educação

Chang e Eng, Teoria e Prática

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Teoria e Prática. Duplinha antiga essa, não?  Não há como falar sobre uma sem se referir à outra, ainda que por contraste mental. Ambas são separadas por caráter didático, mas são tão unidas na prática do real quanto Chang e Eng, os gêmeos que deram ao mundo a expressão gêmeos siameses. O que me faz parar para escrever sobre teoria e prática é exatamente o incomodo que sinto quando as vejo dissociadas, tanto no mundo acadêmico, minha praia profissional, quanto no mundo real, meu metiê de vida.

No mundo acadêmico, fico deveras inquieto quando vejo colegas professores levarem às salas de aulas as mais firulentas teorias de construção do conhecimento, as mais badaladas falas de Paulo Freire, os mais inspirados pensamentos de Rubem Alves, os pensamentos mais complexos da complexidade de Edgar Morin, as mais instigantes discussões sobre linguagem e sociedade e, na prática, trabalharem dentro de um paradigma que trata transmissão de informação como conhecimento, dentro de um bancarismo que deixaria Freire juçuí, Rubem Alves nervosíssimo e Morin complexado. Uma visão de linguagem que faria Napoleão Mendes de Almeida exultar em um orgasmo prolongado. São, a meu ver, profissionais que buscam na hipervalorização da forma o exílio para o medo de mudar seu conteúdo, sua prática, tão cheia de teias e meio amareladas pelo tempo, como canta Roberto Carlos. Poderíamos chamá-los de professores-aranha da casa d’O Portão.

Vejam bem: antes de carapuça sentar e minha caixa de entrada receber uma enxurrada de e-mails de protestos contra um suposto patrulhamento, quero dizer que tratar  o processo pedagógico a partir ou de um prisma positivista, marxista ou sei lá é uma opção a que todos têm direito. É o direito à opção teórica e isso é tão sagrado como o cocozinho matinal. Tem gente que é Flamengo e fazer o quê? Isso não se discute e não é isso que estou discutindo. O que estou discutindo é coerência. Pregar uma visão dialética de educação e fazer uma avaliação-surpresa baseada naquele livro que ninguém tem, muito menos os alunos, é dose pra leão. Discutir nas aulas de metodologia ou estágio a necessidade de um processo de avaliação contínua e lançar mão de avaliações draconianas e punitivas é sinistro. Falar de uma visão discursiva de linguagem, letramento e afins, e trazer como exemplos para o ensino de língua frases de José de Alencar, com um português hoje ininteligível é fogo. Não há virgem dos lábios de mel que adoce o amargo que fica na boca do aluno. É disso que estou falando, capisci?

Teoria e prática, volto a dizer, só se separam para fins didáticos. Não podemos exercer nossa prática pedagógica falando a e fazendo b. Ou não devemos, pelo menos. Morde-se o próprio rabo. Não adianta ficar teorizando o mundo sem relacionar essa teoria com o real desse mundo, mostrando onde é que se vê essa teoria materialmente, no real da história. Não adianta, por outro lado, querer fazer uma abordagem prática, sem referências teóricas, porque se volta às receitas, treco que abolimos da pedagogia faz tempo, pelo menos na teoria, para aproveitar o jogo de palavras. São as duas coisas. Se Chang vai ao banheiro, Eng tem de ir também. Assim, bem provocativamente: professor que se prende em minudências formais, no pequeno, na miudeza, para mim carece de envergadura teórica. Sem sustentação, agarra-se às picuinhas enervantes da margem um milímetro menor do que a da ABNT, ao acento agudo esquecido, à inflexibilidade do inefável diário de classe. Se bobear, esse mesmo professor nunca teve de consultar a ABNT para ele, pois jamais produziu sequer uma linha de texto publicável. Vai cobrar do aluno o que ele não lhe deve? Lembro agora do Herculano Quitanilha, paranormal fajuto da novela O Astro e de sua assistente de palco que dizia, muito apropriadamente: “pensar, professor, pensar!”

Assim, caros leitores, venho aqui só registrar minha insatisfação profissional quanto a essa incoerência. Sabe por quê? Porque somos nós os professores que ralamos para preparar aula, gastamos o que temos e não temos para comprar livros que subsidiem nosso dizer e tentamos, na medida da possibilidade do ser humano, exercer uma prática profissional decente e comprometida, que levamos o tranco. Pausa para eu respirar porque senão vou pegar pesado e ninguém deve falar nada de cabeça quente. Coca-cola, amendoim, beijo na patroa, uma poesia do Vinicius. Pronto. Estou calmo.

Eternos alunos

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 Adoro dar aulas: pessoas reunidas em volta do fogo da curiosidade, como faziam na pré-história os homens em torno do fogo para se aquecer. Uma das belezas em ser professor é a possibilidade de conhecer muita gente. São 26 anos de magistério. Tenho colegas de trabalho que foram meus alunos. Tenho alunos que foram meus colegas de trabalho. São muitos os que me deram o prazer da convivência. Esse percurso fez-me pensar nos tipos de alunos que temos. Se você é professor vai saber do quer estou falando.

O primeiro tipo de aluno é o sabe-tudo. A cada frase do professor, o sabe-tudo levanta a mão. Se deixar, ele fala a aula inteira. Adora testar o professor. Por isso faz par com o desconfiado. O desconfiado assiste à aula com uma sobrancelha alta e outra baixa, como quem diz: “será que o que esse cara sabe do que está falando?” Esparrama-se na cadeira e põe a mão no queixo, como O Pensador de Rodin.

Há também o aluno concordante. É terminar uma frase e ver o concordante concordando, com sua cabeça de mola para cima e para baixo. Mas diferente do sabe-tudo, ele é humilde. Sabe que a educação pode lhe acrescentar algo. Ele concorda convencido. O que concorda para agradar é o puxa. Tive uma aluna que dizia: “Bom dia, professor. Sua aula é a razão de eu estar aqui hoje”. Descobri que ela dizia isso a todos os professores. E eu me achando.

Outro tipo é o reverente. Para ele, o professor é mestre, digníssimo ou, em caso de reverência suprema, digníssimo mestre. Sempre comenta as “sábias palavras muito bem colocadas pelo mestre”. Outra figura é o dialogador pós-aula. A aula termina e o dialogador se aproxima, devagarzinho, e começa a comentar a aula, acompanhando o professor até a sala dos professores. É um momento de individualização do ensino. O paciente é mais um tipo presente. Ele é paciente no sentido médico. O professor é Dr. Freud e dele o paciente espera conselhos sobre sua vida, trabalho, planos ou qualquer encruzilhada existencial.

Há o spammer, que lota o e-mail do professor com mensagens imensas. Os spammer são inofensivos quando se tem um bom antivírus. Há o citador, que a cada aula manda: “Como dizia Paulo Freire, ‘não há docência sem discência’”. O citador trabalha com palavras-chaves: é ouvir uma que está indexada e disparar de pronto. Se você for professor homem, um tipo típico é a apaixonada. Ela joga charme e o chama de fofo. Quer dizer, não precisa ser professor homem, não… Enfim, as paixões no contexto educacional existem, mas são despertadas mais pelo lugar simbólico ocupado pelo professor do que por suas qualidades pessoais intrínsecas.

Há ainda o follower e friend de redes sociais. Às vezes, o aluno esquece que o professor o segue e fala sem filtros pelos cotovelos digitais. Cutuca o(a) professor(a) e leva cutucão de volta no Facebook. Além, é claro, de assistir à aula com o computador ligado e logado na internet, fingindo que está prestando atenção na aula enquanto bate o maior papo no Gtalk.

