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A escolha de Sofia

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O filme é de 1982. Em 1947, Stingo (Peter MacNicol), um jovem aspirante a escritor vindo do sul, vai morar no Brooklyn na casa de Yetta Zimmerman (Rita Karin), que alugava quartos. Lá conhece Sofia Zawistowska (Meryl Streep), sua vizinha do andar de cima, que é polonesa e fora prisioneira em um campo de concentração e Nathan Landau (Kevin Kline), seu namorado, um carismático judeu dono de um temperamento totalmente instável. Em pouco tempo tornam-se amigos, sendo que Stingo não tem a menor ideia dos segredos que Sofia esconde. Dentre esses segredos está a história de seu dilema. Seu dilema surge ao ser forçada por um soldado nazista a escolher um de seus dois filhos para ser morto. Se ela se recusasse a escolher um, ambos seriam mortos. Meryl Streep, como sempre, deu um show e ganhou o Oscar. E mais não conto porque você tem de ir lá assistir ao filme.

Diferentemente da escolha da Sofia de Meryl, de uma brutalidade inimaginável para qualquer pai ou mãe, eu queria falar aqui de outra escolha. A escolha que tantas mães e pais fazem pela vida. A escolha pelo acolhimento de uma vida que chega pela adoção.

Adotar é um ato de coragem, de grandeza e de amor. Requer coragem acolher como seu um filho que não foi gerado biologicamente nas suas entranhas, que já vem semipronto com sua breve experiência de vida, com porções de sua personalidade já marcadas por um período da infância sobre o qual se sabe pouco ou nada. Requer coragem porque foge à ordem natural da procriação biológica. Essa coragem, no entanto, vem acompanhada de uma grandeza imensa. Porque tudo isso vira detalhe em função do acolhimento, tudo o de antes se esvai ao tomar a criança no colo pela primeira vez, ao ver seu sorriso iluminando magicamente a nossa alma. E isso é amor, em uma das suas formas mais bonitas.

Nosso mundo é plural e, por isso, as verdades são plurais também. Há pessoas que acham que só se deve ter relações sexuais para procriar. Outros veem no sexo de um casal, além da necessidade fisiológica da espécie, um momento sublime de estreitamento de laços afetivos, de cumplicidade; há quem só considere como possibilidade o parto normal. Há quem entenda que o parto cesárea é um recurso da medicina, que deve ser usado por uma série de razões, como evitar que a mãe sofra por horas no esforço do parto normal, sofrimento esse imediatamente rebatido e ressignificado como privilégio pelo discurso dos naturalistas; há quem sustente que filho é apenas uma categoria biológica. E há os que sabem que filho é uma categoria simbólica. Mais do que isso: um sujeito que vai se fazendo pelo afeto. Para uns, nasce-se filho. Para outros, faz-se filho.

Também tenho meus sentidos sobre família, filho, irmãos, pais, adoação. O biológico é importante, mas, para mim, muito mais importante é a construção simbólica que alicerça as relações. Há irmãos que vieram de diferentes barrigas que são mais irmãos que Yaqub e Omar, que vieram do mesmo óvulo. Há pais e mães impedidos biologicamente de ter seus filhos que são mais pais e mais mães do que muitos pais e mães que põem crianças no mundo e se eximem do exercício dos papéis simbólicos de pai e mãe, tão fundamentais para o sujeito, absolutamente estruturantes seja lá qual for a teoria da personalidade que você escolha na psicologia para explicar. Tão importantes que tive de repetir ‘pai’ e ‘mãe’ tantas vezes nesse parágrafo.

Muitas pessoas adotam, mas se deixam escravizar pelo conceito biológico. Escondem da criança adotada sua condição de adotada enquanto podem. É como se a adoação não fosse uma filiação plena, o que ela só passa a ser se “filho” for entendido, repito, como um lugar construído e não como uma condição biológica apenas. Particularmente penso que as pessoas têm direito à sua história. Que os filhos adotivos devam saber de sua condição desde cedo, encontrando-se, claro, as formas adequadas para se apresentar a situação. O filho da barriga, o filho do coração. Deve estar claro que ele/ela jamais será filho biológico de seus pais. Para muitos, essa é uma falta que precisa ser bem elaborada e desconstruída, seu peso nos ombros aliviado pela ênfase no lugar simbólico de filho/filha, construído pelo acolhimento, pelo afeto, pelo amor da convivência. Os desarranjos do esperado sempre irão requerer dos sujeitos rearranjos. Assim é a vida. Para tudo.

Diz o povão: “Pai é quem cria”. E é isso mesmo. Pode coincidir de que quem crie seja o pai biológico ou não. A vida é uma teia de relações. Precisamos cuidar delas. A família é a teia inicial, a teia de sustentação. Tenha ela a configuração que tenha, seja ela feita do mesmo sangue, seja ela feita da mesma alma.

Chegou a Sofia, minha sobrinha. Adotada pela minha irmã e meu cunhado. Chega brilhando depois de uma longa espera, depois de uma gravidez simbólica regada pacientemente com amor. Oferta-se à nossa família para receber muito carinho, muito cheirinho, muita babação. Vem para nossa família e já é filha, sobrinha, neta, sobrinha-neta, irmã, prima. É como disse o Thomaz Nogueira, veio para ocupar o lugar do vovô na Kombi.

Nosso mundo é um mundo plural. Há quem não acredite que exista alguém lá em cima mexendo os pauzinhos, cuidando do script das nossas vidas. Há quem acredite. Para quem acredita, eu incluído, Sofia fez uma boa negociação por lá e escolheu vir para um colo especial, de uma família bonita, onde certamente será muito feliz. Falei, divaguei e filosofei. Mas, no fundo, era dessa “Escolha de Sofia” que eu queria falar. Ela ainda caprichou na escolha: fechou ter vindo ao mundo no dia do aniversário da minha irmã, a fofura.

Bem-vindo ao seu novo mundo, Sofia. Que a felicidade seja a melhor hóspede, sua e de seus pais, para sempre. É amor, de todas as cores e sabores, que nós desejamos para vocês. Amém.

