Dor

Onde os doces da mãe? Onde o cheiro do filho?

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colher de pau
solitária na parede
onde os doces da mãe?

Aníbal Beça

Hoje é o dia das mães. Presentes, abraços, beijos, carinho. Tudo que as mães merecem. Eu vou lá dar um beijo na minha, me aninhar no seu colo, me fazer criança pelo seu cafuné. Sou absolutamente feliz com a mãe que Deus me deu. Com ela aprendi valores e atitudes que trago e levo por onde vou. Por ela ignoro todas as regras de estilo de um bom texto e tasco um grande lugar-comum: minha mãe é uma das duas melhores mães do mundo, só rivalizando com a mãe das minhas filhas, simplesmente perfeita também. Cara sortudo eu no quesito mãe.

O exercício da escrita tem me ensinado uns truques. Um bom texto é aquele que fala de temas universais sob perspectivas diferentes das que escorrem nas tintas comuns que celebram uma data. Eu, que ando escrevendo pouco, queria escrever um texto diferente sobre o Dia das Mães. Pensei, cá com meu teclado: nada das louvações justas e merecidas. Não. Essas estão subentendidas. Queria falar das mães, sim, mas fiquei pensando em como chegar no tema por um caminho alternativo. Falar algo diferente, que fosse além do que eu disse aí em cima no primeiro parágrafo. É onde entra a Zazá.

Zazá é a moça que trabalha na escola onde estou dando um curso. Ela serve o cafezinho, a água, arruma as coisas. Há mais ou menos um ano, Zazá perdeu um filho. Dengue hemorrágica. O menino tinha treze anos. O Dia das Mães de Zazá será diferente. O Dia das Mães de muita gente sempre é diferente. Sim, é sobre esse Dia das Mães que eu quero falar.

Mãe que perde um filho vive o desnatural. Quem perde pai e mãe fica órfão, quem perde o cônjuge vira viúvo, mas quem perde um filho não tem nome. As outras perdas são do processo natural da vida, mas perder um filho é uma dor sem nome. A linguagem não se atreve a nominar em respeito. A dor sem nome não lê os encartes das lojas, a dor sem nome não sabe mais o que é o calor do abraço, a dor sem nome lamenta um futuro que nunca virá, a dor sem nome chora o cotidiano que se perdeu. A dor sem nome rasga a carne ao arrumar o quarto vazio. Eu me coloco no lugar das mães que carregam em si a dor sem nome no Dia das Mães. Dói muito só de pensar. Como diz Chico Buarque, perder o filho é um sentimento reverso de um parto. Essa saudade é o pior tormento. “É pior do que se entrevar”. Ouvindo “Pedaço de Mim” e chorando. Pausa.

Rearrumar os afetos depois de perder um filho é algo que só me permito imaginar como exercício de escrita. Até na imaginação machuca. Fiquei reticente em continuar este texto, confesso. É tão lancinante a dor só de imaginar isso que nós, que temos o beijo cotidiano de nossas crias, expulsamos o pensamento ao menor vislumbre do assunto. Dia das Mães em que há um vazio impreenchível chega a ser torturante. Bem-aventuradas as mães que conseguem minimamente sobreviver ao bombardeio comercial da época. O capital faz tudo para quem tem mãe, mas o capital não tem mãe. Nem de longe pensa nas mães que carregam a dor sem nome. As mães de maio, machucadas como as da Plaza.

Outros que são esquecidos no Dia das Mães são os filhos sem mãe. Deve ser perturbador viver o Dia das Mães sem ter tido a figura materna. Não me refiro à mãe biológica, mas à mãe que tece na gente o afeto com o mundo. Aquela pessoa para quem a gente corre quando pede arrego da vida, mesmo com quarenta anos. É que o mundo é feito para a normalidade. Aí as fichas que preenchemos pedem o nome da mãe, as pessoas na boa fé desejam feliz Dia das Mães, pressupondo  que você tenha uma relação com a sua. Quando não é o caso, quando  não se teve ou nem se tem, deve dar em quem tem essa ausência de mãe uma sensação de deslocamento, de não-pertencimento. Algo tipo, “nesse assunto, eu fico devendo. Vamos mudar o papo…”

Deve ser igualmente doloroso viver o Dia das Mães tendo tido uma figura materna que não está mais ao alcance dos lábios para um beijo de amor. Quem tem uma história com sua mãe, quem a tem entranhada no corpo e na alma, quem conhece de cor o poder acalmador que tem o cheiro de sua bata, sabe o valor de poder abraçar e beijar aquele corpo com rugas marcadas pelo tempo, conhece a paz infinita de pedir a bênção beijando sua mão, já cheia de manchas da pátina do tempo. Mas a vida tem ciclo. Um dia a mãe se vai. De muitos, ela se já se foi. Como é o Dia das Mães de quem não tem mais a mãe? Deve dar vontade de gritar, mesmo que psiquicamente: “Parem de falar em mãe porque a minha não está mais aqui e isso está me torturando!” É outro tipo de vazio para a mesma sensação de ausência do impossível reabraço. Saudade é a presença ostensiva da ausência.

Mães que perderam filhos, filhos que perderam mãe. Para eles, o Dia das Mães não tem o almoço do domingo. Para eles, não há a preocupação do presente para comprar no corre-corre da última hora. E como eles gostariam de tudo isso…

Para os povos andinos, como os quechuas e os aymaras,  Pacha Mama é a deusa “mãe do universo”. O mito de Pacha Mama se refere ao tempo, vinculado com a terra: o tempo que cura as dores, que fecunda a terra. Pacha significa tempo na língua kolla. Com os anos e as alterações da língua terminou confundindo-se com a terra.  O dia primeiro de agosto é o dia de Pacha Mama. Nesse dia, as pessoas enterram em um lugar próximo da casa uma panela de barro com comida cozida. Nesse mesmo dia deve-se pôr cordões de fio branco e preto, confeccionados com lã de lhama. Esses cordões se atam nos tornozelos, nos pulsos e no pescoço, para evitar o castigo de Pacha Mama.

