Cinco anos: mochilinha de porquês

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Vem, Ana, vem/Mochilinha de porquês/Que eu não sei responder/Vem, tanta gente vem/Mochilinha de porquês/Que eu não sei responder/se eu tivesse a língua doce/Te cobria de poesia/Ai, eu ressuscitaria/Aquele sol que nos queimou um dia.

“Ana Clara, o papai vai comprar remédio pros olhinhos da Nina. Quer ir comigo?” “ÊBA! QUERO!”. No carro, a caminho, do nada: “Pai, quem criou o ladrão?” “Filha, às vezes as pessoas não têm trabalho e precisam trazer comida pros filhos. Não é certo, mas aí ele pega as coisas dos outros. E o que não é nosso, a gente não pode pegar, né?”  “Só se emprestar, né? E por que ele não tem trabalho, pai?” “Porque ele não estudou.” “…porque não tinha escola? Por isso, pai?”. “Às vezes é por isso. Às vezes é porque não deu pra estudar ou não quis”. “E por que alguém não quer estudar? Estudar não é importante, pai?” “Muito importante. Mas algumas pessoas não entendem que é importante. E aí faz falta depois.” “Como não entendem, pai? Eu tenho quatro anos e entendo.” “Pois é, Clara. Mas é porque o papai e a mamãe da pessoa não conseguiriam mostrar para ele que é importante.” “Quer dizer que tem ladrão por causa do pai e da mãe do ladrão, pai?” [Pausa.] “Mas não é culpa deles, filha”. “De quem é a culpa, pai?”. “Da desigualdade social, filha”. [Não fui didático…] “O que é desigualdade social?” “Na sociedade, uns têm muito dinheiro, mas outros não têm nada”. “Nós temos muito ou nada, pai?”. “Nem muito, nem nada. Nós somos classe média. Classe média é quem está no meio”. “Mas por que uns tem muito e outros não tem nada? Quem escolhe, pai? Tem muito quem estuda mais? Mas você não estudou muito, pai? Porque que a gente não tem muito?” [Pensei nas minhas escolhas…] “Estudar é importante não só para ter dinheiro. Para isso também, mas não é só para isso.” “Mas quem escolhe quem vai ter mais e quem vai ter menos? O Deus?”. “Não, filha. Todo mundo é filho de Deus. Ele ama todo mundo igual. Foi ele criou tudo.” “Até o ladrão?” “Até o ladrão. O ladrão também é filho de Deus e Deus ama o ladrão também”. “E ele ama até o pai e a mãe do ladrão que não ensinaram que a escola é importante?” “Até eles.” “E quem criou o Deus, pai?” [Pausa grande. Essa foi profunda.] “Hein, pai?”. “Filha, você é muito pequena… um dia você vai entender…”  “Explica agora, pai!” “Tá. Ninguém criou Deus. Deus existe desde sempre.” “Ele não morre, pai?” “Não, ele não morre. Só o  homem que morre”. “E a mulher não, pai?” “O homem e a mulher. A vida é assim: a gente nasce, cresce, casa, tem filhinhos e quando está bem velhinho morre”. “E a Giulia, pai. Lembra? A gente rezou por ela. Por que ela morreu, pai? Ela não estava bem velhinha…” “Pois é, mas ela estava dodói.” “Por que as pessoas ficam dodóis, pai?” “Acontece, filha. Ninguém quer ficar doente, mas a sua irmã, por exemplo. Os olhinhos dela não estão dodói, com conjuntivite?” “Mas eu não quero que a Nina morra!” “Não, ela não vai morrer, não, filha. Fica tranquila! Tem doença mais fácil e tem doença mais difícil de curar”. “E quem decide qual doença a gente vai ter, pai?” “Ninguém decide,  filha, acontece”. “E quando a gente morre? Pra onde a gente vai, pai?” “Antes de você nascer, você era um anjinho que morava com Deus no céu. Quando a gente morrer, a gente vira anjinho de novo e volta pra lá.” “E depois?” “A gente fica lá.” “Pra sempre, pai?!” “Tem gente que acredita que é pra sempre. Tem gente que acredita que a gente volta de novo. Um outro bebezinho”. “Em outra família, pai?” “É.” “Eu não quero morrer, nem voltar em outra família!” “Filha, você tem quatro anos. Amanhã vai fazer cinco. Você não vai morrer agora. Ainda vai demorar muito, muito, muito tempo”. “Você tem quantos anos, pai?” [Medo da relação…] “Papai tem 42”. “Você já vai morrer?” “Filha, ninguém vai morrer. Estamos chegando na drograria. Eu vou comprar o remédio da Nina e você escolhe o sorvete, combinado?” “Combinado!”.