Pacote de pai

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Assistir à reportagem sobre o caos nas escolas com minhas filhas e ir respondendo as perguntas delas. “Mas, pai, por que a escola é assim, toda acabada?”, “Por que quem tem dinheiro não ajuda?”, “E o Criança Esperança não serve pra ajudar?”, “Mas as crianças conseguem aprender assim nessa escola?”. Explicar o mundo real é dureza. Mas faz parte do pacote de ser pai…

Quando Barbies arrumam as malas

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Decidimos ir na sexta-feira à tarde ao Lar Batista Janell Doylle, uma casa que acolhe crianças de 0 a 12 anos abandonadas pela família, vítimas de HIV e com necessidades especiais. A visita tinha um duplo objetivo: doar os brinquedos com que minhas duas filhas não brincam mais e mostrar a elas a dura realidade de crianças sem uma família estruturada. Elas mesmas separaram os brinquedos, com a ajuda da mãe. Marina, de cinco anos, sempre muito apegada a tudo, desde a pessoas até a uma chupeta velha furada, teve mais trabalho para decidir se desfazer de alguns dos brinquedos. A maior dificuldade foi uma bicicleta de rodinha das princesas. Ela ganhou uma maior de aniversário. Para Clara, seis anos, mais decidida e desapegada, foi mais fácil. Várias Barbies arrumaram as malas.

Tudo e todos prontos. Caiu uma chuva torrencial em Manaus que impediu qualquer saída prudente de casa. Adiamos para o dia seguinte, então.

A ida teve minha tia Céu como cicerone. Ela disse que conhecia a Magaly Arruda, diretora do lugar, o que era verdade. Ela disse também que conhecia o caminho até o lugar, o que era mentira. Depois de um tempinho perdidos no Mauazinho, um dos bairros mais afastados da Zona Leste de Manaus, chegamos, contando para isso com a ajuda de um mototaxista e dos solícitos moradores. Um deles muito bêbado, é verdade. Mas muito solícito. No meio do caminho, Marina sussurrou no meu ouvido algumas vezes: “Pai, quando você puder, você compra outra bicicleta de princesa pra mim?”

Ao chegar, vimos que havia um grupo de pessoas de uma congregação religiosa com as crianças. Eles fizeram uma oração, distribuíram brinquedos e brincaram com elas. Nossos brinquedos tinham sido deixados na sala da administração. Eu e a mãe já havíamos explicado às meninas o que faríamos ali. Mas ao chegar, elas ficaram sentadas por alguns minutos olhando tudo e processando o ambiente e as informações. Conheço minhas filhas. Suas cabecinhas estavam a mil. As instalações nos foram mostradas. Depois,  aproveitamos e nos misturamos a todos, brincando e conversando com as crianças. Minhas filhas, como crianças que são, logo se misturaram também.

Quando ainda estava na sala da administração, fui surpreendido por um abraço apertado e carinhoso de uma criança muito simpática e conversadora. Fazia tempo que eu não era abraçado assim por uma criança sem ser minhas filhas. A ausência da figura paterna faz o afeto acumulado vir em estado bruto, em busca desesperada de uma pessoa sobre quem se derramar. Pergunto o seu nome e ele responde com um sorrisão aberto: É J. E saiu correndo para brincar.

Enquanto todo mundo se mistura, eu fico tirando fotos, devidamente instruído de que não posso publicá-las por razões óbvias. As fotos que tirei mostram crianças com olhos trazendo uma  felicidade gorda pelo brinquedo recebido, numa pausa momentânea da tristeza amarga pela situação de cada um. J chega abraçando e pede para eu bater uma foto sua. Depois pede para ele mesmo bater uma foto. Emprestei meu brinquedo para ele, uma Nikon D7000. Ele bateu umas três fotos e ficou felicíssimo. A foto acima é de sua autoria.

Minha mulher pede para eu dar a máquina para que ela faça algumas fotos em que eu apareça. Um menino meio lourinho logo se joga no meu colo, sem que eu precisasse fazer qualquer menção. A foto é batida e ele continua lá. A Bia leva a máquina e eu fico ali, sentado no batente com o menino recostado em meu peito, como se aquele fosse o lugar mais aconchegante do mundo para ele. Desconfio que era. Passo a mão em sua cabeça. Depois de uns cinco minutos, ele salta do meu colo, dá um sorriso e vai jogar bola.

De repente, uma menina um pouco mais nova que a Marina começa a chorar no colo de um moço da igreja. Eu chego perto, pergunto o seu nome e por que ela chora. O rapaz diz que ela queria um brinquedo que a outra pegou. Olho para a Bia e, sem falar nada, ela entende na hora. O amor tem dessas. Ela vai buscar duas Barbies lá no meio de nossos ex-brinquedos. Chamo Clara e Marina para entregar as Barbies. Marina entrega uma à menina que chorava. A menina abre um sorriso imenso. Minha filha também. Clara entrega a outra Barbie para uma criança maior, que acompanhava tudo de perto e se aproximou mais ainda se insinuando. Seu rosto era de uma alegria indescritível. Minhas filhas sentiram a felicidade que dá fazer alguém feliz, tenho certeza.

A ida ao Lar Janell Doylle não foi só uma lição de solidariedade para as minhas filhas. Teve seus efeitos em mim também. Algumas vezes fui até o fundo do pátio com o pretexto de trocar a lente da máquina ou qualquer desculpa assim. Mas fui mesmo enxugar algumas lágrimas que saiam por conta própria por causa de um monte de coisas: da pobreza, da desigualdade social, do destino daquelas crianças, do trabalho bonito feito por aquelas pessoas, pelo carinho recebido das crianças, por minhas filhas terem uma família. Minimizei centenas de problemas meus, da greve que estou fazendo na universidade à falta recorrente de grana, diretamente relacionada a ela. Tudo é questão de parâmetros. O que se tem de importante é intangível. O resto é resto.

A chuva da sexta nos fez ir no sábado, na hora da final do vôlei feminino. Pensei em ficar em casa para ver o jogo. Mas desliguei a TV no início do segundo set e fui tranquilo. Deus é sábio, fazendo chover na hora certa. Fiquei feliz ao saber pelo Twitter que o Brasil ganhou a medalha de ouro numa modalidade esportiva, mas inevitavelmente triste ao lembrar que se o Brasil é ouro no vôlei, ele ainda se encontra na rabeta da desigualdade social, que gera grande parte daquilo que estava vendo.

