Clara

Cinco anos: mochilinha de porquês

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Vem, Ana, vem/Mochilinha de porquês/Que eu não sei responder/Vem, tanta gente vem/Mochilinha de porquês/Que eu não sei responder/se eu tivesse a língua doce/Te cobria de poesia/Ai, eu ressuscitaria/Aquele sol que nos queimou um dia.

“Ana Clara, o papai vai comprar remédio pros olhinhos da Nina. Quer ir comigo?” “ÊBA! QUERO!”. No carro, a caminho, do nada: “Pai, quem criou o ladrão?” “Filha, às vezes as pessoas não têm trabalho e precisam trazer comida pros filhos. Não é certo, mas aí ele pega as coisas dos outros. E o que não é nosso, a gente não pode pegar, né?”  “Só se emprestar, né? E por que ele não tem trabalho, pai?” “Porque ele não estudou.” “…porque não tinha escola? Por isso, pai?”. “Às vezes é por isso. Às vezes é porque não deu pra estudar ou não quis”. “E por que alguém não quer estudar? Estudar não é importante, pai?” “Muito importante. Mas algumas pessoas não entendem que é importante. E aí faz falta depois.” “Como não entendem, pai? Eu tenho quatro anos e entendo.” “Pois é, Clara. Mas é porque o papai e a mamãe da pessoa não conseguiriam mostrar para ele que é importante.” “Quer dizer que tem ladrão por causa do pai e da mãe do ladrão, pai?” [Pausa.] “Mas não é culpa deles, filha”. “De quem é a culpa, pai?”. “Da desigualdade social, filha”. [Não fui didático…] “O que é desigualdade social?” “Na sociedade, uns têm muito dinheiro, mas outros não têm nada”. “Nós temos muito ou nada, pai?”. “Nem muito, nem nada. Nós somos classe média. Classe média é quem está no meio”. “Mas por que uns tem muito e outros não tem nada? Quem escolhe, pai? Tem muito quem estuda mais? Mas você não estudou muito, pai? Porque que a gente não tem muito?” [Pensei nas minhas escolhas…] “Estudar é importante não só para ter dinheiro. Para isso também, mas não é só para isso.” “Mas quem escolhe quem vai ter mais e quem vai ter menos? O Deus?”. “Não, filha. Todo mundo é filho de Deus. Ele ama todo mundo igual. Foi ele criou tudo.” “Até o ladrão?” “Até o ladrão. O ladrão também é filho de Deus e Deus ama o ladrão também”. “E ele ama até o pai e a mãe do ladrão que não ensinaram que a escola é importante?” “Até eles.” “E quem criou o Deus, pai?” [Pausa grande. Essa foi profunda.] “Hein, pai?”. “Filha, você é muito pequena… um dia você vai entender…”  “Explica agora, pai!” “Tá. Ninguém criou Deus. Deus existe desde sempre.” “Ele não morre, pai?” “Não, ele não morre. Só o  homem que morre”. “E a mulher não, pai?” “O homem e a mulher. A vida é assim: a gente nasce, cresce, casa, tem filhinhos e quando está bem velhinho morre”. “E a Giulia, pai. Lembra? A gente rezou por ela. Por que ela morreu, pai? Ela não estava bem velhinha…” “Pois é, mas ela estava dodói.” “Por que as pessoas ficam dodóis, pai?” “Acontece, filha. Ninguém quer ficar doente, mas a sua irmã, por exemplo. Os olhinhos dela não estão dodói, com conjuntivite?” “Mas eu não quero que a Nina morra!” “Não, ela não vai morrer, não, filha. Fica tranquila! Tem doença mais fácil e tem doença mais difícil de curar”. “E quem decide qual doença a gente vai ter, pai?” “Ninguém decide,  filha, acontece”. “E quando a gente morre? Pra onde a gente vai, pai?” “Antes de você nascer, você era um anjinho que morava com Deus no céu. Quando a gente morrer, a gente vira anjinho de novo e volta pra lá.” “E depois?” “A gente fica lá.” “Pra sempre, pai?!” “Tem gente que acredita que é pra sempre. Tem gente que acredita que a gente volta de novo. Um outro bebezinho”. “Em outra família, pai?” “É.” “Eu não quero morrer, nem voltar em outra família!” “Filha, você tem quatro anos. Amanhã vai fazer cinco. Você não vai morrer agora. Ainda vai demorar muito, muito, muito tempo”. “Você tem quantos anos, pai?” [Medo da relação…] “Papai tem 42”. “Você já vai morrer?” “Filha, ninguém vai morrer. Estamos chegando na drograria. Eu vou comprar o remédio da Nina e você escolhe o sorvete, combinado?” “Combinado!”.

