos domingos. Pãe e mãe colocavam os quatros (a Lu não existia) no fusca e lá íamos saborear o sorvete e a infância. O meu era sempre de côco. E o da Paula de tapioca. Doces tempos.