Na volta, no carro, Clarinha disse: “Pai, quando eu crescer eu vou fazer um lugar para tomar conta de todos os gatos e cachorros que não tiverem casa. Eu vou tomar conta deles todos.” Foi a sua forma de dizer o quanto aquilo tinha mexido com ela, que ama bichinhos. Marina disse, desapegada de fato: “Eu tenho certeza que o presente que elas vão gostar mais vai ser da bicicleta de princesa”. E completou: “Sabe, pai, estou morta de tristeza por dentro, mas viva de felicidade por fora”. Ninguém precisou dizer mais nada.

Feliz Dia dos Pais. Para você que teve ou tem um.

Onde os doces da mãe? Onde o cheiro do filho?

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colher de pau
solitária na parede
onde os doces da mãe?

Aníbal Beça

Hoje é o dia das mães. Presentes, abraços, beijos, carinho. Tudo que as mães merecem. Eu vou lá dar um beijo na minha, me aninhar no seu colo, me fazer criança pelo seu cafuné. Sou absolutamente feliz com a mãe que Deus me deu. Com ela aprendi valores e atitudes que trago e levo por onde vou. Por ela ignoro todas as regras de estilo de um bom texto e tasco um grande lugar-comum: minha mãe é uma das duas melhores mães do mundo, só rivalizando com a mãe das minhas filhas, simplesmente perfeita também. Cara sortudo eu no quesito mãe.

O exercício da escrita tem me ensinado uns truques. Um bom texto é aquele que fala de temas universais sob perspectivas diferentes das que escorrem nas tintas comuns que celebram uma data. Eu, que ando escrevendo pouco, queria escrever um texto diferente sobre o Dia das Mães. Pensei, cá com meu teclado: nada das louvações justas e merecidas. Não. Essas estão subentendidas. Queria falar das mães, sim, mas fiquei pensando em como chegar no tema por um caminho alternativo. Falar algo diferente, que fosse além do que eu disse aí em cima no primeiro parágrafo. É onde entra a Zazá.

Zazá é a moça que trabalha na escola onde estou dando um curso. Ela serve o cafezinho, a água, arruma as coisas. Há mais ou menos um ano, Zazá perdeu um filho. Dengue hemorrágica. O menino tinha treze anos. O Dia das Mães de Zazá será diferente. O Dia das Mães de muita gente sempre é diferente. Sim, é sobre esse Dia das Mães que eu quero falar.

Mãe que perde um filho vive o desnatural. Quem perde pai e mãe fica órfão, quem perde o cônjuge vira viúvo, mas quem perde um filho não tem nome. As outras perdas são do processo natural da vida, mas perder um filho é uma dor sem nome. A linguagem não se atreve a nominar em respeito. A dor sem nome não lê os encartes das lojas, a dor sem nome não sabe mais o que é o calor do abraço, a dor sem nome lamenta um futuro que nunca virá, a dor sem nome chora o cotidiano que se perdeu. A dor sem nome rasga a carne ao arrumar o quarto vazio. Eu me coloco no lugar das mães que carregam em si a dor sem nome no Dia das Mães. Dói muito só de pensar. Como diz Chico Buarque, perder o filho é um sentimento reverso de um parto. Essa saudade é o pior tormento. “É pior do que se entrevar”. Ouvindo “Pedaço de Mim” e chorando. Pausa.

Rearrumar os afetos depois de perder um filho é algo que só me permito imaginar como exercício de escrita. Até na imaginação machuca. Fiquei reticente em continuar este texto, confesso. É tão lancinante a dor só de imaginar isso que nós, que temos o beijo cotidiano de nossas crias, expulsamos o pensamento ao menor vislumbre do assunto. Dia das Mães em que há um vazio impreenchível chega a ser torturante. Bem-aventuradas as mães que conseguem minimamente sobreviver ao bombardeio comercial da época. O capital faz tudo para quem tem mãe, mas o capital não tem mãe. Nem de longe pensa nas mães que carregam a dor sem nome. As mães de maio, machucadas como as da Plaza.

Outros que são esquecidos no Dia das Mães são os filhos sem mãe. Deve ser perturbador viver o Dia das Mães sem ter tido a figura materna. Não me refiro à mãe biológica, mas à mãe que tece na gente o afeto com o mundo. Aquela pessoa para quem a gente corre quando pede arrego da vida, mesmo com quarenta anos. É que o mundo é feito para a normalidade. Aí as fichas que preenchemos pedem o nome da mãe, as pessoas na boa fé desejam feliz Dia das Mães, pressupondo  que você tenha uma relação com a sua. Quando não é o caso, quando  não se teve ou nem se tem, deve dar em quem tem essa ausência de mãe uma sensação de deslocamento, de não-pertencimento. Algo tipo, “nesse assunto, eu fico devendo. Vamos mudar o papo…”

Deve ser igualmente doloroso viver o Dia das Mães tendo tido uma figura materna que não está mais ao alcance dos lábios para um beijo de amor. Quem tem uma história com sua mãe, quem a tem entranhada no corpo e na alma, quem conhece de cor o poder acalmador que tem o cheiro de sua bata, sabe o valor de poder abraçar e beijar aquele corpo com rugas marcadas pelo tempo, conhece a paz infinita de pedir a bênção beijando sua mão, já cheia de manchas da pátina do tempo. Mas a vida tem ciclo. Um dia a mãe se vai. De muitos, ela se já se foi. Como é o Dia das Mães de quem não tem mais a mãe? Deve dar vontade de gritar, mesmo que psiquicamente: “Parem de falar em mãe porque a minha não está mais aqui e isso está me torturando!” É outro tipo de vazio para a mesma sensação de ausência do impossível reabraço. Saudade é a presença ostensiva da ausência.

Mães que perderam filhos, filhos que perderam mãe. Para eles, o Dia das Mães não tem o almoço do domingo. Para eles, não há a preocupação do presente para comprar no corre-corre da última hora. E como eles gostariam de tudo isso…

Para os povos andinos, como os quechuas e os aymaras,  Pacha Mama é a deusa “mãe do universo”. O mito de Pacha Mama se refere ao tempo, vinculado com a terra: o tempo que cura as dores, que fecunda a terra. Pacha significa tempo na língua kolla. Com os anos e as alterações da língua terminou confundindo-se com a terra.  O dia primeiro de agosto é o dia de Pacha Mama. Nesse dia, as pessoas enterram em um lugar próximo da casa uma panela de barro com comida cozida. Nesse mesmo dia deve-se pôr cordões de fio branco e preto, confeccionados com lã de lhama. Esses cordões se atam nos tornozelos, nos pulsos e no pescoço, para evitar o castigo de Pacha Mama.