“Pai, o moço fechou a porta e trancou a gente dentro”. “Calma, é porque a drogaria vai fechar. Vamos pagar. Escolheu o sorvete?” “Escolhi, esse picolé da vaquinha. Um pra mim e um pra Nina. Mamãe prefere Cornetto, pai”. “Vamos pro carro.” “Pai, e quem não tem dinheiro pra comprar remédio?” “Clara, quem não tem dinheiro para remédio tem de ir ao Posto de Saúde”. “Tem todos os remédios lá, pai?” “Às vezes tem e às vezes não”. “E quando não tem, como é que faz, pai?” “Aí é complicado. Às vezes o pai ou a mãe pede dinheiro pras pessoas.” “Ou vira ladrão, pai?” “Ou vira ladrão. Mas não é assim também, filha.” “Como é, pai? Se você não tivesse dinheiro pra comprar o remédio da Nina, você ia ser ladrão, pai?” “Não, filha. O papai estudou e trabalha. Por isso o papai tem dinheiro pra comprar o remédio”. “Mas se não tivesse estudado, pai? Só se não tivesse estudado?” “Clara, você está muito perguntadora hoje, minha filha…” “Pai, a tia da escola disse que homem com homem dá lobisomem e mulher com mulher dá jacaré. Como assim, pai, jacaré? [Preciso conversar com a tia da escola sobre ecologia contemporânea]. “Quando ela disse isso, Clara?” “Ela estava conversando com a outra tia e eu ouvi”. “Você prefere mais esse do chocolate da vaquinha ou aquele quadradinho da caixinha azul que o papai sempre compra?” “Chicabonzinho? Não, eu prefiro o da vaquinha. É mais gostoso”. [Esqueceu]. “Chegamos, filha! Vamos subir!” “Olha, pai! O céu tá cheio de estrelas! Quem criou o céu, pai?” “Foi Deus, filha. Lindo, né?” “É. E grande. Pai, eu te amo do tamanho do céu”. [Meu coração se encheu de ternura com a declaração, apagando tudo de pesado de uma semana complicada.] “Eu também, filha. Eu também…”. “Deixa que eu aperto o botão do elevador, pai.” Minha menina faz cinco anos no dia 12 de junho. E já alcança o botão do elevador…

Catando conchas

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Em 1977, meu pai nos levou, meu irmão mais velho e eu, para férias no Rio de Janeiro. Eram tempos bicudos. Ficamos em casa de parentes para economizar. Eu tinha nove anos quando vi o mar pela primeira vez. Eu, um ser dos rios, nunca esqueci a primeira vez que meus olhos me viram no reflexo das ondas. Senti vontade de pedir para meu pai e para meu irmão para me ajudar a olhar aquele mar, de tão grande.

Minha diversão naquelas férias foi recolher conchas do mar. No primeiro dia, recolhi conchas dos mais variados tipos, cores e tamanhos. Lindas. Eram as conchas a materialização do meu primeiro contato com o mar, as lembranças vivas de que eu estivera ali. Enchi um saco plástico enorme com elas.

À noite, um fedor fenomenal tomava conta da casa da Tia Ernestina, nossa anfitriã.  Consternado, tive de jogar fora minha primeira coleta de conchas selecionadas. Foi quando aprendi que quando se retira algo do mar, como as conchas, devemos lavar com água doce. Jamais esqueci. Colecionei conchas naquele verão. Devidamente lavadas e processadas. E elas vieram comigo para Manaus e fizeram o maior sucesso com meus colegas da 4a série da Professora Polari.

Hoje, minha filha Clara foi para praia com um propósito: recolher conchas. O tempo voltou num túnel de lembranças para aquele Rio de 1977. Fui com ela da areia da barraca à areia da praia, onde as ondas lambiam o chão, trazendo e levando conchas, num jogo de manja-pega pensado por Deus para divertir pais e filhos. No caminho para o mar, lembrei-me da criança de nove anos. Molhei o rosto para misturar às lagrimas a água do mar, ambas salgadas. Recolhemos, Clara e eu, conchas dos mais variados tipos, cores e tamanhos. Lindas. A cada concha um sorriso de uma conquista e uma exclamação: “- Olha, pai! Que linda essa!”

Brincamos no mar por um bom tempo. Tanto Clara quanto Marina perdendo o medo de se soltar e enfrentar sozinhas o vai e vem das águas do Guarujá. Entre um caldo e outro, um choro, depois sorriso, entremeados. Clara não dava o braço a torcer: “- Tranquilo, pai! É só água!”, dizia passando a mão no rosto. Marina, tão mais atirada na vida, respeitou o mar com mais reverência. “- Só vou se você for comigo!” A vida requer estilos diferentes para momentos diferentes. Achei digno.

O que isso tudo significa na metáfora da vida?

Minhas filhas vão explorar terrenos novos, vão levar caldos e cair, beber água, tossir e levantar. Vão seguir em frente, tentando não sentir a queda. Por um bom tempo – queira Deus que um bem longo -, eu estarei lá para lhes segurar as mãozinhas confiante no pai. Mas vai chegar um dia em que elas vão ter de pisar no mar da vida sozinhas, sem mãos para lhes dar apoio e suporte. Vai chegar um tempo em que minhas meninas vão tomar seus rumos e decidir se vão querer ficar na areia ou ir embora para o oceano vasto do mundo. Vai chegar um dia em que elas catarão conchinhas em areias que seu pai sequer sonhou em pisar.

