fossa

Um dia de domingo

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Para os Ms.

Eu preciso te falar/Te encontrar de qualquer jeito/Pra sentar e conversar/Depois andar de encontro ao vento/Eu preciso respirar o mesmo ar que te rodeia/E na pele quero ter o mesmo sol que te bronzeia/Eu preciso te tocar/E outra vez te ver sorrindo/ Te encontrar num sonho lindo/Já não dá mais pra viver um sentimento sem sentido/Eu preciso descobrir a emoção de estar contigo/Ver o sol amanhecer/E ver a vida acontecer/Como um dia de domingo/Faz de conta que ainda é cedo/Tudo vai ficar por conta da emoção/Faz de conta que ainda é cedo/E deixar falar a voz do coração.

E quando a presença da ausência bate forte e transborda dentro de nós? A saudade é um visitante folgado que chega sem avisar numa foto, num cheiro, numa música. Num dia de domingo. Ah, essa vontade de ter o teu ouvido para ouvir minhas falas no timbre que só tu, entre bilhões de pessoas, compreende, do jeito que eu quero que se compreenda… Aí eu te busco. Insano, tento te encontrar de qualquer jeito. Eu te procuro na sala, no quarto, embaixo da cadeira, sob do lençol da cabana. Eu te procuro nos teus objetos que guardo e que guardam teus toques, teu cheiro, teu jeito. Eu te procuro nas pequeníssimas coisas que me lembram o quanto és imenso pra mim. E eu te acho em tudo, mas não te tenho aqui. A tua onipresença se esvazia frente à falta do teu sorriso que não está aqui para eu ver. Eu te quero aqui, com teus olhos a me ler e a me acariciar a alma. Eu te quero aqui, acalentado e acalentando quem te acalenta até o sono tranquilo…

Ah, como eu queria sentar e conversar. No chão da sala, no tapete do quarto, na companhia, ainda que corrida, do alimento. Como eu queria pisar na tua bagunça e me ver nos teus desenhos… Sair por aí de mãos dadas, de encontro ao assanhado vento assanhando com carinho nossos cabelos e soprando para longe nossas inquietações. Em nós juntos, tão apertados, não cabem inquietações. Só placidez. Só mansidão. Tu és minha mansidão… Na tua falta, sou só tormenta, vento desarrumado, ressaca de mar…

Meu ar não é mais o mesmo porque tu não o respiras comigo. Eu preciso respirar o mesmo ar que te rodeia, me molhar na chuva da mesma nuvem que pranteia suas dores sobre o mundo, me bronzear no mesmo sol que te bronzeia, suar junto contigo, ficar acabado, arrasado, morto de vivo pela tua companhia. Mergulhar de mãos dadas nas águas dos sonhos como mergulhamos no rio da vida. De mãos dadas. A mãozinha esticada para eu segurar, que é de?

Tua ausência me faz perceber que tentar preencher vazios com vazios não resolve. Eu invento coisas, escolhos os caminhos mais difíceis só para não ter tempo de sentir a tua falta ao meu lado. Que bobo eu! A tua falta não está ao meu lado. Está dentro de mim. Tu estás em mim. Tu és eu. Eu sou tu. Desde que tu vieste, eu passei a ser tu e não mais eu. Por isso não adianta eu viajar trilhas novas, construir castelos. Eu vou me perder de ti, os castelos cairão como cartas que empilho para o tempo passar. Inútil empreitada… Sem ti, o tempo se redimensiona. Cada segundo é dias. O tempo entre cada piscada é anos. Sem ti, não há tempo. Não há espaço. Só há vácuo.

Amar na ausência é um sentimento sem sentido. Eu não quero pensar em cada segundo que perdi por tu estares longe. O que tu fazes? Por que sorris? O que te faz brotar as lágrimas? Como foi teu dia? Me conta o que tu aprendeste hoje? Perguntas que ficam sem respostas, diminuindo a alma, amiudando o coração, a vontade de viver. Onde o som da tua voz? Não quero perder tua vida. Acompanhá-la e descobri-la contigo, como hei de? Que medo de esquecer a emoção de estar contigo… Eu quero estar contigo. Eu preciso estar contigo. É urgente. Estou mal, sofrendo de hipotu: pouco de ti me enfraquecendo… eu, Popeye raquítico; tu, espinafre da minha alegria.

