filho

Bola de meia, bola de gude

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Há um menino/Há um moleque/Morando sempre no meu coração/Toda vez que o adulto balança/Ele vem pra me dar a mão/Há um passado no meu presente/Um sol bem quente lá no meu quintal/Toda vez que a bruxa me assombra/O menino me dá a mão/E me fala de coisas bonitas/Que eu acredito/Que não deixarão de existir/Amizade, palavra, respeito/Caráter, bondade alegria e amor/Pois não posso/Não devo/Não quero/Viver como toda essa gente/Insiste em viver/E não posso aceitar sossegado/Qualquer sacanagem ser coisa normal/Bola de meia, bola de gude/O solidário não quer solidão/Toda vez que a tristeza me alcança/O menino me dá a mão/Há um menino/Há um moleque/Morando sempre no meu coração/Toda vez que o adulto fraqueja/Ele vem pra me dar a mão…

 

Vez por outra na vida é preciso parar para um balanço. Sim, o balanço infantil mesmo, aqueles dos parquinhos. Sentar, jogar o corpo para frente e para trás, simbolizando o movimento do pensamento que, inquieto, vai para trás em busca das compreensões do que já passou e se joga para frente em projeções da vida por vir.

Estou nesse exato momento sentado no meu balanço. O ano está terminando, outro prestes a começar. O que ficou para trás? O que vem pela frente? Enquanto busco impulso, perguntas começam a brotar na minha cabeça com uma fertilidade nordestina.

Na ida para trás, o balanço faz pensar nas escolhas. Foram acertadas? De todas as certezas que tenho hoje, a mais certa é da opção pela minha família. Não falo da família que já está aqui antes da gente. Essa Deus escolhe por nós e, sem dúvida, Ele foi muito generoso comigo. Falo da família que vem depois da gente. Da companheira com quem você divide ônus e bônus dessa coisa doida que é viver. Dos filhos que daí vêm. Minha família é o meu melhor acerto. Andei em descaminhos em outras tentativas, na vontade sincera de acertar. Não deu. Não era para dar para que desse agora. Lapsos, erros, aprendizagem. Quedas. Reerguidas. Quem não?

Olhando para trás, penso em minha escolha profissional. Com o benefício do tempo passado, tenho certeza de que a escolha da profissão é algo que, como diz o lugar-comum, deve contemplar dois parâmetros: a satisfação pessoal e o retorno financeiro. Esses parâmetros vão dançar, brigando pela prioridade, dependendo do nosso plano de vida. Sou absolutamente realizado como professor. Gosto de gente. Gosto de mexer com cabeças. Gosto de fazer a pessoa sair positivamente diferente de alguma forma em relação a como ela chegou para nosso encontro. Sou doutor, estou bem na carreira, tenho certo reconhecimento profissional. Nota dez no quesito realização. Mas hoje vejo que ignorei o outro lado. Escolhi uma profissão que não traz reconhecimento suficiente do ponto de vista financeiro para o investimento de vida que se faz. Eu gostaria de dar à minha família bem mais. Errei no planejamento. Tivesse eu investido na medicina ou no direito, com esse tempo de estrada, estaríamos bem melhor. A essa altura do campeonato não era para eu estar mais dando aulas aos domingos para fazer as contas fecharem. Nota 2. Na média, 10+2/2 = 6.0, eu passo, mas não convenço. Isso tem me incomodado e me inquietado.

A vida vale a pena quando vivemos inquietações diferentes. Não dá é para morarmos nas mesmas inquietações. Então jogo a cadeira do balanço para frente: é preciso mudar, fazer algo. Não sei viver na mesma inquietação perene. Coisas de quem trabalha com a linguagem, sempre nervosa e mutante. No balanço das horas tudo pode mudar. No entanto, não é fácil. É complicado começar de novo quando a mudança tem impactos em pessoas que você ama. Incertezas para si é um a coisa. Incertezas para os seus é outra. O medo, confesso, paralisa. Já ensaiei e refuguei. Já me convenci e me dissuadi. Já me empolguei e me entorpeci. Há uma dúvida que bate como o badalo do sino que se dobra cotidianamente: o dois certo, com frustração, ou um dez incerto, com risco real de um zero? O medo de ir adiante, de abrir essa porta, faz o mundo parar, a vida procrastinar a vida. 2010 foi um ano inerte.

O banco do balanço volta no rumo de trás. Quando estava como subsecretário de Educação de Manaus, vivi a tal da solidão do poder. Só quem passa por isso sabe o que é. Não me peça para explicar. Em um dia particularmente ruim, abri meus e-mails e lá estava um que dizia: “Não deixa que ninguém te cobre mais do que podes dar. Te amo muito e vou continuar aqui no meu cantinho rezando por ti e por tua família. Que Deus te abençoe e Nossa Senhora te cubra com seu manto, te livre de todos os males que apareçam e te proteja contra a incompreensão, a inveja, a mesquinharia… Te amo muito, muito e te desejo toda a felicidade do mundo”. Era de uma tia minha, a quem amo de paixão, embora o corre-corre da vida não nos deixe muito tempo para abraços e beijos merecidos. Ela mandou isso do nada. Do nada, não. Ela, me conhecendo como me conhecia, tendo me carregado no colo, sentiu a necessidade de chegar perto com carinho, do jeito possível. Quem ama tem uma antena poderosa para captar a angústia silenciosa do ser amado. E foi na hora certa, no dia certo. E teve um efeito balsâmico sobre a minha alma chorosa que talvez nem ela saiba, pois só revelo agora. Não seria eu a me cobrar demais? Guardo o e-mail até hoje. Releio-o quando me sinto fraco, errante, debilitado. Ou em momentos de balanço, como esse.

