discurso

BIDEN, TRUMP, BOLSONARO E DISCURSO

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As reações à eleição de Biden e à derrota de Trump podem dizer, sob alguma perspectiva, como nós, brasileiros, entendemos a política. Foram basicamente quatro reações ao processo deles lá. Essas quatro reações sinalizam para o funcionamento de quatro discursos.A primeira reação é a do grupo de pessoas que dicotomizam tudo. É oito ou oitenta, ou é amigo ou é inimigo. É a turma tipicamente do Bolsonaro e daquilo que se tem chamado bolsonarismo. “Nós somos Trump? Então quem é Biden é inimigo”. Pouco interessa o mérito da discussão. O pacote é recebido fechado. Aí dentro rola tudo aquilo que a gente já sabe: delírio, fake news, acusação de fraude, China, teorias da conspiração. Tudo para dar conta do comportamento narciso-paranoico. É uma reação de manada automatizada e blocada, que recebe uma voz de comando, a ordem do dia, e a replica ad nauseam. Freud, em “Psicologia das Massas e a Análise do Eu” descreve bem esse grupo. Política aqui é guerra, confronto. “Ou nós ou eles.” E “eles” devem ser suprimidos, inclusive fisicamente, no limite, com todas as armas possíveis.

O segundo grupo é o grupo que surge da reação indiferente. “Não quero nem saber dessa eleição americana. Não tem nada a ver comigo”. Aqui, entram as pessoas que pensam a política como algo miudinho, paroquial e umbilical. “O que que eu ganho com isso? Nada? Então não me interessa.” É a turma que vota porque o irmão vai manter o cargo comissionado, porque o cara que ganhar vai continuar fazendo negócio com minha empresa e coisas assim. A política não tem a ver com a “pólis”, a cidade, o coletivo. Política aqui tem a ver com o “pragmaticus”, do latim, que significa “aquilo que é próprio dos negócios”. Os meus negócios, claro.

Um terceiro discurso é o que vem nas reações do tipo “o que vocês estão comemorando? Não tem nada pra celebrar!” É um discurso que às vezes defende uma retórica mais à esquerda, mas nega Marx – peguemos o Karl como referência, vá lá… – na sua premissa básica: o materialismo dialético como concepção filosófica, que, por sua vez, permite o exercício do materialismo histórico para o estudo da vida social, dos fenômenos da vida coletiva. Apesar da retórica, essa turma nega uma política entendida como dialética, como processo, como negociações. Esse discurso formulaicamente progressista (pero no mucho se pensarmos sua constituição) apareceu nas reações críticas e ácidas a quem celebrou a queda de Trump e de tudo o que ele representa. “Não há o que comemorar, gente!” Para esse discurso, o foco não foi posto na queda de Trump como um passo para mitigar os efeitos do fascismo na política mundial, mas foi colocado na eleição de Biden, “um imperialista porco”, “acusado de práticas pedófilas”, na base do “é tudo a mesma coisa.” É um discurso que não compreende que, em não havendo as condições ideais que gostaríamos que houvesse, às vezes é necessário ajudar, com o nariz tapado, a construir uma parede de madeira para derrubar depois em vez de se omitir e deixar que subam um muro de concreto, cujo trabalho para derrubar será muito maior. Para esse discurso, política aqui é a MINHA política. Tudo aquilo que não parta de mim ou não case exatamente com o que eu acredito não pode ser legitimado e é invalidado. “Não existe política possível sem mim.” É a política feita em caixinhas fechadas com um verniz de preocupação coletiva. É como se houvesse para esse sujeito e esse grupo uma reserva de legitimidade política. Só eles sabem, iluminados que são. E o que torna pior é que a formulação desse discurso é sempre bastante condescendente com quem não faz parte dele. Boa parte da esquerda brasileira mora aqui.

Por fim, há um quarto discurso. Ele vem numa quarta reação à eleição de Biden: a celebração de sua vitória porque essa vitória é a paráfrase de uma quebra de uma importante coluna do muro da política fascista na geopolítica mundial. Quem celebra a vitória de Biden comemora a derrota de Trump. Comemora o enfraquecimento e a perda de lastro do fantoche brasileiro. Comemora o papel decisivo da comunidade afro-americana nessa eleição e o que isso representa na reacomodação do poder político dessa comunidade, como um grande reflexo do Black Lives Matter. Comemora a ascensão de Kamala Harris, uma mulher, a um cargo historicamente de homens e isso não é pouca coisa para quem luta por um mundo menos machista e racista (“Ain, mas ela…” já dispara o cara do discurso acima!). Política aqui é entendida como uma construção permanente, feita de pequenas e grandes vitórias que merecem ser gozadas plenamente para, no momento seguinte, suspender a festa e retomar a luta, que não cessa. Política aqui é compreendida como um processo de negociação contínuo com o adversário – e não inimigo – conjuntural, negociação em que se perde no varejo para ganhar no atacado, naquilo que importa mais naquela dada conjuntura. Política aqui vai buscar o conceito de pólis, como cidadania, como inclusão de quem está fora porque não tem poder político, como negros, mulheres, índios e todo tipo de excluídos econômica e socialmente. Política aqui é superação da diferença – não supressão – por meio do diálogo, dos embates intelectualmente honestos e sem o ressentimento que mina a interlocução. É do jogo.

Política como guerra, como pragmática, como reserva de legitimidade ou como processo de negociação inclusivo e permanente. São quatro sentidos de política que circunscrevo a partir da nossa reação – nós, brasileiros – à eleição de Biden e Harris e à consequente derrota de Trump. Há outros sentidos de política? Sem dúvida. Essa é a beleza da polissemia da língua. Mas trago esses quatro para pensar como esses discursos definem nossas práticas no dia a dia em relação à política, não só stricto sensu, não só em relação à eleição americana, mas também na política da vida do homem banal, como diria Foucault.

Descrever o funcionamento do discurso é o baratinho da Análise de Discurso. Perceber-se como encaixado em um ou outro discurso já é trabalho do dispositivo ideológico de interpretação. Porque todos nós, inescapavelmente, significamos de algum lugar. Não sem resistência, não sem deslocamentos, não sem dores e angústias. E você, leitor ou leitora? Qual é o seu lugar na política?

