envelhecer

Flores no asfalto

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Foi Gandhi que disse: “Ninguém pode me magoar sem minha permissão”. Essa é uma verdade que aprendemos com a vida. A partir de determinada fase, começa-se a alegar a idade para justificar fazer certas coisas e deixar de fazer outras sem culpa. É uma espécie de salvo-conduto dado aos mais velhos. Um tipo de compensação pela perda do viço juvenil. O tempo é, de fato, um bom professor. Nossas rugas estão sempre a postos para lembrar que por determinado caminho não dá.

Tenho pensado muito nos ensinamentos do tempo. Uns fios brancos resolveram aparecer na minha cabeça aos 45 anos. Eles não vieram à toa, certamente. Penso que desses ensinamentos, o maior deles, que tem mudado minha vida de forma qualitativa, é o exercício da serenidade. Não posso mudar o mundo e suas opiniões. São bilhões de pessoas com zilhões de opiniões. Com as tecnologias de informação e suas redes sociais então, essas opiniões ganham o mundo com uma fertilidade nordestina. Assim, é imensa a possibilidade de você ler algo que lhe ofenda, não lhe agrade, lhe incomode, lhe dê náuseas. Dá vontade de responder a tudo e a todos, com veemência e contundência. É quando entra a serenidade lembrando que as pessoas têm o direito de ter suas opiniões e de manifestá-las. Verdade. Eu ainda prefiro um mundo em que temos o trabalho de superar as diferenças do que um em que optamos pelo caminho mais fácil de suprimir o que não nos é agradável, seja essa supressão pela força física ou simbólica. Aqui retomo Gandhi.

Se eu não posso mudar as opiniões que me machucam ou me desconfortam, eu posso mudar o fato de permitir que elas me machuquem e me atinjam. É esse o meu campo de ação.  Por conta da multiplicação de opiniões, que são bem-vindas porque a diversidade enriquece, somos bombardeados com todo tipo de informação. São informações úteis, inúteis, alegres, tristes, ácidas, simpáticas, doces, amargas, sinceras, chatas. Eu, no entanto, me surpreendo com as pessoas que fazem questão de focar na parte ruim dos adjetivos. Fui checar.

A título de experiência, fiz um acompanhamento dos posts do Facebook da minha linha do tempo. Nada científico. Mas constatei assustado que muita gente resmunga de tudo, fazendo da acidez e da amargura seu alimento diário. Você pode dizer: “Ain, mas é você que escolhe seus amigos no Face”. Isso. É justamente aqui que eu queria chegar. Qualquer pessoa tem o direito de dizer e pensar o que bem entender. Longe de mim proibi-la de falar ou de se manifestar. Até porque não tenho nem direito nem poder sobre isso. Mas, aí sim, eu tenho direito e tenho o poder de blindar minha mente dessa gente indesejável, ruim, escrota, que só vai me fazer mal. A serenidade a que me referi tem me ajudado a escolher melhor em que papo entrar e com quem interagir. A briga nem sempre é boa e estou aprendendo a só brigar a boa briga. Por conta disso, estou desamigando das redes digitais e da vida gente chata, ranzinza, vampira, daquelas pessoas que chegam e trazem um bafo quente que nos sufoca. Estou bloqueando das minhas relações os incômodos, os sem-limite, os sem-noção, os desagradáveis e os deselegantes, estes em homenagem a Sandra Annenberg. OK, leitor amigo. Nem todo mundo é assim o tempo todo. Os que são chatos part-time eu não desamigo nem bloqueio, mas ignoro solenemente provocações, comentários e posts que vão me puxar para o olho de um furação de tristeza, de desamor, de terra arrasada, de ranzinzice sem fim.

Fato é que cansei de ficar num cabo-de-guerra sobre um assunto em que o objetivo da pessoa não é discutir o assunto, mas sim brincar de cabo-de-guerra. Demorei para sacar isso, mas saquei. O tempo me deu o toque. Nada como a pátina da idade e estou adorando meus cabelos grisalhos.

Eu não quero que os chatos deixem de ser chatos. Por favor, que os chatos me entendam. Chatos são necessários para o equilíbrio do ecossistema. Quer ser chato? Vá fundo! Todo chato deve ter suas motivações, conscientes ou não. A chatice é seu escape psíquico. O que estou advogando é que eu não preciso conviver com essa gente, esses gafanhotos da paz alheia. Já há algum tempo, decidi me blindar dessa amargura toda, desse negativismo atávico, dessas reclamações recorrentes das mesmas bocas e mesmas teclas. Essas pessoas proliferam que nem Gremlins porque no mundo de hoje é mais fácil ser chato do que ser legal. Deve ser porque esquecer a dor é mais difícil do que lembrar a paz. A felicidade não deixa cicatrizes, como a tristeza. Há gente que adora lamber as feridas e não as deixar sarar. Escolhas.

Andando hoje em frente do meu condomínio, vi uma flor que ousou nascer no asfalto. Fiquei pensando por um minuto na ousadia. E na bela metáfora. O mundo é asfalto. Flores ousam brotar aqui e ali, desafiando o que se impõe como prevalente. Para onde olhar? Há pessoas que só veem os buracos e as lombadas do asfalto. Os seus olhos são cegos para o resto, para o desvio, para a deriva que se oferece. Saramago, sobre a cegueira: “É que vocês não sabem, não o podem saber, o que é ter olhos num mundo de cegos”. Estou na fase de buscar flores e de ignorar solenemente o asfalto quente, áspero e esburacado. Ando cansado de rolar e ralar no asfalto da vida. Pode ser coisa da idade? Pode ser. Topo dividir sorrisos e gozos. Amarguras e choramingos, eu passo. Sem culpa. Estou ficando velho. Eu posso. Tenho o salvo-conduto. Porque ninguém pode me magoar sem minha permissão. Nem calar a flor que nasce teimosa no asfalto quente.

 

PS: Durante a escrita deste texto, recebi a triste notícia de que um tio da minha mulher morreu. A vida é tão efêmera. E tanta gente perdendo tempo com desamor e futrica.

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A Chispita vai ser mãe

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[Um texto de 29 de novembro de 2001]

Fui à médica que minha mulher marcou para mim. Como havia esquecido meu “livro da espera” no carro – sempre levo um livro comigo para as esperas da vida -, tive que recorrer às revistas esparramadas sobre a mesinha do canto. Procurei uma Caros Amigos, mas só achei mesmo de Contigo para baixo. Não que tenha algo contra essas revistas. É só uma questão de preferência. Havia também uma Ícaro no bolo. Quando ia pegá-la, uma senhora gordinha foi mais rápida. Bem no estilo carcará-pega-mata-e-come. É engraçado como senhoras gordinhas podem ser rápidas. Para disfarçar, sem tirar a mão da trajetória, peguei então a revista que estava na sequência na pilha. Era uma revista do SBT, do Show do Milhão. Sem o cupom, claro.

