Fragmentos em busca de um texto

Memórias de um riacho

Postado em

“Estava correndo tranquilo, quando senti uma vontade danada, daquelas que coçam na gente, de molhar os pés de alguém. Atraí os pés de uma moça bonita e os envolvi por um longo tempo em minhas águas geladas e aconchegantes”.

WhatsApp

Postado em

Ela era uma mulher linda, decidida, resolvida, profissionalmente reconhecida. Aí, um dia, do nada, recebeu uma mensagem de WhatsApp: – “Não quero mais ficar com você. Tenho outra”. Era o marido, acabando tudo, em uma mensagem de WhatsApp. Ficou sem chão, chorou rios, sentiu a dor que sentem os desprezados. Ela merecia bem mais do que tudo isso. Mas ela era uma mulher linda, decidida, resolvida. Colocou seu melhor sorriso, decidiu ser feliz. Resolveu seguir a vida. Soube logo que sem se amar sem limites ser amada seria tarefa complicada. Nossa felicidade não depende de uma pessoa específica. A vida seguiu. E tanta gente esperando só um sorriso dela para chegar perto e ela nem desconfia…

Over

Postado em Atualizado em

Sério: quando um relacionamento termina, ele tem de acabar. “Ain, mas a gente é amigo!”. Amigo é meu ovo! Terminou, acabou! “Ain, mas ele está sofrendo!”. Problema dele, dos amigos dele e da família dele. Não existe uma forma de reequilibrar a vida pós-término sem se distanciar. Corte tudo que alimenta a centelha de esperança, apague os nomes das agendas, limpe o Facebook, bloqueie todo mundo que vai fazer mal. Depois, lá na frente, quando encontrar no shopping um dia, diga “oi, tudo bem?”. Mas lá na frente. No começo, mude de calçada mesmo. Vai por mim. Se não a bagaça não sara. Como sarar se ficar cutucando a casquinha?

Sniper

Postado em Atualizado em

Às vezes a melhor forma de companheirismo é manter o silêncio. É, na hora do desequilíbrio da relação, resistir à tentação de usar a informação privilegiada – que o amor dá no pacote – para fazer arder feridas abertas, que pedem para ser cuidadas pelo outro e não cutucadas pelo outro. Quando começa a se perder a certeza de que o silêncio também cura, se começa também a desnecessária sessão de agulhadas cirúrgicas, precisas, de quem conhece os pontos e sabe exatamente onde enfiá-las. É uma acupuntura às avessas: em vez de sarar, a agulhada queima, machuca, arde. É a informação privilegiada – feita para ajudar na partilha da vida a dois – sendo usada para fazer doer com precisão. É cruel isso. Porque não tem se tem defesa contra o franco-atirador que lhe tem na mira e conhece seus movimentos como ninguém…

João e Maria

Postado em

“Leve. A gente sabia ser leve. Criar nosso mundo, nossos enredos malucos. Eu era o rei e você a princesa. De repente você quis fugir da gente. Mas não fuja, não. Faça-me de seu brinquedo, minha criança. A gente tem de ser feliz. É nossa sina. Eu enfrento todos pela gente: batalhões de alemães e seus canhões só com meu bodoque. Sem medo. A gente nem chegou a saber o que é isso. Nossa inocência não teve tempo. Mas o nosso faz-de-conta terminou porque você sumiu no mundo. Sem me dizer nada. De rei virei bobo, de bobo virei arlequim, com um manto feito de retalhos coloridos de nossas histórias. Cada sutura um início, um meio, um fim. E vago por aí, louco das ideias, pés no barro, querendo saber o que vai ser de mim nessa vida velha sem porteira. Sem notícia da princesa…” SF

Deriva

Postado em

“Naquele momento eu compreendi. Há coisas que nos apontam caminhos. Coisas que não nos dão escolhas. É quase uma ordem. Sempre vivi na ilusão de ser sujeito, como o da gramática, aquele que decide e faz a ação. Aquele que afirma que sabe o rumo a tomar e vai. Capitão da sua nau. Naquele momento, eu aprendi que, sim, sou sujeito. Mas sou sujeito às vicissitudes dos ventos da vida, que caprichosos sopram pro lado oposto do que singra meu barco, nau sem rumo. Naquele momento, ela me ensinou que para quem está à deriva seguir a corrente do rio é às vezes a única alternativa. Há momentos em que a deriva é o caminho…” SF

Os aís da vida

Postado em

Os aís da vida. Aí, no começo, bebês, a gente acha que é a nossa mãe. Aí vem a primeira pancada: não é. Aí, crianças, a gente acha que é o centro do mundo. Aí vem a segunda pancada: não é. Aí, na adolescência, a gente se rebela contra tudo e quer fazer tudo diferente achando que vai, com isso, mudar o mundo. Aí vem a terceira pancada: não vai. Aí, na meia-idade, quando as primeiras contas chegam, a gente se recusa a entrar no sistema e despiroca mochilando pelo mundo para fugir disso. Aí vem a quarta pancada: não foge. Aí vêm casamentos e filhos e você jura que com eles vai fazer as coisas bem diferentes. Aí vem o Belchior e joga na nossa cara que a gente faz igualzinho a nossos pais. Aí vem a quinta pancada: não cumpre. Aí vem a meia-idade e você tenta juntar todas as forças para fazer a vida ser mais do que uma mera sobrevivência, afinal depois de tanto investimento de vida, é apenas justo, não? Aí vem a sexta pancada: não é nada justo. Aí vem a velhice. O tempo passou, a gente olha para trás e dá um estalo. Aí percebe que a vida não era o que a gente tentava ser ou conseguir. Aí a gente percebe que a vida era o próprio processo de tentar. Aí vem a última pancada: não dá mais tempo. Aí só na outra agora.