família

Marina

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Hoje é o aniversário da minha caçula, Marina.

Temos, Bia e eu, duas filhas. A mais velha é a Ana Clara, que acabou de fazer aniversário bem no Dia dos Namorados. Clara foi muito desejada e esperada. Teve a ajuda da ciência em uma inseminação artificial em que tudo deu certo de primeira. Soubemos da Marina quando Ana Clara tinha apenas três meses. Diferente de Clara, Marina veio por conta própria. Quando nos tocamos, ela já estava na porta de nossas vidas com as malas na mão, olhos do gato do Shrek, dizendo “cheguei!”. O susto de sua chegada foi logo absorvido pela alegria de mais uma vida a fazer diferença na nossa. Se com uma criança era lindo demais, com duas seria lindo em dobro. E é, apesar de todo trabalho e preocupações que um filho traz a qualquer família.

Marina é o tipo de pessoinha que quando chega brilha o ambiente. Seu sorriso largo, fácil e frouxo espanta a sisudez da vida. Seu carinho gratuito, que nada pede de volta, sinaliza que sua alma é leve e brincante. Sua alegria como estilo de vida nos diz todo dia que ela foi escolhida a dedo por Deus entre os anjos que são feitos especificamente para alimentar a alegria do mundo. Seus olhos graúdos sorriem diretamente para a alma de quem os fita. Faz cócegas em nosso pensamento. Sua memória prodigiosa nos surpreende a cada dia num mundo em que, em tempos de Google, a memória passou a ser um item secundário. Ontem ela perguntou: “Pai, já é dia 2?”. “”- Ainda não. Por que, filha?” “Porque dia 2 estreia Shrek”. Ela tinha visto a informação no trailer quando fomos assistir a Toy Story. Detalhes, Marina é dos detalhes. Presta uma atenção silenciosa no mundo como ninguém.

Quando estamos os quatros deitados juntos na cama, no sofá ou no chão das brincadeiras, Marina sempre nos envolve com um abraço com o alcance que seus bracinhos permitem e grita, anunciando ao mundo: “FAMÍLIA!”. Marina é muito família. Sensível, preenche os espaços em branco. Se peço um beijo de Clara, que tem jeitos e tempos diferentes de mostrar carinho, e não recebo, logo chega um beijo de Marina, voando, como se sentindo obrigada a cumprir a tarefa a ela designada de trazer a alegria e a serenidade ao mundo. Marina é, com seus quatro aninhos, a pessoa mais solidária que conheço. Abre mão fácil do que é seu para ver o outro feliz. É dela. Assim, fácil.

Escrevo sobre a minha filha e dos meus olhos minam lágrimas silenciosas, poucas e densas, querendo transbordar. Porque sempre me quis pai, mas nunca imaginei como seria tão bom ser pai. A alegria que me dá, isso vai sem eu dizer. Mas também nunca imaginei como ser pai seria tão vulnerável. Minhas filhas são minha vulnerabilidade eterna.   Com elas aprendi a cuidar mais de mim e melhor do mundo. Com elas aprendi um novo tipo de amor que só vivencia quem é pai ou mãe. Com elas eu reaprendi a rezar.

Parei. Não saem mais letras, só lágrimas. Marina, minha filha, você é bonita com que Deus lhe deu. Termino trazendo a frase com que minha mãe sempre acordava a gente nos nossos aniversários naqueles tempos de mansidão da infância: “Eu te amo, minha criança. Deus te abençoe, te mantenha sempre assim e te faça feliz”. Na verdade, ela ainda faz isso com suas “crianças” até hoje. Como eu quero fazer até o dia em que não puder mais, Marina morena…

Constatação

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Ontem, olhando para minha filha mais velha, Clara, vi a menina rosa de Renoir, em “As Meninas Cahen d’Anvers”.

Esse post é só pra dizer que nenhum problema do mundo, nenhum mesmo, é tão grande quando eu olho e vejo que tenho uma família feliz. Fica tudo miudinho.

Uma carta para minha vó

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Este texto não foi escrito com o toque dos dedos em 05 de novembro de 2000. Foi composto pelo bater das lágrimas no teclado. Minha vó estava muito doente e eu estava muito distante. Nessa época e nesse momento específico, já tardiamente na vida, percebi vivamente o quanto perdemos por perdemos a possibilidade de convivência com as pessoas que amamos. Minha vó, na sua sapiência humilde, me ensinou na hora de ir embora que dizer “eu te amo” a quem se ama, verbalizar a frase, faz um bem danado à alma. Ela se foi em janeiro de 2001. Eu te amo, vó.

