filho

A descoberta do mundo

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De repente bateu um desespero manso. Como quase todos os dias, levantei com o dia raiando para fazer as mamadeiras das minhas duas filhas. Ana Clara, três anos, sete porções de leite para uma de Sustagen Baunilha em 210 ml de água. Marina, dois anos, cinco de leite para uma de Sustagen Chocolate em 150 ml.

Uma gosta de baunilha, a outra prefere chocolate. A primeira é na dela, vem quando quer. Gênio forte que às vezes irrita. A mais nova é na dos outros, abraça de graça, de bem com o mundo. Clara adora flores, tem espírito de Cirque du Soleil, vive pulando, dando cambalhotas, se pendurando nas minhas costas. Marina gosta de chocolate – qualquer um a qualquer momento – e é uma Forrest Gump, sempre com uma história para contar. Ambas com uma sacação acima da média. E uma beleza de fazer o sol sorrir e a lua corar.

Podem dizer que falo isso porque quem tem filho feio é coruja. Desculpem, mas não sou eu quem diz. Só reproduzo o que dizem, com um orgulho danado de ter feito, em co-autoria, dois belos exemplares da espécie humana. Belas por dentro e por fora minhas meninas.

Mas como disse no começo do texto: de repente bateu um desespero manso. Depois de colocar as mamadeiras em suas mãos e de elas as pegarem automaticamente durante o sono, tentei voltar para dormir, mas não consegui. Porque comecei a pensar sobre a celeridade do mundo.

Minhas filhas nasceram um dia desses e já estão andando, falando, escolhendo o sabor do Sustagen. Minhas filhas já têm personalidades, opiniões, desejos, preferências, medos, projetos. Minhas filhas, nessa infância linda, já contra-argumentam, já discutem, já me deixam sem resposta.

Quando foi que isso aconteceu? Quando foi que elas deixaram de ser aqueles dois serezinhos que eu fazia ninar com as mesmas músicas que a minha mãe me fazia dormir, há quarenta anos? Quando é que minhas bonecas deixaram de depender dos meus braços para ir e vir? Quando é que deixaram de usar fraldas e passaram a ir sozinhas ao banheiro e a pedir o “papel-higiene”?

Meu desespero manso é por me dar conta de que eu estou perdendo os detalhes de suas vidas. Sei que é exagero, que ninguém pode ficar 24 horas por dia do lado de alguém. Nem saudável isso é. Filhos precisam de espaço para andar e ampliar seus limites, para escorregar, cair e levantar. A vida é assim. Mas amor de pai foge à racionalidade e me deu desespero por não acompanhar cada palavra proferida, por não ler cada olhar, por não filmar cada movimento, por não estar presente em cada descoberta do mundo.

Ser pai ou mãe é desesperador, se você pensar um pouco. Quando temos filhos, ficamos vulneráveis para sempre. Não podemos, como gostaríamos, resolver todas as dores, tristezas, dúvidas e angústias de nossos filhos. No mais das vezes, não podemos consertar suas notas fora de tom no concerto de suas vidas. Como pais, fazemos o melhor que podemos, mas o melhor não é o suficiente na cabeça de um pai ou uma mãe que ama. Sempre estamos aquém. Sempre há a sensação de estar deixando algo incompleto. Porque é isso mesmo: há uma incompletude no papel de pai ou mãe. Continuo achando que o único defeito de Deus é não deixar que possamos transferir os sofrimentos de filhos para nós, pais.

Mas é no espaço aonde não chegam os pais que os filhos surgem. E surgem nas suas especificidades, moldando suas personalidades, abrindo as porteiras do seu mundo por conta própria. Sei que meu desespero é injustificável porque é mais instintivo do que pedagógico. Elas estão crescendo, estão na escola. Daqui a pouco conhecem o amor com suas cores, sabores e dores. Daqui a pouco escolhem uma profissão. Daqui a pouco casam e nos dão netos, os filhos com açúcar, como diz minha mãe. E vou – de novo – confiar em minha mãe, apesar de desconfiar de que não há nada mais doce do que filhos. Quando ela disse que não havia amor maior do que de pai para filho, eu desconfiei. Até ter filhos. Tenho dito aqui e acolá que é o amor que sentimos por filhos é um amor tão grande e tão diferente que deveria ter um substantivo específico para se referir a ele. Amor com adjetivos não serve para filhos.

