diferença

O açúcar é doce, o sal é salgado

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O mundo é pequeno pra caramba/Tem alemão, italiano, italiana/O mundo, filé à milanesa/Tem coreano, japonês, japonesa…/O mundo é uma salada russa/Tem nego da Pérsia/Tem nego da Prússia/O mundo é uma esfiha de carne/Tem nego do Zâmbia/Tem nego do Zaire…/O mundo é azul lá de cima/O mundo é vermelho na China/O mundo tá muito gripado/Açúcar é doce/O sal é salgado…/O mundo caquinho de vidro/Tá cego do olho/Tá surdo do ouvido/O mundo tá muito doente/O homem que mata/O homem que mente…/Por que você me trata mal?Se eu te trato bem!/Por que você me faz o mal?/Se eu só te faço bem!…/ Todos somos filhos de Deus/Todos somos filhos de Deus/Só não falamos/As mesmas línguas…/Everybody filhos de God/Everybody filhos de God/Só não falamos/As mesmas línguas…/Everybody filhos de Gandhi/Everybody filhos de Gandhi/Só não falamos/As mesmas línguas…

Já diziam os antigos filósofos gregos que a virtude está no meio. Eu respeito muito os filósofos gregos. Assim como respeito os velhos e sábios provérbios chineses. A propósito, há um velho e sábio provérbio chinês que diz que “a fruta madura não é a verde nem a podre”. Simplicidade de ideias. Sonho de consumo de quem escreve.

O ponto tanto dos filósofos quanto dos chineses é o mesmo: a vida precisa de equilíbrio. O desequilíbrio ferra tudo. O corpo precisa de equilíbrio e seu desequilíbrio é a doença. O amor precisa de equilíbrio e seu desequilíbrio é a crise. O bolso precisa de equilíbrio e seu desequilíbrio é a falência. A fé precisa de equilíbrio e seu desequilíbrio é o fanatismo. O humor precisa de equilíbrio e seu desequilíbrio é o preconceito. Se há o meio, há sempre os dois lados.

Por um lado, a vida é feita das preocupações sociais. Não podemos esquecer da crise do Euro, CPI do Cachoeira, Mensalão petista, Privataria tucana, Belomonte, Código Florestal, Adote um Bichinho Coitado, das liberdades das práticas religiosas que oprimem. É enriquecedor apreciar o cinema alternativo do Canal Brasil, a música metafórica de Chico Buarque, a bem-cuidada literatura de Milton Hatoum e dos clássicos russos Dostoievsky e Tostoi. Como são lindos os quadros retratando o feminino de Modigliani. Ainda que não saibamos, cada uma dessas coisas faz parte de nossas vidas, uma vez que vivemos em um mundo enredado em que o bater das asas de um borboleta na Indonésia tem efeitos no clima do Brasil, como nos ensina a teoria d’O Efeito Borboleta de Edward Lorenz. Seu “capital simbólico”, um conceito de Bourdieu, aumenta se você conhecer a teoria de Lorenz. E a teoria de Bourdieu, claro.  Precisamos mais do que nunca estar antenados para tudo isso aí de cima, conhecendo a história humana e ampliando nosso espaço de circulação cultural.

Mas a vida tem um outro lado. Se ela é feita das necessárias preocupações sociais, ela exige para seu equilíbrio um lado mais leve, o lado do lúdico. A vida é feita também de humor, de alegria. “O que que um gás disse pro outro? Vamos vazar!” Eu achei isso muito engraçado.  É do Patati & Patatá, que me lembram o humor direto, básico e politicamente incorreto d’Os Trapalhões de quando eu era criança. É legal pegar uma roupa de boneca,  vestir o Manolo, meu gato, e postar a foto engraçada no Facebook. Ele é nosso gatinho, brincamos com ele, o amamos de paixão e isso não fere “o direito dos animais”, como às vezes uns azedos comentam. É fundamental respeitar quem encontra em Deus e na religião o seu refúgio e seu bálsamo. A intolerância religiosa se refere inclusive àqueles que não têm religião em relação aos que têm. Deixa o cara rezar! Se ele enche sua timeline de post religiosos que lhe incomodam, bloqueie ou deixe de seguir suas postagens. A não ser que você curta um masoquismo. Sinceramente, eu acho que é bom demais cantar aquela música grudenta das empreguetes da novela, ler vez por outra Paulo Coelho com sua literatura de autoajuda, que vende e que, por isso, incomoda muita gente. Eu penso que é inveja pura do Mago. E os grafittis de rua? Cada coisa mais linda… Quem foi para o Roça d’A Fazenda? E para o paredão do Big Brother? Sim, a vida tem suas horas de Djavan. Mas a vida também  é feita de  tchu, de tcha, de tchu tcha tcha tchu tchu tcha, tchu tcha tcha tchu tchu tcha. É feita de videocassetadas, de jogar gelinho, de chorar de rir de piada tosca e politicamente incorreta com os amigos na mesa de bar.  A vida precisa de tosquices. A tosquice tem um caráter balanceador na sanidade das pessoas. Eu tenho medo das pessoas que não se permitem curtir tosquices.

Antes que cheguem e-mails e comentários cabeças me xingando, um aviso: não estou dizendo que as pessoas devam curtir uma coisa ou outra, seja na linha do papo-cabeça ou da cultura pop. São exemplos apenas. O que estou sustentando – e este é o assunto desse texto – é que a vida precisa de equilíbrio. Em vez do Chico, Beto Guedes. No lugar da Big Brother, JackAss. Sei lá. Que cada que um ache os seus. É o tchiiiii da panela de pressão de cada um que precisa funcionar, senão ela explode. Gente sem equilíbrio é azeda ou é fanática. Ou as duas coisas. De qualquer forma, é sempre insuportável. As pessoas precisam de açúcar e de sal.

O mundo é uma salada russa. O mundo é azul lá de cima. O mundo é vermelho na China. O mundo tá muito gripado. O açúcar é doce, o sal é salgado.