Poderia elencar mil tipos, mas é dispensável. Cada professor que faça sua lista. Como entendo deste assunto, só usei o espaço para fazer uma breve colocação, ainda que desconfie que você possa não gostar do texto. Se você discordar, tudo bem: o leitor é quem manda. Só saber que você está me lendo torna meu dia melhor. Qualquer dia desses, digníssimo leitor, a gente conversa e conto minha vida. Tenho certeza que sua opinião vai me ajudar. Por enquanto, a gente se comunica por e-mail. Vou enviar uma linda mensagem de apenas oito megas para você refletir. Porque é como dizia Barthes: “o autor está morto. É o leitor que constrói o sentido de um texto”.  A propósito, sou apaixonado por nossa relação. Peraí! Estão me chamando aqui no Gtalk. É… não tem jeito: somos eternos alunos.

O peão intelectual

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Muito se fala sobre a desvalorização do professor. Em princípio, para abordar o assunto parece-me ser fundamental reconhecer que a situação está como está em parte por nossa culpa mesmo.

Tendemos a nos contradizer enquanto profissionais. Falamos de educação libertadora, mas somos guiados pela analogia religiosa: “professor trabalha muito e ganha pouco porque é sacerdócio.” Esse voto religioso desloca o papel de professor-profissional para o papel de professor-sacerdote, com todas as implicações, votos de pobreza e de obediência que ele traz. A distância entre o discurso político e a falta de atitude política amplia a desvalorização e vem da própria lógica que enfatizamos ao dizer “Coitado de mim. Sou professor”. A repetição vira realidade. Resumindo: estamos na lama profissional, entre outros motivos, porque nós mesmos ajudamos a propagar a desvalorização. Isso acontece com os médicos?

A valorização do professor passa necessariamente por nossa autovalorização. Quando vamos parar de repetir a lengalenga do coitadinho e passar a considerar nossa profissão como uma profissão de fato? Entre outras coisas, fazer isso significa querer ser remunerado pelo trabalho que se faz e não abrir mão disso. Mais trabalho é igual a mais dinheiro. “Oh!”, exclamariam escandalizados os que não conseguem sair do lugar do professor-sacerdote. Mas há de se perder o pudor prejudicial e o temor religioso de ir para o inferno só porque perguntarmos quanto é que vamos ganhar pelo trabalho extra que está sendo proposto, como se falar em dinheiro fosse sacrilégio.

O que estou dizendo não implica cair na porra-louquice do discurso vazio de trotskistas extemporâneos. Declarar guerra ao sistema que nos envolve é uma estratégia tão inócua quanto o discurso dessa gente. Precisamos entrar no discurso do mercado para poder desconstruí-lo. É de dentro que se muda o que não se quer. É necessário conhecer para transformar. Tróia pura. Façamos engenharia reversa e tratemos nossos patrões como opressores reconhecidos: reconhecer a contribuição de suas escolas para a sociedade, mas não abrir mão de que o jogo seja limpo, sem hipocrisia. Somos vistos como peões nas práticas de quem nos paga? Então queremos ser tratado como peões, sem problemas e sem carga pejorativa. Peões ganham mais quando dão hora-extra. Por que uma atividade não prevista em nossa remuneração tem de ser “de grátis”? Se começamos a fazer isso, teremos imediatamente um aumento no valor real do salário. Não no valor nominal do contracheque, mas no que ele vai representar em função de horas efetivamente trabalhadas. Só um lembrete: peão trabalha mesmo, viu?

Ou se trata o trabalho intelectual como realmente diferenciado, em termos de condições e remuneração, ou se assume de vez que trabalhamos em uma empresa como qualquer outra do distrito industrial. Assim se reconhece o que já acontece e se acaba com a hipocrisia. As boas empresas sabem que a satisfação de seus funcionários é investimento e não despesa. Entretanto, no setor educacional ainda vivemos um capitalismo muito primitivo.

Esse discurso zanza convenientemente de um lado para o outro: na hora do trabalho, o professor é diferente, na hora da remuneração é igual. Isso é capitalismo de conveniência. Entre o professor intelectual retoricamente reconhecido e concretamente mal pago e o peão da engrenagem educacional pago pelo trabalho efetivamente produzido, eu prefiro ser peão. Um peão intelectual. E a luta continua, companheiros.

De smoking ou de Smurf?

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Escrito para o site do Deputado Chico Preto.

Um artigo do IG causou um grande alvoroço e muita discussão sobre a língua portuguesa nessas últimas semanas. Para quem estava em Marte, um resumo: uma jornalista abriu um livro didático de língua portuguesa (Por uma vida melhor, de Heloísa Ramos), viu que lá dizia que “nós pega o peixe” também é língua correta e passou a dizer que tanto a autora do livro quanto o MEC, que o distribui em escolas públicas, estavam ensinando os alunos a falar errado.

Sou linguista. Ou seja, tenho formação para meter meu bedelho nessa confusão. E sou professor. Ou seja, me sinto na obrigação de esclarecer a coisa toda do ponto de vista de quem estuda a linguagem. Outros linguistas também o fizeram, como Sírio Possenti (UNICAMP) e Marcos Bagno (UNB). Assino embaixo, mas quero assinar em cima também.

Do ponto de vista técnico, o livro está correto. “Nós pega o peixe” é uma construção utilizada por muita gente na oralidade. Portanto, é língua. Língua é tudo aquilo que sai de sua boa e comunica. O livro diz – mas a matéria não diz e muitos dos que repetiram seus argumentos sem ver o livro também – que a frase está correta, porque comunica, em determinados contextos. E continua dizendo que para outros contextos é necessário o sujeito utilizar a “norma culta”. Eu prefiro usar norma “padrão” em vez de “culta” porque é menos valorativa (como se as outras formas fossem “incultas”, numa relação rasa entre variação e cultura). Veja o livro aqui.

A norma padrão é uma das variações da língua portuguesa. Extremamente importante, a padrão é a norma de investimento social. É a variedade das revistas, dos jornais, dos contratos, da regulação social. Acontece que essa variedade, diferente da oralidade (um item de fábrica do ser humano), precisa ser adquirida. E só vai ser adquirida de forma sistemática na escola.  Portanto, é função da escola ensinar a norma padrão. “Ah, então o livro está ensinando errado!”. Calma lá!

Entra aí uma questão metodológica e conceitual do que é língua. Ensinar a norma padrão pode ser feito de várias formas. Uma delas – a mais comum – é  pelo ensino da sua gramática normativa. O conceito é de que estudando a gramática se aprende a língua. É a crença em que saber o que é uma oração subordinada sindética adversativa vai fazer o aluno a falar e escrever melhor. É como decorar bula de remédio para querer ser um bom médico ou memorizar as leis para querer ser um bom advogado, forçando a barra na comparação. O objetivo não se atinge ou se atinge de forma capenga, penso eu. Um bom médico, um bom advogado e um bom falante de sua língua precisam muito mais do que saber sobre. Precisam saber articular tudo isso no uso real. É disso que o livro fala.

A autora afirma que existem variações linguísticas – e existem – e que dentre elas a norma padrão é imprescindível – e é. Afirma também, com outras palavras, que é preciso aprender a norma padrão utilizando não a decoreba da gramática, mas as outras linguagens pelas quais o aluno já circula. É de uma lógica cristalina para quem é professor: quanto mais eu uso o que o aluno já tem, melhor será a minha aula. É Paulo Freire: se o aluno não sabe tudo, ele não ignora tudo. Inclusive em termos de língua.

Mas então, por que tanta confusão?

A confusão começou com a falta de informação. Se tivesse feito o dever de casa e ouvido qualquer linguista – o que a mídia pouco fez e quando fez o fez para desconstruir a opinião –, a jornalista que fez a matéria iria perceber que sua pauta seria outra: a diversidade linguística na formação do cidadão. Assim, do jeito que saiu, a matéria acabou dando sustentação a um discurso de  que há uma língua que presta e uma que não presta, o que para a linguística é uma compreensão há muito superada. Quem concorda com essa visão e nela embarca com todos os seus pertences e de óculos Ray-ban acredita que a língua portuguesa é monoliticamente aquela descrita nas gramáticas normativas, que prescrevem normas do certo e do errado, dizendo como o sujeito deve falar em qualquer situação.