E um dia eu vou embora. E a mãe vai embora. E elas vão ficar. Meu Deus! Desespero de novo! Quem vai lhes dar colo quando precisarem? A quem elas virão perguntar tudo, como fazem hoje, considerando esse pai babão o mais sábio dos oráculos? Não! Não quero ir. Mas sei que vou. É o ciclo. Contudo, vou, de onde estiver, como uma estrela, ficar brilhando a iluminar os caminhos de cada uma das minhas meninas aqui embaixo. Zelando pelos seus caminhos. Soprando nos seus ouvidos em suas dúvidas. Falando-lhes por sonhos. Beijando-lhes as faces a cada adormecer.

Escrevo chorando. Lágrimas caem comportadas e salgadas em direção aos meus lábios. Lábios que ainda vão beijar muito os pescoços de minhas filhas. Lábios que vão lhes contar alguns truques para não sofrer tanto nesse mundo feito para adultos e não para crianças. Lábios que não cansam de perguntar “sabia que eu te amo?”

Hoje vou passar o dia inteiro colado nas minhas filhas. Registrar cada sorriso, responder a cada pergunta olhando em seus olhos. Sentar no chão para desenhar com o lápis de cor suas ideias, suas flores, seus coelhos, suas histórias. Hoje vou dar comidinha na boca de cada uma delas, aeroportos lindos para colheres-aviãozinhos. Hoje vou desligar o DVD e contar histórias, cantar-lhes “Alecrim dourado” até que caiam no sono. Não há cena que pinte a serenidade como a de filhos dormindo.

Preciso cuidar desse meu desespero. Preciso cheirar mais minhas filhas. Enquanto eu posso. Sempre que puder. Preciso cuidar do meu desespero porque preciso de calma para não errar: para a Ana Clara, sete de leite para uma de Sustagen Baunilha em 210 ml de água. Para a Marina, cinco de leite para uma de Sustagen Chocolate em 150 ml. E desde ontem a Marina só quer a mamadeira da Moranguinho e a Clara a dos bichinhos do fundo do mar. Estão crescendo, minhas meninas. Elas serão sempre “as meninas”. Porque não importa a idade, estamos sempre descobrindo o mundo.  Não é, mãe? Não é, pai?

Oração de pai pra Pai

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Pai e paiPai nosso que estás nos céus, quem Vos fala é um pai de filhas que estão na terra.

Que santificado seja o vosso nome e santo também sejam o meu nome e a imagem que minhas filhas construam de mim, por minhas ações, atos e também omissões. Sim, às vezes é preciso se omitir de certas práticas nefastas que se nos apresentam no enredo da vida.

Pai, que venha a mim o Vosso reino e que no meu pequeno reino, aqui nessa terra, eu consiga à imagem e semelhança do Vosso, construir castelos de respeito, com fossos para nos separar do mal, do vil, do indigno, do sórdido. E que esse meu pequeno reino seja um reino onde habitem crianças de alegria e júbilo, de paz no coração e de mente sadia. Que nos prados e campinas dessas terras minhas crianças genuinamente fiquem felizes com a felicidade alheia. Crianças que colham flores, que riam com pássaros, que brinquem com as formas das nuvens e, sobretudo, que façam o bem.

Que seja, Pai, feita a Vossa vontade, assim na terra como no céu. Que essa vontade Vossa possa guiar-me na terra quando meu livre arbítrio fraquejar, quando minha pequenez humana engasgar nos desafios da vida. Minhas filhas precisam de mim. Os filhos precisam do Pai, bem sabeis. Quando eu chegar ao céu, quero olhar para baixo e para trás na certeza de que nossas vontades coincidiram ao máximo. Vivo dia a dia a esperança que minhas meninas vivam isso. Quero a certeza para segurar as mãos de minhas filhas ao atravessar a rua da vida com que Vós segurais a mão desse Vosso filho. Nesse aperto de mão, se apertam também os laços de amor, de cuidado, de preocupação, de afeto.

