Fabulas

Qual a forma de sua nuvem?

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“Um belo dia, uma nuvem estava passeando pelo vento do céu azul e encontrou uma outra nuvem, em formato de elefante. Ficou olhando admirada porque a nuvem em formato de elefante se transformava a toda hora. Virou um coração, uma árvore, uma carinha sorrindo. Transformou-se em uma bola, em um triângulo, em um barco. – Ei, você! O que você está fazendo? – Quem? Eu?, respondeu a nuvem mutante. – É! Por que diabos você fica mudando tanto? – Porque eu gosto e é da natureza das nuvens mudar, ora! – Não! Você deve ficar com cara de nuvem, meio redondinha… Não invente! – Quem disse?, retrucou a nuvenzinham já em formato de interrogação. – Ninguém disse: é assim! – Se assim fosse, quem iria sonhar olhando as formas diferentes que fazemos no céu? – Quem precisa de sonhos! Que bobagem! – Todos precisam, rebateu a nuvenzinha. – E não há sonhos sem transformação, completou. Fez uma forma de pombinha da paz e se foi num vento amigo que passava por ali a convidando para brincar. A outra nuvem passou a refletir. Timidamente, se transformou em uma criança de algodão. Deu duas cambalhotas, viu que era legal. Ela choveu para se livrar de umas águas pesadas que carregava. A partir daí se transformou sempre. É… quem disse que tem de ser assim como é?…” SF

O sapo e a mosca

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“um sapo estava na beira da lagoa, maldizendo a vida, reclamando de sua sapeza. Resmungava que poderia ter nascido um leão, todo imponente, rei da selva. Ou quem sabe melhor tivesse sido um beija-flor, todo poético. Uma mosca, passando por ali, ouviu o papo e se meteu. Ela disse: – você reclama de barriga cheia, sapo! E eu, que nasci mosca? Eu queria ter nascido sapo, sabia? E tascou a falar sobre a infelicidade de sua mosquidão. No meio de uma frase, o sapo comeu a mosca. Moral da história: há certas lutas alheias em que não vale a pena se meter e a vida requer serenidade para decidir quais são, pois é quando a mosca pisca que o sapo estica a língua…” SF

A borboleta e o vulcão

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Contava-se na China a história que ocorrera há muitos e muitos anos e que fazia parte da tradição milenar chinesa: a história da borboleta cantora e do vulcão extinto.

Dizem que tudo começou quando uma bela borboleta cantora quebrou sua asa pela segunda vez. Passeando pela floresta em busca de um remédio para sua asa quebrada, foi informada que havia um vulcão nas redondezas cuja lava poderia curá-la. Disseram à borboleta cantora da asa quebrada que o vulcão, porém, estava inativo, logo sendo inútil sua busca.

Mas a borboleta não se deu por satisfeita e passou então a procurar mais atentamente o vulcão. Localizou-o e passou a observá-lo diariamente enquanto caminhava até ele, uma vez que não podia voar, pois sua asa estava quebrada. E a borboleta seguiu, então, montanha acima, conquistando lentamente espaços e territórios que muitos diziam ter donos e donos ferozes. Mas a determinação da borboleta era algo realmente muito forte. Não se abalou e seguiu, com a asa quebrada, mas cantando belas canções. Havia algo que lhe dizia que aquele vulcão, mesmo caladinho, estava a ponto de explodir e inundar as adjacências com sua lava, o esperado remédio para a sua asa quebrada de borboleta cantora.

A cada dia, a borboleta cantora da asa quebrada subia, andando sem pressa e pacientemente a montanha onde ficava o vulcão. Era uma borboleta incansável. Andou tanto que chegou ao topo, ficando cara a cara com o vulcão. O vulcão, sempre silencioso, esperou que a borboleta, sempre falante, falasse.

“Vulcão”, disse a borboleta, “sou uma borboleta cantora e como vês a minha asa está quebrada. Vim andando até aqui, mesmo estando machucada e exausta, porque me contaram que sua lava serviria como remédio. Eu sei que dizem que você está extinto e inativo, mas como sou uma borboleta sensível sei também que há muita lava aí pronta para ser cuspida para fora, basta haver uma razão. Uma boa razão. Eu e minha música somos uma boa razão”, falou a borboleta cantora da asa quebrada.