A terra, o tempo, a mãe. Hoje é 13 de maio. Não é primeiro de agosto. Mas desejo profundamente  para quem está incompleto no Dia das Mães que Pacha Mama cuide com ternura, lamba suas feridas, fecunde suas lembranças. Que a panela de barro da mãe, enterrada com ela, renasça no amor afetuoso que ela deixou no gosto inconfundível e inesquecível de seus doces, no seu sorriso, no seu ralho, no seu olhar, um olhar que lhe compreendia como o de mais ninguém é jamais será capaz. Nesse Dia das Mães, que as mães que carregam em si a dor sem nome gastem sua saudade – porque só tem saudade quem viveu plenamente. Que atem nos tornozelos, pulsos, pescoço e coração os cordões do amor, não feitos de fios preto e branco de lã de lhama, mas de fios trançados pelos laços coloridos do amor incomensurável que só pais e mães têm pelos filhos, pelas lembranças de seus sorrisos abertos, de seus abraços gratuitos, de seus desenhos rabiscados no papel ou na parede, de suas histórias lindas, de seus segredos pactuados com confiança. Filhos que têm mãe e mães que têm filhos, se aproveitem enquanto podem. Senão Pacha Mama castiga.

Feliz Dia das Mães a todos. Feliz Dia das Mães, Zazá. Do jeito que for possível.

O choro e o riso

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Não há problema em ter momentos de baixa, em achar que tudo está perdido. Chorar faz parte das necessidades do ser humano. Mente quem sorri o tempo todo. No entanto, da mesma forma que o choro e a tristeza constituem a vida, a alegria e sorriso também são partes necessárias. É desse mix equilibrado que a vida humana se tece. Se paralizamos falsamente no sorriso fake, tapando nossos furos, não enxaguamos a alma com os choros necessários da manutenção da sanidade. Por outro lado, se estancamos no choro sem fim, a vida deságua e seca. Chore o que tem para ser chorado; sorria abertamente quando tiver de sorrir. Há dias e dias, há fases e fases. Que hoje seja um daqueles dias em que sua alma e seu corpo gargalhem como uma criança. A plenitude de nossas necessidades, para lá ou para cá, precisa ser compreendida como algo que simplesmente está aí para ser vivida. Qualidade de vida é achar o timing do choro e do sorriso.

Dias de chuva

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Sim, a gente se desentendeu…/Pense não ser bom fugir,/da paixão se proteger./Volta ao normal/Antes de nascer o sol/Se pintar tristeza, ouça o coração/Vi que ficou cinza a cor do azul/Mas por que chamar a dor/Antes de acontecer/Traga com o Sol/Paz aqui pro coração/Peça pra esse inverno chamar o verão/Bom demais sentir você por perto mesmo sem te ver/Estar feliz a todo tempo/Claro para nós que não há nada mais a se fazer/Fazer voltar os bons momentos/Eu já sei de cor a cor do azul/Passou o vendaval/Voltou a brilhar o Sol/Tudo é amor/Se a paixão nos fez chorar/Não passou de chuvas, chuvas de verão/Bom demais sentir você por perto mesmo sem te ver/Estar feliz a todo tempo/Claro para nós que não há nada mais a se fazer/Fazer voltar os bons momentos/Me perdoa por você chorar/Dias de chuva são/Véspera de tempo bom/Sigo com o Sol/Cai a chuva pelo chão/Deixo a tristeza e ouço o coração/Siga com o Sol/Cai a chuva pelo chão/Deixa a tristeza e ouça o coração.

Sim, a gente se desentendeu.  Mas quem não? Ah, eu não compraria um carro usado de um casal que diz que nunca brigou. Um amor idealizado, sem brigas, sem rusgas, é um amor que não range suas diferenças, fundamental para fazer a engrenagem da vida a dois rolar, tecendo a rede de memória que alicerça a história da relação. Buscar uma assepsia impossível na relação acaba com o sistema imunológico do amor. É preciso por os pés descalços na lama para pisar firme na grama.

Nossa briga é desvio, não caminho. Por isso, me ouça. Pense que não é uma boa fugir de nós. Eu sei, parece que a distância ajuda na hora da carne aberta pela navalha da palavra mal dita, pela lâmina do erro maldito. Todas as pessoas erram, mas só as que são grandes pedem desculpas olhando nos olhos. Olhe nos meus olhos. Quero-me grande para você, ainda que agora seja liliputiano. Quero pedir desculpas sinceras. Se veja no meu olhar sincero e me permita que eu me veja no seu. Foi assim que nos entendemos na primeira vez, lembra? Ficar longe, sem querer conversar, é se proteger da paixão.

Precisamos – eu, você, nós – voltar ao normal antes do nascer do sol. Está escrito nos estatutos do amor que ninguém que ama deve dormir sem dar um beijo de boa-noite para fechar o dia, tenha sido ele bom ou ruim. O beijo de boa-noite noite é Deus rendendo nossos anjos da guarda. Permita que Deus entre. Quem tem um lastro, uma história, como nós, pode apostar no coração como avalista quando pintar a tristeza. É preciso ouvir o coração. Como um velho sábio das montanhas do Tibet, ele sussurrará no ouvido de sua alma o que melhor há de fazer.

Na cromotipia da vida, às vezes a cor do azul fica cinza. Nublam o celeste as tristezas gris. Um erro, um deslize, um momento em falso pode alterar a meteorologia de nosso afeto. Mas nuvens, chuva, raios e trovoadas estão ali por instantes. O normal é a cor azul e sua paz infinita.  Mas por que chamar a dor antes de acontecer? Há um ponto tênue de controle entre o silêncio regulador e a palavra descarrilada. Um ínfimo hesitar ou um micromovimento que altera tudo o que somos, tudo o que temos, tudo o que podemos vir a ser. Não nos abortemos por migalhas.

Não esmaeça por minha causa. Não se esvazie do seu gás por causa de uma alfinetada minha. Traga com o sol paz aqui para o coração. Sua luz se expande ao tocar em meus pontos escuros. E vice-versa. Porque somos diferentes. Precisamos da diferença para, dividindo a vida, somar os caminhos e multiplicar as possibilidades. Ah, “navegar é preciso, mas viver não é preciso”, como precisa é a aritmética. Olhe nos meus olhos… Invento joguinhos de palavras piegas e cito o  poeta para fazer uma ponte entre nossos olhares, a única forma de cruzar esse Rio Amazonas que nos separa.

