Felicidade

Amores inventados

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Falar de relacionamentos é entrar em terreno pantanoso. Mas se há uma lei geral, ela deve dizer que tudo o que se quer é ser feliz com outra pessoa e fazê-la igualmente feliz. A vida se resume a isso. O resto é farofa.

Há casais que se encontram, sabem-se pares perfeitos e enfrentam tudo e todos: almas gêmeas. Duas pessoas que proporcionam a felicidade mútua. Seguram as pontas quando elas estão soltas, se amam no sol e na chuva, passam por cima do mundo pela certeza que têm de que estar juntos é a condição básica para viver.

Há casais que se encontram, sabem-se pares perfeitos e, por alguma razão, abdicam de sua felicidade. Cada um segue a vida tentando ser feliz naquele máximo possível com uma outra pessoa. Eles, que abdicaram de si, tentam fazer genuinamente felizes as outras pessoas que vêm para suas vidas. No entanto, jamais se esquecem da certeza de como teriam sido felizes se tivessem lutado contra o mundo e a sociedade. São, enfim, almas conformadas.

Há casais que se encontram depois de um dos dois passar por um amor mal resolvido. Em alguns casos, um dos dois ajuda o outro a se resolver. Mas já diz a sabedoria popular: o pior cego é o que não está a fim de ver. Quando o outro não quer resolver, ferrou. Nesses casos, pode acontecer da relação ser apropriada somente por um dos dois, de modo sanguessuga. O mal resolvido suga o outro para preencher a sua infelicidade afetiva. É o encontro da alma altruísta com a alma egosísta. Amor tóxico, inventado. É aqui que surgem os amores-muletas.

O amor-muleta é uma pessoa que nos ama e que fingimos amar. É uma conveniência afetiva para menos pior passar. O amor-muleta é escolhido a dedo para nos dar afeto e suporte, seja afetivo, econômico ou social. E ele nós dá tudo isso, de forma verdadeira, real, sincera. Fazemos uma escolha calculada e ideal para nós, mas que é uma fraude patente para o mundo que nos conhece de fato. Como a erva-de-passarinho, nós nos hospedamos em seus galhos para parasitá-lo, tirar o que ele tem para dar de bom sem nada dar em troca, a não ser a ilusão de uma relação que aparentemente funciona. Aparentemente. A relação com o amor-muleta é de aparência. A pessoa-muleta não sabe disso, mas nós sabemos e deixamos rolar. Isso é o escroto da coisa.

O cruel da pessoa que recorre ao amor-muleta nem é o autoengano, que, embora egoísta, pode existir como uma forma de equilíbrio do eu. Só ter chegado à qualidade de parasita afetivo já é um atestado de fracasso total. A mim, dá pena desse coração já na casa do sem-jeito. Mas o mais cruel mesmo é transformar uma outra pessoa, com afetos, desejos, planos, entregas, em uma mera conveniência. Reduzi-la a uma bateria que alimenta o tic-tac do marcapasso de um coração falido. Apequená-la ao transformá-la em um instrumento para dar conta do nosso andar capenga de nossos passos mal dados, cujas (ir)responsabilidades deveriam ser assumidas exclusivamente por nós. Mas envolvemos o outro. Inocente, ele se doa feliz a esse papel que nem sabe que desempenha nesse triste teatro do absurdo.

Não adianta o ser que faz uso do amor-muleta fazer fisioterapia. Seu andar já está atrofiado demais. Não adianta tentar se encontrar na religião, na análise, na macumba, nas drogas ou no que o valha. Para mim, essa pessoa já se perdeu ao usar o amor sincero de alguém, um dos atos mais mesquinhos que consigo vislumbrar para um ser humano. O mesquinho do amor mesquinho é que ele se sabe mesquinho. Isso que lhe corroi a alma, tenho certeza, mas não ao ponto de abandonar sua mesquinhez. Seu egoísmo está na base de sua pirâmide de Maslow psíquica. Foda-se o outro que eu amo.

Nietzsche dizia que o amor é o estado no qual os homens têm mais probabilidades de ver as coisas tal como elas não são. Estava certíssimo o filósofo. Por isso que no amor verdadeiro titubeamos, pisamos em falso, estendemos a mão e sorrimos. Por isso que no amor verdadeiro pisamos na bola, nos recompomos, sacodimos a poeira e vamos adiante. Por isso que no amor verdadeiro somos capazes de gritar ao mundo que amamos, sem vergonha de ser piegas ou invejado. O amor verdadeiro é nosso e o mundo, se quiser, que o entenda. Dane-se a racionalização, danem as explicações lógicas amparadas nas leis da física ou da química. Mas o amor-de-muletas… ah, ele não. Esse precisa se explicar, parecer equilibrado, manter as aparências para os paparazzi da vida. O amor-de-muletas não se sustenta comendo pão com ovo, com a despensa vazia e suas dores. Sabe, leitor, precisamos ler mais Nietzsche.