Vamos ver o sol amanhecer? Vamos correr pela praia, brincar de pular onda? Se enfiar de mãos dadas embaixo da cachoeira gelada? Eu preciso urgente ver a vida acontecer. A vida de verdade. A vida que te inclui na presença, em tudo que eu penso e faço. Ainda é cedo! Não vai ainda seguir o caminho possível que a vida te deu. Que a vida nos deu. Fica, vai ter amor. Só mais um pouquinho… só para mais um cheiro no pescoço, só mais uma cosquinha na barriga, uma história inventada para eu te ensinar a vida e aprender contigo o meu papel… Suspendamos as obrigações! Vamos deixar tudo por conta da emoção… Fica, vai ter vida… Faz de conta que ainda é cedo… Vamos ficar abraçados pra sempre. Só isso que me importa. Vamos deixar falar a voz do coração… que é tão bonita quanto a tua voz nos meus ouvidos, no meu coração… Fica, vai ter um dia de domingo… Eu bem te quis, eu bem te quis… E ainda quero muito mais. Maior do que a imensidão da paz. E bem maior que o Sol. Fica. Então me beija só mais uma vez, pelo menos. Depois volta pra lá…

Futuros amantes

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Não se afobe, não/que nada é pra já/O amor não tem pressa/ele pode esperar em silêncio/num fundo de armário/na posta-restante/Milênios, milênios/no ar/E quem sabe, então/O Rio será/alguma cidade submersa?/Os escafandristas virão/explorar sua casa/seu quarto, suas coisas/sua alma, desvãos/Sábios em vão/tentarão decifrar/o eco de antigas palavras/fragmentos de cartas, poemas/mentiras, retratos/vestígios de estranha civilização/Não se afobe, não/Que nada é pra já/Amores serão sempre amáveis/Futuros amantes, quiçá/Se amarão sem saber/Com o amor que eu um dia/Deixei pra você.

O amor é líquido. Ele se conforma com as formas possíveis. Às vezes tem a forma plena de uma mar aberto. Às vezes cabe num guardanapo de lanchonete ou num vidrinho de perfume. Às vezes se presentifica somente nas ideias. Mas o amor é. Mesmo quando ele não pode ser, ele acaba sendo.

Diz Paulo, no livro que não finda, que o amor é paciente. Sim, o amor não tem pressa, ele pode esperar milênios, milênios no ar. Quem se afoba somos nós, súditos desobedientes que não compreendemos o seu tempo. Por causa disso, quase sempre estragamos tudo. O amor verde, antes do seu tempo, é duro. Não se conhece a textura na mordida da boca. Por vezes é amargo, mas não de si, mas amargo da língua aftosa e herpética de querências fora de tempo. Não dá para apressar o rio do amor: ele corre sozinho. Aprender a esperar o tempo do amor é um segredo para poucos felizardos. Uma pérola repousa por anos na ostra.

Se o amor é paciente e devemos nos espelhar nisso, onde guardar o amor que não pode ser? Depende da história. Uns guardam num fundo de armário. Outros, na posta-restante dos Correios, que andam ariscos demais, a propósito. Para quem não sabe o que é posta-restante: a gente pode pôr uma indicação no subscrito de uma carta quando quer significar que ela deve permanecer na repartição dos Correios até que seja reclamada pelo destinatário. A posta-restante é o lugar onde ficam tais cartas, as que restam. Assim, um amor sempre tem um remetente. Às vezes o destinatário não reclama o amor. Às vezes sequer sabe sobre ele. Porque não pode. Ou não quer. Para dar um F5 no texto, podemos dizer que hoje se guarda em e-mails nas caixas de rascunhos, em SMSs no draft, em tweets soltos na timeline, em cutucões reticentes no Facebook, em posts a postos para serem publicados, só esperando a coragem. Essas são versões modernas e descafeinadas do amor. Todos lugares mais modernos de se guardar um amor quando seu tempo não chegou ainda. Ou quando não pode chegar.

