cultura

Quem paga a música escolhe a dança?

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Marisa Lajolo Prof. Titular (aposentada) da UNICAMP
Prof. da Universidade Presbiteriana Mackenzie
Pequisadora Senior do CNPq
Ex Secretária de Educação de Atibaia (SP)
Organizadora ( com João Luís Ceccantini)  do livro
de Monteiro Lobato livro a livro (obra infantil), obra que recebeu
o Prêmio Jabuti 2009 como melhor livro de Não Ficção.

 

“Caçadas de Pedrinho”, de Monteiro Lobato, está em pauta e é bom que esteja, pois é um livro maravilhoso .

Narra as aventuras da turma do sítio de Dona Benta primeiro às voltas com a bicharada da floresta próxima  e, depois, com uma comissão do governo encarregada de caçar um rinoceronte fugido de um circo. Nos dois episódios prevalecem o respeito ao leitor, a visão crítica da realidade, o humor fino e inteligente.

Na primeira narrativa, a da caçada da onça, as armas das crianças são improvisadas e na hora agá  não funcionam. É apenas graças à esperteza e inventividade dos meninos que eles conseguem matar a onça e arrastá-la até a casa do sítio. A morte da onça provoca revolta nos bichos da floresta e eles planejam vingança numa assembléia muito divertida : felinos ferozes invadem o sítio e –de novo- é apenas graças à inventividade e esperteza das crianças ( particularmente de Emília) que as pessoas escapam de virar comida de onça.

Na segunda narrativa, a fuga de um rinoceronte de um circo e seu refúgio no sítio de dona Benta leva para lá a Comissão que o governo encarregou de lidar com a questão. Os moradores do sítio desmascaram a corrupção e o corpo mole da comissão, aliam-se ao animal cioso da liberdade conquistada e espantam seus proprietários. E, batizado Quindim, o  rinoceronte fica para sempre incorporado às aventuras dos picapauzinhos.

Estas histórias constituem o enredo do livro que parecer recente do Conselho Nacional de Educação (CNE), a partir de denúncia recebida,   quer proibir de integrar  acervos com os quais programas governamentais compram livros para bibliotecas escolares . O CNE  acredita que o livro veicula conteúdo racista e preconceituoso e que os professores não têm competência para lidar com tais questões. Os argumentos que fundamentam as acusações de racismo e preconceito são  expressões pelas quais  Tia Nastácia é referida no livro, bem como a menção à África como lugar de origem de animais ferozes.

Sabe-se hoje que diferentes leitores interpretam um mesmo texto de maneiras diferentes. Uns podem morrer de medo de uma cena que outros acham engraçada. Alguns  podem sentir-se profundamente tocados por passagens que deixam outros impassíveis.  Para ficar num exemplo brasileiro já clássico, uns acham que Capitu ( D. Casmurro, Machado de Assis, 1900)   traiu mesmo o marido, e outros acham que não traiu, que o adultério foi fruto da mente de Bentinho.  Outros ainda acham que Bentinho é que namorou Escobar .. !

É um grande avanço nos estudos literários esta noção mais aberta do que se passa na cabeça do leitor quando seus olhos estão num livro. Ela se fundamenta no pressuposto segundo o qual, dependendo da vida que teve e que tem, daquilo em que acredita ou desacredita, da situação na qual lê o que lê, cada um entende uma história de um jeito.  Mas essa liberdade do leitor vive sofrendo atropelamentos. De vez em quando, educadores de todas as instâncias – da sala de aula ao Ministério de Educação-   manifestam desconfiança da capacidade de os leitores se posicionarem de forma correta face ao que lêem .

Infelizmente, estamos vivendo um desses momentos.

Como os antigos diziam  que quem paga a música escolhe a dança, talvez se acredite hoje ser correto que  quem paga o livro escolha  a leitura que dele se vai fazer. A situação atual tem sua (triste) caricatura no lobo de Chapeuzinho Vermelho que não é mais abatido pelos caçadores, e pela dona Chica-ca que não mais atira um pau no gato-to. Muda-se o final da história e re-escreve-se a letra da música porque se  acredita que leitores e ouvintes sairão dos livros e das canções abatendo lobos e caindo de pau em bichanos . Trata-se de uma idéia pobre,  precária e incorreta que além de considerar as crianças como  tontas, desconsidera a função simbólica da cultura. Para ficar em um exemplo clássico, a psicanálise e os estudos literários ensinam que  a madrasta malvada de contos de fada não desenvolve hostilidade conta a nova mulher do papai, mas – ao contrário-  pode ajudar a criança a não se sentir muito culpada nos momentos em que odeia a mamãe, verdadeira ou adotiva…

