família

Um dia de domingo

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Para os Ms.

Eu preciso te falar/Te encontrar de qualquer jeito/Pra sentar e conversar/Depois andar de encontro ao vento/Eu preciso respirar o mesmo ar que te rodeia/E na pele quero ter o mesmo sol que te bronzeia/Eu preciso te tocar/E outra vez te ver sorrindo/ Te encontrar num sonho lindo/Já não dá mais pra viver um sentimento sem sentido/Eu preciso descobrir a emoção de estar contigo/Ver o sol amanhecer/E ver a vida acontecer/Como um dia de domingo/Faz de conta que ainda é cedo/Tudo vai ficar por conta da emoção/Faz de conta que ainda é cedo/E deixar falar a voz do coração.

E quando a presença da ausência bate forte e transborda dentro de nós? A saudade é um visitante folgado que chega sem avisar numa foto, num cheiro, numa música. Num dia de domingo. Ah, essa vontade de ter o teu ouvido para ouvir minhas falas no timbre que só tu, entre bilhões de pessoas, compreende, do jeito que eu quero que se compreenda… Aí eu te busco. Insano, tento te encontrar de qualquer jeito. Eu te procuro na sala, no quarto, embaixo da cadeira, sob do lençol da cabana. Eu te procuro nos teus objetos que guardo e que guardam teus toques, teu cheiro, teu jeito. Eu te procuro nas pequeníssimas coisas que me lembram o quanto és imenso pra mim. E eu te acho em tudo, mas não te tenho aqui. A tua onipresença se esvazia frente à falta do teu sorriso que não está aqui para eu ver. Eu te quero aqui, com teus olhos a me ler e a me acariciar a alma. Eu te quero aqui, acalentado e acalentando quem te acalenta até o sono tranquilo…

Ah, como eu queria sentar e conversar. No chão da sala, no tapete do quarto, na companhia, ainda que corrida, do alimento. Como eu queria pisar na tua bagunça e me ver nos teus desenhos… Sair por aí de mãos dadas, de encontro ao assanhado vento assanhando com carinho nossos cabelos e soprando para longe nossas inquietações. Em nós juntos, tão apertados, não cabem inquietações. Só placidez. Só mansidão. Tu és minha mansidão… Na tua falta, sou só tormenta, vento desarrumado, ressaca de mar…

Meu ar não é mais o mesmo porque tu não o respiras comigo. Eu preciso respirar o mesmo ar que te rodeia, me molhar na chuva da mesma nuvem que pranteia suas dores sobre o mundo, me bronzear no mesmo sol que te bronzeia, suar junto contigo, ficar acabado, arrasado, morto de vivo pela tua companhia. Mergulhar de mãos dadas nas águas dos sonhos como mergulhamos no rio da vida. De mãos dadas. A mãozinha esticada para eu segurar, que é de?

Tua ausência me faz perceber que tentar preencher vazios com vazios não resolve. Eu invento coisas, escolhos os caminhos mais difíceis só para não ter tempo de sentir a tua falta ao meu lado. Que bobo eu! A tua falta não está ao meu lado. Está dentro de mim. Tu estás em mim. Tu és eu. Eu sou tu. Desde que tu vieste, eu passei a ser tu e não mais eu. Por isso não adianta eu viajar trilhas novas, construir castelos. Eu vou me perder de ti, os castelos cairão como cartas que empilho para o tempo passar. Inútil empreitada… Sem ti, o tempo se redimensiona. Cada segundo é dias. O tempo entre cada piscada é anos. Sem ti, não há tempo. Não há espaço. Só há vácuo.

Amar na ausência é um sentimento sem sentido. Eu não quero pensar em cada segundo que perdi por tu estares longe. O que tu fazes? Por que sorris? O que te faz brotar as lágrimas? Como foi teu dia? Me conta o que tu aprendeste hoje? Perguntas que ficam sem respostas, diminuindo a alma, amiudando o coração, a vontade de viver. Onde o som da tua voz? Não quero perder tua vida. Acompanhá-la e descobri-la contigo, como hei de? Que medo de esquecer a emoção de estar contigo… Eu quero estar contigo. Eu preciso estar contigo. É urgente. Estou mal, sofrendo de hipotu: pouco de ti me enfraquecendo… eu, Popeye raquítico; tu, espinafre da minha alegria.

Vamos ver o sol amanhecer? Vamos correr pela praia, brincar de pular onda? Se enfiar de mãos dadas embaixo da cachoeira gelada? Eu preciso urgente ver a vida acontecer. A vida de verdade. A vida que te inclui na presença, em tudo que eu penso e faço. Ainda é cedo! Não vai ainda seguir o caminho possível que a vida te deu. Que a vida nos deu. Fica, vai ter amor. Só mais um pouquinho… só para mais um cheiro no pescoço, só mais uma cosquinha na barriga, uma história inventada para eu te ensinar a vida e aprender contigo o meu papel… Suspendamos as obrigações! Vamos deixar tudo por conta da emoção… Fica, vai ter vida… Faz de conta que ainda é cedo… Vamos ficar abraçados pra sempre. Só isso que me importa. Vamos deixar falar a voz do coração… que é tão bonita quanto a tua voz nos meus ouvidos, no meu coração… Fica, vai ter um dia de domingo… Eu bem te quis, eu bem te quis… E ainda quero muito mais. Maior do que a imensidão da paz. E bem maior que o Sol. Fica. Então me beija só mais uma vez, pelo menos. Depois volta pra lá…

A goiabeira da casa 20

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Páscoa é passagem. É passar, mudar. Muitos são os que nos lembram da necessidade de mudar nesses tempos. O ponto sustentado é o de que ninguém está imóvel no mundo, como uma estátua de mármore. A metáfora do mundo contemporâneo é a de Heráclito de Éfeso, do homem que se banha no rio sempre de forma diferente, pois não é mais o mesmo homem e não se tem mais o mesmo rio no segundo banho. Vivemos na urgência do movimento.  Sujeitos que se fragmentam e se adequam à velocidade dos tempos líquidos. Homo liquidus.