“Pai, o moço fechou a porta e trancou a gente dentro”. “Calma, é porque a drogaria vai fechar. Vamos pagar. Escolheu o sorvete?” “Escolhi, esse picolé da vaquinha. Um pra mim e um pra Nina. Mamãe prefere Cornetto, pai”. “Vamos pro carro.” “Pai, e quem não tem dinheiro pra comprar remédio?” “Clara, quem não tem dinheiro para remédio tem de ir ao Posto de Saúde”. “Tem todos os remédios lá, pai?” “Às vezes tem e às vezes não”. “E quando não tem, como é que faz, pai?” “Aí é complicado. Às vezes o pai ou a mãe pede dinheiro pras pessoas.” “Ou vira ladrão, pai?” “Ou vira ladrão. Mas não é assim também, filha.” “Como é, pai? Se você não tivesse dinheiro pra comprar o remédio da Nina, você ia ser ladrão, pai?” “Não, filha. O papai estudou e trabalha. Por isso o papai tem dinheiro pra comprar o remédio”. “Mas se não tivesse estudado, pai? Só se não tivesse estudado?” “Clara, você está muito perguntadora hoje, minha filha…” “Pai, a tia da escola disse que homem com homem dá lobisomem e mulher com mulher dá jacaré. Como assim, pai, jacaré? [Preciso conversar com a tia da escola sobre ecologia contemporânea]. “Quando ela disse isso, Clara?” “Ela estava conversando com a outra tia e eu ouvi”. “Você prefere mais esse do chocolate da vaquinha ou aquele quadradinho da caixinha azul que o papai sempre compra?” “Chicabonzinho? Não, eu prefiro o da vaquinha. É mais gostoso”. [Esqueceu]. “Chegamos, filha! Vamos subir!” “Olha, pai! O céu tá cheio de estrelas! Quem criou o céu, pai?” “Foi Deus, filha. Lindo, né?” “É. E grande. Pai, eu te amo do tamanho do céu”. [Meu coração se encheu de ternura com a declaração, apagando tudo de pesado de uma semana complicada.] “Eu também, filha. Eu também…”. “Deixa que eu aperto o botão do elevador, pai.” Minha menina faz cinco anos no dia 12 de junho. E já alcança o botão do elevador…

O Papa é pop

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Escrito em 09 de abril de 2005

A partida de João Paulo II tem gerado certas reflexões em mim. Gostaria de dividi-las com vocês que têm a paciência de ler o que escrevo.

Televisão ligada. Um telejornal transmitia uma das inúmeras coberturas jornalísticas sobre a agonia final do Papa, mais especificamente a que mostrava o comunicado oficial de sua morte. Vi uma multidão de fiéis aglomerados silenciosamente na Praça de São Pedro. Rezavam em uma corrente de oração correspondente a umas cem hidrelétricas de Itaupus. Na minha família e entre amigos, vi pessoas tristes com todo o processo do alquebrado fim de vida do Sumo Pontífice. Eu mesmo sofri ao ver o único papa que minha mente adulta registrou esvair-se em dor, estampada em sua face numa imagem que correu o mundo em jornais e capas de revista.

Eu prefiro uma lembrança mais bonita do rosado rosto de Karol Wojtyla. Ela guarda um sorriso dirigido, junto com um aceno, a mim, um menino de doze anos, semi-escondido ao lado de uma árvore. O papamovel passou, o Papa acenou e sorriu. Era 1980. A imagem que mais me tocou e enterneceu, no entanto, levando-me à reflexão que agora faço, foi a de uma jovem de não mais de 20 anos chorando, em silêncio, uma lágrima de tristeza e vazio no momento do anúncio oficial da morte de João Paulo II. Chicobuarqueanamente, seus olhos estavam  embotados de silêncio e lágrimas.

Que relação impessoal e ao mesmo tempo tão pessoal é essa que nos leva a chorar dolorosamente por alguém com quem nunca sequer conversamos? Como explicar esse choro doído da jovem, suas lágrimas pingando no piso frio da Praça de São Pedro, lavando com sua dor o paralelepípedo inerte? Como compreender essa sensação de perda de alguém com quem não possuímos vínculos diretos de relacionamento? Por que eu, um católico infreqüente, me peguei abatido, na varanda, rezando por João Paulo II? Parei pra pensar.

No curso da vida há relações sociais oficiais e reconhecidas: pai, mãe, irmão, tios, tias, primos, amigos de trabalho, namorados, namoradas, conhecidos próximos e distantes. Paralela a elas, há também uma espécie de rol de amor não declarado. São pessoas cuja importância apagamos porque não as percebemos. Invisivelmente fazem parte de nossa vida e de nossa história sem o devido registro nos compêndios de nossa memória declarada. Gente que atravessa nossa existência, influenciando decisões, realizando por nós aquilo que está fora de nosso alcance, representando no mundo nossos pedaços mais fracos. Pessoas cujas ausências revelam as presenças fortes e nos surpreendem pelo pedaço que levam de nós quando se vão.

Ayrton Senna era uma delas. Senna representava o campeão presente em nós, mas desconhecido por nós, brasileiros sofridos sem a infra-estrutura na vida que ele tinha nos boxes. Ele era nós. Ele nos preenchia. Quando se foi, morremos um pouco. Tancredo Neves representava a democracia que nos roubaram. Naquele homem falava a voz de milhões de pessoas que gritavam pelas Diretas-Já. Por isso choramos quando o porta-voz da presidência anunciou em rede nacional sua ida. Os Mamonas Assassinas eram representantes de nós próprios, eram nossa versão moleque. Um lado moleque que as normas e regras sociais da adultidade não nos permitem viver na plenitude sem olhares cortantes de censura. Por isso, ficamos tristes com o desaparecimento do grupo. Com ele, espatifou-se também a forma de realizar o deboche que adoramos e que um adulto não pode fazer sem cair no rótulo do ridículo.

