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Flores no asfalto

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Foi Gandhi que disse: “Ninguém pode me magoar sem minha permissão”. Essa é uma verdade que aprendemos com a vida. A partir de determinada fase, começa-se a alegar a idade para justificar fazer certas coisas e deixar de fazer outras sem culpa. É uma espécie de salvo-conduto dado aos mais velhos. Um tipo de compensação pela perda do viço juvenil. O tempo é, de fato, um bom professor. Nossas rugas estão sempre a postos para lembrar que por determinado caminho não dá.

Tenho pensado muito nos ensinamentos do tempo. Uns fios brancos resolveram aparecer na minha cabeça aos 45 anos. Eles não vieram à toa, certamente. Penso que desses ensinamentos, o maior deles, que tem mudado minha vida de forma qualitativa, é o exercício da serenidade. Não posso mudar o mundo e suas opiniões. São bilhões de pessoas com zilhões de opiniões. Com as tecnologias de informação e suas redes sociais então, essas opiniões ganham o mundo com uma fertilidade nordestina. Assim, é imensa a possibilidade de você ler algo que lhe ofenda, não lhe agrade, lhe incomode, lhe dê náuseas. Dá vontade de responder a tudo e a todos, com veemência e contundência. É quando entra a serenidade lembrando que as pessoas têm o direito de ter suas opiniões e de manifestá-las. Verdade. Eu ainda prefiro um mundo em que temos o trabalho de superar as diferenças do que um em que optamos pelo caminho mais fácil de suprimir o que não nos é agradável, seja essa supressão pela força física ou simbólica. Aqui retomo Gandhi.

Se eu não posso mudar as opiniões que me machucam ou me desconfortam, eu posso mudar o fato de permitir que elas me machuquem e me atinjam. É esse o meu campo de ação.  Por conta da multiplicação de opiniões, que são bem-vindas porque a diversidade enriquece, somos bombardeados com todo tipo de informação. São informações úteis, inúteis, alegres, tristes, ácidas, simpáticas, doces, amargas, sinceras, chatas. Eu, no entanto, me surpreendo com as pessoas que fazem questão de focar na parte ruim dos adjetivos. Fui checar.

A título de experiência, fiz um acompanhamento dos posts do Facebook da minha linha do tempo. Nada científico. Mas constatei assustado que muita gente resmunga de tudo, fazendo da acidez e da amargura seu alimento diário. Você pode dizer: “Ain, mas é você que escolhe seus amigos no Face”. Isso. É justamente aqui que eu queria chegar. Qualquer pessoa tem o direito de dizer e pensar o que bem entender. Longe de mim proibi-la de falar ou de se manifestar. Até porque não tenho nem direito nem poder sobre isso. Mas, aí sim, eu tenho direito e tenho o poder de blindar minha mente dessa gente indesejável, ruim, escrota, que só vai me fazer mal. A serenidade a que me referi tem me ajudado a escolher melhor em que papo entrar e com quem interagir. A briga nem sempre é boa e estou aprendendo a só brigar a boa briga. Por conta disso, estou desamigando das redes digitais e da vida gente chata, ranzinza, vampira, daquelas pessoas que chegam e trazem um bafo quente que nos sufoca. Estou bloqueando das minhas relações os incômodos, os sem-limite, os sem-noção, os desagradáveis e os deselegantes, estes em homenagem a Sandra Annenberg. OK, leitor amigo. Nem todo mundo é assim o tempo todo. Os que são chatos part-time eu não desamigo nem bloqueio, mas ignoro solenemente provocações, comentários e posts que vão me puxar para o olho de um furação de tristeza, de desamor, de terra arrasada, de ranzinzice sem fim.

Fato é que cansei de ficar num cabo-de-guerra sobre um assunto em que o objetivo da pessoa não é discutir o assunto, mas sim brincar de cabo-de-guerra. Demorei para sacar isso, mas saquei. O tempo me deu o toque. Nada como a pátina da idade e estou adorando meus cabelos grisalhos.

Eu não quero que os chatos deixem de ser chatos. Por favor, que os chatos me entendam. Chatos são necessários para o equilíbrio do ecossistema. Quer ser chato? Vá fundo! Todo chato deve ter suas motivações, conscientes ou não. A chatice é seu escape psíquico. O que estou advogando é que eu não preciso conviver com essa gente, esses gafanhotos da paz alheia. Já há algum tempo, decidi me blindar dessa amargura toda, desse negativismo atávico, dessas reclamações recorrentes das mesmas bocas e mesmas teclas. Essas pessoas proliferam que nem Gremlins porque no mundo de hoje é mais fácil ser chato do que ser legal. Deve ser porque esquecer a dor é mais difícil do que lembrar a paz. A felicidade não deixa cicatrizes, como a tristeza. Há gente que adora lamber as feridas e não as deixar sarar. Escolhas.

Andando hoje em frente do meu condomínio, vi uma flor que ousou nascer no asfalto. Fiquei pensando por um minuto na ousadia. E na bela metáfora. O mundo é asfalto. Flores ousam brotar aqui e ali, desafiando o que se impõe como prevalente. Para onde olhar? Há pessoas que só veem os buracos e as lombadas do asfalto. Os seus olhos são cegos para o resto, para o desvio, para a deriva que se oferece. Saramago, sobre a cegueira: “É que vocês não sabem, não o podem saber, o que é ter olhos num mundo de cegos”. Estou na fase de buscar flores e de ignorar solenemente o asfalto quente, áspero e esburacado. Ando cansado de rolar e ralar no asfalto da vida. Pode ser coisa da idade? Pode ser. Topo dividir sorrisos e gozos. Amarguras e choramingos, eu passo. Sem culpa. Estou ficando velho. Eu posso. Tenho o salvo-conduto. Porque ninguém pode me magoar sem minha permissão. Nem calar a flor que nasce teimosa no asfalto quente.

 

PS: Durante a escrita deste texto, recebi a triste notícia de que um tio da minha mulher morreu. A vida é tão efêmera. E tanta gente perdendo tempo com desamor e futrica.

O jantar a dois

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Jane, no fundo da foto...A vida de um casal precisa de momentos leves para balancear as durezas do cotidiano. Eu tento não perder esse encanto. Por isso decidimos aproveitar que as meninas estavam na casa de uma amiga e saímos para jantar, eu a dona Bia.

A ideia era comer bem, conversar sobre a vida, sobre nós, sobre as meninas, sobre o futuro, ela tomando um bom vinho e eu uma coca-cola bem gelada. Eu estava dirigindo, claro. As pessoas passam muito tempo de cabeça baixa, olhando o celular e esquecem às vezes de olhar nos olhos. Era essa ideia. Olharmos nos olhos um pouco mais do que o dia a dia permite. Mas não deu muito certo.

Os planos de ter uma conversa tranquila foram abortados pela Jane. A Jane estava na mesa ao lado com mais três pessoas mudas. Eu acho que eram mudas. Ou, coitadas, talvez só não achassem mesmo um vácuo para entrar na conversa já que só ela falava. E alto. Sou manauara, mas os manauaras têm uma característica interessante de apagar a linha entre o público e o privado. Jane falava como se estivesse no quintal da casa dela, comendo churrasco e ouvindo Naldo.