Dias de chuva

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Sim, a gente se desentendeu…/Pense não ser bom fugir,/da paixão se proteger./Volta ao normal/Antes de nascer o sol/Se pintar tristeza, ouça o coração/Vi que ficou cinza a cor do azul/Mas por que chamar a dor/Antes de acontecer/Traga com o Sol/Paz aqui pro coração/Peça pra esse inverno chamar o verão/Bom demais sentir você por perto mesmo sem te ver/Estar feliz a todo tempo/Claro para nós que não há nada mais a se fazer/Fazer voltar os bons momentos/Eu já sei de cor a cor do azul/Passou o vendaval/Voltou a brilhar o Sol/Tudo é amor/Se a paixão nos fez chorar/Não passou de chuvas, chuvas de verão/Bom demais sentir você por perto mesmo sem te ver/Estar feliz a todo tempo/Claro para nós que não há nada mais a se fazer/Fazer voltar os bons momentos/Me perdoa por você chorar/Dias de chuva são/Véspera de tempo bom/Sigo com o Sol/Cai a chuva pelo chão/Deixo a tristeza e ouço o coração/Siga com o Sol/Cai a chuva pelo chão/Deixa a tristeza e ouça o coração.

Sim, a gente se desentendeu.  Mas quem não? Ah, eu não compraria um carro usado de um casal que diz que nunca brigou. Um amor idealizado, sem brigas, sem rusgas, é um amor que não range suas diferenças, fundamental para fazer a engrenagem da vida a dois rolar, tecendo a rede de memória que alicerça a história da relação. Buscar uma assepsia impossível na relação acaba com o sistema imunológico do amor. É preciso por os pés descalços na lama para pisar firme na grama.

Nossa briga é desvio, não caminho. Por isso, me ouça. Pense que não é uma boa fugir de nós. Eu sei, parece que a distância ajuda na hora da carne aberta pela navalha da palavra mal dita, pela lâmina do erro maldito. Todas as pessoas erram, mas só as que são grandes pedem desculpas olhando nos olhos. Olhe nos meus olhos. Quero-me grande para você, ainda que agora seja liliputiano. Quero pedir desculpas sinceras. Se veja no meu olhar sincero e me permita que eu me veja no seu. Foi assim que nos entendemos na primeira vez, lembra? Ficar longe, sem querer conversar, é se proteger da paixão.

Precisamos – eu, você, nós – voltar ao normal antes do nascer do sol. Está escrito nos estatutos do amor que ninguém que ama deve dormir sem dar um beijo de boa-noite para fechar o dia, tenha sido ele bom ou ruim. O beijo de boa-noite noite é Deus rendendo nossos anjos da guarda. Permita que Deus entre. Quem tem um lastro, uma história, como nós, pode apostar no coração como avalista quando pintar a tristeza. É preciso ouvir o coração. Como um velho sábio das montanhas do Tibet, ele sussurrará no ouvido de sua alma o que melhor há de fazer.

Na cromotipia da vida, às vezes a cor do azul fica cinza. Nublam o celeste as tristezas gris. Um erro, um deslize, um momento em falso pode alterar a meteorologia de nosso afeto. Mas nuvens, chuva, raios e trovoadas estão ali por instantes. O normal é a cor azul e sua paz infinita.  Mas por que chamar a dor antes de acontecer? Há um ponto tênue de controle entre o silêncio regulador e a palavra descarrilada. Um ínfimo hesitar ou um micromovimento que altera tudo o que somos, tudo o que temos, tudo o que podemos vir a ser. Não nos abortemos por migalhas.

Não esmaeça por minha causa. Não se esvazie do seu gás por causa de uma alfinetada minha. Traga com o sol paz aqui para o coração. Sua luz se expande ao tocar em meus pontos escuros. E vice-versa. Porque somos diferentes. Precisamos da diferença para, dividindo a vida, somar os caminhos e multiplicar as possibilidades. Ah, “navegar é preciso, mas viver não é preciso”, como precisa é a aritmética. Olhe nos meus olhos… Invento joguinhos de palavras piegas e cito o  poeta para fazer uma ponte entre nossos olhares, a única forma de cruzar esse Rio Amazonas que nos separa.

Um inverno. De repente um gelo inesperado. Um inferno. Andávamos há pouco descalços na areia da praia, sob o calor do sol e das nossas mãos dadas. Um erro, um deslize, um passo em falso… Mas e nós? Olha, peça para esse inverno chamar o verão! Tem aquela praia que desenhamos no guardanapo, com um coqueiro e uma casinha esperando por nós, lembra? Lembra?

É bom demais sentir você por perto, mesmo sem te ver. O amor é fisicamente incoerente: o vazio da ausência não cabe dentro da gente. Transborda. […] Ei, eu estou desesperado com teu silêncio. […] Queria estar feliz a todo tempo, como antes. Claro para nós que não há nada mais a se fazer: só fazer voltar os bons momentos. […]

Um sorriso.

Você está me olhando nos olhos…

Eu já sei de cor a cor do azul. Passou o vendaval e voltou a brilhar o Sol. Tudo é amor. Se a paixão nos fez chorar, não passou de chuvas, chuvas de verão. As chuvas alimentam a vida à custa da falta de sol momentânea. Que nossas chuvas sejam nutrientes de nosso ecossistema e não deslizadoras das montanhas de nossas geografias. Bom demais sentir você por perto. Bom demais sentir o teu cheiro. Bom demais, ponto. Uma vida, uma história, uma trilha sonora, nossos detalhes, nossas manias: recuperamos tudo de uma quase perda total. Que buraco ficaria na antologia universal do amor!

Me perdoa por você chorar? É que dias de chuva são véspera de um tempo bom… Comecemos novamente o nosso tempo bom. Eu sigo com o sol, cai a chuva pelo chão e eu deixo a tristeza e ouço o coração. Siga você também com o sol, pois cai a chuva pelo chão. Deixe sua tristeza e ouça o coração…

Há um ponto tênue de controle entre o silêncio regulador e a palavra descarrilada. Um ínfimo hesitar ou um micromovimento que altera tudo o que somos, tudo o que temos, tudo o que podemos vir a ser. Dias de chuva sempre vêm. Mas o sol surge indefectível. Um beijo, meu bem. Boa noite.