A pouca leitura em psicanálise tem me ajudado a compreender bastante o papel fundamental da falta na importância dos laços. As relações inexplicáveis de que falo ajudam a entender um pouco os fãs, que acham em seus ídolos os espelhos da ausência de si. O Papa representava a fé, a ligação com Deus que não achávamos por conta própria. Sob esse ponto de vista, João Paulo II era um fusível da fé. Sua perda significa a perda da compensação da fé que não consiguimos ter. Quem vai ter fé por nós agora? Quem vai completar e avalizar para Deus o que nos falta? O camerlengo, cardeal que governa a igreja interinamente, não resolve. É uma gambiarra que não tem a história e a memória papal. É um clipe que colocamos para que não se rompa a corrente de energia entre nós e Deus, mas que não vai durar muito tempo. Os fiéis da Praça de São Pedro rezavam por si. Em minha varanda, eu me entristecia pela minha ausência da igreja. A bela e triste jovem chorava por ela mesma.

Ainda que sejam inconscientes, esses processos não possuem um lado só. Há os que privilegiam o lado da rejeição à tradição, a tudo que está estabelecido. A isso chamamos de iconoclastia. “Dane-se o Papa!”, “Os Mamonas morreram? Já vão tarde…”, “O casamento é uma instituição falida”. Essas são frases típicas de um iconoclasta, alguém que ataca os ícones sociais porque ele próprio aceita o reflexo de si no que critica. O iconoclasta está sempre fortemente presente no que ataca, ainda que não aceite e não o saiba. O iconoclasta é um sujeito incapaz de lidar com sua multiplicidade e, mais, com suas limitações só realizáveis por meio de um processo de convivência, transferência e realizações dessas limitações no social, através de pessoas públicas ou não, famosas ou anônimas, fatos, ícones. O iconoclasta não chora, engole o choro. Não vive o luto, vive em luto. Não aceita, se rejeita. Não vive a plenitude da incompletude ontológica do ser humano. Vive a mentira da auto-realização independente. Dialeticamente, o iconoclasta revela seu compromisso com a coisa negada ao negá-la.

O pensador Michel de Certeau dizia que reinventamos o cotidiano. As normas, regras e leis que não podemos mexer nos fazem, pela natureza movente do ser humano, criar o diferente dentro do mesmo. Só que esse mesmo não é o mesmo depois da apropriação individual. Jogamos diferentemente o jogo do xadrez social, possuidor de regras que não podemos alterar. As regras são as do xadrez, mas os movimentos das peças são a nossa apropriação dessas regras, a individualização do social. Crer que o xadrez se joga sempre através da mesma seqüência de movimentos não é jogar xadrez. Há regras, mas há vida. Chutar o tabuleiro em nome de um tudo-pode inconseqüente é igualmente não jogar xadrez. Há vida, mas há regras.

Os nossos movimentos na vida são possíveis através das regras que respeitamos e reinventamos ao mesmo tempo. Há vida e há regras. Entender isso é reconhecer que somos limitados, incompletos e dependentes. É aceitar que necessitamos de ordem para extrapolar limites, para completar incompletudes e para declarar a independência, pelo menos no plano consciente. Essa forma de pensar nos tira do isolamento, nos faz valorizar o outro que nos completa.  Viver a ambivalência nos torna pop, no sentido de seres pertencentes a um espaço social, coletivo, interdependente e diverso. Nesse sentido, o Papa João Paulo II era pop. Quão pop somos nós?

Lá na praia eu deixei o meu barco…

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Texto escrito para o Portal Amazônia

Domingo passado eu iria começar a dar aulas em um curso de pós-graduação. É, domingo. Acordei com minha aula preparada, como sempre faço, e fui dar uma olhada na Internet, com sempre faço também. Tuitei que estava precisando ir à igreja. E fui ganhar o pão.

Chegando à Instituição, havia outro professor esperando para dar aulas para a mesma turma. Houve algum ruído na comunicação e dois professores foram convidados a iniciar naquele dia. Como o outro professor tinha sido meu aluno, ficamos conversando antes da chegada do coordenador, decidimos que ele iniciaria e eu só começaria depois da sua disciplina. O relógio marcava 8:10 da manhã de um domingo. Bateu um estalo: por que não ir à missa?

Estava perto da igreja de Nossa Senhora Aparecida. Foi nessa igreja que meu sujeito religioso fez-se gente. Ali eu fiz catequese, a primeira-comunhão. Ali eu ia às missas das crianças do domingo de manhã. Ali eu aprendi a amar o próximo e me dei conta de que esse universo é muito perfeito para ser obra do acaso. Naquela igreja, embora morasse em outro bairro, está registrada minha vida religiosa de épocas mais intensas. Pausa. Meu perfume de rosas chegou forte. Sua benção, vó. Falar nisso, foi naquela a igreja em que minha vó viveu sua vida inteira.

Entrei, peguei o boletim e os cânticos na caixinha lateral, como fizera milhares de vezes há tempos idos. Sentei. Logo, uma mão macia e conhecida tocou-me o ombro e os cabelos. Era minha mãe, que estava na missa. Como sempre esteve em todas aquelas de que participei. Assistimos à missa juntos. Memórias vieram num fluxo transbordante.

Tive a nítida impressão de que as pilastras da Igreja conversavam entre si. E eu era o assunto. Pilastras que viram um menino descobrir um mundo. Pilastras que testemunharam a construção de meu templo individual. Nossa Senhora e Jesus, nos quadros que ficam de cada lado do altar, os mesmos de minha infância, acenaram e sorriam para mim como se acena e se sorri para um velho amigo. Eu juro. Naquela missa das crianças, com o harmônio ecoando e o coral de crianças cantando, eu me reencontrei comigo criança, sem as angústias e dores da adulteza. Eu comunguei, no sentido etimológico da palavra: comunicar-se, compartilhar. E no religioso também. Limpeza.