Discurso & Psicanálise

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A gente é o que a gente tem sido. Somos produtos de nossa prática de pensamento. Ninguém nasce de direita, de esquerda, preconceituoso, religioso, machista, amigo dos animais, liberal, comunista, fã do Roberto. A gente aprende a pensar assim pela vida que chega e não pede licença. E a vida entra via linguagem, no conjunto de experiências a que somos expostos. O jeito de pensar as coisas como nossas verdades se chama discurso. Quem compartilha o mesmo jeito de pensar, então, está certo, coerente, correto, é um dos nossos. É até uma pessoa mais bonita. Quem não compartilha é cego, é estúpido, está errado, é dos deles. E como fica feia a pessoa que pensa diferente de mim… É esse o efeito. O certo e o errado, o bom e o mau são efeitos. Efeitos reais, mas efeitos. Tanto para um grupo quanto para os outros a verdade se constrói da mesma forma sólida e verdadeira. Funciona igual para todo mundo, por isso as pessoas divergem. Isso acontece porque a história não é igual para as pessoas. Daí a diversidade. Assim se produzem verdades. Mas e daí em diante? Daí em diante, no aspecto do jogo das relações humanas e sociais, há um jogo de impor verdades – as nossas – sobre a dos outros. E isso é o político da linguagem: entender como se dá a correlação de forças na sociedade. Há discursos que querem superar as diferenças e achar um modo de sobrevivência nas diferenças. E há discursos que querem suprimir a diferença e aniquilá-las. No aspecto subjetivo, há também de se pensar sobre a relação de harmonia/resistência do sujeito com os discursos que o compõem. Há sujeitos que entram azeitados nas engrenagens discursivas a que estão sujeitos e há outros que tentam, inconscientemente, exorcizá-las, libertando-se desses discursos incomodadores e sofrem com a tarefa. A Análise de Discurso (AD) estuda o jogo de correlação de forças na sociedade, o político, a pólis. Não para dizer quem está certo ou errado, mas para explicitar como está funcionando a construção do sentido para cada grupo de sujeitos. E a Psicanálise cuida do sujeito e sua relação com seus discursos fundadores. Analisar o sentido que se tem de governo – se deve ser mais social, se deve ser menos interventor na economia – é de interesse da AD. Interrogar o que o ódio mortal que seu Zé tem pelo Lula significa e o que que esse ódio metaforiza do não simbolizado em sua história de vida é de interesse da Psicanálise. Compreender como a discursividade sobre a homoafetividade tem mudado no tempo com os deslocamentos das relações humanas é de interesse da AD. Explicitar por que o seu Zé tem uma raiva atávica de gays e o que isso tem a ver com questões mal elaboradas de sua sexualidade é o baratinho da Psicanálise. Estou com saudade das aulas de Discurso…

A falta que nos faz

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O sonho, de Salvador Dali.

Manoel de Barros, um dos meus poetas preferidos, tem uma frase que adoro: “Tem mais presença em mim aquilo que me falta”. O poeta diz de forma fácil o que demorei algum tempo pra compreender teoricamente. Por trabalhar com um determinada corrente de Análise de Discurso, tive de percorrer caminho variados que essa corrente convoca e um desses caminho é o da Psicanálise.

Um dos conceitos em que a Psicanálise se ancora é no conceito de “falta”. A língua, que estrutura o sujeito, separa esse sujeito da natureza, cerceando seus desejos por contingências jurídicas, morais, éticas e de outras ordens que se lhe impõem no momento mesmo em que ele aprende a linguagem. Aprendemos com a língua mais do que sintaxe e morfologia. Esse sujeito, no entanto, resiste à censura do mundo. Seus desejos cerceados criam as faltas, segundo a Psicanálise. Elas vão para o inconsciente e fervilham para, de alguma forma, tentar sair. Por onde saem? Pelas próprias falhas da língua: lapsos, atos falhos e afins. E por comportamentos que lhe dão vazão.

Assim, toda língua falha. Da falha pode surgir o discurso bem-sucedido, que é o desejo reprimido se soltando, um desejo que constitui o sujeito. Virando Descartes de cabeça para baixo, Freud dizia: “Penso onde não sou [na razão]. Logo, sou onde não penso [no inconsciente]. Se compartilharmos das ideias da Psicanálise, então, podemos dizer que a falta nos faz sujeito de linguagem e sujeitos no mundo. É pela falta que nos completamos e na linguagem que ela se faz evidente. É a falta que nos faz.

Ler o mundo discursivamente, sob esse viés, é buscar evidenciar na língua as marcas desse desejo constitutivo do sujeito, do qual nem ele mesmo tem consciência. Comportamentos são práticas e discursos. Portanto, em tudo há uma causa. Umas mais fundantes, outras menos. Umas que se acomodam e umas que incomodam.

Um ódio muito grande em relação à homoafetividade, por exemplo, pode significar uma condenação a um desejo homossexual reprimido por alguma razão. Pode ser a religião dizendo que não dá. Ela diz que não pode, o desejo quer e é reprimido. Aí ele retorna em forma de ódio em relação ao outro que, na verdade, é a transferência do ódio a mim mesmo – nele representado – por eu querer o que me é proibido. “Ah, então quem discorda de gay é gay?” Nem sempre. Freud também dizia que um charuto às vezes é só um charuto. Por isso é preciso fazer análise. Mas pode ser.

A dificuldade de se relacionar afetivamente, de querer namorar, ter uma relação mais séria, de constituir uma família, pode ter origem em alguma falta na infância. A falta da figura paterna – ou sua presença ruim, batendo na mãe ou algo assim – pode levar a pessoa a não querer repetir o risco de ver acontecer com ela o que aconteceu com sua família. A mãe que não deixa o filho casar, por exemplo, porque foi abandonada pelo marido tende a ver na saída do filho de casa o retorno daquele abandono. A falta da figura paterna pode levar o sujeito à adoração de figuras que demonstram um extremo de autoritarismo, em uma forma de preenchimento. “Amo o autoritário porque ele me devolve a autoridade que não tive de meu pai, que me faltou”. O inconsciente dá as cartas.

Uma mãe superprotetora pode querer estar compensando a falta de proteção que lhe fez falta. “Minha mãe não me dava atenção, me abandonou, preferiu meu irmão a mim. Não vou fazer isso com meu filho. Meu filho ninguém abandona, nem por um segundo. Não vou repetir nele a minha falta”. A razão pode dar outras razões, mas o inconsciente pode estar guiando o comportamento.