Quando sentamos, ela falava sobre a reforma na casa. Ela havia contratado o pedreiro Sildomar, mas ele, pelo que ouvimos, estava enrolando. Dizia Dona Jane que pedreiro bom mesmo era o Cássio, que fazia rápido e não mentia para ela. Cumpria prazos. Dizia também que havia ameaçado o Sildomar várias vezes. Caso ele não cumprisse com a palavra, ela chamaria o Cássio que, de tão bom, “lia seus pensamentos” sobre o que ela desejava fazer. Sei não, mas o Cássio me pareceu um Wagner, o motorista de Amor à Vida. Edith, digo, Jane reclamou que obra é um buraco sem fundo, que havia drenado todo o dinheiro dela, atrasando a viagem desse ano para Miami. Sim, Miami, Orlando e dólares foram o segundo assunto da noite.

Jane era praticamente uma guia do Tio Acram. Detalhou aos demais na mesa qual é a melhor época do ano, que carro alugar, em que hotel ficar (“Best West”, no seu inglês peculiar). Falou do câmbio do dólar, da vantagem de levar o Visa Card, das compras baratas nos outlets. Eu, que nunca fui a Miami, me senti contemplado. Não preciso mais ir com tanta informação que recebi entre um spaghetti ao sugo e um rondelli de presunto.

A Bia e eu não falamos nada sobre a gente. Nós, na verdade, repercutíamos as informações da Jane. “Mas será que vale a pena mesmo?”, “E com as meninas, será que o ‘Best West’ é bom?”. “Precisa ver a reforma da cozinha. E aí? Chamamos o Cássio? É, porque o Sildomar está fora de cogitação!”

De repente chega para jantar o médico do meu pai. Senta com a esposa na mesa de trás. Enquanto a Jane falava em que Miami nem precisa falar português, o doutor começava os serviços traçando dois galetinhos no vinho como uma voracidade impressionante, ao ritmo de umas três garfadas por segundo. Ele realmente foi para jantar. Não deu uma palavra com a esposa, mas vez por outra oferecia um garfo com comida a ela, que sempre declinava. Ele só no rodízio. Diferentemente do que faz no consultório, quando atende bem, examina sem pressa, olha nos olhos, ali o doutor mantia a cabeça baixa, extremamente disciplinado, focado eu diria. Eu duvido que um médico cubano coma um rodízio com tanta competência. Quando chegou um penne apimentado, Jane informou que Miami tem hoje uns 400 mil habitantes. A essa altura, a Bia e eu já havíamos desistido da nossa conversa programada. Éramos claramente pautados pelos vizinhos de mesa. “Mas será que o médico e a esposa não conversam em casa? Será que ele sempre come muito assim? Mas e o Cássio? A gente chama ou não? Ficamos no Best Western?”

Para completar a vizinhança, eis que chega um casal e ocupa a mesa ao lado. Uma menina com uma cara de fresca pede o cardápio. Fabrízia, era o nome dela. Eu soube porque ela narrou a história de uma amiga conversando com ela e autocitou seu nome. Mas o namorado a chamava de Zízy. Meigo. Zízy, uma moça bonita, perdeu minha simpatia e ficou feia quando foi grosseira com o garçom: “Afinal, que guaraná é esse que vocês servem aqui? Não tem no cardápio e deveria ter, né?” Se eu fosse o garçom, eu teria trollado: “Tuchaua, Baré, Regente e Real Champagne. Qual a senhora prefere?”. Tenho antipatia instantânea por quem trata mal quem está lhe servindo. É de uma pequeneza horrível.

Pelo menos quinze frangos morreram para que o doutor saciasse a sua vontade de comer coraçãozinho. Pratão cheio, seu queixo não parava. Como come aquele homem! Ele comia os corações como se fossem M&M’s. O dólar deu uma caída, informou a Jane. Eu e a Bia já satisfeitos, ficamos nos olhando. E rimos. A vantagem de se conhecer bem é que se torna desnecessário falar certas coisas. Pedi a conta e paguei. Na hora de ir, ainda deu para ver a Zízy brigando com o Mô por ciúme, a Jane dizendo a seus mudos ouvintes para evitar Little Havana porque tem muito imigrante e o doutor dando uma finalizada numa costelinha. Sabe de uma coisa? Foi um bom jantar a dois. O que seria da vida a dois sem os momentos leves para balancear as durezas do cotidiano?

Amores ímpios

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às 10.33.45 PM“Por favor, reprime as chamas desse amor ímpio”. A frase é de Sêneca, o filósofo. O que seria um amor ímpio? Pela definição de um honesto dicionário, ímpio é tudo que ofende a moral, a justiça, a religião, o estado das coisas. Parêntese.

A linguagem separa o ser humano da natureza. Quando conhecemos a linguagem, deixamos de dar vazão aos instintos porque passamos a ser mediados por valores e conceitos que aprendemos junto com a sintaxe e a morfologia da língua. São valores morais, éticos, religiosos, jurídicos e outros que servem para nos regular as práticas e os comportamentos. Mas os desejos regulados não somem. Os desejos proibidos são reprimidos e jogados no gavetão do inconsciente, onde ficam fervendo, esperando uma chance de se realizar. São pulsões. Pulsam, falando a seu modo em nossa vida. Querem o que queremos e os outros não deixam. Algumas viram amores platônicos e o que se ganha e o que se perde ninguém precisa saber, como diz a música. Mas algumas não se contentam com o platonismo e pagam para ver. Vazam do controle e se permitem. Parêntese.

Ímpios são os amores proibidos. Ímpios são os amores impossíveis. Amores que desafiam as regras, a moral, a ética, a religião, os costumes. Não são menos amores, qualitativamente falando. São proibidos de fora para dentro, pois de dentro para fora anseiam por jorrar, por se lambuzar, por suar, por gozar até o corpo ficar dormente. São desejos de qualquer amor legítimo, embora sejam ilegais, por assim dizer. Quem nunca desejou em uma dessas circunstâncias? Quem nunca se viu entre a irracionalidade do querer que manda se jogar e a razão controladora que diz para sossega o facho.

O amor proibido tem sua mecânica: as hesitações, a sedução, o arrebatamento. Hesita-se enquanto se tem forças, na luta feroz entre o desejo e a razão. Seduz-se ludicamente porque a entrega é clandestina e homeopática. “Apenas amamos aquilo que não possuímos por completo”, diz Proust. Arrebata-se ao nirvana quando a razão joga a toalha, vencida por nocaute ou por pontos. Aí começa.