A terra, o tempo, a mãe. Hoje é 13 de maio. Não é primeiro de agosto. Mas desejo profundamente  para quem está incompleto no Dia das Mães que Pacha Mama cuide com ternura, lamba suas feridas, fecunde suas lembranças. Que a panela de barro da mãe, enterrada com ela, renasça no amor afetuoso que ela deixou no gosto inconfundível e inesquecível de seus doces, no seu sorriso, no seu ralho, no seu olhar, um olhar que lhe compreendia como o de mais ninguém é jamais será capaz. Nesse Dia das Mães, que as mães que carregam em si a dor sem nome gastem sua saudade – porque só tem saudade quem viveu plenamente. Que atem nos tornozelos, pulsos, pescoço e coração os cordões do amor, não feitos de fios preto e branco de lã de lhama, mas de fios trançados pelos laços coloridos do amor incomensurável que só pais e mães têm pelos filhos, pelas lembranças de seus sorrisos abertos, de seus abraços gratuitos, de seus desenhos rabiscados no papel ou na parede, de suas histórias lindas, de seus segredos pactuados com confiança. Filhos que têm mãe e mães que têm filhos, se aproveitem enquanto podem. Senão Pacha Mama castiga.

Feliz Dia das Mães a todos. Feliz Dia das Mães, Zazá. Do jeito que for possível.

Pregos na bunda

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Quando eu era criança,  sentei em uma tábua cheia de pregos. Minha bunda ficou toda furada. Com medo de mostrar para a minha mãe e levar uma bronca, coisa que quase todo dia acontecia comigo, fui tratado pelo meu irmão mais velho, que providenciou band-aids,  um para cada buraquinho. Fui descoberto na hora do banho. Minha mãe viu aquele monte de band-aids e eu tive que me explicar. Ganhei o maior esporro, talvez por eu ser estoporado e não ter prestado atenção na tábua com pregos, se mal lembro.

O motivo não importa. O que importa é que eu podia ter tido tétano ou coisa parecida. A preocupação de dona Helena era legítima. Uma preocupação saudável de mãe. Qual leoa não cuida dos seus filhotes? E quem tem filho feio é a coruja. A tábua de pregos enferrujados enfiados na bunda era, de fato, um motivo de real preocupação.

Dona Helena, no entanto, sempre nos deixou jogar bola na rua, voltar suados, com cordões de cerôto no pescoço. Via seus filhos bebendo água na boca da torneira para se refrescar do futebol, tomar banho de camburão, abraçar o cachorro, rolando com ele na areia. Minha mãe, sem ter conhecimento técnico-científico, compreendeu que era preciso nos expor para que criássemos defesas. E como nós nos expusemos…

Lembrei-me disso ao ler, postada no Facebook, uma matéria sobre uma pesquisa que concluía exatamente isso que a maioria das mães já sabe: expor as crianças ao dia-a-dia ajuda o corpo a criar anticorpos. É um princípio biológico básico que vale para a vida em geral.

Ninguém cria os anticorpos para as dores do amor se não se expõe a ele. Não dá para amar na teoria. Amar envolve se jogar na areia movediça dos sentimentos, com todos os bichinhos que nessa terra fazem morada. Para aproveitar o amor na plenitude é preciso tomar água direto na torneira para se refrescar dos momentos de sufoco. Amar envolve suar, inclui abraçar uns cachorros aí. Não ama quem apenas olha da janela a galera amando. Tem de meter o pé na lama. Ou na jaca.

Não há quem crie os anticorpos contra a maledicência,  derrubação e  falsidade que há em qualquer ambiente de trabalho sem que se exponha ao trabalho. É um pacote. Tem o lado bom e o lado ruim, que coça, dá urticária, deixa doente, com dores de cabeças. A gente vai aprendendo a reconhecer aquela pessoa que é toda-sorrisos e por de trás fala horrores de você. A intuição, com anticorpos, vai delatando aquele colega que sente inveja do espaço que você vai ocupando por sua competência. Vamos criando anticorpos para se proteger dessa gente ruim, criando um campo de força contra a turminha do mal.

O que quero defender neste texto é a necessidade de lidar com o mal, criada pelo design inteligente da vida para provocar o bem. Ninguém quer adoecer, lógico, mas não ter o mínimo de defesa se a doença chegar porque se viveu privado da chance de criar os anticorpos é antinatural. É o princípio das vacinas: expor o corpo a um pouco do vírus ajuda a defender o corpo daquele mesmo vírus.

Eu realmente fico assustado com exageros. Obrigar as pessoas a lavar a mão com álcool antes de chegar perto de um bebê ou não sair com a criança para tomar sol porque o ar pode conter micróbios oportunistas, por exemplo, mais do que proteção da criança demonstra uma insegurança patológica quanto à capacidade de cuidar.  É uma proteção para a insegurança dos pais mais do que um cuidado com a a saúde dos filhos. Em uma atitude egoista inconsciente, acaba-se fazendo um mal tremendo à criança, pois não lhe permite erguer suas barreiras necessárias. Os pais também estão sujeitos à mesma regra: precisam se expor a deixar os filhos viver para criar os seus próprios anticorpos da paternidade. Uma febre é uma aliada e não uma inimiga. São os anticorpos avisando que precisam de ajuda. Perdigotos podem, paradoxalmente, gerar saúde mais forte. Muita limpeza externa pode indicar transbordamendo de uma sujeira interna que precisa de atenção. Ah, o velho Freud.

De vez em quanto me pergunto se não estou superprotegendo minhas filhas a ponto de não lhes permitir viver para aprender. Marina, quatro aninhos, acaba de vir aqui para me mostrar que cortou o dedo na folha do livro de artes. Completou: “Papel corta, pai. A gente tem de ter cuidado quando vai pegar”. Claro que eu preferia que ela não tivesse se cortado. No entanto, não permitir que ela fizesse sua tarefinha no livro por causa da possibilidade de vir a se cortar não me parece uma medida de prevenção razoável e sadia.

