Cotidiano

Linha 352

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Aí eu perguntei: – Vai pra Zona Leste? O motora do 352 fez que sim com a cabeça e eu entrei. Dei dez reais pro cobrador que me olhou com uma cara feia. Mas tinha acabado de ter aula de anatomia e de ter visto cadáveres. A cara dele, então, era fichinha. Ele me deu o troco em moedas de 5 centavos. Passei e consegui sentar lá na frente. Logo o ônibus lotou. Quando chegou no ICHL, umas três pessoas, quase que simultaneamente, jogaram as bolsas no meu colo e disseram: – Segura pra gente aí, tio! Teve um calouro sem noção que percorreu o corredor todo com a mochila maceta nas costas fazendo strike na cabeça das pessoas sentadas nas cadeiras do corredor. É. aquilo ali era uma aventura darwnista. A sobrevivência dos mais fortes. Uma bunduda começou a esfregar a bunda dela no meu ombro. Mais do que ônibus lotado, acho que ela tava folgando mesmo. Do meu lado, um cara que fazia história – presumi pelo livro do Hobsbawm no colo – começou a colocar umas músicas cabeças no celular de dois chips dele. Alto pra cacete. Uma galera reclamou, mas ele nem aí. Olhei e o pessoal que estava de pé, exceto a gorda da bundona que continuava se esfregando na cabeça do meu úmero, estava todo em 45 graus para evitar o esfrega dos pervertidos, como manda o manual. Uma menina pegou o celular pra falar. Uma senhora mais idosa foi chegando perto do Hobsbawm para pedir lugar. Ele, num reflexo impressionante, desligou o celular e caiu num sono fingido para garantir o assento. De repente, um ladrãozinho puxou da mão dela e saiu correndo pela porta quando o busão parou perto do Coroado. Tudo muito rápido. Um herói, um aluno de língua portuguesa, ameaçou correr atrás, mas a moça disse que tudo bem, que aquele celular peba era o do assalto mesmo. Ela explicou: ela sempre andava com dois: o celular dela de uso mesmo, entocado e desligado, e um pebinha, pro ladrão. Numa faixa de pedestre na Cosme Ferreira, o motora deu uma freada que foi um freio de arrumação só: galera deu uma compactada. A gorda bunduda simulou desequilíbrio e caiu sentada no meu colo. Alguém estava com problemas nas glândulas sudoríparas e sebáceas, que estavam juntas numa revolta só no odor que aquele sujeito exalava. Com a freada, o cheiro da criatura deu um 360 no ônibus todo, vindo da hipoderme. Sim, minha aula de anatomia tinha sido sobre o sistema tegumentar. O cebolal estava cruel, de fazer chorar. Pior que o formol do laboratório. Fui chegando perto da minha parada. Devolvi a bolsa aos donos, disse que ia sair. Pedi licença à gorda, que saiu do meu colo. Desci na parada em frente de casa. Quando olhei, vi que a gorda desceu atrás de mim. Apressei o passo. Ela também. Entrei no condomínio quase correndo e gritei pro porteiro: – Braga, fecha o portão! Nem olhei pra trás com medo de virar estátua de sal. Cheguei em casa. Antes de subir, tive a leve impressão de que meu carro, na garagem, deu uma risada sacana pra mim e piscou um pisca só. Foi só impressão, claro.

PS: Nem voltei de ônibus. Minha mulher foi me buscar. A historinha aí foi criada a partir de relatos dos colegas, que me dissuadiram da aventura. Ainda invejo aqueles que vivem com adrenalina no toco por ter de pegar o 352 todos os dias. Quantas histórias eles devem ter…

O jantar a dois

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Jane, no fundo da foto...A vida de um casal precisa de momentos leves para balancear as durezas do cotidiano. Eu tento não perder esse encanto. Por isso decidimos aproveitar que as meninas estavam na casa de uma amiga e saímos para jantar, eu a dona Bia.

A ideia era comer bem, conversar sobre a vida, sobre nós, sobre as meninas, sobre o futuro, ela tomando um bom vinho e eu uma coca-cola bem gelada. Eu estava dirigindo, claro. As pessoas passam muito tempo de cabeça baixa, olhando o celular e esquecem às vezes de olhar nos olhos. Era essa ideia. Olharmos nos olhos um pouco mais do que o dia a dia permite. Mas não deu muito certo.

Os planos de ter uma conversa tranquila foram abortados pela Jane. A Jane estava na mesa ao lado com mais três pessoas mudas. Eu acho que eram mudas. Ou, coitadas, talvez só não achassem mesmo um vácuo para entrar na conversa já que só ela falava. E alto. Sou manauara, mas os manauaras têm uma característica interessante de apagar a linha entre o público e o privado. Jane falava como se estivesse no quintal da casa dela, comendo churrasco e ouvindo Naldo.