“Não pode!”, diz a grossa voz da moral. “Como se querem pessoas que estão ligadas pela compromisso social a outras? Como ficam as outras?” Se entrar a razão no meio, a coisa morre. Por isso amores proibidos são irracionais. Exemplo: se uma das duas pessoas é livre e entra na roda-viva, ela acaba entregando sua liberdade em troca de migalhas de tempo, de possibilidades de arranjos, de esquemas, de encontros fugazes. A razão diz que isso não é vida. Mas para ela, que se entrega, está tudo bem. Há para compensar as loucas horas de Guilherme Arantes, com as quais ela vive a sonhar. É nelas que os clandestinos se amam feito dois animais, pois o breve tempo da permanência juntos pode ser o último tempo. Nunca se sabe. O sexo do amor ímpio é sempre o sexo da saideira. O tempo mínimo tem de compensar o desejo máximo. Ah,o submundo do amor clandestino… ruas ermas, estacionamentos de supermercados, motéis em horas insuspeitas, o ritual do apagamento de mensagens, o duplo comportamento numa casualidade de um encontro a três. Além, claro, de uma brutal capacidade de encenação da vida. É possível não ser você mesmo por muito tempo? Não sei…

Na conta do amor proibido, cobra-se o cuidado redobrado para não ter o delito desvendado. Dobram-se os cuidados com os olhos de ressaca que se entregam a uma certa distância, dengosos demais. Dobram-se os cuidados com a leitura pública do que está acontecendo. O público jamais poderá saber ou impiedoso escreverá a letra escarlate no peito dos ímpios. Esse é um amor ímpio e o seu preço é ser um amor só dos dois, sem registro, sem história escrita, sem história alguma, o que é uma tristeza medonha em se tratando de amor. Deletar é sempre a ordem. Da lixeira inclusive. Amores precisam de história.

Por isso, um dia acontece. A razão chega e quer por ordem na casa. Amores proibidos sempre estancam mais cedo ou mais tarde na sua encruzilhada: e agora? Seu ponto de interrogação é a frase do Gonzaguinha dita por um dos dois: “Eu preciso é ter consciência do que eu represento nesse exato momento”. Porque há de se querer mais espaço, há de se querer mais tempo, há de se querer mais atenção, há de se querer prioridade. A vida reclama uma história. Ser figurante sem nome na trama da vida é muito pouco para quem sonhou ser protagonista de uma história de amor blockbuster.

E agora? A lógica aponta dois caminhos: zerar tudo – com todas as dores envolvidas – e buscar o protagonismo pleno ou continuar num amor sem passado e sem futuro, com breves e tórridos presentes – e esquecer desse papo de história. Não há receitas. A vida de cada um vem e não pede licença. Toda maneira de amor vale a pena, mas amar passa necessariamente por ser feliz. Se a infelicidade visita, há algo para rever, há rotas a alterar. Há quem, como Sêneca, implore para que se mate as chamas do amor ímpio no nascedouro: quem brinca com fogo, diz a sabedoria popular, pode se queimar. Mas há quem goste do calor dessas chamas ímpias. Pois então que elas sejam eternas enquanto durem. É uma questão de escolha. Como tudo na vida. Poetas ou filósofos: qual a sua?

Parceiro das Delícias

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Parceiro das DelíciasAmor/Vem me tirar a sede/Amor/Vem me tirar da rede/Amor/Nem que seja das intrigas/Vem me tirar/Vem me botar na vida/Amor/Vem me tirar o cinto/Amor/Vem me tirar a pele/Amor/Nem que seja sem malícia/Vem me tirar/Vem me fazer carícia/Vem me tirar/Às vezes pra dançar/Até me machucar, Amor/Vem me botar na rede/Reviver a sede/Vem me fazer aquele/Amor/Parceiro das delícias/Amor.

Foi Tom Jobim quem disse que fundamental é mesmo o amor e que é impossível ser feliz sozinho. A vida, muita sábia essa danada, com o tempo vai dando as dicas de como entender melhor essa necessidade do amor. Porque se fundamental é mesmo o amor, fundamentalmente não é o mesmo tipo de amor que nos move as querências. A idade vai mudando e com ela e a gente vai mudando o tipo de amor que acaricia a alma. O tempo chronos, contínuo, tem pressa. O tempo aevum, infinito, não tem. Na juventude, vivemos chronos em sua plenitude. Queremos aproveitar o máximo no mínimo de tempo. Na meia-idade, somos mais aevum. Preferimos aproveitar o mínimo no máximo de tempo.

No florescer da vida, queremos Bon Jovi. Guitarras gritando estridentes, fazendo nossos hormônios ferventes dançarem rock´n´roll. Mãos suadas, calafrios, frios na barriga, panapaná de borboletas zanzando em nosso estômago.  Saídas furtivas, escondidas dos pais ou da moral, guardam em si lembranças de histórias que só os dois, e mais ninguém, vão saber para sempre. Como foram especiais aqueles momentos de rock com aquelas pessoas que, que coisa…, não temos a menor ideia de por onde andam. Ou não tínhamos até aquela página do Facebook escancarar o passado num perfil que se oferece num susto. O Facebook acabou com o passado. Ele esticou o transformou num permanente agora. Quantas pessoas, quantos sorrisos trocados, quantos olhares olhados, quantos carinhos doados mutuamente… Tantos amores desajeitados de quem estava aprendendo as delícias dos tempos e dos movimentos do sexo. Quantos amores bateram na trave e hoje, ambos, ainda se arrependem de não terem levado a efeito. Por que não, né? Basta se encontrar para que os olhos, porta-vozes da alma, lembrem polida e secretamente a dívida que ficou para trás e que jamais será quitada nessa vida. Ok. Talvez jamais.

Eis que o tempo passa. A pressa passa. Com alguma bagagem no currículo em troca de vigor juvenil deixado na negociação, seguimos para a segunda metade da vida. A vida começa aos quarenta.

Na idade adulta, nós queremos Vivaldi. Em vez da guitarra, o piano. Em vez da adrenalina da paixão, a endorfina do amor. As mãos suadas dos calafrios são trocadas pelas mãos entrelaçadas da companhia. A inquietude das borboletas é substituída pelo voo do casal de arara que diária e rotineiramente rasga o céu na janela do escritório, onde guardamos as contas a pagar. As saídas são furtivas, mas das crianças. Nada de muita gente nem muito barulho. Um jantar, com vinho, para falar da vida, dos filhos, dos planos. A multidão do show de rock é transformada na solidão desejada da companhia única para apreciar o violino d´As Quatro Estações. Passadas a Primavera e o Verão da vida, envelhecer juntos no Outono de folhas caindo para esperar o Inverno inevitável da existência. Paramos de procurar desesperadamente pessoas para dormir para começar a procurar alguém com acordar junto o resto da vida.

Antes que alguém me acuse de dicotomizar a vida, eu peço meu habeas corpus preventivo. No geral é assim. Claro que há jovens cronológicos que querem a paz de Vivaldi. Como há outras pessoas, na meia-idade, que não abrem mão do seu rock. Gente que quer verão o tempo todo e gente que prefere o vento do outono a lhes lamber os rostos. Gente que no Verão se encapota e no Inverno quer dar uma saidinha de bermuda, se me entendem a metáfora. O que seria do amarelo se todos gostassem da mesmo cor?

