doente

Bilhete

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Quebrei o teu prato, tranquei o meu quarto/Bebi teu licor/Arrumei a sala, já fiz tua mala/Pus no corridor/Eu limpei minha vida, te tirei do meu corpo/Te tirei das entranhas/Fiz um tipo de aborto/E por fim nosso caso acabou, está morto/Jogue as cópias das chaves por debaixo da porta/Que é pra não ter motivo/De pensar numa volta/Fique junto dos teus/Boa sorte, adeus.

Um amor violento quando torna-se mágoa é o avesso de um sentimento: oceano sem água. É no intertexto das músicas que se tece este texto. Ele é sobre o fim do amor que deve acabar, sobre o amor que era mar violento e se tornou deserto árido. Que, vamos abrir o jogo, não vale mais o que o gato enterra, mas de que você não consegue se desvencilhar. É como se fosse um velcro atrofiado…

Há amores que são tóxicos. Começam a fazer mal, a escravizar. Amores que sufocam, afogam, nos alzeihmerizam a alma. Amores de quem queremos distância, mas dos quais não conseguimos nos despregar, tal o visgo que se construiu na época  em que ele era bom. Era. Foi-se.

É preciso morrer para viver. Sem se matar o amor apodrecido, fétido, não se pode recomeçar. A brisa do amor não sopra se não forem fechadas as janelas de um lado e abertas as portas de outro. Para deixar o amor putrefato ir embora. Tchau, adeus! É preciso coragem – que sempre falta. É preciso desprendimento – que nunca vem. É preciso culhão – que parece ter ficado perdido nas tórridas noites de sexo que se foram. Mas respire fundo e toque o barco!

Luto. É preciso curtir o luto. Deixar ir. Porque se sabe que faz mal. Muito mal. Todos sabem. Só um resto de nós, uma parte teimosa, insiste em ficar ligado ao amor parasita, que nos suga. Benefício lá, malefício aqui. Mas ele nos suga para ele unilateralmente. Diferente da época em que nos sugávamos mutuamente, por prazer. Deixe ir! Coragem! É preciso respirar! Mande embora essa coisa!

Quebre o prato! Tranque o quarto! Beba o licor! Rasgue os papeizinhos! Apague os e-mails! Delete o nome dele do seu celular e da agenda da sua vida! Dê-lhe um block na vida! Unfollow na sua alma! Dê um delete nele, inclusive na lixeira depois. Shift del nesse vírus da sua vida!

Arrume a sala! Arrume a vida! Retome o controle de seu coração! Expulse esse merda! Faça as malas deles e ponha no corredor! Limpe sua alma, dê uma polida em sua aura, retire esse troço do seu corpo! Assepsie-se! Sinta o Fenergan da decisão entrando em sua alma e limpando a alergia que esse ser te dá. É, não é fácil! Tem de arrancar das entranhas, é um tipo de aborto! Vai doer? Vai! No corpo e na alma! Vai ter vontade de chorar um rio? Chore! Tem medo da vida ficar sem sentido? Por uns tempos. Depois pega vento de novo! Não vale mais a pena! Não vale mais. Aceite! Vai por mim. Já estive aí! Tem de ser na porrada!

Se ele não quiser entender, problema dele! Não é você que tem de fazê-lo entender. Não caia nessa! É só o que resta de você preso nessa coisa que faz você ficar inventando desculpas fuleiras para não se desligar! Diga para ele: “Me larga, não enche! Me deixa viver, me deixa viver! Me deixa viver, me deixa viver… Cuidado, oxente!” Está no seu querer poder fazer o tal desabar… Complete: “Pra rua! Se manda!” A mala… a mala tá aí fora! Grite: “Sai do meu sangue, sanguessuga que só sabe sugar! Pirata! Malandro! Me deixa gozar, me deixa gozar, me deixa gozar, me deixa gozar…”. Saque mil caetanos para esse lazarento!

Acabou! Está morto. Enterre. Chore. Gaste o luto. Sem isso, nada feito. Legal o que se passou de bom. Mas já era! Hello-ô! E não dê motivos, não tome o primeiro gole dessa pinga amarga… Não fale mais com ele… peça que jogue a cópia da chave por debaixo da porta que é para não ter  motivo de pensar numa volta.