Minha vozinha querida,

Queria tanto estar aí pra te dar um beijo, um abraço e sentir teu cheirinho de vó… Mas os caminhos de nossas vidas me fizeram o favor de me por longe de ti agora, justamente agora quando eu mais queria estar aí. Quem sabe ele está me punindo porque eu fugia da tua casa por causa da verdura e da sopa. Ninguém deve fugir da casa da vó por causa da sopa. Esse foi meu grande erro, eu sei.

Vó, mãe da mãe. Duplo amor. Quanta saudade eu sinto do tempo que não passamos juntos, vó… Dos feijões da quarta que não comi, dos fins-de-semana que não passei contigo. Pelo menos a bolacha do motor ajudou a fazer uma história contigo, né, vó? Ah, tinha também a Tchitchia Morada, aquele suco de uva peruano que eu adorava e que tu fazias pra mim…

Sabe, vó, mesmo longe nunca tive tão perto de ti. Minha saudade faz eu sentir teu cheirinho, faz meus ouvidos ouvirem tua benção todos os dias. E, mais importante, minha vida faz ressoar cada ensinamento cristão do catecismo da igreja de Aparecida. Me lembro de uns sábados à tarde que, mesmo depois de grande, ainda cheguei a freqüentar na casa paroquial, no salão… hoje vejo como cada momento daquele, que às vezes para um adolescente pode parecer chato, ganha um significado especial quando o adolescente vira homem e passa a ver sentidos em coisas outras.

Hoje, vozinha, sou uma pessoa feliz. Minha família é maravilhosa, minha profissão está em plena construção. Que mais pode querer alguém? Um colinho de vó. É, eu queria um colinho de vó… De longe, sinto um vazio cheio de saudade, uma ausência tão presente. Vó, obrigado por tudo.

Obrigado por existir e fazer existir minha mãe, cujo amor transcende pelos filhos e netos, amor de mãe.

Obrigado por ser minha vó, uma vó de quem me orgulho e que, por ser especial, lá em casa só chamamos de MINHA vó…

Obrigado por saber mudar com o tempo e saber rir de nossas besteiras mais bestas, de nossas leseiras mais lesas nas tardes de domingo na rede. Minha vó…

Obrigado por servir de exemplo maior de luta na criação de filhos, mesmo com tanta coisa contra… Com fé, eu aprendi, tudo é possível. Obrigado por fazer parte do eu que sou, de tantas e variadas formas.

E desculpa, vó. Desculpa por não ter passado mais tempo contigo. Desculpa por não gostar de sopa. Desculpa por não comer feijão. Desculpa por eu estar longe agora, por contingências da vida, vida que nos ensinaste, pela tua, a valorizar e construir.

Saiba, minha vovozinha, que eu te amo muito, muito, muito. E que, quando fores embora para sempre, eu vou chorar muito de saudade, mas vou me alegrar muito por estares no lindo lugar que tu nos ensinaste a querer. E que lá, vozinha, comerei contigo todos os feijões, verduras e sopas. E passarei contigo todos os finais de semana. Até lá, vou te procurar de noite no céu como a estrela mais brilhante e te pedir a benção todos os dias.

Benção, vó. Te amo.

Sérgio.

Amor perfeito

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Em frente à casa da rua três, Paulo, eu, Paula e Mauro. A lu ainda tinha chegado. Atrás, a leoa.

Dona Helena aprendeu a dividir felicidades e misérias pelas durezas da vida. Esse dividir nunca foi um dividir negativo, mas um dividir-compartilhar, da divisão que soma, em uma lógica de amor que subverte a aritmética. Essa mulher aprendeu a dar o pouco que tinha e até o que não tinha como forma de mostrar que de dois faz-se quatro, de quatro faz-se oito e de oito faz-se oitenta, exercitando em frações um amor por inteiro.

Dona Helena aprendeu que a vida é um jogo entre o que queremos e o que podemos, temperado com o que ousamos. Encantou-se e casou-se com um botafoguense chamado Jefferson e com ele educou seus cinco filhos. Eu sou um deles. Dona Helena é minha mãe.

À minha mãe devo tudo, a começar pela vida. É evidente, mas mascarado por sua evidência, esse é um fato de uma beleza estonteante. É como o nascer do sol que damos por garantido todos os dias, mas que quando se permite ser sorvido no silêncio ganha um significado renovado. Ela deu-me à luz, mas ninguém é mãe só porque põe no mundo. Ela sabe disso. Mãe transcende o biológico. Mãe é concretude afetiva.

Minha mãe me ensinou muitas coisas. Minha mãe me ensinou a exercer a autoridade sem violência, a ter compaixão sem assistencialismo, a curtir as vitórias sem humilhações, a compreender as derrotas como lições. Aprendi com minha mãe que a relação entre mãe e filho pode ser de igual para igual sem que, nessa simetria, se perca o respeito. Aprendi com minha mãe que antes uma palavra indignada do que o silêncio engasgado que mata por asfixia tantas famílias. Minha mãe me ensinou a discordar sem agredir. Minha mãe me ensinou a brigar sem machucar, a viver socialmente sem morrer moralmente. Ele sempre me diz o que eu preciso ouvir, não o que eu quero ouvir.