Seja como for, precisamos de alguém para nos tirar a sede. Com cerveja ou vinho. Com vodka ou suco de laranja. Seja como for, precisamos de alguém que nos tire da rede e nos convide à vida, num bar de rock ou num piano bar. Que nos salve da rede de intrigas que a outra vida, real e de viés, nos inventa de colocar. A vida das coisas ruins, das pessoas más, da gente amarga, das injustiças, dos azedos pessimistas e de outras coisas que nesse texto não terão espaço para além dessa frase que você lê. A felicidade que dá quando encontramos alguém que nos bota na vida é algo que nenhum texto jamais fará justiça em descrever. Alguém semanticamente normal precisa de um parceiro para lhe tirar o cinto, seja arrancando num puxão impaciente ou  deslizando vagarosamente pelo cós da calça, como querendo que aquele tempo seja eterno. Alguém que nos tire a pele de roupas que nos envolve e nos envolva com a pele do seu corpo, com e sem malícia, no ritmo do rock´n´roll ou do violino clássico. Quem de nós, pobres mortais, não quer alguém para nos fazer carícias no rosto, nas mãos, nas costas, na nuca, no peito, na boca, nos pés, nas partes? Quem de nós, homens banais, não sucumbimos ao convite para dançar com a pessoa certa? Dançar, dançar, dançar, até se machucar… Quem de nós não quer acabar na rede e reviver a sede? Quem de nós não quer de novo e sempre fazer aquele amor com seu parceiro de delícias?

Chronos, Aevum. Muitos, um. Bon Jovi, Vivaldi. Violento, manso. Qualquer maneira de amor vale a pena. Tom Jobim foi preciso: “Fundamental é mesmo o amor. É impossível ser feliz sozinho”. Quem é o seu o parceiro das delícias?

Tempos da caça

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costela“Fragilidade, teu nome é mulher”. Essa frase é de Shakespeare. Como a literatura tem a ver com a sua época para desvelar seus sentidos, a frase do bardo é um retrato da mulher do Século XVI. Se o escritor inglês chegasse hoje em uma máquina do tempo, com toda a poesia do mundo, e gritasse a frase na praça de alimentação de qualquer shopping center, é provável que fosse vaiado. Pelas mulheres. Muita gente diria, certamente: “Esse barbadinho pode até entender tudo de poesia. Mas não entende nada de mulher”.

A questão é, claro, a mudança no papel social da mulher. Esqueçamos aqui o machismo que acha que o único movimento possível para a mulher é o dos quadris e o feminismo que acha que a mulher não pode usar um vestido de alcinha para seduzir. São extremos e me dão sono. Vejamos: desde a queima dos sutiãs em 1968, no bra-burning de Atlantic City, a mulher vem dando um chega pra lá nos homens e ocupando papeis que antes eram reservados por convenção social e cultural a eles. Em tempos atuais, nas sociedades ocidentais, soa muito estranho e démodé dizer que o homem tem de sair para buscar a caça e a mulher deve ficar em casa cuidando da cria.  Hellô-ô! Por opção, vá lá! Mas por obrigação? É ruim, hein!

Os papeis que homem e mulher desempenhavam no sexo tinham regras claramente estabelecidas. Fazia parte desse jogo de sedução e conquista o homem insistir na proposta sexual e a mulher recusar. O homem, claro, apostava no sucesso da empreitada e para isso movia mundos. Quando homem quer não tem vó doente, dor de dente, final de campeonato ou chuva que o impeça. Quanto mais a mulher recusava, mais o homem insistia, aumentando a emoção do jogo – uma emoção restrita a ele, diga-se. Para a mulher não era tão lúdico assim. Além da culpa cristã por estar permitindo intimidade a um homem, seu desejo e prazer eram solenemente desconsiderados. Como lidar com o paradoxo? Porque ela queria, mas ela não podia relaxar na vigília um segundo. Sabia que se não se controlasse seria descartada e ainda por cima chamada de fácil. O homem continuava insistindo e ela resistindo. O importante era chegar ao objetivo final. Aprisionados a uma moral antissexual, nenhum dos dois tinha chance de experimentar o prazer das trocas de sensações eróticas. Se a mulher cedesse, aí pronto: o homem se apaziguava com a confirmação de se sentir competente e se afirmar como macho. E o ciclo recomeçava.

“Ah, mas ainda é assim!”, se apressa em dizer a leitora mais afoita. Sim, ainda é assim. Com uma diferença: a mulher está ocupando esse lugar de sujeito proativo, de quem vai para cima, algumas como um jaguar. O homem se vê na defensiva. Com o espaço conquistado em outras áreas, ela também conquista terreno na autonomia sexual. Na medida em que a mulher passa a disputar o papel de independência social, profissional e financeira, ela se lança na disputa também pelo pacote completo. E leva. No pacote está incluso o passe-livre para tomar a iniciativa nas questões afetivas e sexuais também. Mexendo a posição das peças em jogo, a mulher passa a dar xeque naqueles homens que não conseguiram ainda pensar fora da caixa dos conceitos de antes.

A cotação do machão comedor está em baixa. Há quem ainda compre suas ações, mas a mulher quer um homem que se relacione com ela de igual para igual, inclusive no sexo. Essa repentina mudança tem deixado a macharada em níveis de ansiedade comparáveis aos daqueles caras do esquadrão antibomba: se não cortar o fio certo… Para evitar o estresse, muitos homens ainda procuram mulheres passivas, acreditando estar mais garantidos. Pfff. O problema é que, pelo andar da carruagem, em pouco tempo elas entrarão em extinção. É Darwin, parceiro…

As mudanças não são totais, no entanto. A maioria dos homens ainda vê o sexo como uma questão quantitativa e não qualitativa. Tire-se pelo ciúme. O ciúme do homem é quantitativo: queremos saber com quantos caras a mulher foi para a cama. O da mulher é qualitativo: pouco importa a ela se o homem teve trinta mulheres. À mulher importa de fato se ele foi apaixonado de verdade por alguma dessas trinta. Essa vaca é seu alvo.

Vivemos numa fase de transição e reacomodação de papeis. O homem flerta mais cuidadoso, se ajeitando aos novos tempos. “Sabe-se lá se ela é predadora…” A mulher resiste de charminho, mas se tiver a fim não dispensa, cada vez mais sem a culpa da moral. “Será que eu vou ter outra chance com o boy magia?” Nisso tudo, há uma monogamia social esperada a ser considerada para complicar as coisas. Os limites são tênues. Mas a linha é sempre tênue para quem não sabe o que quer. Desejos, mesmo antes de Freud, já estavam a nos mover. Freud ajudou a dar o nome aos bois. Há os casos em que conquistar é uma necessidade compensatória de uma falta na infância. Mas isso é papo-cabeça para outro texto. Fato é que ninguém está livre dos encantos alheios.

Encantar-se e desejar faz parte. É da natureza da afetividade humana. Dar sinais de encantamento é biológico. Não dá para sentir culpa por pensar como seria bom estar com alguém num momento ideal. Bate, Platão! Dar o próximo passo já é da razão, pois aí entram desdobramentos que precisam ser avaliados e ponderados em suas implicações. Às vezes, nessa hora, o Batman precisa dar um tapa de alerta no Robin, para usar a imagem do meme do Facebook.

Deixar fluir ou guardar para explodir de outros jeitos? A pergunta é: muita adrenalina ou muita ocitocina? Ser um sujeito – ou uma sujeita – que vive na plenitude seus quereres ou ser alguém que não se permite sair do paradigma da racionalização dos afetos? Aproveitar a vida porque ela é como uma nuvem que passa  e vai ou sossegar o facho em nome de uma escolha eterna? “Eis a questão…”, completaria um resignado Shakespeare, sob os olhos desconfiados de Freud e de um liberado Platão. Enquanto Darwin ri alto de tudo ao fundo…

Jogando caxangá

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O escritor francês Georges Bernanos disse uma vez: “Saber encontrar a alegria na alegria dos outros é o segredo da felicidade”. Essa frase tem muito a ver com a amizade. Tenho pensado muito na amizade recentemente.