Um inverno. De repente um gelo inesperado. Um inferno. Andávamos há pouco descalços na areia da praia, sob o calor do sol e das nossas mãos dadas. Um erro, um deslize, um passo em falso… Mas e nós? Olha, peça para esse inverno chamar o verão! Tem aquela praia que desenhamos no guardanapo, com um coqueiro e uma casinha esperando por nós, lembra? Lembra?

É bom demais sentir você por perto, mesmo sem te ver. O amor é fisicamente incoerente: o vazio da ausência não cabe dentro da gente. Transborda. […] Ei, eu estou desesperado com teu silêncio. […] Queria estar feliz a todo tempo, como antes. Claro para nós que não há nada mais a se fazer: só fazer voltar os bons momentos. […]

Um sorriso.

Você está me olhando nos olhos…

Eu já sei de cor a cor do azul. Passou o vendaval e voltou a brilhar o Sol. Tudo é amor. Se a paixão nos fez chorar, não passou de chuvas, chuvas de verão. As chuvas alimentam a vida à custa da falta de sol momentânea. Que nossas chuvas sejam nutrientes de nosso ecossistema e não deslizadoras das montanhas de nossas geografias. Bom demais sentir você por perto. Bom demais sentir o teu cheiro. Bom demais, ponto. Uma vida, uma história, uma trilha sonora, nossos detalhes, nossas manias: recuperamos tudo de uma quase perda total. Que buraco ficaria na antologia universal do amor!

Me perdoa por você chorar? É que dias de chuva são véspera de um tempo bom… Comecemos novamente o nosso tempo bom. Eu sigo com o sol, cai a chuva pelo chão e eu deixo a tristeza e ouço o coração. Siga você também com o sol, pois cai a chuva pelo chão. Deixe sua tristeza e ouça o coração…

Há um ponto tênue de controle entre o silêncio regulador e a palavra descarrilada. Um ínfimo hesitar ou um micromovimento que altera tudo o que somos, tudo o que temos, tudo o que podemos vir a ser. Dias de chuva sempre vêm. Mas o sol surge indefectível. Um beijo, meu bem. Boa noite.

Um dia de domingo

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Para os Ms.

Eu preciso te falar/Te encontrar de qualquer jeito/Pra sentar e conversar/Depois andar de encontro ao vento/Eu preciso respirar o mesmo ar que te rodeia/E na pele quero ter o mesmo sol que te bronzeia/Eu preciso te tocar/E outra vez te ver sorrindo/ Te encontrar num sonho lindo/Já não dá mais pra viver um sentimento sem sentido/Eu preciso descobrir a emoção de estar contigo/Ver o sol amanhecer/E ver a vida acontecer/Como um dia de domingo/Faz de conta que ainda é cedo/Tudo vai ficar por conta da emoção/Faz de conta que ainda é cedo/E deixar falar a voz do coração.

E quando a presença da ausência bate forte e transborda dentro de nós? A saudade é um visitante folgado que chega sem avisar numa foto, num cheiro, numa música. Num dia de domingo. Ah, essa vontade de ter o teu ouvido para ouvir minhas falas no timbre que só tu, entre bilhões de pessoas, compreende, do jeito que eu quero que se compreenda… Aí eu te busco. Insano, tento te encontrar de qualquer jeito. Eu te procuro na sala, no quarto, embaixo da cadeira, sob do lençol da cabana. Eu te procuro nos teus objetos que guardo e que guardam teus toques, teu cheiro, teu jeito. Eu te procuro nas pequeníssimas coisas que me lembram o quanto és imenso pra mim. E eu te acho em tudo, mas não te tenho aqui. A tua onipresença se esvazia frente à falta do teu sorriso que não está aqui para eu ver. Eu te quero aqui, com teus olhos a me ler e a me acariciar a alma. Eu te quero aqui, acalentado e acalentando quem te acalenta até o sono tranquilo…

Ah, como eu queria sentar e conversar. No chão da sala, no tapete do quarto, na companhia, ainda que corrida, do alimento. Como eu queria pisar na tua bagunça e me ver nos teus desenhos… Sair por aí de mãos dadas, de encontro ao assanhado vento assanhando com carinho nossos cabelos e soprando para longe nossas inquietações. Em nós juntos, tão apertados, não cabem inquietações. Só placidez. Só mansidão. Tu és minha mansidão… Na tua falta, sou só tormenta, vento desarrumado, ressaca de mar…

Meu ar não é mais o mesmo porque tu não o respiras comigo. Eu preciso respirar o mesmo ar que te rodeia, me molhar na chuva da mesma nuvem que pranteia suas dores sobre o mundo, me bronzear no mesmo sol que te bronzeia, suar junto contigo, ficar acabado, arrasado, morto de vivo pela tua companhia. Mergulhar de mãos dadas nas águas dos sonhos como mergulhamos no rio da vida. De mãos dadas. A mãozinha esticada para eu segurar, que é de?

Tua ausência me faz perceber que tentar preencher vazios com vazios não resolve. Eu invento coisas, escolhos os caminhos mais difíceis só para não ter tempo de sentir a tua falta ao meu lado. Que bobo eu! A tua falta não está ao meu lado. Está dentro de mim. Tu estás em mim. Tu és eu. Eu sou tu. Desde que tu vieste, eu passei a ser tu e não mais eu. Por isso não adianta eu viajar trilhas novas, construir castelos. Eu vou me perder de ti, os castelos cairão como cartas que empilho para o tempo passar. Inútil empreitada… Sem ti, o tempo se redimensiona. Cada segundo é dias. O tempo entre cada piscada é anos. Sem ti, não há tempo. Não há espaço. Só há vácuo.

Amar na ausência é um sentimento sem sentido. Eu não quero pensar em cada segundo que perdi por tu estares longe. O que tu fazes? Por que sorris? O que te faz brotar as lágrimas? Como foi teu dia? Me conta o que tu aprendeste hoje? Perguntas que ficam sem respostas, diminuindo a alma, amiudando o coração, a vontade de viver. Onde o som da tua voz? Não quero perder tua vida. Acompanhá-la e descobri-la contigo, como hei de? Que medo de esquecer a emoção de estar contigo… Eu quero estar contigo. Eu preciso estar contigo. É urgente. Estou mal, sofrendo de hipotu: pouco de ti me enfraquecendo… eu, Popeye raquítico; tu, espinafre da minha alegria.

