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Para Roma com Amor

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Gosto dos filmes de Woody Allen. Allen, como Almodóvar, é de causar reações extremadas.

Assisti a “Para Roma com Amor”. A fotografia é linda. Saímos do cinema com vontade de comprar uma passagem para ir a Roma conhecer seus espaços, monumentos e ruelas. Nisso o filme cumpre bem seu papel de cartão-postal, retribuindo assim o financiamento dos seus distribuidores na Itália.

A história se tece em torno de quatro historietas: um trabalhador que acorda um belo dia e descobre que é celebridade, um famoso arquiteto americano que, de férias, revisita a rua em que morou quando era um jovem estudante, um jovem casal do interior italiano em lua-de-mel e um agente funerário que tem talento de tenor, mas que só canta no chuveiro.

[Daqui em diante tem spoilers. Leia se não se incomodar. Senão, veja o filme primeiro].

Leopoldo faz tudo sempre igual. Acorda, toma café com a família, cumprimenta os vizinhos e vai para seu trabalho comum no escritório, onde conversa com os colegas sobre a bonitona que o chefe está pegando. A música de Chico serviria muito bem como trilha sonora para seu cotidiano. Um belo dia, ao sair de casa, centenas de paparazzi o cercam. Ele, sem entender nada, passa a ser uma celebridade. É chamado para falar de sua vida e seus hábitos, recebe tratamento VIP onde chega, pega a gostosona. O sarro aqui é com as celebridades instantâneas, que são famosas e nem sabem muito bem o porquê, passam a ser alvo de curiosidade da mídia e de todos e, num passe de mágica, deixam de existir. Até a forma como fazem a barba é motivo de transmissão ao vivo. Roberto Benigni dá um show.

Em tempos atuais, o sucesso é rápido, como os bits & bytes. Quem se lembra do Júlio de Sorocaba? Da família que cantava para a nossa alegria? A Luíza, que já voltou do Canadá? Meteoricamente, na sociedade do espetáculo, tem-se o seu tempinho de fama, que da mesma forma vertiginosa que surge vai embora, causando depressão em muita gente que não consegue gerenciar esse esmaecimento do glamour. Uma divertida e aguda crítica às celebridades instantâneas, crítica que vale também para qualquer um que passa por uma instância de poder de qualquer natureza. É Foucault na veia. A mesma pessoa, mudança de lugares. Como na segunda história.

Alec Baldwin é John, o arquiteto. De férias, resolve visitar a rua em que morou. Encontra o jovem Jack, estudante de arquitetura, que o reconhece e o convida para um café. Jack é o próprio John jovem, que revive suas inquietações trazidas pela amiga de sua namorada Sally, a intrigante e inconstante Mônica, que chega para visitar. John passa então a aconselhar Jack para que não repita seus erros. A ligação entre os dois tempos paralelos é a Melancolia de Ozymandias. Trata-se da incapacidade de apreciar a vida devido a certeza da extinção final. Para quem ainda está curioso: esse é dilema que o poeta inglês romântico Shelley apresenta no seu poema “Ozymandias”. O poema é descrição de um viajante que se depara com a estátua do antigo faraó. Na base da estátua, pode-se ler a inscrição plena de vaidade humana: “O meu nome é Ozymandias, rei dos reis: contemplem as minhas obras, poderosos, e desesperai!” Palavras vãs. Milênios depois, o rei é nada. Somos nada. Esse é só mais um ovo de Páscoa escondido com referência literária e cultural que recheiam os filmes recentes de Allen e que fazem o deleite de quem lê e de quem se interessa pela cultura em geral.

Essa é a parte de que mais gostei. Talvez pelo meu hábito de revisitar o passado com frequência e me ver conversando comigo mesmo, me aconselhando com o benefício de olhar um futuro conhecido. Há uma frase do jovem Jack ao velho John que emblemática: “você se vendeu!” Quem de nós não vendeu de certa forma seus ideais, seus sonhos e sua ousadia com a maturidade? A vontade de eternidade de valores, como na história de Leopoldo, está presente aqui de novo.

A terceira história é a do casal da cidadezinha do interior. Eles vão a Roma passar a lua-de-mel e lá tentar se estabelecer. O marido vai encontrar parentes que o apresentarão a outras pessoas. Tudo para tentar arrumar um emprego na cidade. Há um desencontro, a esposa perde o celular e se perde na cidade, uma prostituta (Penélope Cruz) vai parar no quarto do marido por engano e, por muitas razões, acaba tendo de se passar pela esposa dele. A esposa Milly, a belíssima Alessandra Mastronardi, acaba seduzida por um ator famoso e só não se entrega a ele porque um ladrão invade o quarto do hotel um pouco antes da esposa do ator chegar fazendo escândalo. Ela acaba ficando com o ladrão, um fetiche, uma história para contar adiante.