Abandonar a vida por um sonho é estimá-la exatamente por quanto ela vale. Essa frase é de Montaigne. Construir um castelo de vidro ou morar numa casa caiçara ouvindo o mar é uma sempre opção. Mas sonhos existem antes de nós. Eles se apresentam para que nos os busquemos. Sonhos feitos a posteriori, às custas alheias, não são sonhos: são pesadelos. Uma hora se acorda, todo suado, e a casa cai.

Todos temos o dever de ser felizes. Todos temos o dever de buscar um amor verdadeiro. Todos têm, por isso, o direito de errar nas suas escolhas: uma, duas, dez, cem vezes, que seja. Desde que a busca seja genuína. O que não se tem direito é de fazer dessa procura legítima uma busca calculada, que envolve outras pessoas como substitutos-fakes daqueles que ficaram para trás porque não os quisemos, porque não nos quiseram mais ou porque erramos nos passos e nas decisões tomadas. Viver com alguém e pô-lo à sombra e na sobra de nosso passado mal resolvido é cruel. Porque esse alguém tem uma vida e está apostando tudo também. Se vamos, então vamos por inteiro, não aos pedaços, como hansenianos do amor. Deixemos para trás as coisas boas na antologia universal do amor e mandemos as ruins para o raio que as parta. Encarnar um espírito de um velho amor obsessor na nova escolha afetiva é endemoniar uma alma boa. É um exorcisimo ao contrário.

Você pode discordar de tudo o que eu falei. É um risco que sempre se corre ao escrever. Porque falar de relacionamentos é entrar em terreno pantanoso. Mas eu pago para ver porque acredito que o que se quer é ser feliz com outra pessoa e fazê-la igualmente feliz. O resto é farofa. O problema é fazer da farofa o prato principal e não querer ser chamado de farofeiro.

Em cada frustração existe uma desilusão.Em cada desilusão uma oportunidade de recomeço. Frustrar-se é de lei para quem busca. Morar na frustração e compensar com enganos e autoenganos é de lei para os que ainda não compreenderam que qualquer maneira de amor vale a pena, que qualquer maneira de amor vale amar. Desde que seja amor de mão-dupla, sem muletinhas. Senão, cedo ou tarde, bate-se com a cara num beco sem saída. Um beco escuro e fedorendo. Vai por mim, leitor. Só vale a pena ser feliz se os dois forem.

À sombra da Castanholeira

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O caminho era o mesmo todos os dias. O muro azul descascado da casa ao lado, o latido ardido do cachorro da vizinha para quem passava. Sentado na cadeira de macarrão puído em frente à porta da casa a observar tudo e todos, o velho Português madrugador com sua ferida insarável na perna.

No campo de futebol que atrevessava para chegar à parada de ônibus, duas traves de madeira, sem redes, e um chão de barro com muita poeira. O campinho da rua sete resistia bravamente à especulação imobiliária que havia desconfigurado o bairro onde nascera. Ao passar por ali, era inevitável lembrar dos dribles e chagões do Maddy, o craque da infância, a sua inveja branca mais remota. Inevitável lembrar também do goleiro que fora, das defesas que ele próprio fizera, se jogando no chão feito um gato anestesiado. O campo parecia ter aprendido com eles: driblava e se defendia como podia das investidas das construtoras. A infância lhe era cara.

Atrás da trave que dava para a casa dos Smurfs, uma família de doze irmãos que tinha seu próprio time, havia uma árvore. Ele viu aquela árvore crescer. Quando criança, os moleques passavam e puxavam seus galhos de zoação, arrancavam suas folhas por divertimento. Em termos atuais, diríamos que sofria bullying. Ela cresceu. Dizem que à noite alimentava morcegos. De dia, no entanto, cedia sua sombra para o descanso do time-fora enquanto o grupo esperava o fim dos dez minutos ou dos dois gols, o que viesse primeiro. A Árvore era como se fosse mais um do time. Todos creseceram e foram cuidar das vidas. Ela sempre esteve  ali, claro, a observar os raros moleques que ainda trocavam o computador pela bola de futebol vez por outra e punham o pé no chão sem medo do bicho-de-pé e das frieiras. As mães daquela época eram menos histéricas do que as de hoje.