Ah, e se ele sentir a perda? E se ele sofrer? Não é problema seu. Ele que fique perto dos seus e se vire. Não é você que vai tomar conta disso… você não é mais dele, não precisa mais fazer isso. Componha-se! Amor próprio! Isso! Não fique parada! Há uma estrada pela frente! Não permita ninguém bloquear seu caminho, o passeio de seu caminhar… Vá embora… Vá cuidar da vida! Quer algum recado para ele? Que papel é esse? Tá, eu entrego. Eu! Não você. O que está escrito aqui…? É. Boa sorte e adeus! Foi a melhor decisão…

Dói, mas passa…

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Ouvi essa semana uma frase que me tocou. Dizia uma professora a uma outra: “É, Deusdete. Dói, mas passa”. Não sei qual era a dor da Deusdete, mas a filosofia é legal. A professora havia descoberto a chave-mestra do mundo, quiçá do universo. Tudo dói, mas passa. Observe, leitor amigo, como é verdade.

Para nascer é preciso um parto. Mas a dor passa. E vem o filho, alegria sem igual. O primeiro dente rasga a gengiva. Dói. Mas depois que nasce, passa. Aí crescemos e, traquinas, aprontamos e apanhamos de nossos pais. Quando a chinelada come solta, dói muito. Havaianas na pele fazem um estrago. Depois a dor passa e lá estamos nós a fazer novas traquinagens e a merecer novas sovas.

Crescemos um pouco e nossos hormônios começam a se enxerir. Nos engraçamos da amiga da irmã. Ela, coração de pedra, nem liga. O desprezo na descoberta do amor dói muito. Mas a dor do desprezo passa com o primeiro sorriso daquela outra que se achegou e nos encantou.

Sem entender Marx e suas explicações sobre diferenças sociais, você sente uma dor danada quando vê seu amigo rico com tudo que é o desejo da moçada. Um par de tênis All Star de couro, uma bolsa Tiger vermelha, um videogame Odyssey, uma camisa da K&K. Ok, são exemplos dos anos 80, mas são reais. Quando o seu amigo magnata lhe convida para jogar, você esquece a inveja e tudo passa ao toque do joystick. “Dói, mas passa”.

Namoro sério. Quem você ama diz que não lhe quer mais. Dói muito e parece que não vai acabar mais. Mas passa. Logo você já está na balada de novo. Arranja outra e começa a namorar sério. Esquece que sofreu de amor. Dor? Que dor?

E no sexo? Perder a virgindade, por exemplo, dói de várias formas. A cobrança moral na cabeça, fruto de uma sociedade que cultiva a culpa, dói e angustia ainda muitas jovens na hora agá. Mas passa na primeira poesia sussurrada, na primeira pegada de jeito, na primeira arfada de prazer. A filosofia “dói, mas passa” na questão sexo podia ir além, mas fica para sua imaginação fértil, leitora.

Casamento. A rotina dói, mas passa no afago ao final do dia, num banho a dois com direito a beijos molhados sob a ducha quente. A rotina desaparece no assistir televisão sob o edredom com pés entrelaçados, de conchinha.

A morte de alguém querido, suprema dor. As lágrimas descem involuntárias numa dor que vem da alma e lava com lágrimas o rosto de uma tristeza sem fim. Mas depois dessa sangria com o estilete do destino, a vida volta ao normal. A saudade fica, mas a dor que corrói passa com o tempo. “Dói, mas passa”.

Martelou o dedo? Um dia desincha e passa. Cortou a mão fatiando salame? Cicatriza e passa. Perdeu o emprego? Deus escreve certo por linhas tortas. Daqui a pouco está empregado de novo. A filosofia “dói, mas passa” me convenceu. Serve para tudo.  E você, leitor ou leitora? O que está doendo agora? Caia de cabeça no “Dói, mas passa!” e veja a diferença.

Agradeço à amiga da Deusdete. “Dói, mas passa” em tudo daqui pra frente! Sem estresse. Porque tudo na vida passa. Porque tudo que sobe desce. Será que a Deusdete seguiu o conselho da minha guru?

A dor

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[Escrevi este texto há uns sete anos. Relendo meus alfarrábios o encontrei, mas decidi modificá-lo em alguns aspectos por acreditar em algumas coisas diferentes em relação ao que lá dizia. Na essência, continua a mesma coisa: só sai da dor quem está a fim de encarar seus fantasmas. Quem não está sempre racionaliza. É um texto um pouco maior do que os que tenho publicado recentemente. Faz parte de uma fase José de Alencar, em que para dizer “o Sol nasceu” eu dizia “O Astro-rei de quinta grandeza arrebentou para  a vida descortinando a existência que lhe aguardava gélida…”. Fases.]