Vamos ver o sol amanhecer? Vamos correr pela praia, brincar de pular onda? Se enfiar de mãos dadas embaixo da cachoeira gelada? Eu preciso urgente ver a vida acontecer. A vida de verdade. A vida que te inclui na presença, em tudo que eu penso e faço. Ainda é cedo! Não vai ainda seguir o caminho possível que a vida te deu. Que a vida nos deu. Fica, vai ter amor. Só mais um pouquinho… só para mais um cheiro no pescoço, só mais uma cosquinha na barriga, uma história inventada para eu te ensinar a vida e aprender contigo o meu papel… Suspendamos as obrigações! Vamos deixar tudo por conta da emoção… Fica, vai ter vida… Faz de conta que ainda é cedo… Vamos ficar abraçados pra sempre. Só isso que me importa. Vamos deixar falar a voz do coração… que é tão bonita quanto a tua voz nos meus ouvidos, no meu coração… Fica, vai ter um dia de domingo… Eu bem te quis, eu bem te quis… E ainda quero muito mais. Maior do que a imensidão da paz. E bem maior que o Sol. Fica. Então me beija só mais uma vez, pelo menos. Depois volta pra lá…

Soneto do dia seguinte

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Hoje os pássaros não bateram asas
Nem cantaram sua mais bela melodia.
Nem se abriram as janelas das casas
As flores também não, em rebeldia.

Hoje os peixes se recusaram a nadar.
E os bebês decidiram não sorrir.
As marés se aquietaram no mar,
Só as lágrimas não pararam de vir…

Hoje a sineta ficou bem silente,
E, insistente, repetia à mente,
Que sentido (nenhum!) não fazia…

Junto a ela, com a voz embargada
Uma grande tristeza engasgada
Contemplava a carteira vazia…

Vambora, Miguelito!

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[Escrevi este texto há exatamaente dez anos, no dia 21 de julho de 2002. Nascia Miguel, meu sobrinho. Eu estava devastado pelo fim de um casamento. Hoje, em homenagem ao Miguel, que aniversaria, e à vida, que sempre se ajeita, republico]

Tabatinga, Alto Solimões, vinte e um de julho, 04:30h da madrugada. O galo canta. Aliás, os galos cantam. Cada um mais vaidoso que o outro. A impressão que tenho aqui do quarto do hotel é que a cada tufar de peito e explosão de som, eles olham para os lados e desafiam uns aos outros, como adolescentes se desafiam em concursos de arrotos.

À sinfonia de galos vaidosos se junta o cantar do celular, rasgando a madrugada de contemplação e introspecção. Mais uma, diga-se de passagem. Atendo entre ansioso e aliviado e vejo que é o Mauro, meu irmão. Feliz como pinto na merda. Nasceu o Miguelzinho, seu primeiro filho. Minha mãe toma-lhe o telefone para dizer que o menino é branquinho e pimbudo, avó vaidosa como os galos cantores tabatinguenses, falando do esporão do rebento. Espero que, se não ajudar, ele não atrapalhe. Que o menino seja a cara da mãe, linda.

Venho para o computador para escrever sobre isso, sobre ser pai. Não adianta dizer que sou desqualificado para falar sobre o assunto porque ainda não sou pai. Eu tenho um grande pai, conheço bons e maus pais. E quero ser pai. Qualificação suficiente. Os galos agora estão cada vez mais vaidosos e aumentam em número e potência seu cântico. Adolescentes desafiados, sabe como é… Abro o programa de música e mando tocar qualquer uma entre as que tenho aqui armazenadas. Talvez a música sobreponha o barulho do galinhame. Peço que o computador escolha aleatoriamente. Um cachorro faz o backing vocal da sinfonia dos galos aqui ao lado. Ele é barítono, o danado.

O computador escolhe Vambora, da Adriana Calcanhoto. Apropriada: Entre por essa porta agora/ e diga que me adora / você tem meia hora / pra mudar a minha vida/ Vem, vambora/ que o que você demora/ É o tempo que leva/ Ainda tem o seu perfume pela casa/ Ainda tem você na sala/ Porque meu coração dispara/ quando tem o seu cheiro/ dentro de um livro/ dentro da noite veloz.

Meu irmãozinho, o caçulinha dos homens, agora é pai. Lembra, mano, quando a gente brincava de super-homem contra “todos” lá na casa da rua três? Tu sempre eras o super-homem e eu era o “todos”. E tu sempre vencias nas nossas brigas imaginárias. Um a um, todos os inimigos que eu encenava sucumbiam dizendo um “ahhhhh” de morte antes de fenecer. Eu te deixava vencer. O super-homem sempre vencia. Aí fostes estudar em Niterói e eu te disse, numa carta cheia de saudades, que a partir dali deverias ser o super-homem mesmo porque o “todos” seria real, criaria mil armadilhas para ti, iria usar kriptonita sempre que pudesse para ti atingir. As brigas não seriam mais dos brinca, mas seriam dos vera. Pois é.

Hoje me volta à mente a brincadeira que costumávamos curtir na infância, rolando na cama do beliche ou no sofá da sala. E me volta com ela a vontade de dizer, com conhecimento parcial de causa, que está na hora, de novo, de ser o super-homem e se preparar para mais um embate contra o “todos”, sabendo que agora estás mais vulnerável porque tens uma coisinha que vais amar mais que tudo, mais até que a ti próprio. E que por isso não dormirás mais, tendo que estar sempre alerta para protegê-lo do malvado “todos”.