“Borboleta”, respondeu o vulcão desconfiado, “o que queres tu de mim?”. Estou aqui quieto no meu canto, com minha vidinha definida e vens me perturbar com tua asa quebrada e tua música”.

“Não gostas de minha música?”, perguntou a borboleta.

“Na verdade gosto e muito. Gostaria que cantasses para mim todos os dias. Mas não sei se devo explodir e derramar minha lava sobre ti e sobre os campos só por causa da tua asa quebrada. Essa asa quebrada me perturba muito, confesso. Talvez a lava te cure, mas queime muito pasto e muita gente. Inclusive você e minhas amigas montanhas rochosas aqui ao lado, amigas de muito tempo”.

“Mas vulcão, que opções eu tenho?”

“Duas: ficar aqui cantando para mim e esperar que a asa se cure com o tempo ou…”

“Ou…?”, perguntou a sempre curiosa  borboleta ao vulcão, sempre misterioso e de frases incompletas.

“Ou o quê, vulcão?”, insistiu a borboleta.

Mas o vulcão não respondeu. Jogou as sobrancelhas para lado como quem diz algo que não consegue verbalizar. Tinha essa mania. Fazia sempre isso.

“Já sei. Ou canto e espero sarar ou te convenço a me cobrir de lava para me curar, mesmo afetando os pastos e as montanhas rochosas. Certo?”

“Pode ser…”, disse o vulcão, como sempre em meias palavras. “Sabe o que é, borboleta cantora: tenho a impressão de que você só veio cantar para mim, coisa que confessadamente adoro, por causa de sua asa quebrada. Que se eu ajudar a consertar sua asa, você vai voar para outras florestas e eu vou ficar aqui, em companhia dessas montanhas rochosas que já me acompanham há algum tempo. Tenho medo que isso aconteça. O medo sempre me perseguiu”.

“Entendo sua preocupação, vulcãozinho, mas devo lhe dizer uma coisa: eu gosto de cantar como gosto da própria vida. E jamais cantaria somente para ter sua lava para curar minha asa quebrada. Ela está quebrada, sim, mas minhas cordas vocais não estão e minha música é verdadeira”.

O vulcão ficou todo enrolado, em dúvidas sobre o que fazer. Como medo, como sempre. Continuar ao lado das montanhas rochosas ou explodir, curar a borboleta, mesmo com algumas baixas no processo, coisa que de fato já há muito estava com vontade de fazer.

“O que você quer de mim, borboleta? Fale. Seja sincera”, perguntou agoniado o vulcãozinho, mesmo sem demonstrar que estava. Ele não era muito bom para demonstrar sentimentos…

“Sabe, vulcão. Na minha vinda para cá confesso que pensei muito em mim e na minha asa quebrada. Mas como vim devagar e andando, confesso que me apaixonei por você”.

“Como?! Apaixonou?! Que história é essa?”

“É. Paixão. Vontade de estar junto, de cantar para dormir, de querer ficar perto, de conhecer mais. Acho que se eu for embora agora morrerei de saudades”.

“Mas eu sou um vulcão e você é uma borboleta!”.

“E paixão lá quer saber dessas coisas, vulcão! Ela simplesmente chega e invade. Pronto! Sabe, decidi uma coisa. Vou cantar para você todos os dias que você quiser. E nem precisa explodir para me curar. Acabo de descobrir que só o fato de ter chegado perto de você já melhorou minha asa. Quem sabe se você me permitir ficar perto e cantar, vez por outra, me cure completamente?”

“Estou confuso”, disse o vulcão remexendo as sobrancelhas, enquanto os outros bichos da floresta, loucos pelo canto da borboleta, gritavam: “Vulcão leso! Vulcão besta! Explode logo, cura a asa da borboleta! Assim ela vai poder voar de novo e irá aprender novas músicas para ti!”

O vulcão pensou, pensou, pensou. E disse, meio desconfiado:

“Borboleta, você gosta mesmo de mim mesmo?”