É o ciclo da vida. É assim. Mas não deixa de me angustiar. Todo pai e toda mãe queria, se pudesse, carregar seus filhos no colo para sempre. Mente vergonhosamente quem diz que não. De vez em quando, se me conheço, tomarei minhas filhas pela mão e lhes convidarei a buscar conchas num passeio a dois. Mesmo quando forem grandes e tiverem suas famílias. Será o nosso tempo de reviver nossos encontros do hoje presente. E, tenho certeza, acharemos conchas dos mais variados tipos, cores e tamanhos. Lindas. E as lavaremos com água doce para lhes tirar o excesso de sal. Não é assim que devemos fazer com a vida?

Hoje Clara aprendeu que é preciso que a gente faça a nossa parte para as coisas saírem como planejadas. Ela já separou as conchas para levar. Farão um sucesso incrível com a turma do 3o Período. E lá na frente, quando ela estiver catando conchas com seus filhos, o vento soprará a nossa viagem ao Guarujá em sua memória. E ela, junto com os filhos, achará conchas dos mais variados tipos, cores e tamanhos. Lindas. E lembrará a eles que é preciso lavá-las para levá-las. Mas que, acima de tudo, é preciso catar conchas com os filhos.

Ao que vai chegar

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[Escrevi este texto no dia em que soube que iria ser pai. Havia publicado no site antigo. Republico agora aqui.]

Voa, coração
a minha força te conduz
que o sol de um novo amor em breve vai brilhar
Vara a escuridão, vai onde a noite esconde a luz
Clareia seu caminho e acende seu olhar
Vai onde a aurora mora e acorda um lindo dia
colhe a mais bela flor que alguém já viu nascer
e não se esqueça de trazer força e magia,
o sonho e a fantasia, e a alegria de viver
Voa, coração
que ele não deve demorar
e tanta coisa a mais quero lhe oferecer
O brilho da paixão, pede a uma estrela pra emprestar
e traga junto a fé num novo amanhecer
Convida as luas cheia, minguante e crescente
e de onde se planta a paz,
da paz quero a raiz
E uma casinha lá onde mora o sol poente
pra finalmente a gente simplesmente ser feliz

Toquinho

Hoje, com a lua cheia belíssima, cantei a música do Toquinho de uma forma diferente. Busquei dentre os cds da estante o que contém a música e o pus para tocar. Ouvi com calma, prestando atenção em sua letra, em cada uma de suas frases, em cada uma de suas palavras. É impressionante. Como linguista, tenho como verdade científica o fato de que as palavras adquirem seu peso no contexto de uso. Mas nunca essa verdade esteve tão clara para mim como hoje. Vejamos, pois, como a letra da música do grande Toquinho se estende na minha compreensão redesenhada.

“Voa, coração. A minha força te conduz. Que o sol de um novo amor em breve vai brilhar”. Meu coração está leve. Como um passarinho que salta do ninho na certeza de que pela primeira vez suas asas vão levá-lo ao longe, a lugares nunca idos, às experiências nunca vividas. Um primeiro vôo. Minha alegria e meu sorriso insistentes e indisfarçáveis são a minha força. A força que conduz meus pensamentos, meus movimentos, meus dedos quando escrevo este texto. De repente, à tarde, um beija-flor anuncia a chegada da luz do sol de um novo amor. Amor que não conheço, mas que já me treme as carnes; luz que ainda não vi brilhar, mas que já me incandesce os olhos. Em breve, esse sol vai iluminar as vidas de onde surgiu, numa supernova de amor explodindo e expandindo suas partes pelo universo da vida. Aguardo o dia desse raiar como nunca esperei por nada nessa vida. Nada.

“Vara a escuridão, vai onde a noite esconde a luz. Clareia seu caminho e acende seu olhar”. A tua luz vai rasgando a escuridão como as naus portuguesas rasgaram os mares desconhecidos no século XVI. Ela abrirá caminhos nos breus do dia-a-dia e nos mostrará onde se escondem as alegrias que te esperavam para que pudessem vir à tona, ter sentido, vir ao mundo. Tua incandescência faz da noite luz, com teu brilho próprio. Somente o aviso de tua vinda fez os ares mais leves, limpando as brumas das pequenezas das vidas humanas, mostrando que há céu azul em dias nublados. Vem e clareia com teus mil sóis o caminho que hás de percorrer, primeiro segurando minha mão pelos passos cambaleantes teus, depois com as mãos livres para percorrer tua estrada individual e, por fim, segurando minha mão pelos passos cambaleantes meus, com o corpo velho e cansado, que rejuvenesce ao ver o brilho dos teus olhos, a minha fonte de juventude, refletindo para mim o mesmo brilho ofuscantes dos meus olhos quando soube de ti.