E já que estamos falando de religião e fé, confesso de público que tenho sido hoje bem mais cristão do que católico, ainda que assim me identifique ao ser indagado. E confesso que percebo, aos 41, a importância de tantos anos na igreja. Foi ela que me deu alguns dos parâmetros e valores fundamentais para o mundo, que hoje são pilastras da minha subjetividade. Foi a igreja que me ensinou a querer o bem às pessoas e ao mundo. Com a roda-viva, pode-se até perder assiduidade física, mas jamais se perde o valor incrustado na alma. Pode-se até entrar no forte jogo do dia-a-dia, mas quem tem formação religiosa não se esquece nunca da finitude. A leitura da missa falava sobre isso. De que vale tanta correria e acúmulo se no fim dos trabalhos tudo se deixa?

Em “A Psicanálise e o Religioso”, Freud dizia que a religião é para os desamparados. Ele tem razão. Achar que não precisamos de amparo frente à fragilidade, à vulnerabilidade e à efemeridade humanas é de uma arrogância sem tamanho. Alguém me perguntou dia desses no Formspring: como você lida com o discurso cristão presente em seus textos? Eu nunca tinha parado para pensar em como o discurso cristão está presente em meus textos. E está. Porque está na minha vida. É a isso que nós, analistas do discurso, chamamos de Discurso Fundador: aquele que é fundação de nossa personalidade, pilastra de nosso edifício semântico. Pilastras das boas. Como as da Igreja de Aparecida.

Meu desejo matinal foi atendido: fui à igreja. E passei a semana com o cântico da comunhão na cabeça: “Senhor, tu me olhastes nos olhos. A sorrir, pronunciaste meu nome. Lá na praia eu larguei o meu barco. Junto a ti, buscarei outro mar…”. É. Esse universo é muito perfeito para ser obra do acaso. Meu curso só começará em outubro. Fui ensinar naquele dia. Quem aprendeu fui eu. Fui ganhar o pão num domingo. E ganhei.

Onde Deus possa me ouvir

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Texto escrito para o portal D24AM.

Sabe o que eu queria agora, meu bem?/Sair, chegar lá fora e encontrar alguém/que não me dissesse nada/não me perguntasse nada também./Que me oferecesse um colo ou um ombro/onde eu desaguasse todo desengano/Mas a vida anda louca,/as pessoas andam tristes,/meus amigos são amigos de ninguém./Sabe o que eu mais quero agora, meu amor?/ Morar no interior do meu interior/Pra entender porque se agridem,/se empurram pro abismo,/se debatem, se combatem sem saber…/Meu amor, deixa eu chorar até cansar/me leve pra qualquer lugar/aonde Deus possa me ouvir/Minha dor, eu não consigo compreender/eu quero algo pra beber/me deixe aqui, pode sair./Adeus.

Há horas em que as horas se arrastam. Há dias em que tudo o que queremos é encontrar alguém que não nos diga nada, que só nos ofereça um colo, um ombro, um cafuné e seu olhar de colchão. Alguém que saiba quando calar para que nossos silêncios falem. Alguém cuja presença seja a estaca que segure a nossa alma, completamente tomada de hera dos fatos pesados da vida. São dias sem sol em que a sombra certa é tudo que desejamos que repousasse sobre nossas cabeças.

Todos nós, vez por outra, precisamos desaguar nossos desenganos. Queremos alguém que seja o receptáculo solícito de nossas angústias, tristezas e aflições. Mas quem? Por onde andará essa pessoa, com o dom e a sensibilidade de saber que a desculpa mais esfarrapada para deixar de viver é o máximo que conseguimos criar e, mesmo assim, ainda acredita em nós? Olhamos para os lados e o que vemos são pessoas e mais pessoas. Elas nos acompanham e no meio delas somos o mais sozinho ser do universo. Porque as pessoas andam tristes e na sua tristeza os amigos tornam-se amigos de ninguém.

A vida fica louca e sai do eixo. A vida parece que tem vida própria e independente de nós. Ficamos a seu reboque. Pagando com a alma se preciso for, queremos comprar a primeira passagem para o interior de nosso interior. Lá, talvez, a contemplação do silêncio ajude a entender porque as pessoas fazem o que fazem, por que tanto desentendimento em tempos de linguagem farta, por que se empurram para os abismos numa beligerância sem nexo, por que se debatem gratuitamente e se combatem com afinco sem saber.

Há momentos da vida em que queremos chorar até cansar. A esperança é que aquela sensação boa de depois de um choro venha enxaguar a sujeira que se acumula na casa desarrumada de nossa alma. Que ela faça uma faxina de quem tem TOC e devolva a cada coisa sua simetria perfeita no esquadro da existência. Porque está tudo bagunçado, está tudo confuso. Não achamos nem a porta para fugir. Ou até achamos, não temos mesmo é força.

Nossa via-crúcis particular não termina. Que droga! Por que não nos penduram logo numa cruz para acabar com esse tormento que martela de forma chinesa nas veias, no corpo, na mente? Quantas estações teremos que passar aguentando chibatadas e açoites que parecem ter combinado o tempo sincronizado para acertar as nossas costas?

Há tempos em que parece que estamos num casulo de Dante. Nem Deus consegue nos ouvir. A Ele, que ouve até nossos silêncios, lhe escapamos . E cadê a pessoa para nos carregar no colo até um lugar onde Ele possa sentir nossa respiração? Porque Lhe basta isso para olhar para nossas inquietudes e apaziguá-las…

A vontade nesses dias chuvosos é de se deixa encharcar. Sumir dos olhos de todos, buscar escapes, chutar o balde. Dar adeus a quem mais nos quer bem. E a quem definitivamente não nos quer bem. Mas não é sábio.