Todo os dias ele olhava para a árvore e lembrava de alguma coisa daquela época: os causos, as brigas, as risadas, as pessoas. Era um tempo bom. Por isso estava na memória.

Todos têm amigos esquisitos. Ele também tinha. Moisés era um garoto que sempre estava lá no campinho, mas nunca jogava bola. Cabeçudo, cabelo liso, sempre caindo nos olhos, olhos que nunca se viam. Ficava na dele e só respondia provocado. A molecoreba o chamava de “Guardião”. Sim, porque todo menino tem um apelido. Ou tinha, antes dessa chatice do politicamente correto. A escolha da alcunha veio exatamente porque ele não desgrudava da Árvore. Bem dizer, a Árvore era dele. Alguns até a chamavam de “A árvore do Moisés”. Ele era, definitivamente, o “Guardião”. Fazia sentido, como todos os apelidos fazem.

Além de introspectivo, alguns diziam que o Guardião era meio doido. Muitos tinham medo dele e de suas reações. Walter Vovó, um menino que tinha feições de velho, tinha verdadeiro pavor do Guardião. Da mesma forma que alguns tinha pavor do próprio Walter Vovó, parecido com o Smeagol. Se fosse hoje, certamente seu apelido seria Gollum. Mas ele não tinha. Ao olhar a árvore, enquanto olhava também o relógio para não perder o 306, lembrou de uma conversa que puxou com Moisés.

“Moisés, por que tu não desgruda dessa árvore?”

“É minha.”

“Sim, mas ninguém quer roubar a árvore. Todo mundo sabe que é tua…”

“É minha consciência.”

“Tua consciência?”

“É. Ela fala comigo. Ela me diz o que fazer. Quando eu preciso de ajuda, eu venho aqui e ela me diz o que eu preciso ouvir.”

Aquela conversa nunca lhe saiu da cabeça. Porque o Guardião falou com uma convicção que lhe parecia muito real. Assim ele leu a cena. Apesar de não conseguir olhar nos olhos do Guardião, ele possuia um certo dom de ler as pessoas quanto a falar ou não a verdade. Sabia que Moisés falava a verdade.

Demorou demais preso pelas lembranças e se atrasou. Perdeu o ônibus. Faltaria o trabalho naquele dia de sol escaldante de setembro por causa do devaneio no passado. Voltou para casa pelo mesmo caminho. Passou pelo campinho e olhou a árvore. Resolveu se aproximar e reencontrar uma velha conhecida que lhe emprestava sombra.

Ao chegar perto, largou a mochila encostada no muro dos Smurfs e chegou mais perto ainda. A árvore parecia pequena demais. É engraçado como quando reencontramos os lugares de nossa memória eles sempre parecem pequenos, como se tivessem passado por uma máquina do encolhimento.

“Oi, Árvore. Eu sou amigo do Moisés Guardião”, falou brincando e passando a mão no tronco marcado pelo tempo.

“Eu nunca te agradeci pela sombra do descanso. Obrigado.”

“Amigos de meus amigos são meus amigos”, uma voz saiu do meio das folhas.

Por um instante o seu coração disparou, saindo do ritmo. Suas mãos ficaram suadas de nervoso. A respiração em suspenso. O sol que lhe queimava antes de estar no abrigo da sombra da árvore só podia estar lhe causando alucinações.

“Por que demoraste tanto a vir falar comigo? Eu te vejo passar todos os dias a me olhar. Estava a te esperar.”

Os olhos arregalaram ao som da voz.

“Mas… como… que diacho…”

“Não tenha medo. Sou do bem. Como eu disse: amigos de Moisés são meus amigos.”

“O Moisés falava a verdade! Você fala!…”

“Claro. Mas as pessoas têm uma dificuldade de escutar os diferentes. Rotulam-nos de loucos, esquistos, malucos. Esquecem que cada um tem um mundo seu que partilha com o outros e um mundo seu todo particular, cujos segredos são nossos e verdadeiros para nós. Todo mundo tem um segredo inconfessável.”

“É…”, disse ele, lembrando com agonia do seu.

“Tu, por exemplo. Estás a viver um dilema imenso que te atormenta a existência”.

“Como assim? Como você sabe?”

“Árvores conversam com ventos, meu amigo. E ventos trazem os pensamentos.”

“Então se você sabe o meu dilema, me diga o que fazer. O Moisés um dia me disse que você era a consciência dele. Seja a minha então.”

“Passa-fome?”, a voz desviou-lhe a atenção. “Passa-fome, meu velho!”, falou agora alguém reconhecendo-lhe os traços esticados de adulto. “Passa-fome” era seu apelido de infância porque sempre tinha um pão com manteiga na mão.

