Formatura

A formatura do cunhado

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Escrito em abril de 2002

Formatura é um momento muito importante na vida de qualquer estudante. Tanto quanto o primeiro beijo ou a primeira vez que dirigimos o carro do pai devidamente autorizados. Dá um friozinho na barriga. É um rito de passagem em nossa sociedade a ser seguido por seus membros, não importando se o formando há muito já trabalha na área em que se forma e que o diploma, muitas vezes, só venha trazer contribuições formais a seu conhecimento. No fundo, no fundo, o que conta mesmo é o ritual.

Acabei de chegar da formatura do meu cunhado. E formatura, pelo seu valor simbólico, é tudo igual. Como missa: só muda a igreja (umas maiores, outras menores) e o padre (uns chatos, outros não), sendo o boletim o mesmo. O que vou narrar aqui aconteceu na formatura dele, mas podia ter acontecido certamente na minha ou na sua.

Tudo começou com um telefonema da Ka, esposa desse meu cunhado, o formando. A Ka ligou ontem para comunicar que a formatura do formando era hoje. Essa decisão assim tão “antecipada” de avisar sobre o evento não me abalou. Já me acostumei com improvisos e com a bicho-do-matice do meu cunhado, que não gosta muito de badauê, como eu. A minha mulher, coitada, que morou nos Estados Unidos, ficou em pânico. É que ela possui uma listinha com tudo que ela tem para fazer e essa tal listinha tem, digamos, “uma carência” de pelo menos uma semana. Fugiu do prazo, os nervos dela tremem mais do que a economia da Argentina. Seu senso de responsabilidade inigualável é responsável por esse problema, mas não posso nem reclamar, pois ele já me salvou de várias.

Recado dado, depois do copo de água com açúcar da patroa, fomos ao shopping. Sim, porque formatura que se preze tem sempre o “agradinho” do formando. Eu tive que ir junto porque minha mulher queria comprar um conjunto de loção pós-barba ou um perfume para o irmão, que ela deve achar fedorento, suponho eu pela escolha. Eu, na condição de homem também, serviria como seu beta-tester, seria o responsável pelo test drive das fragrâncias. Acho que ela deveria ter levado a Ka, mulher do formando, pois é ela quem vai cheirar o moço, não eu. Cherei tanto perfume na loja que não era mais capaz de distinguir um Azzaro de um Seiva de Alfazema, um Styletto de um Água de Bosco, um Paco Rabanne de Veja Pinho Sol. Segundo pesquisas realizadas pelo professor Smelly Johnson, da University of Maputo, South Africa, publicada na Nature de janeiro, o nariz humano só consegue distinguir até a terceira tirinha de papel provador de perfume. Depois disso é tudo igual. Com o presente já comprado, eu zonzo de tanto álcool, mas de nariz cheiroso, chegamos em casa para tomar banho e nos aprontarmos.

Como estamos sem carro, pegaríamos carona com meu sogro para chegar ao auditório, palco da festa. A cerimônia estava marcada para começar às sete horas. Quinze para as seis, meu sogro avisa: “Estou pronto!” Tentei argumentar que formaturas sempre atrasam, mas foi em vão. Já viu genro ter razão? Conformei-me com minha condição de genro mero caroneiro. Vesti minha calça preta de microfibra zero-bala que estava guardando zelosamente para uma ocasião social, meti a camisa mais engomada do cabide (que nós, os mais velhos, costumávamos chamar de cruzeta), joguei meu perfume Polo Ralph Lauren no corpo todo (menos no nariz, claro), penteei o cabelo para o lado e zapt!, estava pronto. Partimos. Meu sogro ligou o carro e arrancou apertando a buzina especial que mandara instalar em sua pick-up: “Seguuuuuraaaaa, peãããããããããooooooo!”, berrava a geringonça.

Quando lá chegamos, descobri que meu cunhado, o formando, sabia os detalhes da formatura tanto quanto eu. Pelo menos ele ficou sabendo que formava em Processamento de Dados e que seu nome realmente constava da lista. Essa informação lhe foi repassada pela secretária do Instituto, uma senhora que, sem brincadeira, parecia ser patrimônio da faculdade. No braço direito trazia uma plaqueta de alumínio onde se podia ler “Tombamento nº 04353/65. Propriedade da União”.

O formando vestiu a beca, ajudado pela irmã e pela esposa, como manda o ritual. Já notou que todo formando parece um Batman debilóide? Um Batman com um babador de folho, tipo aquelas capas antigas de liquidificador, lembra? Aquelas que a mãe da gente colocava sobre a geladeira, do lado pingüim. Eu observei que todos os formandos homens estavam de calça preta, da cor da beca. Menos quem? Ao meu comentário, todos olharam para mim, ou melhor, para minha calça preta de microfibra nova.