A vida de todo mundo é assim. Eu já vi fogo e eu já vi chuva. Eu já vivi dias chuvosos que pensei que jamais terminariam. Talvez vocês, meus dezessete leitores, não saibam, mas já cheguei muito perto, mas muito perto de renunciar à vida, quando estive afogado em certo dilúvio que me inundou a existência.

Depois o sol abriu. E com ele as cores do arco-íris. Porque é assim. A vida de todo mundo é assim. Vivemos os céus mais azuis e os infernos mais quentes intercalando-se na calada da vida. Vivemos a doçura mais deliciosa e o amargor do fel de ocasiões que chegam em bando, em gangue, para nos roubar a paz e nos estuprar a tranquilidade.

Ao descrever um momento acre da vida, a música de Vander Lee na belíssima voz de Gal Costa nos lembra, por tabela, que há momentos felizes, momentos de sorrisos fartos. A vida é agridoce. Se entendermos que é assim, talvez soframos menos. Talvez. Em minha felicidade, entendo a crítica de que sou suspeito para falar de tristeza.

Um mundo propositivo

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Este texto foi escrito em 27 de junho de 2007 e publicado no jornal EM TEMPO. No dia em que Marina, minha caçula, nasceu.

Cada dia ficamos mais estarrecidos ao abrir jornais pela manhã ou escolher um canal de televisão. Barbáries, crimes sociais e ambientais, roubos de recursos públicos, um denuncismo de cunho político que não visa o bem comum e sim projetos pessoais. Um mundo, enfim, cada vez menos convidativo para nele se viver.

Estive pensando nisso. Falar em futuro da humanidade tem sentidos diferentes para quem tem e para quem não tem filhos. Nos caminhos do pensamento que olhava ao longe da janela do meu apartamento o pôr-do-sol , percebi que não há escuro sem claro, que para haver música, o silêncio se faz necessário. Há sempre o outro lado.

Se por um lado há políticos que se vendem como guardiães da moral e, cínicos, superfaturam obras ou compras, retirando um dinheiro que iria para escolas de crianças, por outro há políticos sérios, comprometidos, que perdem amizades para não perder a decência e os princípios. Se há escolas públicas caindo aos pedaços, como a imprensa gosta de mostrar, há escolas públicas novas, cheias de projetos pedagógicos, formando os alunos que delas necessitam, com professores comprometidos, que não fazem das dificuldades cotidianas racionalizações para o descompromisso.

Se há bárbaros que matam e assustam a sociedade, há pessoas boas que encantam porque cuidam voluntariamente dos que precisam, fazendo do seu gesto gratuito sua alegria de viver. Se há dores, há sorrisos. Se há fome de justiça, há banquetes de gente bem intencionada que não desanima. Se há os nauseabundos programas vespertinos para promover políticos e pretensos nos canais locais de televisão, há uma TV Cultura para alimentar a imaginação da criança que precisa da fantasia para ser normal. Se há Calypso, há Zeca Baleiro. Se há Paulo Coelho, há Guimarães Rosa.

O problema de nosso mundo velho sem porteira é a direção. Grosso modo, não estamos indo. Estamos sempre reagindo. Um mundo reativo é um mundo ruim. Quem reage abre mão da sua direção, deixando que outros a determinem.  Um mundo reativo é um lugar do sobressalto, do medo, da ansiedade. É um mundo do band-aid na ferida profunda, fingindo acabar com um problema que só se enraíza num cancro fatal. Um mundo reativo é um mundo enclausurado na incerteza que nos espera na próxima esquina. É um mundo desconfiado.

Mas podemos mudar a direção do olhar. Em vez de reagir, podemos agir. Um mundo de ação é o mundo da solidariedade, da vida em sociedade de verdade. Um mundo da ação é um mundo que não espera, propõe. É um mundo que entende o valor da profilaxia social, evitando as mazelas sociais, essas mesmas mazelas que hoje, porque não termos cuidado antes, temos que combater a um preço muito alto. Dor, medo, angústia, ansiedade, violência não combinam com esse mundo. As suas palavras são sorriso, ação, alegria, certeza e paz.

Eu fiz uma experiência durante a semana que passou. Fixei meu olhar no mundo e nas pessoas propositivas e ignorei solenemente o mundo reativo e as pessoas negativas. Eu te digo, leitor, que foi uma experiência muito gratificante. Descobri que existe um mundo fora da mídia azeda que é melhor do que o que nos vendem, feito de gente do bem, de coração grande, que se interessa genuinamente pelo lado bom da vida e pelas outras pessoas.

É esse mundo propositivo que eu quero para a Marina, que nasce hoje. Seja bem-vinda, minha filha. Papai vai continuar lutando por esse mundo propositivo. Porque viver ainda vale a pena.

Sinais

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Um homem tinha um cachorro que havia criado desde pequenino. Seu carinho era retribuído com uma fidelidade canina. O que dono fazia era aplaudido pelo animalzinho, que o lambia como a dizer “Você é meu ídolo!” Sinais de cumplicidade. O homem amava o cão e o cão amava o homem. Brincavam, explorando o terreno da chácara em que viviam.

O tempo passou e o cãozinho cresceu. O homem confiava no cão e o cão retribuía com sinais de carinho.  As pessoas da cidade, no entanto, viviam dizendo para o homem não dar muita  confiança para o cão. Bicho é bicho e nunca se sabe quando o instinto vai falar mais alto. Mas o homem confiava no cão. O homem casou e sua esposa teve um bebê. Fofo, como todos os bebês. Um riso de Curinga.