“Vai onde a aurora mora e acorda um lindo dia. Colhe a mais bela flor que alguém já viu nascer”. Vai onde as rosas são feitas, os perfumes pensados, as estrelas recortadas antes de serem cuidadosamente penduradas no céu infinito, como infinita também é a felicidade que me inunda. Acorda um lindo dia, desenha a mais bela paisagem com o mais belo sorriso, que é  o teu. Colhe a mais bela flor. Colhe-te. Decreta como tua e finca bandeira na nascente do meu rio para tu te banhares na água de afeto da fonte mais pura e cristalina que há em mim e que eu, antes de ti, nem pensara que existisse. Traz, junto com a mais bela flor, o mais belo olhar, a mais macia mão, os mais pequenos pés, me fazendo transgredir a gramática para tentar dizer o que quero na certeza de que ainda não inventaram em nenhuma língua palavras para te descrever.

“E não se esqueça de trazer força e magia, o sonho e a fantasia, e a alegria de viver”. Venha com força para viver nesse mundo que me assusta porque sei que não vou estar 24 horas ao teu lado, ainda que até para depois de minha morte eu te sempre leve na alma, sem trégua, numa certeza de amor que Deus me dá de presente, de Pai para filho. De pai para filho. Traga magia. A mágica de nos fazer mudar rumos, planos e prioridades sem dor, com prazer, com orgulho. A magia de roubar minha mulher e fazer com que eu ainda te ame mais por isso. A magia de sorrir para mim como quem diz: “Estou aqui. Para onde vamos?”, com a mais absoluta e cega confiança na entrega contida nessa pergunta. Vamos aos mais belos pastos, à mais bucólica paisagem, à cumplicidade sem fim. Nós vamos ao sol, ao rio, à piscina. Vamos ao parque, comer pipoca, tomar sorvete de taberebá. Vamos comer algodão doce e pão com tucumã, ainda que deles eu não goste. Comerei só para ficar mais pertinho de ti. Vamos dar banho no cachorro. Vem e traga, meu sonho, o sonho de uma vida, minha vida. O sonho de ver tuas duas mãos pequenas – que nem mesmo a chuva tem, como diz Zeca Baleiro. O desejo de ver teus olhos graúdos como os da mulher que eu amo e que não por acaso te ama mais do que a mim, como eu amo a ti mais do que a ela e tu a nós como nós a ti mais do que tudo. Jogo de pronomes que confunde, mas que carrega a certeza do amor entre nós três. Traga com a tua chegada a fantasia porque teu anúncio já nos trouxe a alegria de viver. Alegria que me faz agora chorar um choro que nunca chorei, em mais uma das tuas novidades que vais me mostrar. Pauso. Choro mesmo. Soluço. Porque não te conheço, mas já te amo mais que tudo. Mais que tudo, como me disseram os que já choraram como eu e me confirmaram que isso é melhor do que tudo.

“Voa, coração, que ele não deve demorar e tanta coisa a mais quero lhe oferecer”. Ai, meu coração leve das dores do mundo! Voa! Logo, logo tu vais chegar e a ansiedade de tua chegada já adoça minha boca, acalma minha alma, apaga minhas dores, apequena problemas,ressignifica meus sentidos. Eu quero te oferecer o meu amor, a minha vida, o meu tempo, o meu sorriso, a minha comida, o meu carinho. Quero ser a madeira a crepitar no fogo para te aquecer no tiritar do frio e ser a infinita água da cachoeira a te refrescar do calor dessa terra, dessa Terra. Quero te oferecer o que tenho de bom em mim e quero humildemente reconhecer o que de mau me habita para te mostrar o que deves evitar ser. Seja bom de verdade, como teu avô. Ame de verdade e brigue pelos teus, como a tua vó. Viva leve, musical e poeticamente, como o teu primeiro tio. Viva focado sem perder a ternura jamais, como teu segundo tio. Seja determinado, como sua primeira tia. Seja doce, como tua segunda tia. E seja, na mistura do que quero pra ti, tu próprio. Quero ouvir teus porquês sem fim. Respondê-los a todos sem cansar e, nas tuas perguntas, aprenderei mais o mundo.

“O brilho da paixão, pede a uma estrela pra emprestar. E traga junto a fé num novo amanhecer”. Faça as coisas com paixão, sem ela as coisas não passarão de coisas. Com ela, as coisas saem do seu casulo coisificante e viram vida, borboletas de asas azuis que pousam nos acontecimentos dando a eles significados únicos e eternos, singularizando fatos, trazendo o brilho que, na vida, não deve ser uma meta, mas uma doce conseqüência do viver com dignidade. Tenha fé. Em Deus e nos homens. Se há homens maus, pequenos, famintos de alma, há também homens bons, grandes e que compartilham o banquete da vida. Seja um desses. Ande com fé que a fé, já dizia um ministro da música, não costuma faiá. Aposte na humanidade do homem, na solidariedade, na honestidade, na justiça, no olhar sincero, no sorriso franco, no tratar bem. Busque não ferir, não magoar, não machucar. Mas defenda-se com grandeza, sem tripudiar dos adversários vencidos nas batalhas da vida. E nas prováveis derrotas em outras batalhas, erga-se, olhe para o Sol e siga em frente, tirando lições.