É essa força invisível incomensurável que me faz, junto com a certeza da minha melhor escolha, arranjar mais forças. Daí eu enxugo minhas lágrimas, que insistem em vir mais recorrentes, e dou um impulso para frente no balanço. E me vejo sorrindo, como uma criança de cinco anos que um dia se balançou feliz, sem preocupações, no playground do jardim-de-infância de uma escolinha no Parque Dez, numa imagem achada na memória afetiva. “Há um menino, há um moleque morando sempre no meu coração. Toda vez que o adulto balança, ele vem pra me dar a mão”. É essa criança que grita para o adulto de 42 anos: “Empurra! Mais forte! Ainda temos tempo de brincar!”. Preciso fechar os olhos e sentir o vento no rosto… Preciso…

Antes de me tornar pai

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Antes de me tornar pai, nunca havia registrado alguém. É incrível imaginar como um misto de inquérito com cadastro bancário pode deixar você tão orgulhoso. Antes de me tornar pai, não me preocupava se plantas eram venenosas, se remédios ou objetos perigosos estavam ao alcance das mãos. Jamais havia segurado uma criança para que pudessem dar vacinas. Ninguém nunca tinha vomitado em mim. Nunca havia sentido meu coração se estilhaçar por não poder parar uma dor. Nunca desejei que uma dor pudesse ser transferida de dono.

Antes de me tornar pai, jamais rezei com tanta fé sobre alguém. Antes de me tornar pai, ignorava a indispensabilidade de uma cadeirinha de bebê, de um velocípede com empurrador e a real função de uma chupeta. Antes de me tornar pai, nunca reparei que móveis possuíam quinas. Nem sabia que existiam protetores de tomada e trecos para impedir que portas fechassem. Ignorava solenemente as seções infantis das lojas e zapeava indiferente pela Discovery Kids. Antes de me tornar pai, nunca tropecei em brinquedos de madrugada. Nas madrugadas, aliás, dormia tranquilo, o que nunca mais fiz depois que me tornei pai.

Antes de me tornar pai, nunca planejei tanto uma saída de casa: bolsa kit completo. Nunca percebi que há vários tipos de leite, de fralda, chupetas de vários números. Chicco, Lilica, Nuk, Fisher-Price foram definitivamente incorporadas às minhas grifes. Antes de me tornar pai, não sabia o que era mecônio, funchincória, colostro, absorvente de seio. Aliás, perdi a propriedade sobre seios da minha mulher. Antes de me tornar pai, eu julgava desleixados meus amigos com filhos e suas casas mal arrumadas, com paredes riscadas. O fazia por desconhecer a força de furacão de crianças descobrindo o mundo, mini-Katrinas devastadores.

Antes de me tornar pai, nunca tinha sido mordido por dentes de leite ou beliscado por dedinhos com unhinhas afiadas. Ninguém nunca tinha me molhado de xixi. Jamais havia passado pela minha cabeça lavar uma bunda alheia. Ninguém nunca havia ousado limpar a boca na minha roupa e sorrir, na boa, como se nada tivesse acontecido. E eu nunca tinha ficado tão feliz por causa de um sorriso. Antes de me tornar pai, nunca havia criado histórias, a não ser para adultos e por outros motivos.

Antes de me tornar pai, achava que só eu poderia riscar meus livros. Acreditava que só se perdia trabalhos no computador se a energia faltasse. Desconhecia pequenas mãos exploradoras. Antes de me tornar pai, tinha controle sobre meus desejos e pensamentos, sobre o meu corpo e meu tempo. Eu nunca tinha segurado um bebê dormindo a noite inteira só para ficar bem pertinho. Nunca havia paranoicamente checado no meio da noite se alguém estava respirando. Nunca imaginei que algo tão pequeno pudesse mudar minha vida de modo tão forte. Não conhecia a sensação de ter meu coração batendo fora de meu peito.

Antes de me tornar pai, nunca imaginei o privilégio e o prazer inexplicável de ser chamado de pai. Antes de ser pai, temos que aprender a ser filhos. E depois de ser pai, certamente, aprendemos a ser filhos melhores. Antes de me tornar pai, nunca havia olhado meu pai com olhos de pai. Hoje vejo e o amo ainda mais. Porque agora sou pai.

Sete mil amores

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Há alguns dias soube da Luíza. Soube por amigos que são amigos da Carol (@ccvarella), sua mãe, e de Marcos (@mv_mao), seu pai. Li um pouco mais sobre o que estava acontecendo no texto do Ismael Benigno Neto. Apesar de não conviver com a família, sempre leio o blog da Carol e com ela troquei mensagens no Twitter sobre diversos assuntos. Gente do bem. E ainda que não seja próximo, fiquei muito triste e abalado com a notícia. Atribuo a tristeza ao sentimento do mundo, sobre que Che Guevara discorreu. Dizia ele que há uma ligação entre todos os seres que habitam o planeta pelo simples fato de pertencermos à raça humana. O que acontece a alguém em algum lugar do mundo a mim importa. Atribuo o abalo ao fato de ser pai e ter filhas. A notícia foi como um soco no peito que me tirou o ar, confesso.