A borboleta não respondeu. Sorriu. E bateu asas e voou. Estava curada. Descobriu que não era a lava do vulcão o remédio para sua asa, mas a paixão dentro de si que acabou por curá-la. O vulcão, sob os gritos coletivos de “leso, leso!”, viu a borboleta ir embora, sem explodir. Sentiu um misto de tristeza e de alívio. Tristeza porque perdera as músicas inebriantes da borboleta, de que tanto gostava e que, apesar das tentativas, conseguia disfarçar mal e porcamente. Sentiu alívio porque não teve que mexer em nada na sua vidinha, ali sedimentadas junto às montanhas rochosas. O tal do medo.

À noite, quando o vulcão já estava quase adormecido (mas sem esquecer da borboleta, com quem até já sonhara), ele ouviu a suave voz da borboleta a cantar. Sentiu um frio na barriga. Ou seria um quente? Era um quente! Estava preste a explodir. A borboleta disse:

“Minha paixão por ti me curou. Voltei e voltarei quando quiseres para cantar para ti”.

“Sabes que não posso sair daqui. Minha única forma de me movimentar é explodindo, entrando em erupção, botando para fora todo esse fogo que tenho dentro de mim”.

“Então, vulcão, faça isso quando achar que deve. Não faça por mim, mas por você. Vir aqui cantar quando você quiser independe disso. É meu prazer. É minha gratidão pela cura de minha asa”.

Diz a lenda que todas as vezes que o vulcão chamava, a borboleta vinha cantar. E diz a lenda também que o vulcão chamava a borboleta através de pequenas erupções, que nem destruíam os pastos, nem as montanhas rochosas.

Não há registro de grandes erupções. Não há registro de que a borboleta cansou de cantar. Mas cada um, a seu modo, ficou curado. E cada um, a seu modo, ficou feliz. A borboleta cantora, cantando apaixonada e grata e o vulcão das pequenas erupções, sempre silencioso e mexendo as sobrancelhas quando ficava sem graça. E assim foi, apesar dos bichos da floresta terem apelidado o vulcão de vulcãozinho leso, por não ter tido coragem de explodir.

A borboleta e o vulcão, no entanto, sabiam no fundo que eles, os bichos da floresta, queriam mesmo era só ver o show de lava e explosões. E em segredo então se amaram. Até hoje só eles e eu, o narrador, sabemos da verdade. Ninguém nunca soube. Nem saberá.

De vasos e flores

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Uma velha senhora chinesa possuía dois grandes vasos, cada um suspenso na extremidade de uma vara, que ela carregava nas costas. Um dos vasos era rachado, e o outro era perfeito. Este último estava sempre cheio de água ao fim da longa caminhada até a casa, enquanto o rachado chegava meio vazio. Por longo tempo a coisa foi em frente assim, com a senhora que chegava em casa com somente um vaso e meio de água. Naturalmente, o vaso perfeito estava muito orgulhoso do próprio resultado e o pobre vaso rachado tinha vergonha do seu defeito, de conseguir fazer só a metade daquilo que deveria fazer. Depois de dois anos, refletindo sobre a própria amarga derrota de ser ‘rachado’, o vaso falou com a senhora durante o caminho:

– Tenho vergonha de mim mesmo, porque esta rachadura que eu tenho me faz perder metade da água durante o caminho até sua casa…

A velhinha sorriu:

– Você reparou que lindas flores foram semeadas do teu lado do caminho? Eu sempre soube do teu defeito, portanto plantei sementes de flores na beira da estrada do teu lado. E todo dia, enquanto a gente voltava, tu as regavas.

Por dois anos, recolho belíssimas flores para enfeitar a mesa deste lar. Se tu não fosses como és, eu não teria essas maravilhas enfeitando a minha casa. Cada um de nós tem o próprio limite. Mas o limite de cada um é que faz com que nossa convivência seja interessante e gratificante. É preciso aceitar cada um pelo que é. E descobrir o que tem de bom nele.