Os cisnes que nos habitam

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“Quero falar de sua mania de negar o que é
e de explicar o que não é”.
Edgar Allan Poe
Duplo Assassinato na Rua Morgue

As contradições internas de nossa subjetividade e a dificuldade de se lidar com elas. É esse o tema de fundo de Cisne Negro (Black Swan). Assisti ao filme e gostei demais.

À primeira vista, a bailaria Nina Sayers (Natalie Portman, magnífica e merecedora do Oscar) é movida pelo desejo de superação. Quer se tornar a “prima ballerina” da companhia de Thomas Leroy (Vincent Cassel). Uma parede psicológica, no entanto, precisa ser superada: O Lago dos Cisnes, o balé de Tchaikovsky, que Leroy decide montar e que serve de trigger para os conflitos.

Para Nina, viver Odette, o “Cisne Branco”, não é problema. Ela é a própria metáfora do cisne branco: pura e inocente. Seu desafio é a interpretação de Odile, o “Cisne Negro”, o seu outro, a sensualidade, a  sedução. O público acompanha a desintegração de sua sanidade enquanto ela enfrenta a pressão do diretor, a projeção da mãe superprotetora  (Barbara Hershey) e a chegada de uma bailarina concorrente (Mila Kunis), em si própria um cisne negro por default.

Acompanhei o filme pensando em duas coisas: os conflitos internos que compõem a subjetividade e a relação da histórias com os conceitos de Real, Simbólico e Imaginário, do psicanalista Jacques Lacan. Vou de trás para frente.

Longe de querer simplificar e rasterizer os conceitos lacanianos, tentarei trazê-los para parâmetros de reflexão sobre o tema. Para Lacan, quando o indivíduo entra na linguagem, ele se subjetiva e se desnaturaliza. A linguagem se interpõe entre o sujeito e seus desejos, suas querências. Não dá mais para realizar o gozo dos desejos animais porque a linguagem nos ensina valores, conceitos e regras que nos limitam em nossas ações e omissões. A linguagem, que é o Simbólico,  carrega os sentidos do mundo que aprendemos, monta o nosso mapa conceitual desse mundo, muitos conceitos dos quais não temos domínio sobre. É um processo do inconsciente. Esse mapa, o conjunto de imagens, é o Imaginário. Mas para onde vão os desejos represados pelo simbólico? Vão para o inconsciente, em forma de pulsão e lá ficam malucos para sair. Saem às vezes em atos falhos e lapsos. Aquilo que o sujeito não consegue atingir, o estado bruto, é o Real.

Ok. Lacan em um parágrafo é querer demais. Mas dá para fazer o link com o tema do filme.

Todos nós, por meio da moldagem da linguagem, formamos uma personalidade visível e uma espécie de personalidade pulsional, o outro eu: o cisne negro, no caso de Nina. O branco andava livre, respaldado pela mãe superprotetora, numa naivité característica. O cisne negro de Nina vai ganhando espaço, se realizando na mudança do imaginário quanto a seu papel no mundo. O sujeito normal encontra formas de aliviar a pressão do que é recalcado, mas quando essa pressão é muita, o sujeito quebra, como Nina, que rompe com os limites do Simbólico, deslocando o Imaginário, reconfigurando-o. Ela rompe ao dar-lhe asas quando toma ecstasy e faz sexo com sua rival, quando a mata, quando se liberta da mãe. Desejos. Pulsões. Seu Real é magnificamente pictorizado no filme pela materialização do cisne negro em seu corpo, como se o aparecimento do mesmo fosse a transformação real do corpo humano no corpo do animal. Ela vai perdendo a razão – isso! a razão! – e a sua desrazão vai tomando conta, dando um 180 na parte dominante de sua personalidade. Sai Odette, entra Odile.

E nós, homens banais, que podemos pensar a partir do filme e de sua leitura lacaniana? Papo acadêmico apenas? Como analista de discurso, creio que nem todo academicismo é masturbação teórica. Eu me arrisco no que segue.

Nós, homens banais, precisamos ouvir Tchaicovsky. Metáfora. Necessitamos achar o equilíbrio entre os cisnes que nos habitam. Entre o eu permitido e o eu pulsional. Entre as contradições. Muito recalque, o sujeito implode psiquicamente. Muita alternância, eis que surge um terreno fértil para a esquizofrenia. O sujeito não pode tocar o Real puro. Tocar o Real puro é atingir a loucura. Precisamos do Simbólico a nos definir o Imaginário, que sempre está se movendo, sob o risco de alienação. É imperioso para o sujeito simbolizar o Real, dar-lhe sentido: pela arte, pela música, pela escrita, pelas tatuagens, pelas mil formas que cada um encontra para deixar vazar aquilo que é demais para lidar cara-a-cara. Somos todos, enfim, Odette e Odile.

Nietzsche dizia: “a alegria deve ser buscada não na harmonia, mas na dissonância”. Dou RT em Nietzsche. Porque nada jamais é descoberto: tudo é reencontrado, trazido à tona graças a um gatilho. Por falar nisso, o que que é aquele sinalzinho no rosto da Natalie Portman… =X

Adoro um livrinho chamado “O Real e seu Duplo”, de Clément Rosset. Já o li inúmeras vezes, cada uma de forma diferente. Diz ele: “Nada mais frágil do que a faculdade humana de admitir a realidade, de aceitar sem reservas a imperiosa prerrogativa do real. Essa faculdade falha tão frequentemente que parece razoável imaginar que ela não implica o reconhecimento de um direito imprescritível – o do real a ser percebido -, mas representa antes uma espécie de tolerância, condicional e provisória. O real geralmente só é admitido sob certas condições e apenas até um certo ponto: se ele abusa e mostra-se desagradável, a tolerância é suspensa”. Só que o controle dessa tolerância não é nosso…

Quantos cisnes e de que matizes existem dentro de você, leitor? E como eles convivem entre si? Quem subjuga quem? Até quando continuaremos com essa mania de, como diz Poe lá em cima, negar o que é e explicar o que não é?

No fundo, todos nós sabemos muito bem que só viveremos uma vez, que somos um caso único, e que jamais o acaso, por mais caprichoso que seja, poderá reunir duas vezes uma variedade tão singular de cisnes fundidos em um todo. Resumo do texto: dance o ballet da vida com suas contradições e sem medo. Duplo sentido para a palavra suas.