Nesse dia das mães, quero tornar (mais) pública a minha gratidão por tudo que recebi dessa mulher que sempre soube virar o jogo da vida. Que soube a hora de estudar e arrancar para uma vida melhor com sua cria, por meio de esforços hercúleos e de uma sabedoria comparável àquela dos filósofos gregos, sugestivamente chamada de helênica. Minha mãe, não me ocorre metáfora melhor, sempre jogou o ping-pong da vida de salto alto. E sempre venceu.

Lembro de nossa despedida quando fui para Campinas estudar. Malas feitas, um beijo, uma benção, um vá com Deus. Esqueço algo e volto. Na passagem para o quarto, vejo pela porta entreaberta da cozinha, na cadeira de macarrão do pátio da casa da rua três, a casa das minhas memórias, a minha mãe com olhinhos miudinhos, chorando feito um bebê. Chorando feito uma mãe. Faltou pouco para eu desistir de ir. Mas ela ficaria desapontada. Pois minha mãe sempre me disse que sonhos se sonham e se buscam. E que ela estaria sempre ali para ajudar. Por isso ela foi chorar escondido. Acabei indo, não sem antes lhe dar um beijo encharcado de amor e receber um outro com mais amor ainda. Deixei para desfazer-me em viscosas lágrimas no avião.

Hoje, como pai em relação às minhas filhas, sempre primeiro dou ouvidos a meus instintos (e aos da minha mulher, claro). Mas em segundo lugar, penso em como a minha mãe agiria. E ela só não vem primeiro lugar porque me ensinou de forma competente a acreditar em mim.

Inevitável voltar ao passado e recorrer à memória afetiva. O menino da foto, peito estufado, cantando: Andei por todos os jardins procurando uma flor pra te ofertar. Em lugar algum eu encontrei a flor perfeita pra te dar. Ninguém sabia onde estava a flor mimosa, perfeição. Ela se chama flor-mamãe. E só na nasce do jardim do coração. Enfeita nossos sonhos, perfuma nossa ilusão. Flor divina, eu suponho, faz milagre em oração. Nesse dia de carinho, quero senti-la no peito. Emoldurando a minha alma,  Flor-mamãe, amor perfeito.

Quando eu era menino, na época dessa foto e dessa música, eu achava a minha mãe a “melhor mãe do mundo”. Os superlativos de criança. Depois de quarenta anos de avaliação, com a objetividade de um pesquisador com doutorado, tenho certeza inconteste de que esse título é seu mesmo, minha mãe. Você é a melhor mãe do mundo.

Falando da minha mãe, desejo um excelente dia das mães para a mãe das minhs filhas, a Bia. Sem ela definitivamente não dá. E desejo um maravilhoso dia das mães para você que me lê. Aproveitando o incomparável cheiro de mãe no abraço, se estiver perto, ou com os olhos fechados para sentir e sorver a presença da ausência, se estiver longe. Sei que o dia das mães pode fazer o coração pesar para várias pessoas, por vários motivos. Que a leveza do amor, no entanto,  alivie esse peso e que a serenidade invada seu dia. É o meu desejo mais profundo e sincero.

Mãezinha querida, “do avental todo sujo de ovo”, se pudesse, buscava outra vez, mamãe, “começar tudo, tudo de novo”.

 Te amo. Sua benção. E feliz dia das mães.

PS: Ei, mãe, desculpa por aquele ovo frito com gema mole feito com tanto carinho que eu, na rispidez da minha adolescência, malcriadamente não quis. Sei que minha entrada no céu depende desse perdão.

Carta de recomendação de mãe

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Esta carta foi mandada por minha mãe para a Bia, sem eu saber. Eu estava viajando para Campinas para vê-la pela primeira vez, depois de já estar namorando  à distância  há quase um mês. Tinha saído em frangalhos de um casamento. Apostava todas as minhas fichas restantes na Bia.  Jackpot! Mãe é mãe. Amo as mulheres de minha vida.

Os ossos do amor

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Para você, P.

O silêncio é o estado primeiro da linguagem. É por isso que dizemos “ficar em silêncio” e “quebrar o silêncio”. O silêncio é a linguagem em estado bruto. O silêncio é significativo. Por isso, uma maneira de sentir o tamanho do impacto de algo sobre uma pessoa é avaliar quão profundo é o silêncio após o fato.