Fui obrigado a ceder a calça e ficar com a dele, marrom. Acontece que nós, filhos de seu Jefferson e dona Helena, temos perninhas curtas. Nosso apelido na rua era família Mentira, não porque mentíamos mais do que todo mundo mente, mas exatamente por causa das perninhas curtas, que toda mentira tem. Eu fiquei, enfim, com uma calça pantalona, boca-de-sino, estilo “That 70´s Show”, e meu cunhado, o formando pernalonga, com uma calça preta nova, mas pega-marreca, tipo corsário. Aliás, corsário soa apropriadíssimo para um formando em Processamento de Dados, habituado a queimar CDs de programas.

Depois de enxotar uns quatro urubus de formatura (os fotógrafos que registram seu momento de glória a 25 reais a “chapa”), meu cunhado, munheca-de-samambaia, me designou como fotógrafo. Passou-me sua Olympus com um filme de 24 poses dentro, sendo que 20 já batidas durante sua viagem de lua-de-mel, feita há quatro anos. “Tem que acabar o filme!”, justificou-se, dizendo que não tinha nenhum outro adicional. Eu teria de ser um fotógrafo sintético: 4 horas em 4 fotos! Em um passe de mágica passei de convidado a serviçal. Coisas de cunhado. Ainda tive de ouvir uma senhora perguntando “para quanto” estava cada foto, moço…

Uma hora e meia depois que chegamos, a cerimônia começou. Eu ria feliz da vitória silenciosa sobre meu sogro e sua espera desnecessária. Fez-se silêncio e cantou-se o Hino Nacional, com o devido murmurinho naquela segunda parte que ninguém sabe cantar direito, seguido da velha controvérsia sobre se devemos aplaudir ou não ao final. Nisso eu notei que o auditório estava entupido de gente. Parecia missa do Padre Marcelo Rossi. Fiz o infeliz comentário de que fizemos muito bem em chegar cedo. Meu sogro riu feliz de volta, em silêncio e com sarcasmo.

Para cada dois adultos presentes, uma criança. Em cada criança, um estorvilho. Menino e formatura definitivamente não combinam. É como sanduíche de feijão. Não dá. Acho que Herodes teve aquela brilhante idéia em alguma formatura da qual ele era paraninfo. Sentado ao meu lado, um menino de uns 11 anos com uma carinha de peixe.  Sabe aquela carinha gorda, dentinho de baixo saliente, olhão esbugalhado? E de suspensório. Um pacu de suspensório. Pois o Cara-de-peixe não sossegava. Ia e vinha sem parar. Um faniquito. Minha mulher, nervosa com o peixe, chegou até a esticar a perna umas duas vezes, como uma tarrafa, para pegar o Cara-de-peixe, que não quietava mesmo. Numa dessa idas e vindas, achei por bem perguntar o nome do menino, afinal… Seu nome era Thiago. Thiago, o Cara-de-Peixe.

Entram os formandos: uma bat-reunião de uns 150, entre batmen e batgirls. Todos de babadouro com folhos e babando de felicidade, felicidade essa que só conhece quem já se formou. Iam entrando à medida que a Dona Patrimônio os chamava, um a um. TCHAC! Lá se foi a foto 21, na entrada. E, confesso humildemente, não deve ter ficado muito legal porque, na ponta da foto, peguei o cabelo laranja de uma moça que estava na frente do formando. Tudo bem, para esses casos é que existe a filosofia Omo: “não há aprendizado sem manchas”…

Já que eu era um fotógrafo, ainda que ad hoc, senti-me no direito de ter algumas regalias, como circular um pouco e sair de perto do Cara-de-peixe, irritante com seu vai e vem infindável. Fui lá para frente, de onde podia ver o público, atrás de alguma cara conhecida, que não fosse de peixe. Vi o seu Hidelfonso, tio de uma ex-namorada minha, conhecido na família dela por Chuck. É a cara do boneco do “Brinquedo Assassino”. Vi também a Dona Rita, amiga da minha ex-mulher, uma senhora da Renovação Carismática que tem locução interior, ou seja, fala com Maria, mãe de Jesus (bem, falava, pelo menos, não sei se ainda se falam). Reconheci entre os formandos o Mário, um ex-estagiário de informática do Departamento em que trabalho na Universidade. Gente boa. Está gordo, mas gente boa. E o Cara-de-peixe zanzando.