A iminente luta de Luíza e de sua família me fez parar. Fez-me desligar o carro e pausar a roda-vida por alguns dias. Dei um tempo no Twitter, reorganizei prioridades, redesenhei alguns planos para a vida. Inevitável a reação de pai, que o Ismael magistralmente sintetizou em seu texto: “O reflexo involuntário de todo pai é olhar pros filhos, beijá-los, amá-los ainda mais”. Desliguei das coisas e liguei o potenciômetro dos chamegos gratuitos com as minhas filhas ao máximo. Lembrei da efemeridade da vida e das guinadas que ela dá para nos testar, fazer crescer, fazer amar mais. Nada vale a pena se a alma é pequena, parafraseando o poeta. Tantas miudezas, briguinhas, rancores, provocações, mimimis. Tudo reduzido a pó diante do amor que se tem por um filho. Diante do amor. Diante da vida.

Tenho acompanhado silenciosamente os passos de Luíza e sua família. Tenho me fortalecido na fortaleza de Carol e de Marcos, davis gigantes diante de um golias que, como na história, certamente derrotarão. Tenho visto como a solidariedade é realmente um dos mais lindos alimentos da alma. Pessoas de todos os lados, fé, crenças, tribos, fazendo uma corrente de fé pelo final feliz da história de Luíza, manifestando-se de várias formas, uma delas pelo Twibbon da hashtag #ForçaAnaLuiza, em http://twb.ly/d0TxQx.

Não há nada mais precioso do que um filho. Absolutamente nada. Empresto todas as minhas forças aos pais de Luíza. Eu os tenho colocado em minhas orações de pai todos os dias, pedindo ao bom Deus que lhes dê serenidade na turbulência e que mantenha a força descomunal do amor que os pais têm pelos filhos e os filhos têm pelos pais, o mais puro e verdadeiro tipo de amor que o ser humano conhece.

Quando eu era  jovem, sempre disse que um dia que tivesse uma filha ela se chamaria Luíza. É porque sou um ser musical e “Luíza” é uma das mais belas músicas que conheço. Casei, descasei, casei, descasei e casei. E vieram minhas duas filhas, que se chamam Clara e Marina. Uma, a Clara, é um coração de mel, de melão, de sim e de não, feito um bichinho no sol da manhã, novelo de lã. A outra, a Marina, é morena, bonita com que Deus lhe deu. A minha Luíza não veio. Mas veio para outros pais. Veio para o Marcos e para a Carol.

Não há muito a dizer. Mas queria dizer, ainda que fosse pouco:

Marcos e Carol: depois de tudo isso, eu tenho certeza que vamos lhes ver, braços abertos, cantando em uníssono: “Vem cá, Luíza!/Me dá tua mão/O teu desejo é sempre o meu desejo/Vem, me exorciza/Dá-me tua boca/E a rosa louca/vem me dar um beijo/e um raio de sol/nos teus cabelos/como um brilhante, que partindo a luz,/explode em sete cores/Revelando então os sete mil amores/que eu guardei somente pra te dar, Luíza”. Nós estaremos aqui, amigos, fazendo o backing vocal para a canção como se estivéssemos cantando para a Luíza de cada um de nós. Neste momento, a Luíza de vocês é de cada um de nós. É a Luíza dos sete mil amores…

Vambora, Miguelito!

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[Escrevi este texto há exatamaente dez anos, no dia 21 de julho de 2002. Nascia Miguel, meu sobrinho. Eu estava devastado pelo fim de um casamento. Hoje, em homenagem ao Miguel, que aniversaria, e à vida, que sempre se ajeita, republico]

Tabatinga, Alto Solimões, vinte e um de julho, 04:30h da madrugada. O galo canta. Aliás, os galos cantam. Cada um mais vaidoso que o outro. A impressão que tenho aqui do quarto do hotel é que a cada tufar de peito e explosão de som, eles olham para os lados e desafiam uns aos outros, como adolescentes se desafiam em concursos de arrotos.

À sinfonia de galos vaidosos se junta o cantar do celular, rasgando a madrugada de contemplação e introspecção. Mais uma, diga-se de passagem. Atendo entre ansioso e aliviado e vejo que é o Mauro, meu irmão. Feliz como pinto na merda. Nasceu o Miguelzinho, seu primeiro filho. Minha mãe toma-lhe o telefone para dizer que o menino é branquinho e pimbudo, avó vaidosa como os galos cantores tabatinguenses, falando do esporão do rebento. Espero que, se não ajudar, ele não atrapalhe. Que o menino seja a cara da mãe, linda.

Venho para o computador para escrever sobre isso, sobre ser pai. Não adianta dizer que sou desqualificado para falar sobre o assunto porque ainda não sou pai. Eu tenho um grande pai, conheço bons e maus pais. E quero ser pai. Qualificação suficiente. Os galos agora estão cada vez mais vaidosos e aumentam em número e potência seu cântico. Adolescentes desafiados, sabe como é… Abro o programa de música e mando tocar qualquer uma entre as que tenho aqui armazenadas. Talvez a música sobreponha o barulho do galinhame. Peço que o computador escolha aleatoriamente. Um cachorro faz o backing vocal da sinfonia dos galos aqui ao lado. Ele é barítono, o danado.

O computador escolhe Vambora, da Adriana Calcanhoto. Apropriada: Entre por essa porta agora/ e diga que me adora / você tem meia hora / pra mudar a minha vida/ Vem, vambora/ que o que você demora/ É o tempo que leva/ Ainda tem o seu perfume pela casa/ Ainda tem você na sala/ Porque meu coração dispara/ quando tem o seu cheiro/ dentro de um livro/ dentro da noite veloz.