“Convida as luas cheia, minguante e crescente. E de onde se planta a paz, da paz quero a raiz”. Na lua nova te soube. Quero-te nas demais até que as luas se cessem para mim. Quero-te ao meu lado, segurando a minha mão quando meu corpo já não mais quiser respirar; quando meu coração, de tanto te amar, pedir para repousar e a vida me quiser levar pelo tanto que me deu; quero-te ao meu lado, junto dela, quando teus dedos fecharem os meus olhos dos teus… Quero para ti a paz. Mas não quero te dá-la (porque não posso). Quero te ensinar a conhecê-la e reconhecê-la. A tê-la como principio e meta. A tê-la como aliada. A fazê-la. Seja alguém que traz a paz na alma, branquinha como a doce tez daquela que te dará à luz.

Quero a paz. E com ela “uma casinha lá onde mora o sol poente pra finalmente a gente simplesmente ser feliz”. Eu, você, a doce ela. Nossa casa. Nosso canto. Nossa cama. Nossa vida. Nossa história. História que começou com um telefonema ousado e um convite para uma fisioterapia de emergência em minha alma. Mãos mágicas curaram-na. E te me deram. Para viver. Para materializar um amor. Para simplesmente a gente ser feliz, meu filho.

Eu vou ser pai, meus amigos.

17 de outubro de 2005

Ana Clara

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Amanhã, Ana Clara faz 4 anos. Antes de nascer, fiz esse soneto para ela:

Constatação

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Ontem, olhando para minha filha mais velha, Clara, vi a menina rosa de Renoir, em “As Meninas Cahen d’Anvers”.

Esse post é só pra dizer que nenhum problema do mundo, nenhum mesmo, é tão grande quando eu olho e vejo que tenho uma família feliz. Fica tudo miudinho.

A descoberta do mundo

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De repente bateu um desespero manso. Como quase todos os dias, levantei com o dia raiando para fazer as mamadeiras das minhas duas filhas. Ana Clara, três anos, sete porções de leite para uma de Sustagen Baunilha em 210 ml de água. Marina, dois anos, cinco de leite para uma de Sustagen Chocolate em 150 ml.

Uma gosta de baunilha, a outra prefere chocolate. A primeira é na dela, vem quando quer. Gênio forte que às vezes irrita. A mais nova é na dos outros, abraça de graça, de bem com o mundo. Clara adora flores, tem espírito de Cirque du Soleil, vive pulando, dando cambalhotas, se pendurando nas minhas costas. Marina gosta de chocolate – qualquer um a qualquer momento – e é uma Forrest Gump, sempre com uma história para contar. Ambas com uma sacação acima da média. E uma beleza de fazer o sol sorrir e a lua corar.

Podem dizer que falo isso porque quem tem filho feio é coruja. Desculpem, mas não sou eu quem diz. Só reproduzo o que dizem, com um orgulho danado de ter feito, em co-autoria, dois belos exemplares da espécie humana. Belas por dentro e por fora minhas meninas.

Mas como disse no começo do texto: de repente bateu um desespero manso. Depois de colocar as mamadeiras em suas mãos e de elas as pegarem automaticamente durante o sono, tentei voltar para dormir, mas não consegui. Porque comecei a pensar sobre a celeridade do mundo.

Minhas filhas nasceram um dia desses e já estão andando, falando, escolhendo o sabor do Sustagen. Minhas filhas já têm personalidades, opiniões, desejos, preferências, medos, projetos. Minhas filhas, nessa infância linda, já contra-argumentam, já discutem, já me deixam sem resposta.

Quando foi que isso aconteceu? Quando foi que elas deixaram de ser aqueles dois serezinhos que eu fazia ninar com as mesmas músicas que a minha mãe me fazia dormir, há quarenta anos? Quando é que minhas bonecas deixaram de depender dos meus braços para ir e vir? Quando é que deixaram de usar fraldas e passaram a ir sozinhas ao banheiro e a pedir o “papel-higiene”?

Meu desespero manso é por me dar conta de que eu estou perdendo os detalhes de suas vidas. Sei que é exagero, que ninguém pode ficar 24 horas por dia do lado de alguém. Nem saudável isso é. Filhos precisam de espaço para andar e ampliar seus limites, para escorregar, cair e levantar. A vida é assim. Mas amor de pai foge à racionalidade e me deu desespero por não acompanhar cada palavra proferida, por não ler cada olhar, por não filmar cada movimento, por não estar presente em cada descoberta do mundo.

Ser pai ou mãe é desesperador, se você pensar um pouco. Quando temos filhos, ficamos vulneráveis para sempre. Não podemos, como gostaríamos, resolver todas as dores, tristezas, dúvidas e angústias de nossos filhos. No mais das vezes, não podemos consertar suas notas fora de tom no concerto de suas vidas. Como pais, fazemos o melhor que podemos, mas o melhor não é o suficiente na cabeça de um pai ou uma mãe que ama. Sempre estamos aquém. Sempre há a sensação de estar deixando algo incompleto. Porque é isso mesmo: há uma incompletude no papel de pai ou mãe. Continuo achando que o único defeito de Deus é não deixar que possamos transferir os sofrimentos de filhos para nós, pais.