Quanto ao “preconceito linguístico” de que fala a autora, eu tenho umas notas. O livro afirma que falar “nós pega o peixe” está certo porque serve para comunicar em determinadas situações de fala e em outras não. Seu uso inadequado pode levar o falante a ser vítima de “preconceito linguístico”.

Em linguagem, nunca se julga a língua, mas sim os seus falantes. Dizer que não gosta do sotaque nordestino é reconhecer simbolicamente que os nordestinos, como povo, incomoda por algum aspecto. Não adianta refutar: é simbólico, portanto inconsciente. O mesmo vale para a situação em discussão. Como a variante do “nós pega o peixe” é utilizada por quem geralmente não teve acesso à norma padrão pela escolaridade, a utilização desse tipo de linguagem remete a uma ressalva de classe. E isso não é papo de linguista “boçal e petista”, como afirmou boçalmente um articulista n’O Globo, politizando com a política pequena uma discussão que é política em mérito. Só para informação dos afoitos, pensar sociolinguisticamente nos livros didáticos, um avanço, foi introduzido na época em que Paulo Renato dirigia o Ministério da Educação, na era FHC. Não é coisa do “Lula que quer que todo mundo fale errado como ele”, como li por aí e alhures. O preconceito é real porque se funda no já falado discurso da língua que presta e língua que não presta. É gente que presta e gente que não presta. Os diferenciados linguisticamente, para usar um termo da moda.

O embate é discursivo. Um discurso – que é o que circula mais –  diz que o português é feito exclusivamente da norma padrão e essa norma deve ser usada 24 horas por dia, sete dias por semana. Entraram defendendo esse discurso o gramático  Evanildo Bechara, o presidente da Academia Brasileira de Letras, o presidente do Senado  José Sarney e boa parte da mídia. Outro discurso, no qual eu e as ciência da linguagem nos inserimos, diz que a língua é rica, dinâmica, plural. Reconhece que a sociedade elege uma variante para ser a norma padrão e que sem ela o cidadão não circula com cidadania linguística. Sabe que o lugar para aprender isso é na escola, mas não de forma gramatiqueira ou chata, mas com todos os elementos de linguagem disponíveis para que o professor atinja seu objetivo junto ao aluno. Identidade se faz por alteridade: uma norma só é padrão porque outras que existem não são. Fica mais fácil, não?

Passando a régua: como qualquer língua natural, a língua portuguesa é feita de diversidade. Língua é roupagem, é adequação. A norma padrão é a roupa de aceitação social.  O alfaiate dessa roupa social é a escola. Mas às vezes tem festa a fantasia. E não dá para ir vestido de smoking onde só tem gente vestida de Smurf, Bob Esponja e Teletubbies. Assim como não dá, em uma festa de casamento, para chegar vestido de Super-homem ou pintado de verde, que nem o Hulk. Até dá. Mas fica ridículo. Quanto mais roupas linguísticas o sujeito tiver em seu guarda-roupa, sendo um poliglota em sua própria língua, mais efetivo ele será como cidadão. Pense aí. E fala sério: você percebeu o pronome oblíquo átono iniciando frase lá em cima no segundo parágrafo do meu texto?

Em tempo: acrescentei a entrevista do Prof. Ataliba Castilho sobre o assunto. Ele mata a pau a questão:

Casamento? Deixa que eu comento!

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[Escrito em 23/02/2003]

Estava em um aniversário de uma grande amiga e, inevitável, rolou na roda da conversa de um grupo agradabilíssimo o papo sobre relações pessoais. Mais especificamente sobre casamento. Fato é que essa minha amiga que ofereceu o bolo três camadas está noiva. Discutia-se se a cerimônia formal, terno-gravata e tal, era ou não era um mico para os homens. Os homens da discussão achavam que  era.

Estava observando o papo de longe. Não quis, assim, sabe, falar nada logo de cara para não parecer um boçal. Sabe como é: com dois casamentos no lombo, um terceiro certamente por vir, a gente tem uma certa cancha para opinar com mais propriedade. Mas fiquei na minha até ser solicitado a dar meu pitaco, me sentindo o próprio Drauzio Varela do matrimônio, pronto a ceder meus conhecimentos de pseudo-expert ao grupo.

É ou não mico? Vestir-se de terno, ensaiar com os padrinhos, levar esporro do fotógrafo no ensaio… É ou não é mico, afinal? Acho que é preciso contextualizar melhor o assunto antes de emitir um laudo. Resolvi então dar minha opinião e escrever um pouco sobre o casamento, essa instituição social dita falida, afirmação da qual discordo veementemente para começo de conversa.

Sou a favor do casamento formal, oficial, com tudo que se tem direito. As duas vezes que casei foram assim. O primeiro poderia até ter recebido o prêmio ISO 9002 dos casamentos: namoro de portão com horário para entrar, pedido de noivado com a presença das famílias, curso de noivos – no qual passei raspando, confesso -, ensaio na véspera, passando pelo até-que-a-morte-vos-separe, marcha nupcial, e, claro, a lua-de-mel em Fortaleza. Durou quatro anos. Começou gloriosamente um pouco antes da Copa dos Estados Unidos e terminou, sintomaticamente, um pouco antes do fiasco da Copa da França.

Quando casei a primeira vez, casei para sempre. Juro pela felicidade das noivas em véspera de casório. Só que aí vieram alguns probleminhas de incompatibilidade de gênios, de visão de mundo diferenciada e de ciúmes que culminaram com uma relação que não se sustentava mais. E isso foi a morte. Foi como o prometido: até o dia em que essa morte nos separou. Hoje minha primeira équis está feliz, recasada com um ex-amigo meu –  que é ex-amigo por contra própria, pois ele deixou de falar comigo. À época, o cognato (falso amigo) se ofereceu de ombro acolhedor e tal. Bom, ela hoje está pronta para ser mamãe dentro em breve, coisa que sempre quis e que Deus, sabiamente, adiou para nós. Que sejam felizes.

O segundo casamento foi mais informal no princípio do que o primeiro. Eu e a minha segunda équis unimos nossos trapos e começamos uma vida a dois. Não teve casamento no religioso, apesar da religiosidade de ambos ter falado muito forte durante grande parte da relação. Mas pelo menos teve a indefectível lua-de-mel em Fortaleza. E como sempre caso para sempre, casamos mais tarde também no civil, coletivamente na vara de família. Nosso “sim”, acompanhado de seiscentos outros “sins”, de trezentos outros casais, ecoou por quatro anos. Começou um pouco antes da Copa da França e terminou exatamente durante a Copa do Japão-Coreia.

Mas por que estou eu falando dos meus casamentos? Primeiro, para mostrar que eu acredito mesmo nesse troço. Tanto acredito que casei essas duas vezes dos vera, com perspectivas de me embolar de novo. Nesse negócio de casamento, eu sou tinideira, para usar mais uma expressão do nosso amazonês. Segundo, porque acho que o ser humano é como meia: foi feito para viver em par. Tem uma época da vida que não dá mais para ficar pulando de um lado para outro, feito macaco trapezista. Temos mais é que sossegar o facho e encontrar alguém para misturar calorzinhos à noite, vendo o Jô, comendo pipoca de microondas.