Veja alguém que esbanja dinheiro, faz questão de fazer a melhor festa das galáxias, de usar as coisas mais caras, ter o último iPhone e um carro de 500 mil. O excesso pode ser sintoma de uma falta de antes – não ter tido recursos financeiros que hoje tem, por exemplo – ou uma falta de hoje: “preencho a vida com isso porque me falta afeto na relação conjugal ou porque, como meu casamento não vai bem, vou punir meu marido gastando muito”. São razões que razão desconhece. Muitas e variadas. Todas vindo de uma falta.

A identificação e preconceito também podem ter causas inconscientes. Muitas pessoas que adoram o ex-presidente Lula o fazem porque veem nele um dos nossos que chegou lá. “Ele sou eu que deu certo”. É a mesma razão, mas com efeito contrário, de quem por ele nutre um ódio irracional – irracional porque foge a razão mesmo, sendo inconsciente. “Odeio o Lula porque ele me lembra um grupo de pessoas de que não gosto, porque ele me lembra que um dia eu já fui igual a ele e odiava sê-lo”. Não adianta perguntar ao sujeito. O inconsciente lhe escapa. As razões da razão serão outras. Tudo processo inconsciente e resguardando o charuto poder ser simplesmente um charuto de novo.

Essa eleição presidencial está cheia de sintomas. Gente que odeia a Dilma porque ela representa o pobre que incomoda de alguma forma. Gente que odeia o Aécio porque ele representa a elite que não se é. Gente que vota com a pesquisa porque, afinal, precisa vencer em algo já que a vida não lhe traz vitórias. Gente que que se sabota porque, por alguma razão, não se vê no direito de ser feliz. Enfim.

Há casos relatados de gente que tem prisão de ventre porque passou necessidade na infância e é avaro até com as fezes. Cleptomaníacos roubam sem necessidade porque acham que não tiveram atenção suficiente na infância e roubam com o desejo inconsciente de ser pegos e ter essa atenção que lhe faltou. Por aí vai a falta fazendo história.

Você pode achar esse papo de Psicanálise um besteira. Muita gente acha. Eu não acho. Por isso, resolvi estudar psicologia. Quanto mais eu leio sobre isso, mais fácil vai ficando entender certos sentidos no mundo e compreender que os comportamentos não são gratuitos. Eles normalmente têm um preço, uma dívida a ser paga. Mas a gente tem de querer olhar o gavetão de nosso inconsciente. É preciso fazer análise e terapia não funciona com o sujeito obrigado. Está a fim?

Faltas. Excessos. Busca de equilíbrio. Diz aí, leitor, qual é a falta que te faz?

Os olhos veem de onde os pés pisam

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As pessoas leem nossos atos com suas referências. Por padrão, pensam que o que nos motiva seria o que as motivaria se estivessem em nossos sapatos. A linguagem, essa linda, apaga isso para o sujeito, que se esquece filiado a uma rede de sentidos prévios: os discursos. Por isso a gente fala que as pessoas “dão sentido” a um fato, uma frase, um texto. Os sentidos já estão nelas. São apenas disparados pelos fatos, pelas frases, pelos textos. O velho do rio só acha o que ele deixou lá…

Semiótica dos afetos digitais

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As redes sociais reinventaram a semiótica dos afetos. Hoje curtir uma foto ou um post pode equivaler a dar um sorriso insinuante ou passar a mão nos cabelos. Cutucar alguém é tão polissêmico quanto o conceito de liberdade. Compartilhar um link tem por vezes o valor do bilhete no guardanapo. Como os sentidos da linguagem falada, esses sentidos vão sendo construído pelos atores dos jogos de linguagem. Muitos dialogam em dialetos próprios, pidgins do internetês. O sujeito digital aprendeu que pode se significar e ressignificar de muitas formas. Como na vida analógica. A linguagem é como nos falamos aos outros. Nela dizemos e nos dizemos. E vamos nos entendendo por aqui…

Mouse pintado não basta

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O Grupo de Pesquisa Discurso e Práticas Sociais (UFAM/CNPq), que coordeno, tem analisado na Universidade questões sobre contemporaneidade e redes digitais. Uma das áreas em que tenho orientando pesquisando é a da democracia na interface com o mundo digital. O que temos percebido é que as redes digitais estão sugando a indignação das pessoas quanto às questões  políticas dando a impressão de que aumentou o controle social e, portanto, a pressão política. Por que “dando a impressão”? Porque essa indignação manifesta nas redes não tem tido força para sair do mundo dos bits & bytes. Vide no Brasil casos como o “Fora, Sarney!” e toda pressão sobre Belo Monte.

Com o advento das tecnologias de informação e comunicação (TIC), a mobilização que tem efeito político real para políticos da era pré-internet [a maioria que ainda decide o jogo] perdeu força. Por mais que a tese seja controversa para alguns, a Internet não gera revolução via hashtags ou botão de curtir. E a Primavera Árabe? O que aconteceu na Primavera Árabe, vejam só, foi o resultado de um acúmulo de situações históricas que levaram a indignação às ruas, em efeito dominó. As TIC desempenham um papel importante não como disparadoras, mas como propagadoras. Aí sim.

Isso tudo para dizer que vimos todos os dias nas redes indignação de toda sorte. É com a segurança que assusta, com a educação de má qualidade, com o transporte que não serve, com a cidade tomada pelo lixo, com os aluguéis estranhos de casa de amigos, com shows caríssimos mal explicados, mas tudo segue do mesmo jeito. O poder público parece nem se importar com o vulcão revolto das redes porque percebeu que ele está circunscrito às telas de computadores, como a vela digital que fizeram para Steve Jobs. Vivemos com o vulcão digital em permanente erupção. Na tela do computador.

Papo de acadêmico? Pode ser. Divisão social do trabalho é assim. A saída parece não ser gritar mais alto nas redes. Nâo somente isso. Isso também. Mas mudar efetivamente a matriz política que está aí, lembrando de todas essas indignações na hora de votar. O que precisamos é fazer as indignações se materializar num quadro político que entenda que a internet não é uma coisa à parte da sociedade, mas parte integrante dessa nova sociedade. Políticos e agentes públicos em geral que vivenciam a internet têm mais condição de transformar as lavas do vulcão digital em combustível propulsor de mudanças. Os outros estão velhos demais para isso, não se importam e continuam a não se incomodar com o que rola nas redes digitais. E como eles estão numa rede de poder real, dão as cartas com a Poker Face de sempre. Vendem as ilusões de uma cidade e de um estado lindos nas propagandas, de um judiciário não corporativista e de um legislativo que vem fazendo a sua parte sem advogar administrativamente – coisas contra as quais muita gente se indigna tanto [na internet] – E seguem as estripulias.