Mas mesmo tendo a mudança como regra atual, há em nós o que teima em se perpetuar. Cada um de nós guarda em si traços imutáveis e resistentes em relação às demandas por mudanças que o mundo nos traz. Se muita coisa muda, tantas outras se querem permanentes. Estão bem, obrigado, guardadas em nossa pasta de certezas.

Ainda que sob o olhar da desconfiança, a permanência é boa. A permanência dá segurança. A permanência nos dá chão seguro. Ficamos mais permanentes na medida em que a vida passa. Ousamos menos e nos confortamos com o previsível. A dúvida, alimento da alma juvenil, passa a ser vista como uma possibilidade remota, secundária. A certeza construída e trazida dobrada na carteira é que é o parâmetro. Andar pelo caminho de sempre, olhando as árvores conhecidas e o desenho de seus galhos, traz paz. Anestesiar-se das coisas, vez por outra, é bom.

Quando valorizamos mais a permanência, vivemos surtos nostálgicos. A nostalgia é querer que a memória permaneça como realidade. É querer o que já foi, o que já se moveu. É olhar uma fotografia e desejar a permanência daquele cenário, daqueles personagens, daquele cheiro, daquele gosto. É querer, pelo túnel do tempo das reminiscências, retornar para aquele momento acalentado nas esquinas da nossa memória. É olhar a data no canto da foto e lamentar que aquele dia acabou, como as datas nos cantos das fotos.

Para ser sujeito hoje, nos exigem que desejemos a metamorfose ambulante. É charmoso caminhar, cantar e seguir a canção. Está na agenda coletiva. Mas preciso reconhecer que a permanência tem me ocupado o pensamento nesses últimos dias. Quero ficar mais comigo nas minhas certezas. Quero aquietar-me nos meus quintais conhecidos, vestindo aquela camiseta amolengada pelo tempo, que me abraça mais do que me veste. Quero aquele sapato velho, com toda poesia da música. Quero a casa sem forro e a luz amarela no teto de telha de amianto aparente, pois foi nessa tela que pintei as pinturas das minhas insônia e sonhos da cama de cima do beliche de tempos de criança. Quero a rede de punho, não de bits. Eu quero o bife da mãe.

Não, não brigue comigo, leitor. Não me chame de chato porque quero estacionar por uns tempos o carro da vida, ouvindo a trilha sonora que a embalou, deitado no banco das preocupações reclinado ao máximo. Não me critique porque não quero saber do novo, que me força a mudar e, ao mudar, deixar uma parte de mim para trás. Sinceramente, eu não quero me dar o trabalho de mudar agora. Eu passo. Sem culpa. A culpa vem quando a coisa acontece. Não quero a culpa do não acontecimento. Não ralhe comigo porque a naftalina no canto de minhas gavetas revive o cheiro do amor bom, da brincadeira entre irmãos que se foi, da inocência da amizade cúmplice que já vivi com amigos que, que coisa!, não permaneceram e se foram. Pessoas queridas de quem não tenho mais notícias. Estarão lembrando de mim?

Eu quero é a goiabeira da casa 20, a casa da minha infância. Eu quero o pé ralado do futebol no asfalto. Eu quero a minha permanência no tempo que ficou para trás e que, ao mesmo tempo, veio comigo. É dessa permanência de que falo. Da permanência das coisas. Da permanência do mundo. Não lá fora. Mas aqui dentro de mim. Quero repousar nas minhas lembranças.

Eu não quero inundar o mundo com o excesso de falas novas para preencher o vazio aqui de dentro. O grito exagerado revela o silêncio ensurdecedor da psiquê sem controle. Fala-se para Não se ouvir. O vazio aqui dentro eu quero preencher, sim, mas com o transbordamento de mim mesmo. Quero transbordar para dentro e não para fora. Transbordar para fora é uma forma de exorcismo. Transbordar para dentro é uma forma de oração. Por falar nisso, quero o Deus da missa das crianças de domingo de manhã.

Hoje um homem de mármore mora no 603. Mas ainda visita a casa 20 do moleque danado. Porque Páscoa, afinal, é passagem, não é? Pensei em voz alta… Desculpe, leitor, viajei parado. Enfim… tenha uma Boa Páscoa. Na mudança ou na permanência. No 603 ou na casa 20. Ou onde quer que sua (in)quietude esteja. Esse texto é uma metáfora.

A luz e a flor

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Para a Bia, antecipando o 12 de junho

A vida é simples, a despeito do que falam muitos. Tudo que precisamos é saúde e amor. A saúde é um presente e nos cabe dela cuidar no dia a dia. O amor é um presente e nos cabe dele zelar com as mãos de um jardineiro.

O amor nasce sem que ninguém plante, como as mais belas orquídeas nas florestas. Os encontros de dois estranhos metaforizam o encontro da semente adormecida no solo fértil e do sol que alimenta de luz a vida que nasce. Brota simplesmente. Por vezes, A mão de eventuais jardineiros amigos interfere para que esse encontro aconteça.

A flor, quando brota, busca o sol. Ela precisa de luz. Ela aposta na luz. Tem dificuldade de romper o broto e desafiar suas próprias raízes em busca de novos caminhos para seu caule e suas douradas pétalas. Vez por outra, no início, não consegue ver o sol de primeira, pois as copas das árvores a querem iludir dizendo que não há sol, que não há essa luz que busca, que é uma busca vã. Mas teimosamente, e por crer na luz, a flor desafia suas forças, estica seu caule, distancia-se da sua raiz. E vai à busca dquilo que sabe que existe.

A luz, por sua vez, tem como missão iluminar a flor. Atravessar a copa das árvores em lâminas finas de energia para cumprir a determinação divina. E insiste também em rasgar o manto verde em busca do solo abaixo para que possa tocar, com seus lábios, a flor que anseia por seu beijo.