O interessante nessa história é como as coisas saem do controle se e quando o inesperado acontece. Um casal apaixonado acaba transando com outras pessoas. A aparentemente recatada Milly se mostra uma pessoa recorrentemente encantada pelo diferente que sua vida não tem. “Será que transo com o ator famoso e tenho uma história para contar para os meus netos?”, ela se pergunta no momento de dúvida no quarto. A necessidade de se perpetuar de alguma forma de novo. Lembro do poeta  Manoel de Barros: “Tem mais presença em mim aquilo que me falta”. A sociedade do espetáculo é a sociedade da falta que reclama o preenchimento momentâneo. Senão somos atacados pela Melancolia de Ozymandias.

A última história é a de um agente funerário que é tenor de chuveiro. O tenor é pai de Michelangelo, um advogado meio PSTU, que vai casar com Heyley, a filha do personagem de Woody Allen. Eles se conhecem por acaso na rua. Allen não atuava desde Scoop. Os pais da noiva vão a Roma conhecer os pais do noivo. Allen é um agente musical aposentado que reclama que vai morrer sem ter deixado um legado à humanidade. Resolve lançar o agente funerário Giancarlo, o tenor italiano Fabio Armiliato, como cantor de Ópera. Só que Giancarlo só consegue cantar no chuveiro. Então, Jerry – Woody Allen – cria óperas em que ele sempre canta dentro de um chuveiro improvisado. Muitos críticos reclamam de uma certa forçação de barra nessa história. Eu achei insólito. Ou seja: bem Woody Allen.

Mais uma vez a necessidade de se perpetuar, mesmo que para isso recorramos a situações esdrúxulas. Ao mesmo tempo em que Allen faz uma crítica à proatividade com os talentos dos outros – algo muito comum nos dias de hoje –, também satiriza aqueles que não conseguem pensar – ou cantar – fora da caixa – ou do box.

Enfim, sentido é o que se leva para um texto, um filme, uma música. Não é o que se tira de lá. Sua leitura do filme de Woody Allen, leitor, pode ser muito diferente da minha, o que não é um problema, mas uma possibilidade. Uma coisa é certa: não dá para ficar indiferente a um filme do diretor novaiorquino. Pode-se ficar com vontade de ver de novo para perceber detalhes que sempre nos escapam ou se pode sair por aí dizendo que se prefere filmes do tipo Homem-Aranha, filme a que, aliás, eu ainda não assisti.

Caro leitor, escrevi este texto para postar no meu blog. Escrevi para ver se de certa forma me eternizo, já que a internet tem memória de elefante e deve ficar aí mesmo depois que eu vá. Escrever é uma forma de driblar a Melancolia de Ozymandias, que anda perseguindo a gente no mundo das redes, em que o show do eu tem de estar em cartaz todos os dias. Os filmes de Woody Allen, a propósito, não costumam ficar muito tempo em cartaz. Corra.

Os cisnes que nos habitam

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“Quero falar de sua mania de negar o que é
e de explicar o que não é”.
Edgar Allan Poe
Duplo Assassinato na Rua Morgue

As contradições internas de nossa subjetividade e a dificuldade de se lidar com elas. É esse o tema de fundo de Cisne Negro (Black Swan). Assisti ao filme e gostei demais.

À primeira vista, a bailaria Nina Sayers (Natalie Portman, magnífica e merecedora do Oscar) é movida pelo desejo de superação. Quer se tornar a “prima ballerina” da companhia de Thomas Leroy (Vincent Cassel). Uma parede psicológica, no entanto, precisa ser superada: O Lago dos Cisnes, o balé de Tchaikovsky, que Leroy decide montar e que serve de trigger para os conflitos.

Para Nina, viver Odette, o “Cisne Branco”, não é problema. Ela é a própria metáfora do cisne branco: pura e inocente. Seu desafio é a interpretação de Odile, o “Cisne Negro”, o seu outro, a sensualidade, a  sedução. O público acompanha a desintegração de sua sanidade enquanto ela enfrenta a pressão do diretor, a projeção da mãe superprotetora  (Barbara Hershey) e a chegada de uma bailarina concorrente (Mila Kunis), em si própria um cisne negro por default.

Acompanhei o filme pensando em duas coisas: os conflitos internos que compõem a subjetividade e a relação da histórias com os conceitos de Real, Simbólico e Imaginário, do psicanalista Jacques Lacan. Vou de trás para frente.