No fundo, mudou o cenário, mas o enredo é o mesmo. No entanto, não é o cenário que temos de mudar: é a história e os protagonistas. Isso a Primavera Árabe nos mostrou lá fora. Mas temos exemplos aqui mesmo em casa, como o movimento das Diretas Já. É preciso mais do que pintar o mouse de verde e amarelo. É necessário mesmo é pintar as caras, como alguns fizeram um dia nesse país.


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A bunda da Siemens

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[Texto publicado originalmente em 05 de fevereiro de 2004. Já discutia o bloqueio de informaçõe na internet].

Muita gente me pergunta a razão de eu não publicar os escritos em algum jornal. A resposta é que, primeiro, eu nunca ofereci e, segundo, nem sei se eles aceitariam essas mal digitadas. Até que poderia ser uma boa, pelo menos em termos de alcance de leitores. Mas enquanto eu não recebo uma proposta irrecusável da Folha de São Paulo, eu publico aqui mesmo no meu site e envio os textículos – com xis! – para uma lista de amigos, parentes e alunos que, gostando, vão passando e vão passando e vão passando…

Adoro feedback. Gosto de saber o que as pessoas pensam a respeito do que escrevo. Sempre recebo mensagens muito legais, como o gentil e-mail que me foi enviado pela mãe do meu cunhado Digão, a Dona Nazaré, se dizendo minha fã. Ganhei o dia. Mas na última semana, quando escrevi sobre reuniões de condomínio, uma resposta me surpreendeu. O e-mail era da Siemens, a fábrica. Primeiro pensei que pudesse ser obra sacana do My Doom, o vírus que encheu o saco e as caixas de entrada semana passada. De repente poderia ter vindo atachado nas infinitas e pesadas  apresentações de Powerpoint enviados pela Ana Célia. Mas como diria a Néia, que trabalhou para a minha mãe: O “peor” é que não era o vírus, não. Era um e-mail automático da empresa mesmo dizendo que meu texto havia sido sumariamente deletado assim que chegou a seus servidores pelo fato de conter a palavra “bunda”.  Parece que essa é uma palavra proibida de circular na Siemens. Será que lá ninguém tem bunda? Curioso com o fato, analisei detalhadamente o e-mail e verifiquei que se tratava de um programa censor automatizado que se baseia numa série de palavras para vetar alguns e-mails recebidos pelos funcionários, no caso em tela uma aluna minha da pós-graduação que lá trabalha e que, suponho, não recebeu o texto e, por conseguinte, não viu minha bunda passar.

São duas as questões que tilintam nos meus dedos por causa desse episódio: os limites da liberdade de expressão e o controle da linguagem. As perguntas que se colocam são: até que ponto podemos selecionar previamente um conteúdo para outras pessoas, seja ele qual for? Até que ponto podemos decidir para terceiros o que é ou não desejável, bonito, ofensivo ou abominável, tirando-lhe assim o direito de conhecer para escolher ou, inclusive, para não escolher? Taí: se tem uma coisa que é abominável e ofensivo na minha opinião é a censura prévia. Não concordar com algo e fazer uso de qualquer nível de poder para forçar que outras pessoas também não concordem é uma violência simbólica ferrada. Não gosta, mermão? Então não lê, não assiste, não compra, não usa, muda de canal. Há quem goste, quem leia, quem compre, quem use e até quem grave o canal. Tem gosto para tudo. Tem gente que veste amarelo. Tem até quem seja Flamengo! O direito à escolha é uma prerrogativa do seres humanos e dos Flamenguistas  e temos vários momentos na história da humanidade em que esse direito foi cerceado, estando a própria história aí para dizer como foram ruins esses momentos e como eles não deixam nenhuma saudade.

Escolher seja lá o que for não é um ato neutro. O programador – ou alguém que manda nele – listou uma série de palavras e decidiu por todos, como se tivesse procuração geral. Decidiu que eles não deveriam ler aquilo que ele acha indecente, imoral ou inapropriado, conceitos, aliás, bastante subjetivos e definidos por formações discursivas diferentes de formas diferentes. Sei não, mas eu estou mais na turma do “Deixa eu ver para ver se quero” do que na do “Vixe! Tira isso daqui! Deusulivre, mana! Pé-de-pato, mangalô, três vezes!” Recebo todo dia um monte de mensagens sobre coisas que não importam, muitas das quais não preciso, como aquelas mensagens de enlarge your penis . Eu passo a vista e decido se me útil ou não. Nesse caso, diga-se de passagem, não é. O importante disso tudo é que eu decido e não quero ninguém decidindo por mim.

Agora pára e pensa, leitor amigo: e se o programador – ou o chefe dele, ou o chefe do chefe etc – for Testemunha de Jeová e colocar “doação de sangue” na lista negra de palavras e expressões abomináveis? Quantos potenciais doadores não deixariam de participar, digamos, de uma campanha convocada pelo e-mail? Se for do PSTU e vetar “Estados Unidos”, quantos negócios a empresa não perderia? E se o censor for o meu primo Amaro Junior, webdesigner da Suframa, que enrola a noiva há treze anos, detonando toda e qualquer ocorrência de “casamento” ou “matrimônio”, como tem feito por mais de uma década? As possibilidades são infinitas. Basta fazer um rápido exercício mental e ver como é injusto o outro decidir por nós baseado em suas crenças, valores, conceitos e preconceitos. Já pensou se uma empresa chamada World Bunda Incorporated, de Singapura, digamos, manda uma mensagem a fim de encomendar negócios milionários em aparelhos de telefones da Siemens. Sua bunda não passa da porta digital. É barrada na chegada.

A empresa tem todo direito de ter suas regras, claro. Mas controlar a linguagem é uma das crenças mais pueris do ser humano. Linguisticamente, dizemos que mais do que falar a língua, é ela que nos fala através dela. E a língua é líquida. Escorre pela mãos e acha por onde escorrer. Ninguém aprisiona o sentido, pois ele sempre escapa, ele é fluido. Pode-se, por exemplo, escrever b*u*n*d*a, em vez de bunda, para burlar o bedel digital. Ou, como diria o Didi dos Trapalhões, pode-se falar “região glútea”. Mais opções? Nádegas, popozão, anca. Enfim…

É preciso saber que se pode dizer muito através do silêncio, como faziam os jornais na época do regime militar. Censurados, eles publicavam um vazio ou uma receita de bolo na primeira página, no lugar da matéria cortada. Pode-se dizer dizendo de outra forma. As músicas duplex de Chico Buarque são obras-primas nisso. A “Bárbara” da música de Chico, mais do que um nome de mulher bonita – e estou pensando na minha prima Bárbara Cyrino, para ser sincero –  era um adjetivo para a ditadura. “Cálice” falava pela homofonia: “Pai, afasta de mim este cálice/cale-se”.