Meu irmãozinho, o caçulinha dos homens, agora é pai. Lembra, mano, quando a gente brincava de super-homem contra “todos” lá na casa da rua três? Tu sempre eras o super-homem e eu era o “todos”. E tu sempre vencias nas nossas brigas imaginárias. Um a um, todos os inimigos que eu encenava sucumbiam dizendo um “ahhhhh” de morte antes de fenecer. Eu te deixava vencer. O super-homem sempre vencia. Aí fostes estudar em Niterói e eu te disse, numa carta cheia de saudades, que a partir dali deverias ser o super-homem mesmo porque o “todos” seria real, criaria mil armadilhas para ti, iria usar kriptonita sempre que pudesse para ti atingir. As brigas não seriam mais dos brinca, mas seriam dos vera. Pois é.

Hoje me volta à mente a brincadeira que costumávamos curtir na infância, rolando na cama do beliche ou no sofá da sala. E me volta com ela a vontade de dizer, com conhecimento parcial de causa, que está na hora, de novo, de ser o super-homem e se preparar para mais um embate contra o “todos”, sabendo que agora estás mais vulnerável porque tens uma coisinha que vais amar mais que tudo, mais até que a ti próprio. E que por isso não dormirás mais, tendo que estar sempre alerta para protegê-lo do malvado “todos”.

Como na trilha sonora do computador, Miguelito entrou pela porta agora, vai dizer que te adora e já mudou a tua vida. Ele olha para ti, com seus olhinhos que ainda não aprenderam a ler o mundo, e faz um convite ao qual tu não podes dizer não: “Vambora!”. O seu perfume vai impregnar a casa, teu coração vai disparar muito por ele, como sei que está disparado agora como um AR-15 recebendo policiais no morro. Esse moleque vai te roubar a mulher e tu, ainda assim, vai amá-lo sem medida. Vocês têm uma vida toda pela frente, sem pausa. Dias e noites velozes. Para sempre. A música da Adriana Calcanhoto foi muito bem escolhida. É uma luva. Às vezes penso que esse computador pensa…

Mano, sei que é difícil, senão impossível. Mas tenta ser um pai igual ao nosso. Acabei de falar para meus alunos para serem incrédulos em relação às receitas prontas, que eles precisam reinventá-las antropofagicamente e eu aqui dando uma para ti. Pri, minha irmãzinha, tenta ser uma mãe igual a nossa também. Eu sei que nossa família se mete muito, mas é por amor, como tu sabes. Como tu podes ver agora aí nos teus braços. Sabe, acho que só a intenção fará de vocês os melhores pais do mundo. Mas não quero ficar dizendo o que vocês têm que fazer. ‘Magina, logo eu. De toda forma,  com vocês converso depois, quando eu chegar aí. Deixa eu falar com ele, o palmitinho pimbudo.

Miguelito, titio. Seja bem-vindo. O titio está longe e triste. Longe por trabalho e triste por um monte coisa que você um dia irá entender, mas que espero que entenda como espectador, se bem que acho que ninguém se livra disso. Mas o titio está muito, muito feliz por ti, por tu vires mudar o mundo e nossa família de uma forma que ainda não descobrimos plenamente. E sabe, tio, deixa eu te dizer uma coisa que um dia disse ao teu pai: nesse mundo a gente tem de ser uma espécie de super-homem, pois o “todos” parece conspirar contra nós. Há pessoas más, há pessoas mesquinhas, há pessoas invejosas, há pessoas pegajosas, há pessoas falsas, há pessoas que cobram. Há pessoas insensíveis, há inimigos invisíveis. Há dores. Há tristeza.

Mas a conspiração do mal, por assim dizer, perde para a conspiração do bem, para os sangue-bons. Existe a Sala de Justiça. Há pessoas boas, pessoas generosas, pessoas solidárias, há pessoas amorosas, há pessoas verdadeiras, há pessoas que doam. Há pessoas sensíveis e amigos visíveis. Há amores. Há alegria. Você nasceu em uma família abençoada por Deus e protegida por Nossa Senhora. Teve a mesma sorte que nós. Que sorte, nada! Benção divina.

Os galos continuam cantando alto e forte, a despeito do sol que está chegando e já pedindo para eles pararem com esse festival de vaidades. Só que eles não param. E isso me faz lembrar outra história, contada pelo Rubem Alves, numa tarde de conversa em Campinas, de saudosas lembranças. É assim:

O galo cantava todo dia. Aprontava-se, penteava a plumagem, passava Neutrox 2 e ia para o lugar mais alto do galinheiro. Perguntado pelos críticos do galinheiro – há sempre críticos nos galinheiros – por que fazia aquilo todos os dias, ele respondeu: “Porque se eu não cantar o sol não nasce”. E na sua convicção, estufava diariamente o peito e cantava. E o sol nascia. E todos ficavam orgulhosos e agradecidos. Invejavam positivamente o galo e sua capacidade de trazer o dia na voz. Mas o galo, como o cachorro do Magri, também é um ser humano. E falha. Um dia dormiu demais e esqueceu-se de cantar. Mas o sol nasceu mesmo assim. E todos, surpresos, descobriram que o sol nascia independentemente do galo cantar. O galo ficou morto de vergonha e sumiu. Não apareceu por uns bons tempos. Sua razão de cantar – ou aquela que parecia ser sua razão – cessara, sumira. O sol era independente dele. Que pena.