Dito isso, apresentarei algumas considerações mais pontuais baseadas na recorrência dos meus casórios. Ok, tudo bem: são considerações minhas que podem até não servir para ninguém. Também são considerações teóricas que vieram da minha prática e que na prática de outros podem dar tchó. Mas ando tão enxerido ultimamente para dizer o que penso que, feitas essas ressalvas, ouso colocá-las no papel. Ei-las:

Número um: para mim, só deve casar quem estiver disposto a colocar na mesa toda a sua história, suas angústias, felicidades, medos, vergonhas, projetos, gostos e desgostos, para que outro saiba e conheça. Além, é claro, da carteira de identidade para que seja vista a foto. Ver a identidade é essencial para qualquer relação. Argumento contra: “Não! Tem coisas que não tem porque contar para o outro. Uma relação começa a partir do dia xis. Antes disso, não interessa!”. Contra-argumento: se há algo que eu não posso saber, não dá para eu te dar minha vida para o resto dela. Sinto muito. É preciso evitar o que chamo de efeito-surpresa. Acredito cada vez mais que o casamento deva subverter a matemática e dividir somando vidas. Isso inclui, por direito, não ser surpreendido com nada daquilo que está ao alcance de ser evitado como surpresa desagradável para qualquer um dos dois. Se a gente parar bem para pensar, o que mata qualquer relação é, no fundo, no fundo, ser pego de surpresa e ficar com cara de leso. É como construir um prédio com alicerces de isopor: mais cedo ou mais tarde esse World Trade Center afetivo vem abaixo. A única surpresa aceitável é a surpresa de amor, como bem disse minha amiga aniversariante do alto dos seus vinte e quatro aninhos fresquinhos.

Número dois: jogo limpo. Também acho igualmente complicada a relação que deixa em suspenso questões fundamentais para que essa própria relação se desenvolva e ganhe sustância. Jogar limpo não quer dizer jogar duro, o que também pode eventualmente acontecer. Dando uma de Gilberto Gil, é preciso cheguevarizar deveras a relação amorosa: hay que endurecer, pero perder la ternura jamás! Apesar de escatológica, a metáfora da meleca é muito boa aqui: quanto mais se enrola, mais a bustela cresce. Pupila na pupila é básico. Inegociável. Fale as coisas antes que os fatos falem por si. E eles, cedo ou tarde, batem à porta de nosso conhecimento, trazendo dossiês arrasadores, implacáveis como os cossacos russos.

Número três: exercício de tolerância. O casamento aumenta tudo aquilo que existe antes dele, funcionando como uma lente de aumento: o que é bom fica muiiiito bom. E o que é ruim, se não for trabalhado, fica muiiito ruim. Ele realça delícias e evidencia carências. Para essas horas é preciso ter uma paciência de monge budista baiano. E como eu disse, tolerância é exercício. Estourar com alguém que a gente ama é muito ruim. É, para mim, um forte sinal do apagamento da disposição do “venha o que vier, eu vou brigar com você por nós”. E o com aqui é um com de junto, de nós dois unindo forças. A sensação de brigar sozinho, meu povo amado, é desalentadora. Já passei por isso e sei que é murchante. Seca a alma, esvazia os porquês da existência. Quando se deixa de brigar com alguém por algo e se passa a brigar com alguém por algo está na hora de verificar a biela. Alguma coisa errada tem aí.

Número quatro: planejamento. Não sou cartesiano a ponto de achar que temos que planejar tudo minuciosamente em nossa vida e se ater a esse plano incondicionalmente. Não sou tampouco anarquista a ponto de deixar tudo também ao belo sabor das marés. A relação a dois envolve, sim, uma boa dose de como a gente quer gerenciar o resto de nossas vidas. Vem, senta essa bundinha linda aqui ao meu lado e vamos lá: o que queremos para nós? Em quanto tempo? O que queremos e não dá? Por que não dá? E a gente, dá sem isso que não dá? Se dá, vambora, entre por essa porta agora. Se não dá, adeus também foi feito pra se dizer, bye-bye, so long, farewell.

Número cinco: Para esse que vos fala, na questão confiança o troço ou é oito ou oitenta. Aqui as outras setenta e duas possibilidades intermediárias são problemáticas. Na humilde opinião desse escriba, uma relação de casamento só deve começar se a confiança for cega e tranquila. Oitenta. Saber que se alguém vier do nada e perguntar “você apóia a decisão da sua mulher?”, você vai poder dizer, sem saber qual é essa decisão: “Sim. Apóio”, tendo a certeza que essa decisão, ainda que desconhecida, jamais seria uma decisão que afetaria deliberadamente a relação de forma negativa. Se não for oitenta, espere. Namoro é isso: a busca do oitenta. O tempo que for preciso: dois meses ou doze anos, como meu primo Nirou. Por isso não podemos apressar o rio, que corre sozinho. Quando digo que tem que ser uma confiança cega, remeto esse texto a Saint-Exupéry: “o essencial é invisível para os olhos. Só se vê bem com o coração”. O coração tem alma de cordeiro, mas olhos de águia.

Número seis: só case se você tiver disposto a botar o nome de vocês dois nos cd’s e livros. Entenda a metáfora. Se não dá para pensar nisso de forma tranquila e suave, segura as pontas, brother. Ainda não é hora. Aí eu sou das antigas: se é para casar vislumbrando uma futura separação lá na frente, esquece. Namorem, se curtam e, em pegando o bicho casório, kiss goodbye. Volto a dizer: é muito sério você propor dividir o resto de sua vida com alguém. Não dá para brincar com isso, não. Agora, se você passa o seu dia pensando em como fazer o outro se sentir bem, aí creio jo que já há um sinal de fumaça de que dá para começar a brigar pelo lençol de noite e discutir se o papel higiênico deve sair por cima ou por baixo do rolo. Para o meu amigo noivo da minha amiga aniversariante: já pensou todos os teus cd’s do Geraldo Azevedo com o nome dela? Se não te der uma certa sensação de invasão, pode mandar fazer o terno que está na hora.

Número sete: casando, seja leal. E estou falando em lealdade no sentido amplo da palavra: companheiro, sincero, honesto, fiel. Situações provocantes aparecem para todo mundo o tempo todo. Saber lidar com elas quando um compromisso de vida a dois já está firmado é fundamental e, para mim, um sinal de maturidade afetiva. Segundo um dos meus irmãos, o tempo de contagem de resistência é trinta segundos. Se em trinta segundos a tentação sumir da cabeça, pronto! Ufa! Senso estético, qualquer pessoa tem. Achar alguém bonito é normal, desejar alguém, vá lá que seja. Daí a consumar um ato que joga para o ralo fétido de um banheiro mijado de estádio de futebol todo um projeto de uma vida a dois, sem que um dos participantes saiba, é cruel. Se é inevitável começar um novo amor, que surge sobrepondo-se ao velho, jogue limpo. Eu sei às vezes que isso é difícil como tirar cd do plástico só com as mãos e é doloroso como arrancar um pelo do nariz com pinça. Mas faz parte, pelo menos, de um mínimo de consideração que a outra pessoa merece por tudo que lhe deu até ali. Carregar uma informação de falta de lealdade para o resto da vida, informação crucial para uma relação, sem partilhá-la com outro, fere de morte vários princípios já falados acima. Além, claro, de pesar na cabeça o resto da vida. Sem necessidade. Para ninguém. Isso é infelicidade calculada. Muito ruim.

Poderia escrever ainda alguns outros princípios sobre o casamento. Mas vou parar em sete, que é conta de mentiroso, para deixar um certo quê de incerteza no ar. Tenho a mais absoluta certeza que tem gente que vai concordar comigo e, pela lógica formal, gente que vai discordar de mim. Não sou dono da verdade, até porque acredito que ela não existe per si, mas é construída contingencialmente, no momento mesmo em que acontece a relação. Meus trinta e quatro anos de vida e meus dois casamentos me fizeram entrar na conversa e, refletindo, decidir escrever sobre isso. Como qualquer texto, dê a esse, prezado leitor, o sentido que você quiser ou puder.

Minha namorada linda está chegando essa semana. Vamos estudar esse texto juntos (já começamos a fazê-lo de certa forma). Vou ler igualmente o texto que ela me traz para considerações e, juntos e sempre juntos, tentaremos escrever um outro texto, a quatro mãos. E textos são versões, sempre diferentes uma das outras, apesar de trazerem quase sempre uma estrutura padrão. Isso: casamento é um texto. Se já há elementos para escrevê-lo a quatro mãos, então entrar na igreja de terno e gravata não é mico, não. É uma frase que faz parte do parágrafo introdutório. Consideradas essas questões que pus em letras e mais outras muito particulares de cada casal, é preciso perguntar: no balanço, somos felizes? Se sim, então, maestro, que toque a valsa nupcial e, pajem, traga as alianças. Que elas sejam simbolicamente o que são fisicamente: infinitas, sem quebras, douradas. Até que a morte vos separe. Amém!

