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A escolha de Sofia

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screen-shot-2017-01-29-at-11-04-37-amO filme é de 1982. Em 1947, Stingo (Peter MacNicol), um jovem aspirante a escritor vindo do sul, vai morar no Brooklyn na casa de Yetta Zimmerman (Rita Karin), que alugava quartos. Lá conhece Sofia Zawistowska (Meryl Streep), sua vizinha do andar de cima, que é polonesa e fora prisioneira em um campo de concentração e Nathan Landau (Kevin Kline), seu namorado, um carismático judeu dono de um temperamento totalmente instável. Em pouco tempo tornam-se amigos, sendo que Stingo não tem a menor ideia dos segredos que Sofia esconde. Dentre esses segredos está a história de seu dilema. Seu dilema surge ao ser forçada por um soldado nazista a escolher um de seus dois filhos para ser morto. Se ela se recusasse a escolher um, ambos seriam mortos. Meryl Streep, como sempre, deu um show e ganhou o Oscar. E mais não conto porque você tem de ir lá assistir ao filme.

Diferentemente da escolha da Sofia de Meryl, de uma brutalidade inimaginável para qualquer pai ou mãe, eu queria falar aqui de outra escolha. A escolha que tantas mães e pais fazem pela vida. A escolha pelo acolhimento de uma vida que chega pela adoção.

Adotar é um ato de coragem, de grandeza e de amor. Requer coragem acolher como seu um filho que não foi gerado biologicamente nas suas entranhas, que já vem semipronto com sua breve experiência de vida, com porções de sua personalidade já marcadas por um período da infância sobre o qual se sabe pouco ou nada. Requer coragem porque foge à ordem natural da procriação biológica. Essa coragem, no entanto, vem acompanhada de uma grandeza imensa. Porque tudo isso vira detalhe em função do acolhimento, tudo o de antes se esvai ao tomar a criança no colo pela primeira vez, ao ver seu sorriso iluminando magicamente a nossa alma. E isso é amor, em uma das suas formas mais bonitas.

Nosso mundo é plural e, por isso, as verdades são plurais também. Há pessoas que acham que só se deve ter relações sexuais para procriar. Outros veem no sexo de um casal, além da necessidade fisiológica da espécie, um momento sublime de estreitamento de laços afetivos, de cumplicidade; há quem só considere como possibilidade o parto normal. Há quem entenda que o parto cesárea é um recurso da medicina, que deve ser usado por uma série de razões, como evitar que a mãe sofra por horas no esforço do parto normal, sofrimento esse imediatamente rebatido e ressignificado como privilégio pelo discurso dos naturalistas; há quem sustente que filho é apenas uma categoria biológica. E há os que sabem que filho é uma categoria simbólica. Mais do que isso: um sujeito que vai se fazendo pelo afeto. Para uns, nasce-se filho. Para outros, faz-se filho.

Também tenho meus sentidos sobre família, filho, irmãos, pais, adoação. O biológico é importante, mas, para mim, muito mais importante é a construção simbólica que alicerça as relações. Há irmãos que vieram de diferentes barrigas que são mais irmãos que Yaqub e Omar, que vieram do mesmo óvulo. Há pais e mães impedidos biologicamente de ter seus filhos que são mais pais e mais mães do que muitos pais e mães que põem crianças no mundo e se eximem do exercício dos papéis simbólicos de pai e mãe, tão fundamentais para o sujeito, absolutamente estruturantes seja lá qual for a teoria da personalidade que você escolha na psicologia para explicar. Tão importantes que tive de repetir ‘pai’ e ‘mãe’ tantas vezes nesse parágrafo.

Muitas pessoas adotam, mas se deixam escravizar pelo conceito biológico. Escondem da criança adotada sua condição de adotada enquanto podem. É como se a adoação não fosse uma filiação plena, o que ela só passa a ser se “filho” for entendido, repito, como um lugar construído e não como uma condição biológica apenas. Particularmente penso que as pessoas têm direito à sua história. Que os filhos adotivos devam saber de sua condição desde cedo, encontrando-se, claro, as formas adequadas para se apresentar a situação. O filho da barriga, o filho do coração. Deve estar claro que ele/ela jamais será filho biológico de seus pais. Para muitos, essa é uma falta que precisa ser bem elaborada e desconstruída, seu peso nos ombros aliviado pela ênfase no lugar simbólico de filho/filha, construído pelo acolhimento, pelo afeto, pelo amor da convivência. Os desarranjos do esperado sempre irão requerer dos sujeitos rearranjos. Assim é a vida. Para tudo.

Diz o povão: “Pai é quem cria”. E é isso mesmo. Pode coincidir de que quem crie seja o pai biológico ou não. A vida é uma teia de relações. Precisamos cuidar delas. A família é a teia inicial, a teia de sustentação. Tenha ela a configuração que tenha, seja ela feita do mesmo sangue, seja ela feita da mesma alma.

Chegou a Sofia, minha sobrinha. Adotada pela minha irmã e meu cunhado. Chega brilhando depois de uma longa espera, depois de uma gravidez simbólica regada pacientemente com amor. Oferta-se à nossa família para receber muito carinho, muito cheirinho, muita babação. Vem para nossa família e já é filha, sobrinha, neta, sobrinha-neta, irmã, prima. É como disse o Thomaz Nogueira, veio para ocupar o lugar do vovô na Kombi.

