crianças

Raízes e asas

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Inspirado por Fernando Pessoa.

Hoje a criança que há em mim escapou. Bobeei e ela fugiu. Minha maturidade cansada olhou e disse: “Deixa! Ela volta”. Eu deixei. Ela já saiu dando uma cambalhota no chão de terra molhado pela chuva, na qual dançou feito Fred Astaire. Pés descalços, chutando uma bola de meia, driblou senhores sisudos que vinham no contrafluxo de sua brincadeira e que, claro, reprovaram a afronta. Tomou nas mãos a bicicleta e disparou, permitindo-se um vento no rosto ladeira abaixo da rua, cabelos desgrenhados, mãos soltas do guidão, numa ousadia de que nem sequer me lembrava mais. Era acompanhado por Laika, uma vira-lata preta e dourada, que lembrava a Lassie. Ela latia como se batesse palmas para  seu dono. A criança não tinha um relógio.  O tempo era o que ela fazia. Minutos podiam ser horas, horas minutos. Uma total anarquia do tempo, como só as crianças sabem fazer.

Mastigava com prazer um chiclete de bola, daqueles de bolinhas coloridas. De cor vermelha. Num vacilo, engoliu o chiclete. Lembrou que ele poderia ficar no estômago para sempre, como haviam lhe dito. Aliás, haviam lhe dito tantas coisas que sua cabecinha inocente chegava a ferver. Logo se esqueceu disso e correu na areia que margeava o igarapé, se imaginando um gigante deixando pegadas no chão para amedrontar os pequeninos. Viu uma fila de formigas e com o dedo interrompeu-lhe a marcha. Adorava embaralhar o certo e formigas ficam perdidas quando um dedo é passado na linha imaginária de seu trajeto invisível. Mergulhou na água fria que fluía infinita, como infinita era sua vontade de ser feliz. Tirou do fundo do igarapé uma garrafa de guaraná, já gelada pela água, entornou num saquinho e bebeu com um canudinho. Largou o saquinho na mesa do caramanchão para correr atrás de um panapaná de borboletas pequenas e brancas que lhe convidara a correr pela areia do banho. Brincou alegre de manja-pira com as ziguezagueantes borboletas até ser enredado por outra brincadeira e se foi.

Voltando para casa, meu menino pegou um lápis e pediu de quem lhe estava próximo uma folha de papel. Nela, com um círculo fez um sol, cheio de raios. Pôs-lhe na boca um sorriso como o seu e desenhou uma árvore, junto a uma casa com chaminé, chaminé, aliás, que jamais vira, mas que tinha de fazer parte das casas desenhadas. Pontuou o céu com nuvens e pássaros.  Fez sete pessoas, em rabiscos. Os dois maiores, dizia, eram o pai e a mãe. A diferença era os rabiscos dos cabelos da mãe, em triângulo. Os cinco menores, em tamanho decrescente, eram os filhos: ele e seus irmãos. Ao explicar o desenho, o que toda criança faz com prazer, mostrou-se o menor de todos, apesar de ser o segundo na cronologia. Pois assim ele se via: sua família toda vinha na frente. Sua menorzeza não era por se achar menos, mas porque era mais generoso. Generosidade que vai se corroendo ao rolar pelas ruas de asfalto da vida, ganhando limo, perdendo rumo. Desenhou ainda um arco-íris, que pintou com sua caixa de lápis-de-cor com 48 cores, um de seus maiores tesouros. Ele pintava a vida como ninguém.

Com fome, tomou o copo de Ki-Suco de groselha nas mãos, um pacote de bolacha Maria e foi brincar na rua. Dividiu com os amigos goles do Ki-Suco e distribuiu, tal qual Jesus, as bolachas multiplicadas para o sem-número de crianças que também fugiram de seus adultos descuidados. Depois do cangapé e das bolinhas de gude – que ponteira linda aquela azul! –, uma pista de asfalto fez-se o Maracanã. As traves, duas sandálias. Par-ou-ímpar, você aqui e você pra lá. Partidas infinitas, uma atrás da outra. Pausas somente para enfiar a boca na torneira da casa sem muro para aliviar a sede de água. A única sede que lhe habitava. As demais eram sempre saciadas. Era um tempo de exploração. Era um tempo de conhecimento. Era um tempo de formação. Eu me perguntara, olhando o meu menino, onde estaria morando aquela vontade de tudo. Na sua casa hoje, com grade e portão de ferro, mora uma vontade de nada, um velho cansado, ranzinza, como aquele que furou a bola-balão colorida, chutada por ele,  que caiu em sua casa, terminando o campeonato. Dali, dia escurecendo, levava de volta o abraço suado dos parceiros, um pescoço com duas voltas de ceroto como medalha, um dedo esfolado na sarjeta, um segredo de um amigo e uma alegria de menino, daquelas que só dá em curumim, feito virose.

Tomou banho a muito custo a minha criança. Seus arranhões do dia arderam, mas ela nem reclamou. Era assim todo dia. No corpo as marcas da vida, da felicidade. Quando a gente se adultiza, chegamos em casa com arranhões também, mas na alma.

Depois do banho, do talco perfumado no corpo, cabelos penteados partidos no lado e Alfazema a lhe exalar o cheiro pela casa, arrumou seu álbum de figurinhas da copa. Olhos pesados de um sono iminente, veio a minha criança se aninhar em meus braços na rede que balançava na casa sem forro, de luz amarela. Cantei para ela Alecrim Dourado e Pica-pau Atrevido. Seu corpinho incessante se entregou ao sono no balanço da rede. Um sonho bom lhe passava à mente, decerto, porque sorria. Era o sorriso de seu tempo. Sorriso inocente, feliz. Sorriso da descoberta, das eurecas. Sorriso do tempo infinito, sorriso das travessuras desmedidas. Sorriso de criança.

Tempo em que o tempo era um tempo diferente. Meus olhos de adultos veem um tempo redefinido. O ontem virou anteontem. O hoje virou o agora. O anteontem, século passado. A urgência não permite à minha criança tardes inteiras sentadas à beira do barranco olhando os carros que passam lá embaixo, como se fossem as formigas da imaginação. Hoje os carros não passam. Quedam inertes em histéricos engarrafamentos. Não cabe mais deitar no chão frio do corodum da casa, jogar sabão e voar num deslize libertador. Crescer enrijece a vida, leve, solta, sem limites quando na infância.