Como na trilha sonora do computador, Miguelito entrou pela porta agora, vai dizer que te adora e já mudou a tua vida. Ele olha para ti, com seus olhinhos que ainda não aprenderam a ler o mundo, e faz um convite ao qual tu não podes dizer não: “Vambora!”. O seu perfume vai impregnar a casa, teu coração vai disparar muito por ele, como sei que está disparado agora como um AR-15 recebendo policiais no morro. Esse moleque vai te roubar a mulher e tu, ainda assim, vai amá-lo sem medida. Vocês têm uma vida toda pela frente, sem pausa. Dias e noites velozes. Para sempre. A música da Adriana Calcanhoto foi muito bem escolhida. É uma luva. Às vezes penso que esse computador pensa…

Mano, sei que é difícil, senão impossível. Mas tenta ser um pai igual ao nosso. Acabei de falar para meus alunos para serem incrédulos em relação às receitas prontas, que eles precisam reinventá-las antropofagicamente e eu aqui dando uma para ti. Pri, minha irmãzinha, tenta ser uma mãe igual a nossa também. Eu sei que nossa família se mete muito, mas é por amor, como tu sabes. Como tu podes ver agora aí nos teus braços. Sabe, acho que só a intenção fará de vocês os melhores pais do mundo. Mas não quero ficar dizendo o que vocês têm que fazer. ‘Magina, logo eu. De toda forma,  com vocês converso depois, quando eu chegar aí. Deixa eu falar com ele, o palmitinho pimbudo.

Miguelito, titio. Seja bem-vindo. O titio está longe e triste. Longe por trabalho e triste por um monte coisa que você um dia irá entender, mas que espero que entenda como espectador, se bem que acho que ninguém se livra disso. Mas o titio está muito, muito feliz por ti, por tu vires mudar o mundo e nossa família de uma forma que ainda não descobrimos plenamente. E sabe, tio, deixa eu te dizer uma coisa que um dia disse ao teu pai: nesse mundo a gente tem de ser uma espécie de super-homem, pois o “todos” parece conspirar contra nós. Há pessoas más, há pessoas mesquinhas, há pessoas invejosas, há pessoas pegajosas, há pessoas falsas, há pessoas que cobram. Há pessoas insensíveis, há inimigos invisíveis. Há dores. Há tristeza.

Mas a conspiração do mal, por assim dizer, perde para a conspiração do bem, para os sangue-bons. Existe a Sala de Justiça. Há pessoas boas, pessoas generosas, pessoas solidárias, há pessoas amorosas, há pessoas verdadeiras, há pessoas que doam. Há pessoas sensíveis e amigos visíveis. Há amores. Há alegria. Você nasceu em uma família abençoada por Deus e protegida por Nossa Senhora. Teve a mesma sorte que nós. Que sorte, nada! Benção divina.

Os galos continuam cantando alto e forte, a despeito do sol que está chegando e já pedindo para eles pararem com esse festival de vaidades. Só que eles não param. E isso me faz lembrar outra história, contada pelo Rubem Alves, numa tarde de conversa em Campinas, de saudosas lembranças. É assim:

O galo cantava todo dia. Aprontava-se, penteava a plumagem, passava Neutrox 2 e ia para o lugar mais alto do galinheiro. Perguntado pelos críticos do galinheiro – há sempre críticos nos galinheiros – por que fazia aquilo todos os dias, ele respondeu: “Porque se eu não cantar o sol não nasce”. E na sua convicção, estufava diariamente o peito e cantava. E o sol nascia. E todos ficavam orgulhosos e agradecidos. Invejavam positivamente o galo e sua capacidade de trazer o dia na voz. Mas o galo, como o cachorro do Magri, também é um ser humano. E falha. Um dia dormiu demais e esqueceu-se de cantar. Mas o sol nasceu mesmo assim. E todos, surpresos, descobriram que o sol nascia independentemente do galo cantar. O galo ficou morto de vergonha e sumiu. Não apareceu por uns bons tempos. Sua razão de cantar – ou aquela que parecia ser sua razão – cessara, sumira. O sol era independente dele. Que pena.

Um dia, um belo dia como hoje, todos acordaram ao som do clarinar do galo. Forte, alto, tenor. Lindo e belo, abria suas asas e cantaricava seu galicanto. Os críticos vieram, já azedos e afiados, e perguntaram, preparando-se para a zombaria: “Ei, galo! Por que cantas? Para o sol nascer?” O galo respondeu: “Não. Canto porque sou poeta. E os poetas tem suas razões. Não canto para ele nascer. Canto porque ele nasce.” E continuou a cantar, deixando os críticos sem palavras.

Miguel, seja pois um poeta na vida. Cante com toda força de seus pulmões, ainda frágeis, conhecendo e se adaptando ao ar novo dos novos ares. Cante por suas razões, por suas causas. Cante não para o sol nascer, mas porque ele nasce. E não ligue para os azedos do galinheiro, para o “todos”. Apenas fique antenado e saiba que eles existem. Mas eles passam. Eu sei disso e vou ficar de olho. Seu pai sabe disso e vai ficar atento.

Os galos pararam de cantar. Recolheram-se para compor novos poemas. Como as flores que graciosamente recolhem suas pétalas uma a uma ao fim do dia. Amanhã estarão de volta. Porque o sol nasce.

Já que estamos em clima de Adriana, seguinte: dá a mão aqui pro titio, menino pimbudo. Vambora para vida nova! Nós dois. Vamos ver as cores cujo nome a gente não sabe, as cores de Almodóvar, cores de Frida Khalo, cores. Pela janela do quarto, pela janela do carro, pela tela. Enfim, pela janela das novas vidas, a tua e a minha, que se inauguram hoje.

Onde Deus possa me ouvir

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Texto escrito para o portal D24AM.

Sabe o que eu queria agora, meu bem?/Sair, chegar lá fora e encontrar alguém/que não me dissesse nada/não me perguntasse nada também./Que me oferecesse um colo ou um ombro/onde eu desaguasse todo desengano/Mas a vida anda louca,/as pessoas andam tristes,/meus amigos são amigos de ninguém./Sabe o que eu mais quero agora, meu amor?/ Morar no interior do meu interior/Pra entender porque se agridem,/se empurram pro abismo,/se debatem, se combatem sem saber…/Meu amor, deixa eu chorar até cansar/me leve pra qualquer lugar/aonde Deus possa me ouvir/Minha dor, eu não consigo compreender/eu quero algo pra beber/me deixe aqui, pode sair./Adeus.