A amizade é um sentimento que tem sofrido as adequações dos novos tempos, quando tudo é fugaz e escorre pelas mãos. Zygmunt Bauman, um velhinho polonês do cacete, chamou essa fugacidade de liquidez. No mundo em que vivemos, tudo se liquefez: os valores, as identidades, os afetos e, claro, as amizades.

Grosso modo, as pessoas não possuem mais as amizades de uma vida inteira. As amizades deixaram de ser pessoas para ser lugares vazios ocupados por pessoas por e para a nossa conveniência. Ninguém mais é amigo de ninguém. As pessoas estão amigos até que a vida cante “Escravos de Jó” e mude tudo de lugar.

Antes que você, leitor amigo, pule daí querendo deixar de ser meu amigo porque você tem, sim, um amigo à moda antiga, eu faço uma ressalva: claro, há bons amigos que ainda se enquadram na versão vintage em que amizades eram alicerçadas em afeto, companheirismo, ombro nas cagadas, colo na tristeza, divisão na vitória ou na derrota. Mas por toda a vida e não por um período sazonal somente. É dessa amizade de que eu falo neste texto aqui. Elas ainda estão por aí, lógico. Como o Mico-Leão-Dourado também está. Mas, convenhamos, manter uma amizade sólida em tempos de liquidez é correr na direção contrária, sem pódio de chegada ou beijo de namorada…

Uma boa metáfora para a amizade de hoje é o amigo do Facebook. Ser amigo em tempos de redes sociais é estar o tempo todo no interruptor do liga/desliga. É comum ouvir as pessoas dizerem: “Ah, é meu amigo no Facebook!” e logo depois “ah, era meu amigo no Facebook. Bloqueei”. Bloquear equivale a dizer: tranquei a porta desse lugar para o qual dedico um pouco de atenção diferenciada. Não me interessa mais. O Facebook ressignificou a palavra amigo.

Não estou aqui advogando que amizades de Facebook não valem. A minha questão não é essa. A minha questão é o conceito de amizade, que  mudou porque o mundo mudou. As amizades do Facebook valem de outra forma. Eu mesmo tenho quase cinco mil amigos no Face. Muitos eu nunca vi pessoalmente, mas por eles tenho um carinho verdadeiro. Com eles eu adoraria ter uma amizade estendida, aos moldes do século passado, daquelas em que as pessoas olham nos olhos em vez de ficar de cabeça baixa de olho na tela do smartphone. Com alguns, a amizade migrou, apesar de eu furar com eles de vez em quando como os bons amigos às vezes furam e pedem desculpas na cara dura sabendo que vão ser desculpados [Oi, Briglia! Oi, Mari!]. É. estou falando daquelas amizades do tipo fazer coisas juntos, comer um churrasquinho cada-um-leva-o-seu, jogar Imagem & Ação, ver a final da copa no mesmo lugar, rir de si e um dos outros. Há pessoas nas redes sociais com quem adoraria sentar  numa mesa de bar e falar do mundo e das coisas, da poesia da vida, da política cada vez pior, do Fluminense líder, dos filhos que estão crescendo, do novo iPhone 5, enfim, de tudo aquilo que falamos e postamos nas redes sociais. Conviver e partilhar de verdade em vez de somente compostar e compartilhar.

Mas esses amigos virtuais irão até quando? Eu tive vários amigos que se foram com a morte do Orkut. Nem sinal deles. Esses de quem gosto tanto também irão com a morte do Facebook e com o fim do Twitter? E os amigos reais, carne-e-osso, com quem convivi até semana passada? Se liquefizeram pelo ralo ao deixar os lugares que ocupavam vazios? Amizades de 140 caracteres? Não são, ou melhor, não estão mais meus amigos? Estão confirmando a hipótese da migração da fugacidade da rede para a vida real? Juro que com toda a minha capacidade reflexiva de um pesquisador dos sentidos, algo ainda me escapa à compreensão. No entanto, depois dos quarenta a gente desenvolve a capacidade de usar a serenidade como um dos mais importantes parâmetros avaliativos para amortecer os solavancos da vida. Tranquilo.

Quem pertence às gerações mais novas talvez nem perceba a volatilidade dos afetos porque já nasceu na época da amizade líquida, que se liga e se desliga num botão de unfollow. Mas nós, velhinhos com mais de 40, vez por outra ainda tomamos um susto danado quando um amigo que deixamos no seu lugarzinho querido na noite anterior desaparece quando a gente abre a porta na manhã seguinte. É complicado pensar nessa rotatividade afetiva quando o coração da gente foi feito antes da obsolescência programada do mundo. Dói de verdade. Mendigar amizade, no entanto, dói mais. Cada um tem o direito de suas escolhas e rumos. É um egoismo danado insistir em amizades quando uma pessoa não quer mais.

Fui fazer as contas aqui. Tirando família, meus amigos no sentido antigo da palavra não me ocupam todos os dedos das mãos. Gente que, qual Forrest Gump, vai passando junto com a vida da gente, sempre lá, do lado. Aquele amigo para quem você liga de madrugada para dizer que está mal e ele lhe escuta. Aquele parceirão para quem você pede para ir tirar você do prego ou da cadeia e ele vai, com sono, mas com a gasolina na garrafa de coca-cola ou com o dinheiro da fiança.

A amizade nos tempos líquidos mora em Las Vegas. Tem uma hora em que a mesa da vida de bits & bytes lhe cobra e você tem de optar: ou aposta tudo no vermelho 23 e se ganhar ganha big time ou sai do jogo para não perder o que lhe resta. É assim que rola o jogo hoje. Tudo é binário, sem meio-termo. Mas e quem não sabe jogar apostando afetos na roleta russa da vida líquida? E quem prefere jogar Imagem & Ação, em que a gente joga para rir, pelo lúdico, como as amizades – das antigas – fazem?  E quem nem queria estar no Cassino? E quem nem é preto nem branco, mas cinza?

Ok. Sem essa de dizer que “no meu tempo era melhor”. Não. No meu tempo era diferente. Nesses tempos, as coisas são outras. É uma mera constatação. Perdoem minha nostalgia. Não quero ser valorativo, já sendo. Se antes os amigos eram sólidos e referenciados nas pessoas, hoje eles são, como disse, lugares ocupáveis que abrimos e fechamos quando nos é conveniente. Se não nos interessam mais porque não têm prestígio, dinheiro, afagos, poder, talento, felicidade para dar ou porque têm tanto isso a ponto de não caber em nosso mapa afetivo sem nos incomodar, nós clicamos o mouse e resolvemos. A maré alta da amizade se desertifica num oceano sem água, geralmente com mágoa. Estamos facebookeando a amizade offline. Sabe o controle de realidade do filme “Jogos Vorazes”? Pois é… Acho que tudo isso vale para amores também. Mas aí é papo para outro texto.