Nosso mundo é um mundo plural. Há quem não acredite que exista alguém lá em cima mexendo os pauzinhos, cuidando do script das nossas vidas. Há quem acredite. Para quem acredita, eu incluído, Sofia fez uma boa negociação por lá e escolheu vir para um colo especial, de uma família bonita, onde certamente será muito feliz. Falei, divaguei e filosofei. Mas, no fundo, era dessa “Escolha de Sofia” que eu queria falar. Ela ainda caprichou na escolha: fechou ter vindo ao mundo no dia do aniversário da minha irmã, a fofura.

Bem-vindo ao seu novo mundo, Sofia. Que a felicidade seja a melhor hóspede, sua e de seus pais, para sempre. É amor, de todas as cores e sabores, que nós desejamos para vocês. Amém.

A vida é muito longa

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“Todas as famílias felizes se parecem, mas cada família infeliz é infeliz à sua maneira”. A frase de Leon Tolstoi em “Anna Karenina” é um dos inícios mais conhecidos na literatura mundial. A ficção sempre explorou os conflitos familiares porque eles são parte da realidade. Da minha e da sua, caro leitor.

Não há família absolutamente feliz. Em tempos de Facebook, podemos até arriscar e afirmar que há famílias felizes na estética digital. São fotos celebrando os bons momentos, mostrando os passeios na Europa ou na praia, compartilhando a intimidade do casal deitado na cama, comendo pipoca e vendo um filme a dois. Filminhos no Instagram mostrando os filhos passeando de bicicleta, no castelo da Disney com o chapéu do Mickey ou brincando felizes com o gatinho ou cachorrinho da casa. São, sim, momentos felizes. Esses momentos são os únicos autorizados a frequentar assiduamente as redes. No entanto, eles constituem somente uma parte da vida, aquela parte que vive na luz. Ninguém posta – ou raramente posta – conflitos, dramas, brigas, traumas familiares. A parte que habita as sombras é marginal à sociedade em rede. Pelo menos diretamente. É claro que a linguagem vaza e os dramas aparecem aqui e ali num post que diz muito, em um comentário feito de forma recorrente, na ausência de um comentário onde deveria ter um. Um pouco de conhecimento sobre linguagem pode ajudar a ver através dessa opacidade. O ser humano se diz pela linguagem e disso ninguém escapa.

O que me provocou a escrita deste texto foi o filme “Álbum de família” (Ousage County). A história é um amálgama de tudo aquilo que não aparece no Facebook. A sempre magistral Meryl Streep é Violet, a matriarca doente que se vê de repente rodeada pela família após o sumiço do marido. A reunião das três filhas e dos agregados é explosiva o suficiente para fazer brotar conflitos latentes. Vêm à tona mágoas, segredos, fracassos. Surgem os dramas internos (filhos prediletos, escolhas feitas e agora alegadas, sentimentos mal trabalhados pelos irmãos em relação aos outros) e externos (relações falidas, rótulos que grudam e paralisam as pessoas, escolhas de vida que afetam as relações).

Cada vez mais penso que o desequilíbrio bom é constitutivo da vida, assim como o colesterol bom, que limpa as artérias. E preciso não esquecer que “a vida é muito longa”, como diz no filme o pai, Bev, um correto Sam Shepard. Ele cita o poeta norte-americano T. S. Elliot, mas explica que Elliot só foi o primeiro a se dar ao trabalho de colocar a frase no papel porque, no limite, todo mundo já sentiu isso em algum momento. É essa sensação melancólica e definitiva que permeia os personagens de “Álbum de Família” e, penso eu, a família de cada um de nós, para além do Facebook. A questão é até que ponto deixamos o desequilíbrio reger as relações e virar desequilíbrio ruim, que tal qual o colesterol ruim entope tudo e causa infarto. É a válvula da panela de pressão: é necessário achar escapes para aliviar a pressão, senão a gente explode.

Se cada vez mais eu me convenço da necessidade do desequilíbrio para fazer a vida funcionar pelo re-equilíbrio, cada vez mais também eu tenho a certeza de que não dá para viver a vida na inércia quando se trata de sentimentos. Não dá para deixar como estar. É preciso ser proativo. A inércia acaba em desequilíbrio ruim e o desequilíbrio ruim, quando domina, mina e acaba as relações. Eu não posso viver a vida de meus irmãos nem posso deixar que o rótulo de queridinho da mamãe, que meu irmão mais velho tem colado em si desde sempre, afete a minha relação com ele ou com minha mãe. Acho pesado às vezes o rótulo de queridinho do papai que meus irmãos me deram, além de achar muito injusto com meu velho, um pai maravilhoso com todos. Mas isso não pode mudar minha relação com nenhum eles. O que nós, irmãos, temos de entender é que uma relação – qualquer uma – é construída reciprocamente. Somos nós com o outro que lhes damos a configuração que queremos. Por isso, não há relações simétricas, iguais, em família. É impossível dada a diversidade humana. Nas relações, você recebe o que você está disposto a dar. Simples assim. E o que você, leitor, está disposto a dar na relação familiar de que tanto você reclama? Essa é um pergunta vital quando se fala em família. Você já se fez essa pergunta? Pois faça e se surpreenda.

Nós temos duas opções lógicas para lidar com nossos irmãos: a primeira, olhar um vazio, um buraco que falta e que se mostra quando há uma plenificação alcançada por um deles: ficar triste com seu sucesso. A outra, mais saudável para o equilíbrio, é buscar se preencher naquilo que o outro tem e nós não: alegrar-se com suas conquistas. E antes que alguém questione se há alguém que fica triste com a vitória de um irmão eu respondo: muito mais do que você imagina. Olhe para o lado.