Carmelitas digitais

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Caro amigo. É com grande tristeza que sinto informá-lo: você está sendo deletado desta rede social como meu amigo. O motivo é simples. Sou ciumenta e controladora – sei que isso não deve ser novidade para você – mas enfim, eu e meu namorado entramos em um acordo, e a fim de cumprir minha parte neste acordo estou deletando todos os meus amigos do sexo masculino apenas de minhas redes sociais, exceto parentes. Dou a você o direito de achar isto uma idiotice, uma puta falta de sacanagem, etc, imaturidade, etc. Chame do que quiser, mas saiba que espero continuar contando com sua amizade e vice-versa. Meu e-mail está sempre disponível e você poderá contar sempre comigo, menos para aquilo que você já sabe o que é – pedir dinheiro emprestado. Se quiser culpar alguém, não culpe a mim, que sou uma pessoa apaixonada e boboca, não culpe o meu namorado tampouco – culpe a Deus que te fez homem, porque se tu fosses mulher continuarias na minha lista. Kkkkkkkkkkkkk Um grande abraço. E um Feliz 2011.

Recebi essa mensagem de uma ex-aluna no Facebook e achei um barato. Ela é um exemplo prático da paranoia que as redes sociais trouxeram para o relacionamento a dois.  Merece alguns comentários.

Por que as redes sociais digitais assustam algumas pessoas no quesito pôr em risco o relacionamento? Que perigo podem representar para uma relação do mundo real? Há perigo de fato? Fiquei pensando com minhas teclas…

Somos dependentes de nosso mapa do amor. Seguindo o raciocínio estatístico, quanto mais estivermos expostos aos círculos sociais, maior a probabilidade de encontrarmos alguém que preencha os requisitos desse nosso mapa do amor, composto das características que uma vez preenchidas fazem acender a luz: pode ser amor! Assim, quanto mais convivemos com pessoas, real ou virtualmente, maior será a nossa vulnerabilidade para que isso aconteça.

Até aqui beleza: as redes sociais são mais possibilidades de conhecermos pessoas legais que talvez nos interessem. Um achado para quem é solteiro. Dá para conhecer as pessoas a fundo porque ninguém consegue não ser si mesmo por muito tempo. Mas para os casados e comprometidos, o  potencial positivo das redes passa a ser encarado como uma bomba de nêutrons para os relacionamentos: pode fazer a pessoa amada se evaporar para outras bandas. Do jeito que vem, vai. É quando há algumas possibilidades de encarar as coisas.

A primeira: as partes do casal (ou uma delas) passam a proibir, abertamente ou não, que o parceiro participe das redes sociais. Como o casal aí em cima. É o princípio “melhor não arriscar”. Na minha avaliação, é enxugar gelo. Por essa lógica, logo estarão proibidas as amizades do trabalho, da faculdade, de infância e afins. A verdadeira liberdade do amor se encontra na certeza da reescolha no livre arbítrio. Por poder escolher é que a escolha em mim faz dessa escolha uma escolha especial. Desse jeito aí de cima, retirando espaços de circulação, ambos viverão numa mosteiro feito as irmãs carmelistas descalças: isolados do mundo. It’s trying to catch the deluge in a papercup… Fail.

Uma segunda opção: entende-se que o caminho dos relacionamentos na sociedade da informação é feito pelos nós das redes sociais e que isso necessariamente não coloca em risco o relacionamento a dois. Não é bom nem ruim. É assim. Pelo menos não há mais risco do que na própria convivência nos demais círculos sociais. Ficar monitorando à distância é o que resta ao cônjuge – casado ou não – com aquele ciuminho regulatório, aquele que não faz mal e sinaliza que a gente está ligado. Vez por outra pode vazar algo para além do aceitável e uma dê-errezinha corrige tudo. Cada casal acaba definindo sua ética online do que pode ou não. Acho digno. Faz parte da construção da vida a dois. É com o tempo que percebemos que podemos querer bem as pessoas sem querê-las para si. Quando um dos dois não está online, aí o problema se dilui consideravelmente. Só sobram os olhos de Deus a olhar nossos tweets e status.

Uma terceira opção é mais radical. O casal vive as redes sociais como se realmente elas fossem uma second life. Ali, naquele universo digital, tudo que se fala e se faz não tem nada a ver com a vida real. Ou pressupõe-se que. Acompanho alguns casais assim no Twitter. Eu acho estranho. Não dá para esquecer que entre o mundo real e o mundo virtual existe o dedo no mouse como ligação. Que o suporte é digital, mas os sentimentos são analógicos e bem humanos. Para mim, essa escolha é um ato inconsciente e sintomático de egoísmo. E sem valoração aqui. Egoísmo como escolha paradigmática subjetiva. É uma escolha válida. Não é a minha, mas está valendo também.

Nas redes sociais as pessoas podem se encantar por alguém. Podem odiar alguém. Podem se apaixonar e desapaixonar. Podem conhecer o grande amor da vida ou podem chegar a conclusão de chegaram atrasadas naquela história. Quando há compromisso afetivo, são sensações reais que vão aparecer não por causa das redes sociais, mas por causa de algum vácuo no relacionamento que se dá fora delas. Porque no trabalho, na política, na guerra e no amor é assim: quando não se ocupa o lugar vem alguém e o ocupa. É uma lei da física. Da física dos afetos, inclusive.

Mas essas são só impressões minhas. Pode discordar à vontade, leitor. Há pessoas que encontram nas redes sociais o espaço para o exercício de seus outros eus. Um eu-lírico, um eu-literário, um eu-personagem. Nesses eus abrigam-se desejos inquietos, querência contidas, deslimites. E, como num romance pós-moderno, o personagem vaga de rede em rede social, cutucando, aparecendo, sumindo, brincando de esconde-esconde, numa ludicidade que faz bem à alma. A graça está aí. Ser um nó na rede não significa que se precisa ficar parado, feito um nó-cego. Assim, forçar alguém a sair da rede sem querer sair é estragar o gozo do menino na brincadeira de roda. É igual à cena d’O Meu Malvado Favorito: dá o balão para ter o prazer de estourá-lo. Não é amor: é maldade. Fail de novo.