Um dia, um belo dia como hoje, todos acordaram ao som do clarinar do galo. Forte, alto, tenor. Lindo e belo, abria suas asas e cantaricava seu galicanto. Os críticos vieram, já azedos e afiados, e perguntaram, preparando-se para a zombaria: “Ei, galo! Por que cantas? Para o sol nascer?” O galo respondeu: “Não. Canto porque sou poeta. E os poetas tem suas razões. Não canto para ele nascer. Canto porque ele nasce.” E continuou a cantar, deixando os críticos sem palavras.

Miguel, seja pois um poeta na vida. Cante com toda força de seus pulmões, ainda frágeis, conhecendo e se adaptando ao ar novo dos novos ares. Cante por suas razões, por suas causas. Cante não para o sol nascer, mas porque ele nasce. E não ligue para os azedos do galinheiro, para o “todos”. Apenas fique antenado e saiba que eles existem. Mas eles passam. Eu sei disso e vou ficar de olho. Seu pai sabe disso e vai ficar atento.

Os galos pararam de cantar. Recolheram-se para compor novos poemas. Como as flores que graciosamente recolhem suas pétalas uma a uma ao fim do dia. Amanhã estarão de volta. Porque o sol nasce.

Já que estamos em clima de Adriana, seguinte: dá a mão aqui pro titio, menino pimbudo. Vambora para vida nova! Nós dois. Vamos ver as cores cujo nome a gente não sabe, as cores de Almodóvar, cores de Frida Khalo, cores. Pela janela do quarto, pela janela do carro, pela tela. Enfim, pela janela das novas vidas, a tua e a minha, que se inauguram hoje.

Ao que vai chegar

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[Escrevi este texto no dia em que soube que iria ser pai. Havia publicado no site antigo. Republico agora aqui.]

Voa, coração
a minha força te conduz
que o sol de um novo amor em breve vai brilhar
Vara a escuridão, vai onde a noite esconde a luz
Clareia seu caminho e acende seu olhar
Vai onde a aurora mora e acorda um lindo dia
colhe a mais bela flor que alguém já viu nascer
e não se esqueça de trazer força e magia,
o sonho e a fantasia, e a alegria de viver
Voa, coração
que ele não deve demorar
e tanta coisa a mais quero lhe oferecer
O brilho da paixão, pede a uma estrela pra emprestar
e traga junto a fé num novo amanhecer
Convida as luas cheia, minguante e crescente
e de onde se planta a paz,
da paz quero a raiz
E uma casinha lá onde mora o sol poente
pra finalmente a gente simplesmente ser feliz

Toquinho

Hoje, com a lua cheia belíssima, cantei a música do Toquinho de uma forma diferente. Busquei dentre os cds da estante o que contém a música e o pus para tocar. Ouvi com calma, prestando atenção em sua letra, em cada uma de suas frases, em cada uma de suas palavras. É impressionante. Como linguista, tenho como verdade científica o fato de que as palavras adquirem seu peso no contexto de uso. Mas nunca essa verdade esteve tão clara para mim como hoje. Vejamos, pois, como a letra da música do grande Toquinho se estende na minha compreensão redesenhada.

“Voa, coração. A minha força te conduz. Que o sol de um novo amor em breve vai brilhar”. Meu coração está leve. Como um passarinho que salta do ninho na certeza de que pela primeira vez suas asas vão levá-lo ao longe, a lugares nunca idos, às experiências nunca vividas. Um primeiro vôo. Minha alegria e meu sorriso insistentes e indisfarçáveis são a minha força. A força que conduz meus pensamentos, meus movimentos, meus dedos quando escrevo este texto. De repente, à tarde, um beija-flor anuncia a chegada da luz do sol de um novo amor. Amor que não conheço, mas que já me treme as carnes; luz que ainda não vi brilhar, mas que já me incandesce os olhos. Em breve, esse sol vai iluminar as vidas de onde surgiu, numa supernova de amor explodindo e expandindo suas partes pelo universo da vida. Aguardo o dia desse raiar como nunca esperei por nada nessa vida. Nada.

“Vara a escuridão, vai onde a noite esconde a luz. Clareia seu caminho e acende seu olhar”. A tua luz vai rasgando a escuridão como as naus portuguesas rasgaram os mares desconhecidos no século XVI. Ela abrirá caminhos nos breus do dia-a-dia e nos mostrará onde se escondem as alegrias que te esperavam para que pudessem vir à tona, ter sentido, vir ao mundo. Tua incandescência faz da noite luz, com teu brilho próprio. Somente o aviso de tua vinda fez os ares mais leves, limpando as brumas das pequenezas das vidas humanas, mostrando que há céu azul em dias nublados. Vem e clareia com teus mil sóis o caminho que hás de percorrer, primeiro segurando minha mão pelos passos cambaleantes teus, depois com as mãos livres para percorrer tua estrada individual e, por fim, segurando minha mão pelos passos cambaleantes meus, com o corpo velho e cansado, que rejuvenesce ao ver o brilho dos teus olhos, a minha fonte de juventude, refletindo para mim o mesmo brilho ofuscantes dos meus olhos quando soube de ti.