Eu adoraria viajar pelo mundo como minha irmã ou ter a capacidade de Fênix do meu outro irmão. Queria mesmo saber tocar um instrumento como o mais velho ou correr atrás da vida mais facilmente como a caçula. Eles talvez gostariam de ter algo que eu tenho, não sei. Mas nossas vidas são diferentes e não faz sentido eu me entristecer pelo que eles têm de bom. Porque se eu me ressinto pela vida dos outros, eu paraliso a minha vida e a congelo por incapacidade de lidar com ela, numa relação que acima de tudo precisa ser fraternal e de bem-querer, senão a vida não vale a pena. As relações afetivas têm de ser ganha-ganha, senão para quê?

É assim: a vida em família é um quebra-cabeças em que cada um traz e põe uma peça. Essa peça foi desenhada e construída pela história que cada um viveu. A peça de um se posta por outro não encaixa e com o desencaixe vêm a melancolia e a tristeza. Ou joga-se junto, cada um com suas peças, e se quebra a cabeça coletivamente nessa existência para montar um quadro bonito ou se chuta a bosta do quebra-cabeça de uma vez e se fragmentam definitivamente os laços. O que vai ser? No filme, o chute no quebra-cabeça é épico. E na sua vida em família, leitor?

Na vida em família é preciso fazer ranger as diferenças sem perder a ternura. É preciso dizer sem ferir. É preciso mostrar sem ser mau. Porque se não se explicita o entrave ou se não se mostra a tensão que constitui qualquer relação, ela se potencializa e explode, levando todo mundo junto. Famílias acabam porque não se permitem olhar suas falhas, apontar seus buracos. Assim, não conseguem parar suas sangrias. A sangria corre desatada muitas vezes nos dois extremos: ou com muito grito ou com muito silêncio. Em ambos os casos ninguém escuta. Cabe a cada um trazer tanto as suas vitórias para a celebração coletiva – e o gozo genuinamente conjunto – quanto as suas dores, para, pelo amor fraterno, amenizar o sentimento doído. Tudo, claro, em torno do almoço de domingo na casa da mãe ou naquilo que lhe represente simbolicamente. Cada um que me lê sabe o que dá liga à sua família.

O paradoxo é que na medida em que cada um vai viver a sua vida, os espaços de compartilhamento tendem a se reduzir. Irmãos pouco se sabem naquilo que deveriam por força da roda-viva. As relações, se não forem bem amarradas, tendem a puir por falta de óleo. Por isso momentos em família são importantes, sejam eles aniversários, orações, o almoço semanal. Mas mesmo para quem acha que perdeu o timing, penso eu, sempre é tempo de retomar os laços, as pendências. Sempre dá para trazer à luz mágoas que ruminam fazendo estragos na escuridão da alma. É preciso trabalhar com afeto aquilo que não dá para postar no Facebook, se vocês me entendem.

A vida é muito longa. Difícil, às vezes. E quando se trata de família, é preciso saber cortar o fio certo. Porque todas as famílias felizes se parecem, mas cada família infeliz é infeliz à sua maneira. Se este texto começou com uma frase de “Ana Karenina”, também termina com outra do mesmo livro, aliás um clássico sobre famílias: ”Toda verdade, todo deleite, toda a beleza da vida é feita de sombra e luz”. O filme “Álbum de família” provoca pensar nas sombras e luzes que escondem e iluminam a verdade, o deleite e a beleza que constituem as relações da família mais importante: a nossa. Assistam lá. Depois abracem seus irmãos e seus pais. Ainda dá tempo. SF

Sísifo de Amor

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A gente aguenta, segura, suporta. Não para ser forte, mas para proteger os nossos das intempéries da vida ao máximo. Vai levando, vai pulando buracos, desguiando de postes, subindo ladeiras com pedras nas costas. Mas a falibilidade humana chega e você quebra. É a hora em que os nossos, protegidos, vêm e acarinham nosso rosto, apertam a nossa mão. Para que a gente tenha força de chegar à próxima esquina, subir a próxima ladeira e começar tudo de novo. Até a próxima pausa.

Quando Barbies arrumam as malas

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Decidimos ir na sexta-feira à tarde ao Lar Batista Janell Doylle, uma casa que acolhe crianças de 0 a 12 anos abandonadas pela família, vítimas de HIV e com necessidades especiais. A visita tinha um duplo objetivo: doar os brinquedos com que minhas duas filhas não brincam mais e mostrar a elas a dura realidade de crianças sem uma família estruturada. Elas mesmas separaram os brinquedos, com a ajuda da mãe. Marina, de cinco anos, sempre muito apegada a tudo, desde a pessoas até a uma chupeta velha furada, teve mais trabalho para decidir se desfazer de alguns dos brinquedos. A maior dificuldade foi uma bicicleta de rodinha das princesas. Ela ganhou uma maior de aniversário. Para Clara, seis anos, mais decidida e desapegada, foi mais fácil. Várias Barbies arrumaram as malas.

Tudo e todos prontos. Caiu uma chuva torrencial em Manaus que impediu qualquer saída prudente de casa. Adiamos para o dia seguinte, então.

A ida teve minha tia Céu como cicerone. Ela disse que conhecia a Magaly Arruda, diretora do lugar, o que era verdade. Ela disse também que conhecia o caminho até o lugar, o que era mentira. Depois de um tempinho perdidos no Mauazinho, um dos bairros mais afastados da Zona Leste de Manaus, chegamos, contando para isso com a ajuda de um mototaxista e dos solícitos moradores. Um deles muito bêbado, é verdade. Mas muito solícito. No meio do caminho, Marina sussurrou no meu ouvido algumas vezes: “Pai, quando você puder, você compra outra bicicleta de princesa pra mim?”