A questão de fundo é: quem pratica a política do silenciamento lingüístico fomenta o silenciamento da política, entendida como a capacidade do ser humano de tomar decisões. Hoje sabemos que o que se quer é gente no mundo e nas empresas para pensar e decidir a partir das informações que chegam – que chegam! – e não somente para executar tarefas mecânicas, como o Carlitos de Charles Chaplin em Tempos modernos. Há um grande choque de objetivo quando uma empresa decide que seu empregado não precisa decidir porque já decidiram. É um contra-senso, uma verdadeira pavulice para os tempos de hoje.

Penso sinceramente que gastar dinheiro em sistemas de censura é alocar mal os recursos que já são poucos em tempo de estagnação econômica. A propósito, a palavra bunda entrou na Língua Portuguesa através de mbunda, de um dialeto da Angola, trazida pelos escravos, segundo o honesto Houaiss. Censurar a bunda é coisa de gente bun… digo, gente nadegona. Ah, deixem minha bunda em paz. E minha aluna, coitada, que não vai ler essa de novo…

Discurso de formatura 2010

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Pelo protocolo, cabe ao diretor de Unidade fazer um discurso. Etimologicamente discurso vem da palavra latina cursum (curso, carreira, corrida), junto ao prefixo dis, que indica, divisão de um todo em partes. Discurso significa dividir um todo e discorrer sobre uma determinada parte desse todo. Por isso os discursos são diferentes: porque recortam e escolhem assuntos diversos para abordarem.

Faço essa introdução para apresentar o recorte deste meu discurso. Escolhi, dentre vários assuntos que poderiam lhes ser importantes nesse momento simbólico de dobra na vida de vocês, dois recortes: um mais racional, ligado à objetividade da academia e da formação que lhe acompanha. Outro, fundamentalmente emocional, relativo à humanidade que ultrapassa cada profissional que hoje se forma e atinge de maneira muito direta o ser humano que lhe dá concretude.

A mensagem racional é bem direta. Vivemos em uma era de redes sociais, em uma sociedade que se organiza em torno da informação. O problema de hoje, diferente do de algumas décadas, não é o acesso à informação, mas a competência para não se afogar nesse volume de informação que se nos apresenta todos os dias das mais variadas formas. O diferencial do profissional ativo hoje é saber separar a informação relevante das irrelevantes e dela fazer uso significativo para a sociedade. Isso se chama de competência. E são cinco as competências de um profissional, independe de sua área de atuação.

A primeira delas é a competência teórica. Não se avança profissionalmente se não conhecemos os conceitos e a agenda de nossa área. Conhecer a área, buscar a atualização constante, o upgrade de conhecimento é uma competência fundamental para o bom profissional. E essa busca, queridos formandos, não termina hoje. Começa hoje.

Não basta saber sobre algo se não usarmos esse conhecimento para alterarmos a realidade. Daí a necessidade da competência aplicada. A competência aplicada é o uso social do conhecimento teórico que se possui. Conhecimento que não tem fim social é conhecimento morto, de nada serve.

Saber e saber usar o saber também de nada adiantam se o sujeito não compreender que o mundo é feito de regras. Cada lugar por onde passamos e onde vivemos tem sua ordem de discurso e de funcionamento. A família, as relações sociais, as relações afetivas. Tudo tem regras, limites e, claro, possibilidades de transgressões. Aprender a usar o conhecimento que se tem dentro das regras do jogo é o que faz a diferença entre os profissionais de hoje. Competente é aquele profissional que entende que até para alterar as regras tem de fazê-lo dentro das regras vigentes. A isso, chamo de competência institucional.

Como todas as instituições e relações têm suas regras, assim também acontece com a língua. Este discurso se atém a regras de linguagem diferentes daquelas que usamos na mesa de um bar, ou numa conversa que travamos com nossos amigos na cantina do ICHL. A competência linguística, a quarta que lhes apresento, é fundamental para o profissional que se quer diferente. Isso significa fazer-se poliglota na própria língua.

E a última competência, meus caros formandos, é uma competência sem a qual as outras quatro se desfazem, se embrutecem. Trata-se da competência de saber, de saber aplicar, de saber aplicar dentro das regras, de saber aplicar dentro das regras com a linguagem apropriada sem esquecer, esse é seu cerne, de que tudo isso se faz entre pessoas. É preciso ter competência afetiva. Gostar das pessoas, respeitá-las nas suas diferenças, nas suas especificidades. É preciso lembrar, antes de qualquer coisa, que é o humanismo – que tem sido perdido por uma série de demandas, entre elas a econômica e o individualismo – é o que alicerça o tecido social. Sem a sensibilidade social, meus amigos, joguem este diploma que vocês receberam na primeira lata do lixo que encontrarem. É preciso gostar de gente. Porque nós somos gente. E com isso faço a ponte para finalizar com o segundo recorte, mais emocional.

Vocês hoje fecham um ciclo. Um ciclo de formação, mas, antes disso, um ciclo de convivência, de amizades, de sorrisos, de angústias. Um ciclo em que vocês riram, choraram, amaram, odiaram, vacilaram, falharam, escolheram, venceram. E que não ocorreu com vocês sozinhos, mas em compartilhamento com seus colegas e professores que aqui se encontram ou não, por mil motivos que as bifurcações da vida nos trazem.

É hora, meus amigos, de recordar. Recordar, desculpem o cacoete de linguista, é etimologicamente passar de novo pelo coração. Só recorda, só lembra, quem está cheio de memórias, quem viveu, quem transborda de saudade. Porque, não nos enganemos, a linguagem pode ser muitas coisas. Há mil faces ocultas sob a face neutra, como dizia Drummond. E a palavra saudade, normalmente associada com perda e tristeza, pode ser igualmente associada com ganho e alegria. Saudade é a presença de uma ausência presente. De algo que se foi e, engraçado, nunca se deixou ir por completo. A saudade é a máquina do tempo que nos permite ir até onde já estivemos para viver o que ainda nos habita a alma.  Por isso sentimos saudades do nosso pai, da nossa mãe, dos nossos amigos, enfim, dos nossos que não estão aqui, mas que, como entrega o pronome, são “nossos”, nos pertencem para sempre.