Assisti hoje a “Um olhar do paraíso” (“The lovely bones”). O filme conta a história de uma menina de catorze anos, Susie Salmon, que é assassinada e que de onde está vê a forma com que sua família e amigos seguem suas vidas após sua morte. Tudo isso enquanto ela própria precisa se acertar com o fato de ter morrido. O estilo é muito parecido com “Amor além da vida”, aquele em que Robin Williams vai buscar sua mulher no inferno por amor. Atuações magistrais de todos, com destaque ao papel coadjuvante de Susan Sarandon, como a avó da menina.

A história me embargou várias vezes. Um filme é bom ou ruim dependendo da identificação com um personagem, com uma situação, com um fato ali contado. Fiquei sem ar ao ser lembrado mais de uma vez da vulnerabilidade de cristal que envolve nossos filhos no mundo. Descompassei a respiração ao ver na tela o quanto amamos nossos rebentos a ponto da suposição involuntária de que aquilo que vemos na tela possa ocorrer com os nossos causar náuseas reais. Apertei firme a mão de minha mulher, numa cumplicidade silenciosa e solidária, pela dor do quarto intacto deixado pelos pais após a morte da jovem e pela lágrima densa que cai dos olhos da mãe quando da notícia de sua morte.

O filme é baseado no livro “The lovely bones”, de Alice Sebold. A boa ficção mexe com a realidade. Cada segundo com nossos filhos é precioso demais ante a possibilidade da presença de sua ausência eterna. A incerteza quanto à abominável  inversão da ordem natural, em que pais deveriam ir antes dos filhos, sinaliza uma dor forte, imediatamente repugnada  para fora de nossa mente, pois a cabeça não aceita pensar sobre isso. A morte de um filho equivale ao reverso de um parto que jamais queremos parir. Quando perdemos os pais, ficamos órfãos. Quando perdemos o cônjuge, ficamos viúvos. Mas quando perdemos filhos, ficamos em silêncio. Não há nome para isso. Só o silêncio. De tão não natural, essa dor é uma dor sem nome, uma dor cujo peso só é compreendido pela remissão ao estado bruto do sentido: o silêncio. E o filho nem precisar ter nascido para isso. Já é desde sempre nosso filho. O quarto vai ficar como está por um bom tempo, guardando o cheiro, a desordem e o jeito para um sempre com que ilusioriamente achamos que vamos saber lidar.

Com uma fotografia linda, “Um olhar do paraíso” é cheio de metáforas visuais. A trilha sonora, não menos linda, complementa com metáforas sonoras. Destaque para a belíssima “Song to the siren”, do Mortal Coil.  “Now my foolish boat is leaning, broken love lost on your rocks”, diz a letra, musicalizando as garrafas com barcos dentro, quebradas pelo pai que as fazia de hobby, naquele desespero que sempre vem depois da incredulidade das perdas irreparáveis. Ele guarda somente uma garrafa: aquela que sua filhinha assassinada ajudou a fazer, num daqueles momentos de cumplicidade afetiva que só quem tem filho reconhece. Nossas memórias afetivas são coladas por objetos que nos ligam. Seja um desenho, seja um perfume, seja um barco em garrafa. Ou um sapatinho de bebê jamais usado.

Existem mistérios incompreensíveis na vida humana. A morte, única certeza, envolve vários deles. O que vem depois? Céu? Inferno? Nada? A despeito das crenças que cada um de nós sustenta, a realidade exige a urgência da presença. O abraçar, o beijar, o cheirar, o tocar. Fazer isso com quem amamos é estocar amor para a indesejada  falta. Aprender a dizer “eu te amo” para quem aparece no filme de nossa vida é uma das lições mais sublimes do ser humano. Saber construir o momento, aceitando a temporalidade divina, sempre incompreensível para a finitude humana, é um aprendizado doloroso, árduo, eloquente como o silêncio. Um silêncio lancinante, que dá fisgadas na alma.

O nome do filme em inglês, “The lovely bones”, vem desta passagem, que traduzi livremente: “Foram esses os ossos do amor que cresceram em torno de minha ausência: as conexões que aconteceram após eu ter ido, conexões por vezes tênues, por vezes bastante custosas, mas quase sempre magníficas. E eu passei a ver as coisas de um jeito que me permitiram entender o mundo sem que eu estivesse nele. Os eventos que minha morte trouxe foram apenas os ossos de um corpo que se completará em algum tempo não sabido no futuro. O preço que paguei para ver esse corpo de amor maravilhoso e milagroso  foi a minha vida”.  Porque, como diz o poeta, o amor da gente é como um grão: às vezes tem que morrer para germinar. Germinar o quê, quando e como são as incógnitas dessa equação, complexa demais para a matemática básica da alma humana.