O encontro da luz com a flor aconteceu. Embora cansados, a luz e a flor ainda acreditavam no desígnio do encontro. A flor encheu-se de felicidade por cumprir sua missão de ser flor: bela, encantadora, cheirosa, flor. A luz encheu-se de esplendor por saber-se útil nos planos de Deus: a luz ainda aquecia, a luz ainda aconchegava. A luz ainda era luz.

A flor foi crescendo e afastando-se de sua raiz. Sempre, eternamente e ternamente ligada à sua raiz, mas distante dela para viver a felicidade de ser flor. A luz, revigorada pela beleza e pelo sorriso que a flor lhe ofertava diariamente, viu-se apaixonada. Com nunca estivera.

A flor virou árvore frondosa. Aproximou-se cada vez mais da luz e, cada vez mais, era luz pelo brilho inegável das pétalas da flor, agora folhas da árvore. E eis que, em um novo presente de Deus, maravilhado com suas criaturas, surgiram novos brotos de flor. Esses brotos de flor, frutos do amor da flor em ser flor em buscar cada vez mais sua floritude, frutificaram. Frutos de amor. Frutos do amor eternos, desenhados desde sempre por sua suprema sabedoria. Filhas da luz e da flor: flores iluminadas.

Tu és a minha flor. Longe das raízes. Bela, bonita, forte. Teu caule sustenta a minha existência. Tuas folhas refrescam-me do calor que às vezes emano em demasiado pelo correr do dia a dia. Teus galhos acolhem-me nos meus dias mais frágeis e mais cansados, como os galhos acolhem o lar de um joão-de-barro ou o ninho do uirapuru.

Quero ser tua luz. Aquela que veio de longe para te conhecer. Aquela que veio de longe pra te iluminar. Te fazer crescer. Te fazer dar frutos. Vem em quando, estou escondido por de trás das copa das árvores da floresta do cotidiano. Mas estou lá. Sempre estive. Sempre estarei. Porque eu sou tua luz. Porque tu és minha flor.

A vida é simples a despeito do que muitos falam. Basta uma flor, basta uma luz, basta um encontro de amor. O resto, a providência faz acontecer. E quero que tu saibas que cada lampejo que da minha luz vier será para iluminar a ti e ao nosso belo jardim. Porque não te colocaste na minha vida e eu não me coloquei na tua à toa. Foi pra tu me perfumares minha alma. Foi pra eu te iluminar o coração. Eu te amo, minha flor. E te quero do meu lado até minha luz apagar de tanto amar. De tanto te amar.

Catando conchas

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Em 1977, meu pai nos levou, meu irmão mais velho e eu, para férias no Rio de Janeiro. Eram tempos bicudos. Ficamos em casa de parentes para economizar. Eu tinha nove anos quando vi o mar pela primeira vez. Eu, um ser dos rios, nunca esqueci a primeira vez que meus olhos me viram no reflexo das ondas. Senti vontade de pedir para meu pai e para meu irmão para me ajudar a olhar aquele mar, de tão grande.

Minha diversão naquelas férias foi recolher conchas do mar. No primeiro dia, recolhi conchas dos mais variados tipos, cores e tamanhos. Lindas. Eram as conchas a materialização do meu primeiro contato com o mar, as lembranças vivas de que eu estivera ali. Enchi um saco plástico enorme com elas.

À noite, um fedor fenomenal tomava conta da casa da Tia Ernestina, nossa anfitriã.  Consternado, tive de jogar fora minha primeira coleta de conchas selecionadas. Foi quando aprendi que quando se retira algo do mar, como as conchas, devemos lavar com água doce. Jamais esqueci. Colecionei conchas naquele verão. Devidamente lavadas e processadas. E elas vieram comigo para Manaus e fizeram o maior sucesso com meus colegas da 4a série da Professora Polari.

Hoje, minha filha Clara foi para praia com um propósito: recolher conchas. O tempo voltou num túnel de lembranças para aquele Rio de 1977. Fui com ela da areia da barraca à areia da praia, onde as ondas lambiam o chão, trazendo e levando conchas, num jogo de manja-pega pensado por Deus para divertir pais e filhos. No caminho para o mar, lembrei-me da criança de nove anos. Molhei o rosto para misturar às lagrimas a água do mar, ambas salgadas. Recolhemos, Clara e eu, conchas dos mais variados tipos, cores e tamanhos. Lindas. A cada concha um sorriso de uma conquista e uma exclamação: “- Olha, pai! Que linda essa!”

Brincamos no mar por um bom tempo. Tanto Clara quanto Marina perdendo o medo de se soltar e enfrentar sozinhas o vai e vem das águas do Guarujá. Entre um caldo e outro, um choro, depois sorriso, entremeados. Clara não dava o braço a torcer: “- Tranquilo, pai! É só água!”, dizia passando a mão no rosto. Marina, tão mais atirada na vida, respeitou o mar com mais reverência. “- Só vou se você for comigo!” A vida requer estilos diferentes para momentos diferentes. Achei digno.

O que isso tudo significa na metáfora da vida?

Minhas filhas vão explorar terrenos novos, vão levar caldos e cair, beber água, tossir e levantar. Vão seguir em frente, tentando não sentir a queda. Por um bom tempo – queira Deus que um bem longo -, eu estarei lá para lhes segurar as mãozinhas confiante no pai. Mas vai chegar um dia em que elas vão ter de pisar no mar da vida sozinhas, sem mãos para lhes dar apoio e suporte. Vai chegar um tempo em que minhas meninas vão tomar seus rumos e decidir se vão querer ficar na areia ou ir embora para o oceano vasto do mundo. Vai chegar um dia em que elas catarão conchinhas em areias que seu pai sequer sonhou em pisar.