“Vai onde a aurora mora e acorda um lindo dia. Colhe a mais bela flor que alguém já viu nascer”. Vai onde as rosas são feitas, os perfumes pensados, as estrelas recortadas antes de serem cuidadosamente penduradas no céu infinito, como infinita também é a felicidade que me inunda. Acorda um lindo dia, desenha a mais bela paisagem com o mais belo sorriso, que é  o teu. Colhe a mais bela flor. Colhe-te. Decreta como tua e finca bandeira na nascente do meu rio para tu te banhares na água de afeto da fonte mais pura e cristalina que há em mim e que eu, antes de ti, nem pensara que existisse. Traz, junto com a mais bela flor, o mais belo olhar, a mais macia mão, os mais pequenos pés, me fazendo transgredir a gramática para tentar dizer o que quero na certeza de que ainda não inventaram em nenhuma língua palavras para te descrever.

“E não se esqueça de trazer força e magia, o sonho e a fantasia, e a alegria de viver”. Venha com força para viver nesse mundo que me assusta porque sei que não vou estar 24 horas ao teu lado, ainda que até para depois de minha morte eu te sempre leve na alma, sem trégua, numa certeza de amor que Deus me dá de presente, de Pai para filho. De pai para filho. Traga magia. A mágica de nos fazer mudar rumos, planos e prioridades sem dor, com prazer, com orgulho. A magia de roubar minha mulher e fazer com que eu ainda te ame mais por isso. A magia de sorrir para mim como quem diz: “Estou aqui. Para onde vamos?”, com a mais absoluta e cega confiança na entrega contida nessa pergunta. Vamos aos mais belos pastos, à mais bucólica paisagem, à cumplicidade sem fim. Nós vamos ao sol, ao rio, à piscina. Vamos ao parque, comer pipoca, tomar sorvete de taberebá. Vamos comer algodão doce e pão com tucumã, ainda que deles eu não goste. Comerei só para ficar mais pertinho de ti. Vamos dar banho no cachorro. Vem e traga, meu sonho, o sonho de uma vida, minha vida. O sonho de ver tuas duas mãos pequenas – que nem mesmo a chuva tem, como diz Zeca Baleiro. O desejo de ver teus olhos graúdos como os da mulher que eu amo e que não por acaso te ama mais do que a mim, como eu amo a ti mais do que a ela e tu a nós como nós a ti mais do que tudo. Jogo de pronomes que confunde, mas que carrega a certeza do amor entre nós três. Traga com a tua chegada a fantasia porque teu anúncio já nos trouxe a alegria de viver. Alegria que me faz agora chorar um choro que nunca chorei, em mais uma das tuas novidades que vais me mostrar. Pauso. Choro mesmo. Soluço. Porque não te conheço, mas já te amo mais que tudo. Mais que tudo, como me disseram os que já choraram como eu e me confirmaram que isso é melhor do que tudo.

“Voa, coração, que ele não deve demorar e tanta coisa a mais quero lhe oferecer”. Ai, meu coração leve das dores do mundo! Voa! Logo, logo tu vais chegar e a ansiedade de tua chegada já adoça minha boca, acalma minha alma, apaga minhas dores, apequena problemas,ressignifica meus sentidos. Eu quero te oferecer o meu amor, a minha vida, o meu tempo, o meu sorriso, a minha comida, o meu carinho. Quero ser a madeira a crepitar no fogo para te aquecer no tiritar do frio e ser a infinita água da cachoeira a te refrescar do calor dessa terra, dessa Terra. Quero te oferecer o que tenho de bom em mim e quero humildemente reconhecer o que de mau me habita para te mostrar o que deves evitar ser. Seja bom de verdade, como teu avô. Ame de verdade e brigue pelos teus, como a tua vó. Viva leve, musical e poeticamente, como o teu primeiro tio. Viva focado sem perder a ternura jamais, como teu segundo tio. Seja determinado, como sua primeira tia. Seja doce, como tua segunda tia. E seja, na mistura do que quero pra ti, tu próprio. Quero ouvir teus porquês sem fim. Respondê-los a todos sem cansar e, nas tuas perguntas, aprenderei mais o mundo.

“O brilho da paixão, pede a uma estrela pra emprestar. E traga junto a fé num novo amanhecer”. Faça as coisas com paixão, sem ela as coisas não passarão de coisas. Com ela, as coisas saem do seu casulo coisificante e viram vida, borboletas de asas azuis que pousam nos acontecimentos dando a eles significados únicos e eternos, singularizando fatos, trazendo o brilho que, na vida, não deve ser uma meta, mas uma doce conseqüência do viver com dignidade. Tenha fé. Em Deus e nos homens. Se há homens maus, pequenos, famintos de alma, há também homens bons, grandes e que compartilham o banquete da vida. Seja um desses. Ande com fé que a fé, já dizia um ministro da música, não costuma faiá. Aposte na humanidade do homem, na solidariedade, na honestidade, na justiça, no olhar sincero, no sorriso franco, no tratar bem. Busque não ferir, não magoar, não machucar. Mas defenda-se com grandeza, sem tripudiar dos adversários vencidos nas batalhas da vida. E nas prováveis derrotas em outras batalhas, erga-se, olhe para o Sol e siga em frente, tirando lições.