Foi a saudade de Camões, vivida n’OS Lusíadas, que revigorou o espírito coletivo de sua gente fazendo Portugal se reerguer. Foi a saudade do Brasil que fez com que José Bonifácio renunciasse as vantagens que lhe foram oferecidas pela Europa e viesse a ser o grande organizador do estado  brasileiro. Foi a saudade do Brasil que inspirou Gonçalves Dias a escrever no exílio os brasileiríssimos versos em “Minha terra tem Palmeiras. Sem a saudade do tempo de sua meninice, vivida em torno da casa-grande, teria sido impossível a José Lins do Rego escrever sua tão viva obra. E viva porque feita de saudade.

Por isso, invoco para que todos vocês sintam saudade. Ela, de hoje por diante, agirá como um cordão umbilical que os manterá vivos e presentes, lhes alimentando a alma, embora estejam agora fisicamente ausentes deste espaço e distante dessas almas amigas que lhes acompanharam por tanto tempo.

Diz a sabedoria popular que conselho não se dá. Mas eu vou dar mesmo assim, assumindo os riscos de ser ignorado, dada a ansiedade pelo fim da cerimônia: se cerquem de criatividade e inovação. Que as dúvidas no exercício da profissão sejam banidas pela presença de um passado específico, cheio de lições de saudade, lições das quais vocês mesmos foram atores principais.

Com o exercício das competências e muita saudade, sejam felizes. “Cada ser em si possui o dom de ser capaz de ser feliz”. Tornem o mundo melhor.  Tenho certeza que vocês, como eu, se lembrarão dos anos de faculdade como os melhores anos de suas vidas. Que Deus lhes abençoe, sucesso e saudades. Obrigado.

Um texto antigo para recordar

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O Autor e o autordrasto

 

Ser autor envolve expor-se à crítica. Isso dá trabalho. Tem gente que prefere outro caminho: a cópia.

Autoria: um conceito em cheque?“Na natureza, nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”. A chamada Lei de Conservação de Massa de Lavoisier serve de mote para começar a pensar o assunto desse escrito: a questão da autoria.

Na nossa sociedade ocidental, o conceito de autor surgiu junto com o de sociedade jurídica. Até então, no geral, os textos eram legitimados pela tradição e eram coletivizados. Com a sociedade de direito, aparece o conceito de responsabilidade por aquilo que se fala e que se escreve. Assim, autor é aquele que é juridicamente responsável pela circulação do texto.

Na teoria do discurso, ser autor é textualizar de alguma forma. Texto é entendido pelo discurso no seu sentido mais lato, como algo que produz sentido. Para o discurso, pode ser texto um conjunto de letras, um som, uma cor, uma imagem e até o silêncio. Sabemos que às vezes o silêncio grita, como na música de Abel Silva: “só uma palavra me devora: aquela que meu coração não diz”. No entanto, além de textualizar empiricamente (escrever, falar, calar), é preciso ainda por esse texto em circulação, pois circulando ele estará à disposição de outras pessoas para que elas possam lhe atribuir sentidos, fazendo o que chamamos de processo de fechamento. É por isso que não adianta nada escrever e engavetar o que se escreve. Posso até me sentir escritor, mas nunca serei autor.

A autoria é um conceito social. Alunos que fazem uma redação e a entregam para um professor como uma mera formalidade escolar não estão praticando a autoria. A redação escolar é um simulacro de um texto, pois não há fechamento, exposição à crítica. É só o professor que lê. Quando lê. Quando muito, talvez tanta redação ajude a melhorar a letra da criatura. Por outro lado, se os alunos preparam suas histórias como parte de um livreto a ser veiculado ou para uma exposição para o público externo da escola, a coisa vira uma experiência de autoria e de real produção de texto. Quem já fez essa experiência com seus alunos sabe como seu envolvimento e sua dedicação mudam quando sabem que a atividade vai ser socialmente visualizada. Para quem quiser ir mais a fundo nesses conceitos, sugiro a leitura do livrinho da minha querida amiga e professora Solange Gallo, Discurso da escrita & Ensino, da editora da Unicamp.

Sendo um conceito social, a autoria também age e sofre ação da sociedade em movimento. Hoje, há pesquisas buscando entender a redefinição de autoria a partir do advento das tecnologias de informação, como a Internet. Se antes o aluno copiava no muque seu trabalho na folha de papel almaço a partir das informações da Barsa ou Mirador, hoje ele dá uma googlada e um copy-paste no teclado do computador. Ao clique de um mouse, o texto está pronto. Ou o que ele acha que é um texto. Copiar não é textualizar. Copiar faz do copiador apenas um copista, manual ou digital, mas um copista. A facilidade da multiplicação dos bits está mexendo com a questão da autoria de forma inegável. Veja um exemplo: escrevi o texto Amazonês, um dicionário de regionalismos e mandei, como parte de um escrito para meus amigos leitores. O texto fez o maior sucesso. Fiquei todo gabado. Eu mesmo o recebi várias vezes. Ele, no entanto, chegava ou sem o nome do autor (no caso o belo que vos escreve) ou com o nome do remetente da mensagem (no caso o copista digital), como autor. Raras foram os e-mails que trouxeram meu nome e poucos foram os sites que deram os créditos. A apropriação ou o apagamento do autor se dá sem a menor vergonha e culpa. Faz parte da ethos da Internet circular bits.

A autoria também pode partir de um lugar já definido. Basta que eu diga que o texto é do Drummond, Caetano ou Luis Fernando Veríssimo que ele já será lido com olhos diferenciados. É o argumento da autoridade. Em seu site, O Millôr volta e meia desmente textos supostamente seus, como aquele sobre a Kelly Key. Claro que Millôr jamais escreveria algo tão canhestro. Quem conhece seu estilo mata na hora a falsa autoria. Então, podemos dizer que o falso autor não é o pai do texto, mas uma espécie de padrasto. Um “autordrasto”, por assim dizer. Por que alguém apaga a autoria ou apadrinha um texto com outro autor?