O pão nosso de cada dia dai hoje. E dai permitindo que eu vá atrás, que eu o busque. Permita, Pai, que o faça no limpo, respeitando outros pais que igualmente buscam o seu pão de cada dia. Para isso, peço mais: além do pão, dê-me saúde, serenidade, paciência e altruísmo genuíno, sem os quais a jornada diária pelo trigo que alimenta é muito mais árdua.

Perdoai minhas ofensas, assim como eu perdoo a quem me tem ofendido. E seja complacente nesse pedido. Pois se para Vós que sois Pai maiúsculo é fácil perdoar, para mim que sou pai minúsculo é laborioso por vezes desendurecer o coração com os outros, quando esses outros são pequenos, mesquinhos, invejosos, cruéis. Perdoai-me quando não conseguir perdoar. Sei que o perdão prolonga a vida ao expelir a mágoa para fora da alma. Então, Pai, que o perdão seja o desjejum diário de minhas filhas.

Não me deixeis cair em tentação. A tentação do desânimo, a tentação da desistência, a tentação da impaciência, a tentação da desatenção, a tentação da naturalização dos afetos. Minhas filhas compõem-se de cada gesto meu digerido por suas existências. A atenção que não lhes dou é preenchida com outra coisa. O cansaço que me impede de com elas brincar lhes rouba a brita do alicerce da alegria em família. A impaciência no trato com duas pequenas coisinhas, frágeis e dependentes, experimentando e descobrindo um mundo tão complexo, sinaliza uma falta que não posso deixar acontecer. Eu sou responsável por parte do sentido que o mundo terá para elas. Poupe-me das tentações, Pai, para que esses sentidos sejam os melhores no que depender de mim.

E livrai-me do mal. Livrai-me do mal da dor da impotência diante das doenças. Livrai-me do mal da dor do desrespeito mútuo. Livrai-me do mal da dor de falhar como pai. Afasta de mim tudo aquilo que tire das minhas filhas seus lindos e iluminados sorriso de suas bocas. Tudo aquilo que lhes façam se sentir menos gente nesse mundo em que o humanismo é visto como besteira bolorenta. Que o mal se afaste e o bem prevaleça. É o que eu, pobre pai aprendiz, Vos pede, com fé e de todo o coração. Com a certeza de um filho que terá seu pedido atendido. Assim seja. Amém.

Marina, a caçula…

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Minha filhota caçula dançando a abertura de Caminho das Índias… Habe Baba!!!

Um texto antigo para recordar

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[Escrevi este texto quando Clara fez 1 ano, em 2007. Hoje é o seu aniversário de 3 anos. E tudo ainda vale. E tem mais ainda. Te amo, filha].

Clara como a luz do sol

Minha princesinha...A Ana Clara completou um ano de vida ontem, no dia dos namorados. É a minha primeira filha, que logo terá a companhia de Marina, pintando por aí até o final do mês. Fiquei pensando como as coisas mudam com a chegada de um filho.

Com minha filha aprendi a versão mais apurada de amor. Um amor gratuito, sincero, que nada pede em troca. Aprendi a amar mais meus pais porque compreendi, enfim, a natureza de seu amor. Com seus vôos, jogando-se da cama de braços abertos na certeza de que os meus vão ampará-la e conduzi-la a um pouso seguro, aprendi o que é confiar cegamente. Com Clara aprendi que um dia estressante pode se desmanchar numa gargalhada frouxa com a cabecinha virada para trás.

Tão pequena e já tão sujeita de si. Para Clara, qualquer brinquedo, por mais colorido que seja, perde seu atrativo se lhe coloco nas mãos um livro. Isso enche de orgulho um pai que ama ler e acredita que os livros são vitaminas da alma. Para Clara, quando o desejo bate, não há mãos que a contenham, indo até o fim na busca daquilo que a motiva. Ela sabe o que quer e não espera. Seu raciocínio funciona à velocidade da luz e encontra relações entre fatos que surpreendem pela precocidade, ainda que me digam que todo pai diz isso. Essa determinação é temperada com a meiguice de quem deita a cabecinha na minha barriga e cruza as perninhas para ver Cocoricó ou, de conchinha, enrola o cabelo do pai, como o pai fazia com o da sua vó, numa mania herdada que só avaliza a existência de Deus.