Outro que vi o Cospe-seco, um cara que jogava bola conosco no antigo colégio salesiano Domingos Sávio. Grosso para caceta, bem dizer um convocável de Felipão, o Cospe-seco era um perna de pau e cuspia seco mesmo, daí o apelido. O Cospe, todo cheio, professor da instituição, estava a rigor compondo a mesa, essa por sua vez vazia de outras autoridades chamadas para compô-la. Acho isso de uma indelicadeza e de um desrespeito paquidérmico para com os formandos. Mas tudo bem: a empáfia do Cospe-seco, sozinha, preenchia as cadeiras vazias. Por fim, vi o Ailton, um dos caras que mais invejei em toda minha vida. O Ailton, na terceira série, pegava com as mãos duas sauvonas da cabeça roxa e botava as duas para brigar. Morria de inveja. Tive vontade de perguntar se ele ainda fazia rinha de saúva, mas ele estava com a esposa e a filhinha e, talvez, pegasse mal.

Depois de um discurso breve do orador, como deveriam ser todos os discursos, e de um juramento no qual queimei a foto 22, começou o chama-chama. Um aluno universitário tem duas grandes e inigualáveis alegrias: ouvir seu nome na lista dos aprovados do vestibular e ouvi-lo de novo na dos formandos, na hora de receber o canudo. O curso do formando era o último em ordem alfabética. Imagine a espera.

Outra coisa curiosa: os gritos de “AÊÊ!”, “Muito bem!” e os assovios de parabenização da platéia são indicativos de quão difícil foi sair da faculdade. Os mais “atrasildos” são os mais festejados. Já notou? Meu cunhado, o formando, já sabendo disso, só convidou quatro pessoas. Mas foi devidamente aclamado por todos na sua vez, com direito a gritinhos orgulhosos e bregas de “meu irmão!” e “meu marido. Eu só resmunguei para mim mesmo: “meu cunhado…”. E o Cara-de-peixe circulando.

Tinha também um senhor bonachão, seu Jacinto (ouvi alguém chamá-lo pelo nome), muito simpático, com uma máquina na mão, conversando sem parar com a esposa. Ela usava um perfume tipo “cheguei, meu povo!” e uma blusa verde escura com uma saia verde-limão, presente da Amazônia Celular, eu acho. Ele perguntava insistentemente onde estava a Jacineide, pois queria porque queria bater uma foto. Ficaram os vinte minutos em que eu agüentei permanecer ao lado deles tentando achar, em vão, a Jacineide, perdida no meio da bat-conferência.

“Como gastar as duas últimas fotos? Já sei!”, pensei, “Uma na hora que o presidente da mesa botar o bolo na cabeça do cunhado-formando e outra na hora em que for assinar o livro!” Se bem que a mesa ficava meio longe e em uma espécie de altar – o professor Junior ia gostar dessa comparação -, só alcançável através das escadas laterais. Lá em cima só os fotógrafos profissionais e os cinegrafistas, os já citados urubus.

De repente, quem sobe para tirar foto de uma formanda, por trás da cabeça do presidente da mesa? O Cara-de-peixe! Sempre circulando. Foi tirar foto da sua irmã, a Peixa. Será que o Cara-de-peixe era peixe de alguém da mesa? “Ora, se o Cara-de-peixe pode, eu também posso”, ponderei. A Patrimônio chamou meu cunhado, o formando, para comparecer ao altar, digo, à mesa. Subi a escadinha e, na subida, esbarro de propósito no Cara-de-peixe, que vinha descendo. TCHAC! Foto 23: O bolo na cabeça. TCHAC! Foto 24: a assinatura do livro de ata. Missão cumprida.

Na descida, encontro na base da escada com o Mário, o ex-estagiário, tirando as fotos coletivas enquanto a solenidade comia solta lá em cima. Ele ficou feliz em me ver e me apresentou para sua turma. “Pessoal, esse aqui é o professor Sérgio Freire, da UFAM. Foi meu chefe. Gente boa. Tá meio gordo, né, professor? Mas é gente boa”. Dei dois tapinhas na costa dele. Um de despedida e um, mais forte, de agressão disfarçada pela falta de consideração. E o Cara-de-peixe, já recomposto do esbarrarão, continuava flanando.

Nisso, no fundo do auditório, chegam uma formanda e sua mãe, correndo, esbaforidas e atrasadas. Se a menina chegou atrasada desse jeito para a formatura, imagina para as aulas. O cabelo impecável, mil cachos, mil madeixas, bonito mesmo. Aparência: nota dez. O rastro de perfume que ela deixou ao passar por mim, no entanto, de tão forte parecia cola-de-sapateiro. Pontualidade e perfume: zero. Ainda passou na minha avaliação, com a média cinco.