É o ciclo da vida. É assim. Mas não deixa de me angustiar. Todo pai e toda mãe queria, se pudesse, carregar seus filhos no colo para sempre. Mente vergonhosamente quem diz que não. De vez em quando, se me conheço, tomarei minhas filhas pela mão e lhes convidarei a buscar conchas num passeio a dois. Mesmo quando forem grandes e tiverem suas famílias. Será o nosso tempo de reviver nossos encontros do hoje presente. E, tenho certeza, acharemos conchas dos mais variados tipos, cores e tamanhos. Lindas. E as lavaremos com água doce para lhes tirar o excesso de sal. Não é assim que devemos fazer com a vida?

Hoje Clara aprendeu que é preciso que a gente faça a nossa parte para as coisas saírem como planejadas. Ela já separou as conchas para levar. Farão um sucesso incrível com a turma do 3o Período. E lá na frente, quando ela estiver catando conchas com seus filhos, o vento soprará a nossa viagem ao Guarujá em sua memória. E ela, junto com os filhos, achará conchas dos mais variados tipos, cores e tamanhos. Lindas. E lembrará a eles que é preciso lavá-las para levá-las. Mas que, acima de tudo, é preciso catar conchas com os filhos.

Guarujá 2011

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Video que fiz das fotos que tirei aqui no Guarujá. =)

Bola de meia, bola de gude

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Há um menino/Há um moleque/Morando sempre no meu coração/Toda vez que o adulto balança/Ele vem pra me dar a mão/Há um passado no meu presente/Um sol bem quente lá no meu quintal/Toda vez que a bruxa me assombra/O menino me dá a mão/E me fala de coisas bonitas/Que eu acredito/Que não deixarão de existir/Amizade, palavra, respeito/Caráter, bondade alegria e amor/Pois não posso/Não devo/Não quero/Viver como toda essa gente/Insiste em viver/E não posso aceitar sossegado/Qualquer sacanagem ser coisa normal/Bola de meia, bola de gude/O solidário não quer solidão/Toda vez que a tristeza me alcança/O menino me dá a mão/Há um menino/Há um moleque/Morando sempre no meu coração/Toda vez que o adulto fraqueja/Ele vem pra me dar a mão…

 

Vez por outra na vida é preciso parar para um balanço. Sim, o balanço infantil mesmo, aqueles dos parquinhos. Sentar, jogar o corpo para frente e para trás, simbolizando o movimento do pensamento que, inquieto, vai para trás em busca das compreensões do que já passou e se joga para frente em projeções da vida por vir.

Estou nesse exato momento sentado no meu balanço. O ano está terminando, outro prestes a começar. O que ficou para trás? O que vem pela frente? Enquanto busco impulso, perguntas começam a brotar na minha cabeça com uma fertilidade nordestina.

Na ida para trás, o balanço faz pensar nas escolhas. Foram acertadas? De todas as certezas que tenho hoje, a mais certa é da opção pela minha família. Não falo da família que já está aqui antes da gente. Essa Deus escolhe por nós e, sem dúvida, Ele foi muito generoso comigo. Falo da família que vem depois da gente. Da companheira com quem você divide ônus e bônus dessa coisa doida que é viver. Dos filhos que daí vêm. Minha família é o meu melhor acerto. Andei em descaminhos em outras tentativas, na vontade sincera de acertar. Não deu. Não era para dar para que desse agora. Lapsos, erros, aprendizagem. Quedas. Reerguidas. Quem não?

Olhando para trás, penso em minha escolha profissional. Com o benefício do tempo passado, tenho certeza de que a escolha da profissão é algo que, como diz o lugar-comum, deve contemplar dois parâmetros: a satisfação pessoal e o retorno financeiro. Esses parâmetros vão dançar, brigando pela prioridade, dependendo do nosso plano de vida. Sou absolutamente realizado como professor. Gosto de gente. Gosto de mexer com cabeças. Gosto de fazer a pessoa sair positivamente diferente de alguma forma em relação a como ela chegou para nosso encontro. Sou doutor, estou bem na carreira, tenho certo reconhecimento profissional. Nota dez no quesito realização. Mas hoje vejo que ignorei o outro lado. Escolhi uma profissão que não traz reconhecimento suficiente do ponto de vista financeiro para o investimento de vida que se faz. Eu gostaria de dar à minha família bem mais. Errei no planejamento. Tivesse eu investido na medicina ou no direito, com esse tempo de estrada, estaríamos bem melhor. A essa altura do campeonato não era para eu estar mais dando aulas aos domingos para fazer as contas fecharem. Nota 2. Na média, 10+2/2 = 6.0, eu passo, mas não convenço. Isso tem me incomodado e me inquietado.

A vida vale a pena quando vivemos inquietações diferentes. Não dá é para morarmos nas mesmas inquietações. Então jogo a cadeira do balanço para frente: é preciso mudar, fazer algo. Não sei viver na mesma inquietação perene. Coisas de quem trabalha com a linguagem, sempre nervosa e mutante. No balanço das horas tudo pode mudar. No entanto, não é fácil. É complicado começar de novo quando a mudança tem impactos em pessoas que você ama. Incertezas para si é um a coisa. Incertezas para os seus é outra. O medo, confesso, paralisa. Já ensaiei e refuguei. Já me convenci e me dissuadi. Já me empolguei e me entorpeci. Há uma dúvida que bate como o badalo do sino que se dobra cotidianamente: o dois certo, com frustração, ou um dez incerto, com risco real de um zero? O medo de ir adiante, de abrir essa porta, faz o mundo parar, a vida procrastinar a vida. 2010 foi um ano inerte.