Minha filha mudou o rumo de minha vida. Fez de mim alguém mais paciente, mais responsável, mais feliz. Despromoveu-me na minha hierarquia de preocupação, passando ela a ocupar o primeiro lugar para sempre. Por sua importância, faz-me desejar existir um pára-raios de amor para sugar para mim sua dor de barriga, sua gripe, sua lágrima, transferindo tudo que a atinge para esse pai que, aflito, se sente impotente por não ter evitado que a dorzinha chegasse. Minha filha é minha vulnerabilidade eterna.

Em apenas um ano, roubou-me irrevogavelmente a mulher que amo. E eu não a culpo por isso. Ela merece o amor de qualidade que essa mulher sabe dar. Com dez meses, deu seus primeiros passos, cambaleantes e com tombos. Mas ousou levantar e tentar de novo. Um toco de gente buscando vida, destemida. Anseio por ver seus passos mais firmes, suas escolhas, compartilhar seus sucessos, chorar juntos causas perdidas, ativando novamente meu pára-raios ao pô-la em meu colo para o cafuné do consolo. Mesmo que minhas mãos já tremam e meus cabelos estejam patinados pelo tempo, meu coração ainda baterá por ela com a mesma alegria do dia em que a vi pela primeira vez, pequena, com seus lábios vermelhos, a olhar um mundo novo que se lhe descortinava.

Minha filha fez um ano. Eu afirmo, leitor, com a absoluta certeza: esse texto será lido diferentemente por quem tem e por quem ainda não tem filho. Porque filho não se explica, se vive. Há de se ter um para saber-se pai ou mãe. Minha filha fez a preocupação com um futuro melhor ser algo concreto, para além da retórica politicamente correta. E a você, filha, eu só peço que seja uma pessoa generosa. Que sua missão aqui seja tornar mais felizes as vidas daqueles que pela tua passarem. Parabéns, minha molequinha. A mana está vindo aí para incrementar a história de nossa família. Toda família precisa de um filho ou uma filha para ser plena. Isso para mim hoje é uma verdade cada vez mais Clara. Como a luz do sol.

Carta para a mamãe

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Ela escreveu lá de dentro...

Barriga da Mamãe, 09 de junho.  Oi, Mãe. Meu nome é Ana Clara. A gente não se conhece pessoalmente, mas já se ama muito. Resolvi escrever para dizer algumas coisas para você.

Mãe, eu nunca tive uma mãe. É a primeira vez. Nisso a gente é igual porque você nunca teve uma filha. Somos nossas primeiras experiências. Sabe, mãe, passei nove meses aqui na sua barriga, encolhidinha. Aqui tem tanto amor que tenho até medo de sair. Ouvi dizer que aí o negócio está feio. Em Brasília, quebraram tudo. A verticalização está um rolo. Eu não tenho a menor idéia do que é isso, mas com certeza não é melhor do que aqui. O que me acalma é que sei que é você que vai tomar conta de mim.

Mãe, é verdade que você já arrumou meu quarto? Mandou fazer quadrinhos, pintou a parede de lilás, trocou a lâmpada para aquela que regula, comprou meu bercinho, fez lençóis de libélula? Como você sabe que eu amo libélulas? É porque elas são pequeninas e frágeis como eu? De vez em quando eu ouço papai reclamar de uma tal de trena. Ele diz que toda vez que você pega na trena ele tem que assinar um cheque. O que é uma trena? E um cheque? Ah, deixa pra lá… Você me explica quando eu nascer. Papai eu sei o que é. É ele que fica segurando sua barriga e se assusta quando eu me mexo. Ele não sabe, mas eu faço de propósito só para ver o nervoso dele. Imagina se eu tivesse na barriga dele?

Mãezinha, uma senhora bonita, com manto azul, foi me buscar na sala dos anjos. Ela disse pra eu me preparar que eu ia ser um bebê de uma mãe muito especial, que ia me amar muito, junto com meu pai. Disse que eu fui muito desejada. Ela me disse que mesmo depois que eu fosse para aí, que ela iria ficar do meu lado. É uma outra mãe, essa dona Maria.