“Convida as luas cheia, minguante e crescente. E de onde se planta a paz, da paz quero a raiz”. Na lua nova te soube. Quero-te nas demais até que as luas se cessem para mim. Quero-te ao meu lado, segurando a minha mão quando meu corpo já não mais quiser respirar; quando meu coração, de tanto te amar, pedir para repousar e a vida me quiser levar pelo tanto que me deu; quero-te ao meu lado, junto dela, quando teus dedos fecharem os meus olhos dos teus… Quero para ti a paz. Mas não quero te dá-la (porque não posso). Quero te ensinar a conhecê-la e reconhecê-la. A tê-la como principio e meta. A tê-la como aliada. A fazê-la. Seja alguém que traz a paz na alma, branquinha como a doce tez daquela que te dará à luz.

Quero a paz. E com ela “uma casinha lá onde mora o sol poente pra finalmente a gente simplesmente ser feliz”. Eu, você, a doce ela. Nossa casa. Nosso canto. Nossa cama. Nossa vida. Nossa história. História que começou com um telefonema ousado e um convite para uma fisioterapia de emergência em minha alma. Mãos mágicas curaram-na. E te me deram. Para viver. Para materializar um amor. Para simplesmente a gente ser feliz, meu filho.

Eu vou ser pai, meus amigos.

17 de outubro de 2005

Ana Clara

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Amanhã, Ana Clara faz 4 anos. Antes de nascer, fiz esse soneto para ela:

Carta de recomendação de mãe

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Esta carta foi mandada por minha mãe para a Bia, sem eu saber. Eu estava viajando para Campinas para vê-la pela primeira vez, depois de já estar namorando  à distância  há quase um mês. Tinha saído em frangalhos de um casamento. Apostava todas as minhas fichas restantes na Bia.  Jackpot! Mãe é mãe. Amo as mulheres de minha vida.

Um mundo propositivo

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Este texto foi escrito em 27 de junho de 2007 e publicado no jornal EM TEMPO. No dia em que Marina, minha caçula, nasceu.

Cada dia ficamos mais estarrecidos ao abrir jornais pela manhã ou escolher um canal de televisão. Barbáries, crimes sociais e ambientais, roubos de recursos públicos, um denuncismo de cunho político que não visa o bem comum e sim projetos pessoais. Um mundo, enfim, cada vez menos convidativo para nele se viver.

Estive pensando nisso. Falar em futuro da humanidade tem sentidos diferentes para quem tem e para quem não tem filhos. Nos caminhos do pensamento que olhava ao longe da janela do meu apartamento o pôr-do-sol , percebi que não há escuro sem claro, que para haver música, o silêncio se faz necessário. Há sempre o outro lado.

Se por um lado há políticos que se vendem como guardiães da moral e, cínicos, superfaturam obras ou compras, retirando um dinheiro que iria para escolas de crianças, por outro há políticos sérios, comprometidos, que perdem amizades para não perder a decência e os princípios. Se há escolas públicas caindo aos pedaços, como a imprensa gosta de mostrar, há escolas públicas novas, cheias de projetos pedagógicos, formando os alunos que delas necessitam, com professores comprometidos, que não fazem das dificuldades cotidianas racionalizações para o descompromisso.

Se há bárbaros que matam e assustam a sociedade, há pessoas boas que encantam porque cuidam voluntariamente dos que precisam, fazendo do seu gesto gratuito sua alegria de viver. Se há dores, há sorrisos. Se há fome de justiça, há banquetes de gente bem intencionada que não desanima. Se há os nauseabundos programas vespertinos para promover políticos e pretensos nos canais locais de televisão, há uma TV Cultura para alimentar a imaginação da criança que precisa da fantasia para ser normal. Se há Calypso, há Zeca Baleiro. Se há Paulo Coelho, há Guimarães Rosa.

O problema de nosso mundo velho sem porteira é a direção. Grosso modo, não estamos indo. Estamos sempre reagindo. Um mundo reativo é um mundo ruim. Quem reage abre mão da sua direção, deixando que outros a determinem.  Um mundo reativo é um lugar do sobressalto, do medo, da ansiedade. É um mundo do band-aid na ferida profunda, fingindo acabar com um problema que só se enraíza num cancro fatal. Um mundo reativo é um mundo enclausurado na incerteza que nos espera na próxima esquina. É um mundo desconfiado.

Mas podemos mudar a direção do olhar. Em vez de reagir, podemos agir. Um mundo de ação é o mundo da solidariedade, da vida em sociedade de verdade. Um mundo da ação é um mundo que não espera, propõe. É um mundo que entende o valor da profilaxia social, evitando as mazelas sociais, essas mesmas mazelas que hoje, porque não termos cuidado antes, temos que combater a um preço muito alto. Dor, medo, angústia, ansiedade, violência não combinam com esse mundo. As suas palavras são sorriso, ação, alegria, certeza e paz.

Eu fiz uma experiência durante a semana que passou. Fixei meu olhar no mundo e nas pessoas propositivas e ignorei solenemente o mundo reativo e as pessoas negativas. Eu te digo, leitor, que foi uma experiência muito gratificante. Descobri que existe um mundo fora da mídia azeda que é melhor do que o que nos vendem, feito de gente do bem, de coração grande, que se interessa genuinamente pelo lado bom da vida e pelas outras pessoas.

É esse mundo propositivo que eu quero para a Marina, que nasce hoje. Seja bem-vinda, minha filha. Papai vai continuar lutando por esse mundo propositivo. Porque viver ainda vale a pena.

Os ossos do amor

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Para você, P.

O silêncio é o estado primeiro da linguagem. É por isso que dizemos “ficar em silêncio” e “quebrar o silêncio”. O silêncio é a linguagem em estado bruto. O silêncio é significativo. Por isso, uma maneira de sentir o tamanho do impacto de algo sobre uma pessoa é avaliar quão profundo é o silêncio após o fato.