O banco do balanço volta no rumo de trás. Quando estava como subsecretário de Educação de Manaus, vivi a tal da solidão do poder. Só quem passa por isso sabe o que é. Não me peça para explicar. Em um dia particularmente ruim, abri meus e-mails e lá estava um que dizia: “Não deixa que ninguém te cobre mais do que podes dar. Te amo muito e vou continuar aqui no meu cantinho rezando por ti e por tua família. Que Deus te abençoe e Nossa Senhora te cubra com seu manto, te livre de todos os males que apareçam e te proteja contra a incompreensão, a inveja, a mesquinharia… Te amo muito, muito e te desejo toda a felicidade do mundo”. Era de uma tia minha, a quem amo de paixão, embora o corre-corre da vida não nos deixe muito tempo para abraços e beijos merecidos. Ela mandou isso do nada. Do nada, não. Ela, me conhecendo como me conhecia, tendo me carregado no colo, sentiu a necessidade de chegar perto com carinho, do jeito possível. Quem ama tem uma antena poderosa para captar a angústia silenciosa do ser amado. E foi na hora certa, no dia certo. E teve um efeito balsâmico sobre a minha alma chorosa que talvez nem ela saiba, pois só revelo agora. Não seria eu a me cobrar demais? Guardo o e-mail até hoje. Releio-o quando me sinto fraco, errante, debilitado. Ou em momentos de balanço, como esse.

É essa força invisível incomensurável que me faz, junto com a certeza da minha melhor escolha, arranjar mais forças. Daí eu enxugo minhas lágrimas, que insistem em vir mais recorrentes, e dou um impulso para frente no balanço. E me vejo sorrindo, como uma criança de cinco anos que um dia se balançou feliz, sem preocupações, no playground do jardim-de-infância de uma escolinha no Parque Dez, numa imagem achada na memória afetiva. “Há um menino, há um moleque morando sempre no meu coração. Toda vez que o adulto balança, ele vem pra me dar a mão”. É essa criança que grita para o adulto de 42 anos: “Empurra! Mais forte! Ainda temos tempo de brincar!”. Preciso fechar os olhos e sentir o vento no rosto… Preciso…

Sete mil amores

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Há alguns dias soube da Luíza. Soube por amigos que são amigos da Carol (@ccvarella), sua mãe, e de Marcos (@mv_mao), seu pai. Li um pouco mais sobre o que estava acontecendo no texto do Ismael Benigno Neto. Apesar de não conviver com a família, sempre leio o blog da Carol e com ela troquei mensagens no Twitter sobre diversos assuntos. Gente do bem. E ainda que não seja próximo, fiquei muito triste e abalado com a notícia. Atribuo a tristeza ao sentimento do mundo, sobre que Che Guevara discorreu. Dizia ele que há uma ligação entre todos os seres que habitam o planeta pelo simples fato de pertencermos à raça humana. O que acontece a alguém em algum lugar do mundo a mim importa. Atribuo o abalo ao fato de ser pai e ter filhas. A notícia foi como um soco no peito que me tirou o ar, confesso.

A iminente luta de Luíza e de sua família me fez parar. Fez-me desligar o carro e pausar a roda-vida por alguns dias. Dei um tempo no Twitter, reorganizei prioridades, redesenhei alguns planos para a vida. Inevitável a reação de pai, que o Ismael magistralmente sintetizou em seu texto: “O reflexo involuntário de todo pai é olhar pros filhos, beijá-los, amá-los ainda mais”. Desliguei das coisas e liguei o potenciômetro dos chamegos gratuitos com as minhas filhas ao máximo. Lembrei da efemeridade da vida e das guinadas que ela dá para nos testar, fazer crescer, fazer amar mais. Nada vale a pena se a alma é pequena, parafraseando o poeta. Tantas miudezas, briguinhas, rancores, provocações, mimimis. Tudo reduzido a pó diante do amor que se tem por um filho. Diante do amor. Diante da vida.

Tenho acompanhado silenciosamente os passos de Luíza e sua família. Tenho me fortalecido na fortaleza de Carol e de Marcos, davis gigantes diante de um golias que, como na história, certamente derrotarão. Tenho visto como a solidariedade é realmente um dos mais lindos alimentos da alma. Pessoas de todos os lados, fé, crenças, tribos, fazendo uma corrente de fé pelo final feliz da história de Luíza, manifestando-se de várias formas, uma delas pelo Twibbon da hashtag #ForçaAnaLuiza, em http://twb.ly/d0TxQx.

Não há nada mais precioso do que um filho. Absolutamente nada. Empresto todas as minhas forças aos pais de Luíza. Eu os tenho colocado em minhas orações de pai todos os dias, pedindo ao bom Deus que lhes dê serenidade na turbulência e que mantenha a força descomunal do amor que os pais têm pelos filhos e os filhos têm pelos pais, o mais puro e verdadeiro tipo de amor que o ser humano conhece.

Quando eu era  jovem, sempre disse que um dia que tivesse uma filha ela se chamaria Luíza. É porque sou um ser musical e “Luíza” é uma das mais belas músicas que conheço. Casei, descasei, casei, descasei e casei. E vieram minhas duas filhas, que se chamam Clara e Marina. Uma, a Clara, é um coração de mel, de melão, de sim e de não, feito um bichinho no sol da manhã, novelo de lã. A outra, a Marina, é morena, bonita com que Deus lhe deu. A minha Luíza não veio. Mas veio para outros pais. Veio para o Marcos e para a Carol.

Não há muito a dizer. Mas queria dizer, ainda que fosse pouco:

Marcos e Carol: depois de tudo isso, eu tenho certeza que vamos lhes ver, braços abertos, cantando em uníssono: “Vem cá, Luíza!/Me dá tua mão/O teu desejo é sempre o meu desejo/Vem, me exorciza/Dá-me tua boca/E a rosa louca/vem me dar um beijo/e um raio de sol/nos teus cabelos/como um brilhante, que partindo a luz,/explode em sete cores/Revelando então os sete mil amores/que eu guardei somente pra te dar, Luíza”. Nós estaremos aqui, amigos, fazendo o backing vocal para a canção como se estivéssemos cantando para a Luíza de cada um de nós. Neste momento, a Luíza de vocês é de cada um de nós. É a Luíza dos sete mil amores…

Paula, a pequena sorella barezinha

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O ser humano é engraçado. Para falar coisas desagradáveis e falar mal dos outros é muito fácil. Fulano é um porre de chato, fulana fala demais, sicrano come de boca aberta, beltrano é falsinho que só, a maionese da Tia Céu é liquida demais, enfim… talk is cheap. Falar é fácil. Falar é fácil quando é para direcionar o fura-bolo para os defeitos alheios. Pouco se fala diretamente para a pessoa objeto da fala sobre suas qualidades e sobre as coisas que nela se admira.