Um belo dia, o cão comia sua ração quando o homem se aproximou para lhe fazer um afago. Mas não era um afago sincero. Era um afago de teste. Ele queria ver se o cão preferiria o afago à comida. No fundo queria testar o que diziam na cidade. O cão não vacilou à aproximação. Rosnou e ameaçou morder. O homem forçou a barra, o que era uma sacanagem com quem só havia dado sinais de lealdade até então.

Ferido com a quebra de confiança, o cão mordeu o dono. Esse, assustado, recuou. Reagindo instintivamente, lançou um pedaço de pau contra o animal. Chegou a atingi-lo. O cão e o homem deram sinais de que ficaram ressabiados um com o outro. Principalmente o cão, que estava na dele no início de tudo.

E lá se foi o homem à cidade de novo. Ouviu as mesmas histórias sobre o instinto. Mas dessa vez os sentidos daquelas palavras foram outros. Passou a acreditar no que ouvia. Voltou  para casa convencido de que se desfaria do cão.   Ao chegar, a cena de horror. Rastros de sangue no chão.

O homem pensou na família. Entrou em casa, pegou sua arma, muniu-se de ódio para matar o cão. Eles tinham razão: o instinto se manifestara. Correu em busca da esposa e de seu  bebê. Ela estava no corredor, com as pernas dilaceradas. Fora pega antes de chegar ao quarto, para onde ia para proteger o bebê.

O homem começou a sangrar por dentro. Não queria ver a próxima cena. Fechou os olhos. Rezou para o bebê estar lá. Ao fechar os olhos, sentiu uma lambida na mão e ouviu um  grunhido. Era o cão, todo estropiado, ali na sua frente. O seu ex-melhor amigo era a razão de sua maior dor.

O cão olhou o homem nos olhos. E sorriu. Um riso de sarcasmo talvez. “Viu o que fiz com sua família!”.  O homem mirou e disparou. O cão caiu morto. Não teve nem tempo de gritar de dor. E o bebê? Dirigiu-se ao quarto, já preparando o espírito para o impreparável. Cão miserável!

De repente um choro. O bebê! Vivo! Correu para tomá-lo no colo. Ao entrar no quarto, o bebê estava no berço, chorando, respingado de sangue. Do lado do berço, a onça morta. A mordidas de cachorro. Deu-se o silêncio. Deu-se o vazio. Sentiu uma dor.   O homem sentiu-se só.  Os sinais! O olhar sorridente! A lambida na mão!  O grunhido de orgulho pela guerra vencida…  O homem  deixou de perceber os sinais. Não entendeu os sinais. Irreversível. O bebê, lindo, passa bem, com seu sorriso de Curinga, sem nada saber da história.

A vida é feita de leituras dos sinais do mundo. Às vezes nos equivocamos.

Os Dez Mandamentos do Twitter

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Twitter? @sergiofreire1 – Preferirás o Twitter sobre todas as outras redes.

2 – Não usarás seus 140 caracteres em vão.

3 – Guardarás o #FF e MusicMonday para esses dias.

4 – Respeitarás os old hands que chegaram antes.

5 – Não darás block ou unfollow, mesmo quando queres matar.

6 – Só adulterarás para o RT caber.

7 – Não furtarás tweets alheios.

8 – Não farás RT criticando @teuproximo com @.

9 – Não protegerás seus Tweets.

10 -Não cobiçarás os followers do @teuproximo.

Amém.

Oração de pai pra Pai

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Pai e paiPai nosso que estás nos céus, quem Vos fala é um pai de filhas que estão na terra.

Que santificado seja o vosso nome e santo também sejam o meu nome e a imagem que minhas filhas construam de mim, por minhas ações, atos e também omissões. Sim, às vezes é preciso se omitir de certas práticas nefastas que se nos apresentam no enredo da vida.

Pai, que venha a mim o Vosso reino e que no meu pequeno reino, aqui nessa terra, eu consiga à imagem e semelhança do Vosso, construir castelos de respeito, com fossos para nos separar do mal, do vil, do indigno, do sórdido. E que esse meu pequeno reino seja um reino onde habitem crianças de alegria e júbilo, de paz no coração e de mente sadia. Que nos prados e campinas dessas terras minhas crianças genuinamente fiquem felizes com a felicidade alheia. Crianças que colham flores, que riam com pássaros, que brinquem com as formas das nuvens e, sobretudo, que façam o bem.

Que seja, Pai, feita a Vossa vontade, assim na terra como no céu. Que essa vontade Vossa possa guiar-me na terra quando meu livre arbítrio fraquejar, quando minha pequenez humana engasgar nos desafios da vida. Minhas filhas precisam de mim. Os filhos precisam do Pai, bem sabeis. Quando eu chegar ao céu, quero olhar para baixo e para trás na certeza de que nossas vontades coincidiram ao máximo. Vivo dia a dia a esperança que minhas meninas vivam isso. Quero a certeza para segurar as mãos de minhas filhas ao atravessar a rua da vida com que Vós segurais a mão desse Vosso filho. Nesse aperto de mão, se apertam também os laços de amor, de cuidado, de preocupação, de afeto.