Não deixa de ser curioso notar que esta pasteurização pretendida para os livros infantis e juvenis  coincide com o lamento geral  – de novo, da sala de aula ao Ministério da Educação—pela precariedade da leitura praticada na sociedade brasileira.    Mas, como quem tem caneta de assinar cheques e de encaminhar leis tem o poder de veto, ao invés de refletir e discutir,  a autoridade veta . E veta porque, no melhor dos casos e muitas vezes com a melhor das intenções,  estende suas reações a certos livros a um numeroso e anônimo universo de leitores  . .

No caso deste veto a “Caçadas de Pedrinho”  ,   a Conselheira Relatora Nilma Lino Gomes  acolhe denúncia de Antonio Gomes da Costa Neto que entende como manifestação de preconceito e intolerância de maneira mais específica a personagem feminina e negra Tia Anastácia e as referências aos personagens animais tais como urubu, macaco e feras africanas ; (…) aponta menção revestida de estereotipia ao negro e ao universo africano , que se repete em vários trechos do livro analisado e exige da editora responsável pela publicação a inserção no texto de apresentação de uma nota explicativa e de esclarecimentos ao leitor sobre os estudos atuais e críticos que discutam a presença de estereótipos na literatura.

Independentemente do imenso  equívoco em que, de meu ponto de vista, incorrem o denunciante e o CNE que aprova por unanimidade o parecer da relatora, o episódio torna-se assustador pelo que endossa, anuncia e recomenda de patrulhamento da leitura na escola brasileira. A nota exigida transforma livros em produtos de botica, que devem circular  acompanhados de bula com instruções de uso.

O que a nota exigida  deve explicar ? o que significa esclarecer ao leitor sobre os estudos atuais e críticos que discutam a presença de estereótipos na literatura ? A quem deve a editora encomendar  a nota explicativa ? Qual seria o conteúdo da nota solicitada ? A nota deve fazer uma auto-crítica ( autoral, editorial ? ) , assumindo que o livro contém estereótipos ? a nota deve informar ao leitor que “Caçadas de Pedrinho” é  um livro racista ?  Quem decidirá se a nota explicativa cumpre efetivamente o esclarecimento exigido pelo MEC ?

As questões poderiam se multiplicar. Mas não vale a pena. O panorama que a multiplicação das questões delineia é por demais sinistro .  Como fecho destas melancólicas maltraçadas aponte-se que qualquer nota no sentido solicitado – independente da denominação que venha a receber, do estilo em que seja redigida, e da autoria que assumir- será um desastre. Dará sinal verde para uma literatura autoritariamente auto-amordaçada.  E este modelito   da mordaça de agora talvez seja  mais pernicioso  do que a ostensiva queima de livros em praça  pública, número medonho mas que de vez em quando entra em cartaz na história desta nossa  Pátria amada idolatrada salve salve. E salve-se quem puder … pois desta vez  a censura não quer determinar apenas  o que se pode ou não se pode ler, mas é mais sutil, determinando como se deve ler o que se lê  !

 


Pescando reflexões

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Fui pescar. É, pescar peixe mesmo. Comprei uma vara completa, com molinete SweepFire 2500B da Daiwa, iscas Borboleta, massinha, pesinho, bóia e tudo que tinha direito. Na loja, o vendedor me garantiu que a isca que comprei, com três âncoras de anzol, pegaria tudo. Uma vez dentro, não sairia “nem com nojo”, como se diz num belo amazonês.

Não, não sou pescador. A única vez que fui pescar foi há três anos, no lago de Balbina, com meu sogro e o cunhado da Bia, que estavam aqui. Pescaram 97 peixes, entre tucunarés e piranhas. Desses 97, eu não pesquei nenhum. Mas torci muito a cada fisgada, eu juro.