Quebrei um longo e profundo silêncio para escrever este texto. O silêncio que esse filme exigiu de mim para que eu pudesse significá-lo no estado bruto da linguagem. O silêncio que, triste coincidência, as tristes notícias desse dia me impuseram. Sugiro que você vá silenciar também antes que o filme saia de cartaz. E saiba que o amor começa antes e não termina nunca. Quem ama ama junto, quem ama sofre junto. Nos barulhos da vida, nos silêncios da vida. O colo nunca se esvai. Fica firme sustentado pelos ossos do amor.

Sinais

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Um homem tinha um cachorro que havia criado desde pequenino. Seu carinho era retribuído com uma fidelidade canina. O que dono fazia era aplaudido pelo animalzinho, que o lambia como a dizer “Você é meu ídolo!” Sinais de cumplicidade. O homem amava o cão e o cão amava o homem. Brincavam, explorando o terreno da chácara em que viviam.

O tempo passou e o cãozinho cresceu. O homem confiava no cão e o cão retribuía com sinais de carinho.  As pessoas da cidade, no entanto, viviam dizendo para o homem não dar muita  confiança para o cão. Bicho é bicho e nunca se sabe quando o instinto vai falar mais alto. Mas o homem confiava no cão. O homem casou e sua esposa teve um bebê. Fofo, como todos os bebês. Um riso de Curinga.

Um belo dia, o cão comia sua ração quando o homem se aproximou para lhe fazer um afago. Mas não era um afago sincero. Era um afago de teste. Ele queria ver se o cão preferiria o afago à comida. No fundo queria testar o que diziam na cidade. O cão não vacilou à aproximação. Rosnou e ameaçou morder. O homem forçou a barra, o que era uma sacanagem com quem só havia dado sinais de lealdade até então.

Ferido com a quebra de confiança, o cão mordeu o dono. Esse, assustado, recuou. Reagindo instintivamente, lançou um pedaço de pau contra o animal. Chegou a atingi-lo. O cão e o homem deram sinais de que ficaram ressabiados um com o outro. Principalmente o cão, que estava na dele no início de tudo.

E lá se foi o homem à cidade de novo. Ouviu as mesmas histórias sobre o instinto. Mas dessa vez os sentidos daquelas palavras foram outros. Passou a acreditar no que ouvia. Voltou  para casa convencido de que se desfaria do cão.   Ao chegar, a cena de horror. Rastros de sangue no chão.

O homem pensou na família. Entrou em casa, pegou sua arma, muniu-se de ódio para matar o cão. Eles tinham razão: o instinto se manifestara. Correu em busca da esposa e de seu  bebê. Ela estava no corredor, com as pernas dilaceradas. Fora pega antes de chegar ao quarto, para onde ia para proteger o bebê.

O homem começou a sangrar por dentro. Não queria ver a próxima cena. Fechou os olhos. Rezou para o bebê estar lá. Ao fechar os olhos, sentiu uma lambida na mão e ouviu um  grunhido. Era o cão, todo estropiado, ali na sua frente. O seu ex-melhor amigo era a razão de sua maior dor.

O cão olhou o homem nos olhos. E sorriu. Um riso de sarcasmo talvez. “Viu o que fiz com sua família!”.  O homem mirou e disparou. O cão caiu morto. Não teve nem tempo de gritar de dor. E o bebê? Dirigiu-se ao quarto, já preparando o espírito para o impreparável. Cão miserável!

De repente um choro. O bebê! Vivo! Correu para tomá-lo no colo. Ao entrar no quarto, o bebê estava no berço, chorando, respingado de sangue. Do lado do berço, a onça morta. A mordidas de cachorro. Deu-se o silêncio. Deu-se o vazio. Sentiu uma dor.   O homem sentiu-se só.  Os sinais! O olhar sorridente! A lambida na mão!  O grunhido de orgulho pela guerra vencida…  O homem  deixou de perceber os sinais. Não entendeu os sinais. Irreversível. O bebê, lindo, passa bem, com seu sorriso de Curinga, sem nada saber da história.

A vida é feita de leituras dos sinais do mundo. Às vezes nos equivocamos.

A descoberta do mundo

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De repente bateu um desespero manso. Como quase todos os dias, levantei com o dia raiando para fazer as mamadeiras das minhas duas filhas. Ana Clara, três anos, sete porções de leite para uma de Sustagen Baunilha em 210 ml de água. Marina, dois anos, cinco de leite para uma de Sustagen Chocolate em 150 ml.

Uma gosta de baunilha, a outra prefere chocolate. A primeira é na dela, vem quando quer. Gênio forte que às vezes irrita. A mais nova é na dos outros, abraça de graça, de bem com o mundo. Clara adora flores, tem espírito de Cirque du Soleil, vive pulando, dando cambalhotas, se pendurando nas minhas costas. Marina gosta de chocolate – qualquer um a qualquer momento – e é uma Forrest Gump, sempre com uma história para contar. Ambas com uma sacação acima da média. E uma beleza de fazer o sol sorrir e a lua corar.