O pão nosso de cada dia dai hoje. E dai permitindo que eu vá atrás, que eu o busque. Permita, Pai, que o faça no limpo, respeitando outros pais que igualmente buscam o seu pão de cada dia. Para isso, peço mais: além do pão, dê-me saúde, serenidade, paciência e altruísmo genuíno, sem os quais a jornada diária pelo trigo que alimenta é muito mais árdua.

Perdoai minhas ofensas, assim como eu perdoo a quem me tem ofendido. E seja complacente nesse pedido. Pois se para Vós que sois Pai maiúsculo é fácil perdoar, para mim que sou pai minúsculo é laborioso por vezes desendurecer o coração com os outros, quando esses outros são pequenos, mesquinhos, invejosos, cruéis. Perdoai-me quando não conseguir perdoar. Sei que o perdão prolonga a vida ao expelir a mágoa para fora da alma. Então, Pai, que o perdão seja o desjejum diário de minhas filhas.

Não me deixeis cair em tentação. A tentação do desânimo, a tentação da desistência, a tentação da impaciência, a tentação da desatenção, a tentação da naturalização dos afetos. Minhas filhas compõem-se de cada gesto meu digerido por suas existências. A atenção que não lhes dou é preenchida com outra coisa. O cansaço que me impede de com elas brincar lhes rouba a brita do alicerce da alegria em família. A impaciência no trato com duas pequenas coisinhas, frágeis e dependentes, experimentando e descobrindo um mundo tão complexo, sinaliza uma falta que não posso deixar acontecer. Eu sou responsável por parte do sentido que o mundo terá para elas. Poupe-me das tentações, Pai, para que esses sentidos sejam os melhores no que depender de mim.

E livrai-me do mal. Livrai-me do mal da dor da impotência diante das doenças. Livrai-me do mal da dor do desrespeito mútuo. Livrai-me do mal da dor de falhar como pai. Afasta de mim tudo aquilo que tire das minhas filhas seus lindos e iluminados sorriso de suas bocas. Tudo aquilo que lhes façam se sentir menos gente nesse mundo em que o humanismo é visto como besteira bolorenta. Que o mal se afaste e o bem prevaleça. É o que eu, pobre pai aprendiz, Vos pede, com fé e de todo o coração. Com a certeza de um filho que terá seu pedido atendido. Assim seja. Amém.

Se eu quiser falar com Deus

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Texto de 2002, era de turbulência afetiva. Descobri que você só pode amar desprendido dos amores que se foram. Hoje amo na plenitude porque entreguei o que não era mais meu.

Se eu quiser falar com Deus /Tenho que ficar a sós /Tenho que apagar a luz /Tenho que calar a voz /Tenho que encontrar a paz /Tenho que folgar os nós /Dos sapatos, da gravata /Dos desejos, dos receios /Tenho que esquecer a data /Tenho que perder a conta /Tenho que ter mãos vazias /Ter a alma e o corpo nus/Se eu quiser falar com Deus /Tenho que aceitar a dor /Tenho que comer o pão /Que o diabo amassou /Tenho que virar um cão /Tenho que lamber o chão /Dos palácios, dos castelos /Suntuosos do meu sonho /Tenho que me ver tristonho /Tenho que me achar medonho /E apesar de um mal tamanho /Alegrar meu coração/Se eu quiser falar com Deus /Tenho que me aventurar /Tenho que subir aos céus /Sem cordas pra segurar /Tenho que dizer adeus /Dar as costas, caminhar /Decidido, pela estrada /Que ao findar vai dar em nada /Nada, nada, nada, nada /Nada, nada, nada, nada /Nada, nada, nada, nada /Do que eu pensava encontrar

Uma vez uma aluna perguntou, durante um curso de Introdução à Análise de Discurso, se eu acreditava em Deus. Eu disse que sim. Ela rebateu dizendo que eu estava sendo incoerente com a teoria do discurso. Eu disse a ela que não. Primeiro porque nossa relação com Deus no plano da intimidade não dá para ser explicada por nenhuma teoria. Por isso é fé. Segundo, aí já no campo da teoria que explica o funcionamento de um discurso religioso, o fato de eu saber como é produzido esse regime de verdade não torna essa verdade menos verdadeira para mim. Não sei se ela se convenceu, mas eu estou convicto da minha relação com Deus, relação que andou meio abalada, confesso publicamente.

Andei meio distante de Deus nesses últimos tempos. Usei as desculpas de praxe: pouco tempo, os padres estão chatos, a missa é muito longa e repetitiva, a política me enoja, o Equador vai jogar com a Croácia, enfim, mil desculpas.

Nesse aspecto, Deus é legal, pois Ele não nos força a nada. É como disse há muito tempo o Pe. Cânio Grimaldi, o personal father da nossa família: as coisas do espírito não podem ser obrigadas. Então, se você está a fim de chegar perto de Deus, ser afagado, lá está Ele, tal qual nossa mãe. Chamá-lo de Pai é herança do patriarcado dos hebreus. Ele é mais mãe. Se você se afasta, busca outros rumos, outras prioridades, Ele não reclama. Aliteração necessária: Deus deu a dádiva do livre arbítrio foi para isso. Mas mais cedo ou mais tarde, quem d’Ele sentiu o carinho volta.

Eu voltei um pouco hoje. Um muito. E como um católico básico, um-ponto-zero, voltei porque estava angustiado, perdido, dolorido com as coisas que a vida traz. O católico-padrão age assim: só volta estropiado, feito menino-barrigudo que não ouve conselhos. Hoje eu estava assim. Entre as várias coisas que me ocorreram fazer para minimizar minha angústia, entre algumas opções sensatas e outras nem tanto, estava a de entrar numa igreja e rezar. Entrar, sentar lá no banco de trás e rezar. Visitar um velho amigo. Tomar um cafezinho, perguntar pelos seus.