Dessa vez, eu disse a mim mesmo, seria diferente. Fomos só eu e meu sogro, que está por aqui. Alugamos um barquinho lá no portinho da Baixa Ponta Negra. Saímos oito da manhã e voltamos lá pelas duas da tarde. Quem foi conosco foi o Luzivaldo, o Lulu, barqueiro, pescador e Forrest Gump, dadas as histórias sem fim que contou nesse intervalo.

O Rio Negro está cheio. Fomos para quatro locais diferentes e nada de peixe. Eu não vi um peixe sequer. Mas vi um boto, fazendo a sua dança arqueada, numa cena de impressionar. Aliás, o Rio Negro é impressionante. Como impressionante também são as casas dos mais abastados e suas lanchas na beira do Rio. Menos imponentes, mas não menos impressionantes, são as casas flutuantes dos ribeirinhos ao longo das margens do Negro. Suas redes penduradas são um convite ao abandono de tudo.

A certa altura, não pescando nada, recolhi a vara do rio. Na saída d’água, a linha ricocheteou e  anzol veio em minha direção. Em um ato instintivo, protegi o rosto com a mão. Pronto! Se não peguei nenhum peixe, já não podia dizer que não havia pego nada. Acabara de fisgar meu dedo mindinho. Pesquei meu dedo mindinho! O anzol entrou fundo. Calmo, absurdamente calmo para os meus padrões quando há sangue escorrendo, pedi ajuda de meu sogro e do Lulu. Lulu, com sua sabedoria herdada pelos seus, creio, 50 anos, disse: “Não puxe não! Tem de empurrar pra cabeça do anzol sair do outro lado!”. “Como assim?!”, disse eu. “Se puxar, finca de vez! Tem de varar do outro lado. A gente então corta a cabeça dele e puxa de volta”. Não bastasse um furo, teria de fazer outro, dessa vez de dentro para fora. O vendedor na loja tinha razão. Aquilo não sairia do meu dedo “nem com nojo”, pois o anzol é como uma flecha: uma vez dentro, puxar só o fixaria mais na carne, nesse caso a do meu dedo mindinho. Macho pacas, eu disse: “Então faz logo isso!”, entregando o dedo ao Lulu e a alma a Deus. Depois do “tuc!”do anzol rasgando o dedo (juro que fez “tuc”!), cortaram a cabeça com alicate e puxaram de volta. Fazia tempo que eu não sentia uma dor tão lancinante.

Resolvida a questão do meu piercing dedal involutário. Continuamos a pescar e voltamos no horário combinado. Sem peixes. Paciência! Mas se não pesquei peixes, pesquei, além do meu mindinho, algumas reflexões que o rio e a pescaria me proporcionaram.

Pesquei a certeza de que a nossa vida é muito pequena diante da grandiosidade da vida, do mundo, de Deus. A imensidão do Rio Negro e suas águas cor de coca-cola colocaram-me didaticamente no meu lugar de efemeridade, de coadjuvante de um mundo maior, incontrolável, impegável, indominável. E foi uma certeza de pequenez grandiosa, se é que você, leitor, me entende. Uma coisa meio socrática sobre a sabedoria do mundo.

Pesquei, na mesma linha da pequenez grandiosa, mais um exemplo da certeza de que sempre tem alguém no mundo que vai saber mais sobre alguma coisa do que a gente. Eu ia puxar o anzol. Graças ao Lulu e seu pós-doutorado em rio, meu dedo não virou uma laranja esbagaçada. Diz ele que uma vez aconteceu algo parecido com um pescador de São Paulo no Uatumã, mas foram seis anzóis e na cabeça. Ele que tirou. Acho que é gumpisse dele, mas ele tem direito. Deixa quieto.

Pesquei, com o caniço da meditação, que o silêncio é tão importante para a melodia quanto as notas que a compõem. Que a pausa faz parte da música. É preciso parar a vida em seu ritmo frenético e esquecer-se de si no mundo. Olhar o rio, o céu, o crespo verde das árvores que emolduram a natureza da vida. É preciso permitir-se, na grandeza externa, refletir sobre a grandeza e a pequeneza interna. É preciso pensar em nada, atingir o nirvana, superar a existência, a pureza, transgredir o físico. Na língua Pāli, “Nibbāna” significa “sopro”, “soprar” e “ser assoprado”.  Para o budismo, é o culminar da busca pela libertação, ser assoprado pela existência sem plano pré-determinado, dançar leve no rio, como fazem os botos.