Hoje é o aniversário da minha irmã mais velha, Paula. Não, ela não é mais velha do que eu, que giro 42 na segunda. Ela é a mais velha das duas irmãs que tenho. A Paula faz 40 anos. É um aniversário. É o aniversário da minha irmã Ana Paula.

Onde se ligam os dois primeiros parágrafos dessas mal digitadas? O liame é esse aqui, ó: queria nesse texto falar da minha irmã e dizer o quanto eu a admiro e o porquê de eu a considerá-la uma pessoa especial. Só que eu queria pedir licença a você, leitor, para falar diretamente para ela. Posso? Obrigado. Dá licencinha, afasta pra lá. Tá bom assim.

Mana, primeiro, parabéns! Vou usar a frase que Dona Helena (que faz 60 no dia 08) sempre usou ao nos dar os parabéns ao nos acordar no nosso dia: “Deus te proteja, te abençoe, te dê saúde. Juízo nessa cabeça tonta”. Depois da vinheta-padrão, eu queria te dizer algumas coisas hoje que talvez eu nunca tenha verbalizado, apesar de certamente já ter dito.

Eu te admiro muito. E te admiro pela tua determinação. Essa é, sem dúvida, tua maior qualidade. Sempre que tu quiseste as coisas, foste lá e fizeste. Dane-se o mundo que tu não chamas Raimundo! Te chamas Paula. Aliás, pesquisei na Internet e lá está escrito que Paula quer dizer “a pequena”, “a humilde”.  Pequena vá lá que seja, porque afinal todos nós da família Freire de Souza somos prejudicados verticalmente. Mas quanto à humildade terei que discordar… O interessante é que a tua falta de humildade é para consumo interno. Não é daquelas que humilham os outros, mas sim das que fazem a pessoa se autoiluminar, por assim dizer. É como cerveja sem álcool ou cigarro de cravinho. É como a raiva da qual fala Paulo Freire, aquela raiva positiva que faz com que a gente se mova e faça o mundo mudar.

Outra pra ti: Paula vem Paola, italiano. Pra quem tem alma italiana e nasceu na terra dos índios baré por um descuido no setor de distribuição celeste é a glória. Capri, meu bem, é meravigliosa. O Pepino de lá, então, canta como ninguém. A praça da saudade até tinha um avião legal no qual a gente brincava, mas nada como a Fontana di Trevi. O que é bumbódromo frente ao Coliseu? Como torcer pelo Bruninho no vôlei ou para a seleção do Dunga se por direito voluntário tu és uma das tifozzi da Azurra?  Anni Paola Souzzi. Ana Paula Souza. A Barezinha. O racional desejo italiano cede lugar ao inconsciente desejo freudiano de não deixar de ser indiazinha ao escolher para teu e-mail barezinha@uol.com.br. Indiazinha do Amazonas. Uma guerreira. Determinada. E eu te admiro por essa determinação tinideira, sorella.

Mana, tu és vitoriosa. E antes que isso pareça um quadro piegas de um programa vespertino qualquer da Rede TV!, quero dizer que tu és a vitoriosa da música do Ivan Lins. Ao ouvi-la, vem à minha mente a menina briguenta, que na 2ª série enfiou uma bola de papel goela abaixo de uma chata que encheu o saco lá no colégio de freiras das irmãs Aurora-dentro-e-fora e Luzinete-tira-e-mete, como dizia nosso pai para encher o saco. Aparece na foto mental a menina que tem e sempre teve vontade de passar dos seus limites e ir além. Ir sempre além. A irmã que, certa da felicidade incerta do irmão, se recusou até o último minuto a ir ao casamento dele e “compactuar com a infelicidade” por vir. Mas, no fim, acabou indo obrigada pela Dona Helena, de quem herdou o carniteteísmo –  e assim batizo oficialmente a qualidade de ser “carne de tetel”. Mas que na primeira chance de compactuar com a felicidade desse mesmo irmão, acomplosou-se com a possível solução para livrá-lo do casamento falido. E chorou com o fim da cumplicidade quando ela ruiu.

Mana, tu és doce. Doce com tua presença exata no momento exato do colo necessitado, da cumplicidade fraternal no afago restaurador que só os irmãos sabem dar, cada um a seu jeito, na hora da dor. É como daquela vez que despencaste da goiabeira do quintal de peito no chão e correste sem ar em busca do colo dos irmãos. Em todas as nossas quedas das goiabeiras da vida, teu colo de irmã estava lá dizendo: “chora aqui”. Ninguém quer sermão na hora da dor. Ninguém precisa. Dar sermão na hora do corte sangrando é, no humilde ver desse escriba de segunda, um sintoma da incapacidade de lidar com suas próprias dores. Sermão fica para a hora da razão, anos depois. Na hora da dor, o que se espera de quem está perto é colo, carinho, amparo, compaixão. Mesmo errado, a gente quer a certeza da presença de quem a gente gosta no meio do erro cometido, dividindo o cheiro da merda para acabar mais rápido. E isso tu sempre me fizeste na hora das minha dores e eu tentei, sem saber se consegui, te dar nas horas das tuas.