Ao chegar, vimos que havia um grupo de pessoas de uma congregação religiosa com as crianças. Eles fizeram uma oração, distribuíram brinquedos e brincaram com elas. Nossos brinquedos tinham sido deixados na sala da administração. Eu e a mãe já havíamos explicado às meninas o que faríamos ali. Mas ao chegar, elas ficaram sentadas por alguns minutos olhando tudo e processando o ambiente e as informações. Conheço minhas filhas. Suas cabecinhas estavam a mil. As instalações nos foram mostradas. Depois,  aproveitamos e nos misturamos a todos, brincando e conversando com as crianças. Minhas filhas, como crianças que são, logo se misturaram também.

Quando ainda estava na sala da administração, fui surpreendido por um abraço apertado e carinhoso de uma criança muito simpática e conversadora. Fazia tempo que eu não era abraçado assim por uma criança sem ser minhas filhas. A ausência da figura paterna faz o afeto acumulado vir em estado bruto, em busca desesperada de uma pessoa sobre quem se derramar. Pergunto o seu nome e ele responde com um sorrisão aberto: É J. E saiu correndo para brincar.

Enquanto todo mundo se mistura, eu fico tirando fotos, devidamente instruído de que não posso publicá-las por razões óbvias. As fotos que tirei mostram crianças com olhos trazendo uma  felicidade gorda pelo brinquedo recebido, numa pausa momentânea da tristeza amarga pela situação de cada um. J chega abraçando e pede para eu bater uma foto sua. Depois pede para ele mesmo bater uma foto. Emprestei meu brinquedo para ele, uma Nikon D7000. Ele bateu umas três fotos e ficou felicíssimo. A foto acima é de sua autoria.

Minha mulher pede para eu dar a máquina para que ela faça algumas fotos em que eu apareça. Um menino meio lourinho logo se joga no meu colo, sem que eu precisasse fazer qualquer menção. A foto é batida e ele continua lá. A Bia leva a máquina e eu fico ali, sentado no batente com o menino recostado em meu peito, como se aquele fosse o lugar mais aconchegante do mundo para ele. Desconfio que era. Passo a mão em sua cabeça. Depois de uns cinco minutos, ele salta do meu colo, dá um sorriso e vai jogar bola.

De repente, uma menina um pouco mais nova que a Marina começa a chorar no colo de um moço da igreja. Eu chego perto, pergunto o seu nome e por que ela chora. O rapaz diz que ela queria um brinquedo que a outra pegou. Olho para a Bia e, sem falar nada, ela entende na hora. O amor tem dessas. Ela vai buscar duas Barbies lá no meio de nossos ex-brinquedos. Chamo Clara e Marina para entregar as Barbies. Marina entrega uma à menina que chorava. A menina abre um sorriso imenso. Minha filha também. Clara entrega a outra Barbie para uma criança maior, que acompanhava tudo de perto e se aproximou mais ainda se insinuando. Seu rosto era de uma alegria indescritível. Minhas filhas sentiram a felicidade que dá fazer alguém feliz, tenho certeza.

A ida ao Lar Janell Doylle não foi só uma lição de solidariedade para as minhas filhas. Teve seus efeitos em mim também. Algumas vezes fui até o fundo do pátio com o pretexto de trocar a lente da máquina ou qualquer desculpa assim. Mas fui mesmo enxugar algumas lágrimas que saiam por conta própria por causa de um monte de coisas: da pobreza, da desigualdade social, do destino daquelas crianças, do trabalho bonito feito por aquelas pessoas, pelo carinho recebido das crianças, por minhas filhas terem uma família. Minimizei centenas de problemas meus, da greve que estou fazendo na universidade à falta recorrente de grana, diretamente relacionada a ela. Tudo é questão de parâmetros. O que se tem de importante é intangível. O resto é resto.

A chuva da sexta nos fez ir no sábado, na hora da final do vôlei feminino. Pensei em ficar em casa para ver o jogo. Mas desliguei a TV no início do segundo set e fui tranquilo. Deus é sábio, fazendo chover na hora certa. Fiquei feliz ao saber pelo Twitter que o Brasil ganhou a medalha de ouro numa modalidade esportiva, mas inevitavelmente triste ao lembrar que se o Brasil é ouro no vôlei, ele ainda se encontra na rabeta da desigualdade social, que gera grande parte daquilo que estava vendo.

Na volta, no carro, Clarinha disse: “Pai, quando eu crescer eu vou fazer um lugar para tomar conta de todos os gatos e cachorros que não tiverem casa. Eu vou tomar conta deles todos.” Foi a sua forma de dizer o quanto aquilo tinha mexido com ela, que ama bichinhos. Marina disse, desapegada de fato: “Eu tenho certeza que o presente que elas vão gostar mais vai ser da bicicleta de princesa”. E completou: “Sabe, pai, estou morta de tristeza por dentro, mas viva de felicidade por fora”. Ninguém precisou dizer mais nada.

Feliz Dia dos Pais. Para você que teve ou tem um.

Códigos de Família

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Não é novidade para ninguém que gosto de ler. Muito e de tudo. Até anúncio de missa de sétimo dia. Com a Internet, as possibilidades de leitura se multiplicaram. A informação hoje chega invadindo nossos olhos e mentes por todos os lados.