Aprendi, por fim, que a gente sempre pesca o que já se tem e não se sabe. Mas que é preciso uma chave para que o anzol no dedo deixe de significar dor e signifique prazer. O gozo, diz a psicanálise, é a libertação da dor represada. Mesmo sem pescar nenhum peixe, senti o prazer dos pescadores que, em vez de dedos mindinhos, exibem seus aruanãs imensos como troféus.

Se permita jogar sua linha, leitor, para ver o que vem de volta.  Nem precisa de um molinete SweepFire 2500B da Daiwa! Basta fechar os olhos. Vale a pena.

Já agendamos com o Lulu Gump a próxima.  Vem com a gente?

Memória e gênese

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Essa é a família Barbapapa...No rádio do carro toca “Hard to say I’m sorry”, do grupo Chicago. Comento com minha mulher: “essa música era da trilha de Sol de Verão, com o Jardel Filho”. Como resposta o silêncio. Em seu rosto um ponto de interrogação de quem pergunta: “Jardel quem?!”

Caiu a ficha. Percebi que estou chegando aos quarenta. É só ano que vem, mas meus 39 completados dia seis me colocam numa geração bem específica, aquela que ainda usa expressões como “cair a ficha”. Sou da geração Barbapapa.

A geração Barbapapa assistia ao Globinho, com a Paula Saldanha, e ao Sítio do Pica-Pau Amarelo, na primeira versão. Sofremos com o anjinho da asa quebrada, tivemos medo do Minotauro e da Cuca. Fomos ao fundo do mar com o Aquaman e embarcamos no Seaview, o submarino do almirante Nelson e do marinheiro Kowaski. Torcemos pelos pequeninos em Terra de Gigantes, lamentamos que Tony e Doug não pudessem voltar ao presente em O Túnel do Tempo. Paquerávamos as panteras (a Kelly era minha favorita). E o Agente 86, que foi o precursor do usuário de celular? O dele funcionava num sapato. O tema da Swat embalou muita brincadeira nas ruas do Parque Dez.

Nossos desenhos preferidos eram Mighty Thor, Os Herculóides, Os Brasinhas do Espaço, Os Jetsons, Jambo e Ruivão, Matraca Trica e Fofoquinha, além das Turmas do Zé Colméia e do Manda Chuva.  Para nós, pessoa para baixo sempre será um Hardy, a hiena: “Ó, céus! Ó, vida! Ó, dor”. Ninguém se preocupava com o politicamente correto: Tom & Jerry era uma pancadaria só.

Solidarizávamo-nos com a recorrente solidão do desamado Didi e choramos quando sua cadelinha morreu em “O Trapalhão nas minas do Rei Salomão”. Soluçamos embargados em “ET”. Fomos aos prantos com o pranto do garotinho em “O campeão”. Perguntamos, curiosos, quem matou Odete Roitman.

Brincávamos de Vai-e-Vem, cangapé, Front, Forte Apache. Havia ainda as manjas, a Barra-bandeira e o Garrafão. Lutávamos com o Falcon olhos de águia. Colecionamos os Futebol Cards do chiclete Ploc e as tampinhas com personagens Disney do Bingola. Tínhamos álbuns de figurinhas de todo tipo. Paolo Rossi foi o carrasco de nossa adolescência.

Vestimos verde limão e laranja berrante para estar na moda do New Wave. Compramos o disco da Blitz e demos de presente no dia dos namorados o compacto em formato de coração do Melô do Piano. Odiamos os Menudos e curtimos Duran Duran, Phil Collins, Cindy Lauper, Barry White e Michael Jackson, antes da metamorfose. Fomos dançar na Brilho, onde hoje é o Amazonas Shopping, e na Red Zone. No fim da noite, lanchávamos no Rock Burger ou no Barra Lanche, no Parque Dez. Genesis, Tears for Fears e Pet Shop Boys eram a trilha de nossa noitada.

Escreveria semanas sobre isso. Mas já deu para eu lembrar com saudade o tempo que passou. Estou nesse momento ouvindo a música do desenho dos Barbapapas, que recebi por e-mail. Quem quiser, me peça no sergio@sergiofreire.com.br. A nostalgia é deliciosa.