Podem dizer que falo isso porque quem tem filho feio é coruja. Desculpem, mas não sou eu quem diz. Só reproduzo o que dizem, com um orgulho danado de ter feito, em co-autoria, dois belos exemplares da espécie humana. Belas por dentro e por fora minhas meninas.

Mas como disse no começo do texto: de repente bateu um desespero manso. Depois de colocar as mamadeiras em suas mãos e de elas as pegarem automaticamente durante o sono, tentei voltar para dormir, mas não consegui. Porque comecei a pensar sobre a celeridade do mundo.

Minhas filhas nasceram um dia desses e já estão andando, falando, escolhendo o sabor do Sustagen. Minhas filhas já têm personalidades, opiniões, desejos, preferências, medos, projetos. Minhas filhas, nessa infância linda, já contra-argumentam, já discutem, já me deixam sem resposta.

Quando foi que isso aconteceu? Quando foi que elas deixaram de ser aqueles dois serezinhos que eu fazia ninar com as mesmas músicas que a minha mãe me fazia dormir, há quarenta anos? Quando é que minhas bonecas deixaram de depender dos meus braços para ir e vir? Quando é que deixaram de usar fraldas e passaram a ir sozinhas ao banheiro e a pedir o “papel-higiene”?

Meu desespero manso é por me dar conta de que eu estou perdendo os detalhes de suas vidas. Sei que é exagero, que ninguém pode ficar 24 horas por dia do lado de alguém. Nem saudável isso é. Filhos precisam de espaço para andar e ampliar seus limites, para escorregar, cair e levantar. A vida é assim. Mas amor de pai foge à racionalidade e me deu desespero por não acompanhar cada palavra proferida, por não ler cada olhar, por não filmar cada movimento, por não estar presente em cada descoberta do mundo.

Ser pai ou mãe é desesperador, se você pensar um pouco. Quando temos filhos, ficamos vulneráveis para sempre. Não podemos, como gostaríamos, resolver todas as dores, tristezas, dúvidas e angústias de nossos filhos. No mais das vezes, não podemos consertar suas notas fora de tom no concerto de suas vidas. Como pais, fazemos o melhor que podemos, mas o melhor não é o suficiente na cabeça de um pai ou uma mãe que ama. Sempre estamos aquém. Sempre há a sensação de estar deixando algo incompleto. Porque é isso mesmo: há uma incompletude no papel de pai ou mãe. Continuo achando que o único defeito de Deus é não deixar que possamos transferir os sofrimentos de filhos para nós, pais.

Mas é no espaço aonde não chegam os pais que os filhos surgem. E surgem nas suas especificidades, moldando suas personalidades, abrindo as porteiras do seu mundo por conta própria. Sei que meu desespero é injustificável porque é mais instintivo do que pedagógico. Elas estão crescendo, estão na escola. Daqui a pouco conhecem o amor com suas cores, sabores e dores. Daqui a pouco escolhem uma profissão. Daqui a pouco casam e nos dão netos, os filhos com açúcar, como diz minha mãe. E vou – de novo – confiar em minha mãe, apesar de desconfiar de que não há nada mais doce do que filhos. Quando ela disse que não havia amor maior do que de pai para filho, eu desconfiei. Até ter filhos. Tenho dito aqui e acolá que é o amor que sentimos por filhos é um amor tão grande e tão diferente que deveria ter um substantivo específico para se referir a ele. Amor com adjetivos não serve para filhos.

E um dia eu vou embora. E a mãe vai embora. E elas vão ficar. Meu Deus! Desespero de novo! Quem vai lhes dar colo quando precisarem? A quem elas virão perguntar tudo, como fazem hoje, considerando esse pai babão o mais sábio dos oráculos? Não! Não quero ir. Mas sei que vou. É o ciclo. Contudo, vou, de onde estiver, como uma estrela, ficar brilhando a iluminar os caminhos de cada uma das minhas meninas aqui embaixo. Zelando pelos seus caminhos. Soprando nos seus ouvidos em suas dúvidas. Falando-lhes por sonhos. Beijando-lhes as faces a cada adormecer.

Escrevo chorando. Lágrimas caem comportadas e salgadas em direção aos meus lábios. Lábios que ainda vão beijar muito os pescoços de minhas filhas. Lábios que vão lhes contar alguns truques para não sofrer tanto nesse mundo feito para adultos e não para crianças. Lábios que não cansam de perguntar “sabia que eu te amo?”