Há horas em que as horas se arrastam. Há dias em que tudo o que queremos é encontrar alguém que não nos diga nada, que só nos ofereça um colo, um ombro, um cafuné e seu olhar de colchão. Alguém que saiba quando calar para que nossos silêncios falem. Alguém cuja presença seja a estaca que segure a nossa alma, completamente tomada de hera dos fatos pesados da vida. São dias sem sol em que a sombra certa é tudo que desejamos que repousasse sobre nossas cabeças.

Todos nós, vez por outra, precisamos desaguar nossos desenganos. Queremos alguém que seja o receptáculo solícito de nossas angústias, tristezas e aflições. Mas quem? Por onde andará essa pessoa, com o dom e a sensibilidade de saber que a desculpa mais esfarrapada para deixar de viver é o máximo que conseguimos criar e, mesmo assim, ainda acredita em nós? Olhamos para os lados e o que vemos são pessoas e mais pessoas. Elas nos acompanham e no meio delas somos o mais sozinho ser do universo. Porque as pessoas andam tristes e na sua tristeza os amigos tornam-se amigos de ninguém.

A vida fica louca e sai do eixo. A vida parece que tem vida própria e independente de nós. Ficamos a seu reboque. Pagando com a alma se preciso for, queremos comprar a primeira passagem para o interior de nosso interior. Lá, talvez, a contemplação do silêncio ajude a entender porque as pessoas fazem o que fazem, por que tanto desentendimento em tempos de linguagem farta, por que se empurram para os abismos numa beligerância sem nexo, por que se debatem gratuitamente e se combatem com afinco sem saber.

Há momentos da vida em que queremos chorar até cansar. A esperança é que aquela sensação boa de depois de um choro venha enxaguar a sujeira que se acumula na casa desarrumada de nossa alma. Que ela faça uma faxina de quem tem TOC e devolva a cada coisa sua simetria perfeita no esquadro da existência. Porque está tudo bagunçado, está tudo confuso. Não achamos nem a porta para fugir. Ou até achamos, não temos mesmo é força.

Nossa via-crúcis particular não termina. Que droga! Por que não nos penduram logo numa cruz para acabar com esse tormento que martela de forma chinesa nas veias, no corpo, na mente? Quantas estações teremos que passar aguentando chibatadas e açoites que parecem ter combinado o tempo sincronizado para acertar as nossas costas?

Há tempos em que parece que estamos num casulo de Dante. Nem Deus consegue nos ouvir. A Ele, que ouve até nossos silêncios, lhe escapamos . E cadê a pessoa para nos carregar no colo até um lugar onde Ele possa sentir nossa respiração? Porque Lhe basta isso para olhar para nossas inquietudes e apaziguá-las…

A vontade nesses dias chuvosos é de se deixa encharcar. Sumir dos olhos de todos, buscar escapes, chutar o balde. Dar adeus a quem mais nos quer bem. E a quem definitivamente não nos quer bem. Mas não é sábio.

A vida de todo mundo é assim. Eu já vi fogo e eu já vi chuva. Eu já vivi dias chuvosos que pensei que jamais terminariam. Talvez vocês, meus dezessete leitores, não saibam, mas já cheguei muito perto, mas muito perto de renunciar à vida, quando estive afogado em certo dilúvio que me inundou a existência.

Depois o sol abriu. E com ele as cores do arco-íris. Porque é assim. A vida de todo mundo é assim. Vivemos os céus mais azuis e os infernos mais quentes intercalando-se na calada da vida. Vivemos a doçura mais deliciosa e o amargor do fel de ocasiões que chegam em bando, em gangue, para nos roubar a paz e nos estuprar a tranquilidade.

Ao descrever um momento acre da vida, a música de Vander Lee na belíssima voz de Gal Costa nos lembra, por tabela, que há momentos felizes, momentos de sorrisos fartos. A vida é agridoce. Se entendermos que é assim, talvez soframos menos. Talvez. Em minha felicidade, entendo a crítica de que sou suspeito para falar de tristeza.

Dói, mas passa…

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Ouvi essa semana uma frase que me tocou. Dizia uma professora a uma outra: “É, Deusdete. Dói, mas passa”. Não sei qual era a dor da Deusdete, mas a filosofia é legal. A professora havia descoberto a chave-mestra do mundo, quiçá do universo. Tudo dói, mas passa. Observe, leitor amigo, como é verdade.

Para nascer é preciso um parto. Mas a dor passa. E vem o filho, alegria sem igual. O primeiro dente rasga a gengiva. Dói. Mas depois que nasce, passa. Aí crescemos e, traquinas, aprontamos e apanhamos de nossos pais. Quando a chinelada come solta, dói muito. Havaianas na pele fazem um estrago. Depois a dor passa e lá estamos nós a fazer novas traquinagens e a merecer novas sovas.

Crescemos um pouco e nossos hormônios começam a se enxerir. Nos engraçamos da amiga da irmã. Ela, coração de pedra, nem liga. O desprezo na descoberta do amor dói muito. Mas a dor do desprezo passa com o primeiro sorriso daquela outra que se achegou e nos encantou.

Sem entender Marx e suas explicações sobre diferenças sociais, você sente uma dor danada quando vê seu amigo rico com tudo que é o desejo da moçada. Um par de tênis All Star de couro, uma bolsa Tiger vermelha, um videogame Odyssey, uma camisa da K&K. Ok, são exemplos dos anos 80, mas são reais. Quando o seu amigo magnata lhe convida para jogar, você esquece a inveja e tudo passa ao toque do joystick. “Dói, mas passa”.

Namoro sério. Quem você ama diz que não lhe quer mais. Dói muito e parece que não vai acabar mais. Mas passa. Logo você já está na balada de novo. Arranja outra e começa a namorar sério. Esquece que sofreu de amor. Dor? Que dor?

E no sexo? Perder a virgindade, por exemplo, dói de várias formas. A cobrança moral na cabeça, fruto de uma sociedade que cultiva a culpa, dói e angustia ainda muitas jovens na hora agá. Mas passa na primeira poesia sussurrada, na primeira pegada de jeito, na primeira arfada de prazer. A filosofia “dói, mas passa” na questão sexo podia ir além, mas fica para sua imaginação fértil, leitora.