Mãe Bia, eu vou nascer no mês da Copa do Mundo. Eu não sei o que é isso, só sei que todos os bebês que vão nascer em junho só falam disso. Mas todos disseram também que não é para se preocupar porque você nem vai ligar pra Copa, só pra mim. Que eu sou mais importante de que o Ronaldinho. E o papai disse que vai tirar férias só para ficar comigo. Isso é legal. O papai trabalha muito. Vou fazer muito cocô só para ver a cara dele, que vai ter que limpar. Esse papai vai sofrer na minha mão.

Mãezinha, quero dizer que sou feliz por ser sua filha. Não podia haver mãe melhor. Mas eu ainda vou dançar para você, fazer camisa de mãozinha com tinta, recitar poema, me vestir de bicho. Vou ser sua confidente, vou pedir para você pedir as coisas pro papai. Você ainda vai chorar quando me deixar na escola pela primeira vez, quando eu fizer o teste do pezinho, quando eu fugir para namorar, quando eu chorar no seu colo por causa de namorado, quando eu me casar e quando eu for mãe e der um neto para você. Eu só peço uma coisa mãe: que meu filhinho tenha uma mãe igual a minha.

Deus te abençoe, mãezinha. Na segunda-feira estou aí, sentindo o aconchego dos teus braços e vivendo do lado de fora o amor que já sinto do lado de dentro. Eu amo você. Da tua, para sempre, Ana Clara.

PS: Manda um beijo para o papai também senão ele fica com ciúme. Ele deu o espaço dele para mim hoje no jornal. Ah, o Guilherme da Tia Camila, que chegou anteontem, me disse no e-mail que é aí legal.

Jornal Em Tempo, 09 de junho de 2006.

Carnaval de pai

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Carnaval na UnimedUma fantasiada de joaninha. A outra de sapinho. A mãe cuidou de tudo para que o carnaval das meninas fosse show de bola. Comprou confete, serpentina e maquiagem. Preparou-lhes o espírito para o carnaval, de que tanto gosta e que tantas memórias lhe traz da época das baladas.

Tudo pronto para o baile infantil. Só faltou um detalhe: qual baile infantil? Perguntei à minha mulher aonde iríamos e ela disse que não tinha a menor ideia . Quatro foliões em busca de um baile, como os “Seis personagens em busca de um autor”, de Pirandello. O papai tinha de dar um jeito. Seria inadmissível um sapo e uma joaninha passarem o carnaval vendo Discovery Kids. Fomos para a casa da vovó, montamos o nosso QG e começamos a odisseia.

Primeiro liguei para o Tropical Hotel, pois sempre há baile infantil lá. Por R$35 reais a cabeça, comecei a gostar da hipótese da Discovery. Na verdade, de início, queria estabelecer no imaginário de minhas filhas que carnaval é época de descanso, para ficar em casa. Se começasse a trabalhar isso cedo talvez me livrasse da dor de cotovelo que os pais ficam quando suas filhas se entregam às folias momescas.  Mas meu estilo prafentex – que se nota pelo uso de prafrentex – e a autoridade da Bia sobre minhas decisões me convenceram que elas não podem ignorar a cultura brasileira. Mas R$ 140 nem pensar.

Plano dois: levar as meninas ao SESC. Ligamos para minha cunhada e para meu irmão, que têm filhos que regulam com os nossos, e descobrimos que a festa infantil havia sido no dia anterior. Meu irmão foi e não avisou, o traíra. R$ 140 dá cinco livros. Não.

Alternativa três: uma mãezinha da escola das meninas, que é médica, havia falado sobre o carnaval da Unimed. Tudo bem que é uma festa para os cooperados e ser analista do discurso não me credencia a ter CRM. Mas eu disse, convicto: vamos à Unimed! Com o pensamento firme em Pollyana, lembrei que o papai aqui furou várias vezes o black-tie do Rio Negro, tradicional festa de Manaus. Ao dar os retoques finais, a mãe descobre que as sapatilhas ficaram em casa. Quem vai buscar?