Dormindo, minha criança me sorri. De repente, abre os olhinhos, bêbados de sono, estende um largo sorriso e – como que adivinhando o que penso –  me diz, quase sussurrando: “Não esqueça de mim… E não esqueça de você… ” Cerrou os olhos e voltou a dormir dentro de mim. A maturidade, protocolar e racional, com um maneio de cabeça falou em silêncio: “eu te disse…”. Alguém passou o dedo na minha trajetória de criança…

Soneto do dia seguinte

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Hoje os pássaros não bateram asas
Nem cantaram sua mais bela melodia.
Nem se abriram as janelas das casas
As flores também não, em rebeldia.

Hoje os peixes se recusaram a nadar.
E os bebês decidiram não sorrir.
As marés se aquietaram no mar,
Só as lágrimas não pararam de vir…

Hoje a sineta ficou bem silente,
E, insistente, repetia à mente,
Que sentido (nenhum!) não fazia…

Junto a ela, com a voz embargada
Uma grande tristeza engasgada
Contemplava a carteira vazia…

As vitrines

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Para Ana Clara e Marina.
Quando tinham 4 e 3 anos.

Eu te vejo sair por aí/Te avisei que a cidade era um vão/- Dá tua mão!/- Olha pra mim!/- Não faz assim!- Não vai lá não!/Os letreiros a te colorir/Embaraçam a minha visão/Eu te vi suspirar de aflição/E sair da sessão, frouxa de rir/Já te vejo brincando, gostando de ser/Tua sombra a se multiplicar/Nos teus olhos também posso ver/As vitrines te vendo passar/Na galeria, cada clarão/É como um dia depois de outro dia/Abrindo um salão/Passas em exposição/Passas sem ver teu vigia/Catando a poesia/Que entornas no chão…

Ontem eu fui buscar minha filha na escola. Cheguei cedo e pelo vidro, escondido,  fiquei olhando aquela menininha, cabelo preso com um rabo de cavalo, sentada na carteira escolar, copiando a tarefa escrita pela professora no quadro. Ela está no terceiro período, sendo alfabetizada. O inusitado é isso: quando a realidade bate em sua cara com uma sandália havaiana molhada e cheia de terra.

Recobrando os sentidos, olhei e me dei conta de como é independente a minha filha de quatro anos. Já não mais chora para pedir leite, dorme sozinha, dispensando meu canto de outrora, cujos falsetes desafinados embalavam o seu sono, às vezes o nosso. Já escreve seu nome na firmeza do lápis. Já tem uma identidade que a distingue. Já tem gostos só seus. Sabe o que quer com firmeza. E o que não quer com certeza. Toma a frente para fazer as coisas, para experimentar. E só tem quatro anos, a minha menina. Em dois planos, vi duas cenas olhando para o mesmo lugar: pela janela da sala, a minha filha já sendo. Na janela da sala, pelo reflexo, um pai se dando conta de que a vida segue.

Enquanto eu escrevo, olho os vários porta-retratos de minha filha espalhados em meu escritório com suas fotos: um bebê, uma menina cambaleante, segurando as mãos do pai, uma menina em gargalhada aberta sentada no chão da calçada junto comigo a aconchegá-la, protegendo-a entre minhas pernas, numa tarde de pai e filha e velocípede. As fotos passam com um filme, quadro a quadro, lembrando que o tempo passa e ela cresce. E escapa líquida pelos meus dedos.

Fico pensando o dia em que minha criança sairá sozinha pela primeira vez. Nesse dia decretará o brado retumbante às margens de seu Ipiranga particular. Deixará um pai órfão de sua obrigação perene de pai: acompanhá-la por onde for. E eu terei que vê-la sair por aí… Não sem antes avisá-la repetidamente do abismo que é a cidade, o mundo. Definitivamente, o mundo não foi feito para pais. Pais sofrem com mundo. Ele ameaça o que têm de mais sagrado: seus filhos. Ah, filha, cuidado! O mundo é um vão…

O paradoxo de saber da necessidade de que os filhos se vão para ser gente e ao mesmo tempo em acreditar no instintivo pátrio dever da proteção eterna nos faz pensar em dizer, com rigor paterno: – Dá tua mão! – Olha para mim! Não faz assim! Não vai lá, não! – Fica aqui, deixa eu cuidar de você. Para sempre. Para sempre… Filhos são para sempre. Filhos se demoram. Essa é sua beleza. Mas o pacote traz junto com os filhos a vulnerabilidade eterna. Filhos são nossos alicerces e nossa vulnerabilidade. Sem eles, Deus nos livre, o nosso mundo desmorona, cai em pedaços. Sem eles, nossa vida se agriculturiza e vira vegetativa.

Mas tudo bem. Saiam. Ganhem o mundo. Ganhem os prados. Por via das dúvidas, vamos atrás, de longe. Só por garantia. Ficamos somente olhando. Sem se meter. Prometemos. E eles saem…

Na nossa certeza, vamos estar lá, pulando em frente de carros, lhes salvando contra ladrões, feito Sportacus avisados pelo nosso coração. Estamos prontos para intervir no primeiro susto. Mas cadê o susto que não vem?… Nossas crianças passeiam com desenvoltura pelas ruas. Os letreiros das lojas e fachadas vão lhes colorindo na passagem como se lhes saudassem a vinda e a vida. A vida de quem faz sua subjetividade na independência que, pretensiosos, julgávamos impossível sem nós. A falibilidade já nos tinha sido anunciada: quantas vezes pedimos impotentes que a febre passasse para nós?

Nossa ansiedade aumenta. Seguimos os passos de nossos filhos, mas os nossos passos vigilantes são hipérboles supérfluas de amor, desnecessárias, vãs. A cidade é um vão… Os letreiros brilham por sobre nossos filhos e embaraçam a nossa visão porque não conseguimos – ou não queremos – vê-los desenvoltos por lugares que outrora nós mesmos pisamos em falso, buscando nós próprios a nossa luminosidade.