Na saída, fui meio que empurrado por um senhor rechonchudo, pedindo licença meio que empurrando. Era seu Jacinto. Tinha achado a Jacineide e queria bater uma foto dela no trono dos formandos e eu, um estorvo – falar nisso, o Cara-de-peixe ainda perambulava -, estava no quadrículo de sua Nikon. Saí da frente, até porque a Jacineide também exagerou no perfume cítrico que usava. O cheiro do perfume dela sozinho era tão cítrico, tinha tanta vitamina C, que curaria o escorbuto de toda a tripulação de marinheiros do Titanic instantaneamente.

Fui-me dirigindo à saída, ainda pisando na barra da calça pantalona, boca-de-sino, quando cruzei com Dona Patrimônio, toda orgulhosa e cheirando a pura naftalina. Devia estar usando a roupa especial das formaturas. A mesma de sempre, desde 1963. Não sei, mas acho que os perfumes do Boticário desregularam minhas narinas. Até meu Pólo, indefectível, estava enjoativo. Ou isso ou todo mundo exagera mesmo nos perfumes em formaturas. Vou fazer uma pesquisa a respeito.

Fomos todos saindo quando ouvimos um barulhão. Alguém tropeçara e caíra em cima do tripé que sustentava a filmadora do fundo do auditório, levando tudo ao chão. Era o Cara-de-peixe, estatelado. Pega! Bem-feito! Não sossega…

Saindo dali, fomos para um rodízio comemorar. A fome já colava as paredes da frente e de trás de meu estômago, em um movimento gastro-canibal. Enfim, meu cunhado, já formado, poderia saborear os louros de anos de estudos, estando oficialmente habilitado para o exercício da profissão, “visando o engrandecimento da Pátria”, conforme juramento.

Fomos deixá-los, ele e sua patroa, em casa (no carro do meu sogro, ainda rindo internamente de mim, que eu sei). Tomei um creme de cupuaçu e pedi para ver o diploma, a fim de parabenizá-lo oficialmente. Lá estava escrito “Celso Jorge da Silva Medeiros”. Esse não é o meu cunhado, agora o formado. Depois de tudo isso, o figura ainda havia recebido o diploma errado. Mas parabéns a ele, assim mesmo, e que continue tendo o sucesso profissional que já tem.

Mas ele que não me convide a ir com ele na universidade trocar o diploma. De repente o chato do Cara-de-peixe aparece…

Discurso de formatura 2010

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Pelo protocolo, cabe ao diretor de Unidade fazer um discurso. Etimologicamente discurso vem da palavra latina cursum (curso, carreira, corrida), junto ao prefixo dis, que indica, divisão de um todo em partes. Discurso significa dividir um todo e discorrer sobre uma determinada parte desse todo. Por isso os discursos são diferentes: porque recortam e escolhem assuntos diversos para abordarem.

Faço essa introdução para apresentar o recorte deste meu discurso. Escolhi, dentre vários assuntos que poderiam lhes ser importantes nesse momento simbólico de dobra na vida de vocês, dois recortes: um mais racional, ligado à objetividade da academia e da formação que lhe acompanha. Outro, fundamentalmente emocional, relativo à humanidade que ultrapassa cada profissional que hoje se forma e atinge de maneira muito direta o ser humano que lhe dá concretude.

A mensagem racional é bem direta. Vivemos em uma era de redes sociais, em uma sociedade que se organiza em torno da informação. O problema de hoje, diferente do de algumas décadas, não é o acesso à informação, mas a competência para não se afogar nesse volume de informação que se nos apresenta todos os dias das mais variadas formas. O diferencial do profissional ativo hoje é saber separar a informação relevante das irrelevantes e dela fazer uso significativo para a sociedade. Isso se chama de competência. E são cinco as competências de um profissional, independe de sua área de atuação.

A primeira delas é a competência teórica. Não se avança profissionalmente se não conhecemos os conceitos e a agenda de nossa área. Conhecer a área, buscar a atualização constante, o upgrade de conhecimento é uma competência fundamental para o bom profissional. E essa busca, queridos formandos, não termina hoje. Começa hoje.

Não basta saber sobre algo se não usarmos esse conhecimento para alterarmos a realidade. Daí a necessidade da competência aplicada. A competência aplicada é o uso social do conhecimento teórico que se possui. Conhecimento que não tem fim social é conhecimento morto, de nada serve.