Não busquemos atribuir nossas neuras ao suporte quando elas são dos sujeitos. Vamos resolvê-las aqui fora, numa boa conversa, com olhos nos olhos, porque o sol continua a passar pelos furos da peneira. Aliás, hoje tudo é liquido hoje e escorre pelas mãos. Quem consegue viver fechado para o mundo conectado? Nem as irmãs carmelitas descalças. Dá uma olhada no perfil do Papa no Orkut e vê lá as últimas visitas. É uma metáfora, claro. O Papa não tem Orkut. Só Facebook.

Sabe como eu respondi a mensagem da minha ex-aluna? Assim: Beleza. Feliz 2011. Até a volta. =)

Pescando reflexões

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Fui pescar. É, pescar peixe mesmo. Comprei uma vara completa, com molinete SweepFire 2500B da Daiwa, iscas Borboleta, massinha, pesinho, bóia e tudo que tinha direito. Na loja, o vendedor me garantiu que a isca que comprei, com três âncoras de anzol, pegaria tudo. Uma vez dentro, não sairia “nem com nojo”, como se diz num belo amazonês.

Não, não sou pescador. A única vez que fui pescar foi há três anos, no lago de Balbina, com meu sogro e o cunhado da Bia, que estavam aqui. Pescaram 97 peixes, entre tucunarés e piranhas. Desses 97, eu não pesquei nenhum. Mas torci muito a cada fisgada, eu juro.

Dessa vez, eu disse a mim mesmo, seria diferente. Fomos só eu e meu sogro, que está por aqui. Alugamos um barquinho lá no portinho da Baixa Ponta Negra. Saímos oito da manhã e voltamos lá pelas duas da tarde. Quem foi conosco foi o Luzivaldo, o Lulu, barqueiro, pescador e Forrest Gump, dadas as histórias sem fim que contou nesse intervalo.

O Rio Negro está cheio. Fomos para quatro locais diferentes e nada de peixe. Eu não vi um peixe sequer. Mas vi um boto, fazendo a sua dança arqueada, numa cena de impressionar. Aliás, o Rio Negro é impressionante. Como impressionante também são as casas dos mais abastados e suas lanchas na beira do Rio. Menos imponentes, mas não menos impressionantes, são as casas flutuantes dos ribeirinhos ao longo das margens do Negro. Suas redes penduradas são um convite ao abandono de tudo.

A certa altura, não pescando nada, recolhi a vara do rio. Na saída d’água, a linha ricocheteou e  anzol veio em minha direção. Em um ato instintivo, protegi o rosto com a mão. Pronto! Se não peguei nenhum peixe, já não podia dizer que não havia pego nada. Acabara de fisgar meu dedo mindinho. Pesquei meu dedo mindinho! O anzol entrou fundo. Calmo, absurdamente calmo para os meus padrões quando há sangue escorrendo, pedi ajuda de meu sogro e do Lulu. Lulu, com sua sabedoria herdada pelos seus, creio, 50 anos, disse: “Não puxe não! Tem de empurrar pra cabeça do anzol sair do outro lado!”. “Como assim?!”, disse eu. “Se puxar, finca de vez! Tem de varar do outro lado. A gente então corta a cabeça dele e puxa de volta”. Não bastasse um furo, teria de fazer outro, dessa vez de dentro para fora. O vendedor na loja tinha razão. Aquilo não sairia do meu dedo “nem com nojo”, pois o anzol é como uma flecha: uma vez dentro, puxar só o fixaria mais na carne, nesse caso a do meu dedo mindinho. Macho pacas, eu disse: “Então faz logo isso!”, entregando o dedo ao Lulu e a alma a Deus. Depois do “tuc!”do anzol rasgando o dedo (juro que fez “tuc”!), cortaram a cabeça com alicate e puxaram de volta. Fazia tempo que eu não sentia uma dor tão lancinante.

Resolvida a questão do meu piercing dedal involutário. Continuamos a pescar e voltamos no horário combinado. Sem peixes. Paciência! Mas se não pesquei peixes, pesquei, além do meu mindinho, algumas reflexões que o rio e a pescaria me proporcionaram.

Pesquei a certeza de que a nossa vida é muito pequena diante da grandiosidade da vida, do mundo, de Deus. A imensidão do Rio Negro e suas águas cor de coca-cola colocaram-me didaticamente no meu lugar de efemeridade, de coadjuvante de um mundo maior, incontrolável, impegável, indominável. E foi uma certeza de pequenez grandiosa, se é que você, leitor, me entende. Uma coisa meio socrática sobre a sabedoria do mundo.

Pesquei, na mesma linha da pequenez grandiosa, mais um exemplo da certeza de que sempre tem alguém no mundo que vai saber mais sobre alguma coisa do que a gente. Eu ia puxar o anzol. Graças ao Lulu e seu pós-doutorado em rio, meu dedo não virou uma laranja esbagaçada. Diz ele que uma vez aconteceu algo parecido com um pescador de São Paulo no Uatumã, mas foram seis anzóis e na cabeça. Ele que tirou. Acho que é gumpisse dele, mas ele tem direito. Deixa quieto.

Pesquei, com o caniço da meditação, que o silêncio é tão importante para a melodia quanto as notas que a compõem. Que a pausa faz parte da música. É preciso parar a vida em seu ritmo frenético e esquecer-se de si no mundo. Olhar o rio, o céu, o crespo verde das árvores que emolduram a natureza da vida. É preciso permitir-se, na grandeza externa, refletir sobre a grandeza e a pequeneza interna. É preciso pensar em nada, atingir o nirvana, superar a existência, a pureza, transgredir o físico. Na língua Pāli, “Nibbāna” significa “sopro”, “soprar” e “ser assoprado”.  Para o budismo, é o culminar da busca pela libertação, ser assoprado pela existência sem plano pré-determinado, dançar leve no rio, como fazem os botos.