Ler numa tela é algo tem melhorado com a tecnologia, mas não há nada como um bom livro. Tenho um iPad e o uso para ler de vez em quando. A despeito da proliferação dos “e-books”, o livro é insubstituível. Comprar e cheirar livro novo é um prazer inigualável. Só quem cheira sabe. Compro muitos livros. Precisaria me converter ao espiritismo para poder ler todos eles. Umas três vidas, no mínimo, para ler tudo. Depois de devidamente cheirados e incorporados ao acervo com meu nome, data e local, os ponho para repousar na cabeceira da cama, em uma pilha. Os livros se multiplicam com uma fertilidade nordestina. O que estava na vez e que serve de mote para este escrito é o de Zélia Gattai, cujo título é “Códigos de Família”.

Peguei o livro da pilha às dez e o devolvi, completamente lido e devorado, às duas da manhã. Que livro delicioso. Tão bom quanto um sorvete Hagen-Dazs de morango ou uma boa chupada em um maracujá-do-mato. Gostei dos dois livros que li escritos por Zélia, “Anarquistas, Graças a Deus” e esse. Mas esse é melhor. O livro narra a origem dos vários códigos de família da família de Jorge Amado. Como disse, é delicioso. Vale a pena como presente, nem que seja autopresente ou presente-armadilha (aquele que a gente dá para o cônjuge, mas que quem usa é a gente).

Toda família tem seus códigos, expressões e gestos que só são compreendidos pelos seus membros. Os forasteiros ficam com cara de bobos tentando entender uma frase que contem uma expressão que só os que conhecem a história captam. Lendo os códigos da família Amado, fiquei tentando lembrar os códigos dos Freire de Souza. Depois, refletindo, percebi que cada família poderia fazer um dicionário trazendo manifestações da deontologia familiar.

Resolvi, então, abrir a caixa-preta. Vou começar escrever sobre os códigos de minha família e contar as histórias que os originaram. Em alguns casos, talvez, mude o nome dos envolvidos para evitar uma reedição baré de Caim e Abel.

Abater nos megas. Nos primórdios da computação, quando um pente de memória RAM custava os olhos da cara e mais o lóbulo das orelhas, decidi fazer um upgrade. Passei meu poderoso XT de quatro megabytes de RAM para oito. Desfiz-me de quatro pentes de um mega e coloquei dois pentes de quatro. Sensível diferença. O que fazer então com os quatro pentes de um? Vender, lógico. Vendi para o Paulo, meu irmão mais velho. Hoje digito no meu computador de 8 Giga de RAM o causo do calote dos megas. O Paulo nunca pagou. E, cara-de-pau, ainda fez vários outros negócios comigo. Logo depois, vendi outra coisa de que não me lembro para ele e ele me saiu com a proposta: “Seguinte: em vez de eu te pagar tudo em dinheiro, abate nos megas”. Desde então, abate nos megas virou sinônimo de negócio feito cujo vendedor sabe que jamais verá a cor do dinheiro. Exemplo: “Estou precisando de um cartão de memória. Tem um aí?” “Tenho. Quando é que tu me pagas de volta?”. “Ah, abate nos megas”.

Coça o dente. Tenho um primo-irmão, o Junior. O apelido dele é Nirou. A etimologia do apelido é a seguinte: quando era menor, o Nirou apareceu com um corte de cabelo de cuia, parecido com a cabeleira do Stênio Garcia em “A Muralha”. Como a minissérie ainda não passava, o que mais perto chegou para comparar era a cabeleira do famoso colunista social baré Little Box, o Caixinha, brutamente assassinado. Passamos, então, a chamar o Junior de Little Box e depois só Little. A língua muda e, para a alegria do deputado Aldo Rabelo, o Little foi aportuguesado e virou Nirou. Pois bem. O Nirou namorava a Jana há uns doze anos então. Com o tempo, sabe como é, as pessoas começam a pressionar o cidadão para parar com a enrolação e casar. O Nirou também passou por isso. Em um aniversário lá em casa, o assunto caiu em casamento. O Nirou só olhando, encostado na porta, esperando o povo cair matando. De repente, alguém vira à queima-roupa e pergunta: “E tu, Nirou? Quando vais casar com a Jana?” O sorriso do Nirou foi mais amarelo do que bunda de japonês com hepatite. Ele olhou, riu, coçou o dente e disse: “Ãh? Tão falando comigo?” Mas foi tão falso que ele mesmo comentou, imediatamente: “Ih, ó, olha eu disfarçando… até cocei o dente…” A gargalhada foi geral. Quando então alguém pergunta algo embaraçoso na frente dos outros, algo com o qual o coitado se enrola todo, ficando mudo, o coro vem em uníssono: “Ai, ai… coça o dente, coça o dente!”. O Nirou, a propósito, parou de coçar o dente e casou.