No caso da atribuição de autoria, a resposta até que é fácil: dar legitimidade através de quem é autor de fato, como no caso do Millôr e companhia. No caso do apagamento, há algumas outras razões. O primeiro motivo do apagamento da autoria é a inocência imagética. E o que é isso? É partir da imagem de que se um texto já está no mundo, ele é do mundo. Se o texto está aí, posso muito bem passar errorex ou deletar o autor,  assinar meu nome e mandar adiante. Só que um dia a ficha vai cair por bem ou por mal. O autordrasto vai ver que não é bem assim e essa imagem de que tudo se pode fazer com um texto alheio vai por água abaixo.

O segundo motivo é a incompetência de autoria. No plágio, na cópia, o autordrasto reconhece e passa recibo de sua incompetência em autorar, em criar um elemento gerador de sentidos. Essa incompetência se estende à incapacidade de entender que do mesmo modo que a informação circula para ser disseminada, ela circula para entregar o crime do copista ao mundo. Vejamos outro exemplo: depois de trabalhar trocentas vezes com Metodologia da Pesquisa nos cursos de pós, colecionei as dúvidas e problemas que geralmente surgem na elaboração de projetos. Criei um CD-ROM com todo o material necessário para alguém que vai elaborar um projeto. Plim-Plim: no cd tem um pouco de epistemologia, as normas da ABNT, um projeto pronto para servir de modelo, um esquema de escrita de texto, etc. Mais informações? Peça-me . Plim-plim. Qual não é a minha surpresa ao ver esse cd nas mãos de uma aluna de um curso de pós-graduação na área da saúde da minha Universidade. O encontro foi casual numa casa de fotocópias. Sugestivo. O detalhe: meu nome foi deletado e o cd foi assumido por um autordrasto. E pasmem: um professor doutor, colega da Universidade. Nesse caso, quero até acreditar que foi mais preguiça do que incompetência. Vamos dar um crédito aos doutores para não ficar muito feio. Não me incomodo que use, mas crédito intelectual é bom e a gente gosta. Afinal de contas, dá trabalho produzir textos e informações significativas.

A informação existe para ser divulgada e gerar nova informação. Mas informação vem de algum lugar. A esse lugar chamamos fonte. O que um autordrasto não percebe é que se ele se quer fazer reconhecido tem de entender as regras discursivas de onde atua. Quem está no métier escolar em qualquer nível, adquire reconhecimento por meio de conhecimento construído e não do conhecimento apropriado das fontes consultadas, o que aliás pega mal pacas. Simbolicamente, o aluno respeita mais um professor que cita suas fontes do que o que fica no blá-blá-blá conteudista anônimo ou quer fazer um texto passar como seu. O professor que sonega fontes deve ser processado pelo Imposto de Renda Ético. Depois fica por aí reclamando que o aluno copiou da Internet. Há aqui no mínimo uma incoerência entre retórica e discurso. “Faça o que o digo, mas não faça o que eu faço”, disparou a Dona Maria, que arruma aqui em casa e sempre tem um ditado para tudo.

O que estou querendo dizer com tudo isso é que acho que o comportamento do autordrasto é sintomático. É sintoma do desconhecimento do que pode e o que não pode legalmente (ignorância jurídica), sintoma de que não é capaz de se envolver em um verdadeiro processo de autoração do mundo (incompetência semântica), ou sintoma de sua incapacidade de se estabelecer profissionalmente se expondo à crítica (esvaziamento teórico). Em se tratando de um aluno de sexta série, em formação, até se admite que alguns desses sintomas apareçam. Em se tratando de um professor, aí não dá. Muito menos se for um professor universitário. Como diria aquela moça da novela: “‘É treva!”

Um autordrasto acadêmico quase sempre tem um problema freudiano com a autoria. Ele ama o autor e deseja sê-lo, mas não pode ou não consegue. E aí o rejeita, o nega, o recalca. Assim, no que depender dele, ele não deixará ninguém ser autor. Encastela-se em cargos administrativos e bloqueia a autoria de quem quer e pode ser autor, usando para isso trâmites burocráticos e institucionais que pode manipular. Claro que estou generalizando, resguardando as honrosas exceções de sempre. Mas há um grande número de autordrastos exilados em cargos administrativos.

Enquanto não desconstruirmos essa idéia de autordrastia que está se  tornando constitutiva do processo da escrita e enquanto não partirmos para um tratamento da prática textual como autoria real, vamos continuar reclamando que nossos alunos não sabem escrever. Como lugar privilegiado para a construção do autor, a Escola tem de perceber que o aluno que está aí é um aluno com um perfil diferenciado. É um aluno da imagem, que pensa de forma não-linear, um ser dos bits. Isso altera significativamente o papel e as expectativas desse aluno em relação à Escola e da Escola em relação a esse aluno, bem como requer a urgente redefinição do papel de professor. Professor autordrasto não pode fazer parte do processo de eliminação da autordrastia. Mutatis mutandi, é como colocar um policial viciado para tomar conta do depósito de drogas aprendidas. Professor autordrasto só serve de modelo para sedimentar a autordrastia do aluno.

Está na hora de uma mudança de atitude quanto a isso também. Digo também porque tenho escrito esses últimos textos sobre o professor. Pergunta para refletir: somos ou não somos autores? Textualizamos ou copiamos? Se não somos autores e somos autordrastos, por que os somos? Começar a se perguntar isso faz parte do início da escrita real de um texto: o texto de nossa identidade profissional. Se não fizermos isso, estaremos confinados a repetir o que textos alheios falam sobre nossa identidade. Pior: achando que o texto é nosso. Ser autordrasto de nossa identidade é cruel. Como diria de novo a D. Maria: “Assim, seu Sérgio, a coisa vai pra casa de Nola”. E vai mesmo, Dona Maria. Vai mesmo.

Sérgio Augusto Freire de Souza

20 de maio de 2004

Muito autoritarismo e pouca autoridade

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Discursos...A Universidade Bandeirante informou em anúncio publicado em jornais paulistas que decidiu expulsar a aluna Geisy Arruda de seu quadro discente. A estudante do curso de Turismo sofreu assédio coletivo no último dia 22 de outubro por ir ao campus de São Bernardo do Campo da faculdade com um vestido curto. O episódio ganhou repercussão na internet após vídeos do tumulto serem postados no ‘You Tube’.

Fiquei pensando sobre o caso desde quando aconteceu. Li opiniões e comentários, tanto os que criticavam a ação dos alunos assediadores quanto os que parafraseavam em suas críticas o ato dos alunos agressores e, com isso, justificavam tal ato como resultado da provocação da moça. Dá para tentar compreender o fato de vários ângulos. Entro nele pela linguagem.