“Saber encontrar a alegria na alegria dos outros é o segredo da felicidade”. Os tempos atuais reescreveram a frase de Bernanos. Agora ela está assim: “Saber encontrar a minha alegria na alegria que os outros me proporcionam é o segredo da minha felicidade”. Houve uma mudança de vetor. O foco cada vez mais é no eu. Se não nos interessa mais, a gente canta a plenos pulmões: “Escravos de Jó, jogavam caxangá, tira, bota, deixa o Zambelê ficar… Guerreiros com guerreiros fazem zigue zigue zá”. Ao ritmo e ao som da música, as pessoas ficam trocando as peças das amizades com os jogadores ao lado. Quem erra a disposição das pedras é eliminado. Big Brother, brother. E sai do jogo. Porque a pedra é minha. Dane-se o Zambelê. A fila anda no mundo prêt-àporter. Até nas amizades.

Fluxo

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Faz tempo que não escrevo usando fluxo de consciência. Por coincidência, foi na mesma época do filme do Woody Allen, “Meia-noite em Paris”. Digo coincidência porque acabei de assitir ao novo filme dele, “Para Roma com amor”. Gostei muito, como sempre gosto do Woody Allen. É preciso se divertir e me divirto com os filmes de Woody Allen. Eles me fazem pensar ao mesmo tempo. Filme bom é o que te deixa em silêncio quando acaba. Falar em silêncio, minha profissão anda num silêncio barulhento. Estou de greve. Nunca estive tão frustrado com a minha escolha profissional. É um processo crescente que tem inevitavelmente afetado minhas aulas nesses últimos anos, eu sei. Meus alunos devem estar achado minhas aulas meio chatas. Eu tenho achado, imagina eles. Desculpa aí, moçada! Olha… e até que não me acho um mau professor, modéstia à parte. Esse cansaço, que seria normal num ciclo de mais de vinte e cinco anos de sala de aula, tem sido meio agravado e esticado pelo salário baixo. Ando muito resmungão e amargo sobre isso, reconheço. Você que me segue por aqui e acolá já percebeu isso. Fazia tempo que não tinha raiva ao ver a cara de um ministro. A última vez foi na era do FHC. Aí eu vi uma relação de juízes que ganham pequenas fortunas mensais e me deprimi. Não pelo mérito dos que ralaram pra cacete para chegar aonde chegaram. Cada um sabe as esquinas por que passou e eu não tenho nada a ver com isso. Não quero ser injusto. Todos devem ganhar bem. Good for them. Mas o que me machuca é a desproporcionalidade da coisa. Falei num post do Facebook que escolhi errado, citando esse fato. Alguns juízes pularam a se defender de uma acusação que eu nem havia lhes feito. Mas aprendi a não brigar as brigas que não são minhas e a brigar com a espada afiada as que são. Sem perder a ternura, tenho sido duro com quem merece. A idade ensina a gente. Noutros tempos eu ia contra-argumentar e tal. Mas hoje, no geral, não. A tal teclinha está ligada. Ando meio na inércia, querendo só escrever, que é minha forma de terapia. Meus textos parecem agradar as pessoas. Eu acho isso legal. Às vezes perco a dimensão disso. Muitas me mandam mensagens muito legais, deixam comentários gentis no blog. Isso me alimenta. É o meu pão. Acho que se eu parar de escrever eu quebro. De verdade. Quanto pior eu estou, mais eu escrevo. Tenho escrito muito. Devo estar ruim. Estou, sim. Mas mantenho o riso, o humor, ainda brinco com o gato, faço cosquinhas nas minhas filhas, mordo o pescoço da minha mulher. Ainda não estou deprimido. Ando triste. Triste, sim, eu ando. Minha madrinha dia desses no lançamento do livro do meu tio me chamou de lado e perguntou o que eu tinha. Disse que nada, mas ela não engoliu. Quem gosta da gente sente o faro longe. Na minha vida não falta nada. De verdade. Só um pouco mais de grana. Não quero os 60 mil dos juízes. Fiquem tranquilos. Queria o suficiente para pagar umas dívidas, o IPVA atrasado do carro e para os pequenos prazeres da vida, como levar minha família para passar as férias com a banda campineira da família. Minha mulher fica muito feliz junto aos seus. As meninas também. E eu, claro, fico feliz por elas. Mas não deu. Esse ano não deu. A coisa está apertada. Por isso ando triste. Impotência. Isso: sensação de impotência que achei que jamais sentiria a essa altura do campeonato. Meu mal ou bem é esse: minha felicidade é fazer as pessoas felizes. Gosto que elas saiam mais felizes do que chegaram ao me encontrar. Mania. Quando não consigo, minha casa cai. Como resolver esse lance da grana? Entrar na política? fazer esquemas? explorar pessoas? Sim, porque cada vez mais me convenço do que ouvi do meu irmão um dia desses: para que tem certos valores inegociáveis há um teto financeiro. Se quiser mais do que esse teto, só na treta. Pode ser até uma treta legal, mais imoral. Aí é o meu Catch 22. Não rola. Vou andar triste por mais tempo pelo jeito. Ou zerar minha trajetória profissional até aqui e começar de novo. Medicina? Direito? Prático de navio? Enquanto não decido, vou jogando na Mega Sena. Para quem nunca jogou, começar a jogar é sintoma de perda de esperança de que as coisas se ajeitem, pode ver. Se eu ganhasse na Mega, eu ajeitaria a vidinha dos meus irmãos, dos meus pais e de alguns parentes merecedores. E pagava o IPVA. Já disse outra vez: odeio dever. A vida está tipo foda. Mas longe de mim desistir dela. Eu tenho minha pena que não me permite que eu sinta pena de mim. Ainda não. Tristeza é chata, mas passa. Vai passar. Depois da onda pesada, a onda zen. Tenho fé. Fé na vida, fé no homem, fé no que virá. Fé de que no fim do ano as minhas filhas vão brincar com as primas caipiras, a minha mulher vai abraçar os irmãos e os pais delas e eu vou comer pastel de queijo com caldo de cana na feira de quarta-feira da rua ao lado. E feliz, vendo tudo isso.

 

Brisas e bafos

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Na sociedade da visibilidade ė arriscado ser visível. Parece contraditório, mas à medida que cada vez mais se faz necessário estar presente no mundo das redes de relacionamento, maior parece ser a briga pelo espaço, virtualmente infinito. Ter contatos, desenvolver networking, se relacionar bem: tudo isso passa a ser passaporte para ser levado à boca do sapo por um alguém acredita que você está roubando uma luz que deveria estar apontada para ele. Como dizia Tom Jobim: “No Brasil, sucesso é ofensa pessoal”.

Falamos de democracia, respeito à diversidade e cada vez mais estamos agindo por instinto animal em relação aos outros. É gente derrubando gente, gastando seu tempo para prejudicar o colega de trabalho ou simplesmente fazendo o mal como hobby. Gente cuspindo sua amargura no prato alheio como forma de exercer o seu sadismo contra o próximo. Aliás, essa gente ruim quer manter o próximo próximo para ter com quem malinar. É um rancor à flor da pele. Aí vem a pergunta: o que leva alguém a odiar gratuitamente? Refazendo, num pensamento corrigido: o que leva alguém a odiar? Porque nada é gratuito.