Se eu parasse no tempo, hoje não veria o sorriso de minhas filhas, que agora tecem suas memórias afetivas da infância. Quando forem mães, seus filhos perguntarão: “Backyardigans?! O que é isso?!” Recordar significa “passar de novo pelo coração”. Quem não faz isso não conhece o que lhe sustenta como pessoa, vive uma vida sem história. A vida é feita de memória e gênese. Há o que alicerçou e há os novos tempos. Vide este jornal. Vide a vida de cada um de nós. E feliz aniversário para mim.

Sérgio Augusto Freire de Souza

Jornal Em Tempo, 05 de setembro de 2007

Palavras viúvas

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Para o Aníbal Beça, com poesia.

Aníbal Beça, marido das palavras...Tenho que me acostumar com o inacostumável. Dia 06 de setembro faço 41 anos. Terei, cada vez com mais frequência, a notícia de que alguém se foi. A morte é a única certeza do futuro. Por isso assusta, desafia, inquieta e nos desconforta.

Hoje se foi o Aníbal. Sempre gostei da poesia de Aníbal. Desde quando a conheci, nos anos oitenta, em uma aula de literatura amazonense na faculdade. Depois, nesses ziguezagues da vida, convivi profissionalmente com o ele quando ele foi Presidente do Conselho de Cultura da Prefeitura de Manaus, na época em que Manaus era mais feliz. O Conselho era ligado à Secretaria de Educação, da qual eu era subsecretário. Vez por outra me reunia com o poeta para tratar de coisas burocráticas. Ou nem tanto. Suas conversas de poeta desburocratizavam a vida, paralisavam o dia, me anestesiavam do corporativismo sufocante da classe. Gordo daquele jeito, Aníbal era de uma leveza…

A admiração pelo escritor, que ganhou vida concreta nessa breve convivência, virou respeito mútuo e um carinho gratuito. Sem muita razão para lhe dar – ele, ao contrário, deu-me sua poesia –, o poeta gostou de mim, gratuitamente, como fazem os poetas. Encontrávamo-nos por aí e sempre com muito afeto nos cumprimentávamos. Passei a receber seus belos poemas como scraps no Orkut, pelo seu perfil hoje cheio de justas saudades. Também os recebia por e-mail. Um deles me tocou sobremaneira. Chamava-se “A primeira falta”. Ela escrevera para sua mãe, dona Clarice, que havia partido. “Colher de pau/Solitária na parede/Onde os doces da mãe?”

A gratuidade do afeto fez com que um dia me ligasse, pedindo meu endereço para me mandar seus livros. Foi em dezembro de 2008. Fiquei envaidecido pela deferência do maior poeta amazonense, para mim sem controvérsias. Recebi os livros com as dedicatórias, cada uma aproveitando o título do livro: “Para o Sérgio Freire, uma incursão à arte oriental pelas Folhas da Selva”, “Para Sérgio Freire, estes 50 poemas escolhidos pelo autor” e “Sérgio querido, eis aqui a Palavra Parelha e outros poemas”. Todos com um desejo também de um “Natal Feliz”. Em outro encontro, sugeriu-me que resenhasse os livros em minha coluna de jornal. Nunca o fiz porque quem sou eu para falar da poesia de Aníbal Beça como crítico? Falo como leitor. Falo com sujeito de linguagem tocado pela sua sensibilidade. “Anúncio” é uma obra-prima: “Há um desejo que me faz cantor/ Há uma paixão saída da sua cor/ Há um amor na contramão da dor”.

Nos “50 poemas escolhidos”, Aníbal abre o livro dizendo “Passei a vida inteira com as palavras. Casado com elas”. É isso. Hoje elas ficaram viúvas. Aproveite os doces da mãe, amigo. Porque “há um amor na contramão da dor” que egoisticamente os que ficam sentem. E também “há uma paixão saída da sua cor”.  Ah, dá licença, poeta… Deixa eu me enxirir para falar da minha tristeza: “Caneta e papel/ Solitários sobre a mesa/ Onde os versos do Aníbal?”…

Darwin e o bico do tentilhão

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Tentilhões e seus bicos...Charles Darwin desenvolveu uma teoria da evolução biológica cujo motor é o fenômeno chamado “seleção natural”. Segundo a teoria, os organismos mais adaptados ao seu ambiente tendem a sobreviver e deixar descendentes, transmitindo suas características genéticas.