Viramos espectros de seus caminhos. Se vão ao cinema, ficamos furtivamente na última fila, incógnitos. Estamos prontos para oferecer o ombro e o colo ao surgir o primeiro monstro na tela, um Robin Rotten, sei lá… Somos capazes de perceber a aflição suspirada, afinal conhecemos cada centímetro daquele ser, cada fio de cabelo, cada jeito de olhar, cada um dos 21 gramas daquela alma. Dizem que alma tem 21 gramas. Se tem, eu conheço cada um dos gramas da minha filha. Não duvide de um pai. Mas não… Vou me desnecessarizando de sua vida,  como as rodinhas da bicicletas, que uma dia foram fundamentais e depois, de repente, viram-se descartáveis. Com um outro, um substituto de mim, minha filha de repente sai confortada, alegre, frouxa de rir. E eu morro um pouquinho na quebra da minha certeza de que só eu era capaz de fazê-la rir daquele jeito. Sinto-me arrasado como quando trocamos amores em miúdos. Claro, mas é assim, é assim, sabemos… Componha-se!

É. Tem uma hora que a gente percebe que os filhos começam a gostar de ser. Desenham paisagens com seus próprios crayons, recortam o mundo com sua própria tesoura do desejo. Suas sombras a se multiplicar nos inquietam na impossibilidade de seguir cada uma delas. Vamos deixando de ser os pais que ocupam os espaços para  sermos pais que liberam espaços para os filhos como condição primeira para continuar sendo pais. É preciso se esvaziar de presença para estar presente: é esse o oximoro paterno.

Quando ela volta para casa, faço cafuné, abraço, beijo suas bochechas. Olhos nos olhos e nos seus olhos eu posso ver as vitrines do mundo a vendo passar nas galerias da vida, das querências, dos desejos, dos medos, das (in)certezas. Cada clarão refletido em suas pupilas é como o raiar do sol de um dia depois de outro dia depois de outro dia depois de outro dia. Olho em seus olhos os reflexos do porta-retratos do bebê risonho e do pai que o segura, feliz. Serão sempre os bebês os nossos filhos. E que abram, em cada passo que derem, mil salões de alegria, de sucesso, de ternura. Que não esqueçam a ternura ao passarem expostos ao mundo.

É com ternura que serei o eterno vigia de minha filha. Vigia que ela nunca vai ver lhe vigiando e lhe sufocando, pois precisa ganhar a segurança da liberdade. Um vigia que vai zelar sempre por ela, a cada dia, em cada galeria, no reflexo de cada vitrine, de cada vidro de janela das sala de aula da vida. Que vai estar catando toda poesia que ela derramar no chão, que será guardada naquela velha caixa cor-de-rosa onde estão depositadas as primeiras, aquelas entornadas e recolhidas naquele dia de felicidade indescritível na maternidade…

Quem paga a música escolhe a dança?

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Marisa Lajolo Prof. Titular (aposentada) da UNICAMP
Prof. da Universidade Presbiteriana Mackenzie
Pequisadora Senior do CNPq
Ex Secretária de Educação de Atibaia (SP)
Organizadora ( com João Luís Ceccantini)  do livro
de Monteiro Lobato livro a livro (obra infantil), obra que recebeu
o Prêmio Jabuti 2009 como melhor livro de Não Ficção.

 

“Caçadas de Pedrinho”, de Monteiro Lobato, está em pauta e é bom que esteja, pois é um livro maravilhoso .

Narra as aventuras da turma do sítio de Dona Benta primeiro às voltas com a bicharada da floresta próxima  e, depois, com uma comissão do governo encarregada de caçar um rinoceronte fugido de um circo. Nos dois episódios prevalecem o respeito ao leitor, a visão crítica da realidade, o humor fino e inteligente.

Na primeira narrativa, a da caçada da onça, as armas das crianças são improvisadas e na hora agá  não funcionam. É apenas graças à esperteza e inventividade dos meninos que eles conseguem matar a onça e arrastá-la até a casa do sítio. A morte da onça provoca revolta nos bichos da floresta e eles planejam vingança numa assembléia muito divertida : felinos ferozes invadem o sítio e –de novo- é apenas graças à inventividade e esperteza das crianças ( particularmente de Emília) que as pessoas escapam de virar comida de onça.

Na segunda narrativa, a fuga de um rinoceronte de um circo e seu refúgio no sítio de dona Benta leva para lá a Comissão que o governo encarregou de lidar com a questão. Os moradores do sítio desmascaram a corrupção e o corpo mole da comissão, aliam-se ao animal cioso da liberdade conquistada e espantam seus proprietários. E, batizado Quindim, o  rinoceronte fica para sempre incorporado às aventuras dos picapauzinhos.

Estas histórias constituem o enredo do livro que parecer recente do Conselho Nacional de Educação (CNE), a partir de denúncia recebida,   quer proibir de integrar  acervos com os quais programas governamentais compram livros para bibliotecas escolares . O CNE  acredita que o livro veicula conteúdo racista e preconceituoso e que os professores não têm competência para lidar com tais questões. Os argumentos que fundamentam as acusações de racismo e preconceito são  expressões pelas quais  Tia Nastácia é referida no livro, bem como a menção à África como lugar de origem de animais ferozes.

Sabe-se hoje que diferentes leitores interpretam um mesmo texto de maneiras diferentes. Uns podem morrer de medo de uma cena que outros acham engraçada. Alguns  podem sentir-se profundamente tocados por passagens que deixam outros impassíveis.  Para ficar num exemplo brasileiro já clássico, uns acham que Capitu ( D. Casmurro, Machado de Assis, 1900)   traiu mesmo o marido, e outros acham que não traiu, que o adultério foi fruto da mente de Bentinho.  Outros ainda acham que Bentinho é que namorou Escobar .. !

É um grande avanço nos estudos literários esta noção mais aberta do que se passa na cabeça do leitor quando seus olhos estão num livro. Ela se fundamenta no pressuposto segundo o qual, dependendo da vida que teve e que tem, daquilo em que acredita ou desacredita, da situação na qual lê o que lê, cada um entende uma história de um jeito.  Mas essa liberdade do leitor vive sofrendo atropelamentos. De vez em quando, educadores de todas as instâncias – da sala de aula ao Ministério de Educação-   manifestam desconfiança da capacidade de os leitores se posicionarem de forma correta face ao que lêem .

Infelizmente, estamos vivendo um desses momentos.