Eu vim para o meu terceiro e derradeiro casamento cheio de anticorpos em relação às relação a dois. Aprendi que amor é equilíbrio. Lá e cá. É respeito e admiração. Está no meu conjunto de anticorpos do matrimônio que o amor acaba quando a gente permite que o vírus da indiferença destrua as células da admiração que temos por nossos parceiros. Enquanto cedermos a última almôndega do prato para o outro com prazer, a relação segue firme. Três casamentos foram a minha Tríplice.

A vida é linda, bela. Queremos e merecemos felicidade e paz. Sonhamos e batalhamos para o melhor do mundo para nós e para os nossos. Na hora de dormir, viva o banho quente e o ar-condicionado! Mas viver envolve mais. Envolve correr e suar. Inclui criar cerôto no pescoço, fazer chapinha descalço na lama,  tomar banho de chuva na calha. E, claro, sentar a bunda numa tábua com pregos enferrujados às vezes.

Soneto da criação

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Gizes-de-cera esparramados pintam o mundo.
Papel picado em pedacinhos, flocos de neve.
Ideias saltam, num mundo livre, solto e leve…
Em cada clip, num araminho, um dom profundo…

Papel sulfite num céu azul logo se pinta.
A purpurina? o universo cheio de estrelas…
Como é bonito, como é poema, ficar a vê-las
Pintar o mundo usando as cores de sua tinta.

Os seus projetos saem perfeito de suas pranchetas.
Suas ideas brotam aos milhares de suas gavetas.
E os desenhos, ah, os desenhos são todos seus…

É a família, é o gatinho, é o peixinho…
Que ganham formas, contornos de um passarinho,
Quando as mãozinhas das minhas filhas brincam de Deus…

Cinco anos: mochilinha de porquês

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Vem, Ana, vem/Mochilinha de porquês/Que eu não sei responder/Vem, tanta gente vem/Mochilinha de porquês/Que eu não sei responder/se eu tivesse a língua doce/Te cobria de poesia/Ai, eu ressuscitaria/Aquele sol que nos queimou um dia.

“Ana Clara, o papai vai comprar remédio pros olhinhos da Nina. Quer ir comigo?” “ÊBA! QUERO!”. No carro, a caminho, do nada: “Pai, quem criou o ladrão?” “Filha, às vezes as pessoas não têm trabalho e precisam trazer comida pros filhos. Não é certo, mas aí ele pega as coisas dos outros. E o que não é nosso, a gente não pode pegar, né?”  “Só se emprestar, né? E por que ele não tem trabalho, pai?” “Porque ele não estudou.” “…porque não tinha escola? Por isso, pai?”. “Às vezes é por isso. Às vezes é porque não deu pra estudar ou não quis”. “E por que alguém não quer estudar? Estudar não é importante, pai?” “Muito importante. Mas algumas pessoas não entendem que é importante. E aí faz falta depois.” “Como não entendem, pai? Eu tenho quatro anos e entendo.” “Pois é, Clara. Mas é porque o papai e a mamãe da pessoa não conseguiriam mostrar para ele que é importante.” “Quer dizer que tem ladrão por causa do pai e da mãe do ladrão, pai?” [Pausa.] “Mas não é culpa deles, filha”. “De quem é a culpa, pai?”. “Da desigualdade social, filha”. [Não fui didático…] “O que é desigualdade social?” “Na sociedade, uns têm muito dinheiro, mas outros não têm nada”. “Nós temos muito ou nada, pai?”. “Nem muito, nem nada. Nós somos classe média. Classe média é quem está no meio”. “Mas por que uns tem muito e outros não tem nada? Quem escolhe, pai? Tem muito quem estuda mais? Mas você não estudou muito, pai? Porque que a gente não tem muito?” [Pensei nas minhas escolhas…] “Estudar é importante não só para ter dinheiro. Para isso também, mas não é só para isso.” “Mas quem escolhe quem vai ter mais e quem vai ter menos? O Deus?”. “Não, filha. Todo mundo é filho de Deus. Ele ama todo mundo igual. Foi ele criou tudo.” “Até o ladrão?” “Até o ladrão. O ladrão também é filho de Deus e Deus ama o ladrão também”. “E ele ama até o pai e a mãe do ladrão que não ensinaram que a escola é importante?” “Até eles.” “E quem criou o Deus, pai?” [Pausa grande. Essa foi profunda.] “Hein, pai?”. “Filha, você é muito pequena… um dia você vai entender…”  “Explica agora, pai!” “Tá. Ninguém criou Deus. Deus existe desde sempre.” “Ele não morre, pai?” “Não, ele não morre. Só o  homem que morre”. “E a mulher não, pai?” “O homem e a mulher. A vida é assim: a gente nasce, cresce, casa, tem filhinhos e quando está bem velhinho morre”. “E a Giulia, pai. Lembra? A gente rezou por ela. Por que ela morreu, pai? Ela não estava bem velhinha…” “Pois é, mas ela estava dodói.” “Por que as pessoas ficam dodóis, pai?” “Acontece, filha. Ninguém quer ficar doente, mas a sua irmã, por exemplo. Os olhinhos dela não estão dodói, com conjuntivite?” “Mas eu não quero que a Nina morra!” “Não, ela não vai morrer, não, filha. Fica tranquila! Tem doença mais fácil e tem doença mais difícil de curar”. “E quem decide qual doença a gente vai ter, pai?” “Ninguém decide,  filha, acontece”. “E quando a gente morre? Pra onde a gente vai, pai?” “Antes de você nascer, você era um anjinho que morava com Deus no céu. Quando a gente morrer, a gente vira anjinho de novo e volta pra lá.” “E depois?” “A gente fica lá.” “Pra sempre, pai?!” “Tem gente que acredita que é pra sempre. Tem gente que acredita que a gente volta de novo. Um outro bebezinho”. “Em outra família, pai?” “É.” “Eu não quero morrer, nem voltar em outra família!” “Filha, você tem quatro anos. Amanhã vai fazer cinco. Você não vai morrer agora. Ainda vai demorar muito, muito, muito tempo”. “Você tem quantos anos, pai?” [Medo da relação…] “Papai tem 42”. “Você já vai morrer?” “Filha, ninguém vai morrer. Estamos chegando na drograria. Eu vou comprar o remédio da Nina e você escolhe o sorvete, combinado?” “Combinado!”.