Mas se o amor não chegar, ele se perde? Não, o amor não se perde. Esse é o segredo. O amor não tem dono. É um grande erro pensar-se dono do amor. Quando não se acha aqui, o amor migra para acolá. Se não pode acontecer do jeito pretendido neste tempo e espaço, o amor corre, evapora, condensa e chove em outro lugar, para outras gentes, em outra geografia, em outras épocas.

Num futuro, como diz a música, escafandristas – só o Chico Buarque para colocar com pertinência escafandristas numa música – recolherão e arqueologistas consultarão os vestígios digitais e analógicos do amor não vivido. Os sábios de então procurarão, ávidos, a Pedra Rosetta, o granito negro que lhes permitirá ver o tamanho do amor que não se plenificou. Ficou na história universal dos amores não vividos, como aquele de Verona. Como o amor não se perde, mas se trasmuta, se metamorfoseia e migra, enquanto tentam os arqueológos decifrar de onde veio, futuros amantes estarão usufruindo com delírio desse amor diferido, de feridos, sem saber que ele é herança de uma impossibilidade passada.

Nada de tristeza. Pode-se sempre usar o amor viajante, deixado pelos amores proibidos do século XVI. Se não cairmos na falácia de que tem de ser um amor específico, podemos entender que podemos ser os futuros amantes de um passado no nosso presente. Não se afobe, não. Amores serão sempre amáveis. Nada é pra já.

Amor Desfeito é Amor Refeito

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Escrevi este texto em 2005 para a minha irmã Luciana, que sofria horrores com o fim de um namoro. Ele andou circulando pela net e, para minha surpresa, vi que serviu de remédio para um monte de gente na fossa. Isso me deixa feliz: saber que o que eu escrevo faz algum tipo de diferença. Então, da série Um texto antigo para recordar, lá vai de novo.

AMOR DESFEITO É AMOR REFEITO

Para a Lu, com amor.

“Meu coração tropical está coberto de neve, mas ferve em seu cofre gelado”.
Corsário,
de João Bosco

Não há palavra no mundo que expresse a dor de um amor desfeito. Só aqueles que já vivenciaram – ou mortificaram – um momento de ruptura sabem o tamanho da dor vazia e surda que rasga a alma e paralisa a vida. A gente chora, olha o teto, anda em círculos, tem vontade de ligar e implorar, dirige a esmo pela cidade sombria pensando em bater nos postes que se oferecem, não tem vontade de comer, falta vontade de viver. O corpo se entrega de cara, jogando covardemente a toalha e deixando toda a responsabilidade de lidar com o monstro para a mente que, funcionando a todo vapor, mas sem rumo, beira o colapso.

O chão cai. Um buraco negro sem fim e fedorento engole a gente. A dor anímica é lancinante. E a gente chora. No travesseiro, nos colos solidários, no chão, no banho. Todos os gnomos das glândulas lacrimejantes são convocados para o trabalho. Produção total. Parece que não tem fim.

Chegam as pessoas amigas, famílias, parentes, gente de bom coração. Milhares de palavras sinceras, cafunés, ombros. Uns querem nos levar de volta à vida na marra, forçam saídas, cinemas, shows, bares. Outros querem logo nos casar porque acham que fantasma de amor só se exorciza com um amor real, novo, daqueles de dar friozinho na barriga. Fazem conchavos, convidam possíveis pares perfeitos para encontros arranjados. Mas um amor foi desfeito. Ninguém entende isso?