Essa história  me fez pensar que a rachadura é constitutiva da vaseidade humana. Dizendo de forma menos Guimarães Rosa: todos temos defeitos, que assim são rotulados a partir de uma perspectiva. Como na linguagem há sempre outras perspectivas, nossos defeitos podem ganhar aspas e passar a ser “defeitos” se nos permitirmos olhar com os olhos da positividade. É, olhos de Pollyana mesmo. Fazer o jogo do contente. Look at the bright side.

Jacques Derrida, filósofo franco-argelino, dizia que na vida tudo é pharmakon. O remédio que cura pode matar e vice-versa. Depende da dosagem, depende do paciente. Não é a coisa em si que determina seu valor, mas a coisa em relação à alteridade, ao contexto. A coisa vivendo a vida. Sempre, portanto, é possível a coisa ser outra coisa. Dá para pensar diferente. É viável se permitir o impensável sem comprometer a subjetividade.

Viver no sentido fixo e enxergar o mundo só a partir dele empobrece a semântica do mundo e determina a sintaxe da existência. A vida vira uma língua cujo prazer é a descrição gramatical.  A movência é necessária para arejar a alma e iluminar a mente e evitar que ambas mofem, mofando o sujeito para a vida.

A perfeição não existe. Querer a perfeição é uma soberba e estéril busca pela divindade. Erros podem ser acertos. Há exemplos diários em nossas vidas disso. Viver é behaviorista: é ensaio e erro. Só assim se apreende a lição que talvez já até saibamos de cor.

Não sou ingrato. Aprendi a respeitar e ser mais tolerante com meus defeitos e erros. Foram eles, justiça seja feita, que me permitiram ser quem sou. Quando deixarmos de ser Serasas de nós mesmos e nos cobrarmos menos pelos nossos percursos aparentemente rachados, talvez consigamos prestar atenção nas flores que nossos defeitos deixaram nos caminhos alheios.

Autoestima baixa é olhar o vaso e esquecer o caminho. Vaidade é olhar o caminho e esquecer o vaso. Viver é perceber que uma coisa tem sempre a ver com a outra. Pode vir alguém de fora para nos dizer isso, como na parábola, ou podemos nós mesmos, se quisermos, perceber isso. Diz aí: qual é a sua escolha, leitor?

Sinais

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Um homem tinha um cachorro que havia criado desde pequenino. Seu carinho era retribuído com uma fidelidade canina. O que dono fazia era aplaudido pelo animalzinho, que o lambia como a dizer “Você é meu ídolo!” Sinais de cumplicidade. O homem amava o cão e o cão amava o homem. Brincavam, explorando o terreno da chácara em que viviam.

O tempo passou e o cãozinho cresceu. O homem confiava no cão e o cão retribuía com sinais de carinho.  As pessoas da cidade, no entanto, viviam dizendo para o homem não dar muita  confiança para o cão. Bicho é bicho e nunca se sabe quando o instinto vai falar mais alto. Mas o homem confiava no cão. O homem casou e sua esposa teve um bebê. Fofo, como todos os bebês. Um riso de Curinga.

Um belo dia, o cão comia sua ração quando o homem se aproximou para lhe fazer um afago. Mas não era um afago sincero. Era um afago de teste. Ele queria ver se o cão preferiria o afago à comida. No fundo queria testar o que diziam na cidade. O cão não vacilou à aproximação. Rosnou e ameaçou morder. O homem forçou a barra, o que era uma sacanagem com quem só havia dado sinais de lealdade até então.

Ferido com a quebra de confiança, o cão mordeu o dono. Esse, assustado, recuou. Reagindo instintivamente, lançou um pedaço de pau contra o animal. Chegou a atingi-lo. O cão e o homem deram sinais de que ficaram ressabiados um com o outro. Principalmente o cão, que estava na dele no início de tudo.

E lá se foi o homem à cidade de novo. Ouviu as mesmas histórias sobre o instinto. Mas dessa vez os sentidos daquelas palavras foram outros. Passou a acreditar no que ouvia. Voltou  para casa convencido de que se desfaria do cão.   Ao chegar, a cena de horror. Rastros de sangue no chão.