Victor Shaft. Minha irmã Paula namorou um velho piloto da VASP (VASP! Pra você ver como ele era velho). Para se ter uma ideia, meu pai, sacaneando, falava que ele pensou várias vezes em deixar a beldade se servir primeiro no jantar e dizer: “o senhor primeiro, que é mais velho”. Todos estávamos preocupados com as intenções do seu Barrote (nome fictício, claro). Mesmo com todos os “olha!” e “cuidado!” da família, a Paula fez o que sempre faz, ou seja, o que quer. Passou um tempo, o Barrote sumiu. Claro que ele notou que os olhares para ele, nas visitas lá em casa, eram meio enviesados. Um belo dia, chega lá em casa uma carta para a Paula cujo remetente era um tal de Victor Shaft. Eu recebi a carta. Olhei para aquela papagaiada, joguei em cima da mesa e disse para minha mãe: “Esse Barrote pensa que a gente é leso. Será que ele acha que a gente não sabe que essa carta é dele?” E lá em cima da mesa ficaria a carta até a Paula chegar e pegar. Mas antes, chega o Paulo e vê a carta. Levanta, olha para mim e para minha mãe e diz: “Isso é bem presepada do Barrote!” Uns quinze minutos depois chega o Mauro, meu outro irmão. Examina a correspondência para ver se não tinha nada para ele e, ao ver a tal da carta, olha para gente com um olhar de reprovação e diz: “Barrote…” Quando a Paula chegou, dissemos: “Paula, chegou uma carta do Barrote pra ti. Só que ele assinou Victor Shaft”.Ela abriu e não é que era mesmo dele. Os três macacos velhos tinham sentido o cheiro da macacada do Matusalém de longe… Quando alguém quer ficar anônimo, o código é Victor Shaft. “Manda uma carta esculhambando com ela e assina: Victor Shaft”.

32 canais. Não queira participar de uma discussão lá em casa. Todo mundo tem razão. Sempre. Um belo dia, estávamos falando de aparelhos musicais. O Paulo, que é músico, disse que queria comprar uma mesa de som e que ela custava X reais. A Paula, querendo entrar no papo, como se fosse “A” engenheira de som, disse: “Não… essa mesa está cara demais!” O Paulo, respondendo, disse: “Tá não. Tá é barata!” “Tá cara!” Ficaram nessa de tá cara, tá barata, tá cara, tá barata… Até que o Paulo disse: “Tá barata! É de 32 canais!” Aí a Paula deu o braço a torcer, concordando… “Ah, bom! 32 canais! Tudo bem…” “32 canais” virou o código para você dizer “Bom, aí o papo é outro…”.

Vou parando por aqui porque a minha tia Céu acabou de engatar uma terceira. Mas esse código eu explico numa próxima. Aí são 32 canais. E a sua família? Tem algum? Conta pra gente aí!

Olhai os lírios do campo

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“Tendo Deus terminado no sétimo dia a obra que tinha feito, descansou do seu trabalho”. Assim diz a Bíblia no Gênesis, falando da criação do mundo. Na minha época de catecismo na igreja de Aparecida, havia uma professora catequista cujo nome a memória guardou em algum lugar inacessível. Seu rosto de boneca Emília, no entanto, me é bem nítido. Num daqueles sábados ensolarados, aquela jovem professora me disse que as respostas para todas as nossas perguntas estavam naquele livrinho grosso com um fecho éclair. Aquela frase me pegou de jeito. Naquela época eu achava que as todas as respostas estavam no Manual dos Escoteiros Mirins do Huguinho, Zezinho e Luizinho, sobrinhos do Pato Donald. Das duas uma: ou a Bíblia tinha plagiado o Almanaque Disney ou o Almanaque Disney havia copiado as ideias da Bíblia. Verificando que o livro religioso era mais velho do que o gibi, dei o crédito para Deus, sem no entanto deixar de desejar o Manual, um livro mágico que certamente mexeu com a imaginação de muito guri na década de 70.

Tenho andado meio angustiado e cansado das coisas. Lembrando então da professora catequista, resolvi pegar a minha Bíblia para tentar entender a razão. Fui buscar respostas onde deveriam estar, como prometera a professora. Sendo catequista, claro que ela deveria saber o que estava dizendo. Abri a Bíblia aleatoriamente e fui bater exatamente na passagem que começa esse escrito. Tentei então fazer a ponte: o que Deus queria me dizer com isso? Será que eu tenho que descansar? Descansar do quê, mais especificamente? Fiquei imaginando a época em que a gente podia tirar essas dúvidas diretamente com Deus, como fizeram Moisés e Abraão. “Como assim, Deus?”, “Deus, dá pra explicar melhor esse negócio aí?”, “Ok, Deus, escreve aqui nessas tábuas um resumo do que tens para me dizer e depois a gente conversa para tirar as dúvidas”. Seria mais interessante ouvir a voz de Deus diretamente, sem a necessidade de padres e pastores que a interpretam para nós, sempre a partir de seus anseios e desejos humanos. Fechei os olhos e tentei ouvir a voz de Deus, como Charlton Heston em Os Dez Mandamentos. Queria ser o próprio Pablito Calvo, o menino de Marcelino Pão e Vinho e ficar tête-à-tête com Ele. Como queria falar com Deus, fiz o que manda o Gilberto Gil na música. Apaguei a luz, calei a voz, folguei os nós dos sapatos, dos desejos, dos anseios. E dormi.

Acho que Deus passou, falou e o belezinha aqui dormiu. No entanto, quando acordei já tinha a resposta. A inspiração divina ficou. O Todo – Todo-Poderoso é só para os menos chegados – queria me dizer exatamente o que diz no Gênesis: se até eu que sou Eu descansei, quem és tu, pobre caboquinho pávulo baré, para querer viver numa roda-viva sem descanso, vivendo mais angustiado do que barata de barriga pra cima, zanzando de um lado para o outro, que nem bolacha em boca de velha? Foi aí que Deus se encontrou com Karl Marx.