“Keviny?”, ele também reconhecera o Smurf. “O Smurf número…”

“Sete. Smurf sete.” E fechou a cara com a lembrança do apelido que o irritava.

“Mas sim, Passa-fome. O que que tu tá fazendo aqui, cara? Tá igual ao Moisés Guardião, batendo papo com árvore agora?”

“Não… é que eu estava passando e resolvi parar para ver o campinho. Bons tempos aqueles, hein, Sete?”

“Porra, nem me fale… Não tinha contas, cheque-especial desses bancos agiotas, mil coisas que vão matando a gente todo dia aos pouquinhos. Não tinha de lidar com esses doidos de hoje. A vida tá doida, Passa… Tá foda pra todo mundo. Doidos, na nossa época, só o Guardião e Lambe-Lata da rua doze. Aquele moleque era doido pra caralho”. Os Smurfs sempre foram desbocados.

“É mesmo…”, riu se lembrando do Lambe-Lata. O menino tinha mania de passar a língua em latas e em tudo que era de metal. Só a lembrança da coisa arrepiava. Mas ele tratava o Lambe-lata com afeto porque ele era irmão protegido da Carla, filha da professora do grupo. Carla era linda. E disputada platonicamente. Estava no centro das paixões dos garotos de nove anos. Mas não dava bola para ninguém. Muito menos para ele, um menino magrelo, cabeludo, mirrado.

“Eu não sabia que tu ainda morava aí, Sete…”

“Não, cara, não moro. Depois que meus pais morreram, a casa ficou para a Keila…”

“A Smurfete…”

“Vai te ferrar, Passa-fome maldito!”, falou rindo, num misto de divertido pelo passado e chateado com ele também.

“Já comeu teu pão hoje?”, provocou sarcástico. E continuou. “Então, ela casou e foi morar em Campinas com o marido militar. A gente vendeu a casa. Tô aqui dando uma guaribada geral para entregar. Cara, deixa eu ir que a vida segue. Do caralho te ver, mano velho! Bom mesmo.”

“Falou, Keviny! Te cuida!”

“Falou.”

Pegou a mochila, evitou olhar para a árvore e se foi. Na volta, o Português feridento ainda perguntou:

“Que cara de espanto é essa, rapaz? Parece que estava a ver um fantasma!”, coçou a ferida e riu. Ele também riu de volta, comprimentou com um meneio de cabeça, ignorou a pergunta e seguiu. O cachorro ardido latiu quando passou em frente ao portão. O muro azul continuava descascado.

Ele ficou com medo de que estivesse enlouquecendo. Conversar com uma árvore? Mas o seu conflito era grande e estava consumindo a sua paz. Ele resolveu voltar lá quando retornasse do trabalho, à noite.

“Oi.”

“O bom filho retorna…”

“Desculpa ter saído daquele jeito… É que o Smurf…”

“Não peças desculpas por aquilo que tu tens certeza que o outro jamais entenderá. Não somos responsáveis pela compreensão alheia dos fatos do mundo. Cada um é responsável pelos seus caminhos. É o livre arbítrio. Não justifique os outros.”

“Você é o quê, afinal?”

“Sou o que você quiser que eu seja. É importante que tu saibas quem eu sou para seguir conversando comigo? Ou é importante que conversemos a sua angústia? O copo altera a água que mata a sede? O prato altera o pão que mata a fome?”

“Certo… Estou mal. Quero muito algo, mas os valores sociais não aceitariam nunca. Isso me consome.”

“Angústia é estar em dois lugares incompatíveis ao mesmo tempo. É querer os dois e não conseguir se decidir por nenhum. Tu estás angustiado. Não há decisão sem ganhos. No entanto, não há escolhas sem perdas. Resta decidir ir por onde a perda, que virá, machuque menos. Não mores na indecisão. Morar na indecisão corroi a alma. Quando eras criança e sentia fome, o que fazias? Corrias em casa e tomavas em tuas mãos um pedaço de pão. Comias o pão em público, o que te valeu um apelido. Essa foi a tua dor: o apelido. Mas tu tomaste a decisão de saciar a fome pela qual passavas. Esse foi teu ganho. Podias morrer de fome se fosses poupado do apelido. Mas decidiste. Quando a decisão é tomada e ela te traz paz é porque está certa. Faça-o agora!”

“Decidir doi. Às vezes sangra, dona árvore…”. Achou estranho o “dona árvore”, mas enfim…

“O que não doi no mundo, amigo? A dor renova a vida. A dor é o fim de um ciclo. É preciso morrer o velho para que o novo ocupe o espaço. Lembre-se de uma coisa: não se procure fora de si. Aprenda a buscar as respostas conversando consigo. É sua garantia. Os outros podem de repente não estar mais. Mas você sempre vai estar com você.”