“Pai, o moço fechou a porta e trancou a gente dentro”. “Calma, é porque a drogaria vai fechar. Vamos pagar. Escolheu o sorvete?” “Escolhi, esse picolé da vaquinha. Um pra mim e um pra Nina. Mamãe prefere Cornetto, pai”. “Vamos pro carro.” “Pai, e quem não tem dinheiro pra comprar remédio?” “Clara, quem não tem dinheiro para remédio tem de ir ao Posto de Saúde”. “Tem todos os remédios lá, pai?” “Às vezes tem e às vezes não”. “E quando não tem, como é que faz, pai?” “Aí é complicado. Às vezes o pai ou a mãe pede dinheiro pras pessoas.” “Ou vira ladrão, pai?” “Ou vira ladrão. Mas não é assim também, filha.” “Como é, pai? Se você não tivesse dinheiro pra comprar o remédio da Nina, você ia ser ladrão, pai?” “Não, filha. O papai estudou e trabalha. Por isso o papai tem dinheiro pra comprar o remédio”. “Mas se não tivesse estudado, pai? Só se não tivesse estudado?” “Clara, você está muito perguntadora hoje, minha filha…” “Pai, a tia da escola disse que homem com homem dá lobisomem e mulher com mulher dá jacaré. Como assim, pai, jacaré? [Preciso conversar com a tia da escola sobre ecologia contemporânea]. “Quando ela disse isso, Clara?” “Ela estava conversando com a outra tia e eu ouvi”. “Você prefere mais esse do chocolate da vaquinha ou aquele quadradinho da caixinha azul que o papai sempre compra?” “Chicabonzinho? Não, eu prefiro o da vaquinha. É mais gostoso”. [Esqueceu]. “Chegamos, filha! Vamos subir!” “Olha, pai! O céu tá cheio de estrelas! Quem criou o céu, pai?” “Foi Deus, filha. Lindo, né?” “É. E grande. Pai, eu te amo do tamanho do céu”. [Meu coração se encheu de ternura com a declaração, apagando tudo de pesado de uma semana complicada.] “Eu também, filha. Eu também…”. “Deixa que eu aperto o botão do elevador, pai.” Minha menina faz cinco anos no dia 12 de junho. E já alcança o botão do elevador…

Um dia de domingo

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Para os Ms.

Eu preciso te falar/Te encontrar de qualquer jeito/Pra sentar e conversar/Depois andar de encontro ao vento/Eu preciso respirar o mesmo ar que te rodeia/E na pele quero ter o mesmo sol que te bronzeia/Eu preciso te tocar/E outra vez te ver sorrindo/ Te encontrar num sonho lindo/Já não dá mais pra viver um sentimento sem sentido/Eu preciso descobrir a emoção de estar contigo/Ver o sol amanhecer/E ver a vida acontecer/Como um dia de domingo/Faz de conta que ainda é cedo/Tudo vai ficar por conta da emoção/Faz de conta que ainda é cedo/E deixar falar a voz do coração.

E quando a presença da ausência bate forte e transborda dentro de nós? A saudade é um visitante folgado que chega sem avisar numa foto, num cheiro, numa música. Num dia de domingo. Ah, essa vontade de ter o teu ouvido para ouvir minhas falas no timbre que só tu, entre bilhões de pessoas, compreende, do jeito que eu quero que se compreenda… Aí eu te busco. Insano, tento te encontrar de qualquer jeito. Eu te procuro na sala, no quarto, embaixo da cadeira, sob do lençol da cabana. Eu te procuro nos teus objetos que guardo e que guardam teus toques, teu cheiro, teu jeito. Eu te procuro nas pequeníssimas coisas que me lembram o quanto és imenso pra mim. E eu te acho em tudo, mas não te tenho aqui. A tua onipresença se esvazia frente à falta do teu sorriso que não está aqui para eu ver. Eu te quero aqui, com teus olhos a me ler e a me acariciar a alma. Eu te quero aqui, acalentado e acalentando quem te acalenta até o sono tranquilo…

Ah, como eu queria sentar e conversar. No chão da sala, no tapete do quarto, na companhia, ainda que corrida, do alimento. Como eu queria pisar na tua bagunça e me ver nos teus desenhos… Sair por aí de mãos dadas, de encontro ao assanhado vento assanhando com carinho nossos cabelos e soprando para longe nossas inquietações. Em nós juntos, tão apertados, não cabem inquietações. Só placidez. Só mansidão. Tu és minha mansidão… Na tua falta, sou só tormenta, vento desarrumado, ressaca de mar…

Meu ar não é mais o mesmo porque tu não o respiras comigo. Eu preciso respirar o mesmo ar que te rodeia, me molhar na chuva da mesma nuvem que pranteia suas dores sobre o mundo, me bronzear no mesmo sol que te bronzeia, suar junto contigo, ficar acabado, arrasado, morto de vivo pela tua companhia. Mergulhar de mãos dadas nas águas dos sonhos como mergulhamos no rio da vida. De mãos dadas. A mãozinha esticada para eu segurar, que é de?

Tua ausência me faz perceber que tentar preencher vazios com vazios não resolve. Eu invento coisas, escolhos os caminhos mais difíceis só para não ter tempo de sentir a tua falta ao meu lado. Que bobo eu! A tua falta não está ao meu lado. Está dentro de mim. Tu estás em mim. Tu és eu. Eu sou tu. Desde que tu vieste, eu passei a ser tu e não mais eu. Por isso não adianta eu viajar trilhas novas, construir castelos. Eu vou me perder de ti, os castelos cairão como cartas que empilho para o tempo passar. Inútil empreitada… Sem ti, o tempo se redimensiona. Cada segundo é dias. O tempo entre cada piscada é anos. Sem ti, não há tempo. Não há espaço. Só há vácuo.

Amar na ausência é um sentimento sem sentido. Eu não quero pensar em cada segundo que perdi por tu estares longe. O que tu fazes? Por que sorris? O que te faz brotar as lágrimas? Como foi teu dia? Me conta o que tu aprendeste hoje? Perguntas que ficam sem respostas, diminuindo a alma, amiudando o coração, a vontade de viver. Onde o som da tua voz? Não quero perder tua vida. Acompanhá-la e descobri-la contigo, como hei de? Que medo de esquecer a emoção de estar contigo… Eu quero estar contigo. Eu preciso estar contigo. É urgente. Estou mal, sofrendo de hipotu: pouco de ti me enfraquecendo… eu, Popeye raquítico; tu, espinafre da minha alegria.