Assisti hoje a “Um olhar do paraíso” (“The lovely bones”). O filme conta a história de uma menina de catorze anos, Susie Salmon, que é assassinada e que de onde está vê a forma com que sua família e amigos seguem suas vidas após sua morte. Tudo isso enquanto ela própria precisa se acertar com o fato de ter morrido. O estilo é muito parecido com “Amor além da vida”, aquele em que Robin Williams vai buscar sua mulher no inferno por amor. Atuações magistrais de todos, com destaque ao papel coadjuvante de Susan Sarandon, como a avó da menina.

A história me embargou várias vezes. Um filme é bom ou ruim dependendo da identificação com um personagem, com uma situação, com um fato ali contado. Fiquei sem ar ao ser lembrado mais de uma vez da vulnerabilidade de cristal que envolve nossos filhos no mundo. Descompassei a respiração ao ver na tela o quanto amamos nossos rebentos a ponto da suposição involuntária de que aquilo que vemos na tela possa ocorrer com os nossos causar náuseas reais. Apertei firme a mão de minha mulher, numa cumplicidade silenciosa e solidária, pela dor do quarto intacto deixado pelos pais após a morte da jovem e pela lágrima densa que cai dos olhos da mãe quando da notícia de sua morte.

O filme é baseado no livro “The lovely bones”, de Alice Sebold. A boa ficção mexe com a realidade. Cada segundo com nossos filhos é precioso demais ante a possibilidade da presença de sua ausência eterna. A incerteza quanto à abominável  inversão da ordem natural, em que pais deveriam ir antes dos filhos, sinaliza uma dor forte, imediatamente repugnada  para fora de nossa mente, pois a cabeça não aceita pensar sobre isso. A morte de um filho equivale ao reverso de um parto que jamais queremos parir. Quando perdemos os pais, ficamos órfãos. Quando perdemos o cônjuge, ficamos viúvos. Mas quando perdemos filhos, ficamos em silêncio. Não há nome para isso. Só o silêncio. De tão não natural, essa dor é uma dor sem nome, uma dor cujo peso só é compreendido pela remissão ao estado bruto do sentido: o silêncio. E o filho nem precisar ter nascido para isso. Já é desde sempre nosso filho. O quarto vai ficar como está por um bom tempo, guardando o cheiro, a desordem e o jeito para um sempre com que ilusioriamente achamos que vamos saber lidar.

Com uma fotografia linda, “Um olhar do paraíso” é cheio de metáforas visuais. A trilha sonora, não menos linda, complementa com metáforas sonoras. Destaque para a belíssima “Song to the siren”, do Mortal Coil.  “Now my foolish boat is leaning, broken love lost on your rocks”, diz a letra, musicalizando as garrafas com barcos dentro, quebradas pelo pai que as fazia de hobby, naquele desespero que sempre vem depois da incredulidade das perdas irreparáveis. Ele guarda somente uma garrafa: aquela que sua filhinha assassinada ajudou a fazer, num daqueles momentos de cumplicidade afetiva que só quem tem filho reconhece. Nossas memórias afetivas são coladas por objetos que nos ligam. Seja um desenho, seja um perfume, seja um barco em garrafa. Ou um sapatinho de bebê jamais usado.

Existem mistérios incompreensíveis na vida humana. A morte, única certeza, envolve vários deles. O que vem depois? Céu? Inferno? Nada? A despeito das crenças que cada um de nós sustenta, a realidade exige a urgência da presença. O abraçar, o beijar, o cheirar, o tocar. Fazer isso com quem amamos é estocar amor para a indesejada  falta. Aprender a dizer “eu te amo” para quem aparece no filme de nossa vida é uma das lições mais sublimes do ser humano. Saber construir o momento, aceitando a temporalidade divina, sempre incompreensível para a finitude humana, é um aprendizado doloroso, árduo, eloquente como o silêncio. Um silêncio lancinante, que dá fisgadas na alma.

O nome do filme em inglês, “The lovely bones”, vem desta passagem, que traduzi livremente: “Foram esses os ossos do amor que cresceram em torno de minha ausência: as conexões que aconteceram após eu ter ido, conexões por vezes tênues, por vezes bastante custosas, mas quase sempre magníficas. E eu passei a ver as coisas de um jeito que me permitiram entender o mundo sem que eu estivesse nele. Os eventos que minha morte trouxe foram apenas os ossos de um corpo que se completará em algum tempo não sabido no futuro. O preço que paguei para ver esse corpo de amor maravilhoso e milagroso  foi a minha vida”.  Porque, como diz o poeta, o amor da gente é como um grão: às vezes tem que morrer para germinar. Germinar o quê, quando e como são as incógnitas dessa equação, complexa demais para a matemática básica da alma humana.

Quebrei um longo e profundo silêncio para escrever este texto. O silêncio que esse filme exigiu de mim para que eu pudesse significá-lo no estado bruto da linguagem. O silêncio que, triste coincidência, as tristes notícias desse dia me impuseram. Sugiro que você vá silenciar também antes que o filme saia de cartaz. E saiba que o amor começa antes e não termina nunca. Quem ama ama junto, quem ama sofre junto. Nos barulhos da vida, nos silêncios da vida. O colo nunca se esvai. Fica firme sustentado pelos ossos do amor.