Quem teve o amor desfeito fica impermeável a sons, a palavras, ao mundo. Não adianta cem entre cem dizerem que, calma, tudo passa. Porque na mente do sujeito que teve seu amor desfeito, não há menor vislumbre de uma luz no fim do túnel. Não há túnel. Só escuridão. E na escuridão não há caminhos, só estagnação. Então não pode passar. As músicas falam de nós. As cores na retina são as favoritas do amor que se foi. Os lugares são testemunhas da aposta das fichas de nossas vidas que agora nos olham sem graça como quem diz: “e agora? Perdemos tudo…”. Os cheiros entram pelas narinas, sem nenhum traço da delicadeza que outrora tinham, para arrancar com sua mão pesada a imagem do amor desfeito. Os rostos se resumem a um só, como o vilão de Matrix: o do amor que se foi. As novelas zombam da gente. Os pagodeiros também. Até o cachorro que late para a gente, late ridicularizando o ridículo trapo humano em que nos transformamos. E a gente chora. Os olhos no espelho não são mais os nossos, mas os do Benicio del Toro de tanta papada. Estão roxos. E ainda tem aquela amiga desavisada que nos encontra, sorri e pergunta pelo nosso amor, sem saber que ele está desfeito. Engraçado… o mundo demora para se dar conta do amor desfeito.

Com o amor desfeito, a central de controle da vida fica à deriva, nau sem rumo. Quem diz quando é hora de rir, de comer, de amar? Ninguém, porque o único marujo na cabine de controle da mente está se virando para ver se consegue evitar que o navio afunde. Rir? Comer? Amar?! Isso é luxo para quem busca desesperadamente sobreviver. E a gente chora. Ensopa o colo da mãe, que sofre com a gente como só as mães sofrem. Tamanhos marmanjos se abebezando de novo no ninho materno, o único bálsamo que ameniza 0,1% a situação. Mãe é a morfina da alma de quem teve o amor desfeito. O único remédio não remédio. Precisamos terceirizar a mente: Olcadils, Lexotans, Lexpirides, Lex-Lutor… O mundo é um Lex-Lutor com pedras e pedras de Kriptonita nas mãos apontando para nós, super-homens transformados em sub-homens, Popeyes embrutecidos na alma e enfraquecidos no corpo sem o espinafre diário, ido na sacola da feira do amor desfeito, Sansões carecas e raquíticos, Rei Arthur sem Excalibur, Bochecha sem Claudinho…

E a gente chora. Chora até o sol nascer e constatar, consternado, que o choro continua. Chora na hora do Globo Esporte. Chora na Sessão da Tarde. As novelas, cruéis, nos fazem chorar. Chora com a musiquinha do Jornal Nacional. O que me interessa se a febre aftosa atingiu o gado gaúcho? Dane-se! Meu mundo acabando e o William Bonner preocupado com as vacas! E vou votar Não no plebiscito das armas porque preciso desesperadamente de uma arma. A gente chora, então. Para a lua, que, paciente, nos olha e espera que caiamos no sono de tanto chorar. Mais um dia se vai e a gente nem percebe. A vida gira em torno de um só nome: a do amor desfeito. Ficamos absolutamente monotemáticos.

É preciso gastar. É preciso viver a perda. Acabou e a gente não aceita. Queremos saber por quê? Por que o amor se foi? O que deu nele? Onde errei? Mas ele disse que me amava até ontem à noite, puxa vida? O que mudou? Chama o meu amor desfeito aqui! Ele precisa me dar explicações… As explicações…. as explicações não existem e nem fazem diferença, na verdade. O fato é: acabou. Querer explicações é uma tentativa da mente de continuar pensando no amor que se foi. Se foi. Ponto. E levou junto muita coisa.

O amor desfeito não leva somente o corpo que me dava prazer. Leva a alma que passeava de mãos dadas com a minha nos pensamentos dos planos futuros. Leva um pedaço da história de nossa vida que não tem mais volta. Leva o olhar cúmplice que dividia comigo os sentidos do mundo. Estou órfão de prazer. Estou com um amor desalmado, estou hanseniano de história: pedaços meus estão ficando para trás e não posso fazer nada. Estou impossibilitado de dar sentido ao mundo, mundo completamente sem sentido e dispensável.

E a gente chora. Ou tenta, pois a lágrima secou. Passou o tempo. Tem algo diferente. Já não dói tanto. Mas ainda dói muito. De repente, um vaga-lume. Luz? É. Luz.