Hoje vou passar o dia inteiro colado nas minhas filhas. Registrar cada sorriso, responder a cada pergunta olhando em seus olhos. Sentar no chão para desenhar com o lápis de cor suas ideias, suas flores, seus coelhos, suas histórias. Hoje vou dar comidinha na boca de cada uma delas, aeroportos lindos para colheres-aviãozinhos. Hoje vou desligar o DVD e contar histórias, cantar-lhes “Alecrim dourado” até que caiam no sono. Não há cena que pinte a serenidade como a de filhos dormindo.

Preciso cuidar desse meu desespero. Preciso cheirar mais minhas filhas. Enquanto eu posso. Sempre que puder. Preciso cuidar do meu desespero porque preciso de calma para não errar: para a Ana Clara, sete de leite para uma de Sustagen Baunilha em 210 ml de água. Para a Marina, cinco de leite para uma de Sustagen Chocolate em 150 ml. E desde ontem a Marina só quer a mamadeira da Moranguinho e a Clara a dos bichinhos do fundo do mar. Estão crescendo, minhas meninas. Elas serão sempre “as meninas”. Porque não importa a idade, estamos sempre descobrindo o mundo.  Não é, mãe? Não é, pai?

Longe Perto

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A etimologia nem sempre é o único lugar para começar, mas é um lugar. Rezam os registros dos deuses da linguística que a palavra “irmão” vem do latim “germen”, semente. Irmão seria, portanto, aquele vem da mesma semente. Quando falamos em “semente”, que também é uma palavra latina, nos referimos à origem. Qualquer pessoa mais sensível para as belezas do mundo sabe que a semente aqui referida não se limita à origem biológica, mas a origem enquanto lugar de partida, o ninho.

Irmão para mim é aquele que sai do mesmo lugar, simbolicamente falando. Aquele que, mesmo divergindo nos caminhos, converge em princípios e em bem-querer não só para os conterrâneos de origem, mas todos os bons do mundo. Irmão chora junto e enxuga as lágrimas. Estoura a champagne e faz o churrasco da vitória. Irmão segreda segredos secretos. Irmão é cúmplice. Na fala. No silêncio. Na arte. Irmão sente a presença da ausência do outro.

Fico pensando se fosse filho único. Não ter irmão para mim é um non-sense, um não sentido. Com quem aprender a dividir? De quem sonegar no egoísmo infantil? Na cabeça de quem bater o martelo de madeira? A quem recorrer nas ausências da alma? Ser irmão é falar, mesmo no silêncio. É estar presente, mesmo na distância. É compartilhar as coisas boas do mundo e puxar da lama das ruins, quando atolamos. Ser irmão é ter códigos secretos, impenetráveis. Uma linguagem criada pela história de vida que não é compreendida por nenhum forasteiro, por mais atento que seja.

Irmão protege. Ou sendo escudo, para receber em si as pedras da existência, ou abrindo a porta, para que nosso aprendizado se dê calejando os pés em caminhos não tão macios, mas necessários no crescimento do ser. Ser irmão é dizer o que é preciso, com o carinho e a verdade dos que amam. Ser irmão é ouvir o que é necessário: ninguém que nos ama nos diria algo se não fosse exclusivamente para nos ver bem. A vida nos põe junto dos irmãos por um motivo. Ela os escolhe para nós. O segredo da felicidade é compreender as razões secretas desse quebra-cabeça. Descobrir o que aprender com cada irmão.

Segundo os dicionários, há os irmãos de leite: indivíduos amamentados pela mesma mulher que é mãe de um e ama do outro; os irmãos uterinos: irmãos filhos da mesma mãe e de pais diferentes; os irmãos consanguíneos: irmãos filhos do mesmo pai e de mães diferentes; os irmãos germanos: irmãos filhos do mesmo pai e da mesma mãe e os irmãos siameses: biologicamente grudados. Irmão, para mim, resume-se ao siamesismo de alma. É a alma grudada que faz com que, nas nossas diferenças, sintamos a presença dos irmãos em nós, na nossa vida, na nossa existência.

Hoje é aniversário de um dos meus quatro irmãos. Pensei nele e no quanto dele tem em mim. Eu seria menos eu se não o tivesse tido. Caminhos bifurcam e se encontram sempre lá na frente. O poeta T.S. Eliot diz: “E, ao final de nossas longas explorações, chegamos ao lugar de onde partimos e o conheceremos então pela primeira vez”. O poeta Nilson Chavez reza na música que dá título a este texto: “Toda vez que eu viajar é sinal que estou aqui e, quando estiver por lá quer dizer: nunca parti. A vontade de voltar não impede a de seguir. E, por onde quer que eu vá, estarei vivendo em ti”. Vale para lugares. Vale para pessoas. Te amo, mano.