Como os antigos diziam  que quem paga a música escolhe a dança, talvez se acredite hoje ser correto que  quem paga o livro escolha  a leitura que dele se vai fazer. A situação atual tem sua (triste) caricatura no lobo de Chapeuzinho Vermelho que não é mais abatido pelos caçadores, e pela dona Chica-ca que não mais atira um pau no gato-to. Muda-se o final da história e re-escreve-se a letra da música porque se  acredita que leitores e ouvintes sairão dos livros e das canções abatendo lobos e caindo de pau em bichanos . Trata-se de uma idéia pobre,  precária e incorreta que além de considerar as crianças como  tontas, desconsidera a função simbólica da cultura. Para ficar em um exemplo clássico, a psicanálise e os estudos literários ensinam que  a madrasta malvada de contos de fada não desenvolve hostilidade conta a nova mulher do papai, mas – ao contrário-  pode ajudar a criança a não se sentir muito culpada nos momentos em que odeia a mamãe, verdadeira ou adotiva…

Não deixa de ser curioso notar que esta pasteurização pretendida para os livros infantis e juvenis  coincide com o lamento geral  – de novo, da sala de aula ao Ministério da Educação—pela precariedade da leitura praticada na sociedade brasileira.    Mas, como quem tem caneta de assinar cheques e de encaminhar leis tem o poder de veto, ao invés de refletir e discutir,  a autoridade veta . E veta porque, no melhor dos casos e muitas vezes com a melhor das intenções,  estende suas reações a certos livros a um numeroso e anônimo universo de leitores  . .

No caso deste veto a “Caçadas de Pedrinho”  ,   a Conselheira Relatora Nilma Lino Gomes  acolhe denúncia de Antonio Gomes da Costa Neto que entende como manifestação de preconceito e intolerância de maneira mais específica a personagem feminina e negra Tia Anastácia e as referências aos personagens animais tais como urubu, macaco e feras africanas ; (…) aponta menção revestida de estereotipia ao negro e ao universo africano , que se repete em vários trechos do livro analisado e exige da editora responsável pela publicação a inserção no texto de apresentação de uma nota explicativa e de esclarecimentos ao leitor sobre os estudos atuais e críticos que discutam a presença de estereótipos na literatura.

Independentemente do imenso  equívoco em que, de meu ponto de vista, incorrem o denunciante e o CNE que aprova por unanimidade o parecer da relatora, o episódio torna-se assustador pelo que endossa, anuncia e recomenda de patrulhamento da leitura na escola brasileira. A nota exigida transforma livros em produtos de botica, que devem circular  acompanhados de bula com instruções de uso.

O que a nota exigida  deve explicar ? o que significa esclarecer ao leitor sobre os estudos atuais e críticos que discutam a presença de estereótipos na literatura ? A quem deve a editora encomendar  a nota explicativa ? Qual seria o conteúdo da nota solicitada ? A nota deve fazer uma auto-crítica ( autoral, editorial ? ) , assumindo que o livro contém estereótipos ? a nota deve informar ao leitor que “Caçadas de Pedrinho” é  um livro racista ?  Quem decidirá se a nota explicativa cumpre efetivamente o esclarecimento exigido pelo MEC ?

As questões poderiam se multiplicar. Mas não vale a pena. O panorama que a multiplicação das questões delineia é por demais sinistro .  Como fecho destas melancólicas maltraçadas aponte-se que qualquer nota no sentido solicitado – independente da denominação que venha a receber, do estilo em que seja redigida, e da autoria que assumir- será um desastre. Dará sinal verde para uma literatura autoritariamente auto-amordaçada.  E este modelito   da mordaça de agora talvez seja  mais pernicioso  do que a ostensiva queima de livros em praça  pública, número medonho mas que de vez em quando entra em cartaz na história desta nossa  Pátria amada idolatrada salve salve. E salve-se quem puder … pois desta vez  a censura não quer determinar apenas  o que se pode ou não se pode ler, mas é mais sutil, determinando como se deve ler o que se lê  !

 


Anjos eficientes

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Um belo dia um grupo de anjos-crianças dirigiu-se a Deus. Estavam preocupados com o mundo e seus habitantes. Deus explicou a eles que havia dado ao homem livre arbítrio e que, portanto, ele era responsável por seus atos e por levar o mundo por caminhos não tão promissores. Preocupados, os anjos fizeram uma proposta a Deus. Como se sabe, Ele ama a todos os seus filhos e mais especialmente as crianças.

O primeiro anjo disse: “Senhor, os homens na Terra estão precisando ver melhor as coisas. Não conseguem vislumbrar que toda causa gera uma conseqüência. Vou dar a eles, Senhor, a minha visão para que possam enxergar a necessidade de cuidar uns dos outros e do planeta”, disse.

“Estão assim porque não dialogam mais”, afirmou o segundo anjo. “Falam de si, mas são incapazes de ouvir o outro. Pensam no individual e esquecem que ninguém vive só. Pois dou a eles, Senhor, a minha audição. Que com ela os homens escutem o próximo e as vozes da natureza com o coração”.

“Deixa eu lhes ajudar, irmãozinhos, doando aos homens a minha fala. Quem sabe possam conversar mais e superar as dificuldades entre os diferentes. Quero que conversem e se entendam. Permita, Pai, que eu lhes doe a linguagem perfeita que sai de minha boca”..

Um quarto anjo voou para perto e disse: “Além de não ver, não ouvir e não dialogar, os homens estão se arriscando em caminhos tortuosos. Suas pernas os levam por duvidosas trilhas nas bifurcações da vida, muito desgastada pelo corre-corre desenfreado. Consintais, Deus, que eu lhes ofereça as minhas pernas, para que com pernas novas os seus passos possam caminhar por caminhos mais primaveris”.

“Os pobres homens estão com a sensibilidade exposta”, interveio um anjo que acompanhava atento a conversa. “Posso entregar-lhes minhas fibras para que reforcem seu sistema nervoso, protegendo-se assim dos males de seu desequilíbrio. Isso, claro, se o Senhor me facultar fazê-lo”. Deus a tudo ouvia.

Um sexto anjo pronunciou: “Não poderia me furtar a ajudar a melhorar o mundo. Quero entender os homens. Deixe-me, Pai Grandioso, buscar na Terra um cromossomo para ver se melhor compreendo no DNA da humanidade o porquê de tanta guerra, de tanta discórdia”.

O sétimo falou: “Eu também quero ajudar. Preocupa-me o uso descuidado do cérebro humano. O homem já não raciocina direito. Como minha parte, Senhor, quero lhes doar a capacidade dinâmica de meu cérebro. Quem sabe assim as pessoas ajam mais fraternalmente”.