Marx dizia que é preciso entender como a sociedade se estrutura para poder propor análises e mudanças. Por isso estudou a fundo o capitalismo, elaborando conceitos interessantíssimos que ainda hoje – no capitalismo tardio – vivemos literalmente na pele. Um desses conceitos é a noção de mais-valia. Para quem fugiu das aulas de sociologia, aqui vai um exemplo caricato: um professor recebe xis por uma hora-aula, que é o tempo em que está na sala de aula com seus alunos. Só que para estar lá, ele precisa ler, estudar, preparar a aula, corrigir as provas, etc etc. Esse tempo excedente não é pago pelo patrão. Ele (o patrão) se apropria desse tempo, acumulando esse excedente e transformando em lucro. É a essência do capitalismo: quanto maior a produção e menor o salário, maior será o lucro. “Sim, mas cadê o encontro de Deus com Marx?”, já pergunta um leitor mais ansioso.

A tese de Deus: é preciso trabalhar e fazer bem feito, mas é necessário descansar também, meu filho. A antítese de Marx: no sistema capitalista, parte do trabalho do homem é apropriada pelo outro, companheiro. A síntese do Sérgio: quanto mais eu trabalho, menos eu descanso e mais sou explorado, meu caboco. Alguém vai ficando muito mais rico e eu vou ficando bem mais cansado. Por sua vez, o cansaço atinge não somente o meu corpo, mas também minh’alma, para usar uma contração que tem um charme religioso. Que faço eu? Deixo de trabalhar, então? Deus, o que fazer? Recorri à receita de Gilberto Gil de novo: deitei e esqueci a data, perdi as contas, tive as mãos vazias e pus a alma e o corpo nus. Dormi de novo, na esperança de que a resposta me fosse dada.

Essa técnica do Gil funciona mesmo. Ao acordar, tinha na cabeça a ideia que buscava. De início veio uma frase surrada: “O trabalho é importante e dignifica o homem”. Além disso, é o trabalho que garante o toddynho e o croissant com provolone do papai aqui. Então não posso deixar de trabalhar. A bem da verdade, nem quero. Gosto muito do que faço e já escrevi sobre isso. Mas preciso olhar com mais cuidado para minh’alma. E para dar uma boa guaribada em minh’alma, eu definitivamente preciso descansar. Descansar não significa dormir o dia inteiro. Descansar é esquecer do trabalho, mas lembrando das pequenas grandes coisas da vida. Abri de Bíblia de novo e ela me diz, em Eclesiastes 3, que “há um tempo para cada coisa na face da terra. Comer, beber e gozar do fruto do trabalho é um dom de Deus”. Juntando Marx e Deus de novo, decidi que vou trabalhar somente nos meus dias e horários de trabalho (essa é minha colaboração contra o capitalismo, companheiro professor), portanto fazendo o meu trabalho ser mais bem pago. Vou usar a experiência para tentar fazer mais em menos tempo. No tempo da mais-valia, apropriado por meu patrão, vou comer, beber e gozar o fruto de minha lida do horário trabalhado e efetivamente pago.

Portanto, já decretei: não mais trabalho aos domingos e feriados. Nesses dias, quero encontrar a minha família, rir com meus irmãos, espairecer com meus amigos, cafungar a minha mulher. De segunda a sábado, tudo bem, batente. Mas domingos e feriados são dias de descanso. Descanso junto à família, aos pais, irmãos, amigos, cônjuge, gato, o escambau a quatro que não seja ligado ao trabalho. Chega de ouvir minha mãe reclamando que ando sumido, meu pai mandando recado dizendo que está com saudade, como se vivêssemos em países distantes. Esse tempo precisa ser recuperado. É tempo para rir, se divertir, ver um filme de Chaplin, ouvir a coleção inteira do John Lennon, tomar café da manhã na estrada, jogar boliche, ler Florbela Espanca, coçar o saco, que seja. É tempo de tomar um banho na piscina do condomínio caro que pago e raramente uso porque tenho que trabalhar em casa. Isso já me rendeu até uma bronca do Roberto, o porteiro do meu prédio: “Seu Sérgio, aproveite seu patrimônio. Vá pra piscina, seu Sérgio…” Agora decidi mesmo: quero esquecer completamente as pequenezas e picuinhas do trabalho. De preferência de bubuia na piscina. Quero ler um livro sem culpa pela pilha de trabalhos para corrigir, sem ficar angustiado pela prova que ainda tenho que elaborar ou por aquele parecer sobre aquele processo que eu preciso dar.

Arrisco dizer que esse mundo véio sem porteira seria bem melhor se as pessoas ouvissem um pouco mais a Deus e a Marx. A Neila, a menina que limpa e arruma aqui em casa, me disse sobre o assunto em questão: “Seu Sérgio, o trabalho existe para nos ajudar a viver. Viver para o trabalho é inverter a ordem das coisas. É uma questão vetorial. Se nós não invertêssemos as coisas, não precisaríamos tanto de analistas e psicólogos, de Dorflexes e Lexotans. Não reclamaríamos tanto de falta de tempo para conversar com nossos queridos e seriamos certamente menos estressados. Teríamos filhos mais bem educados, seríamos menos neuróticos e mais tolerantes. Teríamos uma vida qualitativamente muito melhor e menos belicosa”. Pare aí e pense, leitor querido: a Neila tem ou não tem razão? Você trabalha para viver ou vive para trabalhar? Você permite que seu patrão se aproprie do tempo em que você deveria estar com sua família para que ele possa cada vez mais usufruir a dele? É justo isso? Você entra mesmo nesse jogo capitalista de corpo e alma? Avalie seriamente essa questão, reflita e me mande um e-mail. Aposto minha coleção de corujas que a maioria das pessoas vai reconhecer que veste demais da conta a camisa da empresa para a qual trabalha, despindo necessariamente para isso a camisa de outros times, entre as quais a do família e amigos.