Longe de querer simplificar e rasterizer os conceitos lacanianos, tentarei trazê-los para parâmetros de reflexão sobre o tema. Para Lacan, quando o indivíduo entra na linguagem, ele se subjetiva e se desnaturaliza. A linguagem se interpõe entre o sujeito e seus desejos, suas querências. Não dá mais para realizar o gozo dos desejos animais porque a linguagem nos ensina valores, conceitos e regras que nos limitam em nossas ações e omissões. A linguagem, que é o Simbólico,  carrega os sentidos do mundo que aprendemos, monta o nosso mapa conceitual desse mundo, muitos conceitos dos quais não temos domínio sobre. É um processo do inconsciente. Esse mapa, o conjunto de imagens, é o Imaginário. Mas para onde vão os desejos represados pelo simbólico? Vão para o inconsciente, em forma de pulsão e lá ficam malucos para sair. Saem às vezes em atos falhos e lapsos. Aquilo que o sujeito não consegue atingir, o estado bruto, é o Real.

Ok. Lacan em um parágrafo é querer demais. Mas dá para fazer o link com o tema do filme.

Todos nós, por meio da moldagem da linguagem, formamos uma personalidade visível e uma espécie de personalidade pulsional, o outro eu: o cisne negro, no caso de Nina. O branco andava livre, respaldado pela mãe superprotetora, numa naivité característica. O cisne negro de Nina vai ganhando espaço, se realizando na mudança do imaginário quanto a seu papel no mundo. O sujeito normal encontra formas de aliviar a pressão do que é recalcado, mas quando essa pressão é muita, o sujeito quebra, como Nina, que rompe com os limites do Simbólico, deslocando o Imaginário, reconfigurando-o. Ela rompe ao dar-lhe asas quando toma ecstasy e faz sexo com sua rival, quando a mata, quando se liberta da mãe. Desejos. Pulsões. Seu Real é magnificamente pictorizado no filme pela materialização do cisne negro em seu corpo, como se o aparecimento do mesmo fosse a transformação real do corpo humano no corpo do animal. Ela vai perdendo a razão – isso! a razão! – e a sua desrazão vai tomando conta, dando um 180 na parte dominante de sua personalidade. Sai Odette, entra Odile.

E nós, homens banais, que podemos pensar a partir do filme e de sua leitura lacaniana? Papo acadêmico apenas? Como analista de discurso, creio que nem todo academicismo é masturbação teórica. Eu me arrisco no que segue.

Nós, homens banais, precisamos ouvir Tchaicovsky. Metáfora. Necessitamos achar o equilíbrio entre os cisnes que nos habitam. Entre o eu permitido e o eu pulsional. Entre as contradições. Muito recalque, o sujeito implode psiquicamente. Muita alternância, eis que surge um terreno fértil para a esquizofrenia. O sujeito não pode tocar o Real puro. Tocar o Real puro é atingir a loucura. Precisamos do Simbólico a nos definir o Imaginário, que sempre está se movendo, sob o risco de alienação. É imperioso para o sujeito simbolizar o Real, dar-lhe sentido: pela arte, pela música, pela escrita, pelas tatuagens, pelas mil formas que cada um encontra para deixar vazar aquilo que é demais para lidar cara-a-cara. Somos todos, enfim, Odette e Odile.

Nietzsche dizia: “a alegria deve ser buscada não na harmonia, mas na dissonância”. Dou RT em Nietzsche. Porque nada jamais é descoberto: tudo é reencontrado, trazido à tona graças a um gatilho. Por falar nisso, o que que é aquele sinalzinho no rosto da Natalie Portman… =X

Adoro um livrinho chamado “O Real e seu Duplo”, de Clément Rosset. Já o li inúmeras vezes, cada uma de forma diferente. Diz ele: “Nada mais frágil do que a faculdade humana de admitir a realidade, de aceitar sem reservas a imperiosa prerrogativa do real. Essa faculdade falha tão frequentemente que parece razoável imaginar que ela não implica o reconhecimento de um direito imprescritível – o do real a ser percebido -, mas representa antes uma espécie de tolerância, condicional e provisória. O real geralmente só é admitido sob certas condições e apenas até um certo ponto: se ele abusa e mostra-se desagradável, a tolerância é suspensa”. Só que o controle dessa tolerância não é nosso…

Quantos cisnes e de que matizes existem dentro de você, leitor? E como eles convivem entre si? Quem subjuga quem? Até quando continuaremos com essa mania de, como diz Poe lá em cima, negar o que é e explicar o que não é?