A dor: do corpo ou da alma?Dentre as sensações humanas, uma das mais indesejadas é a dor. Por que a dor existe? Por que somos forçados a encará-la, experimentá-la, conhecê-la? A dor é um misto de ódio e medo. Creio que até mesmo o medo da morte perde para o medo da dor. “Quando eu morrer eu só não quero sentir dor”, diz-se.  Morrer, vá lá que seja…agora, com dor?

Na guerra contra a dor não estamos mal servidos. A medicina nos apresenta armas eficientes, seja contra a dor aguda, como um alfinete que perfura o olho, ou a dor crônica, como a gota chinesa na testa; seja a dor física, que dilacera o corpo, ou a dor anímica, que corrói a alma. Há escolhas: de analgésico a antidepressivos; de aceitação à internação; maracujina ou marijuana; analista ou álcool.

As formas de lidar com a dor também têm sabores diferentes. Uns simplesmente a ignoram e seguem a vida, pseudo-heroicamente. Digo pseudo porque são pessoas que não querem, não podem ou não têm coragem de olhar a causa da dor de frente  e se entregar, se despojar de forma tal que deixem de ser estrangeiros a si mesmos. É o que resolve, segundo a psicanálise. Essas pessoas são como crianças que fecham os olhos para aniquilar o perigo que vêem na certeza de que assim que as pálpebras se tocam a realidade se esvai. No outro extremo, há os que se desesperam tanto que vêem somente no fim da própria vida a possibilidade do fim da dor. A dor altera paradigmas. Ignorar total ou se rendar total? Esses são extremos, mas há os meios.

A dor é uma experiência universal que tem como função vital disparar a proteção em relação a algo. Há pessoas que possuem uma doença congênita rara que faz com que elas não sintam nenhuma dor. O que parece ser uma benção dos deuses é um martírio, pois se deixa de ter os pequenos avisos sobre os perigos que podem levar até à morte prematura. Um braço queimado e não sentido pode ser fatal. A sensação de dor é constitutiva do ser vivo.  A dor vista do ponto de vista físico é um mecanismo de defesa fundamental do corpo. A dor é sempre um aviso: olha, aí tem algo. Ela é amiga.

A dor da alma também tem sua explicação, função e lógica. O componente emocional da dor é determinado por variáveis. Entre elas estão experiências passadas, fatores genéticos, estados gerais de saúde, presença da depressão ou outros diagnósticos psicológicos, mecanismo de gerenciamento em relação à vida, além das crenças e medos em relação à própria dor.

O que é interessante notar é que o estímulo ou o desestímulo para dor anímica é interno. São os pensamentos que influenciam a percepção, o tom e sabor da dor da alma. Andei lendo e descobri que esse mecanismo de controle, essa porta de entrada, esse registro de vazão, está dentro daquilo que na medicina se chama “teoria do controle do portão”. Assim, pensamentos (crenças, medos, depressão, ansiedade, raiva, sensação de impotência) e sensações geradas perifericamente podem bloquear ou amplificar a dor, dependendo de como se gerencia o relógio do registro. Na maioria das dores crônicas, a redução da dor só pode ser conseguida por meio da modulação dos aspectos psíquicos da dor. Como o peso dado à dor psíquica e a capacidade de gerenciar a chave do registro vão variar e muito de paciente para paciente, o tratamento da questão tem de se individualizado. É quando entra a análise.

Ter uma dor que não vai embora, ter a sensação de que ela irá se estender indefinidamente no tempo gera um caldeirão de emoções e comportamentos que paralisa. É contraproducente até para lidar com a própria dor que o gerou, lembrando o Efeito Tostines das dores: dói muito porque não sei lidar com isso ou não sei lidar com isso porque dói muito?

Se a gente deixar, a dor tomar conta, faz a festa. Ela monopoliza a atenção (não se faz mais nada), causa uma fadiga crônica (dormir para quê, se ela pode me pegar dormindo, como a morte?), paralisa (o movimento – qualquer um – aumenta a dor). Daí a vontade de nem se mexer. O resultado final da dor crônica engloba doenças depressivas, discordância afetiva, dificuldades profissionais, dependência química, reclusão social, distúrbios de sono, fadiga crescente, crenças inadequadas em relação aos fatos da vida e alterações radicais na personalidade anterior. A dor anímica, como a dor física, é um aviso de que há algo de podre no reino da Dinamarca. Ou cuida ou dança.