Parei e estacionei. Nem me importei com o flanelinha pedindo para “reparar o carro”, coisa que geralmente me irrita. Concordei e fui. Na verdade, acabei me convidando para uma missa de 15 anos que estava para começar. Peguei o boletim personalizado que todas as missas de 15 anos têm, ajoelhei meio sem jeito no fundão, deslocando até o menisco por falta de calo. Afrouxei o nó da gravata, dos desejos, dos receios. Calei a voz, e fechei os olhos. Dispus-me a lamber o chão dos palácios e castelos suntuosos dos meus sonhos, como na receita de Gilberto Gil.

Fui muito bem recebido, senti uma paz de espírito que não sentia desde que, ainda limpo da vida suja e mesquinha de cada dia, fiz minha primeira comunhão num domingo ensolarado na Igreja de Aparecida. Parece que Ele estava me esperando. Até a leitura impressa no boletim parecia conter, acima do texto, um post-it amarelinho colado e escrito à mão: “Para o Sérgio”.

A festa era para a Érika, felicíssima, e para mim, tristíssimo. Ela, 15 anos de vida. Eu, 15 anos de ausência. Ok, uma missa aqui, outra ali, Natal, Páscoa, mas nada tão inclusivo quanto à época em que fazia parte do grupo de jovens, da pastoral da música, num ato de nepotismo religioso muito grande do Paulo, meu irmão, que tocava o violão. Eu carregava o violão. Mas carregava com uma fé!

As músicas eram só músicas “do meu tempo”. Ave-Maria do Pe. Zezinho, Renova-me, Fica sempre um pouco de perfume, Utopia. De repente eu voltei no tempo, vi-me criança no catecismo do sábado à tarde. Senti a mão da minha vozinha correndo por entre meus cabelos, sentindo que ela olhava ternamente para mim com seus olhos infinitamente azuis e seu sorriso lindo e contornado por seu batom vermelho que deixava uma cicatriz de amor em nossas bochechas a cada beijo. Era como ela fazia naquelas tardes de sábado. Teria sido um anjo? Minha vó era um anjo. Eu senti, juro. Pensei comigo: “Meu Deus, que paz!”. Alguém respondeu sorrindo: “Eu sei”.

Fiquei ali por mais de uma hora. Não queria mais sair. Entrei pesado, triste, amargo, quebrado, sozinho. Tudo foi-se no primeiro fechar de olhos. Tudo. Olhei lá frente, pois já tinha recuperado a força para erguer a cabeça, e vi Jesus na cruz. Pensei naquele amor todo. Pensei em quão pequeno se tornara meu problema, minha dor, diante de tal resignação, de tal entrega. Resolvi entregar. Resolvi me entregar. Deixar de ser um humano arrogante, racional, e reconhecer que não estava conseguindo e nem iria conseguir. Descobri que minha dor era fruto de meu egoísmo, de eu querer algo para mim, sem pensar nos outros envolvidos. A leitura falava do manjadíssimo “Amai-vos uns aos outros”. Simples, direto. Eu estava no “Amai-me a mim mesmo”. Era esse o nó. Desatei. Desatamos. Desataram.

Renovado, como o pedido da música, dei os parabéns para a Érika, para seu Wladimir e para dona Ivone, os seus pais. Devem estar se perguntando até agora quem era aquele rapaz com olheiras profundas, mas tão feliz. Não tive a cara de pau de ficar para os comes & bebes, apesar da idéia ter me passado pela cabeça.

Saí e, na porta, voltei. Esqueci de agradecer a acolhida. Olhei para Jesus na cruz e agradeci. Olhei Nossa Senhora de Nazaré e vi que ela estava feliz, com um sorriso maroto. Era como se dissesse: “Volta, hein!” Voltarei, sim. Cantei para ela a música do Pe. Zezinho, que também parecia ter sido feita para mim. Prometi que a próxima vez não seria só na missa do aniversário de 30 anos da Érika.

Minha mãe Helena me disse que não há amor maior do que o que os pais sentem pelos filhos. Não tenho filhos ainda, mas amo muita gente. E com uma intensidade mil pontos na escala Richster dos amores. O amor por um filho deve, então, ser um amor muito grande mesmo. Mais uma vez vou com a minha gordinha e vou acreditar nela. Até porque hoje eu senti esse amor, como filho. Por parte dela, minha mãe, e na igreja. E re-aprendi que, diferentemente do que a gente aprende no mundo sem Deus, é preciso dar para receber, que meia bolacha na cara não tem graça, pois é preciso dar o outro lado ao bofete. Que amor é doação. É renúncia. É abrir mão. Como quando você solta uma pombinha pela paz. E paz não é utopia. Não busque explicar tudo isso pela razão. Não dá.

Tal qual Abraão, decidi depois dali oferecer e entregar a Deus algo muito especial, tão insubstituível para mim como seu filho Isaac era para ele. E essa renúncia era a razão da minha angústia inicial. Tinha que fazê-la, mas me angustiava, faltava-me algo. Depois dali, passou a angústia, veio o conforto. Lembrei que fica sempre um pouco de perfume nas mãos que oferecem rosas.

E o conforto é explicável: o aniversário era da Érika, mas quem ganhou um presente fui eu, o penetra: ganhei minha fé de volta. E que presente. Coisa de pai para filho mesmo.


12 de junho de 2002