Casamento. A rotina dói, mas passa no afago ao final do dia, num banho a dois com direito a beijos molhados sob a ducha quente. A rotina desaparece no assistir televisão sob o edredom com pés entrelaçados, de conchinha.

A morte de alguém querido, suprema dor. As lágrimas descem involuntárias numa dor que vem da alma e lava com lágrimas o rosto de uma tristeza sem fim. Mas depois dessa sangria com o estilete do destino, a vida volta ao normal. A saudade fica, mas a dor que corrói passa com o tempo. “Dói, mas passa”.

Martelou o dedo? Um dia desincha e passa. Cortou a mão fatiando salame? Cicatriza e passa. Perdeu o emprego? Deus escreve certo por linhas tortas. Daqui a pouco está empregado de novo. A filosofia “dói, mas passa” me convenceu. Serve para tudo.  E você, leitor ou leitora? O que está doendo agora? Caia de cabeça no “Dói, mas passa!” e veja a diferença.

Agradeço à amiga da Deusdete. “Dói, mas passa” em tudo daqui pra frente! Sem estresse. Porque tudo na vida passa. Porque tudo que sobe desce. Será que a Deusdete seguiu o conselho da minha guru?

Colhendo amoras

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“E ninguém sou eu. E ninguém é você. Esta é a solidão”.
Clarice Lispector

É clássica a história de que os esquimós têm várias palavras para se referir ao gelo: gelo para construir iglu, gelo de neve, gelo para a coca-cola. As línguas recortam o mundo de forma diferente. Os amazonenses, por exemplo, têm suas nuances na linguagem das águas. No campo semântico de “rio”, há “igapó”, “igarapé”, “furo”, “paraná”, “pari”, “braço”, para citar alguns.

Fato é que quanto mais línguas uma pessoa fala, mais relativiza os sentidos de sua língua materna. Ao entrar em outro universo simbólico e perceber que o mundo pode ser recortado e lido de outras maneiras, sai-se do (des)conforto de sua língua para o (des)conforto dos sentidos plurais que uma outra língua descortina.  Há uma inegável correlação: quem fala mais línguas tende a ser mais tolerante com os sentidos do mundo do que quem não fala. Tem mais janelas para ver a paisagem e a janela faz parte da paisagem do sentido.

Caetano Veloso exagera quando diz que “está provado que só é possível filosofar em alemão”. No entanto, há idiossincrasias linguísticas interessantes. O “saudade” do português dá de goleada na expressão do banzo pela ausência de alguém frente ao “I miss you” do inglês, ao “te echo de menos” do espanhol ou ao “tu me manques” do francês. Não é a mesma coisa. Não tem o mesmo peso.

Linguista de formação, longe de mim afirmar que há línguas melhores e piores, mais fáceis ou mais difíceis. Claro que não há. Mas há formas mais poéticas de recortar o mundo. No tupi, “catapora” quer dizer “marca de fogo”. Quem teve catapora sabe como isso é preciso. “Tupuy” significa ao mesmo tempo “ser” e “som em pé”. Nessa língua, ser e linguagem são uma coisa só. Em tupi ainda, “choram-se as pitangas” quando a dor é grande, uma expressão que o português também herdou. Pitangas são vermelhas. Metaforizam lágrimas de sangue. A dor é aguda. Dá licença, é poesia pura.

Esse preâmbulo todo é só para falar da diferença que a língua inglesa faz daquilo que a portuguesa chama de “solidão”. O que o português resume em uma, o inglês desdobra em duas palavras: “loneliness” e “solitude”.

Há momentos em que queremos alguém, buscamos companhia. Queremos dividir as dores do mundo. Ou suas alegrias. Queremos aquele abraço analgésico, um cafuné terapêutico, o ouvido para desaguarmos nossos desenganos. Queremos um ser amigo que empreste a fundo perdido o ombro ou o colo para o recosto da cabeça pesada de coisas, ardendo de ideias mentoladas a inquietar nossa paz. Mas olhamos para todas as direções e essa pessoa simplesmente evadiu-se da nossa rosa dos ventos. Ela não há. “Ninguém no caminho, e nada, nada a não ser amora”, como reclama a poetisa Sylvia Plath. É a solidão. E solidão, não se engane, não se resolve com a presença do corpo. É preciso que a alma esteja lá para dialogar. Há solidões em meio a multidões. Essa solidão de que falamos aqui é uma solidão estéril em sua busca. Queremos alguém, mas não temos. Procuramos, mas não achamos. É a “loneliness” do inglês.

Por outro lado, há o momento de saturação. O mundo transborda para dentro de nós de tal jeito que a possibilidade de sobrevivência passa necessariamente por se descolar ao máximo dele. Porque ninguém serve e todos atrapalham. Qualquer coisa é demais. Vem aquela vontade recorrente de se ausentar por uns tempos, de hibernar a alma em algum lugar inacessível às nossas redes sociais para depois, quiçá, voltar. Uns não suportam o caminho de volta e por lá ficam. Como Sylvia Plath, Virgina Woolf, Hemingway, Kurt Cobain, Raul Pompéia e tantos que prefiram a solidão eterna. É uma hora em que explicações perdem a valência: não vale a pena relatar ao mundo o que se passa porque ninguém vai entender mesmo. A única companhia que queremos é a do silêncio de nossos gritos internos. Ou do barulho de nossos silêncios externos. Buscamos o livro mais alto e mais grosso na estante de nossa vida para nos enfiar entre suas páginas de forma que fiquemos inencontráveis. O desencontro é o combustível. Quando Picasso fala que “não se pode fazer nada sem a solidão” é a esse tipo que se refere. A solidão desejada. Nós temos alguém, mas não queremos. “Solitude”.

Aristóteles, que também supostamente foi e não quis voltar, disse que “o homem solitário é uma besta ou um deus”. A dualidade da solidão depende da incapacidade de se ter alguém ao lado ou da divina capacidade de marcar um encontro consigo e só consigo para dançar de olhos fechados as bachianas no seu interior. Antes que alguém reclame de que a solidão não combina com o amor, Rainer Rilke, poeta alemão, mata a pau: “O amor são duas solidões protegendo-se uma à outra”.