Mana, tu és doida. Doida de fazer coisas que desafiavam e desafiam o que a memória social, moral e religiosa tratam, anacronicamente às vezes, como dogmas. Bater-boca com o pai e mãe (e de tabela comigo, que ortodoxamente não consigo aceitar isso), sumir na noite, fazendo minha mãe me acordar para vagar a cidade atrás de ti, viajar de um lugar para outro em busca da explosão de uma paixão juvenil (juvenil porque TU eras jovem, diga-se…), causando alvoroços nos familiares por causa da decisão. Doida de achar que um portão fechado seria o suficiente para deter o flagra de um irmão curioso. Doida de jogar farinha na cara do Mauro na hora do almoço, sujando a mesa e o chão da cozinha da Dona Helena daquele jeito. Doida pela vida. Doida pela verdade. A tua verdade. Como a das piracemas que deram nome ao fenômeno, como a da mesa de som de 32 canais…Ou seriam 40? Não, são 40 anos.

Mana, feliz aniversário. 40 anos. A vida, digo eu que já passei por aí, está começando dos vera agora. Temos que ter um baita cuidado, por um lado, porque agora é escapole-bate-fica. Por outro, temos de ter prazer de viver também, porque a vida é uma só. E prazer de viver não quer dizer se entregar ao hedonismo desenfreado que esmilgalha vidas em busca de migalhas de prazer indivudual, mas simplemenste lembrar que dos três momentos do dia, só o hoje é material e verdadeiro. O ontem já se foi, servindo de reflexão, e o amanhã se molda em função do hoje, que é o que conta. Mas quanto aos prazeres da vida, isso eu passo e me abstenho de comentar. Prefiro que tu comentes, porque até hoje soubeste viver bem mais intensamente do que eu nessa questão. Desde pequena, quando comeste aquele frango sozinha no restaurante, causando espanto em todo mundo. Espantar os outros comendo, brigando por sonhos, brigando por desejos, brigando por ser Paula: essa é tua sina.

Quando nossa vó caiu doente, antes de morrer, ela soube através da sua doença destravar uma coisa fundamental em mim: a incapacidade de dizer EU TE AMO para as pessoas que amo. E eu te digo em altas e boas caixas: EU TE AMO, MANA. “Deus te proteja, te abençoe, te dê saúde. Juízo nessa cabeça tonta”, com a vida que tu tens, com as pessoas que tu gostas. Porque uma coisa eu sei: Se a tens e se gostas assim é porque é o que tu queres. Porque ninguém faz a minha irmã fazer o que não gosta e o que não quer. Ninguém.

Vem logo para a festa da mãezoca, dia 08, que a gente vai comemorar. Estamos te esperando. E nem precisa pagar nada. Ou então a mãe paga e depois tu acertas, como sempre. Buon compleanno. Ti amo troppo, sorella!

Vambora, Miguelito!

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[Escrevi este texto há exatamaente dez anos, no dia 21 de julho de 2002. Nascia Miguel, meu sobrinho. Eu estava devastado pelo fim de um casamento. Hoje, em homenagem ao Miguel, que aniversaria, e à vida, que sempre se ajeita, republico]

Tabatinga, Alto Solimões, vinte e um de julho, 04:30h da madrugada. O galo canta. Aliás, os galos cantam. Cada um mais vaidoso que o outro. A impressão que tenho aqui do quarto do hotel é que a cada tufar de peito e explosão de som, eles olham para os lados e desafiam uns aos outros, como adolescentes se desafiam em concursos de arrotos.

À sinfonia de galos vaidosos se junta o cantar do celular, rasgando a madrugada de contemplação e introspecção. Mais uma, diga-se de passagem. Atendo entre ansioso e aliviado e vejo que é o Mauro, meu irmão. Feliz como pinto na merda. Nasceu o Miguelzinho, seu primeiro filho. Minha mãe toma-lhe o telefone para dizer que o menino é branquinho e pimbudo, avó vaidosa como os galos cantores tabatinguenses, falando do esporão do rebento. Espero que, se não ajudar, ele não atrapalhe. Que o menino seja a cara da mãe, linda.

Venho para o computador para escrever sobre isso, sobre ser pai. Não adianta dizer que sou desqualificado para falar sobre o assunto porque ainda não sou pai. Eu tenho um grande pai, conheço bons e maus pais. E quero ser pai. Qualificação suficiente. Os galos agora estão cada vez mais vaidosos e aumentam em número e potência seu cântico. Adolescentes desafiados, sabe como é… Abro o programa de música e mando tocar qualquer uma entre as que tenho aqui armazenadas. Talvez a música sobreponha o barulho do galinhame. Peço que o computador escolha aleatoriamente. Um cachorro faz o backing vocal da sinfonia dos galos aqui ao lado. Ele é barítono, o danado.

O computador escolhe Vambora, da Adriana Calcanhoto. Apropriada: Entre por essa porta agora/ e diga que me adora / você tem meia hora / pra mudar a minha vida/ Vem, vambora/ que o que você demora/ É o tempo que leva/ Ainda tem o seu perfume pela casa/ Ainda tem você na sala/ Porque meu coração dispara/ quando tem o seu cheiro/ dentro de um livro/ dentro da noite veloz.

Meu irmãozinho, o caçulinha dos homens, agora é pai. Lembra, mano, quando a gente brincava de super-homem contra “todos” lá na casa da rua três? Tu sempre eras o super-homem e eu era o “todos”. E tu sempre vencias nas nossas brigas imaginárias. Um a um, todos os inimigos que eu encenava sucumbiam dizendo um “ahhhhh” de morte antes de fenecer. Eu te deixava vencer. O super-homem sempre vencia. Aí fostes estudar em Niterói e eu te disse, numa carta cheia de saudades, que a partir dali deverias ser o super-homem mesmo porque o “todos” seria real, criaria mil armadilhas para ti, iria usar kriptonita sempre que pudesse para ti atingir. As brigas não seriam mais dos brinca, mas seriam dos vera. Pois é.

Hoje me volta à mente a brincadeira que costumávamos curtir na infância, rolando na cama do beliche ou no sofá da sala. E me volta com ela a vontade de dizer, com conhecimento parcial de causa, que está na hora, de novo, de ser o super-homem e se preparar para mais um embate contra o “todos”, sabendo que agora estás mais vulnerável porque tens uma coisinha que vais amar mais que tudo, mais até que a ti próprio. E que por isso não dormirás mais, tendo que estar sempre alerta para protegê-lo do malvado “todos”.