Vou tentar responder fazendo a regra de três da pergunta. O que leva alguém a gostar de alguém? Gostamos de alguém quando essa pessoa nos faz bem. Quando ela nos traz brisa. Porque tem gente que traz brisa e tem gente que traz bafo. Gostamos de alguém que nos faz sentir melhor ao sair do encontro com ela. Bem melhor do que estávamos ao chegar. Gostamos de pessoas que o corpo sinaliza, que nossos olhos buscam, que nossa alma anseia encontrar. Gente que tem perfume, sem passar nada no corpo. Pense aí nas pessoas que lhe atraem das diversas formas, leitor. Veja como elas são magnéticas pela leveza que representam. Elas fazem parte daquela gente que quando chega num ambiente todos sorriem. São pessoas cujas companhias são disputadas, queridas, desejadas. São pessoas que queremos do nosso lado e nos esprememos todas para que caibam. Pois é. Dessa gente a gente gosta fácil. Mas por que não se gosta de alguém?

Para fins de argumentação, pressuponhamos que não se gosta de alguém por questões inversas daquelas pela quais se gosta. Então, não se gosta de uma pessoa porque quando chega ela traz consigo uma nuvem escura que faz com que o ambiente fique pesado. Por conta dessa energia ruim, que dá gastura, saímos mofinos de um encontro com ela. Por isso, passamos a evitá-la ao máximo, fugimos dela sempre. Nossos olhos fingem que eles não a estão vendo. Nossas almas desguiam desse corvão da urucubaca. É uma gente que fede, ainda que seja limpinha e perfumada.

Ok. Até aqui morreu o Neves. Mas quando a pessoa não gosta de você porque você traz brisa? Quando a pessoa não lhe suporta porque você é querido? Quando a pessoa se treme de raiva porque você deu certo, depois de muita ralação? Aí, caro leitor, entra em jogo o bichão verde da inveja.

Sobre ela muito se escreveu. “A inveja é a arma dos incompetentes”, dizia um adesivo pregado no vidro lateral do fusca azul que meu pai tinha quando éramos crianças e do qual nunca esqueci. “O ódio espuma. A preguiça se derrama. A gula engorda. A avareza acumula. A luxúria se oferece. O orgulho brilha. Só a inveja se esconde”, diz Zuenir Ventura num livro invejável sobre a inveja. “A inveja é uma merda”, complementam alguns mais diretos. Por que a gente é vítima das ondas azedas da inveja?

Uma pessoa que você não conhece desejar lhe ver morto e enterrado no cemitério do Mauazinho só pode ser indício de uma inveja patológica. Um colega de trabalho que passa seu tempo maquinando traquinagens para lhe prejudicar só pode ser um invejoso incompetente que queria muito, mas muito, ser como você. Ou ter você, sei lá. Não consegue e se projeta negativamente. Começa a espalhar que a uva está verde.

Conquistar um lugar ao sol dispara imediatamente uma nuvem de chuva pesada, cheia de raios e trovoadas, na cabeça da criatura invejosa. Ela fica ruminando para si palavras de ordem, como se fossem mantras vodus. Pois é. Só foi eu descrever e você já está pensando numa pessoa específica que é assim, não é, caro leitor? Confesso que eu estou pensando em uma aqui também. Ela é meu modelo para a escrita desse texto. Se ela ler esse texto (porque ela me lê, claro), ela vai saber que é dela que estou falando. O invejoso adora enfiar a cabeça em carapuças que passam.

Os invejosos são perigosos. Simpáticos às vezes. Amáveis quase sempre. Venenosos feito uma cascavel sempre. Meu conselho: isole-se de gente assim. Ninguém precisa delas. Bloqueie-as em suas redes sociais, dê unfollow em suas pretensas amizades. Em um mundo tão complexo e cheio de desafios de tantas ordens, deixe essas criaturas para nossos colegas psicólogos e psiquiatras cuidarem. Otimize as suas relações e sua felicidade. Tenha relacionamentos sustentáveis.

Essas pessoas urubulinas são fáceis de reconhecer. Mesmo quando não se rasgam abertamente em seu incômodo com nossa vida, elas se manifestam de outras formas identificáveis. No Twitter e no Facebook, sempre discordam de você por padrão, mais para marcar posição e se amostrar do que pelo mérito do assunto em discussão. Reclamam demais de você e para você, mas não largam o osso e continuam lendo o que você escreve e compartilha. Ficam putinhas da vida quando são bloqueadas. Não admitem isso e xingam você de arrogante, prepotente e boçal. Mas, como assim, Bial, eu não tenho direito sobre meus espaços virtuais? No trabalho, são elas que falam mal do outros para você. E não se iluda: de você para os outros também. Olhe para o lado e identifique os sinais. Porque a baba escorre. É viscosa. Cheira a enxofre.

Eu acredito veramente que o que é nosso está guardado. Mas também acredito que a gente tem de levantar a bunda da cadeira e ir lá buscar. Só que quando a gente vai, acaba ferindo de morte os bundões que não se dão ao trabalho de correr atrás. Eles ficam lá, babando sua raiva, seu ódio, seus maus fluidos. Tudo porque são medíocres, mesquinhos, amargos, infelizes e mal-amados. Falta-lhes amor. Falta-lhes sexo bom. Precisam de análise, de Deus, de maconha, do Santo Daime, sei lá, mas de alguma coisa que lhes mostre que os problemas do mundo de que tanto reclamam estão dentro deles mesmos. Eles precisam urgentemente deitar na BR.

Viver a necessária visibilidade, vivendo seus ônus e bônus, ou manter um low-profile e ir ficando para trás na sociedade em rede? Dureza de escolha, claro. Mas uma coisa é certa: nesse novo começo de era, quero conviver com gente fina, elegante e sincera, com habilidade para dizer mais “sim” do que “não”, mas que saiba dar um “não” sem culpa à gente grossa, deselegante e falsa. Chega de ser politicamente correto com quem é incorreto em tudo que pode. Que levem suas amarguras para seus umbrais e que lá fiquem. Gente bonita é tão mais legal para os olhos e para a alma. Ser gente boa é muito mais in. Os hipsters acham tudo que é mainstream ruim. Mas há algo mais mainstream do que o amor e a amizade?

Eu quero gente que ama. Eu quero abraço apertado, eu quero o riso frouxo, eu quero “oi” que dê frio na barriga, eu quero os pés se embolando embaixo do lençol. Eu quero apenas olhar os campos e rir meu riso e cantar meu canto. Eu quero é brisa no rosto. De bafo, leitor amado, já basta o clima da minha Manaus.

Amores inventados

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Falar de relacionamentos é entrar em terreno pantanoso. Mas se há uma lei geral, ela deve dizer que tudo o que se quer é ser feliz com outra pessoa e fazê-la igualmente feliz. A vida se resume a isso. O resto é farofa.

Há casais que se encontram, sabem-se pares perfeitos e enfrentam tudo e todos: almas gêmeas. Duas pessoas que proporcionam a felicidade mútua. Seguram as pontas quando elas estão soltas, se amam no sol e na chuva, passam por cima do mundo pela certeza que têm de que estar juntos é a condição básica para viver.