De volta e tudo pronto, demos tchau para o vovô e para a vovó e zarpamos. No carro, a pergunta: onde é o clube da Unimed? Silêncio. Não sabíamos. Quer dizer, eu tinha uma vaga lembrança porque há muitos anos havia ido lá almoçar no restaurante da Cida, uma prima. Mas põe tempo nisso. Meus neurônios fizeram um viradão e encontramos a festa.

A ideia era que se tentassem nos barrar nós usaríamos o nome de um tio meu, médico, casado com uma tia professora da Ufam, como eu, e engajada na campanha da Márcia Perales para reitora, como eu. Ia dizer a ela: “Ou o tio Ivan coloca a gente pra dentro ou vou fazer campanha para aquele outro candidato faraônico”. Ela ia topar. Mas não precisou. Entramos na boa e ainda recebemos dois saquinhos com confetes, serpentinas e colares havaianos.

As meninas se divertiram muito. Eu passei uma hora na fila do refri, encontrei todos os 75 irmãos da Cida lá, além de uns coleguinhas de escola das meninas com suas mãezinhas. Bati muitas fotos, como de praxe. Botamos o bloco na rua. Só teria sido melhor se a Unimed tivesse distribuído uns refrigerantes. Falta de consideração com os convidados.

Papo cabeça de duas crianças de hoje

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– E aí, véio?
– Beleza, cara?
– Ah, mais ou menos. Ando meio bolado com algumas coisas.
– Quer levar um chat sobre isso?
– É a minha mãe. Sei lá, ela anda falando umas coisas estranhas, me botando um terror, sabe?
– Como assim?
– Tipo assim: há alguns dias, antes de dormir, ela veio com um papo doido aí. Mandou eu dormir logo senão uma tal de Cuca ia vir me pegar. Mas eu nem sei quem é essa Cuca, pô. O que eu fiz pra essa mina querer me pegar? Você me conhece desde que eu nasci, já me viu mexer com alguém?
– Demorô.
– Pois é. Mas o pior veio depois. O papo doido continuou. Minha mãe disse que quando a tal da Cuca viesse, eu ia estar sozinho, porque meu pai tinha ido pra roça e minha mãe passear. Mas tipo, o que meu pai foi fazer na roça? E mais: como minha mãe foi passear se eu tava vendo ela ali na minha frente?
Será que eu sou adotado, cara?
– Sabe a sua vizinha ali da casa amarela? Minha mãe diz que ela tem uma hortinha no fundo do quintal. Planta vários legumes. Será que sua mãe não quis dizer que seu pai deu um pulo por lá?
– Hmmmm. Pode ser. Mas o que será que ele foi fazer lá? Caraca! Será que meu pai tem um caso com a vizinha?
– Como assim, véio?
– Pô, ela deixou bem claro que a minha mãe tinha ido passear. Então ela não é minha mãe. Se meu pai foi na casa da vizinha, vai ver eles dois tão de rolo. Ele passou lá, pegou ela e os dois foram passear. É isso, cara. Eu sou filho da vizinha. Só pode!
– Calma, brother. Você tá nervoso e não pode tirar conclusões precipitadas.
– Sei lá. Por um lado pode até ser melhor assim, viu? Fiquei sabendo de umas coisas estranhas sobre a minha mãe.
– Tipo o quê?
– Ela me contou um dia desses pegou um pau e atirou em um gato. Assim, do nada. Pura maldade, véi! Vê se isso é coisa que se faça com o bichano!
– Caramba! Mas por que ela fez isso?
– Pra matar o gato. Pura maldade mesmo. Mas parece que o gato não morreu.
– Ainda bem. Pô, sua mãe é perturbada, cara.
– E sabe a Francisca ali da esquina?
– A Dona Chica? Sei sim.
– Parece que ela tava junto na hora e não fez nada. Só ficou lá, paradona, admirada vendo o gato berrar de dor.
– Pô, brou. Esses adultos às vezes fazem cada coisa que não dá pra entender.
– Pois é. Vai ver é até melhor ela não ser minha mãe, né? Ela me contou isso na boa, cantando, sabe? Como se estivesse feliz por ter feito essa selvageria. Um absurdo. E eu percebo também que ela não gosta muito de mim. Esses dias ela ficou tentando me assustar, fazendo um monte de careta. Eu não achei legal, né. Aí ela começou a falar que ia chamar um boi com cara preta pra me levar embora.
– Caraca, véio. Com certeza ela não é sua mãe. Nunca que uma mãe ia fazer isso com o filho.
– Mas é ruim saber que o casamento deles é essa zona, né? Que meu pai sai com a vizinha e tal. Apesar que eu acho que ele também leva uns chifres, sabe? Um dia ela me contou que lá no bosque do final da rua mora um cara, que eu imagino que deva ser muito bonitão, porque ela chama ele de ‘Anjo’. E ela disse que o tal do Anjo roubou o coração dela. Ela até falou um dia que se fosse a dona da rua, mandava colocar ladrilho em tudo, só pra ele pode passar desfilando e tal.
– Nossa, que casamento bagunçado esse. Era melhor separar logo. Era mais jogo.
– É. Só sei que tô cansado desses papos doidos dela, sabe, maluco? Às vezes ela fala algumas coisas sem sentido nenhum. Ontem mesmo veio me falar que a vizinha cria perereca em gaiola, cara. Vê se pode? Só tem louco nessa rua.
– Ixi, cara. Mas a vizinha não é sua mãe?
– Putz, é mesmo! A casa cai de qualquer jeito, brother…