A propósito: alguém aí sabe se pode pedir aproveitamento de estudos do curso de noivos e se as passagens para Fortaleza estão com desconto?

ABC no Céu

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Unidade Educacional Solon de Lucena/Subunidade Educacional Leonilla Marinho/Manaus, 26 de abril de 1975/Diretora: Dalva Pereira Vieira/ Professora: Helena Ferreira de Carvalho/Série: 1ª/Turma: A”. Nunca esqueci esse cabeçalho. Com breves variações, ele me acompanhou durante os quatro anos do meu primário.

Manaus não era tão grande e o Grupo Escolar Leonilla Marinho, uma escola pública modelo, era subordinado ao Solon de Lucena. Lembro com saudade do Grupo, como chamávamos carinhosamente o Leonilla. Jambo & Ruivão, Manda-Chuva, Leão da Montanha e outros personagens feitos de cartolina e pregados no isopor enfeitavam o saguão principal. A escola impecável era imagem da gestão da dona Dalva, a diretora. Não é surpresa para quem trabalha com educação: a escola é a cara de seu gestor. Dona Dalva controlava o Grupo com autoridade. Quando se ouvia sua voz, a palavra que vinha à mente era disciplina.

Era subsecretário ainda quando um dia recebi um recado. Minha secretária disse que a Samara havia ligado dizendo que a missa da professora Helena seria na segunda seguinte, na Igreja de Lourdes e que a dona Dalva estaria lá. Samara é uma das cinco filhas da professora Helena e a professora Helena é a professora do meu cabeçalho da 1ª série.

A última vez que falei com a professora Helena foi quando ela foi à Semed, justamente com a Samara, fazer uma visita de cortesia. Éramos dois orgulhosos. Eu, por apresentar aos que trabalham comigo a pessoa que me ensinou a ler, e ela, por ver um de seus “meninos” em uma função de extrema responsabilidade social. Há anos não a via, mas há presenças que mesmo na ausência se fazem fortes.

Em nossa memória afetiva há sempre um lugar para o que nos constitui, a despeito de distância geográfica ou temporal. O Grupo foi ampliado, perdeu o pátio, não tem mais a disciplina da dona Dalva, a merenda da Chiquinha e nem a Penélope Charmosa na parede. O antigo quadro-verde está órfão de sua maestrina. Sua régua de madeira de 50 cm era a batuta com a qual regia a entrada dos meninos no universo do ABC. A Balainha, que dançava com a Beth Diger nas festas juninas, já não cruza mais seus arcos coloridos no ar.

Fui à missa da professora Helena. A dona Dalva estava lá. O recado da Samara sobre sua presença foi uma forma de mobilizar a disciplina para que eu comparecesse. Nem precisava. Lá estavam várias ex-professoras do Grupo, entre elas a minha mãe, Helena Freire, e a professora Machadinho, além de ex-alunos. Ao dar o abraço silencioso nas filhas, eu chorei. Chorei porque percebi o quanto a professora Helena fez diferença em minha vida. Dei-me conta de que o maior desafio dos professores de hoje é se fazer presentes na memória afetiva de seus alunos para sempre, como a professora Helena Carvalho se faz na minha.

Do meu cabeçalho agora um nome se faz ausente. Bateu a campa do tempo da vida terrestre da minha professora. Mas o Grupo do céu está mais feliz, pois a mesma campa bateu para a entrada lá. Com suas fardinhas brancas e congas azuis impecáveis, os anjos fizeram fila e já foram para a sala. Certamente se levantaram e em voz uníssona, típica das crianças, reverenciaram: “Bom dia, professora Helena!” Ela deu bom-dia sorrindo, batuta à mão, e foi para o quadro ensiná-los a ler. Minha professora sabia fazer isso como ninguém.

Amor, ódio e ftebol

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A linha tênue entre amor e ódio já foi cantada por poetas, músicos, artistas e escritores. Caetano diz que um amor violento quando se torna mágoa vira o avesso de um sentimento, um oceano sem água. Acho que é isso, sim. Quer dizer: mais ou menos. Não é que vire, já é. Só troca de roupa. Acredito que o ódio (e o amor) é um sentimento ardiloso e que não se entrega facilmente, não arregaça suas entranhas para qualquer um como a Geni de Chico. Tanto um quanto o outro se manifesta à sua forma, do seu jeito, sempre enganando sua presa, o infeliz que ama ou o que odeia.

Um exemplo do que estou falando: a Copa do Mundo e o mundo de brasileiros que torce contra a seleção brasileira. Esses torcedores elegem outras pátrias, tornam-se simbolicamente mulçumanos ou argentinos. São capazes de orar para Alá e cair no tango com a indefectível rosa na boca porque estão exatamente equilibrando-se na borda amor-ódio, na tal linha tênue da sanidade. É tanto amor pela coisa que se torna simplesmente insuportável viver um fato contrário. Torcem tanto pelo Brasil que o odeiam, nesse movimento paradoxal de equilíbrio de monociclista sobre a corda-bamba. Adoram o Robinho e vibram com seus gols com a mesma intensidade de um primeiro amor. Só que o fazem para dentro. É interno.

Torcer contra é torcer que o jogo aconteça. É não ficar indiferente a ele. Como torcer a favor também o é. É preciso saber que não dá para racionalizar tudo, mas que a gente bem que tenta quando a dor é grande. Os bêbados vão dizer que falta pinga para dar uma força à seleção. Os que têm sua mente orientada sexualmente acusarão a abstinência dos jogadores como problema maior. Por isso os hermanos saem em vantagem. Os religiosos dirão que o Lúcio não dá conta, pois na zaga mesmo só Jesus salva. Os intelectuais vão torcer contra porque é ano de eleição presidencial e se o Brasil ganhar aí vai alienar o povo.

Com seu vibrar, com a pressão do seu amor, os que torcem purgam o ódio e o cospem como um vulcão em forma de raiva e xingamento contra o Brasil, o juiz, a moça da limpeza, o próprio Robinho e todos aqueles que se aventuram a assistir ao jogo com eles. Essas reações são reações de amor, de um amor infinito. Chamaria essas pessoas de negativas. Não pelo pessimismo, mas pela forma especular de mostrar o que sentem: é preciso pôr na frente do espelho para entender a real dimensão do sentimento. Como o negativo da fotografia precisa ser revelado para que a retina possa reconhecer as cores conhecidas, os torcedores negativos precisam ser compreendidos pelo avesso para que entendamos a dimensão de seu amor. Ou ódio.

Há, dialeticamente, as pessoas positivas. Essas compram bandeirinhas, fazem festa, vestem blusas, põem faixas na cabeça, pintam a rua e o cachorro. Beijam a boca da sogra na hora do gol. Se batêssemos uma foto, no entanto, essas pessoas positivas apareceriam lado a lado às negativas, até abraçadas pelo amor comum ao Brasil e seu time de futebol. Porque também estão na linha tênue. Mas experimente vê-las após a derrota do Brasil. Há uma reversão total: um ódio contra “o timeco de pernas-de-paus de um técnico burro e teimoso que, ainda por cima, fez a burrada de não levar o Ronaldinho Gaúcho. E o Josué? E o Josué? Quem teve a brilhante idéia de convocar o Josué, hein?”