Há casais que se encontram, sabem-se pares perfeitos e, por alguma razão, abdicam de sua felicidade. Cada um segue a vida tentando ser feliz naquele máximo possível com uma outra pessoa. Eles, que abdicaram de si, tentam fazer genuinamente felizes as outras pessoas que vêm para suas vidas. No entanto, jamais se esquecem da certeza de como teriam sido felizes se tivessem lutado contra o mundo e a sociedade. São, enfim, almas conformadas.

Há casais que se encontram depois de um dos dois passar por um amor mal resolvido. Em alguns casos, um dos dois ajuda o outro a se resolver. Mas já diz a sabedoria popular: o pior cego é o que não está a fim de ver. Quando o outro não quer resolver, ferrou. Nesses casos, pode acontecer da relação ser apropriada somente por um dos dois, de modo sanguessuga. O mal resolvido suga o outro para preencher a sua infelicidade afetiva. É o encontro da alma altruísta com a alma egosísta. Amor tóxico, inventado. É aqui que surgem os amores-muletas.

O amor-muleta é uma pessoa que nos ama e que fingimos amar. É uma conveniência afetiva para menos pior passar. O amor-muleta é escolhido a dedo para nos dar afeto e suporte, seja afetivo, econômico ou social. E ele nós dá tudo isso, de forma verdadeira, real, sincera. Fazemos uma escolha calculada e ideal para nós, mas que é uma fraude patente para o mundo que nos conhece de fato. Como a erva-de-passarinho, nós nos hospedamos em seus galhos para parasitá-lo, tirar o que ele tem para dar de bom sem nada dar em troca, a não ser a ilusão de uma relação que aparentemente funciona. Aparentemente. A relação com o amor-muleta é de aparência. A pessoa-muleta não sabe disso, mas nós sabemos e deixamos rolar. Isso é o escroto da coisa.

O cruel da pessoa que recorre ao amor-muleta nem é o autoengano, que, embora egoísta, pode existir como uma forma de equilíbrio do eu. Só ter chegado à qualidade de parasita afetivo já é um atestado de fracasso total. A mim, dá pena desse coração já na casa do sem-jeito. Mas o mais cruel mesmo é transformar uma outra pessoa, com afetos, desejos, planos, entregas, em uma mera conveniência. Reduzi-la a uma bateria que alimenta o tic-tac do marcapasso de um coração falido. Apequená-la ao transformá-la em um instrumento para dar conta do nosso andar capenga de nossos passos mal dados, cujas (ir)responsabilidades deveriam ser assumidas exclusivamente por nós. Mas envolvemos o outro. Inocente, ele se doa feliz a esse papel que nem sabe que desempenha nesse triste teatro do absurdo.

Não adianta o ser que faz uso do amor-muleta fazer fisioterapia. Seu andar já está atrofiado demais. Não adianta tentar se encontrar na religião, na análise, na macumba, nas drogas ou no que o valha. Para mim, essa pessoa já se perdeu ao usar o amor sincero de alguém, um dos atos mais mesquinhos que consigo vislumbrar para um ser humano. O mesquinho do amor mesquinho é que ele se sabe mesquinho. Isso que lhe corroi a alma, tenho certeza, mas não ao ponto de abandonar sua mesquinhez. Seu egoísmo está na base de sua pirâmide de Maslow psíquica. Foda-se o outro que eu amo.

Nietzsche dizia que o amor é o estado no qual os homens têm mais probabilidades de ver as coisas tal como elas não são. Estava certíssimo o filósofo. Por isso que no amor verdadeiro titubeamos, pisamos em falso, estendemos a mão e sorrimos. Por isso que no amor verdadeiro pisamos na bola, nos recompomos, sacodimos a poeira e vamos adiante. Por isso que no amor verdadeiro somos capazes de gritar ao mundo que amamos, sem vergonha de ser piegas ou invejado. O amor verdadeiro é nosso e o mundo, se quiser, que o entenda. Dane-se a racionalização, danem as explicações lógicas amparadas nas leis da física ou da química. Mas o amor-de-muletas… ah, ele não. Esse precisa se explicar, parecer equilibrado, manter as aparências para os paparazzi da vida. O amor-de-muletas não se sustenta comendo pão com ovo, com a despensa vazia e suas dores. Sabe, leitor, precisamos ler mais Nietzsche.

Abandonar a vida por um sonho é estimá-la exatamente por quanto ela vale. Essa frase é de Montaigne. Construir um castelo de vidro ou morar numa casa caiçara ouvindo o mar é uma sempre opção. Mas sonhos existem antes de nós. Eles se apresentam para que nos os busquemos. Sonhos feitos a posteriori, às custas alheias, não são sonhos: são pesadelos. Uma hora se acorda, todo suado, e a casa cai.

Todos temos o dever de ser felizes. Todos temos o dever de buscar um amor verdadeiro. Todos têm, por isso, o direito de errar nas suas escolhas: uma, duas, dez, cem vezes, que seja. Desde que a busca seja genuína. O que não se tem direito é de fazer dessa procura legítima uma busca calculada, que envolve outras pessoas como substitutos-fakes daqueles que ficaram para trás porque não os quisemos, porque não nos quiseram mais ou porque erramos nos passos e nas decisões tomadas. Viver com alguém e pô-lo à sombra e na sobra de nosso passado mal resolvido é cruel. Porque esse alguém tem uma vida e está apostando tudo também. Se vamos, então vamos por inteiro, não aos pedaços, como hansenianos do amor. Deixemos para trás as coisas boas na antologia universal do amor e mandemos as ruins para o raio que as parta. Encarnar um espírito de um velho amor obsessor na nova escolha afetiva é endemoniar uma alma boa. É um exorcisimo ao contrário.

Você pode discordar de tudo o que eu falei. É um risco que sempre se corre ao escrever. Porque falar de relacionamentos é entrar em terreno pantanoso. Mas eu pago para ver porque acredito que o que se quer é ser feliz com outra pessoa e fazê-la igualmente feliz. O resto é farofa. O problema é fazer da farofa o prato principal e não querer ser chamado de farofeiro.

Em cada frustração existe uma desilusão.Em cada desilusão uma oportunidade de recomeço. Frustrar-se é de lei para quem busca. Morar na frustração e compensar com enganos e autoenganos é de lei para os que ainda não compreenderam que qualquer maneira de amor vale a pena, que qualquer maneira de amor vale amar. Desde que seja amor de mão-dupla, sem muletinhas. Senão, cedo ou tarde, bate-se com a cara num beco sem saída. Um beco escuro e fedorendo. Vai por mim, leitor. Só vale a pena ser feliz se os dois forem.

O presente

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“Um jovem fazia aniversário e ganhou vários presentes. Um carro, dinheiro, prestígio… Um velho se aproximou e lhe deu uma caixinha pequena. O jovem a tomou nas mãos e disse: ‘o que é isto?’. O velho respondeu: ‘seu presente’. Quando o jovem abriu a caixa, não havia nada dentro. Ele falou: ‘Mas está vazia!’ O velho disse: ‘O que desejo de presente para você é a serenidade. Este velho homem já viveu muito e aprendeu que sem serenidade erramos demais, entramos em desepero, pisamos em falso. Ela dá equi;íbrio à vida. Ela é intangível. Ela está dentro de você. Faça bom proveito.’ O velho se virou, subiu aos céus e virou uma estrela”. SF