No fundo, todos nós sabemos muito bem que só viveremos uma vez, que somos um caso único, e que jamais o acaso, por mais caprichoso que seja, poderá reunir duas vezes uma variedade tão singular de cisnes fundidos em um todo. Resumo do texto: dance o ballet da vida com suas contradições e sem medo. Duplo sentido para a palavra suas.

Vetores da existência

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“A coisa mais injusta sobre a vida é a maneira como ela termina. Eu acho que o verdadeiro ciclo da vida está todo de trás para frente. Nós deveríamos morrer primeiro, nos livrar logo disso. Daí viver num asilo até ser chutado para fora de lá por estar muito novo. Ganhar um relógio de ouro e ir trabalhar. Então você trabalha 40 anos até ficar novo o bastante para poder aproveitar sua aposentadoria. Aí você curte tudo, bebe bastante álcool, faz festas e se prepara para faculdade. Você vai paro colégio, tem várias namoradas, vira criança, não tem nenhuma responsabilidade, se torna um bebezinho de colo, volta paro útero da mãe, passa seus últimos nove meses de vida flutuando.E termina tudo com um ótimo orgasmo! Não seria perfeito?”. Foi Chaplin quem escreveu isso. No século 19, o escritor irlandês Oscar Wilde abordou o envelhecimento no romance “O Retrato de Dorian Gray”. Nele, o personagem principal, um homem extremamente vaidoso, enlouquece ao permanecer jovem, enquanto um retrato seu, escondido num armário, envelhece.

Baseado num conto do escritor F. Scott Fitzgerald, “O Curioso Caso de Benjamin Button” também aborda o envelhecimento. Benjamin (Brad Pitt) nasceu no dia em que a Primeira Guerra Mundial terminou, em 11 de novembro de 1918. Enquanto as pessoas comemoravam nas ruas de Nova Orleans, o protagonista nascia de um parto que acabou levando a vida de sua mãe. Mas Benjamin nasce com uma doença: um bebê velho, à beira da morte, que rejuvenesce na medida em que os anos avançam. Dessa forma, ele está fadado ver morrer todos que ele ama, numa trama sempre pontuada por nascimentos e mortes. Abandonado pelo pai na porta de um asilo, é acolhido por Queenie, que, considerando o bebê idoso um milagre de Deus, o acolhe como filho. A fábula é acompanhada por meio de um diário escrito por Benjamin, que, no fim de sua vida, foi parar nas mãos de Daisy (Cate Blanchett), o amor de sua vida. Ela está no leito de morte enquanto o furacão Katrina ameaça destruir Nova Orleans, o que realmente ocorreu em 2005. Enquanto sua filha Caroline lê o diário, a história se desenvolve na tela.

O filme fez-me pensar nas finitudes, nos ciclos das coisas, que nascem, crescem e morrem. Envelhecer é o caminho de todos antes da morte, a única certeza que temos na vida e que, por isso, inquieta tanto. A metáfora possível é a de que uns envelhecem e outros rejuvenescem. Há vetores que escolhemos na vida: viver na memória, com a memória ou sem memória? Não damos conta, mas essas escolhas são nossas.

Este é um filme sobre oportunidades, mesmo as que não agarramos. Elas também fazem parte de nossa história. É preciso ter força para se levantar após a queda, para se saber diferente e conviver com a diferença. A vida é amor e perda, alegria e tristeza, felicidade e dor. Vivamos o presente porque nunca sabemos o amanhã. Aprendamos a envelhecer e a viver com o que temos, sem nunca perder o brilho nos olhos. Esse é um filme para sair do cinema, lembrar dos que amamos e jurar para si mesmo: preciso viver a felicidade aqui e agora. Com o nosso termpo marcado, é desperdício viver a vida alheia. Não adianta fazer um relógio magnífico que gire para trás, como faz relojoeiro cego que o instalou na estação de trem da cidade, para que quem o visse pudesse imaginar que seus filhos não tinham morrido na guerra, mas estavam retrocedendo da trincheira para a vida que poderia ter acontecido. Por mais que se dance, como Daisy, envelhecer é exato, preciso. Ainda que viver não o seja, como diz Fernando Pessoa.

Assisti a "Vicky Cristina Barcelona"

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Gosto muito de Woody Allen. Acabei de chegar do cinema. O filmo é ótimo. Em vez de resenhá-lo, transcrevo texto de Contardo Calligaris, embaixo do qual assino.