Estou com Freud. O que o consciente não dá conta é jogado para o porão do inconsciente. Ele é a gaveta com fotos velhas e novas, naftalina e perfumes, cartas e cartões, bilhetes em guardanapos, pessoas vivas e mortas literal e metaforicamente. Há anos sabemos que temos que arrumá-la, mas não sabemos a razão de não conseguir fazê-lo. Por isso nunca ousamos nem tentar. E aí, o bolo volta, mais cedo ou mais tarde, de alguma forma e fermentado, via algum gasparzinho a nos atormentar vida afora, nos fazendo ficar sem rumo, sem prumo e, algumas vezes, sem amor. E não adianta tentar entender a razão. A resposta está na gaveta. Na bendita gaveta do inconsciente. Bora, Brasil.

Amor e Educação: dimensões compartilhadas

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[Publicado originalmente no Portal Amazônia]

Durante um curso chamado “Educação, Comunicação e Tecnologia”, a turma e eu levantamos alguns tópicos que são sempre recorrentes quando se discute educação. Foram seis temas que iam e vinham. O

interessante da coisa toda: esses temas ou dimensões funcionam também no âmbito do amor.

Cheio de momentos apaixonantes, o processo educacional pode nos ensinar a pensar no amor e nas paixões, responsáveis pela educação de nosso coração para a vida. Ou talvez o contrário: as paixões e o amor nos ajudam a entender as dimensões envolvidas no processo pedagógico. Observe como há uma sobreposição do processo educacional e do processamento afetivo.

A primeira dimensão é o planejamento. O planejamento é essencial em qualquer situação. Além de essencial, a turma e eu concordamos que o planejamento deve ser flexível para que se possa adequar às demandas contingentes, ao não previsto. É arriscado desconsiderar o dinamismo da vida. Há situações em que nós até não planejamos e as coisas fluem muito bem, mas esses casos são exceção à regra. São casos. São casos.  Assim, manter um planejamento rígido e fixo, sem abertura para as contingências, pode levar à atrofia pedagógica. Ou ao engasgo amoroso.

No entanto, para poder planejar é necessário definir alguns parâmetros sobre o que se quer enquanto professor, o que se pretende dos nossos alunos, o que se entende por educação. E também sobre o amor, a relação e as expectativas em comum. Nada rígido. Bem, quase nada… São somente princípios. Princípios que nortearão nossas atitudes político-pedagógicas e, claro, nosso comportamento afetivo.

Definir parâmetros e postular princípios são ações que ajudam a nos colocar no rumo. Faz-se necessário decidir sempre. A decisão é tão constitutiva de nossas vidas que esquecemos que decidimos 24 horas por dia. A que horas acordar? O que tomar no café? Que roupa vestir? O quero fazer com minha sala de aula? Corto ou não corto o cabelo? O que meu aluno deseja? Qual perfume eu uso? Qual meu conceito de educação? Falo ou não falo para ela? Decisões. Na escola, as políticas e as pedagógicas na escola. No amor, as afetivas e sentimentais. Decidir envolve não aceitar decisões prontas e postas por outros. Nada de decisões mcdonaldizadas. É necessário ter certa incredulidade em relação ao que vem pronto. E isso, de pronto, nos leva ao terceiro ponto: duvidar das receitas.

O problema de qualquer receita é que ela esquece a singularidade. A receita é uma grande abstração totalizante. É uma metanarrativa que se vê como sendo capaz de explicar e dar conta de todas as situações. Se funcionou ali, que garantias teremos que vá funcionar aqui? Se há similaridades que podem ser utilizadas como parâmetros e generalizações que podem ser úteis na hora em que é preciso definir, há também a necessidade de ser antropofágico – no sentido modernista – com as idéias externas. É preciso comê-las, degluti-las e reinventá-las, expurgando o que pode ser nocivo. Não é porque todo mundo faz assim que eu tenho de fazer também. A relação não é direta, simplista e simplória. Podemos até fazer o que os outros estão fazendo. Mas nos permitamos conhecer primeiro para podermos avaliar e decidir se dá, se rola, para o nosso mundo. Por isso falo de incredulidade e não de ceticismo. Enquanto a incredulidade permite a dúvida, o ceticismo abdica de perguntar.

Que relação pedagógica se sustenta sem o exercício da dúvida permanente? Que relação afetiva se sustenta na crença de uma certeza absoluta? Ambas são meros jogos de faz-de-conta que mais cedo ou mais tarde arrebentam e nos arrebentam, enquanto educadores e enquanto amantes. O jogo é duvidar permanentemente e antropofagizar as receitas alheias. Para isso, temos de ter instrumental, ter as ferramentas que nos permitam melhor trabalhar o real. É a quarta dimensão.

Sem instrumentos e conhecimento nem o melhor dos médicos salva vidas. A não ser que seja o McGyver (Google, moçada!). Como um professor poderá planejar e tomar decisões, ser incrédulo quanto à dadidade de um dado, sem que ele conheça minimamente os fatos com os quais lida, sem que tenha qualificação profissional? Como pode alguém que ama decidir o que quer, baseado em expectativas e planos,  e não aceitar modelos de amores, como as cartas dos livros da Ediouro, sem que tenha amado e vivido intensamente amores, novos, diferentes de variadas cores e sabores?

A qualificação continuada do profissional da educação é uma dimensão imprescindível para a educação. É necessário começar do zero, sem experiência, de certo, como em todo começo. Mas é igualmente imperativo buscar mais e não parar nunca, como as águas do Rio Negro que correm incansáveis. Amar é imprescindível para o amor. Não dá para parar. Mais do que perder o bonde da história, quando paramos somos esmigalhados por ele. É por meio da qualificação e do amor contínuo e continuado que se acessa a informação sobre o fenômeno imediato e se pode decidir que informação é ou não significativa para nosso aluno. Ou para nossa vida afetiva.

Assim, qualificar a informação se apresenta como o quinto ponto. A escola não se sustenta mais no modelo da transmissão de informação. Informação há aos montes, flanando sobre nossas cabeças. Basta esticar a mão e pegar. A questão agora é aprender a processar essas informações soltas, interligá-las, achar o movimento de relação e produzir informações novas. Dessa forma, da reprodução se passa à produção. Esse agir sobre a informação é complementar ao qualificar. E é, sem dúvida, um agir sempre provisório, que deve ser sempre renovado, tendo em vista a já citada dinâmica dos fatos sociais e afetivos. Se pararmos uma informação no tempo e no espaço, ela fatalmente caducará, ficará chata e obsoleta. Tornar-se-á anacrônica, dispensável e não-significativa. Se se perder o tempo certo, o timing desse ajuste permanentemente necessário, se perderá irreversivelmente o fato enquanto objeto de prazer, enquanto elemento constitutivo de qualquer relação pedagógica ou afetiva. Aí é preciso renascer, pois se se perde o prazer é preciso reconhecer que haverá um luto a ser gasto para que haja nova gênese.

O prazer é a última de nossas dimensões. Nossa escola está carente de prazer, de paixão. Nosso aluno vai arrastado para a sala de aula, pois não vê absolutamente nenhuma significação no ato de estar em um lugar que não lhe proporciona desejo. O mero desejo de estar ali e fazer parte. O prazer de problematizar suas questões fica quase sempre de fora. Sem prazer não há gozo e sem gozo não há a realização do sujeito, já dizia o velho Freud.

Nós, professores, muitas vezes funcionamos como castradores do prazer daqueles que deveríamos seduzir e fazer delirar. Temos que fazer nosso alunos cair extasiados, suspirando em falsete, sem fôlego e com arfadas, clamando por algo que lhes minimize a hipoglicemia da prática do gozo gozado. Que relação sobrevive sem se querer estar por perto, física ou mentalmente? Mais: que relação se sustenta sem que haja a vontade de querer se sentir incluído, pertencendo à relação, vivendo-a intensamente? Que relação pode ser produtiva e significativa quando a indiferença impera, quando a razão de estar fenece? O aluno evadido é um sintoma de falha na missão do prazer contínuo. O amor evadido também.