A noite caiu e ele voltou. Havia algo estranho no caminho.  O velho português feridento! Onde estava, se não estava na sua cadeira da observação do mundo, onde sempre estava? A curiosidade lhe tomou as carnes.

“O Português, né? Ele morreu”, disse a vizinha, Dona Déa. Dona Déa era uma senhora paraplégica que se locomovia revezando banquinhos. Sempre odiou o português. Ela o acusava de fofoqueiro, maledicente e coisas assim. Mas dona Déa lhe deu a notícia chorando. O muro entre o ódio e o amor é fino como um muro de vizinhos. Ao mesmo que tempo que divide, também liga.

Ficou triste pelo Português. O cachorro também não latiu. Talvez em respeito. O muro azul ainda descascado.

Naquele fim de semana, olhando o ventilador rodando em falso no teto, ele tinha tomado a sua decisão. Iria definitivamente romper com sua angústia. Iria tomar para si as rédeas de seu caminho e de sua vida. Pagaria os preços em troca da paz de espírito. A Árvore tinha razão. Moisés tinha razão.

Na saída, ao fechar o portão de ferro de sua casa, já via um mundo diferente. Compreendeu naquele momento que os crayons das paisagens da vida ficam guardados dentro da pessoa e é sua paz de espírito que abre a caixa.

“Preciso contar para a Árvore que tomei a decisão”, pensou feliz enquanto caminhava. O cachorro não latiu. Viu o Português sorrir para ele, coçar a ferida e mostrar o polegar em sinal de positivo, apesar da cadeira de macarrão já recolhida.

Ao chegar no campinho, a surpresa. Tapumes com dizeres: “Em breve, mais um empreendimento da Construtora Feitoza”. Um frio lhe percorreu a espinha. A Árvore! Os tapumes iam para além do terreno do campinho. Pegava umas duas casas para cada lado de cada trave. Pegava a casa dos Smurfs. Ela tinha sido vendida, claro!

Como o moleque Passa-fome, num salto, ele pulou o tapume para ver do outro lado um terreno já limpo de tudo. Sem traves, sem árvore, sem memórias. Sentiu uma faca a rasgar-lhe o peito. No lugar da Árvore, apenas um buraco tapado com barro vermelho. Ela fora arrancada dali. Ela fora arrancada dele.

A placa dizia: “Engenheira responsável: Carla Feitoza”. Seu primeiro amor era o seu mais recente ódio. O muro entre o amor e o ódio é fino como um muro de vizinhos. Ao mesmo que tempo que liga, também divide. Ele se sentiu abandonado, engolido pelo mundo, que não respeita histórias. Amaldiçou a cidade pequena em que todo mundo conhecia todo mundo. Um ovo aquilo.

Voltou para a casa, triste, doído. O cachorro latiu. Cachorros sentem. O muro azul ainda descascado. Sem o Português dessa vez. Na porta da casa do Português uma mulher com um bebê no colo. O bebê mamava alheio a tudo.

Nunca mais campinho da sete. A árvore não existia mais. Mas sua decisão estava tomada. No lugar do futebol, um condomínio fechado. Mesmo fechado, ele não bloqueava o vento. Pelo vento ele conversava com a Árvore e, mais importante, aprendeu a conversar consigo. Porque ventos carregam pensamentos. O cachorro ardido fugiu. O muro descascado foi pintado de rosa. Sua paz, que sempre esteve dentro de si, agora descansava à sombra daquela castanholeira.

O choro e o riso

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Não há problema em ter momentos de baixa, em achar que tudo está perdido. Chorar faz parte das necessidades do ser humano. Mente quem sorri o tempo todo. No entanto, da mesma forma que o choro e a tristeza constituem a vida, a alegria e sorriso também são partes necessárias. É desse mix equilibrado que a vida humana se tece. Se paralizamos falsamente no sorriso fake, tapando nossos furos, não enxaguamos a alma com os choros necessários da manutenção da sanidade. Por outro lado, se estancamos no choro sem fim, a vida deságua e seca. Chore o que tem para ser chorado; sorria abertamente quando tiver de sorrir. Há dias e dias, há fases e fases. Que hoje seja um daqueles dias em que sua alma e seu corpo gargalhem como uma criança. A plenitude de nossas necessidades, para lá ou para cá, precisa ser compreendida como algo que simplesmente está aí para ser vivida. Qualidade de vida é achar o timing do choro e do sorriso.