Assim como a dor física, a dor anímica pode ser tratada ou pode levar à morte. Se para a dor física há medicamentos variados, para dor anímica, o sossego – mais do que dos Lexotans da vida –  vem a partir de olhar o fato causador de frente e dizer: “vou te vencer!” É intrínseco. É preciso forçar uma mudança em nossa sintonização interior, o que se refletirá em nossas palavras, pensamentos e comportamentos. É preciso redirecionar o íntimo, o psíquico. Nem sempre temos essa capacidade. O tempo e a história são muito peculiares para cada um.

Cada vez me convenço mais de que não existe nenhum tipo de injustiça nos efeitos recíprocos que nos atingem. Não há arbitrariedade. A arbitrariedade que lemos nas coisas são mecanismos nos quais precisamos acreditar para achar que tudo sempre tem uma explicação. Assim, estou convencido de que tudo que nos toca agora foi gerado por nós mesmos em algum momento de nossas existências. Com nossos atos e omissões acabamos, involuntariamente, gerando a dor no futuro. Os Hare Krishnas chamam isso de Karma, os cristãos de Lei da Reciprocidade, o Direito nomeia como Lei de talião (olho por olho) e os Bad Boys chamam da política do Bateu-Levou. Isso vale para a dor também.

O homem colhe o que planta, só percebe isso quando já está maduro – sem trocadilho – e é mais trabalhoso desplantar o que já dá frutos hoje, alguns podres, daqueles que fedem tanto que evitamos passar perto. É o reino da Dinamarca. Há uma correlação entre a dor que agora sentimos e a gravidade das nossas escolhas tortas. E digo tortas se vistas do prisma da maturidade, que só vem depois dos quarenta, e vista também a partir de uma perspectiva social e valorativa predominante, não portadora exclusiva da verdade essencial, que não existe. Até antes dessa fase da vida, grosso modo, as análises valorativas são pura retórica argumentativa, conversa para boi dormir. Podemos passar a vida toda segurando o nariz para não sentir o fedor e perder, com isso, a mão direita para sempre. Ou podemos respirar fundo a podridão de nossa dor, meter o pé do mar de merda, arrancar com raiva os frutos rotos e tentar voltar à mínima segurança e paz, se se conseguir sair vivo dessa batalha inglória, diga-se de passagem. Sai-se no mínimo, mal cheiroso. E assim fica-se por algum tempo.

A maioria das pessoas não está a fim de meter o pé na lama e resolver suas podridões. Prefere segurar o nariz, mesmo perdendo tudo que a mão que aperta a cartilagem poderia oferecer. É uma metáfora. E os que querem, coitados, os que se jogam com decisão na porcaria que os separa de sua paz são rotulados como uns desvairados idealistas que nadam loucamente contra a corrente, porque ninguém faz isso. “Todos fazem do outro modo” é a frase que se utiliza para dar uma falsa paz psíquica e justificar a acomodação. Diga isso às mamães-peixes, que nadam contra a corrente, sobem cachoeiras, enfrentam pororocas para dar a vida aos seus filhotes na cabeceira do rio. É necessário nadar contra a correnteza, mesmo que seja doloroso, exaustivo, dê vontade de desistir. É assim que se resolve a coisa. No final, extenuado, morto, sem forças, você tem algo de volta que nada paga: a vida. Limpa dos cheiros fétidos dos campos de outrora. Pronta para uma nova plantação, com sementes escolhidas a dedo, dedo da mão que agora está livre de segurar o nariz. A dor, no fundo, no fundo, é falta de compromisso com a vida. Ou foi.

Somos desde sempre indivíduos. Mas sujeitos mesmo só nos tornamos quando esfacelamos a mera contemplação e agimos. Quando fundamos nossa subjetividade. Se nossa subjetividade começa a se constituir como resistência é preciso refazer a categorização do sujeito. O sujeito do desejo sacrifica o sujeito do conhecimento. Para compreender um, o outro tem que morrer. E dói gerenciar tudo isso. Como dói.

Enfim, para resumir toda essa teoria acerca da dor, fica Caetano: “Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”. Que as dores passem. Que as delícias fiquem. É o que desejo para mim e para quem gosto, com os instrumentais psíquicos de que disponho. É nisso que sustento – ou busco sustentar – a vida, para ser sincero: na certeza de que, como diz a minha poetisa preferida, Florbela Espanca: “Tudo na vida é frágil, tudo passa”. Até a dor.

Domingo Resfenol

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A gripe me pegou… Taí algo que me incomoda. É gripe e cortar cabelo, que eu acho uma perda de tempo terrível.