Aprendi, por fim, que a gente sempre pesca o que já se tem e não se sabe. Mas que é preciso uma chave para que o anzol no dedo deixe de significar dor e signifique prazer. O gozo, diz a psicanálise, é a libertação da dor represada. Mesmo sem pescar nenhum peixe, senti o prazer dos pescadores que, em vez de dedos mindinhos, exibem seus aruanãs imensos como troféus.

Se permita jogar sua linha, leitor, para ver o que vem de volta.  Nem precisa de um molinete SweepFire 2500B da Daiwa! Basta fechar os olhos. Vale a pena.

Já agendamos com o Lulu Gump a próxima.  Vem com a gente?

Muito autoritarismo e pouca autoridade

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Discursos...A Universidade Bandeirante informou em anúncio publicado em jornais paulistas que decidiu expulsar a aluna Geisy Arruda de seu quadro discente. A estudante do curso de Turismo sofreu assédio coletivo no último dia 22 de outubro por ir ao campus de São Bernardo do Campo da faculdade com um vestido curto. O episódio ganhou repercussão na internet após vídeos do tumulto serem postados no ‘You Tube’.

Fiquei pensando sobre o caso desde quando aconteceu. Li opiniões e comentários, tanto os que criticavam a ação dos alunos assediadores quanto os que parafraseavam em suas críticas o ato dos alunos agressores e, com isso, justificavam tal ato como resultado da provocação da moça. Dá para tentar compreender o fato de vários ângulos. Entro nele pela linguagem.

Parece que as opiniões se filiam, grosso modo, a dois discursos. O primeiro seria o discurso da “moralidade sexual” e dos “bons costumes”. Geisy foi “imoral” ao usar um vestido curto, provocando os assediadores que a perseguiram, “desrespeitando os princípios éticos, a dignidade acadêmica e a moralidade”, como diz a nota da Uniban que comunica sua expulsão.

O que seria o segundo discurso se caracterizaria, em tese, pelo respeito à “liberdade de se vestir e de se portar”, do “reconhecimento ao direito das mulheres”, da revolta contra o “preconceito”, do direito à  “democracia”. Segundo ele, todos têm o direito de, não vivendo na ditadura da burca, circular com bem entender. É a ideia de base.

Retirei palavras e sintagmas entre aspas dos comentários em blogs e no Twitter. Há variações, mas sempre são variações sobre esses dois temas: o da condenação da licensiosidade (a vadia mereceu!) e o da condenação do autoritarismo (alunos bárbaros!). Mudam-se as palavras, frases, comentários, piadas, mas ou se está em uma enunciação ou na outra. Qual é a sua?

Condenar a aluna pela saia curta ou condenar o ato dos alunos e agora a posição da universidade, filia o sujeito que condena a um discurso. Em sua nota, A Uniban diz que “a educação se faz com atitude e não com complacência”. Com isso, ela própria, como instituição, assina embaixo que concordou com o ato dos alunos, parafraseando de novo seu ato (dos alunos) com sua atitude (da universidade).

O que a primeira enunciação conceitua como abuso, a segunda chama de direito. O que a primeira chama de exagero, a segunda conceitua como liberalismo. O que a primeira conceitua como provocação, a segunda chama de preconceito. E vão-se infinitamente as falas diametralmente opostas porque vêm de discursos pretensamente diferentes e excludentes. Mas seriam mesmo dois discursos? Um da moralidade e um da democracia?

Todo discurso é funcionamento, prática. Discurso não é o quê se diz, mas como se diz e de onde se fala. Assim, na condenação moral à moça – leia-se moral cristã fundamentalista –, a imoralidade também se faz presente na total ignorância das regras de convivência social. E estou falando agora do comportamento instintivo dos alunos. Pensa-se assim: quando alguém passa dos limites que julgo razoável, tenho que suprimir esse alguém para resolver a desfeita. Superar a diferença é uma opção impensável. Para ficar na mesma linha de raciocínio, a título de exemplo: e se Jesus estivesse na Uniban naquela hora? Gritaria ele, como fizeram os alunos, “Pega a vadia! Liberta essa puta do cativeiro!” ou a cobriria com seu manto? Sentiu o drama?

Da mesma forma, na condenação ao ato dos alunos e da Universidade, podemos ver palavras cheias da intolerância e desrespeito à diferença. Alguns, se pudessem, pegariam os alunos e o reitor e os queimariam ou os empalariam em praça pública. Lei de talião pura. Olho por olho, dente por dente. Ou seja, fazem na prática discursiva o mesmo que condenam na retórica linguística. Não, não adianta dizer que eu sou um reacionário defendo quem quer que seja. Se você está pensando assim, lembro que é de novo seu discurso dando os sentidos para os fatos. Só estou explicitando como os sentidos se fazem pela linguagem que, como disse, é minha praia e aonde vou de sunga, gostem ou não.

O que estou dizendo é que o que parecem dois discursos, por suas expressões linguísticas e enunciações diferenciadas, são de fato o mesmo discurso: o da intolerância, da irracionalidade motivada pela condenação do pensamento diverso, o discurso do pega pra capar. Há, no entanto, um outro discurso: esse sim é diferente porque condena a intolerância em todos os níveis e preza pela superação das diferenças dentro das regras jurídicas e sociais coletivas. Ainda bem que vi isso rolando também nas opiniões. O pensamento de base é: “Se há algo nas regras da Uniban proibindo saia curta, a moça errou e deve receber a punição prevista para a regra que quebrou. Se não há, morreu a história para ela. Se os alunos agressores igualmente quebraram alguma regra social, e devem tê-lo feito pela coisa cabeluda que foi, devem ser punidos também por quem de dever, no caso a Universidade”. Tolerância com o diferente, sem esquecer o respeito às regras. Ponto.

Agora sim, minha opinião. E, claro, ela se filia a esse último discurso. Acredito na democracia, no direito de ir e vir. Acredito também que isso só se conquista no exercício da tolerância e do regramento social. Sem isso, a sociedade vira anomia, vira barbárie. O fato da agressão à moça é lamentável sob todos os aspectos, só servindo para nós pensarmos em que raio de sociedade estamos vivendo. A posição da Universidade foi infeliz. Ficou numa saia mais justa do que a da aluna, legitimando o desrespeito à diferença e sendo injusta porque justiça é tratar desigualmente os desiguais.