Mas é no espaço aonde não chegam os pais que os filhos surgem. E surgem nas suas especificidades, moldando suas personalidades, abrindo as porteiras do seu mundo por conta própria. Sei que meu desespero é injustificável porque é mais instintivo do que pedagógico. Elas estão crescendo, estão na escola. Daqui a pouco conhecem o amor com suas cores, sabores e dores. Daqui a pouco escolhem uma profissão. Daqui a pouco casam e nos dão netos, os filhos com açúcar, como diz minha mãe. E vou – de novo – confiar em minha mãe, apesar de desconfiar de que não há nada mais doce do que filhos. Quando ela disse que não havia amor maior do que de pai para filho, eu desconfiei. Até ter filhos. Tenho dito aqui e acolá que é o amor que sentimos por filhos é um amor tão grande e tão diferente que deveria ter um substantivo específico para se referir a ele. Amor com adjetivos não serve para filhos.

E um dia eu vou embora. E a mãe vai embora. E elas vão ficar. Meu Deus! Desespero de novo! Quem vai lhes dar colo quando precisarem? A quem elas virão perguntar tudo, como fazem hoje, considerando esse pai babão o mais sábio dos oráculos? Não! Não quero ir. Mas sei que vou. É o ciclo. Contudo, vou, de onde estiver, como uma estrela, ficar brilhando a iluminar os caminhos de cada uma das minhas meninas aqui embaixo. Zelando pelos seus caminhos. Soprando nos seus ouvidos em suas dúvidas. Falando-lhes por sonhos. Beijando-lhes as faces a cada adormecer.

Escrevo chorando. Lágrimas caem comportadas e salgadas em direção aos meus lábios. Lábios que ainda vão beijar muito os pescoços de minhas filhas. Lábios que vão lhes contar alguns truques para não sofrer tanto nesse mundo feito para adultos e não para crianças. Lábios que não cansam de perguntar “sabia que eu te amo?”

Hoje vou passar o dia inteiro colado nas minhas filhas. Registrar cada sorriso, responder a cada pergunta olhando em seus olhos. Sentar no chão para desenhar com o lápis de cor suas ideias, suas flores, seus coelhos, suas histórias. Hoje vou dar comidinha na boca de cada uma delas, aeroportos lindos para colheres-aviãozinhos. Hoje vou desligar o DVD e contar histórias, cantar-lhes “Alecrim dourado” até que caiam no sono. Não há cena que pinte a serenidade como a de filhos dormindo.

Preciso cuidar desse meu desespero. Preciso cheirar mais minhas filhas. Enquanto eu posso. Sempre que puder. Preciso cuidar do meu desespero porque preciso de calma para não errar: para a Ana Clara, sete de leite para uma de Sustagen Baunilha em 210 ml de água. Para a Marina, cinco de leite para uma de Sustagen Chocolate em 150 ml. E desde ontem a Marina só quer a mamadeira da Moranguinho e a Clara a dos bichinhos do fundo do mar. Estão crescendo, minhas meninas. Elas serão sempre “as meninas”. Porque não importa a idade, estamos sempre descobrindo o mundo.  Não é, mãe? Não é, pai?

Oração de pai pra Pai

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Pai e paiPai nosso que estás nos céus, quem Vos fala é um pai de filhas que estão na terra.

Que santificado seja o vosso nome e santo também sejam o meu nome e a imagem que minhas filhas construam de mim, por minhas ações, atos e também omissões. Sim, às vezes é preciso se omitir de certas práticas nefastas que se nos apresentam no enredo da vida.

Pai, que venha a mim o Vosso reino e que no meu pequeno reino, aqui nessa terra, eu consiga à imagem e semelhança do Vosso, construir castelos de respeito, com fossos para nos separar do mal, do vil, do indigno, do sórdido. E que esse meu pequeno reino seja um reino onde habitem crianças de alegria e júbilo, de paz no coração e de mente sadia. Que nos prados e campinas dessas terras minhas crianças genuinamente fiquem felizes com a felicidade alheia. Crianças que colham flores, que riam com pássaros, que brinquem com as formas das nuvens e, sobretudo, que façam o bem.

Que seja, Pai, feita a Vossa vontade, assim na terra como no céu. Que essa vontade Vossa possa guiar-me na terra quando meu livre arbítrio fraquejar, quando minha pequenez humana engasgar nos desafios da vida. Minhas filhas precisam de mim. Os filhos precisam do Pai, bem sabeis. Quando eu chegar ao céu, quero olhar para baixo e para trás na certeza de que nossas vontades coincidiram ao máximo. Vivo dia a dia a esperança que minhas meninas vivam isso. Quero a certeza para segurar as mãos de minhas filhas ao atravessar a rua da vida com que Vós segurais a mão desse Vosso filho. Nesse aperto de mão, se apertam também os laços de amor, de cuidado, de preocupação, de afeto.