Para mim, a mensagem foi clara como a luz do sol, clareira luminosa na escuridão. Trabalho é trabalho. Deve ser bem feito e caprichado. Descanso é descanso. Deve ser bem feito e caprichado. Agora é trabalhar isso na minha cabeça. Melhor dizendo: melhor é descansar minha cabeça do excesso de trabalho. Desligar. Puxar momentaneamente o plugue. E olhar os lírios do campo. Para entender como lidar melhor com o trabalho em uma sociedade como a nossa, sinto a necessidade de reler Marx. Para lidar com o cansaço d’alma, nada como ouvir a voz silenciosa de Deus. Ainda tem gente que acha que esses dois não combinam. Bom, vamos dar um desconto. Certamente essas pessoas devem estar estressadas e já não veem as coisas tão facilmente. Estão precisando descansar. Amém, companheiro.

22 de abril de 2004

P-46

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Há um planeta distante da Terra. Como todos os planetas distantes da Terra, ele é identificado por uma sigla em vez de um nome. É o planeta P-46.

Os habitantes do P-46 são diferentes dos da Terra. Não em sua forma física. Os P-46 e os terráqueos possuem a mesma forma. Tanto é que habitantes do P-46 vêm à Terra e habitantes da Terra são mandados à P-46, sem que ninguém perceba que não são nativos dos planetas para os quais são enviados. O intercâmbio existe para equilibrar o plano cósmico.

Os P-46 são poetas por natureza. Alguns raros não fazem poesias e são homens de negócio. Esses fazem parte da Academia P-46 de Homens Comuns. Mas a maioria dos P-46 vê nas seis luas do planeta motivos e razões para compor músicas e poemas, para cantar canções e decantar belezas. Não só são artistas na música, mas suas vidas são levadas dentro de uma estética muito particular. Podem até fazer outras coisas eventualmente, mas são um povo das artes.

Os P-46 possuem outra característica: eles vivem a política da nave despressurizada. Quando uma nave, como um avião, por exemplo, para usarmos exemplos da Terra, é despressurizada, máscaras de oxigênio caem automaticamente em frente aos passageiros. Passageiros adultos devem colocar a máscara primeiro em si e só depois, já seguros, devem colocar a máscara nas crianças. Caso contrário, corre-se o risco de desmaiar e não poder ajudar ninguém. Os P-46, portanto, sabem que se amar e cuidar de si é fundamental e prioritário sobre tudo. Seguram sua máscara com força na mão.

No amor, os P-46 são serial lovers. Amam muito e com muita intensidade. Não guardam rastros de antigos amores, o que não significa que não gostem nem desvalorizem quem passou antes pelo seu coração. Não. Mas são seres intensamente focados no presente. Quando amam, amam 100% e sua atenção em mostrar à pessoa que amam o quanto amam faz o resto do mundo se tornar secundário.

Embora queiram se mostrar independentes, os P-46 nunca cortam o cordão com sua família imediata. São umbilicalmente ligados e dependentes do amor fraternal, maternal e paternal. Quando têm filhos, sempre muitos, distribuem seu amor paterno de uma forma toda peculiar, mas que sempre deixa nos filhos a certeza de que ele é pra valer. Para os P-46, paternidade não é presença física – é até impossível para eles, de tão filhentos que são. Paternidade é algo que se inventa de forma diferente que só eles e os filhos sabem, de uma forma verdadeira.

Por serem seres da arte, os P-46 são inquietos. Não gostam de planos. Gostam do impulso. O impulso os move. Quando querem algo, dane-se o resto do planeta. O desejo tem de ser preenchido sob risco de explosão da cabeça ou do coração. Às vezes, eles não se entendem e vão buscar ajuda nas ciências da alma da cosmologia P-46. Nem sempre conseguem. Porque, no fundo, nem precisam. São assim. Ponto.

Poesia, amor por si, amor para dar sempre e muito, dependência afetiva e impulso. Na Terra, alguns leem isso como porralouquice, egoísmo, inconstância, imaturidade e irresponsabilidade. Mas são efeitos da leitura dos olhos acostumados dos terráqueos. Sabe-se que os P-46 têm os olhos desacostumados de poeta. Todas as crianças do P-46 são mandadas para passar a infância na Terra. Por isso crianças são poéticas. Por isso se gostam, por isso abraçam e beijam sem pedir nada em troca. Crianças são seres que precisam de afeto, de amor. E sempre agem por impulso do prazer imediato. Quando entram na idade adulta, os P-46 regressam para o seu planeta, poético, artístico, leve, para continuar sendo o que são em essência e a viver lá sua poesia. Por isso, P-46 é o planeta mais poético e de alma leve do universo inteiro.

Sabe-se que alguns P-46 acabam ficando por aqui. Eles se misturam e se passam por seres desse planeta, não sem sofrer a rotulação dos terráqueos comuns e adultizados. Mas os que ficam na Terra continuam na essência um P-46. Sabe Pablo Picasso? Sabe Vinícius de Moraes? E um tal de Elvis Presley? Mick Jagger? Tom Jobim? Fábio Junior? John Lennon? Albert Einstein? Gretchen? Ah, tem aquela Elizabeth Taylor também… Pois é. Todos P-46 que ficaram.

Meu irmão Paulo faz 46 anos de Terra. Parabéns, mano. Não volta para lá tão cedo, não, tá? Caetaneando, com a ironia dos 32 canais, “cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é…”. Eu te amo, meu irmão. Do teu irmão terráqueo que tenta, em vão, imitar os P-46 autênticos.