Se Geysi feriu alguma norma da Uniban com seus trajes, que os incomodados fossem buscar no regramento suas razões e suas consequências. Se ela fosse minha aluna, como alguém me perguntou no Twitter, daria a ela minha opinião de que assim como ninguém controla os efeitos das palavras ditas, ninguém controla reações exageradas. Há a lei da física da ação e reação, que não pode ser ignorada. Mas diria também que há a lei da sociedade democrática que diz que ações e reações devem respeitar o estado de direito.

Não limitar o comportamento antissocial da turba com a autoridade institucional é criar no juridismo (as leis práticas não escritas, mas exercitadas) um jurisprudência para que outras intolerâncias se repitam. Errou a Universidade. E feio, em minha opinião. O papel de quem regula é regular. Para lá e para cá. E deixar as regras claras, punindo quem as extrapola. Sem isso, cairemos facilmente no reino da impunidade, do moralismo fácil, da hipocrisia e da democracia retórica.

Está na hora do MEC, que é quem regula a Uniban, que não regulou direito a questão, perdendo as rédeas da situação, se posicionar. Porque autoridade não pode ser confundida com autoritarismo, que é exatamente querer mostrar autoridade sem legitimidade. E liberdade não pode ser confundida com licenciosidade, com um laissez-fair, com um tudo-pode. Ou voltaremos todos a usar tacapes e pintar gravuras rupestres nas paredes.

E sabe o que mais? Eu acho muito bonita uma mulher de saia. Por mim, está liberado.

Darwin e o bico do tentilhão

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Tentilhões e seus bicos...Charles Darwin desenvolveu uma teoria da evolução biológica cujo motor é o fenômeno chamado “seleção natural”. Segundo a teoria, os organismos mais adaptados ao seu ambiente tendem a sobreviver e deixar descendentes, transmitindo suas características genéticas.

Na sua viagem a bordo do veleiro Beagle, Darwin passou pelas ilhas Galápagos, pertencentes ao Equador, durante seis semanas em 1835. Entre os animais que descreveu estavam os tentilhões, aves que têm uma grande variação em tamanho, forma do bico e hábitos alimentares. Existem tentilhões que têm bicos que lembram alicates, capazes de esmagar as sementes mais duras. Outros comem insetos, outros são vegetarianos e um deles, o tentilhão vampiro, dá bicadas para chupar o sangue de aves marinhas.

Segundo Darwin, os variados bicos dos tentilhões são diferentes respostas da natureza para lidar com diferentes necessidades de sobrevivência. Os bicos foram se alterando na medida em que a realidade alimentar foi se modificando. Lendo sobre isso, fiquei pensando nos nossos bicos.

É obvio que a sociedade em que vivo não é a mesma de 1968, quando nasci. Não é a mesma nem de 1995, quando surgiu a internet trazendo a informação como o novo elemento organizador social. Seguindo Darwin, ou meu vegetarianismo se relativiza e meu bico endurece para lidar com as sementes duras dos tempos de hoje ou eu danço. Deixo claro aqui, no entanto, que a questão não é valorativa. É de mérito. Não se trata de se tornar pior ou melhor, mas de se permitir se tornar.

As angústias dos nossos tempos se dão mais por inflexibilidade conceituais do que por outros motivos. Temos dificuldade para entender que o futuro não é mais como era antigamente, que nada mais é como era antigamente. Que bom que eu brincava de cangapé, barra-bandeira, garrafão! Mas querer que minhas filhas brinquem disso é lhes impor uma violência simbólica. Seu tempo e seu espaço são outros. Eu adorava o Sítio do Pica-pau Amarelo. Elas curtem Backyardigans. Eu viajava ouvindo New Wave na minha adolescência, os jovens de hoje curtem Beyoncé.

Para onde a gente olhar, vamos ver que o pau come por essa incapacidade que nós, tentilhões do século 20, temos de nos adaptar às contingências do séc. 21. No século 21, nem algarismos romanos se usam mais. O trema caiu. Os quinze minutos de fama que Andy Warhol previu são uma eternidade num mundo que tem de caber em 140 caracteres. Anteontem o jornal impresso era quente e a revista fria. Ontem o jornal on-line ficou quente, o jornal impresso frio e a revista congelada. Hoje, o Twitter é fervente, o jornal on-line é morno, o jornal impresso é congelado e a revista é glacial. O Orkut, pasmem, já é coisa de ontem.

Ou nosso bico se reinventa urgentemente ou ficaremos anacrônicos e anatópicos, fora do tempo e fora do lugar. Isso vale para as relações profissionais, pessoais, para a comunicação, para a linguagem, para a educação, para qualquer processo social, enfim. A sensação de não-pertencimento, de sentir-se deslocado, é consequência de nossa inabilidade de perceber a mudança e se perceber nela. A mudança tem de ser de essência e não de aparência. Não adianta se vestir de hipertexto e ter a alma de mimeógrafo a álcool. A propósito, adoro Single Ladies, da Beyoncé. O clip então é show.

O ouro e a madeira

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Diferente dos outros ou igual a mim?

O ouro afunda no mar/madeira fica por cima/ostra nasce do lodo/gerando pérolas finas/ Não queria ser o mar, me bastava a fonte/ muito menos ser a rosa, simplesmente o espinho/ Não queria ser caminho, porém o atalho/ muito menos ser a chuva, apenas o orvalho/ Não queria ser o dia, só a alvorada/ muito menos ser o campo, me bastava o grão/ não queria ser a vida, porém o momento/ muito menos ser concerto, apenas a canção.

 

Arrumando meus CDs, me deparei com um chamado Samba Bom Nunca Morre. Levei para o carro para ouvir e lá pelas tantas tocou “O ouro e a madeira”, de 1975, cantada pelo grupo Nosso Samba.

Como trabalho com discurso, aponto duas posições em jogo na música. A posição de quem quer, por um lado, estar em evidência, tem como ambições as expectativas do que é socialmente mais valorizado e, por outro, a posição de alguém cuja realização subjetiva está em ser, estar e permanecer em lugares simbólicos que podem não ter apelo social, mas satisfazem a subjetividade na sua simplicidade.