E assim foi: uma multidão de anjos-crianças juntou-se em volta de Deus, cada um com sua oferta, que de tão generosa e altruísta foi prontamente aceita por Ele.

Para quem não sabe, os anjos-crianças vêm ao mundo em forma de bebês. Dos que fizeram a proposta a Deus, o primeiro nasceu cego. O segundo, surdo. O terceiro, disléxico. O quarto, com pernas mais curtas. O quinto, com esclerose múltipla. O sexto, com síndrome de Down. O sétimo, com paralisia cerebral. O oitavo e nono, que não aparecem na história, com autismo e com síndrome de Williams, respectivamente.

Assim, cada criança que nasce com o que os humanos chamam de deficiência é a mais pura manifestação da doação dos anjos por um mundo melhor. Na sua sabedoria, Deus concedeu aos pequenos uma benção em troca de sua entrega: determinou que esses anjos nascessem em famílias especiais. Essas famílias sabem, cada uma delas, do que estou falando. Deus sempre dá um jeito de lhes contar a história de seus anjos eficientes.

Um mundo propositivo

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Este texto foi escrito em 27 de junho de 2007 e publicado no jornal EM TEMPO. No dia em que Marina, minha caçula, nasceu.

Cada dia ficamos mais estarrecidos ao abrir jornais pela manhã ou escolher um canal de televisão. Barbáries, crimes sociais e ambientais, roubos de recursos públicos, um denuncismo de cunho político que não visa o bem comum e sim projetos pessoais. Um mundo, enfim, cada vez menos convidativo para nele se viver.

Estive pensando nisso. Falar em futuro da humanidade tem sentidos diferentes para quem tem e para quem não tem filhos. Nos caminhos do pensamento que olhava ao longe da janela do meu apartamento o pôr-do-sol , percebi que não há escuro sem claro, que para haver música, o silêncio se faz necessário. Há sempre o outro lado.

Se por um lado há políticos que se vendem como guardiães da moral e, cínicos, superfaturam obras ou compras, retirando um dinheiro que iria para escolas de crianças, por outro há políticos sérios, comprometidos, que perdem amizades para não perder a decência e os princípios. Se há escolas públicas caindo aos pedaços, como a imprensa gosta de mostrar, há escolas públicas novas, cheias de projetos pedagógicos, formando os alunos que delas necessitam, com professores comprometidos, que não fazem das dificuldades cotidianas racionalizações para o descompromisso.

Se há bárbaros que matam e assustam a sociedade, há pessoas boas que encantam porque cuidam voluntariamente dos que precisam, fazendo do seu gesto gratuito sua alegria de viver. Se há dores, há sorrisos. Se há fome de justiça, há banquetes de gente bem intencionada que não desanima. Se há os nauseabundos programas vespertinos para promover políticos e pretensos nos canais locais de televisão, há uma TV Cultura para alimentar a imaginação da criança que precisa da fantasia para ser normal. Se há Calypso, há Zeca Baleiro. Se há Paulo Coelho, há Guimarães Rosa.

O problema de nosso mundo velho sem porteira é a direção. Grosso modo, não estamos indo. Estamos sempre reagindo. Um mundo reativo é um mundo ruim. Quem reage abre mão da sua direção, deixando que outros a determinem.  Um mundo reativo é um lugar do sobressalto, do medo, da ansiedade. É um mundo do band-aid na ferida profunda, fingindo acabar com um problema que só se enraíza num cancro fatal. Um mundo reativo é um mundo enclausurado na incerteza que nos espera na próxima esquina. É um mundo desconfiado.

Mas podemos mudar a direção do olhar. Em vez de reagir, podemos agir. Um mundo de ação é o mundo da solidariedade, da vida em sociedade de verdade. Um mundo da ação é um mundo que não espera, propõe. É um mundo que entende o valor da profilaxia social, evitando as mazelas sociais, essas mesmas mazelas que hoje, porque não termos cuidado antes, temos que combater a um preço muito alto. Dor, medo, angústia, ansiedade, violência não combinam com esse mundo. As suas palavras são sorriso, ação, alegria, certeza e paz.

Eu fiz uma experiência durante a semana que passou. Fixei meu olhar no mundo e nas pessoas propositivas e ignorei solenemente o mundo reativo e as pessoas negativas. Eu te digo, leitor, que foi uma experiência muito gratificante. Descobri que existe um mundo fora da mídia azeda que é melhor do que o que nos vendem, feito de gente do bem, de coração grande, que se interessa genuinamente pelo lado bom da vida e pelas outras pessoas.

É esse mundo propositivo que eu quero para a Marina, que nasce hoje. Seja bem-vinda, minha filha. Papai vai continuar lutando por esse mundo propositivo. Porque viver ainda vale a pena.

A descoberta do mundo

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De repente bateu um desespero manso. Como quase todos os dias, levantei com o dia raiando para fazer as mamadeiras das minhas duas filhas. Ana Clara, três anos, sete porções de leite para uma de Sustagen Baunilha em 210 ml de água. Marina, dois anos, cinco de leite para uma de Sustagen Chocolate em 150 ml.

Uma gosta de baunilha, a outra prefere chocolate. A primeira é na dela, vem quando quer. Gênio forte que às vezes irrita. A mais nova é na dos outros, abraça de graça, de bem com o mundo. Clara adora flores, tem espírito de Cirque du Soleil, vive pulando, dando cambalhotas, se pendurando nas minhas costas. Marina gosta de chocolate – qualquer um a qualquer momento – e é uma Forrest Gump, sempre com uma história para contar. Ambas com uma sacação acima da média. E uma beleza de fazer o sol sorrir e a lua corar.

Podem dizer que falo isso porque quem tem filho feio é coruja. Desculpem, mas não sou eu quem diz. Só reproduzo o que dizem, com um orgulho danado de ter feito, em co-autoria, dois belos exemplares da espécie humana. Belas por dentro e por fora minhas meninas.

Mas como disse no começo do texto: de repente bateu um desespero manso. Depois de colocar as mamadeiras em suas mãos e de elas as pegarem automaticamente durante o sono, tentei voltar para dormir, mas não consegui. Porque comecei a pensar sobre a celeridade do mundo.