Na sua viagem a bordo do veleiro Beagle, Darwin passou pelas ilhas Galápagos, pertencentes ao Equador, durante seis semanas em 1835. Entre os animais que descreveu estavam os tentilhões, aves que têm uma grande variação em tamanho, forma do bico e hábitos alimentares. Existem tentilhões que têm bicos que lembram alicates, capazes de esmagar as sementes mais duras. Outros comem insetos, outros são vegetarianos e um deles, o tentilhão vampiro, dá bicadas para chupar o sangue de aves marinhas.

Segundo Darwin, os variados bicos dos tentilhões são diferentes respostas da natureza para lidar com diferentes necessidades de sobrevivência. Os bicos foram se alterando na medida em que a realidade alimentar foi se modificando. Lendo sobre isso, fiquei pensando nos nossos bicos.

É obvio que a sociedade em que vivo não é a mesma de 1968, quando nasci. Não é a mesma nem de 1995, quando surgiu a internet trazendo a informação como o novo elemento organizador social. Seguindo Darwin, ou meu vegetarianismo se relativiza e meu bico endurece para lidar com as sementes duras dos tempos de hoje ou eu danço. Deixo claro aqui, no entanto, que a questão não é valorativa. É de mérito. Não se trata de se tornar pior ou melhor, mas de se permitir se tornar.

As angústias dos nossos tempos se dão mais por inflexibilidade conceituais do que por outros motivos. Temos dificuldade para entender que o futuro não é mais como era antigamente, que nada mais é como era antigamente. Que bom que eu brincava de cangapé, barra-bandeira, garrafão! Mas querer que minhas filhas brinquem disso é lhes impor uma violência simbólica. Seu tempo e seu espaço são outros. Eu adorava o Sítio do Pica-pau Amarelo. Elas curtem Backyardigans. Eu viajava ouvindo New Wave na minha adolescência, os jovens de hoje curtem Beyoncé.

Para onde a gente olhar, vamos ver que o pau come por essa incapacidade que nós, tentilhões do século 20, temos de nos adaptar às contingências do séc. 21. No século 21, nem algarismos romanos se usam mais. O trema caiu. Os quinze minutos de fama que Andy Warhol previu são uma eternidade num mundo que tem de caber em 140 caracteres. Anteontem o jornal impresso era quente e a revista fria. Ontem o jornal on-line ficou quente, o jornal impresso frio e a revista congelada. Hoje, o Twitter é fervente, o jornal on-line é morno, o jornal impresso é congelado e a revista é glacial. O Orkut, pasmem, já é coisa de ontem.

Ou nosso bico se reinventa urgentemente ou ficaremos anacrônicos e anatópicos, fora do tempo e fora do lugar. Isso vale para as relações profissionais, pessoais, para a comunicação, para a linguagem, para a educação, para qualquer processo social, enfim. A sensação de não-pertencimento, de sentir-se deslocado, é consequência de nossa inabilidade de perceber a mudança e se perceber nela. A mudança tem de ser de essência e não de aparência. Não adianta se vestir de hipertexto e ter a alma de mimeógrafo a álcool. A propósito, adoro Single Ladies, da Beyoncé. O clip então é show.

Enxugando gelo

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[É sério o problema de se recusar a sair dos parâmetros do seu tempo e de seus ranços ideológicos. Mais sério fica quando se quer legislar sobre o novo mundo escrevendo as leis na parede da caverna, como se fossem rupestres. Olhem o que está na VEJA desta semana. Até quando enxugar-se-á o gelo?]

VEJA, 11 de julho de 2009

Brasil

Não sabem o que falam

Falta princípio de realidade ao projeto aprovado
pela Câmara que tenta disciplinar a internet durante
as campanhas eleitorais


Raquel Salgado

Roberto Stuckert Filho/Ag. O Globo
UMA OPINIÃO DINOSSÁURICA
Flávio Dino (PCdoB-MA): “Não podemos aceitar
que a internet seja um território sem regras”