Há pessoas ouro e há pessoas madeira. Ambos reais e legítimos. Ser um ou outro é resultado das querências históricas que moldam as vidas. Onde habita a melhor da vida? Na fama, sucesso, prestígio social, com bastante dinheiro? Ou na realização pessoal de uma vida fora de tudo isso, no anonimato escolhido, no encaixe social previsível, no prestígio interno e com dinheiro o bastante para viver bem? Ser mar ou fonte? Rosa ou espinho? Caminho ou atalho? Chuva ou orvalho? Dia ou alvorada? Campo ou grão? Vida ou momento? Concerto ou canção? Até que ponto a busca pela provável grandiosidade simbólica não sombreia a paz de uma escolha simples pela felicidade? Quem define o tamanho das nossas ambições, materiais ou existenciais? Nós ou os outros?

Minha tese é a de que o valorativo não é inerente ao lugar, mas surge no encontro (ou desencontro) entre ele e o sujeito. Não há um lugar melhor do que outro a priori. Parece-me que o melhor/pior só aparece na coincidência ou não entre o lugar desejado e o desejo alcançado. Há pessoas que querem ser o mar, o são e são absolutamente felizes. Há pessoas que são o mar e prefeririam ser a fonte, como o eu-lírico da música. Há pessoas que são a fonte e prefeririam ser o mar. E há pessoas que são a fonte e estão realizadas em sê-lo. As duas pontas não são problemáticas. Os miolos sim, pelas não-coincidências.

Angústia, decepções, azedume, tristeza e incapacidade de viver feliz vêm dessa não-coincidência: o sujeito deseja um outro lugar, sofrendo por habitar o seu. O que fazer então? Há duas opções lógicas: continuar tentando migrar a todo custo ou redimensionar seus desejos em função dos limites. Desconhecer o que se quer e o que se é é o primeiro problema a superar. Ser feliz passa por refletir sobre a tristeza.

De que, afinal, estou falando? Estou falando que uma música me diz o que minha vó dizia: “Tudo é do tamanho que você faz. Se fizer pequeno será pequeno, se fizer grande será grande”. É isso. Não dá para criticar sonhos alheios. Nem que ele seja o de não sonhar. Cada um toca sua canção, carrega seu grão, faz o seu momento. A felicidade é escolha. Cada qual no seu quadrado.

 

SF, 15.03.2009, 7:45h

Nós e o Office

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Quem você é?Estava olhando meu computador aqui e vi que na pasta do Office há uma série de aplicativos. Fiquei pensando como os programas têm uma correspondência com a diversidade de pessoas na vida real.

Eu, por exemplo, sou Word. Gosto de falar, escrever, convencer. Sou do tipo sociável, popular. Quase todo mundo escreve usando Word. Raramente fico chateado, mas às vezes, como o programa, eu travo e ponho todo o trabalho a perder. E se não se perde tudo, perde-se boa parte, reconheço. Não tem Control Z que resolva.

Conheço pessoas que são Excel. Não conseguem pensar a vida senão por equações, como se ela, a vida, fosse tão equacionável assim. Os Excel abdicam do presente quando não conseguem formular uma maneira de lidar com um fato, ainda que esse fato lhes agrade. É tão irrefreável a vontade de controlar tudo que os Excel escrevem textos em planilhas. Ignoram que o mundo real não cabe em células, muda o tempo todo – a não ser o que está morto, como diz Clarice Lispector – e que a matematização da vida traz infelicidade, pois afeto, por exemplo, não tem lógica, acontece.

Tenho um amigo que é um verdadeiro Access. Pergunte o nome completo do Galvão Bueno e ele, na bucha: Carlos Eduardo dos Santos Galvão Bueno. Indague qual é a capital de Tuvalu e ele não só diz que é Funafuti como também lhe explica por que o país está afundando. As mulheres são Access de série, pois são capazes de lembrar uma ex-namorada sua, sobre quem você comentou há dez anos, se essa ex lhe deixar um scrap no Orkut.

Há muitas pessoas Powerpoint também. São as que gostam de se amostrar, como dizem os amazonenses. Espalhafatosas, cheias de efeitos e transições, gostam de circular muito. Quase sempre carecem de conteúdo externo para mostrar suas roupagens por aí. Tem aos montes.

Ainda há os Outlook. Esses adoram redes sociais. Conseguem se integrar rapidamente a novos contatos. Tem uma excelente memória, como os Access, guardando conversas por anos. Às vezes, no entanto, os Outlook se colocam senhas e se tornam inacessíveis e impenetráveis. Vastos, misteriosos e assustadores. Como o Mar.

E os Project? Os Project são os que planejam tudo, controlam cada detalhe, organizam as tarefas e cobram prazos. Os Project se zangam se alguém atrasa o cronograma. Verdadeiros bedéis da vida, eles se dão muito bem na carreira privada, mas não rodam direito em computadores públicos.

Você conhece os Publisher? São uns fofoqueiros. Não podem saber de uma informação que logo buscam uma maneira de publicá-la para o mundo. Para isso, já trazem modelos de divulgação pré-formatados. Disseminadores da vida alheia, esses Publisher.

Por fim, os Groove. Feitos para trabalhar em equipe, os Groove de repente dão pau e se isolam. Estamos interagimos bem e, do nada, perde-se o contato e se fica falando sozinho. É muito ruim a sensação de desconexão, principalmente sem nenhuma mensagem plausível do sistema. Indiferença machuca mais do que raiva.

A verdade é que cada um de nós é um pacote com um pouco dos programas do Office, uns mais conhecidos, outros menos. Somos assim para poder rodar num mundo cheio de janelas, tal qual o Windows. Como os programas do Office, somos indispensáveis e, ao mesmo tempo, cheios de bugs. Mas já não dizia Caetano que cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é? Save. Send.

[PS: O Pessoal do código aberto já reclamou que estou fazendo propaganda de software proprietário. Tudo bem, farei uma versão do texto para Linux e OpenOffice…]

Poesia numa sexta à noite

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“Um Dia de Chuva. Um dia de chuva é tão belo como um dia de sol.
Ambos existem; cada um como é.”
Fernando Pessoa