Vamos ver o sol amanhecer? Vamos correr pela praia, brincar de pular onda? Se enfiar de mãos dadas embaixo da cachoeira gelada? Eu preciso urgente ver a vida acontecer. A vida de verdade. A vida que te inclui na presença, em tudo que eu penso e faço. Ainda é cedo! Não vai ainda seguir o caminho possível que a vida te deu. Que a vida nos deu. Fica, vai ter amor. Só mais um pouquinho… só para mais um cheiro no pescoço, só mais uma cosquinha na barriga, uma história inventada para eu te ensinar a vida e aprender contigo o meu papel… Suspendamos as obrigações! Vamos deixar tudo por conta da emoção… Fica, vai ter vida… Faz de conta que ainda é cedo… Vamos ficar abraçados pra sempre. Só isso que me importa. Vamos deixar falar a voz do coração… que é tão bonita quanto a tua voz nos meus ouvidos, no meu coração… Fica, vai ter um dia de domingo… Eu bem te quis, eu bem te quis… E ainda quero muito mais. Maior do que a imensidão da paz. E bem maior que o Sol. Fica. Então me beija só mais uma vez, pelo menos. Depois volta pra lá…

As vitrines

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Para Ana Clara e Marina.
Quando tinham 4 e 3 anos.

Eu te vejo sair por aí/Te avisei que a cidade era um vão/- Dá tua mão!/- Olha pra mim!/- Não faz assim!- Não vai lá não!/Os letreiros a te colorir/Embaraçam a minha visão/Eu te vi suspirar de aflição/E sair da sessão, frouxa de rir/Já te vejo brincando, gostando de ser/Tua sombra a se multiplicar/Nos teus olhos também posso ver/As vitrines te vendo passar/Na galeria, cada clarão/É como um dia depois de outro dia/Abrindo um salão/Passas em exposição/Passas sem ver teu vigia/Catando a poesia/Que entornas no chão…

Ontem eu fui buscar minha filha na escola. Cheguei cedo e pelo vidro, escondido,  fiquei olhando aquela menininha, cabelo preso com um rabo de cavalo, sentada na carteira escolar, copiando a tarefa escrita pela professora no quadro. Ela está no terceiro período, sendo alfabetizada. O inusitado é isso: quando a realidade bate em sua cara com uma sandália havaiana molhada e cheia de terra.

Recobrando os sentidos, olhei e me dei conta de como é independente a minha filha de quatro anos. Já não mais chora para pedir leite, dorme sozinha, dispensando meu canto de outrora, cujos falsetes desafinados embalavam o seu sono, às vezes o nosso. Já escreve seu nome na firmeza do lápis. Já tem uma identidade que a distingue. Já tem gostos só seus. Sabe o que quer com firmeza. E o que não quer com certeza. Toma a frente para fazer as coisas, para experimentar. E só tem quatro anos, a minha menina. Em dois planos, vi duas cenas olhando para o mesmo lugar: pela janela da sala, a minha filha já sendo. Na janela da sala, pelo reflexo, um pai se dando conta de que a vida segue.

Enquanto eu escrevo, olho os vários porta-retratos de minha filha espalhados em meu escritório com suas fotos: um bebê, uma menina cambaleante, segurando as mãos do pai, uma menina em gargalhada aberta sentada no chão da calçada junto comigo a aconchegá-la, protegendo-a entre minhas pernas, numa tarde de pai e filha e velocípede. As fotos passam com um filme, quadro a quadro, lembrando que o tempo passa e ela cresce. E escapa líquida pelos meus dedos.

Fico pensando o dia em que minha criança sairá sozinha pela primeira vez. Nesse dia decretará o brado retumbante às margens de seu Ipiranga particular. Deixará um pai órfão de sua obrigação perene de pai: acompanhá-la por onde for. E eu terei que vê-la sair por aí… Não sem antes avisá-la repetidamente do abismo que é a cidade, o mundo. Definitivamente, o mundo não foi feito para pais. Pais sofrem com mundo. Ele ameaça o que têm de mais sagrado: seus filhos. Ah, filha, cuidado! O mundo é um vão…

O paradoxo de saber da necessidade de que os filhos se vão para ser gente e ao mesmo tempo em acreditar no instintivo pátrio dever da proteção eterna nos faz pensar em dizer, com rigor paterno: – Dá tua mão! – Olha para mim! Não faz assim! Não vai lá, não! – Fica aqui, deixa eu cuidar de você. Para sempre. Para sempre… Filhos são para sempre. Filhos se demoram. Essa é sua beleza. Mas o pacote traz junto com os filhos a vulnerabilidade eterna. Filhos são nossos alicerces e nossa vulnerabilidade. Sem eles, Deus nos livre, o nosso mundo desmorona, cai em pedaços. Sem eles, nossa vida se agriculturiza e vira vegetativa.

Mas tudo bem. Saiam. Ganhem o mundo. Ganhem os prados. Por via das dúvidas, vamos atrás, de longe. Só por garantia. Ficamos somente olhando. Sem se meter. Prometemos. E eles saem…

Na nossa certeza, vamos estar lá, pulando em frente de carros, lhes salvando contra ladrões, feito Sportacus avisados pelo nosso coração. Estamos prontos para intervir no primeiro susto. Mas cadê o susto que não vem?… Nossas crianças passeiam com desenvoltura pelas ruas. Os letreiros das lojas e fachadas vão lhes colorindo na passagem como se lhes saudassem a vinda e a vida. A vida de quem faz sua subjetividade na independência que, pretensiosos, julgávamos impossível sem nós. A falibilidade já nos tinha sido anunciada: quantas vezes pedimos impotentes que a febre passasse para nós?

Nossa ansiedade aumenta. Seguimos os passos de nossos filhos, mas os nossos passos vigilantes são hipérboles supérfluas de amor, desnecessárias, vãs. A cidade é um vão… Os letreiros brilham por sobre nossos filhos e embaraçam a nossa visão porque não conseguimos – ou não queremos – vê-los desenvoltos por lugares que outrora nós mesmos pisamos em falso, buscando nós próprios a nossa luminosidade.