Saber e saber usar o saber também de nada adiantam se o sujeito não compreender que o mundo é feito de regras. Cada lugar por onde passamos e onde vivemos tem sua ordem de discurso e de funcionamento. A família, as relações sociais, as relações afetivas. Tudo tem regras, limites e, claro, possibilidades de transgressões. Aprender a usar o conhecimento que se tem dentro das regras do jogo é o que faz a diferença entre os profissionais de hoje. Competente é aquele profissional que entende que até para alterar as regras tem de fazê-lo dentro das regras vigentes. A isso, chamo de competência institucional.

Como todas as instituições e relações têm suas regras, assim também acontece com a língua. Este discurso se atém a regras de linguagem diferentes daquelas que usamos na mesa de um bar, ou numa conversa que travamos com nossos amigos na cantina do ICHL. A competência linguística, a quarta que lhes apresento, é fundamental para o profissional que se quer diferente. Isso significa fazer-se poliglota na própria língua.

E a última competência, meus caros formandos, é uma competência sem a qual as outras quatro se desfazem, se embrutecem. Trata-se da competência de saber, de saber aplicar, de saber aplicar dentro das regras, de saber aplicar dentro das regras com a linguagem apropriada sem esquecer, esse é seu cerne, de que tudo isso se faz entre pessoas. É preciso ter competência afetiva. Gostar das pessoas, respeitá-las nas suas diferenças, nas suas especificidades. É preciso lembrar, antes de qualquer coisa, que é o humanismo – que tem sido perdido por uma série de demandas, entre elas a econômica e o individualismo – é o que alicerça o tecido social. Sem a sensibilidade social, meus amigos, joguem este diploma que vocês receberam na primeira lata do lixo que encontrarem. É preciso gostar de gente. Porque nós somos gente. E com isso faço a ponte para finalizar com o segundo recorte, mais emocional.

Vocês hoje fecham um ciclo. Um ciclo de formação, mas, antes disso, um ciclo de convivência, de amizades, de sorrisos, de angústias. Um ciclo em que vocês riram, choraram, amaram, odiaram, vacilaram, falharam, escolheram, venceram. E que não ocorreu com vocês sozinhos, mas em compartilhamento com seus colegas e professores que aqui se encontram ou não, por mil motivos que as bifurcações da vida nos trazem.

É hora, meus amigos, de recordar. Recordar, desculpem o cacoete de linguista, é etimologicamente passar de novo pelo coração. Só recorda, só lembra, quem está cheio de memórias, quem viveu, quem transborda de saudade. Porque, não nos enganemos, a linguagem pode ser muitas coisas. Há mil faces ocultas sob a face neutra, como dizia Drummond. E a palavra saudade, normalmente associada com perda e tristeza, pode ser igualmente associada com ganho e alegria. Saudade é a presença de uma ausência presente. De algo que se foi e, engraçado, nunca se deixou ir por completo. A saudade é a máquina do tempo que nos permite ir até onde já estivemos para viver o que ainda nos habita a alma.  Por isso sentimos saudades do nosso pai, da nossa mãe, dos nossos amigos, enfim, dos nossos que não estão aqui, mas que, como entrega o pronome, são “nossos”, nos pertencem para sempre.

Foi a saudade de Camões, vivida n’OS Lusíadas, que revigorou o espírito coletivo de sua gente fazendo Portugal se reerguer. Foi a saudade do Brasil que fez com que José Bonifácio renunciasse as vantagens que lhe foram oferecidas pela Europa e viesse a ser o grande organizador do estado  brasileiro. Foi a saudade do Brasil que inspirou Gonçalves Dias a escrever no exílio os brasileiríssimos versos em “Minha terra tem Palmeiras. Sem a saudade do tempo de sua meninice, vivida em torno da casa-grande, teria sido impossível a José Lins do Rego escrever sua tão viva obra. E viva porque feita de saudade.

Por isso, invoco para que todos vocês sintam saudade. Ela, de hoje por diante, agirá como um cordão umbilical que os manterá vivos e presentes, lhes alimentando a alma, embora estejam agora fisicamente ausentes deste espaço e distante dessas almas amigas que lhes acompanharam por tanto tempo.

Diz a sabedoria popular que conselho não se dá. Mas eu vou dar mesmo assim, assumindo os riscos de ser ignorado, dada a ansiedade pelo fim da cerimônia: se cerquem de criatividade e inovação. Que as dúvidas no exercício da profissão sejam banidas pela presença de um passado específico, cheio de lições de saudade, lições das quais vocês mesmos foram atores principais.

Com o exercício das competências e muita saudade, sejam felizes. “Cada ser em si possui o dom de ser capaz de ser feliz”. Tornem o mundo melhor.  Tenho certeza que vocês, como eu, se lembrarão dos anos de faculdade como os melhores anos de suas vidas. Que Deus lhes abençoe, sucesso e saudades. Obrigado.