Resumindo: devemos planejar de forma plástica e flexível. No entanto, essa flexibilidade deverá levar em conta os limites estabelecidos nos princípios e parâmetros valorativos, filosóficos ou afetivos que regem a situação. É preciso ter cuidado para não tensioná-los a ponto de uma ruptura irreversível, que force um recomeço, num desperdício de investimento seja lá de que natureza for. Para isso se faz necessário ter acesso às informações. Só de posse delas, no momento certo, os agentes do jogo pedagógico ou amoroso podem redimensionar a situação, agindo sobre a informação. Se houver a possibilidade da ação, certamente haverá a produção de informações novas, haverá a feitura de situações não pensadas antes, que podem até surpreender seus próprios agentes. Mas tudo isso não vale de nada se se perder o timing ou se não houver mais o prazer compartilhado. O prazer é duplo. Tem de ser duplo. Em sendo individual, o outro se vai, se esvai. Revolta-se e não volta.

É essa a complexidade da educação. É essa a singularidade do amor. Elas não são atividades para improvisadores, mas para profissionais, para aqueles que têm no sangue a paixão que move, que desloca, que movimenta.

Caso você tenha um problema em sua sala de aula ou em um relacionamento afetivo, procure os sintomas. Provavelmente uma dessas dimensões está capenga e pode num piscar de olhos por tudo a perder. O diagnóstico tem de ser rápido e preciso, como os dedos ao piano em uma peça de Bach. Cazuzamente, o tempo não pára. Ele é inquieto, as coisas correm e nos deixam para trás. Não se pode perder a noção de que tudo está interligado. Que o menor movimento em um dos nós afeta seu todo. São nós solidários entre si.

Finalizo trazendo o princípio de solidariedade proposto por Che Guevara, que endureceu sem jamais perder a ternura. Diz Che: “Toda lágrima que se derramar no mundo também é minha lágrima; toda ferida que esteja num corpo qualquer, no mais longínquo continente, está na minha pele e toda opressão que uma pessoa humana, na última caverna do mundo, possa sofrer é minha opressão”. Assim é a teia que une as dimensões pedagógicas. Assim é a tessitura das dimensões afetivas. Não dá para segmentar sem ensanguentar. Simplesmente não dá

O caderno do Chiquinho

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Chovia forte. Estacionei e um rapaz veio em minha direção. Deu um educado “bom dia, mestre” e estendeu um guarda-chuva. Argumentei que se eu o usasse ele se molharia. Respondeu que não tinha problema. Sem entender a cortesia, aceitei. Chegando aonde qureia, devolvi o guarda-chuva e agradeci. Ao retornar, ainda chovia. O rapaz ofereceu-me de novo a gentileza.

Dias depois, fui abordado na cantina. Era o mesmo rapaz. Disse ele: “Mestre, desculpe interromper, mas eu preciso de ajuda para comprar remédio. Fiz uma cirurgia no dente e não posso trabalhar. O senhor sabe, eu lavo carro aqui. Terminei o ensino médio e estou atrás de coisa melhor”.

Vi de relance seu nome no papel que trazia: Francisco. Dei dez reais para o remédio. Disse também que deveria continuar estudando porque só assim gente honesta melhora de vida.  “Eu sei. O senhor já me disse isso. E só pedi dinheiro do senhor porque sei que o senhor é do bem”, falou. “O senhor não lembra que o senhor me deu um caderno e um jogo de canetas? Eu nunca esqueci”.

Eu havia esquecido. Há muito tempo, chegava à universidade quando ouvi um garoto que lavava carros conversando. Chiquinho – assim se chamava – dialogava com outro lavador. Chiquinho pedia um adiantamento para comprar material escolar. Sua aula havia começado e ele não tinha nem caderno. No sábado seguinte, fiz supermercado e incluí um caderno, canetas e uma régua no meu carrinho. Na segunda, ao chegar para trabalhar, chamei o Chiquinho e disse: “Toma, Chiquinho. Não é por falta de caderno que tu não vais para a escola. E não vai esquecer que gente honesta só se sai da lama estudando”. Nunca vi um olhar tão agradecido.

Fui dar minha aula com a certeza de uma boa ação feita. Lembro disso e fico feliz. Não porque me sinto o melhor dos mortais, o cara de bom coração, doido para receber comentários de elogio pelo ato generoso. Não. Já havia até havia esquecido o fato se não fosse relembrado hoje pelo Francisco, o Chiquinho grande. O caderno do Chiquinho me fez pensar.

Podemos mudar a vida de outras pessoas com gestos simples. Um sorriso, um favor gratuito, um elogio sincero. Dizemos aos outros quais os seus problemas e falhas, por que eles nos irritam. Esquecemos de lhes dizer quais são suas virtudes e por que gostamos deles. Gastamos dinheiro com besteira e esquecemos que poucos reais podem acordar sonhos.

Nosso mundo está perdendo a humanização. Entramos num esquema individualizante. Mas se por um lado somos indivisíveis, por outro somos subjetivamente fragmentados. Nessa nossa dispersão subjetiva, lembro Ortega y Gasset: “eu sou eu e minhas circunstâncias”.  São deprimentes as pessoas que pensam com o umbigo e não com a cabeça.

Podemos fazer a diferença para aqueles que são socialmente menos privilegiados. O que move o ser humano é o sentir-se útil. Isso envolve querer e tratar bem as pessoas, dar bom-dia à caixa do supermercado, desejar bom trabalho aos que nos servem. Envolve dizer aos que amamos o quanto os amamos e no que são importantes para nós. Aprendi com minha vó a dizer “eu te amo” desavergonhadamente a quem amo. Sempre que tenho chance. Enquanto tenho chance.

É isso. Fico aqui torcendo para que cada um pense um pouco e ache qual é o caderno e quem é o Chiquinho da sua história. Nos dias chuvosos – literal e metaforicamente –, isso pode fazer diferença. A propósito, querido leitor, obrigado por me ler.

Um texto antigo para recordar

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O Autor e o autordrasto

 

Ser autor envolve expor-se à crítica. Isso dá trabalho. Tem gente que prefere outro caminho: a cópia.

Autoria: um conceito em cheque?“Na natureza, nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”. A chamada Lei de Conservação de Massa de Lavoisier serve de mote para começar a pensar o assunto desse escrito: a questão da autoria.

Na nossa sociedade ocidental, o conceito de autor surgiu junto com o de sociedade jurídica. Até então, no geral, os textos eram legitimados pela tradição e eram coletivizados. Com a sociedade de direito, aparece o conceito de responsabilidade por aquilo que se fala e que se escreve. Assim, autor é aquele que é juridicamente responsável pela circulação do texto.

Na teoria do discurso, ser autor é textualizar de alguma forma. Texto é entendido pelo discurso no seu sentido mais lato, como algo que produz sentido. Para o discurso, pode ser texto um conjunto de letras, um som, uma cor, uma imagem e até o silêncio. Sabemos que às vezes o silêncio grita, como na música de Abel Silva: “só uma palavra me devora: aquela que meu coração não diz”. No entanto, além de textualizar empiricamente (escrever, falar, calar), é preciso ainda por esse texto em circulação, pois circulando ele estará à disposição de outras pessoas para que elas possam lhe atribuir sentidos, fazendo o que chamamos de processo de fechamento. É por isso que não adianta nada escrever e engavetar o que se escreve. Posso até me sentir escritor, mas nunca serei autor.

A autoria é um conceito social. Alunos que fazem uma redação e a entregam para um professor como uma mera formalidade escolar não estão praticando a autoria. A redação escolar é um simulacro de um texto, pois não há fechamento, exposição à crítica. É só o professor que lê. Quando lê. Quando muito, talvez tanta redação ajude a melhorar a letra da criatura. Por outro lado, se os alunos preparam suas histórias como parte de um livreto a ser veiculado ou para uma exposição para o público externo da escola, a coisa vira uma experiência de autoria e de real produção de texto. Quem já fez essa experiência com seus alunos sabe como seu envolvimento e sua dedicação mudam quando sabem que a atividade vai ser socialmente visualizada. Para quem quiser ir mais a fundo nesses conceitos, sugiro a leitura do livrinho da minha querida amiga e professora Solange Gallo, Discurso da escrita & Ensino, da editora da Unicamp.