De repente, saímos do olho do nosso Katrina particular. Respiramos no ritmo novamente. E o amor desfeito? Ah, o amor desfeito… O amor desfeito deixou em nós a lembrança de que é possível amar, de que o amor existe mesmo. O amor desfeito nos fez perceber que devemos viver a certeza da eternidade do amor enquanto durar, como dizia o poetinha, e que para isso é preciso acreditar que a felicidade só é possível com aquele amor específico, o que não é verdade. A gente pode ser feliz com qualquer pessoa porque a felicidade é intrínseca, vem de dentro. Por outro lado, “tudo na vida é frágil; tudo passa”, como retruca Florbela Espanca, a poetisa da dor. O amor pode passar. É uma possibilidade que não queremos, contra a qual lutamos, mas que não podemos desconsiderar. O amor desfeito nos amadurece ao lembrar que a vida é assim: as coisas vêm e vão. As pessoas vêm e vão. É da própria vida, que veio e um dia irá. O amor desfeito pisca para nós e diz: “Pronto, fiz minha parte na tua vida”. Zecabaleirianamente, ele nos lembra que percorreu a parte da sua estrada no nosso caminho.

Por isso não podemos odiar o amor desfeito. O amor desfeito deve ser amado pelo mundo que nos mostrou, pelos espaços que nos abriu, pelos sonhos que desenhamos juntos. O amor desfeito deve ter seus feitos registrados no livro da antologia universal do amor. As coisas ruins, bom…essas esquece! As boas, essas devem ser vividas e lembradas com carinho. Aquela música, aquele perfume, aquele beijo, aquela noite. Como era perfeito aquele amor desfeito. Mas é preciso que um amor se desfaça para que outro se faça. Um outro tão perfeito quanto. Mais perfeito que.

Quando a gente consegue heroicamente sobreviver ao ciclo do amor desfeito, somos capazes de converter a necessidade inegociável da sua presença em certeza inalienável de sua importância para nosso crescimento afetivo e pessoal. O mundo volta a ter sentido. A lua, num quarto-minguante feito para nós, sorri feliz. Aí a gente entende a razão de ser minguante. Ela sorri quando mingua a dor. O sol ilumina o dia e o céu azul lindo, que estava aí e nossos olhos de ressaca não viam. E chega um novo amor. De repente. De surpresa. E o nosso amor próprio, alquebrado pelo amor desfeito, desenganado pelos pessimistas do mundo, brilha de novo. Refaz-se.

Não há palavra no mundo que expresse a certeza de um amor refeito. Só aqueles que já vivenciaram um momento de abertura a um novo amor sabem o tamanho da alegria plena e verdadeira que inunda a alma e nos devolve a vida, à vida. A gente ri para o teto, anda sem rumo de tão feliz, tem vontade de ligar e conversar por horas, dirige pela cidade formosa pensando em gritar a todos que está amando, que não tem vontade de comer, mas tem muita vontade de viver. O corpo se entrega, jogando-se alucinadamente ao novo amor e deixando toda a responsabilidade de pensar nas responsabilidades do mundo lá fora para a mente que, funcionando a todo vapor, diz para o corpo: “Vai fundo! Aproveita! Carpe Diem!”

O chão do mundo novo é ladrilhado, como na canção de roda. Um tsunami de paixão engole a gente. A sensação de querer tudo e mais é atordoante. E a gente ri. No travesseiro, nos colos dos amigos – que reclamam que foram abandonados por nós depois que entramos no templo da paixão, como diz o Chico César. A gente ri no chão, no banho. Todos os gnomos do setor de produção da adrenalina são convocados para o trabalho. Produção total. Parece que não tem fim.

Chegam as pessoas amigas, famílias, parentes, gente de bom coração. Milhares de palavras sinceras, cafunés, ombros. Felizes por nos ver de volta à vida, sem ser na marra, sem saídas, cinemas, shows, bares forçados. Outros fazendo questão de nos lembrar que disseram que fantasma de amor só se exorciza com um amor real, novo, daqueles de dar friozinho na barriga, como o que sentimos ao ouvir o nome do novo amor. Um amor foi refeito.