O pão nosso de cada dia dai hoje. E dai permitindo que eu vá atrás, que eu o busque. Permita, Pai, que o faça no limpo, respeitando outros pais que igualmente buscam o seu pão de cada dia. Para isso, peço mais: além do pão, dê-me saúde, serenidade, paciência e altruísmo genuíno, sem os quais a jornada diária pelo trigo que alimenta é muito mais árdua.

Perdoai minhas ofensas, assim como eu perdoo a quem me tem ofendido. E seja complacente nesse pedido. Pois se para Vós que sois Pai maiúsculo é fácil perdoar, para mim que sou pai minúsculo é laborioso por vezes desendurecer o coração com os outros, quando esses outros são pequenos, mesquinhos, invejosos, cruéis. Perdoai-me quando não conseguir perdoar. Sei que o perdão prolonga a vida ao expelir a mágoa para fora da alma. Então, Pai, que o perdão seja o desjejum diário de minhas filhas.

Não me deixeis cair em tentação. A tentação do desânimo, a tentação da desistência, a tentação da impaciência, a tentação da desatenção, a tentação da naturalização dos afetos. Minhas filhas compõem-se de cada gesto meu digerido por suas existências. A atenção que não lhes dou é preenchida com outra coisa. O cansaço que me impede de com elas brincar lhes rouba a brita do alicerce da alegria em família. A impaciência no trato com duas pequenas coisinhas, frágeis e dependentes, experimentando e descobrindo um mundo tão complexo, sinaliza uma falta que não posso deixar acontecer. Eu sou responsável por parte do sentido que o mundo terá para elas. Poupe-me das tentações, Pai, para que esses sentidos sejam os melhores no que depender de mim.

E livrai-me do mal. Livrai-me do mal da dor da impotência diante das doenças. Livrai-me do mal da dor do desrespeito mútuo. Livrai-me do mal da dor de falhar como pai. Afasta de mim tudo aquilo que tire das minhas filhas seus lindos e iluminados sorriso de suas bocas. Tudo aquilo que lhes façam se sentir menos gente nesse mundo em que o humanismo é visto como besteira bolorenta. Que o mal se afaste e o bem prevaleça. É o que eu, pobre pai aprendiz, Vos pede, com fé e de todo o coração. Com a certeza de um filho que terá seu pedido atendido. Assim seja. Amém.

Um texto antigo para recordar

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[Escrevi este texto quando Clara fez 1 ano, em 2007. Hoje é o seu aniversário de 3 anos. E tudo ainda vale. E tem mais ainda. Te amo, filha].

Clara como a luz do sol

Minha princesinha...A Ana Clara completou um ano de vida ontem, no dia dos namorados. É a minha primeira filha, que logo terá a companhia de Marina, pintando por aí até o final do mês. Fiquei pensando como as coisas mudam com a chegada de um filho.

Com minha filha aprendi a versão mais apurada de amor. Um amor gratuito, sincero, que nada pede em troca. Aprendi a amar mais meus pais porque compreendi, enfim, a natureza de seu amor. Com seus vôos, jogando-se da cama de braços abertos na certeza de que os meus vão ampará-la e conduzi-la a um pouso seguro, aprendi o que é confiar cegamente. Com Clara aprendi que um dia estressante pode se desmanchar numa gargalhada frouxa com a cabecinha virada para trás.

Tão pequena e já tão sujeita de si. Para Clara, qualquer brinquedo, por mais colorido que seja, perde seu atrativo se lhe coloco nas mãos um livro. Isso enche de orgulho um pai que ama ler e acredita que os livros são vitaminas da alma. Para Clara, quando o desejo bate, não há mãos que a contenham, indo até o fim na busca daquilo que a motiva. Ela sabe o que quer e não espera. Seu raciocínio funciona à velocidade da luz e encontra relações entre fatos que surpreendem pela precocidade, ainda que me digam que todo pai diz isso. Essa determinação é temperada com a meiguice de quem deita a cabecinha na minha barriga e cruza as perninhas para ver Cocoricó ou, de conchinha, enrola o cabelo do pai, como o pai fazia com o da sua vó, numa mania herdada que só avaliza a existência de Deus.

Minha filha mudou o rumo de minha vida. Fez de mim alguém mais paciente, mais responsável, mais feliz. Despromoveu-me na minha hierarquia de preocupação, passando ela a ocupar o primeiro lugar para sempre. Por sua importância, faz-me desejar existir um pára-raios de amor para sugar para mim sua dor de barriga, sua gripe, sua lágrima, transferindo tudo que a atinge para esse pai que, aflito, se sente impotente por não ter evitado que a dorzinha chegasse. Minha filha é minha vulnerabilidade eterna.