Máquina do Tempo

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Eu sou esse, de botinhas, olhando para a câmera.Quando era criança de idade, eu era muito danado, dizem meus pais. Há registros nas delegacias da memória de que eu rasguei um sofá a faca para ver o que tinha dentro, de que com a mesma curiosidade, espatifei uma televisão máscara-negra no chão, de que recortei os elefantinhos que estampavam uma toalha de mesa de plástico de uma das minhas tias. Entre os crimes mais leves, conta minha mãe que tirei todas as etiquetas que identificavam os tecidos nas lojas Pernambucanas para fazer um baralhinho. Aprontava tanto que uma vez no catecismo a professora perguntou: “Quem jogou a pedra no Golias?” e eu fiquei quietinho com medo de pensarem que tinha sido eu.

A infância é um momento mágico. O mundo é sempre uma novidade. Conceitualmente, como não temos nada, teoricamente podemos tudo. Da mesma forma que experimentamos com o mundo que se descortina, experimentamos com a linguagem que o desenha para nós. Vejam se não é poesia pura: “Pai, bati meu cotovelo do pé”, “o sanduíche deu um hambúrguer para o sonho do sorvete que o picolé sonhou”, “se minha mãe é mamma mia, papai é pappa pia”, “noite é dia com luz apagada”, “você mentirou pra mim”, “Não fiz nada! É mentira do barulho!”, “hoje não é amanhã”, “eu também quero fazer xixi de canudinho”, “brinca eu, mãe? Tá aqui os brincos”, “pai, você não é criança porque você é pessoa”.

Assim como a liberdade linguística vai se esvaindo com o tempo, perdendo a poesia da linguagem infantil, o mundo vai se adultizando, se pasqualezando com a idade. E cá entre nós: quantos de nós, adultos, lembramos de nossa infância com uma ternura perfumada? Porque, de fato, crescer é muito chato. Para suportar crescer é preciso deixar que a criança que mora na gente não se vá. Muitos enterram a criança quando encontram seu primeiro emprego, quando compram seu primeiro carro ou têm seu primeiro filho. Outros lhe tiram o oxigênio quando arrumam um namorado ou porque alguém disse que se fica feio quando se faz caretas. Ou porque não se sabe dançar.

Claro que precisamos das responsabilidades, mas esquecê-las de vez em quando faz parte de uma irresponsabilidade infantil necessária. É tão necessário para a sanidade lamber a tampa de iogurte, chupar a lata de leite condensado e raspar a forma do bolo de chocolate quanto o é deixar o jantar pronto na hora certa, pagar as contas em dia e se sentir socialmente útil.  Ser uma boa mãe não é incompatível com pedir colo para a sua tantas vezes quanto achar que precisa. Não há nada melhor do que estar exposto a alguém em quem você confia. Minhas filhas se jogam com borra e tudo na piscina quando sabem que os meus braços estão lá dentro a lhes esperar.

Admitamos: ser adulto é muito chato. A gente só vai aguentar até o fim se deixar a criança gritar na igreja, pular cambalhota no rio, riscar a parede da sala da vida. Agradeça por ser adulto e poder dirigir, fazer sexo, comprar coisas. Agradeça por poder escolher com quem vai se relacionar, mas não esqueça de se relacionar com muitas crianças ou com aqueles adultos “idiotas”, aqueles que fazem piadas de tragédias, que não perdem a chance de rir, inclusive de si mesmo. Tire sua criança do armário, sempre que quiser, para fazer coisas bobas e ser mais feliz. Seja, desavergonhadamente, uma criança grande, e deixem que lhe chamem assim. Seja bobo, otário, esquisito, rótulos que adultos que não conseguem se criancizar usam com muita frequência.

Meu número especial, sempre que estou muito adulto, é puxar a bermuda até o peito e sair correndo onde quer que esteja feito um maluco com as pernas abertas. Nada paga o sorriso aberto que minhas filhas dão diante da cena grotesca e divertida. Eu me vejo com 70 anos, vovô, velhinho, divertindo os meus netos com isso, sob a reprovação resignada da minha velha.

Olhos para as minhas filhas e já sinto saudade da época em que as ninava no colo. O tempo passa. É assim. Choro um choro saudável ouvindo “Máquina do Tempo”, do Flávio Venturini. Só rezo ao bom Deus, enquanto tento fazer minha parte, para que elas nunca deixem de ser criança, apesar do tempo que foge. Para mim, como são sempre os filhos para seus pais, elas serão sempre “as meninas”. E eu, bom… eu vou sempre tentar não ser sempre “pessoa”, para ser criança quando der. Feliz dia das crianças para vocês, para os meus irmãos Biafra, Papau, Drida e Djub. E para as crianças. Livres ou reclusas. Novas ou velhas. Como eu.