Parece que as opiniões se filiam, grosso modo, a dois discursos. O primeiro seria o discurso da “moralidade sexual” e dos “bons costumes”. Geisy foi “imoral” ao usar um vestido curto, provocando os assediadores que a perseguiram, “desrespeitando os princípios éticos, a dignidade acadêmica e a moralidade”, como diz a nota da Uniban que comunica sua expulsão.

O que seria o segundo discurso se caracterizaria, em tese, pelo respeito à “liberdade de se vestir e de se portar”, do “reconhecimento ao direito das mulheres”, da revolta contra o “preconceito”, do direito à  “democracia”. Segundo ele, todos têm o direito de, não vivendo na ditadura da burca, circular com bem entender. É a ideia de base.

Retirei palavras e sintagmas entre aspas dos comentários em blogs e no Twitter. Há variações, mas sempre são variações sobre esses dois temas: o da condenação da licensiosidade (a vadia mereceu!) e o da condenação do autoritarismo (alunos bárbaros!). Mudam-se as palavras, frases, comentários, piadas, mas ou se está em uma enunciação ou na outra. Qual é a sua?

Condenar a aluna pela saia curta ou condenar o ato dos alunos e agora a posição da universidade, filia o sujeito que condena a um discurso. Em sua nota, A Uniban diz que “a educação se faz com atitude e não com complacência”. Com isso, ela própria, como instituição, assina embaixo que concordou com o ato dos alunos, parafraseando de novo seu ato (dos alunos) com sua atitude (da universidade).

O que a primeira enunciação conceitua como abuso, a segunda chama de direito. O que a primeira chama de exagero, a segunda conceitua como liberalismo. O que a primeira conceitua como provocação, a segunda chama de preconceito. E vão-se infinitamente as falas diametralmente opostas porque vêm de discursos pretensamente diferentes e excludentes. Mas seriam mesmo dois discursos? Um da moralidade e um da democracia?

Todo discurso é funcionamento, prática. Discurso não é o quê se diz, mas como se diz e de onde se fala. Assim, na condenação moral à moça – leia-se moral cristã fundamentalista –, a imoralidade também se faz presente na total ignorância das regras de convivência social. E estou falando agora do comportamento instintivo dos alunos. Pensa-se assim: quando alguém passa dos limites que julgo razoável, tenho que suprimir esse alguém para resolver a desfeita. Superar a diferença é uma opção impensável. Para ficar na mesma linha de raciocínio, a título de exemplo: e se Jesus estivesse na Uniban naquela hora? Gritaria ele, como fizeram os alunos, “Pega a vadia! Liberta essa puta do cativeiro!” ou a cobriria com seu manto? Sentiu o drama?

Da mesma forma, na condenação ao ato dos alunos e da Universidade, podemos ver palavras cheias da intolerância e desrespeito à diferença. Alguns, se pudessem, pegariam os alunos e o reitor e os queimariam ou os empalariam em praça pública. Lei de talião pura. Olho por olho, dente por dente. Ou seja, fazem na prática discursiva o mesmo que condenam na retórica linguística. Não, não adianta dizer que eu sou um reacionário defendo quem quer que seja. Se você está pensando assim, lembro que é de novo seu discurso dando os sentidos para os fatos. Só estou explicitando como os sentidos se fazem pela linguagem que, como disse, é minha praia e aonde vou de sunga, gostem ou não.

O que estou dizendo é que o que parecem dois discursos, por suas expressões linguísticas e enunciações diferenciadas, são de fato o mesmo discurso: o da intolerância, da irracionalidade motivada pela condenação do pensamento diverso, o discurso do pega pra capar. Há, no entanto, um outro discurso: esse sim é diferente porque condena a intolerância em todos os níveis e preza pela superação das diferenças dentro das regras jurídicas e sociais coletivas. Ainda bem que vi isso rolando também nas opiniões. O pensamento de base é: “Se há algo nas regras da Uniban proibindo saia curta, a moça errou e deve receber a punição prevista para a regra que quebrou. Se não há, morreu a história para ela. Se os alunos agressores igualmente quebraram alguma regra social, e devem tê-lo feito pela coisa cabeluda que foi, devem ser punidos também por quem de dever, no caso a Universidade”. Tolerância com o diferente, sem esquecer o respeito às regras. Ponto.

Agora sim, minha opinião. E, claro, ela se filia a esse último discurso. Acredito na democracia, no direito de ir e vir. Acredito também que isso só se conquista no exercício da tolerância e do regramento social. Sem isso, a sociedade vira anomia, vira barbárie. O fato da agressão à moça é lamentável sob todos os aspectos, só servindo para nós pensarmos em que raio de sociedade estamos vivendo. A posição da Universidade foi infeliz. Ficou numa saia mais justa do que a da aluna, legitimando o desrespeito à diferença e sendo injusta porque justiça é tratar desigualmente os desiguais.

Se Geysi feriu alguma norma da Uniban com seus trajes, que os incomodados fossem buscar no regramento suas razões e suas consequências. Se ela fosse minha aluna, como alguém me perguntou no Twitter, daria a ela minha opinião de que assim como ninguém controla os efeitos das palavras ditas, ninguém controla reações exageradas. Há a lei da física da ação e reação, que não pode ser ignorada. Mas diria também que há a lei da sociedade democrática que diz que ações e reações devem respeitar o estado de direito.

Não limitar o comportamento antissocial da turba com a autoridade institucional é criar no juridismo (as leis práticas não escritas, mas exercitadas) um jurisprudência para que outras intolerâncias se repitam. Errou a Universidade. E feio, em minha opinião. O papel de quem regula é regular. Para lá e para cá. E deixar as regras claras, punindo quem as extrapola. Sem isso, cairemos facilmente no reino da impunidade, do moralismo fácil, da hipocrisia e da democracia retórica.

Está na hora do MEC, que é quem regula a Uniban, que não regulou direito a questão, perdendo as rédeas da situação, se posicionar. Porque autoridade não pode ser confundida com autoritarismo, que é exatamente querer mostrar autoridade sem legitimidade. E liberdade não pode ser confundida com licenciosidade, com um laissez-fair, com um tudo-pode. Ou voltaremos todos a usar tacapes e pintar gravuras rupestres nas paredes.

E sabe o que mais? Eu acho muito bonita uma mulher de saia. Por mim, está liberado.