Viramos espectros de seus caminhos. Se vão ao cinema, ficamos furtivamente na última fila, incógnitos. Estamos prontos para oferecer o ombro e o colo ao surgir o primeiro monstro na tela, um Robin Rotten, sei lá… Somos capazes de perceber a aflição suspirada, afinal conhecemos cada centímetro daquele ser, cada fio de cabelo, cada jeito de olhar, cada um dos 21 gramas daquela alma. Dizem que alma tem 21 gramas. Se tem, eu conheço cada um dos gramas da minha filha. Não duvide de um pai. Mas não… Vou me desnecessarizando de sua vida,  como as rodinhas da bicicletas, que uma dia foram fundamentais e depois, de repente, viram-se descartáveis. Com um outro, um substituto de mim, minha filha de repente sai confortada, alegre, frouxa de rir. E eu morro um pouquinho na quebra da minha certeza de que só eu era capaz de fazê-la rir daquele jeito. Sinto-me arrasado como quando trocamos amores em miúdos. Claro, mas é assim, é assim, sabemos… Componha-se!

É. Tem uma hora que a gente percebe que os filhos começam a gostar de ser. Desenham paisagens com seus próprios crayons, recortam o mundo com sua própria tesoura do desejo. Suas sombras a se multiplicar nos inquietam na impossibilidade de seguir cada uma delas. Vamos deixando de ser os pais que ocupam os espaços para  sermos pais que liberam espaços para os filhos como condição primeira para continuar sendo pais. É preciso se esvaziar de presença para estar presente: é esse o oximoro paterno.

Quando ela volta para casa, faço cafuné, abraço, beijo suas bochechas. Olhos nos olhos e nos seus olhos eu posso ver as vitrines do mundo a vendo passar nas galerias da vida, das querências, dos desejos, dos medos, das (in)certezas. Cada clarão refletido em suas pupilas é como o raiar do sol de um dia depois de outro dia depois de outro dia depois de outro dia. Olho em seus olhos os reflexos do porta-retratos do bebê risonho e do pai que o segura, feliz. Serão sempre os bebês os nossos filhos. E que abram, em cada passo que derem, mil salões de alegria, de sucesso, de ternura. Que não esqueçam a ternura ao passarem expostos ao mundo.

É com ternura que serei o eterno vigia de minha filha. Vigia que ela nunca vai ver lhe vigiando e lhe sufocando, pois precisa ganhar a segurança da liberdade. Um vigia que vai zelar sempre por ela, a cada dia, em cada galeria, no reflexo de cada vitrine, de cada vidro de janela das sala de aula da vida. Que vai estar catando toda poesia que ela derramar no chão, que será guardada naquela velha caixa cor-de-rosa onde estão depositadas as primeiras, aquelas entornadas e recolhidas naquele dia de felicidade indescritível na maternidade…

Cadê o pai do Poko?

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Não basta ser pai, tem de participar. Não era esse o slogan daquela pomada? Pois é. Sempre que posso, leio para minhas filhas e assisto com elas aos desenhos na Discovery Kids. Marina, nove meses, escolhe os seus pelas cores e sons.  Clara, um ano e dez e com a língua solta, aprecia uns e ignora outros por critérios particulares que ainda não consegui definir bem. Ela gosta especialmente de Backyardigans, de Poko, de Caillou e de Jakers!.

Quando assistimos juntos, busco não ser passivo e sempre pergunto sobre a cena na tela. O que o Piggley está comendo? Por que o Poko fez isso? Como é o nome do gato do Caillou? Qual é a cor do Pablo? E por aí vai. Nisso ela vai respondendo e a gente vai cumprindo nosso papel de pai e filha, criando laços e costurando a noção de família.

Trabalhando com a linguagem, é inevitável que eu olhe os desenhos também com um olhar discursivo. Percebo que eles se enquadram em dois grandes grupos: os do com família e o dos sem família. Os Backyadigans são cinco amiguinhos que brincam juntos no quintal de suas casas, usando a imaginação, e cujos pais nunca vimos. Idem o Poko, um menino cacheado cujas aventuras sempre começam com ele sendo acordado por Minus, seu cachorro, nunca por um afago da mãe ou do pai, como acontece com a Clara e com a Marina todo santo dia. Já o Caillou, um menino de quatro de anos, e o Piggley, o porquinho de Jakers!, têm pai, mãe e irmãos. Os pais impõem limites e servem de colo para as situações difíceis, em ambos. Como deve ser.

A maneira como a realidade se apresenta e se organiza por meio da linguagem não passa despercebida na formação de nossos valores. Pelo contrário: é determinante. Somos o que aprendemos a ser pela exposição aos fatos do mundo vivido durante o tempo que temos sido.  Uma cultura que valoriza o individualismo e relega a família a um papel secundário vai refletir esses valores em suas práticas cotidianas e culturais. Não é por acaso que os dois desenhos dos sem família são produções norte-americanas. E também não à toa que Caillou e Jakers! não o são.  Poderíamos estender a análise aos quadrinhos: enquanto a Mônica e sua turma têm núcleos familiares, os personagens da Disney são sobrinhos sem pais, vós sem filhos, tios sem irmãos. Essas organizações familiares (ou a falta delas) expostas em produtos culturais vão tecendo o inconsciente da criança que os consome e vão formando o imaginário de família em suas cabecinhas.

Por isso é fundamental que nós, pais, nos perguntemos que valores estão sendo oferecidos aos nossos pequeninos por um programa, por uma música, por um evento. Não se trata de indagar sobre o conteúdo manifesto, mas sobre o conteúdo latente, que está ali fomentando conceitos e padrões. Discurso não é o que está sendo dito nas palavras, mas o que está sendo feito com a linguagem na nossa estruturação subjetiva em termos conceituais.

A questão não é proibir minha filha de ver os desenhos de que ela gosta e que, no caso, ignoram a família. Mas balancear a sua exposição a esses desenhos com produtos culturais que enfatizem aquilo que a mãe e eu acreditamos que sejam valores desejáveis, como a família ser fundamental na vida de uma pessoa. Antenada, a Clara já sacou e me perguntou um dia desses: pai, cadê o pai do Poko? Ela ter sentido falta é um bom sinal.