Sendo um conceito social, a autoria também age e sofre ação da sociedade em movimento. Hoje, há pesquisas buscando entender a redefinição de autoria a partir do advento das tecnologias de informação, como a Internet. Se antes o aluno copiava no muque seu trabalho na folha de papel almaço a partir das informações da Barsa ou Mirador, hoje ele dá uma googlada e um copy-paste no teclado do computador. Ao clique de um mouse, o texto está pronto. Ou o que ele acha que é um texto. Copiar não é textualizar. Copiar faz do copiador apenas um copista, manual ou digital, mas um copista. A facilidade da multiplicação dos bits está mexendo com a questão da autoria de forma inegável. Veja um exemplo: escrevi o texto Amazonês, um dicionário de regionalismos e mandei, como parte de um escrito para meus amigos leitores. O texto fez o maior sucesso. Fiquei todo gabado. Eu mesmo o recebi várias vezes. Ele, no entanto, chegava ou sem o nome do autor (no caso o belo que vos escreve) ou com o nome do remetente da mensagem (no caso o copista digital), como autor. Raras foram os e-mails que trouxeram meu nome e poucos foram os sites que deram os créditos. A apropriação ou o apagamento do autor se dá sem a menor vergonha e culpa. Faz parte da ethos da Internet circular bits.

A autoria também pode partir de um lugar já definido. Basta que eu diga que o texto é do Drummond, Caetano ou Luis Fernando Veríssimo que ele já será lido com olhos diferenciados. É o argumento da autoridade. Em seu site, O Millôr volta e meia desmente textos supostamente seus, como aquele sobre a Kelly Key. Claro que Millôr jamais escreveria algo tão canhestro. Quem conhece seu estilo mata na hora a falsa autoria. Então, podemos dizer que o falso autor não é o pai do texto, mas uma espécie de padrasto. Um “autordrasto”, por assim dizer. Por que alguém apaga a autoria ou apadrinha um texto com outro autor?

No caso da atribuição de autoria, a resposta até que é fácil: dar legitimidade através de quem é autor de fato, como no caso do Millôr e companhia. No caso do apagamento, há algumas outras razões. O primeiro motivo do apagamento da autoria é a inocência imagética. E o que é isso? É partir da imagem de que se um texto já está no mundo, ele é do mundo. Se o texto está aí, posso muito bem passar errorex ou deletar o autor,  assinar meu nome e mandar adiante. Só que um dia a ficha vai cair por bem ou por mal. O autordrasto vai ver que não é bem assim e essa imagem de que tudo se pode fazer com um texto alheio vai por água abaixo.

O segundo motivo é a incompetência de autoria. No plágio, na cópia, o autordrasto reconhece e passa recibo de sua incompetência em autorar, em criar um elemento gerador de sentidos. Essa incompetência se estende à incapacidade de entender que do mesmo modo que a informação circula para ser disseminada, ela circula para entregar o crime do copista ao mundo. Vejamos outro exemplo: depois de trabalhar trocentas vezes com Metodologia da Pesquisa nos cursos de pós, colecionei as dúvidas e problemas que geralmente surgem na elaboração de projetos. Criei um CD-ROM com todo o material necessário para alguém que vai elaborar um projeto. Plim-Plim: no cd tem um pouco de epistemologia, as normas da ABNT, um projeto pronto para servir de modelo, um esquema de escrita de texto, etc. Mais informações? Peça-me . Plim-plim. Qual não é a minha surpresa ao ver esse cd nas mãos de uma aluna de um curso de pós-graduação na área da saúde da minha Universidade. O encontro foi casual numa casa de fotocópias. Sugestivo. O detalhe: meu nome foi deletado e o cd foi assumido por um autordrasto. E pasmem: um professor doutor, colega da Universidade. Nesse caso, quero até acreditar que foi mais preguiça do que incompetência. Vamos dar um crédito aos doutores para não ficar muito feio. Não me incomodo que use, mas crédito intelectual é bom e a gente gosta. Afinal de contas, dá trabalho produzir textos e informações significativas.

A informação existe para ser divulgada e gerar nova informação. Mas informação vem de algum lugar. A esse lugar chamamos fonte. O que um autordrasto não percebe é que se ele se quer fazer reconhecido tem de entender as regras discursivas de onde atua. Quem está no métier escolar em qualquer nível, adquire reconhecimento por meio de conhecimento construído e não do conhecimento apropriado das fontes consultadas, o que aliás pega mal pacas. Simbolicamente, o aluno respeita mais um professor que cita suas fontes do que o que fica no blá-blá-blá conteudista anônimo ou quer fazer um texto passar como seu. O professor que sonega fontes deve ser processado pelo Imposto de Renda Ético. Depois fica por aí reclamando que o aluno copiou da Internet. Há aqui no mínimo uma incoerência entre retórica e discurso. “Faça o que o digo, mas não faça o que eu faço”, disparou a Dona Maria, que arruma aqui em casa e sempre tem um ditado para tudo.

O que estou querendo dizer com tudo isso é que acho que o comportamento do autordrasto é sintomático. É sintoma do desconhecimento do que pode e o que não pode legalmente (ignorância jurídica), sintoma de que não é capaz de se envolver em um verdadeiro processo de autoração do mundo (incompetência semântica), ou sintoma de sua incapacidade de se estabelecer profissionalmente se expondo à crítica (esvaziamento teórico). Em se tratando de um aluno de sexta série, em formação, até se admite que alguns desses sintomas apareçam. Em se tratando de um professor, aí não dá. Muito menos se for um professor universitário. Como diria aquela moça da novela: “‘É treva!”

Um autordrasto acadêmico quase sempre tem um problema freudiano com a autoria. Ele ama o autor e deseja sê-lo, mas não pode ou não consegue. E aí o rejeita, o nega, o recalca. Assim, no que depender dele, ele não deixará ninguém ser autor. Encastela-se em cargos administrativos e bloqueia a autoria de quem quer e pode ser autor, usando para isso trâmites burocráticos e institucionais que pode manipular. Claro que estou generalizando, resguardando as honrosas exceções de sempre. Mas há um grande número de autordrastos exilados em cargos administrativos.

Enquanto não desconstruirmos essa idéia de autordrastia que está se  tornando constitutiva do processo da escrita e enquanto não partirmos para um tratamento da prática textual como autoria real, vamos continuar reclamando que nossos alunos não sabem escrever. Como lugar privilegiado para a construção do autor, a Escola tem de perceber que o aluno que está aí é um aluno com um perfil diferenciado. É um aluno da imagem, que pensa de forma não-linear, um ser dos bits. Isso altera significativamente o papel e as expectativas desse aluno em relação à Escola e da Escola em relação a esse aluno, bem como requer a urgente redefinição do papel de professor. Professor autordrasto não pode fazer parte do processo de eliminação da autordrastia. Mutatis mutandi, é como colocar um policial viciado para tomar conta do depósito de drogas aprendidas. Professor autordrasto só serve de modelo para sedimentar a autordrastia do aluno.

Está na hora de uma mudança de atitude quanto a isso também. Digo também porque tenho escrito esses últimos textos sobre o professor. Pergunta para refletir: somos ou não somos autores? Textualizamos ou copiamos? Se não somos autores e somos autordrastos, por que os somos? Começar a se perguntar isso faz parte do início da escrita real de um texto: o texto de nossa identidade profissional. Se não fizermos isso, estaremos confinados a repetir o que textos alheios falam sobre nossa identidade. Pior: achando que o texto é nosso. Ser autordrasto de nossa identidade é cruel. Como diria de novo a D. Maria: “Assim, seu Sérgio, a coisa vai pra casa de Nola”. E vai mesmo, Dona Maria. Vai mesmo.

Sérgio Augusto Freire de Souza

20 de maio de 2004