A Câmara dos Deputados aprovou um projeto que faz 173 mudanças na Lei Eleitoral. Dessas, 22 tratam do uso da internet nas eleições e podem ser divididas em dois blocos. No primeiro estão as regras liberalizantes. Elas ampliam, por exemplo, o espaço na rede em que é permitido fazer campanha eleitoral, hoje restrita aos sites dos próprios candidatos. Pelo projeto, os políticos podem passar a usar blogs, redes sociais e e-mails. O restante das medidas é autoritário e está em descompasso com a realidade. Elas equiparam sites de veículos de comunicação e portais a emissoras de rádio e TV, como se os primeiros fossem também concessões públicas e, portanto, sujeitos a supervisão estatal. Não são, fique claro. No projeto, há uma regra que diz que sites e portais devem dar o mesmo tratamento a candidatos e partidos, sob pena de ser multados, e outra que chega a ser mais rígida com a internet do que com os veículos impressos. Veda a propaganda paga na rede, hoje permitida em jornais e revistas. Os deputados também querem proibir a veiculação de vídeos e áudios com montagens que ridicularizam candidatos. É uma tolice que cairá no vazio. Muitos dos sites que divulgam esse tipo de material têm sede no exterior e não são regidos pelas leis brasileiras.

Especialista em legislação de internet, o advogado Renato Opice Blum diz que os deputados tentam tolher a liberdade de expressão. “Muitos artigos do projeto não fazem sentido, como o que exige que todos os políticos tenham idêntico tempo ou espaço na rede. Ora, como isso é possível num meio que prima pela instantaneidade e por abrigar milhões de opiniões individuais?”, espanta-se Blum. O relator da medida, Flávio Dino (PCdoB-MA), rebate: “Não podemos aceitar que a internet seja um território sem regras”. Trata-se de uma opinião dinossáurica, só compartilhada por ditadores chineses, iranianos, cubanos e norte-coreanos, que tentam controlar a rede de computadores. Nas democracias dignas desse nome, a internet é indisciplinada porque sua natureza é indisciplinável. O deputado Dino, tão rígido em relação ao que vai pela rede, mostrou-se flexível em temas mais próximos aos parlamentares. Ele foi favorável a que políticos “ficha-suja”, que respondem a processos criminais, possam se candidatar e também oficializou as “doações ocultas”, feitas aos partidos para esconder o vínculo do doador com o candidato. Possibilitou ainda que erros em prestação de contas de campanha considerados “irrelevantes” sejam perdoados. Como não especificou o que entende por esse adjetivo, abriu uma estrada para absolver políticos que fraudam contas eleitorais. Espera-se que, no Senado, o projeto aprovado na Câmara sofra alterações e perca as tintas do teatro do absurdo.

A Feira de livro e o bola murcha

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Estou escrevendo de Ribeirão Preto. Estou aqui a convite da Fundação Feira do Livro participando da 9ª FeiraCafé Filosófico na 9a. Feira do Livro, em Ribeirão Preto. Sérgio Freire. Nacional do Livro. Na segunda-feira, fui o palestrante convidado de um café filosófico, falando sobre o que sei e gosto: linguagem. Foi excelente, como no ano passado, quando estive aqui pela primeira vez.

A Feira, a segunda maior a céu aberto do Brasil, começou no dia 18 e vai até 28 de junho. Em dez dias estão programados mais de 600 eventos gratuitos, abrangendo literatura e manifestações artísticas. Há mais de 100 escritores da literatura nacional e internacional que participaram e participarão de palestras e debates. São nomes como Milton Hatoum, Carlos Heitor Cony, Fernando Morais, Thiago de Melo, Moacyr Scliar, Márcio Souza, Eliane Brum, entre tantos outros. Há mais de 60 apresentações musicais, com grandes nomes da MPB e apresentação da Orquestra Sinfônica de Ribeirão Preto, além de shows dos chilenos Tita Parra e Antar Parra e de Adriana Calcanhotto, João Bosco, Jorge Vercilo, Lenine, Luiz Melodia, Maria Rita, Oswaldo Montenegro, Paula Toller, Paulinho da Viola, Toquinho, MPB4 e Vanessa da Mata.

A cada ano, a Feira homenageia um país, um estado e uma personalidade. Este ano foram o Chile, o Amazonas e Cora Coralina. E aqui entra um misto de alegria, de espanto e de indignação.

A alegria vem pela escolha do Amazonas como Estado homenageado. Ela se estende porque represento meu Estado junto com Márcio Souza, Thiago de Melo e Milton Hatoum, grandes nomes da literatura da minha terra. O espanto se dá por ter constatado, para um Estado homenageado com uma cultura artística e literária rica, a ausência dessa riqueza. Onde está nossa música? Por que somente nós quatro? Ressalte-se a presença da Editora Valer, disseminando a publicação regional. A indignação emerge por saber que a ausência do Estado não se deu por causa da organização da Feira, mas por vaidade de quem gere a cultura no Amazonas.