Acabei d ler: "Para Francisco", de Cristiana Guerra.

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Comprei o livro por acaso na Siciliano de Jundiaí. Às vezes invoco com um livro e compro. Em dois dias, li tudo. A cada página ficava embargado pela doce e verdadeira escrita de Cristiana. Minha melhor leitura de 2008, junto com “O Código da Vida”, de Saulo Ramos.

Para o filho que não conheceu pessoalmente o pai, Cristiana escreve. Começou em um blog, o Para Franscisco. Agora, chega às prateleiras de livrarias. A história da publicitária mineira parece filme: quando estava grávida de sete meses, perdeu o namorado –o coração dele parou de repente. No meio do caminho, ficaram lembranças, expectativas e saudades. Para agüentar a dor da perda do amor da sua vida e entender a alegria pela chegada do outro amor da sua vida, começou a escrever.

O blog Para Francisco nasceu em julho de 2007, dois anos após o início do namoro de Cris e Gui, um ano depois da descoberta da gravidez, seis meses depois da morte dele e quatro meses após o nascimento do bebê. Os textos, escritos em forma de diário, logo ganharam repercussão –o blog recebe cerca de 2.000 visitas por dia.

“Eu queria falar para o Francisco, mas também queria falar comigo mesma. Queria falar sobre o pai dele, sobre mim, sobre o que eu tinha vivido e sobre o que eu sentia. Eu já tinha perdido mãe e pai e sabia que, por uma questão de sobrevivência, as lembranças frescas do Gui iriam me fugir. Achei injusto, com o Francisco e comigo, que as lembranças se perdessem com o tempo, e o blog se tornou um compromisso diário, constante”, afirmou Cristiana em entrevista à Folha de São Paulo.

As 192 páginas do livro são compostas principalmente de textos do blog. Há, também, e-mails trocados entre o casal, mais de 20 textos inéditos –esboços que não tinham virado post– e uma carta para Guilherme, “escrita de uma vez só”.

Um belo livro que recomendo de presente àqueles que querem repensar a palavra família. Virei frequentador assíduo do blog.

Clara vê o rio escuro…

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Clara, à margem do Rio Negro. Foto: Sérgio Freire

O rio corre, negro, desde sempre. O barco pára, pausa da labuta. A menina Clara pensa sobre o rio escuro: “para onde ele corre?”. O pai, fotógrafo, suspira: no rio da vida, minha menina um dia seguirá seu curso. É o caminho. Desde sempre. E sua imagem criança, carente de mim, registrou-se. Na foto, na retina, na memória, no coração. Assim deve ter pensado Deus ao olhar o Rio Negro quando o fez.

Calendário 2009

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Quem quiser um calendário 2009 com fotos de duas modelos pode mandar revelar esse aqui. Tem resolução suficiente para uma 20×25. Eu que fiz. As duas e o calendário.