Como na trilha sonora do computador, Miguelito entrou pela porta agora, vai dizer que te adora e já mudou a tua vida. Ele olha para ti, com seus olhinhos que ainda não aprenderam a ler o mundo, e faz um convite ao qual tu não podes dizer não: “Vambora!”. O seu perfume vai impregnar a casa, teu coração vai disparar muito por ele, como sei que está disparado agora como um AR-15 recebendo policiais no morro. Esse moleque vai te roubar a mulher e tu, ainda assim, vai amá-lo sem medida. Vocês têm uma vida toda pela frente, sem pausa. Dias e noites velozes. Para sempre. A música da Adriana Calcanhoto foi muito bem escolhida. É uma luva. Às vezes penso que esse computador pensa…

Mano, sei que é difícil, senão impossível. Mas tenta ser um pai igual ao nosso. Acabei de falar para meus alunos para serem incrédulos em relação às receitas prontas, que eles precisam reinventá-las antropofagicamente e eu aqui dando uma para ti. Pri, minha irmãzinha, tenta ser uma mãe igual a nossa também. Eu sei que nossa família se mete muito, mas é por amor, como tu sabes. Como tu podes ver agora aí nos teus braços. Sabe, acho que só a intenção fará de vocês os melhores pais do mundo. Mas não quero ficar dizendo o que vocês têm que fazer. ‘Magina, logo eu. De toda forma,  com vocês converso depois, quando eu chegar aí. Deixa eu falar com ele, o palmitinho pimbudo.

Miguelito, titio. Seja bem-vindo. O titio está longe e triste. Longe por trabalho e triste por um monte coisa que você um dia irá entender, mas que espero que entenda como espectador, se bem que acho que ninguém se livra disso. Mas o titio está muito, muito feliz por ti, por tu vires mudar o mundo e nossa família de uma forma que ainda não descobrimos plenamente. E sabe, tio, deixa eu te dizer uma coisa que um dia disse ao teu pai: nesse mundo a gente tem de ser uma espécie de super-homem, pois o “todos” parece conspirar contra nós. Há pessoas más, há pessoas mesquinhas, há pessoas invejosas, há pessoas pegajosas, há pessoas falsas, há pessoas que cobram. Há pessoas insensíveis, há inimigos invisíveis. Há dores. Há tristeza.

Mas a conspiração do mal, por assim dizer, perde para a conspiração do bem, para os sangue-bons. Existe a Sala de Justiça. Há pessoas boas, pessoas generosas, pessoas solidárias, há pessoas amorosas, há pessoas verdadeiras, há pessoas que doam. Há pessoas sensíveis e amigos visíveis. Há amores. Há alegria. Você nasceu em uma família abençoada por Deus e protegida por Nossa Senhora. Teve a mesma sorte que nós. Que sorte, nada! Benção divina.

Os galos continuam cantando alto e forte, a despeito do sol que está chegando e já pedindo para eles pararem com esse festival de vaidades. Só que eles não param. E isso me faz lembrar outra história, contada pelo Rubem Alves, numa tarde de conversa em Campinas, de saudosas lembranças. É assim:

O galo cantava todo dia. Aprontava-se, penteava a plumagem, passava Neutrox 2 e ia para o lugar mais alto do galinheiro. Perguntado pelos críticos do galinheiro – há sempre críticos nos galinheiros – por que fazia aquilo todos os dias, ele respondeu: “Porque se eu não cantar o sol não nasce”. E na sua convicção, estufava diariamente o peito e cantava. E o sol nascia. E todos ficavam orgulhosos e agradecidos. Invejavam positivamente o galo e sua capacidade de trazer o dia na voz. Mas o galo, como o cachorro do Magri, também é um ser humano. E falha. Um dia dormiu demais e esqueceu-se de cantar. Mas o sol nasceu mesmo assim. E todos, surpresos, descobriram que o sol nascia independentemente do galo cantar. O galo ficou morto de vergonha e sumiu. Não apareceu por uns bons tempos. Sua razão de cantar – ou aquela que parecia ser sua razão – cessara, sumira. O sol era independente dele. Que pena.

Um dia, um belo dia como hoje, todos acordaram ao som do clarinar do galo. Forte, alto, tenor. Lindo e belo, abria suas asas e cantaricava seu galicanto. Os críticos vieram, já azedos e afiados, e perguntaram, preparando-se para a zombaria: “Ei, galo! Por que cantas? Para o sol nascer?” O galo respondeu: “Não. Canto porque sou poeta. E os poetas tem suas razões. Não canto para ele nascer. Canto porque ele nasce.” E continuou a cantar, deixando os críticos sem palavras.

Miguel, seja pois um poeta na vida. Cante com toda força de seus pulmões, ainda frágeis, conhecendo e se adaptando ao ar novo dos novos ares. Cante por suas razões, por suas causas. Cante não para o sol nascer, mas porque ele nasce. E não ligue para os azedos do galinheiro, para o “todos”. Apenas fique antenado e saiba que eles existem. Mas eles passam. Eu sei disso e vou ficar de olho. Seu pai sabe disso e vai ficar atento.

Os galos pararam de cantar. Recolheram-se para compor novos poemas. Como as flores que graciosamente recolhem suas pétalas uma a uma ao fim do dia. Amanhã estarão de volta. Porque o sol nasce.

Já que estamos em clima de Adriana, seguinte: dá a mão aqui pro titio, menino pimbudo. Vambora para vida nova! Nós dois. Vamos ver as cores cujo nome a gente não sabe, as cores de Almodóvar, cores de Frida Khalo, cores. Pela janela do quarto, pela janela do carro, pela tela. Enfim, pela janela das novas vidas, a tua e a minha, que se inauguram hoje.