Comecei a folhear em busca de algo útil, foto da moça da banheira e tal. De repente a notícia: “Chispita vai ser mãe”. Confesso que essa notícia caiu como um banho de antraz em cima de mim. Chispita? A Chispita? Aquela Chispitinha, do seriado do SBT. Mas ela é uma crian…Vi a foto. A Chispita está uma senhora. Foi aqui que caiu a ficha: estou ficando velho. Foi aí que me dei conta que até minhas expressões são do tempo do ronca. “Cair a ficha”? “Tempo do ronca”? Meu Deus. O templo é implacável. Foi com a Chispita, meio bombada, e está sendo comigo.

“Senhor!”, disse a secretária da médica. “Sua vez. O senhor poderá estar me acompanhando. Eu sem saber se prestava atenção nas possibilidades semânticas do “senhor” ou no tempo futuro de aspecto gerúndio-comercial, muito em moda hoje em dia. Seria o “senhor” um mero marcador de distância de uma relação comercial? Ou seria o “senhor” de senhor mesmo, o que já não é mais “você”? Será que ela não poderia ter dito “meu jovem”, “filho”, “bebê”… Ok, forcei.

A médica achou que eu era autista ou coisa assim. Passei a consulta olhando pela janela o skyline de Campinas, grilado com esse negócio de velho. Tudo bem que quando eu era criança meus tios e meu pai me chamavam de “velhinho” porque eu sempre que parava de fazer algo costuma ficar de cócoras para descansar. Até hoje meu pai e minha tia Céu (já uma tia-avó, coitada!) me chamam assim de vez em quando.

Cheguei em casa, liguei o computador. Click, click. Explorer… Altavista… “ficando velho”. Enter. Muitas páginas de teste para saber se a gente está ficando velho. Triste, eu constatei: estou. Passei Magna Cum lauda em todos.

Mas não vou ficar nessa sozinho. Compilei alguns para que você, da geração Globinho, compartilhe comigo a inexorável marcha do tempo…

Você sabe que está ficando velho quando já não acha ruim carregar o guarda-chuva para cima e para baixo, erra o caminho de casa, quando vai conversar com alguém diz “na minha época” ou “na minha mocidade”, assobia por aí melodias sem nexo nenhum, carrega o jornal para onde for, o saco começa a  inchar, refere-se ao dinheiro como “mirréis”, segura no “puta merda” quando anda de carro (aquele pegador localizado acima da janela do passageiro), leva sempre uma sacolinha para carregar coisas de velho, arruma companheiros de caminhada, se pega “curtindo” love songs e odiando disco music (Antena 1 é sua favorita), seus sobrinhos caem na gargalhada quando você diz que quando você era adolescente o Michael Jackson não era branco. Você está ficando velho quando instintivamente você encolhe a barriga, estufa o peito, prende a respiração e contrai os músculos do bíceps sempre que nota que alguém vai tirar uma foto, acha que o tempo passa cada vez mais depressa,  seu corpo entrega os pontos e sua alma consente.

Tem mais: Dói saber que os indivíduos que “poderão estar entrando” na faculdade nasceram aproximadamente em 1985. Eles não têm a mínima ideia de quem foi Tancredo Neves e mal ficaram sabendo que ele morreu antes de assumir a presidência. Eles estavam na infância quando aconteceu a Guerra do Golfo.

No máximo, recordam do nome de um presidente da república. Eles tinham sete anos quando a União Soviética se dissolveu e não se lembram da Guerra Fria. Nunca sentiram medo de uma guerra nuclear. “The Day After” para eles é uma pílula, não um filme. URSS para eles é um conjunto de letras. Eles conheceram somente uma Alemanha. Eram jovens demais para lembrar a explosão da Discovery, que pensam ser o canal a cabo. Eles não sabem quem é Kaddafi. Em toda sua vida sempre ouviram falar de AIDS. Atari é algo que não existiu para eles, tanto quanto discos de vinil. A expressão “isso soa como um disco quebrado” não tem nenhum significado para eles. Eles nunca jogaram Pac Man. Star Wars parece algo bobo com efeitos especiais patéticos, que o computador do quarto faz. Eles sempre ouviram falar em secretária eletrônica, a maioria nunca ouviu falar em TV com 13 canais e, provavelmente, nunca viram uma TV P/B, máscara-negra. Sempre tiveram videocassete e nunca ouviram falar em formato Beta. Não se imaginam sem controle remoto. Eles tinham quatro anos no ano em que o Walkman foi introduzido no mercado pela Sony. Patins para eles sempre foram inline. Nunca ouviram falar de Crush ou Cruzeiro Linhas Aéreas. Pipocas para eles sempre foram feitos em micro-ondas. Nunca viram Zico, Roberto Dinamite ou Cerezzo jogar. Sócrates, para eles, é, no máximo, irmão mais velho do Raí. Guerra do Vietnã é algo muito antigo para eles, tanto quanto Primeira ou Segunda Guerra Mundial. Watergate para eles é o precursor de Monicagate. Aliás, diriam eles: “o que foi Watergate?” Eles não se importam quem matou Odete Roitman, ou até, quem foi Odete Roitman. Nunca assistiram “Perdidos no Espaço” ou “Os Três Patetas”. John Travolta é o ator do filme “A outra face” e não de “Os embalos de sábado à noite” ou “Grease”. Nunca viram programa em Cobol, nem Assembly. Não sabem o que é um MSX. Disquetes de 1.2 nunca existiram para eles. Muito menos os de 360K. E carregar joguinho no computador pelo gravador Panasonic, no volume 7,5? Ah, e quando tossem, não tomam Xarope Brandão: “Tosse, gripe e rouquidão: Xarope Brandão. Acalllllllllma enquanto cura”.

Você está achando cruel? Então toma lá, seu velho: Lembra quando inaugurou a TV Manchete? Do Jota Silvestre em Essa é Sua Vida? Lembra quando Tancredo morreu e ficava tocando “Coração de Estudante” o dia todo na TV? Lembra do Bozo, da Vovó Mafalda e do Papai-Papudo? Lembra da Família Barbapapa? Você chorou com o ursinho Micha da abertura da Olimpíada de Moscou? Tem o primeiro numero da Superinteressante? E se lembra de Ciência Ilustrada? Lembra que você aprendeu a desenhar com Daniel Azulay (“Algodão doce pra você!”)? Já ouviu falar em contaminação por Radiação em Goiânia? Relógios Grand Prix para homens e Champions para mulheres (aqueles que trocavam de pulseira) faziam parte do seu dia-a-dia? Assistia ao Cassino do Chacrinha aos sábados? Teve o Forte Apache e o circo do Playmobil? Depois de ter um Stratus, pediu um carrinho de controle remoto como o Pegasus série ouro e prata ou o Colossus vermelho? Teve um Falcon? Brincava de Autorama ou de Ferrorama? Detetive? Assistiu filme dos Trapalhões no cinema, na época em que eles ainda eram quatro? Ria com Guerra dos Sexos, Dancing Days e Ti-ti-ti? Comprou a fita K-7 do Plunct-Plact-Zum? E a Blitz, não tinha documentos ou instrumentos? Usava caneta de 10 cores com cheiro? Comia geleia de mocotó Embasa pela manhã (aquela que a mãe ficava com o copo)? Comia quebra-queixo e pirulito de cone da tábua furada com bandeirinha no cabo? E cascalho? Dava seus pulinhos com o Pogobol? Colecionou o álbum de figurinhas “Amar é”? E o Bingola, nas tampinhas de refrigerante Coca-cola? Tomou Fanta-guaraná? Fanta-limão? Guaraná Taí? Assistia na sessão comédia Super Vicky e Caras e Caretas? Chips para você não eram batatas, mas dois policiais, no estilo Fucker & Sucker? E ao Homem de Seis Milhões de dólares e a Mulher Biônica, assistiu? Você sabe quem é o Tatoo da Ilha da Fantasia? Lembra do Halleyfante? Foi na estreia dos Caça Fantasmas e Goonies no cinema? E na de Tron, War Games e a trilogia de Guerra nas Estrelas? Assistia Armação Ilimitada depois que chegava da escola? Depois da novela a sua mãe queria ver o Casal 20 e Dallas? Sabe com detalhes sobre a reportagem do Jacques Cousteau fez sobre o Pantanal e que passou no Globo Repórter, que era apresentado pelo Hélio Costa, que virou político profissional? Você jogava Genius? Colecionava Mad e o Manual dos Escoteiros Mirins do Huguinho, Zezinho e Luizinho? Queria um Kichute, pois era uma chuteira confortável, mas sua mãe só lhe comprava Conga ou, com sorte, um Bamba? Agoniava-se quando no Domingo no Parque trocavam uma bicicleta por uma caixa de fósforos? Viu o Ronnie Von ganhar todas e só perder para a Maria Alcina no Qual é a Música? Lembra-se que o tênis Montreal era antimicrobiótico? Brincava de Acquaplay? Sabe o que era Trovão Azul? E o kit da Super Máquina? Lembra da briga entre VHS e Betamax ? E entre Odissey e Atari? Boliche, River Raid, Enduro, PacMan, Frogger, Pitfall e Tênis no Atari. Come-come e Didi na Mina Encantada no Odissey? Lembra quando assistia aos Saltimbancos? A Feiticeira e Jeanie É Um Gênio antes do Agente 86? Sítio do Pica-pau Amarelo, desenhos do Homem de Ferro, Incrível Hulk e do Capitão América? Desenhos da Turma do Zé-Colméia, Hardy a hiena e Lippie o leão, Tartaruga Touché e Dum-Dum, Pepe-legal e Babaloo, O Urso do Cabelo Duro, Manda-Chuva, Wally Alligator, Maguila o Gorila? O seriado do Batman (Bif, Pow, Sock, Smack … – “mesma bat-hora, mesmo bat-canal, Comissário Gordon”). Terra de Gigantes, Túnel do Tempo, Viagem ao Fundo do Mar (com o submarino Civil e o marinheiro Kobasky)?

Calma, idoso… Não acabou, não. Você também cantou “Ursinho Blau Blau”, “Mama-Maria” e “Johnny Love”?  Ouviu Menudo (“Não se reprima…”), Tremendo (“Todos batendo palmas, isso é tremendo…”) e Dominó (“Companheiro vem, vem no balanço do mar…”)? Torceu contra a Lucinha Lins (Purpurina) no Festival dos Festivais? Lembra dos Abelhudos – “Diz qual é o nome, do dono da terra…”)? Deu aquele disco em formato de coração, com o Melô do Piano,  para a namorada? Achou que o Gurgel ia ser, finalmente, o carro nacional? Teve revólver de espoleta (Fox – 6 tiros ou Fúria – 12 tiros)? Viu a estreia do Balão Mágico com Mike (o filho do ladrão), Tobby e Simony (a mulher do ladrão, de roupa)?  Morria de medo de ser ovado na escola e na quadra no dia do aniversário – pensava até em faltar nesse dia? Brincou de Vai-Vem? Teve Geleka e Massa Lunar, e quase quebrou o braço com aquelas bolotas que ficavam presas a um fio e ficavam batendo em cima e embaixo, enchendo o saco de todo mundo com aquele tectectectectectectectectectectetec…? BIBOQUÊ. Era esse o nome. Lembrei. Colecionava garrafinhas de MiniCoke e Fanta? Gostava de ver a Xuxa batendo nos baixinhos no programa da Manchete e cantando “O Alfabeto da Xuxa – A de Amor, B de Baixinho, C de Coração…”? Usou calça OP ou K&K verde limão com a camiseta Hang Loose laranja, achando que estava combinando? Para arrematar, o tênis quadriculado? E o gel New Wave no cabelo? Dançou como Travolta os “Embalos de Sábado à Noite” e Achou a Sandy de “Nos Tempos da Brilhantina” uma chata de galocha? Comprou o disco dos Bee Gees? Sabia cantar quase todas as músicas da Blitz (“Você não soube me amar…”)? Colecionou figurinhas Ping Pong com os jogadores do campeonato nacional, o Futebol Cards? Tinha o Paúra, feio pra cacete, jogador do Coritiba.

É. Mas minha pesquisa foi mais além. Para você, amiga velha, aqui vão algumas também: você tinha Melissinha sabor Coca-Cola? Colecionava as figurinhas de bichinhos que vinham no chocolate Surpresa? Brincava de Fofolete, Cicciobello, Pega-vareta, Suzy e Ken? Colecionava papel de carta da Hello Kitty, Bonnie e Clyde e Moranguinho? Usou saia balonê? E calca semi-bag? E sandália de plástico com meia soquete prateada? Usou aquelas pulseirinhas de linha, que tinham o nome da pessoa? Assistiu ao show  do  A-Ha ? Brincava de bambolê – antes de se chamar bambotchan?  Morria de pena da Polyanna, que pregava o “jogo do contente”? Comprava aqueles discos tipo “Hits 82”, que sempre tinham na capa uma moça andando de bicicleta, de costas, com close no bumbum? Pulava corda com aquela musiquinha: “Um homem bateu na minha porta e eu…”? Brincava de “Enha la enha lagosta lagoe” (Que diabo era isso?), de “adoleta” e “1 2 3 Chocolate Inglês”?

Se você respondeu afirmativamente a maioria dos itens acima ou teve um ataque de risos durante esses testes, você é um privilegiado, meu caro ou minha cara. A felicidade é o resultado de vários fatores na nossa vida e um deles pode ser medido pela forma como encaramos nossas lembranças. Aliás, acho que sou um velho de 33 anos feliz, depois de ler tudo isso. Se nostalgia fosse gente, eu seria a China.

Ah, o Tempo! “O tempo não pára!”, como disse Cazuza. Ou teria sido Roberto? Só a saudade é que faz as coisas pararem no tempo. Aqui frases de alguns famosos, diretamente do Almanaque Capivarol: “O tempo é um ponto de vista. Velho é quem é um dia mais velho que a gente…” (Mário Quintana). “Haja Hoje para tanto Ontem” (Paulo Leminski). “O tempo é a substância de que sou feito” (Jorge Luís Borges). “O tempo corre em direção com sua bandeja de hospital repleta de narcóticos, deixando-nos preparados para a sua operação inevitável e fatal” (Tennessee Williams). “Quem mata o tempo injuria a eternidade” (Henry David Thoreau). “O homem que envelhece vai tomando gradativamente consciência de que não é eterno. Agita-se menos e, assim, os sons das vozes que vêm do além se fazem ouvir” (Romano Guardini). “Os dias talvez sejam iguais para um relógio, mas não para um homem” (Marcel Proust). “O tempo que você gosta de perder não é tempo perdido” (Bertrand Russell). “O tempo é sucessivo porque, tendo saído do eterno, quer voltar ao eterno. Quer dizer, a idéia de futuro corresponde a nosso desejo de voltar ao princípio. Deus criou o mundo. E todo o mundo, todo o universo das criaturas, quer voltar a este manancial eterno que é intemporal, não anterior nem posterior ao tempo, mas que está fora do tempo” (Jorge Luís Borges, de novo e atemporal).

Por fim e para não tomar mais seu tempo, umas frases retiradas da contracapa da Revista do Show do Milhão, que afanei do consultório da Dra. Eliana: “Tudo que é bom dura o tempo necessário para ser inesquecível”. “O maior erro é a pressa antes do tempo e a lentidão ante a oportunidade”. “Nada está sempre errado. Até um relógio parado está certo duas vezes por dia”. “O futuro é o passado desejado”. “O tempo no céu demora uma eternidade para passar”. “Amanhã é o hoje em relação ao ontem”. “Nada é mais rápido que a velocidade da luz. Para provar, tente abrir a porta da geladeira antes da luz se acender”.

Quando meu pai me chamar de velhinho de novo, vou rir feliz e sem neura. E vou lembrar o Futebol de Mesa dos campeonatos de domingo, que deixavam minha mãe ensandecida porque a gente só chegava tarde para almoçar. E vou lembrar a primeira vez que ouvi uma música mais de cinco vezes seguidas: “Something”, dos Beatles. De Harisson, que se foi hoje, fazendo com que o dia ensolarado promissor chegasse triste ao seu final. Se bem que deve estar cantando My Sweet Lord ao vivo para o homenageado. Ele também disse que “all things must pass”. “Tudo passa”. Tudo passa e a vida continua. O meu irmão caçula Mauro vai ser pai (está feliz como pinto em merda, para usar mais uma do meu tempo) e a Chispita vai ser mãe. Mas o pai do da Chispita não é o Mauro. É um tal de Juan Xavier Mendoza.

Dia 04 eu volto lá na médica. Tomara que a gorda esteja lá e pegue a Ícaro. Tomara também que a Dra. Eliana tenha comprado a nova Revista do Show do Milhão. Senão eu troco de médica.

O que se perde, o que se ganha, o que se guarda

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Estou ficando velho. Sei que estou mesmo porque música para mim no rádio do carro só se for as light dos anos 80, Rod Stewart cantando as tradicionais americanas ou Diana Krall, naquele jazz relaxante. Nada desses troços barulhentos. Sinto um verdadeiro mal estar ouvir música assim no carro ou nos supermercados de algumas áreas da cidade. Sério. Quero cada vez mais minha casa, meu canto, minha cama, minha patroa aconchegada com a cabeça por sobre meu ombro direito assistindo às séries de TV e filmes água-com-açúcar. Acho que é fisiológico: as células que envelhecem com o tempo ficam mais rabugentas e curtem cada vez mais os retalhos de cetim de  Benito de Paula e as estradas do sol da Perla – quem tem menos de 40, pergunte para o papai e para a mamãe quem são. Aproveite e pergunte o que era a promoção do Bingola.

Todo esse preâmbulo para localizar o humor de quem vos fala é para dizer que a minha reflexão passa por analisar minha vida e fazer um balanço. 43 anos, terceiro casamento, mestrado feito, doutorado feito, duas filhas. Está bom, eu acho. Um filho ainda? Continuo no preâmbulo picotado de informações desconexas, não é? Deixa eu ver se dou um rumo ao texto…

Minha vida – e, claro, a de todo mundo – é uma sequência de mudanças. Grandes e pequenas, diárias. Filosofando na varanda de casa, cheguei a uma teoria. Cada passagem na vida nossa de cada dia tem três pontos: o que se perde e fica para trás, o que se ganha com a nova fase que chega e o que se guarda como experiência desse movimento de leva e traz, contínuo como o banzeiro dos rios.

Conselho para a vida não se dá. Quando muito damos uma dica de que em buffet de comida a quilo não se deve comer purê de batata, pois pesa muito. Todavia – e há muito tempo eu não uso “todavia” –, a minha vida tem melhorado depois que compreendi o mecanismo da danada e dou essa dica para quem quiser.  É como eu disse antes: perdas, ganhos, restos.

Cada passagem, cada mudança faz com que percamos algo da fase anterior. É preciso morrer o velho para germinar o novo. O botão morre para a flor nascer. O menino morre para que o adulto apareça. Um amor acaba para que outro surja. O segredo é entender a perda inevitável como sendo inevitável e parte mesmo da chegada do novo. Dois caminhos lógicos a serem seguidos quando isso acontece: o primeiro, viver eternamente essa perda, o que é morrer para o novo, de certa forma, pois se paralisa no tempo. O segundo, curtir o luto da perda como um rito de passagem necessário para a gênese de um novo eu numa nova fase e tocar em frente, com todos os choros e dramas que se tem direito na passagem.

Tem gente que não sai do luto das perdas de suas mudanças. Choram, lamentam, mas não um choro e uma lamentação instrumental, ou seja, para resolver e purgar a dor. Cristalizam-se num simbólico que se esfacelou, que acabou, que deu. Por outro lado, tem um povo que curte o novo de cabeça, como um exílio, sem olhar para trás, para o que perdeu, com medo de virar estátua de sal como a mulher de Ló. E fica amargo. Só que ignorar o que se perdeu sem simbolizar a perda, sem lhe dar sentido, é ter um luto não vivido. Ele voltará como um fantasma a lhe assombrar eternamente em dores de cabeças, neuroses, tristezas sem razão aparente, depressão, síndrome do pânico, manias e cacoetes. É preciso o meio termo: Perdeu? Perdeu! Aceite e pronto. Zap! Foi-se! Mór-reu, Nerson da Capitinga! É preciso perder para ganhar coisas novas. Tem gente ainda que, não contente, quer consertar o inconsertável. Mas o essencial não é inventar consertos (a neurose é a ciência dos consertos e das ocultações que não dão certo). O essencial é indicar, apontar e reconhecer um real contraditório que não tem conserto, para fazer com isso, com o inevitável, algo interessante.

Por sua vez, as coisas novas, motivos da mudança, devem ser curtidas com gozo pleno, mas não sem luzes traseiras. Caraca! Mudei minha vida – ou mudaram para mim – e então tenho que aproveitar ao máximo o que ela me traz de novo. É lógico. O que vivi, olho e deixo para trás como ponte para eu chegar até aqui. Então para o resto, como diz a música do Chiclete – e eu nunca pensei que fosse usar uma música do Chiclete em um  texto – , “diga que valeu!”  Mudar é bom, cada vez mais percebo isso e faço disso uma filosofia de vida. Para viver o novo devo apagar o velho, o ido? Em absoluto.  Assim como se mede a capacidade de carga de uma ponte por sua estrutura mais fraca, as dores, as perdas e os danos servem para revelar a medida de nossa resistência humana. É preciso não ignorá-las, mas conhecê-las para nos conhecer melhor.

Isso aponta para a terceira perna da coisa: o que resta. É o que nós, velhos, chamamos de experiência. As coisas ruins e dolorosas servem para o que servem: para nos ensinar certas lições. Fiquemos com essa parte. A parte da dor, depois de curtida, gasta e processada, repito, deve ser jogada fora sem dó na lixeira da memória.  As coisas boas, por sua vez, devem ficar registradas na antologia do amor e, igualmente, devem servir para nos ensinar também. Os fatos são pedagógicos. Ou deveriam.

 As pessoas são de certo modo ou amargas (se focam o eterno luto), ou utópicas (se focam o solitário gozo sem história) ou felizes (se balanceiam luto e nascimento e sabem guardar os restos úteis do parto). Eu, como todo mundo, já passei por infernos astrais e dores inomináveis. Vivi a dor. Vivi o luto. Mas passou. Aprendi a curtir o novo e me relacionar com ele por meio da milhagem de vida, meus restos úteis. Sei que muitos podem dizer que essa classificação é simplória. E é. Não pretendo escrever nenhum tratado sobre isso, mas colocar a minha opinião sobre um fato comum e complicado, que é esse negócio de viver. Daí o escrito ser uma crônica e não uma tese.

Pergunto então a la Edir Macedo: e você, minha amiga, meu amigo? Que perda ainda chora e que não lhe deixar ir em frente depois de tanto tempo? Já não está na hora de curtir, gastar, purgar, exorcizar essa dor? Nada do que foi será de novo do jeito que já foi um dia. Tudo passa, tudo sempre passará. Não adianta fugir nem fingir pra si mesmo. Agora há tanta vida lá fora.  Toca aqui, Lulu!

E que alegria incompleta é essa que mascara a necessidade de olhar o que passou nos olhos? Que tal chamar seus monstros para uma conversa a sós, na boa? Encarar um ao outro, só vocês, tête-à-tête. É preciso resolver o que pende. Seu gozo pleno depende do que pende. Tome tenência e meta a cara. Depois, saia para o abraço de uma vida sem fantasmas ou, no máximo, com Gasparzinhos, uns fantasminhas camaradas.    

Mas não esqueça de vez em quando parar para avaliar a vida. Pode ser numa rede na varanda ou ouvindo Kenny G ou as líricas de Zeca Baleiro bem baixinho. Pode ser antes de dormir. Tá bom, vai… pode até ser ouvindo Exaltasamba. O fato é que pode ser.  Aí você vai ver que a vida é lógica: você é quem manda. Coloque o balanço de sua vida para descansar no carnaval e na quarta-feira pegue suas cinzas e jogue no rio ou no mar. Segue a vida. Tem de seguir.

As vitrines

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Para Ana Clara e Marina.
Quando tinham 4 e 3 anos.

Eu te vejo sair por aí/Te avisei que a cidade era um vão/- Dá tua mão!/- Olha pra mim!/- Não faz assim!- Não vai lá não!/Os letreiros a te colorir/Embaraçam a minha visão/Eu te vi suspirar de aflição/E sair da sessão, frouxa de rir/Já te vejo brincando, gostando de ser/Tua sombra a se multiplicar/Nos teus olhos também posso ver/As vitrines te vendo passar/Na galeria, cada clarão/É como um dia depois de outro dia/Abrindo um salão/Passas em exposição/Passas sem ver teu vigia/Catando a poesia/Que entornas no chão…

Ontem eu fui buscar minha filha na escola. Cheguei cedo e pelo vidro, escondido,  fiquei olhando aquela menininha, cabelo preso com um rabo de cavalo, sentada na carteira escolar, copiando a tarefa escrita pela professora no quadro. Ela está no terceiro período, sendo alfabetizada. O inusitado é isso: quando a realidade bate em sua cara com uma sandália havaiana molhada e cheia de terra.

Recobrando os sentidos, olhei e me dei conta de como é independente a minha filha de quatro anos. Já não mais chora para pedir leite, dorme sozinha, dispensando meu canto de outrora, cujos falsetes desafinados embalavam o seu sono, às vezes o nosso. Já escreve seu nome na firmeza do lápis. Já tem uma identidade que a distingue. Já tem gostos só seus. Sabe o que quer com firmeza. E o que não quer com certeza. Toma a frente para fazer as coisas, para experimentar. E só tem quatro anos, a minha menina. Em dois planos, vi duas cenas olhando para o mesmo lugar: pela janela da sala, a minha filha já sendo. Na janela da sala, pelo reflexo, um pai se dando conta de que a vida segue.

Enquanto eu escrevo, olho os vários porta-retratos de minha filha espalhados em meu escritório com suas fotos: um bebê, uma menina cambaleante, segurando as mãos do pai, uma menina em gargalhada aberta sentada no chão da calçada junto comigo a aconchegá-la, protegendo-a entre minhas pernas, numa tarde de pai e filha e velocípede. As fotos passam com um filme, quadro a quadro, lembrando que o tempo passa e ela cresce. E escapa líquida pelos meus dedos.

Fico pensando o dia em que minha criança sairá sozinha pela primeira vez. Nesse dia decretará o brado retumbante às margens de seu Ipiranga particular. Deixará um pai órfão de sua obrigação perene de pai: acompanhá-la por onde for. E eu terei que vê-la sair por aí… Não sem antes avisá-la repetidamente do abismo que é a cidade, o mundo. Definitivamente, o mundo não foi feito para pais. Pais sofrem com mundo. Ele ameaça o que têm de mais sagrado: seus filhos. Ah, filha, cuidado! O mundo é um vão…

O paradoxo de saber da necessidade de que os filhos se vão para ser gente e ao mesmo tempo em acreditar no instintivo pátrio dever da proteção eterna nos faz pensar em dizer, com rigor paterno: – Dá tua mão! – Olha para mim! Não faz assim! Não vai lá, não! – Fica aqui, deixa eu cuidar de você. Para sempre. Para sempre… Filhos são para sempre. Filhos se demoram. Essa é sua beleza. Mas o pacote traz junto com os filhos a vulnerabilidade eterna. Filhos são nossos alicerces e nossa vulnerabilidade. Sem eles, Deus nos livre, o nosso mundo desmorona, cai em pedaços. Sem eles, nossa vida se agriculturiza e vira vegetativa.

Mas tudo bem. Saiam. Ganhem o mundo. Ganhem os prados. Por via das dúvidas, vamos atrás, de longe. Só por garantia. Ficamos somente olhando. Sem se meter. Prometemos. E eles saem…

Na nossa certeza, vamos estar lá, pulando em frente de carros, lhes salvando contra ladrões, feito Sportacus avisados pelo nosso coração. Estamos prontos para intervir no primeiro susto. Mas cadê o susto que não vem?… Nossas crianças passeiam com desenvoltura pelas ruas. Os letreiros das lojas e fachadas vão lhes colorindo na passagem como se lhes saudassem a vinda e a vida. A vida de quem faz sua subjetividade na independência que, pretensiosos, julgávamos impossível sem nós. A falibilidade já nos tinha sido anunciada: quantas vezes pedimos impotentes que a febre passasse para nós?

Nossa ansiedade aumenta. Seguimos os passos de nossos filhos, mas os nossos passos vigilantes são hipérboles supérfluas de amor, desnecessárias, vãs. A cidade é um vão… Os letreiros brilham por sobre nossos filhos e embaraçam a nossa visão porque não conseguimos – ou não queremos – vê-los desenvoltos por lugares que outrora nós mesmos pisamos em falso, buscando nós próprios a nossa luminosidade.

Viramos espectros de seus caminhos. Se vão ao cinema, ficamos furtivamente na última fila, incógnitos. Estamos prontos para oferecer o ombro e o colo ao surgir o primeiro monstro na tela, um Robin Rotten, sei lá… Somos capazes de perceber a aflição suspirada, afinal conhecemos cada centímetro daquele ser, cada fio de cabelo, cada jeito de olhar, cada um dos 21 gramas daquela alma. Dizem que alma tem 21 gramas. Se tem, eu conheço cada um dos gramas da minha filha. Não duvide de um pai. Mas não… Vou me desnecessarizando de sua vida,  como as rodinhas da bicicletas, que uma dia foram fundamentais e depois, de repente, viram-se descartáveis. Com um outro, um substituto de mim, minha filha de repente sai confortada, alegre, frouxa de rir. E eu morro um pouquinho na quebra da minha certeza de que só eu era capaz de fazê-la rir daquele jeito. Sinto-me arrasado como quando trocamos amores em miúdos. Claro, mas é assim, é assim, sabemos… Componha-se!

É. Tem uma hora que a gente percebe que os filhos começam a gostar de ser. Desenham paisagens com seus próprios crayons, recortam o mundo com sua própria tesoura do desejo. Suas sombras a se multiplicar nos inquietam na impossibilidade de seguir cada uma delas. Vamos deixando de ser os pais que ocupam os espaços para  sermos pais que liberam espaços para os filhos como condição primeira para continuar sendo pais. É preciso se esvaziar de presença para estar presente: é esse o oximoro paterno.

Quando ela volta para casa, faço cafuné, abraço, beijo suas bochechas. Olhos nos olhos e nos seus olhos eu posso ver as vitrines do mundo a vendo passar nas galerias da vida, das querências, dos desejos, dos medos, das (in)certezas. Cada clarão refletido em suas pupilas é como o raiar do sol de um dia depois de outro dia depois de outro dia depois de outro dia. Olho em seus olhos os reflexos do porta-retratos do bebê risonho e do pai que o segura, feliz. Serão sempre os bebês os nossos filhos. E que abram, em cada passo que derem, mil salões de alegria, de sucesso, de ternura. Que não esqueçam a ternura ao passarem expostos ao mundo.

É com ternura que serei o eterno vigia de minha filha. Vigia que ela nunca vai ver lhe vigiando e lhe sufocando, pois precisa ganhar a segurança da liberdade. Um vigia que vai zelar sempre por ela, a cada dia, em cada galeria, no reflexo de cada vitrine, de cada vidro de janela das sala de aula da vida. Que vai estar catando toda poesia que ela derramar no chão, que será guardada naquela velha caixa cor-de-rosa onde estão depositadas as primeiras, aquelas entornadas e recolhidas naquele dia de felicidade indescritível na maternidade…

Catando conchas

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Em 1977, meu pai nos levou, meu irmão mais velho e eu, para férias no Rio de Janeiro. Eram tempos bicudos. Ficamos em casa de parentes para economizar. Eu tinha nove anos quando vi o mar pela primeira vez. Eu, um ser dos rios, nunca esqueci a primeira vez que meus olhos me viram no reflexo das ondas. Senti vontade de pedir para meu pai e para meu irmão para me ajudar a olhar aquele mar, de tão grande.

Minha diversão naquelas férias foi recolher conchas do mar. No primeiro dia, recolhi conchas dos mais variados tipos, cores e tamanhos. Lindas. Eram as conchas a materialização do meu primeiro contato com o mar, as lembranças vivas de que eu estivera ali. Enchi um saco plástico enorme com elas.

À noite, um fedor fenomenal tomava conta da casa da Tia Ernestina, nossa anfitriã.  Consternado, tive de jogar fora minha primeira coleta de conchas selecionadas. Foi quando aprendi que quando se retira algo do mar, como as conchas, devemos lavar com água doce. Jamais esqueci. Colecionei conchas naquele verão. Devidamente lavadas e processadas. E elas vieram comigo para Manaus e fizeram o maior sucesso com meus colegas da 4a série da Professora Polari.

Hoje, minha filha Clara foi para praia com um propósito: recolher conchas. O tempo voltou num túnel de lembranças para aquele Rio de 1977. Fui com ela da areia da barraca à areia da praia, onde as ondas lambiam o chão, trazendo e levando conchas, num jogo de manja-pega pensado por Deus para divertir pais e filhos. No caminho para o mar, lembrei-me da criança de nove anos. Molhei o rosto para misturar às lagrimas a água do mar, ambas salgadas. Recolhemos, Clara e eu, conchas dos mais variados tipos, cores e tamanhos. Lindas. A cada concha um sorriso de uma conquista e uma exclamação: “- Olha, pai! Que linda essa!”

Brincamos no mar por um bom tempo. Tanto Clara quanto Marina perdendo o medo de se soltar e enfrentar sozinhas o vai e vem das águas do Guarujá. Entre um caldo e outro, um choro, depois sorriso, entremeados. Clara não dava o braço a torcer: “- Tranquilo, pai! É só água!”, dizia passando a mão no rosto. Marina, tão mais atirada na vida, respeitou o mar com mais reverência. “- Só vou se você for comigo!” A vida requer estilos diferentes para momentos diferentes. Achei digno.

O que isso tudo significa na metáfora da vida?

Minhas filhas vão explorar terrenos novos, vão levar caldos e cair, beber água, tossir e levantar. Vão seguir em frente, tentando não sentir a queda. Por um bom tempo – queira Deus que um bem longo -, eu estarei lá para lhes segurar as mãozinhas confiante no pai. Mas vai chegar um dia em que elas vão ter de pisar no mar da vida sozinhas, sem mãos para lhes dar apoio e suporte. Vai chegar um tempo em que minhas meninas vão tomar seus rumos e decidir se vão querer ficar na areia ou ir embora para o oceano vasto do mundo. Vai chegar um dia em que elas catarão conchinhas em areias que seu pai sequer sonhou em pisar.

É o ciclo da vida. É assim. Mas não deixa de me angustiar. Todo pai e toda mãe queria, se pudesse, carregar seus filhos no colo para sempre. Mente vergonhosamente quem diz que não. De vez em quando, se me conheço, tomarei minhas filhas pela mão e lhes convidarei a buscar conchas num passeio a dois. Mesmo quando forem grandes e tiverem suas famílias. Será o nosso tempo de reviver nossos encontros do hoje presente. E, tenho certeza, acharemos conchas dos mais variados tipos, cores e tamanhos. Lindas. E as lavaremos com água doce para lhes tirar o excesso de sal. Não é assim que devemos fazer com a vida?

Hoje Clara aprendeu que é preciso que a gente faça a nossa parte para as coisas saírem como planejadas. Ela já separou as conchas para levar. Farão um sucesso incrível com a turma do 3o Período. E lá na frente, quando ela estiver catando conchas com seus filhos, o vento soprará a nossa viagem ao Guarujá em sua memória. E ela, junto com os filhos, achará conchas dos mais variados tipos, cores e tamanhos. Lindas. E lembrará a eles que é preciso lavá-las para levá-las. Mas que, acima de tudo, é preciso catar conchas com os filhos.

Quarenta e um

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Já vai umas décadas...Segundo a Wikipedia, o 41 é o número natural que segue o 40 e precede o 42. É o 13º número primo, depois do 37 e antes do 43. É o 7º número primo de Sophie Germain e o 3º número primo de Newman-Shanks-Williams, seja lá o que isso for.  Pelo polinômio f(n) = n2 + n + 41 obtêm-se primos quando n está entre 0 e 41. É a soma de dois quadrados, 41 = 42 + 52.  É a soma dos primeiros seis primos, e a soma de três primos consecutivos, 41 = 11 + 13 + 17.  É o número atômico do nióbio (Nb), que é  usado em alguns aços inoxidáveis,  em soldas elétricas e na produção de joias como, por exemplo, os piercings.

Aos 41 anos, Celine Dion anunciou sua segunda gravidez e Suzy Rego anunciou que ia ser mãe também. Aos 41 anos, Adãozinho encerrou a carreira no Bragantino. A top model dinamarquesa Helena Christensen provou em um ensaio nua que, aos 41 anos, ainda é capaz de fazer os homens perderem o rumo.  Os atores Irving São Paulo e Thales Pan Chacon morreram aos 41 anos. Aos 41 anos, o folclórico goleiro Higuita voltou ao futebol. Aos 41 anos, Glauber Rocha filmou “A idade da terra”.  Lima Barreto morreu aos 41 anos.  Djalma Santos encerrou a carreira somente aos 41 anos, no Atlético-PR. Lya Luft começou sua carreira literária aos 41 anos. Há 41 anos morreram Manuel Bandeira, Vicente Celestino, Assis Chateaubriand e Yuri Gagarin. Há 41 anos o escritor japonês Yasunari Kawabata ganhou o Nobel de Literatura.

Há 41 anos os estudantes mudavam a França. Há 41 anos começava a Primavera de Praga. Há 41 anos começava a Guerra do Vietnã.  41 anos atrás as mulheres queimaram sutiã na praça e os hippies mudavam o conceito de normal. Há 41 anos Martin Luther King foi assassinado. 41 anos atrás foi feito o primeiro transplante de coração na Europa e o primeiro no Brasil, pelo Dr. Zerbini. Foi há 41 anos que mataram Bob Kennedy. Foi há 41 anos que o Rio de Janeiro viu a passeata dos Cem Mil, em plena ditadura. 41 anos atrás os Beatles lançaram Yellow Submarine, o filme. Há 41 anos foi lançada a Apollo 7, cuja missão foi a primeira televisionada. Há 41 anos a nave espacial Apolo 8 foi colocada numa órbita circular em torno da Lua. Há 41 anos Aristóteles Onassis e Jacqueline Kennedy casam-se na Grécia.  Há 41 anos foi lançado o Chevrolet Opala no Brasil. Há 41 anos o jornalista e deputado federal Márcio Moreira Alves, do MDB carioca, fez um discurso no Congresso criticando a ditadura militar. Márcio ironizou os militares, pedindo para as jovens moças evitarem dançar com cadetes, o que irritou os generais. O Presidente Costa e Silva decretou o AI-5 – Ato Institucional número 5 -, dando início ao período mais fechado e violento da ditadura militar no Brasil. O Ato, que durou dez anos, foi motivado pela recusa do Congresso Nacional em condenar o deputado por seu discurso.

Há 41 anos nasceram Cuba Golding Jr, Carolina Ferraz, Liza Marie Presley, Daniel Craig, Mara Maravilha, Ashley Judd, Sandra Annenberg, Will Smith, Brandan Fraser, Luciano Safir e eu.  1968 foi um ano e tanto.

Nasci no dia do sexo: 06 de setembro. Nesses 41 anos eu convivi com quatro irmãos maravilhosos, um pai e uma mãe sem igual. Brinquei na rua quando criança. Tive vários cachorros. Tomei banho de igarapé dentro da cidade. Joguei muito futebol na rua e fui mascote do Fast Club, com foto na capa do disco e tudo.  Fui campeão amazonense de futebol de mesa. Estudei em escola pública. E em escola salesiana,  eu e quarenta meninos.  Depois em escola de freiras, eu e quarenta meninas. Sempre CDF. Chorei na copa da Espanha, mas vi o Brasil ser campeão do Mundo duas vezes.  Dei aulas de inglês em cursinho, dirigi um fusca 76, fui professor de escola da prefeitura no São José à noite. Dei cabeçadas. Ousei sem arrependimentos. Fiz faculdade de Letras e, recém-formado, passei no concurso de professor da Universidade Federal. Tive meu primeiro computador em 1986 e o primeiro celular em 1993. Chorei quando o Senna e o Tancredo morreram. Viajei muito. Namorei pouco. Casei muito. Casei três vezes. Para sempre. Nos dois primeiros não deu.  Flutuei de amor. Chorei de amor. Fiz mestrado. Quase morri num acidente em 1999. Morei em Campinas. Fiz doutorado em Linguística. Perdi minha vó, um grande vazio. Quitei um apartamento. Fui subsecretario de educação de minha cidade. Conheci o céu e o inferno da política. Muitos amigos, poucos de fé, várias decepções. Tive milhares de alunos. Perdi a conta, nunca o encanto. Escrevi livros e plantei árvores. Com a mulher que vai ser minha viúva, eu tive duas filhas : as minhas melhores obras, de longe.

É. Já valeu a pena.

Memória e gênese

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Essa é a família Barbapapa...No rádio do carro toca “Hard to say I’m sorry”, do grupo Chicago. Comento com minha mulher: “essa música era da trilha de Sol de Verão, com o Jardel Filho”. Como resposta o silêncio. Em seu rosto um ponto de interrogação de quem pergunta: “Jardel quem?!”

Caiu a ficha. Percebi que estou chegando aos quarenta. É só ano que vem, mas meus 39 completados dia seis me colocam numa geração bem específica, aquela que ainda usa expressões como “cair a ficha”. Sou da geração Barbapapa.

A geração Barbapapa assistia ao Globinho, com a Paula Saldanha, e ao Sítio do Pica-Pau Amarelo, na primeira versão. Sofremos com o anjinho da asa quebrada, tivemos medo do Minotauro e da Cuca. Fomos ao fundo do mar com o Aquaman e embarcamos no Seaview, o submarino do almirante Nelson e do marinheiro Kowaski. Torcemos pelos pequeninos em Terra de Gigantes, lamentamos que Tony e Doug não pudessem voltar ao presente em O Túnel do Tempo. Paquerávamos as panteras (a Kelly era minha favorita). E o Agente 86, que foi o precursor do usuário de celular? O dele funcionava num sapato. O tema da Swat embalou muita brincadeira nas ruas do Parque Dez.

Nossos desenhos preferidos eram Mighty Thor, Os Herculóides, Os Brasinhas do Espaço, Os Jetsons, Jambo e Ruivão, Matraca Trica e Fofoquinha, além das Turmas do Zé Colméia e do Manda Chuva.  Para nós, pessoa para baixo sempre será um Hardy, a hiena: “Ó, céus! Ó, vida! Ó, dor”. Ninguém se preocupava com o politicamente correto: Tom & Jerry era uma pancadaria só.

Solidarizávamo-nos com a recorrente solidão do desamado Didi e choramos quando sua cadelinha morreu em “O Trapalhão nas minas do Rei Salomão”. Soluçamos embargados em “ET”. Fomos aos prantos com o pranto do garotinho em “O campeão”. Perguntamos, curiosos, quem matou Odete Roitman.

Brincávamos de Vai-e-Vem, cangapé, Front, Forte Apache. Havia ainda as manjas, a Barra-bandeira e o Garrafão. Lutávamos com o Falcon olhos de águia. Colecionamos os Futebol Cards do chiclete Ploc e as tampinhas com personagens Disney do Bingola. Tínhamos álbuns de figurinhas de todo tipo. Paolo Rossi foi o carrasco de nossa adolescência.

Vestimos verde limão e laranja berrante para estar na moda do New Wave. Compramos o disco da Blitz e demos de presente no dia dos namorados o compacto em formato de coração do Melô do Piano. Odiamos os Menudos e curtimos Duran Duran, Phil Collins, Cindy Lauper, Barry White e Michael Jackson, antes da metamorfose. Fomos dançar na Brilho, onde hoje é o Amazonas Shopping, e na Red Zone. No fim da noite, lanchávamos no Rock Burger ou no Barra Lanche, no Parque Dez. Genesis, Tears for Fears e Pet Shop Boys eram a trilha de nossa noitada.

Escreveria semanas sobre isso. Mas já deu para eu lembrar com saudade o tempo que passou. Estou nesse momento ouvindo a música do desenho dos Barbapapas, que recebi por e-mail. Quem quiser, me peça no sergio@sergiofreire.com.br. A nostalgia é deliciosa.

Se eu parasse no tempo, hoje não veria o sorriso de minhas filhas, que agora tecem suas memórias afetivas da infância. Quando forem mães, seus filhos perguntarão: “Backyardigans?! O que é isso?!” Recordar significa “passar de novo pelo coração”. Quem não faz isso não conhece o que lhe sustenta como pessoa, vive uma vida sem história. A vida é feita de memória e gênese. Há o que alicerçou e há os novos tempos. Vide este jornal. Vide a vida de cada um de nós. E feliz aniversário para mim.

Sérgio Augusto Freire de Souza

Jornal Em Tempo, 05 de setembro de 2007