Quem teve o amor refeito fica sensível a sons, a palavras, ao mundo. Não adianta cem entre cem dizerem para ir com calma. Bobagem. Porque na mente do sujeito que teve seu amor refeito não há menor vislumbre de calma. Só há luz, energia. Só há movimento. As músicas falam de nós. As cores são as favoritas do amor que se faz. Os lugares testemunhas da aposta das fichas de nossas vidas que agora nos olham vibrantes como quem diz: “Aposta tudo!”. Os cheiros entram pelas narinas para levar delicadamente, com sua bruma leve, a imagem do amor refeito. Os rostos se resumem a um só. As novelas falam da gente. Os pagodeiros também. Até o cachorro que late para a gente, late parabenizando o ridículo humano cheio de amor em que nos transformamos. E a gente ri. Os olhos no espelho são os nossos em seus melhores dias. Estão indisfarcavelmente brilhantes. E ainda tem aquela amiga desavisada que nos encontra, sorri e pergunta pelo nosso ex-amor, sem saber que ele está desfeito. Engraçado… a gente nem lembra mais do amor desfeito… Diz que está amando muito uma pessoa especial, dá dois beijinhos, se despede e corre para encontrar o onipresente novo amor.

Com o amor refeito, a central de controle da vida acha o caminho e descobre novas terras. Toda hora é hora de rir, de comer, de amar. Nosso navio singra os mares, potente, firme. E a gente ri. E traz o sorriso para os lábios da mãe, que ama com a gente como só as mães amam. Tamanhos marmanjos se abebezando de novo no ninho materno, ninho perfeito para descansar depois de um dia feliz. O amor de mãe é o modelo da alma para quem quer um amor refeito. Somos super-homens salvando o mundo das maldades. Popeyes fortificados no braço e no coração com espinafre fresquinho, trazido pelo amor novo. Sansões cabeludos, Rei Arthur empunhando Excalibur, Lennon e McCartney em seus melhores dias.

E a gente ri. Ri até o sol nascer e constatar, feliz, que o riso continua. Ri na hora do Globo Esporte. Ri na Sessão da Tarde. As novelas, engraçadíssimas, nos fazem rolar de rir. Coitadas das vaquinhas bonitinhas que sofrem de febre aftosa. Bem que o mundo poderia ser mais perfeito como o meu e do meu novo amor. E não é que o William Bonner e a Fátima Bernardes fazem um belo casal! E quer saber? voto Sim no plebiscito das armas porque sou pela vida. A gente ri e ri. Para a lua, que, preocupada, nos olha e pergunta se não temos medo de desmaiar de tanto rir. Mais um dia se vai e a gente nem percebe. A vida gira em torno de um só nome: a do amor refeito. Ficamos absolutamente monotemáticos. Sentimos até o cheiro quando pensamos no novo amor.

É. De nada adianta querer apressar as coisas. Tudo vem a seu tempo, dentro do prazo que lhe foi previsto, mas a natureza humana não é muito paciente. Temos pressa em tudo. Queremos apressar o rio e esquecemos que ele corre sozinho. Vemo-nos num labirinto e enlouquecemos. Mas um labirinto é a metáfora da vida: a busca louca pela saída nos faz ignorar a beleza dos descaminhos. Drummond dizia algo com que concordo: muito choro é limpeza de alma. E dizia também: “Tem tanta gente esperando apenas um sorriso seu para chegar perto de você”. Basta sorrir.

É preciso fazer com que o cofre de neve que cobre nosso coração, fervente e tropical por natureza, derreta. Então, valeu, ex-amor! Por tudo. Obrigadão e seja muito feliz. Mas dá uma licencinha agora…Venha você aqui pra pertinho, meu novo amor, razão da minha vida. Para sempre. Ou enquanto durar, “posto que é chama”… Devemos não esquecer o poeta para sofrer menos e viver mais felizes.

Sérgio Augusto Freire de Souza

12 de outubro de 2005