Clarice Lispector, que começou o texto lá em cima, vem para terminá-lo cá embaixo: “Fique de vez em quando só, senão será submergido. Até o amor excessivo pode submergir uma pessoa”.

É. Danço eu, dança você, na dança da solidão…

Pescando reflexões

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Fui pescar. É, pescar peixe mesmo. Comprei uma vara completa, com molinete SweepFire 2500B da Daiwa, iscas Borboleta, massinha, pesinho, bóia e tudo que tinha direito. Na loja, o vendedor me garantiu que a isca que comprei, com três âncoras de anzol, pegaria tudo. Uma vez dentro, não sairia “nem com nojo”, como se diz num belo amazonês.

Não, não sou pescador. A única vez que fui pescar foi há três anos, no lago de Balbina, com meu sogro e o cunhado da Bia, que estavam aqui. Pescaram 97 peixes, entre tucunarés e piranhas. Desses 97, eu não pesquei nenhum. Mas torci muito a cada fisgada, eu juro.

Dessa vez, eu disse a mim mesmo, seria diferente. Fomos só eu e meu sogro, que está por aqui. Alugamos um barquinho lá no portinho da Baixa Ponta Negra. Saímos oito da manhã e voltamos lá pelas duas da tarde. Quem foi conosco foi o Luzivaldo, o Lulu, barqueiro, pescador e Forrest Gump, dadas as histórias sem fim que contou nesse intervalo.

O Rio Negro está cheio. Fomos para quatro locais diferentes e nada de peixe. Eu não vi um peixe sequer. Mas vi um boto, fazendo a sua dança arqueada, numa cena de impressionar. Aliás, o Rio Negro é impressionante. Como impressionante também são as casas dos mais abastados e suas lanchas na beira do Rio. Menos imponentes, mas não menos impressionantes, são as casas flutuantes dos ribeirinhos ao longo das margens do Negro. Suas redes penduradas são um convite ao abandono de tudo.

A certa altura, não pescando nada, recolhi a vara do rio. Na saída d’água, a linha ricocheteou e  anzol veio em minha direção. Em um ato instintivo, protegi o rosto com a mão. Pronto! Se não peguei nenhum peixe, já não podia dizer que não havia pego nada. Acabara de fisgar meu dedo mindinho. Pesquei meu dedo mindinho! O anzol entrou fundo. Calmo, absurdamente calmo para os meus padrões quando há sangue escorrendo, pedi ajuda de meu sogro e do Lulu. Lulu, com sua sabedoria herdada pelos seus, creio, 50 anos, disse: “Não puxe não! Tem de empurrar pra cabeça do anzol sair do outro lado!”. “Como assim?!”, disse eu. “Se puxar, finca de vez! Tem de varar do outro lado. A gente então corta a cabeça dele e puxa de volta”. Não bastasse um furo, teria de fazer outro, dessa vez de dentro para fora. O vendedor na loja tinha razão. Aquilo não sairia do meu dedo “nem com nojo”, pois o anzol é como uma flecha: uma vez dentro, puxar só o fixaria mais na carne, nesse caso a do meu dedo mindinho. Macho pacas, eu disse: “Então faz logo isso!”, entregando o dedo ao Lulu e a alma a Deus. Depois do “tuc!”do anzol rasgando o dedo (juro que fez “tuc”!), cortaram a cabeça com alicate e puxaram de volta. Fazia tempo que eu não sentia uma dor tão lancinante.

Resolvida a questão do meu piercing dedal involutário. Continuamos a pescar e voltamos no horário combinado. Sem peixes. Paciência! Mas se não pesquei peixes, pesquei, além do meu mindinho, algumas reflexões que o rio e a pescaria me proporcionaram.

Pesquei a certeza de que a nossa vida é muito pequena diante da grandiosidade da vida, do mundo, de Deus. A imensidão do Rio Negro e suas águas cor de coca-cola colocaram-me didaticamente no meu lugar de efemeridade, de coadjuvante de um mundo maior, incontrolável, impegável, indominável. E foi uma certeza de pequenez grandiosa, se é que você, leitor, me entende. Uma coisa meio socrática sobre a sabedoria do mundo.

Pesquei, na mesma linha da pequenez grandiosa, mais um exemplo da certeza de que sempre tem alguém no mundo que vai saber mais sobre alguma coisa do que a gente. Eu ia puxar o anzol. Graças ao Lulu e seu pós-doutorado em rio, meu dedo não virou uma laranja esbagaçada. Diz ele que uma vez aconteceu algo parecido com um pescador de São Paulo no Uatumã, mas foram seis anzóis e na cabeça. Ele que tirou. Acho que é gumpisse dele, mas ele tem direito. Deixa quieto.

Pesquei, com o caniço da meditação, que o silêncio é tão importante para a melodia quanto as notas que a compõem. Que a pausa faz parte da música. É preciso parar a vida em seu ritmo frenético e esquecer-se de si no mundo. Olhar o rio, o céu, o crespo verde das árvores que emolduram a natureza da vida. É preciso permitir-se, na grandeza externa, refletir sobre a grandeza e a pequeneza interna. É preciso pensar em nada, atingir o nirvana, superar a existência, a pureza, transgredir o físico. Na língua Pāli, “Nibbāna” significa “sopro”, “soprar” e “ser assoprado”.  Para o budismo, é o culminar da busca pela libertação, ser assoprado pela existência sem plano pré-determinado, dançar leve no rio, como fazem os botos.

Aprendi, por fim, que a gente sempre pesca o que já se tem e não se sabe. Mas que é preciso uma chave para que o anzol no dedo deixe de significar dor e signifique prazer. O gozo, diz a psicanálise, é a libertação da dor represada. Mesmo sem pescar nenhum peixe, senti o prazer dos pescadores que, em vez de dedos mindinhos, exibem seus aruanãs imensos como troféus.

Se permita jogar sua linha, leitor, para ver o que vem de volta.  Nem precisa de um molinete SweepFire 2500B da Daiwa! Basta fechar os olhos. Vale a pena.

Já agendamos com o Lulu Gump a próxima.  Vem com a gente?