Minhas filhas nasceram um dia desses e já estão andando, falando, escolhendo o sabor do Sustagen. Minhas filhas já têm personalidades, opiniões, desejos, preferências, medos, projetos. Minhas filhas, nessa infância linda, já contra-argumentam, já discutem, já me deixam sem resposta.

Quando foi que isso aconteceu? Quando foi que elas deixaram de ser aqueles dois serezinhos que eu fazia ninar com as mesmas músicas que a minha mãe me fazia dormir, há quarenta anos? Quando é que minhas bonecas deixaram de depender dos meus braços para ir e vir? Quando é que deixaram de usar fraldas e passaram a ir sozinhas ao banheiro e a pedir o “papel-higiene”?

Meu desespero manso é por me dar conta de que eu estou perdendo os detalhes de suas vidas. Sei que é exagero, que ninguém pode ficar 24 horas por dia do lado de alguém. Nem saudável isso é. Filhos precisam de espaço para andar e ampliar seus limites, para escorregar, cair e levantar. A vida é assim. Mas amor de pai foge à racionalidade e me deu desespero por não acompanhar cada palavra proferida, por não ler cada olhar, por não filmar cada movimento, por não estar presente em cada descoberta do mundo.

Ser pai ou mãe é desesperador, se você pensar um pouco. Quando temos filhos, ficamos vulneráveis para sempre. Não podemos, como gostaríamos, resolver todas as dores, tristezas, dúvidas e angústias de nossos filhos. No mais das vezes, não podemos consertar suas notas fora de tom no concerto de suas vidas. Como pais, fazemos o melhor que podemos, mas o melhor não é o suficiente na cabeça de um pai ou uma mãe que ama. Sempre estamos aquém. Sempre há a sensação de estar deixando algo incompleto. Porque é isso mesmo: há uma incompletude no papel de pai ou mãe. Continuo achando que o único defeito de Deus é não deixar que possamos transferir os sofrimentos de filhos para nós, pais.

Mas é no espaço aonde não chegam os pais que os filhos surgem. E surgem nas suas especificidades, moldando suas personalidades, abrindo as porteiras do seu mundo por conta própria. Sei que meu desespero é injustificável porque é mais instintivo do que pedagógico. Elas estão crescendo, estão na escola. Daqui a pouco conhecem o amor com suas cores, sabores e dores. Daqui a pouco escolhem uma profissão. Daqui a pouco casam e nos dão netos, os filhos com açúcar, como diz minha mãe. E vou – de novo – confiar em minha mãe, apesar de desconfiar de que não há nada mais doce do que filhos. Quando ela disse que não havia amor maior do que de pai para filho, eu desconfiei. Até ter filhos. Tenho dito aqui e acolá que é o amor que sentimos por filhos é um amor tão grande e tão diferente que deveria ter um substantivo específico para se referir a ele. Amor com adjetivos não serve para filhos.

E um dia eu vou embora. E a mãe vai embora. E elas vão ficar. Meu Deus! Desespero de novo! Quem vai lhes dar colo quando precisarem? A quem elas virão perguntar tudo, como fazem hoje, considerando esse pai babão o mais sábio dos oráculos? Não! Não quero ir. Mas sei que vou. É o ciclo. Contudo, vou, de onde estiver, como uma estrela, ficar brilhando a iluminar os caminhos de cada uma das minhas meninas aqui embaixo. Zelando pelos seus caminhos. Soprando nos seus ouvidos em suas dúvidas. Falando-lhes por sonhos. Beijando-lhes as faces a cada adormecer.

Escrevo chorando. Lágrimas caem comportadas e salgadas em direção aos meus lábios. Lábios que ainda vão beijar muito os pescoços de minhas filhas. Lábios que vão lhes contar alguns truques para não sofrer tanto nesse mundo feito para adultos e não para crianças. Lábios que não cansam de perguntar “sabia que eu te amo?”

Hoje vou passar o dia inteiro colado nas minhas filhas. Registrar cada sorriso, responder a cada pergunta olhando em seus olhos. Sentar no chão para desenhar com o lápis de cor suas ideias, suas flores, seus coelhos, suas histórias. Hoje vou dar comidinha na boca de cada uma delas, aeroportos lindos para colheres-aviãozinhos. Hoje vou desligar o DVD e contar histórias, cantar-lhes “Alecrim dourado” até que caiam no sono. Não há cena que pinte a serenidade como a de filhos dormindo.

Preciso cuidar desse meu desespero. Preciso cheirar mais minhas filhas. Enquanto eu posso. Sempre que puder. Preciso cuidar do meu desespero porque preciso de calma para não errar: para a Ana Clara, sete de leite para uma de Sustagen Baunilha em 210 ml de água. Para a Marina, cinco de leite para uma de Sustagen Chocolate em 150 ml. E desde ontem a Marina só quer a mamadeira da Moranguinho e a Clara a dos bichinhos do fundo do mar. Estão crescendo, minhas meninas. Elas serão sempre “as meninas”. Porque não importa a idade, estamos sempre descobrindo o mundo.  Não é, mãe? Não é, pai?

Máquina do Tempo

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Eu sou esse, de botinhas, olhando para a câmera.Quando era criança de idade, eu era muito danado, dizem meus pais. Há registros nas delegacias da memória de que eu rasguei um sofá a faca para ver o que tinha dentro, de que com a mesma curiosidade, espatifei uma televisão máscara-negra no chão, de que recortei os elefantinhos que estampavam uma toalha de mesa de plástico de uma das minhas tias. Entre os crimes mais leves, conta minha mãe que tirei todas as etiquetas que identificavam os tecidos nas lojas Pernambucanas para fazer um baralhinho. Aprontava tanto que uma vez no catecismo a professora perguntou: “Quem jogou a pedra no Golias?” e eu fiquei quietinho com medo de pensarem que tinha sido eu.

A infância é um momento mágico. O mundo é sempre uma novidade. Conceitualmente, como não temos nada, teoricamente podemos tudo. Da mesma forma que experimentamos com o mundo que se descortina, experimentamos com a linguagem que o desenha para nós. Vejam se não é poesia pura: “Pai, bati meu cotovelo do pé”, “o sanduíche deu um hambúrguer para o sonho do sorvete que o picolé sonhou”, “se minha mãe é mamma mia, papai é pappa pia”, “noite é dia com luz apagada”, “você mentirou pra mim”, “Não fiz nada! É mentira do barulho!”, “hoje não é amanhã”, “eu também quero fazer xixi de canudinho”, “brinca eu, mãe? Tá aqui os brincos”, “pai, você não é criança porque você é pessoa”.