VICKY CRISTINA BARCELONA

Contardo Calligaris



O amor-paixão é uma tentação irresistível, é o protótipo da vida intensamente vivida


“VICKY Cristina Barcelona”, de Woody Allen, estreou no Brasil na semana passada. Com muita leveza e muito bom humor, o filme me levou a pensar nos percalços da vida amorosa.
A história do verão em Barcelona de Vicky e Cristina é um pequeno tratado do amor-paixão: os espectadores terão o prazer (ou desprazer) de se reconhecer em algum lugar do leque de experiências amorosas que o filme apresenta -é um leque pequeno, mas do qual escapamos pouco. Sem resumir, eis umas notas:

1) Os casais que se amam de paixão, cujos parceiros parecem ser feitos um para o outro, em regra, acabam tentando se matar -com faca, revólver ou qualquer outro instrumento (cf. Juan Antonio e Maria Emilia). É porque, se o outro me completa e vice-versa, o risco é que nenhum de nós sobreviva à nossa união -ao menos, não como ente separado e distinto. Mas, por mais que seja ameaçadora, a paixão amorosa é uma tentação irresistível (cf. Cristina, Vicky, Judy) por uma razão simples: nas narrativas de nossa cultura, ela é o protótipo ideal da experiência plena, da vida intensamente vivida.

2) Por sorte ou não, o amor-paixão é raro. A maioria de nós vive relações menos “interessantes” e menos fatais -relações em que a gente se preocupa em criar os filhos, decorar a casa, ganhar um dinheiro ou jogar golfe (cf. Vicky e Doug, Judy e Mark). Não seria tão mal, salvo pelo detalhe seguinte: em geral, nesses casais “normais”, ao menos um dos parceiros vive com a sensação de que sua escolha amorosa é resignada, fruto de um comodismo medroso: “O outro não é bem o que eu queria; culpa minha, que não tive a coragem de me arriscar a amar…”

Detalhe: como o amor-paixão é um ideal cultural, não é preciso ter atravessado a experiência da paixão para idealizá-la (as más línguas diriam, aliás, que é mais fácil idealizá-la sem tê-la vivido em momento algum).

3) Os que parecem não idealizar o amor-paixão passam o tempo se protegendo contra ele. Deve ser por isto que a “normalidade” amorosa pode ser insuportavelmente chata: porque ela exige a construção esforçada de defesas contra a paixão -argumentos morais e sociais, sempre mais “razoáveis” do que racionais (cf. Mark, Doug). Num casal, quem critica a doidice da paixão não parece sábio aos olhos de sua parceira ou de seu parceiro; ao contrário, ele parece, quase sempre, pequeno e um pouco covarde (cf. Vicky e Doug, Judy e Mark).

4) A paixão não é uma coisa que a gente possa encontrar saindo pelo mundo como um turista da vida (cf. Cristina). Pois não basta esbarrar na paixão; ainda é preciso encará-la quando ela se apresenta.

Pode ser que, um dia, se ela conseguir matar Juan Antonio com um tiro certeiro, Maria Emilia seja internada ou presa. Pode ser que Juan Antonio seja um sujeito amoral e, por isso, perigoso. Pode ser que Vicky seja desesperadamente normal, trocando a chance de amar por uma casa num subúrbio norte-americano (estou sendo injusto com Vicky: na verdade ela tenta…).
Mas, para mim, a mais “patológica” de todas as personagens do filme é Cristina. Sua aparente abertura para a vida (“Ela não sabia o que queria, mas sabia o que não queria”, narra a voz em off) é apenas uma versão “bonita” e literária de sua “insatisfação crônica” (diagnosticada por Maria Emília, com razão). Nisso, Cristina é muito próxima da gente: ela quer e consegue brincar com a paixão, mas sem perder a ilusão da liberdade ou o sonho do que ela poderia encontrar na próxima esquina.

Por isso, sua voracidade é a do turista: tira muitas fotos pelo mundo afora, mas será que ela se deixa tocar pela vida?

5) Disse que “Vicky Cristina Barcelona” trata dos percalços da vida amorosa com leveza e bom humor; de fato, saí do cinema sorrindo, e não era o único. Mas a amiga que me acompanhava comentou: “Adorei, mas é um filme triste”. “Como assim?”, estranhei. Ela respondeu, com razão: “É um filme triste porque os personagens se apaixonam, vivem sentimentos fortes, mas, no fim, tudo isso não transforma ninguém. Vicky e Cristina vão embora iguais ao que elas eram no começo, sobretudo Cristina…”.

Minha amiga tinha razão. O amor e a paixão não nos fazem necessariamente felizes, mas são uma festa e uma alegria porque deles podemos esperar ao menos isto: que eles nos tornem um pouco outros, que eles nos mudem. Agora, nem sempre funciona…