O homem pensou na família. Entrou em casa, pegou sua arma, muniu-se de ódio para matar o cão. Eles tinham razão: o instinto se manifestara. Correu em busca da esposa e de seu  bebê. Ela estava no corredor, com as pernas dilaceradas. Fora pega antes de chegar ao quarto, para onde ia para proteger o bebê.

O homem começou a sangrar por dentro. Não queria ver a próxima cena. Fechou os olhos. Rezou para o bebê estar lá. Ao fechar os olhos, sentiu uma lambida na mão e ouviu um  grunhido. Era o cão, todo estropiado, ali na sua frente. O seu ex-melhor amigo era a razão de sua maior dor.

O cão olhou o homem nos olhos. E sorriu. Um riso de sarcasmo talvez. “Viu o que fiz com sua família!”.  O homem mirou e disparou. O cão caiu morto. Não teve nem tempo de gritar de dor. E o bebê? Dirigiu-se ao quarto, já preparando o espírito para o impreparável. Cão miserável!

De repente um choro. O bebê! Vivo! Correu para tomá-lo no colo. Ao entrar no quarto, o bebê estava no berço, chorando, respingado de sangue. Do lado do berço, a onça morta. A mordidas de cachorro. Deu-se o silêncio. Deu-se o vazio. Sentiu uma dor.   O homem sentiu-se só.  Os sinais! O olhar sorridente! A lambida na mão!  O grunhido de orgulho pela guerra vencida…  O homem  deixou de perceber os sinais. Não entendeu os sinais. Irreversível. O bebê, lindo, passa bem, com seu sorriso de Curinga, sem nada saber da história.

A vida é feita de leituras dos sinais do mundo. Às vezes nos equivocamos.

Cachorro velho

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Uma velha senhora foi para um safari na África e levou seu velho vira-lata com ela. Um dia, caçando borboletas, o velho cão, de repente, deu-se conta de que estava perdido. Vagando a esmo, procurando o caminho de volta, o velho cão percebe que um jovem leopardo o viu e caminha em sua direção, com intenção de conseguir um bom almoço . O cachorro velho pensa:

– Oh, oh! Estou mesmo enrascado !
Olhou à volta e viu ossos espalhados no chão por perto. Em vez de apavorar-se mais ainda, o velho cão ajeita-se junto ao osso mais próximo e começa a roê-lo, dando as costas ao predador… Quando o leopardo estava a ponto de dar o bote, o velho cachorro exclama bem alto:

– Cara, este leopardo estava delicioso! Será que tem outros por aí ?

Ouvindo isso, o jovem leopardo, com um arrepio de terror, suspende seu ataque, já quase começado, e se esgueira na direção das árvores.

– Caramba! essa foi por pouco! O velho vira-lata quase me pega!

Um macaco, numa árvore ali perto, viu toda a cena e logo imaginou como fazer bom uso do que vira: em troca de proteção para si, informaria ao predador que o vira-lata não havia comido leopardo algum. E assim foi, rápido, em direção ao leopardo. Mas o velho cachorro o vê correndo na direção do predador em grande velocidade, e pensa :

-Aí tem coisa!

O macaco logo alcança o felino, cochicha-lhe o que interessa e faz um acordo com o leopardo. O jovem leopardo fica furioso por ter sido feito de bobo, e diz:

– Aí, macaco! Suba nas minhas costas para você ver o que acontece com aquele cachorro abusado!’

Agora, o velho cachorro vê um leopardo furioso, vindo em sua direção, com um macaco nas costas, e pensa:

– E agora, o que é que eu posso fazer?

Mas, em vez de correr (sabe que suas pernas doloridas não o levariam longe) o cachorro senta, mais uma vez dando costas aos agressores, e fazendo de conta que ainda não os viu, e quando estavam perto o bastante para ouvi-lo, o velho cão diz :

– Cadê o filho da puta daquele macaco? Tô morrendo de fome! Ele disse que ia trazer outro leopardo para mim e não chega nunca!

Moral da história: não mexa com cachorro velho… idade e habilidade se sobrepõem à juventude e intriga. Sabedoria só vem com idade e experiência.