Assim como a liberdade linguística vai se esvaindo com o tempo, perdendo a poesia da linguagem infantil, o mundo vai se adultizando, se pasqualezando com a idade. E cá entre nós: quantos de nós, adultos, lembramos de nossa infância com uma ternura perfumada? Porque, de fato, crescer é muito chato. Para suportar crescer é preciso deixar que a criança que mora na gente não se vá. Muitos enterram a criança quando encontram seu primeiro emprego, quando compram seu primeiro carro ou têm seu primeiro filho. Outros lhe tiram o oxigênio quando arrumam um namorado ou porque alguém disse que se fica feio quando se faz caretas. Ou porque não se sabe dançar.

Claro que precisamos das responsabilidades, mas esquecê-las de vez em quando faz parte de uma irresponsabilidade infantil necessária. É tão necessário para a sanidade lamber a tampa de iogurte, chupar a lata de leite condensado e raspar a forma do bolo de chocolate quanto o é deixar o jantar pronto na hora certa, pagar as contas em dia e se sentir socialmente útil.  Ser uma boa mãe não é incompatível com pedir colo para a sua tantas vezes quanto achar que precisa. Não há nada melhor do que estar exposto a alguém em quem você confia. Minhas filhas se jogam com borra e tudo na piscina quando sabem que os meus braços estão lá dentro a lhes esperar.

Admitamos: ser adulto é muito chato. A gente só vai aguentar até o fim se deixar a criança gritar na igreja, pular cambalhota no rio, riscar a parede da sala da vida. Agradeça por ser adulto e poder dirigir, fazer sexo, comprar coisas. Agradeça por poder escolher com quem vai se relacionar, mas não esqueça de se relacionar com muitas crianças ou com aqueles adultos “idiotas”, aqueles que fazem piadas de tragédias, que não perdem a chance de rir, inclusive de si mesmo. Tire sua criança do armário, sempre que quiser, para fazer coisas bobas e ser mais feliz. Seja, desavergonhadamente, uma criança grande, e deixem que lhe chamem assim. Seja bobo, otário, esquisito, rótulos que adultos que não conseguem se criancizar usam com muita frequência.

Meu número especial, sempre que estou muito adulto, é puxar a bermuda até o peito e sair correndo onde quer que esteja feito um maluco com as pernas abertas. Nada paga o sorriso aberto que minhas filhas dão diante da cena grotesca e divertida. Eu me vejo com 70 anos, vovô, velhinho, divertindo os meus netos com isso, sob a reprovação resignada da minha velha.

Olhos para as minhas filhas e já sinto saudade da época em que as ninava no colo. O tempo passa. É assim. Choro um choro saudável ouvindo “Máquina do Tempo”, do Flávio Venturini. Só rezo ao bom Deus, enquanto tento fazer minha parte, para que elas nunca deixem de ser criança, apesar do tempo que foge. Para mim, como são sempre os filhos para seus pais, elas serão sempre “as meninas”. E eu, bom… eu vou sempre tentar não ser sempre “pessoa”, para ser criança quando der. Feliz dia das crianças para vocês, para os meus irmãos Biafra, Papau, Drida e Djub. E para as crianças. Livres ou reclusas. Novas ou velhas. Como eu.

Oração de pai pra Pai

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Pai e paiPai nosso que estás nos céus, quem Vos fala é um pai de filhas que estão na terra.

Que santificado seja o vosso nome e santo também sejam o meu nome e a imagem que minhas filhas construam de mim, por minhas ações, atos e também omissões. Sim, às vezes é preciso se omitir de certas práticas nefastas que se nos apresentam no enredo da vida.

Pai, que venha a mim o Vosso reino e que no meu pequeno reino, aqui nessa terra, eu consiga à imagem e semelhança do Vosso, construir castelos de respeito, com fossos para nos separar do mal, do vil, do indigno, do sórdido. E que esse meu pequeno reino seja um reino onde habitem crianças de alegria e júbilo, de paz no coração e de mente sadia. Que nos prados e campinas dessas terras minhas crianças genuinamente fiquem felizes com a felicidade alheia. Crianças que colham flores, que riam com pássaros, que brinquem com as formas das nuvens e, sobretudo, que façam o bem.

Que seja, Pai, feita a Vossa vontade, assim na terra como no céu. Que essa vontade Vossa possa guiar-me na terra quando meu livre arbítrio fraquejar, quando minha pequenez humana engasgar nos desafios da vida. Minhas filhas precisam de mim. Os filhos precisam do Pai, bem sabeis. Quando eu chegar ao céu, quero olhar para baixo e para trás na certeza de que nossas vontades coincidiram ao máximo. Vivo dia a dia a esperança que minhas meninas vivam isso. Quero a certeza para segurar as mãos de minhas filhas ao atravessar a rua da vida com que Vós segurais a mão desse Vosso filho. Nesse aperto de mão, se apertam também os laços de amor, de cuidado, de preocupação, de afeto.

O pão nosso de cada dia dai hoje. E dai permitindo que eu vá atrás, que eu o busque. Permita, Pai, que o faça no limpo, respeitando outros pais que igualmente buscam o seu pão de cada dia. Para isso, peço mais: além do pão, dê-me saúde, serenidade, paciência e altruísmo genuíno, sem os quais a jornada diária pelo trigo que alimenta é muito mais árdua.

Perdoai minhas ofensas, assim como eu perdoo a quem me tem ofendido. E seja complacente nesse pedido. Pois se para Vós que sois Pai maiúsculo é fácil perdoar, para mim que sou pai minúsculo é laborioso por vezes desendurecer o coração com os outros, quando esses outros são pequenos, mesquinhos, invejosos, cruéis. Perdoai-me quando não conseguir perdoar. Sei que o perdão prolonga a vida ao expelir a mágoa para fora da alma. Então, Pai, que o perdão seja o desjejum diário de minhas filhas.