Quando sentamos, ela falava sobre a reforma na casa. Ela havia contratado o pedreiro Sildomar, mas ele, pelo que ouvimos, estava enrolando. Dizia Dona Jane que pedreiro bom mesmo era o Cássio, que fazia rápido e não mentia para ela. Cumpria prazos. Dizia também que havia ameaçado o Sildomar várias vezes. Caso ele não cumprisse com a palavra, ela chamaria o Cássio que, de tão bom, “lia seus pensamentos” sobre o que ela desejava fazer. Sei não, mas o Cássio me pareceu um Wagner, o motorista de Amor à Vida. Edith, digo, Jane reclamou que obra é um buraco sem fundo, que havia drenado todo o dinheiro dela, atrasando a viagem desse ano para Miami. Sim, Miami, Orlando e dólares foram o segundo assunto da noite.

Jane era praticamente uma guia do Tio Acram. Detalhou aos demais na mesa qual é a melhor época do ano, que carro alugar, em que hotel ficar (“Best West”, no seu inglês peculiar). Falou do câmbio do dólar, da vantagem de levar o Visa Card, das compras baratas nos outlets. Eu, que nunca fui a Miami, me senti contemplado. Não preciso mais ir com tanta informação que recebi entre um spaghetti ao sugo e um rondelli de presunto.

A Bia e eu não falamos nada sobre a gente. Nós, na verdade, repercutíamos as informações da Jane. “Mas será que vale a pena mesmo?”, “E com as meninas, será que o ‘Best West’ é bom?”. “Precisa ver a reforma da cozinha. E aí? Chamamos o Cássio? É, porque o Sildomar está fora de cogitação!”

De repente chega para jantar o médico do meu pai. Senta com a esposa na mesa de trás. Enquanto a Jane falava em que Miami nem precisa falar português, o doutor começava os serviços traçando dois galetinhos no vinho como uma voracidade impressionante, ao ritmo de umas três garfadas por segundo. Ele realmente foi para jantar. Não deu uma palavra com a esposa, mas vez por outra oferecia um garfo com comida a ela, que sempre declinava. Ele só no rodízio. Diferentemente do que faz no consultório, quando atende bem, examina sem pressa, olha nos olhos, ali o doutor mantia a cabeça baixa, extremamente disciplinado, focado eu diria. Eu duvido que um médico cubano coma um rodízio com tanta competência. Quando chegou um penne apimentado, Jane informou que Miami tem hoje uns 400 mil habitantes. A essa altura, a Bia e eu já havíamos desistido da nossa conversa programada. Éramos claramente pautados pelos vizinhos de mesa. “Mas será que o médico e a esposa não conversam em casa? Será que ele sempre come muito assim? Mas e o Cássio? A gente chama ou não? Ficamos no Best Western?”

Para completar a vizinhança, eis que chega um casal e ocupa a mesa ao lado. Uma menina com uma cara de fresca pede o cardápio. Fabrízia, era o nome dela. Eu soube porque ela narrou a história de uma amiga conversando com ela e autocitou seu nome. Mas o namorado a chamava de Zízy. Meigo. Zízy, uma moça bonita, perdeu minha simpatia e ficou feia quando foi grosseira com o garçom: “Afinal, que guaraná é esse que vocês servem aqui? Não tem no cardápio e deveria ter, né?” Se eu fosse o garçom, eu teria trollado: “Tuchaua, Baré, Regente e Real Champagne. Qual a senhora prefere?”. Tenho antipatia instantânea por quem trata mal quem está lhe servindo. É de uma pequeneza horrível.

Pelo menos quinze frangos morreram para que o doutor saciasse a sua vontade de comer coraçãozinho. Pratão cheio, seu queixo não parava. Como come aquele homem! Ele comia os corações como se fossem M&M’s. O dólar deu uma caída, informou a Jane. Eu e a Bia já satisfeitos, ficamos nos olhando. E rimos. A vantagem de se conhecer bem é que se torna desnecessário falar certas coisas. Pedi a conta e paguei. Na hora de ir, ainda deu para ver a Zízy brigando com o Mô por ciúme, a Jane dizendo a seus mudos ouvintes para evitar Little Havana porque tem muito imigrante e o doutor dando uma finalizada numa costelinha. Sabe de uma coisa? Foi um bom jantar a dois. O que seria da vida a dois sem os momentos leves para balancear as durezas do cotidiano?