Em apenas um ano, roubou-me irrevogavelmente a mulher que amo. E eu não a culpo por isso. Ela merece o amor de qualidade que essa mulher sabe dar. Com dez meses, deu seus primeiros passos, cambaleantes e com tombos. Mas ousou levantar e tentar de novo. Um toco de gente buscando vida, destemida. Anseio por ver seus passos mais firmes, suas escolhas, compartilhar seus sucessos, chorar juntos causas perdidas, ativando novamente meu pára-raios ao pô-la em meu colo para o cafuné do consolo. Mesmo que minhas mãos já tremam e meus cabelos estejam patinados pelo tempo, meu coração ainda baterá por ela com a mesma alegria do dia em que a vi pela primeira vez, pequena, com seus lábios vermelhos, a olhar um mundo novo que se lhe descortinava.

Minha filha fez um ano. Eu afirmo, leitor, com a absoluta certeza: esse texto será lido diferentemente por quem tem e por quem ainda não tem filho. Porque filho não se explica, se vive. Há de se ter um para saber-se pai ou mãe. Minha filha fez a preocupação com um futuro melhor ser algo concreto, para além da retórica politicamente correta. E a você, filha, eu só peço que seja uma pessoa generosa. Que sua missão aqui seja tornar mais felizes as vidas daqueles que pela tua passarem. Parabéns, minha molequinha. A mana está vindo aí para incrementar a história de nossa família. Toda família precisa de um filho ou uma filha para ser plena. Isso para mim hoje é uma verdade cada vez mais Clara. Como a luz do sol.

Carta para a mamãe

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Ela escreveu lá de dentro...

Barriga da Mamãe, 09 de junho.  Oi, Mãe. Meu nome é Ana Clara. A gente não se conhece pessoalmente, mas já se ama muito. Resolvi escrever para dizer algumas coisas para você.

Mãe, eu nunca tive uma mãe. É a primeira vez. Nisso a gente é igual porque você nunca teve uma filha. Somos nossas primeiras experiências. Sabe, mãe, passei nove meses aqui na sua barriga, encolhidinha. Aqui tem tanto amor que tenho até medo de sair. Ouvi dizer que aí o negócio está feio. Em Brasília, quebraram tudo. A verticalização está um rolo. Eu não tenho a menor idéia do que é isso, mas com certeza não é melhor do que aqui. O que me acalma é que sei que é você que vai tomar conta de mim.

Mãe, é verdade que você já arrumou meu quarto? Mandou fazer quadrinhos, pintou a parede de lilás, trocou a lâmpada para aquela que regula, comprou meu bercinho, fez lençóis de libélula? Como você sabe que eu amo libélulas? É porque elas são pequeninas e frágeis como eu? De vez em quando eu ouço papai reclamar de uma tal de trena. Ele diz que toda vez que você pega na trena ele tem que assinar um cheque. O que é uma trena? E um cheque? Ah, deixa pra lá… Você me explica quando eu nascer. Papai eu sei o que é. É ele que fica segurando sua barriga e se assusta quando eu me mexo. Ele não sabe, mas eu faço de propósito só para ver o nervoso dele. Imagina se eu tivesse na barriga dele?

Mãezinha, uma senhora bonita, com manto azul, foi me buscar na sala dos anjos. Ela disse pra eu me preparar que eu ia ser um bebê de uma mãe muito especial, que ia me amar muito, junto com meu pai. Disse que eu fui muito desejada. Ela me disse que mesmo depois que eu fosse para aí, que ela iria ficar do meu lado. É uma outra mãe, essa dona Maria.

Mãe Bia, eu vou nascer no mês da Copa do Mundo. Eu não sei o que é isso, só sei que todos os bebês que vão nascer em junho só falam disso. Mas todos disseram também que não é para se preocupar porque você nem vai ligar pra Copa, só pra mim. Que eu sou mais importante de que o Ronaldinho. E o papai disse que vai tirar férias só para ficar comigo. Isso é legal. O papai trabalha muito. Vou fazer muito cocô só para ver a cara dele, que vai ter que limpar. Esse papai vai sofrer na minha mão.

Mãezinha, quero dizer que sou feliz por ser sua filha. Não podia haver mãe melhor. Mas eu ainda vou dançar para você, fazer camisa de mãozinha com tinta, recitar poema, me vestir de bicho. Vou ser sua confidente, vou pedir para você pedir as coisas pro papai. Você ainda vai chorar quando me deixar na escola pela primeira vez, quando eu fizer o teste do pezinho, quando eu fugir para namorar, quando eu chorar no seu colo por causa de namorado, quando eu me casar e quando eu for mãe e der um neto para você. Eu só peço uma coisa mãe: que meu filhinho tenha uma mãe igual a minha.

Deus te abençoe, mãezinha. Na segunda-feira estou aí, sentindo o aconchego dos teus braços e vivendo do lado de fora o amor que já sinto do lado de dentro. Eu amo você. Da tua, para sempre, Ana Clara.

PS: Manda um beijo para o papai também senão ele fica com ciúme. Ele deu o espaço dele para mim hoje no jornal. Ah, o Guilherme da Tia Camila, que chegou anteontem, me disse no e-mail que é aí legal.

Jornal Em Tempo, 09 de junho de 2006.