Não me deixeis cair em tentação. A tentação do desânimo, a tentação da desistência, a tentação da impaciência, a tentação da desatenção, a tentação da naturalização dos afetos. Minhas filhas compõem-se de cada gesto meu digerido por suas existências. A atenção que não lhes dou é preenchida com outra coisa. O cansaço que me impede de com elas brincar lhes rouba a brita do alicerce da alegria em família. A impaciência no trato com duas pequenas coisinhas, frágeis e dependentes, experimentando e descobrindo um mundo tão complexo, sinaliza uma falta que não posso deixar acontecer. Eu sou responsável por parte do sentido que o mundo terá para elas. Poupe-me das tentações, Pai, para que esses sentidos sejam os melhores no que depender de mim.

E livrai-me do mal. Livrai-me do mal da dor da impotência diante das doenças. Livrai-me do mal da dor do desrespeito mútuo. Livrai-me do mal da dor de falhar como pai. Afasta de mim tudo aquilo que tire das minhas filhas seus lindos e iluminados sorriso de suas bocas. Tudo aquilo que lhes façam se sentir menos gente nesse mundo em que o humanismo é visto como besteira bolorenta. Que o mal se afaste e o bem prevaleça. É o que eu, pobre pai aprendiz, Vos pede, com fé e de todo o coração. Com a certeza de um filho que terá seu pedido atendido. Assim seja. Amém.

Pais de poesia

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Marina, olhando o futuro. Eu, de pai, dando o suporte.Crianças são poesia. Crianças, como os poetas, vêem o que ninguém vê. Quando alguém lhes aponta a lua, elas olham o dedo. Numa loja de perfumes, se encantam mais com as tirinhas nas quais se borrifam as amostras do que com os frascos e fragrâncias. Figuras de revistas cortadas assimetricamente compõem seu mundo do faz-de-conta, sua terra encantada, seu quebra-cabeça individual. Para elas, basta levantar o velocípede e, num segundo, tem-se um carrinho de pipoca, com os pedais servindo de alavanca da tampa da pipoqueira que mexe o milho.

Em meio aos inúmeros cafés imaginários que bebemos, feitos dos mais belos grãos de imaginação e servidos nas mini-xícaras rosas com um carinho sem igual, nossas crianças nos lembram que o real se faz a partir de querências. Cansados pela nossa adultidão, esquecemos que fazíamos isso quando também vivíamos na época da poesia pura, antes de entrarmos na prosa sem graça do dia a dia.

Ao descobrir, olhos brilhando, que um botão acende a luz da lanterna, nossas crianças não nos deixam esquecer que a luz da vida é ligada por nossos botões do desejo. Com um facho de luz, elas desenham caminhos no teto, brincando de criar estrelas. Nossas crianças conseguem ver estrelas no teto do apartamento. Aliás, fazem das paredes e sofás suas telas onde desenham e pintam o que suas cabecinhas líricas imaginam. Sempre há a explicação para aquilo que adultos deseducados para a arte não entendem. Impossível não saber que aquela forma de massinha  irreconhecível é um barco! É lógico que aqueles rabiscos rupestres são flores no campo! E que aquele ponto verde feito com pincel no braço do sofá novo é uma borboleta igualmente nova! Como que alguém não entende que os riscos azuis são um rio e que a bola amarela é o sol? Na parede da casa, rabiscam nossas crianças traços de sua subjetividade, registros de Picassos incorporados em pequenos frascos  de mãozinhas pequenas.

E as brincadeiras da linguagem que fazem nossos Manueis e Manuelas de Barros? Para que “calcanhar” se “cotovelo do pé” é tão lindo? Serzinho de linguagem que se faz amazonense reclamando do “caparanã” que a picou. No sol escaldante dessa terra, nada mais lógico do que pedir para amenizar a quentura: “Pai, assopra o sol!”. Na lua crescente: “Pai, a lua tá rindo!”. Para pôr os brincos: “Pai, brinca eu!”. Do nada, de graça, para fulminar: “Pai, eu te amo!”.

Feitos Pitanguys da realidade, como sabem nossas crianças alterar a plástica de um dia feio para um dia lindo com um simples sorriso! Como os beijos que depositamos em seus rostinhos sonhadores pela manhã nos carregam as energias para um longo dia de trabalho! Como a cena de um creme espremido sem critérios pelo chão da sala e pelo corpo nos faz rir diante do estrago, ensinando-nos com a traquinagem que na vida saber rir de si mesmo é a maior poesia! Quais são os seus segredos para, às 22:52h, elas estarem fazendo a cama do papai e da mamãe de cama-elástica, num pique que mata de inveja a mais potente hidrelétrica?

E seus porquês? Além de poetas, filósofos… “Pai, onde eu estava antes de ir para a barriga da mamãe?”, “Pai, por que eu não tenho um laptop?”, “Pai, por que o Leo é pretinho?”, “Pai, por que a vovó Gracia mora em Campinas?”, “Pai, por que a pipoca faz barulho no microondas?”, “Pai, esse pipi é de você?”, “Pai, por que essa parede é ‘áspera’?”. “Áspera”?! Onde você aprendeu isso, minha filha?…

É dia dos pais. Somos pais de poetas. Somos pais de poesia. Adultos, hoje olhamos para os nossos pais e compreendemos o tamanho do amor de nossos velhos. Com erros ou acertos, a vida toda textualizando amor. Até Deus, que é pai, cometeu os seus erros. Tenho bronca com dois: Como que Ele não pensou numa maneira de nós, pais, transferirmos para nós as doenças dos filhos quando elas se apresentam? E os braços, eu acho que deveriam desenroscar na hora da gente dormir. Mas como todo pai, nEle há mais virtudes do que defeitos.

Uns pais são mais carinhosos, outros mais silenciosos. Uns são mais presentes, outros meio ausentes. Uns ainda estão por aqui, outros já são estrelas no céu. Ou no teto do apartamento, iluminados por uma lanterna empunhada por um neto. Fato é que nossos velhos são feitos de poesia também. São pais de poesia. Porque nos trouxeram aqui. Porque nos deram a tela da vida e as tintas da existência. Porque deixaram que pintássemos o quadro de nosso caminho. As cores, claro, por nossa conta.

Feliz dia dos pais para todos. Feliz dia dos pais para meu pai. Minhas duas meninas, paizinho, não me deixam esquecer a poesia da vida que me mostraste, a poesia que tento ser, a poesia que elas são. Um beijo de gratidão e gordo de amor do filho que os outros dizem, ingrata e injustamente, ser o preferido.

S.

Manaus, segundo domingo de agosto de 2009.