A Feira enviou um emissário a Manaus para articular a presença do Estado no evento, com público de mais de 400 mil pessoas. Foram 21 dias em Manaus tentando falar com quem decide. No Município, a secretária de cultura marcou e furou, deixando o representante esperando. No Estado, os ofícios da Fundação foram solenemente ignorados pelo Secretário que, estou começando a desconfiar, tem bronca com livros. Sua vaidade não permite que uma feira de livro aconteça em Manaus. Razão: numa feira de livro quem brilha são os autores e não quem organiza, como num Festival de Ópera ou de Cinema, quando holofotes se voltam para sua figura de black-tie. E não é falta de competência. Quando ele quer, a coisa sai bonita. Quando ele não quer, no entanto, ignora o potencial de retorno estratégico e turístico que um evento como esse tem, deixando de fazer seu papel institucional.

Fico pensando nessa vaidade toda em época de copa do mundo. Ou alguém convida o secretário para dar o pontapé inicial no primeiro jogo em Manaus ou não sei não. Fica aqui a indignação dirigida ao governador Eduardo Braga, para quem a imagem externa do Amazonas parece ter algum valor. Já que falamos em futebol, pisaram na bola, Governador. E feio. E o secretário é o bola murcha do ano.

Acabei de ler “Nós e eles”

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"Nós e eles", de Lúcia Lippi de OliveiraAcabei de fechar a última página de “Nós e eles: relações culturais entre brasileiros e imigrantes”. A autora, Lúcia Lippi Oliveira, faz uso de diversos relatos de histórias de vida de imigrantes e examina qual o lugar desses novos personagens nos textos de autores e pensadores brasileiros, buscando compreender como foi o contato cultural com esse “outros” e identificar a contribuição que esses homens e mulheres deram para o processo de construção de uma identidade nacional. São quatro capítulos: um sobre a imigração espanhola, outro sobre a italiana, um terceiro abordando a identidade caipira  e por fim o último falando dos portugueses. Lúcia é autora de vários livros sobre o tema, tema que, aliás, tem sido de grande interesse para mim: identidade nacional, língua, imigração. Tenho lido bastante sobre isso. O livro vale a pena para quem se interessa pelo assunto e vale a pena para os que gostam de saber mais por saber.

9a Feira do Livro de Ribeirão Preto

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9a Feira Nacional do Livro de Ribeirão Preto - SP A Feira do Livro de Ribeirão Preto, em sua nona edição, virou um acontecimento nacional com a presença de grandes nomes da literatura, músicos de talento e um universo de atividades culturais. Livros, música, cinema e teatro reunidos num espaço democrático acessível à população. Nessa viagem pelo mundo da literatura, a 9ª Feira Nacional do Livro de Ribeirão Preto, que acontece de 18 a 28 de junho de 2009, vai homenagear o Chile, o Estado do Amazonas e a poetisa Cora Coralina. O patrono da Feira será o escritor e jornalista Galeno Amorim.
A Feira do Livro de Ribeirão Preto já está entre as maiores do mundo, sendo a segunda maior a céu aberto do Brasil. O evento cresce a cada ano não só em quantidade de público, mas também em qualidade, assumindo a condição de grande evento cultural, turístico e econômico projetando a cidade nacionalmente. Na edição de 2008, cerca de 312 mil pessoas participaram ativamente de todos os eventos.
Serão 11 dias de programação cultural gratuita para todas as idades. Os números desta edição impressionam: mais de 100 autores confirmados, 25 shows, 71 estandes de livreiros, além de apresentações musicais, teatrais, contadores de histórias e sessões de cinema na praça.

Eu estarei lá, como convidado para um café filosófico no dia 22 de junho. É a segunda vez que sou convidado e que participo falando sobre linguagem. Na Feira deste ano, estarão também Thiago de Mello, Miltom Hatoum, Gaitano Antonaccio e Márcio Souza.

Fica o convite. Clique aqui e baixe a programação da Feira em PDF. Estou na página 24.

Halloween

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Achei essa tira genial. Puristas, sociólogos e antropólogos, se deliciem: