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A escolha de Sofia

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screen-shot-2017-01-29-at-11-04-37-amO filme é de 1982. Em 1947, Stingo (Peter MacNicol), um jovem aspirante a escritor vindo do sul, vai morar no Brooklyn na casa de Yetta Zimmerman (Rita Karin), que alugava quartos. Lá conhece Sofia Zawistowska (Meryl Streep), sua vizinha do andar de cima, que é polonesa e fora prisioneira em um campo de concentração e Nathan Landau (Kevin Kline), seu namorado, um carismático judeu dono de um temperamento totalmente instável. Em pouco tempo tornam-se amigos, sendo que Stingo não tem a menor ideia dos segredos que Sofia esconde. Dentre esses segredos está a história de seu dilema. Seu dilema surge ao ser forçada por um soldado nazista a escolher um de seus dois filhos para ser morto. Se ela se recusasse a escolher um, ambos seriam mortos. Meryl Streep, como sempre, deu um show e ganhou o Oscar. E mais não conto porque você tem de ir lá assistir ao filme.

Diferentemente da escolha da Sofia de Meryl, de uma brutalidade inimaginável para qualquer pai ou mãe, eu queria falar aqui de outra escolha. A escolha que tantas mães e pais fazem pela vida. A escolha pelo acolhimento de uma vida que chega pela adoção.

Adotar é um ato de coragem, de grandeza e de amor. Requer coragem acolher como seu um filho que não foi gerado biologicamente nas suas entranhas, que já vem semipronto com sua breve experiência de vida, com porções de sua personalidade já marcadas por um período da infância sobre o qual se sabe pouco ou nada. Requer coragem porque foge à ordem natural da procriação biológica. Essa coragem, no entanto, vem acompanhada de uma grandeza imensa. Porque tudo isso vira detalhe em função do acolhimento, tudo o de antes se esvai ao tomar a criança no colo pela primeira vez, ao ver seu sorriso iluminando magicamente a nossa alma. E isso é amor, em uma das suas formas mais bonitas.

Nosso mundo é plural e, por isso, as verdades são plurais também. Há pessoas que acham que só se deve ter relações sexuais para procriar. Outros veem no sexo de um casal, além da necessidade fisiológica da espécie, um momento sublime de estreitamento de laços afetivos, de cumplicidade; há quem só considere como possibilidade o parto normal. Há quem entenda que o parto cesárea é um recurso da medicina, que deve ser usado por uma série de razões, como evitar que a mãe sofra por horas no esforço do parto normal, sofrimento esse imediatamente rebatido e ressignificado como privilégio pelo discurso dos naturalistas; há quem sustente que filho é apenas uma categoria biológica. E há os que sabem que filho é uma categoria simbólica. Mais do que isso: um sujeito que vai se fazendo pelo afeto. Para uns, nasce-se filho. Para outros, faz-se filho.

Também tenho meus sentidos sobre família, filho, irmãos, pais, adoação. O biológico é importante, mas, para mim, muito mais importante é a construção simbólica que alicerça as relações. Há irmãos que vieram de diferentes barrigas que são mais irmãos que Yaqub e Omar, que vieram do mesmo óvulo. Há pais e mães impedidos biologicamente de ter seus filhos que são mais pais e mais mães do que muitos pais e mães que põem crianças no mundo e se eximem do exercício dos papéis simbólicos de pai e mãe, tão fundamentais para o sujeito, absolutamente estruturantes seja lá qual for a teoria da personalidade que você escolha na psicologia para explicar. Tão importantes que tive de repetir ‘pai’ e ‘mãe’ tantas vezes nesse parágrafo.

Muitas pessoas adotam, mas se deixam escravizar pelo conceito biológico. Escondem da criança adotada sua condição de adotada enquanto podem. É como se a adoação não fosse uma filiação plena, o que ela só passa a ser se “filho” for entendido, repito, como um lugar construído e não como uma condição biológica apenas. Particularmente penso que as pessoas têm direito à sua história. Que os filhos adotivos devam saber de sua condição desde cedo, encontrando-se, claro, as formas adequadas para se apresentar a situação. O filho da barriga, o filho do coração. Deve estar claro que ele/ela jamais será filho biológico de seus pais. Para muitos, essa é uma falta que precisa ser bem elaborada e desconstruída, seu peso nos ombros aliviado pela ênfase no lugar simbólico de filho/filha, construído pelo acolhimento, pelo afeto, pelo amor da convivência. Os desarranjos do esperado sempre irão requerer dos sujeitos rearranjos. Assim é a vida. Para tudo.

Diz o povão: “Pai é quem cria”. E é isso mesmo. Pode coincidir de que quem crie seja o pai biológico ou não. A vida é uma teia de relações. Precisamos cuidar delas. A família é a teia inicial, a teia de sustentação. Tenha ela a configuração que tenha, seja ela feita do mesmo sangue, seja ela feita da mesma alma.

Chegou a Sofia, minha sobrinha. Adotada pela minha irmã e meu cunhado. Chega brilhando depois de uma longa espera, depois de uma gravidez simbólica regada pacientemente com amor. Oferta-se à nossa família para receber muito carinho, muito cheirinho, muita babação. Vem para nossa família e já é filha, sobrinha, neta, sobrinha-neta, irmã, prima. É como disse o Thomaz Nogueira, veio para ocupar o lugar do vovô na Kombi.

Nosso mundo é um mundo plural. Há quem não acredite que exista alguém lá em cima mexendo os pauzinhos, cuidando do script das nossas vidas. Há quem acredite. Para quem acredita, eu incluído, Sofia fez uma boa negociação por lá e escolheu vir para um colo especial, de uma família bonita, onde certamente será muito feliz. Falei, divaguei e filosofei. Mas, no fundo, era dessa “Escolha de Sofia” que eu queria falar. Ela ainda caprichou na escolha: fechou ter vindo ao mundo no dia do aniversário da minha irmã, a fofura.

Bem-vindo ao seu novo mundo, Sofia. Que a felicidade seja a melhor hóspede, sua e de seus pais, para sempre. É amor, de todas as cores e sabores, que nós desejamos para vocês. Amém.

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Cacos da vida

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Cacos

Final do ano é tempo de balanço. Estamos nós a pesar as coisas para lá e para cá para checar se na balança da vida o ano foi mais para lembrar ou mais para esquecer. O conjunto das boas coisas que vieram é posto lado a lado com o conjunto das coisas que gostaríamos de esquecer. Aí vem o veredito: terminamos o ano felizes, soltando os fogos de artifícios da vida junto com os da virada, ou terminamos o ano tristes, desejando ardentemente que o que chega chegue logo e traga com ele os ventos haraganos.

Se você está feliz, leitor querido, que bom! Que essa felicidade se multiplique no ano vindouro. Mas eu queria falar mesmo com você, que anda triste. Foi para você que eu escrevi este texto.

Você sabe por que a gente fica triste? Porque a gente começa a viver uma vida que, de alguma forma, começa a ficar cheia de coisas que carecem de sentido. A vida tem de ter sentido. As minhas leituras na psicologia têm me ajudado a compreender isso. Deixa eu compartilhar um pouco do que já aprendi.

As tristezas são tributárias ao tempo. Na época de Freud, as neuroses eram causadas por questões de sexualidade, bastante reprimida na Europa pós-vitoriana. Um outro psicanalista, Alfred Adler, que trabalhou com Freud, achava que o pai da psicanálise superestimava a questão sexual. Aí ele propôs uma teoria dizendo que o meio social e a preocupação contínua do indivíduo em alcançar objetivos preestabelecidos eram os determinantes do comportamento humano. Isso incluía a sede de poder e a notoriedade. Quando essa busca falhava, eram gerados complexos de inferioridade, transformando a incapacidade numa dinâmica patológica, numa tristeza. A neurose não era mais por causa do sexo reprimido, mas por causa da inferioridade de uma expectativa social frustrada.

O tempo foi passando, o mundo foi mudando. Para enfrentar as demandas do mundo contemporâneo, a pessoa precisa se ancorar em algo. Até um tempo atrás, esse algo costumava ser a tradição. Se não soubéssemos o que fazer, bastava olhar para o que a tradição determinava para nós, nos encaixarmos nesse sistema como uma engrenagem e seguir a vida até morrer. A vida normalizada também gerava neuroses, mas o encaixe social e o conforto sobre o que fazer aliviavam os conflitos. E o mundo mudou de novo.

Vivemos em uma época pós-moderna em que as tradições têm se esfarelado. Antes os homens trabalhavam fora, as mulheres cuidavam da cria e tudo que fugia ao script não podia vir à luz. Hoje todas as possibilidades caminham na praça em plena luz do sol. Tudo saiu do armário e as possibilidades ganharam vida plena. Mulheres conquistaram seu espaço, a sexualidade explodiu para todos os lados, aquela tradição confortadora virou apenas uma dentre centenas de outras possibilidades vivas. O que nos resta fazer, então, sem a tradição para nos agasalhar e nos dar conforto?

Logicamente, nos restam alguns caminhos. Ou fazemos o que os outros querem que nós façamos – e aí eu caímos num conformismo – ou fazemos o que os outros nos mandam fazer – aí caímos num totalitarismo. Seja um ou outro, vamos acabar fazendo aquilo que não nos interessa, vivendo uma vida que não é nossa, e isso vai esvair o sentido do que fazemos, levando à tristeza e ao adoecimento psíquico. Resta, no entanto, um terceiro caminho, que me parece o mais interessante: fazermos o que queremos e, ao fazer o que queremos, preencher a vida de sentido.

“Ain, mas nem sempre dá para fazer o que a gente quer!” Verdade, nem sempre. Mas o “nem sempre” tem de virar um “quase sempre”. Quase sempre temos de fazer o que nos causa alegria, prazer, paz. O resto inevitável deve ser preenchido com a chatice inerente à vida, com os sapos engolidos no trabalho, com a aula porre daquele professor medíocre na faculdade que somos obrigado a assistir, com uma ou outra situação que temos de encarar e que, de fato, foge da nossa escolha. Resumindo: se não houver mais alegria e prazer do que tristeza e desprazer, a vida está errada, parceiro. Aí é preciso reagir e sair do conformismo ou do totalitarismo. Senão nós vamos adoecer, vamos ficar tristes, infelizes, deprimidos. vamos viver sem sentido.

Qual é o sentido? É essa a pergunta que temos de nos fazer todos os dias. Qual é o sentido de continuar em uma relação afetiva que nos machuca, que nos oprime, que não nos dá alegria? Qual é o sentido de continuar trabalhando em um lugar que nos adoece só de pensar, quando acordamos, que temos de ir para lá? Qual é o sentido de insistir em coisas que acabaram e que, mesmo que voltassem, não seriam a mesma coisa? Qual é o sentido de preencher nosso tempo atrapalhando a vida dos outros em vez de cuidar com carinho da nossa própria, rota e maltrapilha psiquicamente? Qual é o sentido de movermos mundo e fundos para ter o melhor carro, o iPhone mais fuderoso, a festa mais cara de aniversário para o nosso filho só para ganhar o like da sociedade que valoriza a aparência? Black Mirror, temporada 3, episódio 1: “Queda Livre”. Vá lá assistir e depois a gente conversa.

Vida sem sentido bom é vida triste, mambembe. Você que está terminado o ano triste e que me leu até aqui: qual é o sentido de continuar alimentando essa tristeza ou essa situação que lhe causa a dor? Mova-se, mexa-se, não dê moral para a melancolia. Feche ciclos que se arrastam. Corte relações com quem faz mal. Se não der conta sozinho, procure um psicólogo para ajudar a virar a mesa, a virar o jogo, a virar do avesso. Porque a vocação do ser humano é a felicidade. De cada um. Porque cada um é único, com sua história, suas glórias, seus segredos, suas batalhas perdidas. Com a dor e com a delícia de ser quem se é. Faça a sua história valer a pena. É preciso se mexer e se movimentar. A vida se ajeita quando a poeira do movimento baixa. E segue porque tem de seguir. Se uma parte de nós caiu e quebrou, é preciso juntar os cacos para ir adiante.

Na década de 40, a cidade de São Paulo tinha duas indústrias de cerâmicas. As peças que quebravam eram jogadas fora. Um operário de uma delas, sem dinheiro para construir sua casa, pediu para ficar com os pedaços das cerâmicas quebradas. A fábrica consentiu. Ele então fez o pátio da sua casa com os cacos. Mas como não tinha sempre cacos da mesma cor, misturava uns amarelos e pretos aos mais comuns, vermelhos. Logo, a moda se espalhou e pátios feitos de cacos de cerâmica viraram a coqueluche da classe média paulistana, em uma época em que a coqueluche ainda era uma doença endêmica e a expressão faz mais sentido. Muitas casas em Sampa até hoje possuem pátios lindos feitos de cacos coloridos.

A vida feliz é um pátio bonito feito com nossos cacos quebrados. De todas as cores. Na sua maioria composto dos vermelhos felizes, mesmo que pontuado aqui e ali de alguns cacos de outras cores e outros tons. A vida é feita múltiplas cores. O importante é a arte que se tece e o resultado final dos cacos juntados: a felicidade. Que seu balanço lhe traga os ventos haraganos ao rosto. Seja feliz, leitor. Seja feliz, leitora. É o desejo sincero de alguém que juntou muitos cacos nesse 2016 e que tem fé na vida, fé no homem e fé no que virá em 2017. Faz sentido?

O selo de Tutankamon

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The unbroken seal on King Tut's tomb big
Em 1922, o arqueólogo Howard Carter descobriu a tumba do faraó Tutankamon. Na entrada da câmera que dava acesso à tumba, Carter encontrou uma tranca, uma espécie de cadeado fechando a porta. Ela era feita de corda e possuía um delicado selo de barro com a figura de Anubis, deus dos mortos e moribundos. A corda esteve lá por 3.245 anos. Depois de fotografá-la com o cuidado dos arqueólogos, Carter abriu a tranca e se deparou com um dos mais impressionantes achados arqueológicos de todos os tempos.
Fico imaginando a agonia dos arqueólogos: a angústia entre preservar e ir adiante. Deixar intocado algo que é muito caro ou romper o selo – caminho sem volta – e acessar o inacessível guardado? É uma pergunta boa para pensar as nossas angústias.
Discursivamente, a angústia é a vontade de estar em dois lugares e não poder decidir por nenhum porque ambos são importantes, mas são mutuamente excludentes. Será que deixamos as coisas como estão em nossa vida ou encaramos a quebra de nosso selo de Tutakamon?
Deixar como está, sem mexer no que precisa ser mexido e vir à luz, tem a vantagem de nos manter na zona do conforto do conhecido. A vida segue, mas sem mudanças estruturais, guardadas na câmara de nossa história. A tranquilidade aparente só é quebrada quando lembramos – ou somos lembrados – de que existe umas coisas a serem olhadas atrás da porta.
Por outro lado, quebrar o nosso selo é um ato que clama coragem. Primeiro, é o movimento para o (des)conhecido. O que vamos encontrar lá? Vamos dar conta? Se foi guardado, não é para ficar lá, intocável? Segundo, destruir o selo é perturbar o sono dos mortos, cujo corpos embalsamados resistem ao tempo em nossos sarcófagos inconscientes. Anubis, que guarda nosso inconsciente, zela para que o ego permaneça fora de seus domínios. Por fim, mexer no que está guardado há tempos dói. A história para fazer sentido não pode ficar parada no tempo. Ela precisa ser trazida para o presente para ranger os seus sentidos. Isso é deliciosamente libertador. Para seguir adiante é necessário cortar os grilhões simbólicos que nos mantêm acorrentados a questões mal resolvidas, jogadas em tumbas, cheia de selos e cordas.
Fazer arqueologia de nós mesmos requer vontade. Ver tudo aquilo que não demos conta de processar, de dar sentido, se oferecendo de novo aos nossos olhos – ou aos olhos de um analista-arqueólogo – em plena luz e sob um holofote é desafiador. Movimentos aparentemente fáceis, cortar a corta e quebrar o selo de barro são, por vezes, dolorosos demais para o sujeito. Às vezes escorre sangue. Daí que para muitos é mais fácil dizer: deixa como está, mexe nisso não. Afinal, se entramos na tumba, podemos sofrer a maldição do faraó. Dizem que Howard Carter encontrou na antecâmara um óstraco de argila com uma inscrição dizendo: “A morte vai atacar com seu tridente aqueles que perturbarem o repouso do faraó”. Racionalizamos e empurramos com a barriga o encontro necessário. Razões não nos faltam.
No fundo, no fundo, o que nos (dês)equilibra como seres humanos está mesmo guardado dos outros e de nós a sete selos de Tutakamon. A esse tesouro só se chega quebrando algumas coisas. É o preço do remendo. Topa?

 

O leão que caçamos

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O dentista americano Walter J. Palmer matou um leão na África, mais especificamente no Zimbabwe’s Hwange National Park, no Zimbabwe. Acontece que o leão era Cecil, uma espécie de símbolo nacional do país, e fazia parte de um projeto de pesquisa da Universidade de Oxford. Ele usava um GPS para monitoramento e foi atraído para fora da reserva onde vivia para ser morto com um arco e flecha. Detalhe importante. Depois de morto, teve sua cabeça cortada como um troféu. Essa história está rodando a internet e você deve conhecê-la, a não ser que tenha passado essa última semana em Plutão ou na Terra 2.0.

Fiquei me perguntando o que leva alguém a matar um animal por esporte. Antigamente, o homem matava animais em autodefesa ou por fome. É claro que o compele caçadores esportivos hoje nada tem a ver com o que movia caçadores da era paleolítica. Hoje, caçar por esporte é uma maneira socialmente aceitável – ok, cada vez menos – para justificar o prazer de matar por matar. Isso acontece no mundo o tempo todo e dessa vez só deu treta porque o leão era conhecido. Se fosse um leão da periferia, negro, pobre e do morro, talvez fosse mais um bicho na estatística.

O que o liongate me faz pensar, na verdade, é nos leões que nós caçamos e queremos matar para equilibrar nossas faltas. É uma metáfora, claro. O único bicho que mato é barata porque senão minha mulher não consegue dormir se souber que ela escapou. Mas, sim, os nossos leões.

A vida precisa de equilíbrio psíquico. Se sobra exagero de um lado da balança é porque há uma falta que pesa no outro prato. Muito silêncio ou muito barulho sobre algo, dizia Freud, é sinal de que esse algo precisa ser ouvido. Caçar, matar um animal, sentir o prazer de tirar a vida de um bicho desnecessariamente é claramente uma compensação narcisística por alguma falta. Imagine alguém que deliberadamente mata um cachorro na rua. É lógico que isso tem o peso de algum desequilíbrio que precisa dessa overdose compensatória de gozo. Não. Isso não é normal. Se a gente pensar no processo psicodinâmico de um sujeito em paz consigo definitivamente há alguma coisa aí. Só há causa daquilo que falha.

No caso de Walter Palmer, sua forma de compensar a falta – sabe-se lá qual – é matar por esporte. Há compensações menos nocivas e outras mais, tanto para o sujeito quanto para quem o circunda. No caso de muita gente, a compensação é um cair de cabeça na religiosidade ou espiritualidade. Outros vão para drogas, álcool, sexo compulsivo. Uns compram um carrão. Tem gente que se entope de chocolate ou de sorvete. Tem gente que para de comer ou vomita o que come. Pessoas limpam casas compulsivamente para dar conta de sujeiras psíquicas. Alguns exercitam a pedofilia, o sexismo, a violência física contra si ou contra os outros. Un outros destilam ódio gratuito nas redes sociais contra a Dilma ou o Lula. Tem gente que se mete de corpo e alma em campanhas sociais, ONGs, coletivos. Tem umas pessoas que viram the great outdoors e vão mochilar pelo mundo ad eternum, postando suas fotos de braços abertos na montanha para o mundo dar like. Tem gente que escreve. Há todos os tipos de leões para matar.

Que a gente precisa de equilíbrio psíquico não é lá uma grande novidade. A questão é que o desequilíbrio compensador sempre pega interna e externamente. Porque as compensações, quando não trabalhadas na sua origem, são falsas soluções. É mais ou menos como a febre. O sujeito sente febre e equilibra a temperatura do corpo com um antitérmico. Mas a febre, um desequilíbrio, precisa ser escutada. Ela está dizendo algo. Não basta combatê-la num falso equilíbrio. A febre é um desequilíbrio aliado. Da mesma forma, os excessos ou silenciamento eloquentes precisam ser ouvidos. Não é suficiente dar a dipirona das coisas para equilibrar a falta que faz o desequilíbrio. Tem de saber o que nos causa o mal-estar, pensado aqui como conceito psicanalítico.

O fato é que matar leões, até um por dia, pode não ser uma boa metáfora. Em vez de buscar a adrenalina fora talvez seja necessário buscar a endorfina dentro. A ideia não é aniquilar as questões que desequilibram – isso, penso, talvez seja um sonho impossível e algo até ruim porque eles são necessários –, mas aprender a conviver com elas sem tanto sofrimento e sem a necessidade de puxar o pino da bomba atômica para matar o mosquito. Só um detalhe: de dentro, a gente quase nunca enxerga. Daí a necessidade de uma boa terapia (aqui eu já fazendo propaganda para quando eu me formar, claro).

Clemént Rosset tem um livrinho que eu adoro: “o Real e seu duplo”. Ele diz em determina altura do texto: “Nada mais frágil do que a faculdade humana de admitir a realidade, de aceitar sem reservas a impiedosa prerrogativa do real. Essa faculdade falha tão frequentemente que parece razoável imaginar que ela não implica o reconhecimento de um direito imprescindível – o do real a ser percebido –, mas representa antes uma espécie de tolerância, condicional e provisória. O real geralmente só é admitido sobre certas condições e apenas até um certo ponto: se ele abusa e se mostra desagradável, a tolerância é suspensa”. A recusa do Real, claro, pode tomar formas muito variadas. O Real, quando teima em ser percebido, sempre poderá se mostrar em outro lugar, como numa dose a mais de álcool ou numa cabeça de um leão africano morto com um arco-e-flecha.

Admitir que há uma falta que nos constitui sempre e que precisamos conviver com ela é doloroso. Às vezes rola sangue. Preferimos um mundinho arrumado, ainda que falsamente arrumado. Mas admitir nossas faltas constituintes é fundamental para manter a vida acontecendo de forma suportável. Porque senão a gente sai que nem um louco matando leões. E pior, com arco-e-flecha para o sofrimento do bicho ser maior. Metaforize aí.

O sentido da vida deve ser buscado não na harmonia, mas na dissonância. Se há mal-estar, que bom! Hora de buscar compreender. Qual é a cabeça de leão que você anda atrás para pendurar como um troféu na parede de seu quarto da vida, leitor querido? Olhe para dentro. Porque nada jamais é descoberto. Tudo é apenas reencontrado.

O forninho do Walter Palmer caiu. Segura o seu aí.

A miss e nós

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Saiu o resultado. O cumprimento elegante de praxe à vencedora dado pela segunda colocada. Mas na hora da coroação da miss, a vice-miss perdeu o rebolado, atacou a ganhadora e lhe arrancou a coroa, atirando longe. E saiu triunfante, de punho erguido, sob vaias e aplausos da plateia e das outras candidatas a miss.

Acordei com essa história bombando nas redes. Ao G1, a vice-miss Sheislane Hayalla disse que não aceitou o resultado. Que aquilo era um protesto contra a grana. “Simplesmente, em Manaus, é o dinheiro que manda e eu estou mostrando para o povo amazonense que o dinheiro não manda aqui. Ela não mereceu!”, disse ela, racionalizando seu gesto, um gesto que, como todo gesto, convoca as interpretações. Apesar do caráter inusitado e até pateticamente engraçado do fato, penso que o que Sheislane fez exemplifica e muito o tempo em que vivemos.

Na sociedade da visibilidade, aparecer faz parte da necessidade básica de sobrevivência social. É preciso ocupar espaços. Inconscientemente, brigamos por espaço no trabalho, nas relações grupais, nas relações afetivas. Só que as regras sociais nos impedem de arrancar as coroas alheias quando temos vontade. Pode-se argumentar que sempre foi assim. Sim, sempre foi assim. O que tem mudado radicalmente é o conceito de espaço, que hoje está inegavelmente atrelado à visibilidade mais do que ao espaço físico, como já foi na época das conquistas territoriais. A questão é simbólica. O poder, palavra-chave para compreender meu argumento, passa necessariamente pela construção de um capital imagético que se configura e se sustenta pela circulação nas redes via capital digital. Resumindo: tem de aparecer e tem de circular. Só assim a gente consegue ser hoje na sociedade da informação. Se você digitar seu nome no Google e ele não voltar nada, pode esquecer: você não existe.

Estamos vivendo uma crescente instagramação da vida. No mundo da imagem, da evasão da privacidade, viver o momento vira secundário. O registro do momento é potencialmente mais valioso para a construção do capital imagético e digital. Vide a moça que sofreu o acidente e, em vez de se preocupar em buscar socorro em primeiro lugar, imediatamente postou nas redes a foto de seu rosto todo arrebentado. Fez uma selfie de sua cara estropiada. Há algo mais sintomático do momento em que vivemos?

Mas voltando às misses. O próprio concurso entra em um jogo de imagens arquetípicas. Há a princesa, que ganha a cora, e há a plebeia, seu contrário. A miss, que vai aumentar seu capital imagético, e a vice-miss, que não vai ser nada, num país em que vice e nada são a mesma coisa. As coisas não deram certo para Sheislane. Se tivessem dado certamente a sua crítica ao poder da grana como determinante nessas e em outras questões não teria aparecido. Só veio porque as coisas desandaram. Aí ela, que perdeu o papel de princesa, assumiu o papel de Fora-da-lei, que rompe com as regras que, como sabem os foras-da-lei, foram feita para ser quebradas. O arquétipo do Fora-da-lei é conhecido também como Revolucionário. Esse arquétipo libera as vontades reprimidas da sociedade, daí tanta gente vibrando, gozando com o pau de Sheislane. Quem de nós não queria, como ela, chutar o pau da barraca ou dar com o pau de selfie nas injustiças que conhecemos? A identificação nos faz feliz com seu gesto. Quando a consciência do Fora-da-lei está presente, as pessoas têm uma percepção mais aguda dos limites que a civilização impõe à expressão humana.

Aí a gente se pergunta: será que ela não pensou nas consequências disso? Arrisco a dizer que sim e que não. Que não porque agiu por impulso. Que sim porque, de certa forma, exatamente porque foi por impulso, deu vazão ao inconsciente e à sua avaliação, também determinada pelo discurso da ideologia inconsciente, de que o barraco lhe capitalizaria imageticamente mais do quer ser miss. Não deu outra. Sheislane deve estar adorando os flashes de ser notícia nacional enquanto Carolina Toledo – who? – ficou com essa faixa chinfrim.

Enfim, na guerra da vida, estamos lutando a Batalha da Imagem. Eu tenho de ter mais experiências bacanas, em lugares bacanas, com os melhores vinhos, nas melhores praias, comendo as melhores comidas. Meus filhos têm de ter as melhores festas, o melhor celular, as melhores colocações no ranking escolar. Se alguém posta uma foto de um hotel em Katmandu, tenho de sequestrar a singularidade de sua experiência e postar nos comentários uma minha lá também. Não nos enganemos. Praticamente nada vale se não se tiver um câmera por perto para mostrar para outros, para postar no Instagram, compartilhando ao mesmo tempo no Twitter, Face, Tumblr, Pinterest, Vine, Flickr…

Como toda ação traz uma reação, já vivemos a contracultura da imagem. Gente que resiste ao discurso da visibilidade não tendo perfis em redes, andando com celular peba que nem foto tira, se desligando, no que pode, da ditadura da imagem. Quem não consegue se desligar, evita pôr sua foto no perfil. Usa cachorro, borboleta ou qualquer outra coisa no lugar de sua foto como forma de resistência. Estou nas redes, sim, pero no mucho. Há gente, no entanto, que vira a miss e parte para a briga contra a sociedade da informação, arrancando-lhe a coroa, valorizando o encontro olho no olho e a conversa sem registro a não ser na memória dos interlocutores. E que sai triunfante com seu ato político. No entanto, sem saber – e sem querer – essas pessoas entram de novo no jogo arquetípico: para a sociedade da imagem não passam de meros bobos-da-corte. “Se eu não puder dançar, não quero tomar parte da sua revolução”, diz o bobo. Pergunta dos integrados: “como pode, gente, alguém resistir às redes sociais? Durma segurando um forninho desses”.

Jung à parte, onde é que você se localiza nesse jogo todo, leitor? Faz uma selfie com a coroa, arranca a coroa e joga longe ou nem sabe o que aconteceu porque evita as redes? Ou tudo junto e misturado?

Fato é que é assim. Nem ruim nem bom. É, ponto. Ruim ou bom já é dar valor a partir de onde nos localizamos. É isso que eu tinha para dizer. Deixa agora eu postar logo esse texto no meu blog do WordPress e na minha página no Face para aumentar meu capital digital. Beijo, Leila Lopes!

A falta que nos faz

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O sonho, de Salvador Dali.

Manoel de Barros, um dos meus poetas preferidos, tem uma frase que adoro: “Tem mais presença em mim aquilo que me falta”. O poeta diz de forma fácil o que demorei algum tempo pra compreender teoricamente. Por trabalhar com um determinada corrente de Análise de Discurso, tive de percorrer caminho variados que essa corrente convoca e um desses caminho é o da Psicanálise.

Um dos conceitos em que a Psicanálise se ancora é no conceito de “falta”. A língua, que estrutura o sujeito, separa esse sujeito da natureza, cerceando seus desejos por contingências jurídicas, morais, éticas e de outras ordens que se lhe impõem no momento mesmo em que ele aprende a linguagem. Aprendemos com a língua mais do que sintaxe e morfologia. Esse sujeito, no entanto, resiste à censura do mundo. Seus desejos cerceados criam as faltas, segundo a Psicanálise. Elas vão para o inconsciente e fervilham para, de alguma forma, tentar sair. Por onde saem? Pelas próprias falhas da língua: lapsos, atos falhos e afins. E por comportamentos que lhe dão vazão.

Assim, toda língua falha. Da falha pode surgir o discurso bem-sucedido, que é o desejo reprimido se soltando, um desejo que constitui o sujeito. Virando Descartes de cabeça para baixo, Freud dizia: “Penso onde não sou [na razão]. Logo, sou onde não penso [no inconsciente]. Se compartilharmos das ideias da Psicanálise, então, podemos dizer que a falta nos faz sujeito de linguagem e sujeitos no mundo. É pela falta que nos completamos e na linguagem que ela se faz evidente. É a falta que nos faz.

Ler o mundo discursivamente, sob esse viés, é buscar evidenciar na língua as marcas desse desejo constitutivo do sujeito, do qual nem ele mesmo tem consciência. Comportamentos são práticas e discursos. Portanto, em tudo há uma causa. Umas mais fundantes, outras menos. Umas que se acomodam e umas que incomodam.

Um ódio muito grande em relação à homoafetividade, por exemplo, pode significar uma condenação a um desejo homossexual reprimido por alguma razão. Pode ser a religião dizendo que não dá. Ela diz que não pode, o desejo quer e é reprimido. Aí ele retorna em forma de ódio em relação ao outro que, na verdade, é a transferência do ódio a mim mesmo – nele representado – por eu querer o que me é proibido. “Ah, então quem discorda de gay é gay?” Nem sempre. Freud também dizia que um charuto às vezes é só um charuto. Por isso é preciso fazer análise. Mas pode ser.

A dificuldade de se relacionar afetivamente, de querer namorar, ter uma relação mais séria, de constituir uma família, pode ter origem em alguma falta na infância. A falta da figura paterna – ou sua presença ruim, batendo na mãe ou algo assim – pode levar a pessoa a não querer repetir o risco de ver acontecer com ela o que aconteceu com sua família. A mãe que não deixa o filho casar, por exemplo, porque foi abandonada pelo marido tende a ver na saída do filho de casa o retorno daquele abandono. A falta da figura paterna pode levar o sujeito à adoração de figuras que demonstram um extremo de autoritarismo, em uma forma de preenchimento. “Amo o autoritário porque ele me devolve a autoridade que não tive de meu pai, que me faltou”. O inconsciente dá as cartas.

Uma mãe superprotetora pode querer estar compensando a falta de proteção que lhe fez falta. “Minha mãe não me dava atenção, me abandonou, preferiu meu irmão a mim. Não vou fazer isso com meu filho. Meu filho ninguém abandona, nem por um segundo. Não vou repetir nele a minha falta”. A razão pode dar outras razões, mas o inconsciente pode estar guiando o comportamento.

Veja alguém que esbanja dinheiro, faz questão de fazer a melhor festa das galáxias, de usar as coisas mais caras, ter o último iPhone e um carro de 500 mil. O excesso pode ser sintoma de uma falta de antes – não ter tido recursos financeiros que hoje tem, por exemplo – ou uma falta de hoje: “preencho a vida com isso porque me falta afeto na relação conjugal ou porque, como meu casamento não vai bem, vou punir meu marido gastando muito”. São razões que razão desconhece. Muitas e variadas. Todas vindo de uma falta.

A identificação e preconceito também podem ter causas inconscientes. Muitas pessoas que adoram o ex-presidente Lula o fazem porque veem nele um dos nossos que chegou lá. “Ele sou eu que deu certo”. É a mesma razão, mas com efeito contrário, de quem por ele nutre um ódio irracional – irracional porque foge a razão mesmo, sendo inconsciente. “Odeio o Lula porque ele me lembra um grupo de pessoas de que não gosto, porque ele me lembra que um dia eu já fui igual a ele e odiava sê-lo”. Não adianta perguntar ao sujeito. O inconsciente lhe escapa. As razões da razão serão outras. Tudo processo inconsciente e resguardando o charuto poder ser simplesmente um charuto de novo.

Essa eleição presidencial está cheia de sintomas. Gente que odeia a Dilma porque ela representa o pobre que incomoda de alguma forma. Gente que odeia o Aécio porque ele representa a elite que não se é. Gente que vota com a pesquisa porque, afinal, precisa vencer em algo já que a vida não lhe traz vitórias. Gente que que se sabota porque, por alguma razão, não se vê no direito de ser feliz. Enfim.

Há casos relatados de gente que tem prisão de ventre porque passou necessidade na infância e é avaro até com as fezes. Cleptomaníacos roubam sem necessidade porque acham que não tiveram atenção suficiente na infância e roubam com o desejo inconsciente de ser pegos e ter essa atenção que lhe faltou. Por aí vai a falta fazendo história.

Você pode achar esse papo de Psicanálise um besteira. Muita gente acha. Eu não acho. Por isso, resolvi estudar psicologia. Quanto mais eu leio sobre isso, mais fácil vai ficando entender certos sentidos no mundo e compreender que os comportamentos não são gratuitos. Eles normalmente têm um preço, uma dívida a ser paga. Mas a gente tem de querer olhar o gavetão de nosso inconsciente. É preciso fazer análise e terapia não funciona com o sujeito obrigado. Está a fim?

Faltas. Excessos. Busca de equilíbrio. Diz aí, leitor, qual é a falta que te faz?

Je vous salut, UA (28 anos depois)

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O ano era 1986. Dire Straits arrebentava os alto-falantes do meu fusca branco com o sax de “Your latest trick”, sax que até hoje ainda me treme as carnes. Eu começa o curso de Letras na UA. Era assim que a gente chamava a UFAM naqueles tempos coloridos do new wave e dos cabelos mullets. A UFAM veio um pouco depois. UA ou UFAM, a universidade tem o seu papel.

Fazer faculdade muda a vida da gente. Reclamamos porque, como dizem os veteranos, só há duas alegrias: uma quando entramos e outra quando saímos. Reclamamos das noites mal dormidas e viradas para fazer aquele fichamento do texto chato de Metodologia que a professora jura que é legal, filosofamos com Platão e mito das cavernas, achamos complexo, mas genial Marx e a sacação da mais-valia da aula de Sociologia. E conhecemos gente. Gente que vai seguir com a gente e dividir as angústias, os sorrisos e o salgado na cantina. Eu, por exemplo, conheci a minha primeira esposa na sala de aula. Ficamos batendo papo e rolou numa das ausências frequentes do professor de Psicologia. Aliás, isso é outra coisa que preciso pontuar: os professores e as disciplinas.

Em qualquer curso na UA, na UNICAMP ou em Harvard, há disciplinas boas e há disciplinas ruins. Há professores cujas aulas a gente não quer perder nem em dia de chuva torrencial e há outros para cujas aulas não ir se justifica por qualquer nuvem pesada no céu, um dia bonito de sol ou até mesmo um fio de tristeza nos olhos do cachorro. Tudo é motivo. Mas é assim. Logo a gente aprende que das boas aulas temos que sugar tudo e morrer de prazer. Eu e mais uns seis sempre ficávamos depois do horário ouvindo o professor João Bosco Araújo falar de filosofia numa das aulas mais encantadoras que tive oportunidade de assistir. Para as aulas ruins e chatas, resta cumprir tabela e torcer para o professor não atrapalhar. Tirei dez em Psicologia com o professor faltoso que certamente vale muito menos do que o 6,9 de filosofia registrado no meu histórico escolar, histórico esse resgatado com carinho meio amarelado de uma pasta de arquivo. A aula boa, aproveitemos. A aula ruim é fazer e seguir em frente do jeito que der. E por que escolhi falar sobre isso?

Vinte e oito anos depois, eu sou calouro de novo. Comecei meu curso de Psicologia. E tudo isso veio na memória como um filme bom. Lá estou eu de novo, caderno na mão, anotando nome de osso e estudando de madrugada as partes da escápula. Lá estou eu de novo, conhecendo pessoas legais, cheias de juventude – que um dia eu tive -, me fazendo querer que o fim de semana passe logo para a gente se encontrar de novo. O brilho nos olhos dessa moçada me energiza de uma forma bacana. Confesso que tenho gostado mais de ser aluno do que de ser professor. Pode ser mérito da novidade unida ao decurso de prazo mesmo. Afinal são 23 anos dando aulas na UFAM. Eu juro que eu tento dar uma aula bacana. Jamais assustaria os alunos batendo a cabeça do fêmur na mesa de ferro. Pausa. Risos. Volta. Mas por mais que eu tente dar uma aula agradável, penso que vez por outra meus alunos já me sentem meio cansado. Alguns devem certamente me colocar na lista das aulas chatas, preferindo ficar na cantina a me ouvir falar. Faz parte. Perceber-se cansado é um toque da vida para buscar mudanças. Talvez ser aluno de psicologia seja uma maneira de buscar a compreensão desses toques de forma fundamentada. Quem sabe?

Fazer outro curso de graduação me rejuvenesce, de certa forma. Colegas e amigos perguntam: “Por que diabos tu ainda vais estudar?”, “Mas tu já não és doutor? Pra quê?” Talvez uma pergunta responda a outra. Por ser doutor é que eu sei que não posso parar de estudar. Estudar o que eu não sei me exercita a mente e funciona como uma fonte de juventude para meus ânimos. O rádio é lateral. A Ulna é medial, Ci Thaline. O nó que esses 206 ossos estão dando na minha cabeça me devolve a humildade socrática: só sei que nada sei. Mas ando com o Atlas do Sobotta debaixo do braço para saber. É meu desafio. Acrômio, trocanteres, fossas e tubérculos. A linguagem anda enciumada de meus novos amiguinhos. Mas eu saúdo o novo sempre.

O título desse texto é o mesmo de um texto que escrevi em 1986, quando entrei na UA como calouro de Letras. Estava justamente a saudar a universidade. À época, o filme “Je vous salut, Marie!” de Godard havia sido censurado no Brasil. Eu saudava a UA, empolgado e desejoso de que aqueles tempos fossem tempos grandiosos na formação de um moleque de 17 anos. Queria aprender o mundo sem censuras, daí a provocação do título. Retomo o título 28 anos depois. Vivemos na democracia, tempos de liberdade de expressão, tempos de liberdade política, tempos outros, enfim. As roupas não têm mais aquelas cores berrantes, K&K e Company não são mais marcas da moda, eu já casei três vezes e Dire Straits só toca na sessão naftalina das rádios. Mas nesse lapso de vida de lá até aqui, aprendi a respeitar o conhecimento, a reverenciar a dúvida e a duvidar das certezas. Por isso resolvi começar de novo. Je vous salut, UFAM. Onde foi que deixei o meu CD azul do Dire?… SF