Fragmentos em busca de um texto

Incessante Busca

Postado em

“Quando se espera do calmo lago a tranquilidade, vem o vento da vida soprando as novas direções. Nossa vida, supostamente assentada, vê-se novamente num processo de reacomodação. Vem a pergunta da língua inquieta: por quê? Por que o frio desliza por meu corpo, assustando-me com as perspectivas que vêm à mente, por mais que tente evitar, alegra-me o coração, faz-me rir sozinho, gargalhar na alma? ‘Mas é tanta vida pra mudar!, argumenta um eu admirado, em vão, já que não aceito para mim senão a felicidade. Ver teu sorriso, o brilho no teu olhar alumiando o meu, já meio apagado de mundo, mas com forças bastantes para te admirar. Ficar perto. Encontrar o que já claramente achei. Como tudo isso é parte de um desejo que se sustenta doidamente a cada segundo que tic-tac-teia no inexorável relógio da vida. Busco fórmulas que expliquem tudo. Em vão. Pretextos pra ti. Atravesso os sentidos inenarráveis da linguagem com a te dar pistas, como a cantar meu grito silencioso. Em vão. Pretextos pra mim. Fico, a cada visão de ti, no meu silêncio querente, no meu olhar cansado que grita para ti: ‘Eis-me!’ Onde reverberará o eco? Onde estará o teu dizer: ‘Eis-nos!’ E em silêncio – sempre o silêncio, pouso dos que amam -, nas suas diversas formas, te buscarei sempre. Porque o sempre é minha meta pra ti. Dá-me um sinal, um mero sinal, que te dou uma vida. Completa.”  SF

Ecdise

Postado em Atualizado em

“Há momentos em que bate uma solidão surda. Olha-se para todos os lados e não se vê eco para os quereres, para as ações, para os carinhos. Começa-se a duvidar de razões para prosseguir, das intenções do dia que nasce, das motivações das estrelas que brilham no céu. Tudo apresenta-se vão. O silêncio toma conta como uma forma de proteção, pois qualquer coisa dita só agrava o peso do momento com a densidade das palavras. Encasula-se o tempo na espera da ecdise da alma. É hora de esperar. É necessário respeitar os hiatos do amor. É hora de ouvir a Bachiana nº 5 de Villa-Lobos.” SF

Relatividade…

Postado em

“Era um jovem ambicioso. Queria ganhar o mundo, ser rico, poderoso. Aquilo era sua obsessão. O tempo foi passando. Veio a família, os filhos, a segurança do emprego. As viagens em família. O sorriso dos filhos ao chegar em casa. O carinho da esposa, abraçada sob o edredom. O cachorro mordendo o seu calcanhar querendo atenção. Sua ambição era agora ser feliz. Já ganhara o mundo quando ganhara filhos. Já era rico porque tinha saúde para rir com os seus. O poder do seu amor dava segurança àquela família. O tempo redimensiona conceitos…” SF

Tempus

Postado em Atualizado em

Arrogância, prepotência, vaidade, egoísmo. Coisas tão pequenas ante a fragilidade da vida. Pena que o tempo da percepção para muitos é tardio…

 

Taking for granted…

Postado em

“Reclamou da casa desarrumada e foi assistir ao noticiário. Viu a fatalidade de um acidente que tirara o futuro de uma linda menina de três anos que vivia a magia de ver o mar pela primeira vez. Aquilo o atingiu em cheio em seu coração de pai. Ele levantou do quarto, foi até a sala e constatou que a casa estava de pernas para o ar. Olhou e viu papéis picotados, brinquedos espalhados, sabão de bolinha derramado, manchas de guache no chão, bonecas prontas para o jantar na mesinha e um sorriso imenso de uma criaturinha culpada, olhos do gato do Shrek, como que pedindo perdão por tudo aquilo. Abraçou sua menina. Ela disse no abraço: ‘Te amo do tamanho do céu, papai!”… Terminar cada dia com aquela bagunça linda passou a ser tudo que pedia a Deus em suas orações desde então”. SF

Reencontro

Postado em

“Viveram um romance adolescente. Se amaram muito. Tinham uma história, com trilha sonora, bilhetes em guardanapos, segredos. O tempo passou e cada qual seguiu seu caminho. Então, um dia se reencontraram por acaso em um evento social. Deu-se um silêncio quando os olhares se cruzaram. Estavam com seus cônjuges e, sabe como é: noblesse oblige.  Cumprimentaram-se protocolarmente, como recém-apresentados. Mas suas almas, que não tinham a menor obrigação social, se abraçaram, se beijaram, conversaram por horas, matando a saudade de um tempo bom”.  SF

Cotidiano número 3

Postado em Atualizado em

“…Acordou antes de todos. Foi comprar pão. Fez o café. Saiu para o trabalho. Fez o que lhe cabia no trabalho. Voltou para almoçar em casa. Comeu bife, arroz e a salada, mais por recomendação médica do que por gosto. Deixou os filhos na escola. Recebeu os boletos para pagar. Trabalhou naquilo que devia. Saiu do trabalho. Pegou as crianças na escola. Tomou um banho. Jantou vendo o Jornal Nacional. Fez carinho no cachorro. Pegou e-mails. Curtiu umas coisas no Facebook, deu uns RTs no Twitter. Deu um beijo na patroa e nos filhos. Foi dormir. Acordou antes de todos…”

Tormenta

Postado em

“Não tinha razões para ouvir aquela voz. Mas ela o perseguia aonde quer que ele fosse. Falava coisas que ele não queria ouvir, com um tom de voz que ele detestava. Em silêncio, argumentava em sua mente, mas a voz era implacável como um cossaco russo. Inarredavelmente o empurrava para um derradeiro diálogo. Por isso ela estava ali. Mas ele sabia aonde ir para que a voz cessasse suas palavras lancinantes. Ele foi. E a voz se foi”. SF

Cinzas

Postado em

“Os trompetes dos músicos tocavam a chamada típica do carnaval, aquela que não deixa a peteca cair. As águas rolaram, garrafa cheia ninguém viu ficar. Vivia plenamente o Carnaval. Ela era a jardineira. O seu amor, a Camélia. Acabara de cair do galho e depois morrer. Ou seria ela Arlequim chorando pelo amor da Colombina no meio da multidão, junto com os mais de mil palhaços? Dúvida. Nem para ela ser a mulher do Rui… Quisera alguém a roubasse como dela roubaram o seu amor. Diferente de Anália, ela definitivamente queria ter ido com ele para Maracangalha. O fato: a canoa virou. Ela não soube remar. Ah, saudade, mal de amor, de amor… Ah, saudade, dor que dói demais… Tudo que ela queria era uma bandeira branca. Queria paz…”  SF

Retomada

Postado em

“Aquele encontro não era obra do acaso. O acaso não existe. Já está tudo escrito e planejado desde sempre. Quando seus olhares se cruzaram, sabiam-se de outros tempos. Os olhos refletem as memórias das almas. Ali havia uma convergência de afetos, recordações, momentos. Ela era o amor proibido e nunca consumado naquela tribo nômade da Mongólia. Ele foi o seu filho amado perdido para a Peste Negra na Europa no Século XIV. Ela havia sido levada e morta pelos invasores brancos, que devastaram sua tribo Catawba, na Carolina do Norte no massacre de 1890. Ele, soldado de Franco morto na Guerra Civil espanhola que nunca voltou para casa. Não estavam aprendendo a se amar. Estavam relembrando. Estavam retomando de onde não puderam continuar…” SF