Fragmentos em busca de um texto

Ostra

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Há sempre o tempo de se estender a mão, pedindo que alguém lhe puxe para ver a luz do dia, à beira da praia, para rolar na areia, depois de um tempo de escuridão e silêncio no fundo do mar. Mas, antes, é fundamental passar por essa solidão à sombra, curtir o silêncio do isolamento como se curte couro, gastar o encontro consigo como se gasta a felicidade. Nessa hora, como uma ostra, é necessário se fechar em si, reconhecer a pedra da dor em suas entranhas e transformá-la em pérola. Isso é um processo. É preciso interagir com a pedra: deixar ela arranhar o seu corpo, cortar sua mão, quebrar seu dente. E também reagir a ela, mordê-la, engoli-la, excretá-la. A tristeza também precisa de seu tempo e seu tempo precisa ser respeitado para o equilíbrio da vida. Dura horas, dias, meses ou anos. Ninguém sabe o tempo alheio para isso, ninguém sabe as correntes marinhas que nos engolem. Por isso é preciso compreender a necessidade da retirada da cena na hora da tristeza. Para o que vai e para os que ficam. Não é razão de lamento. Quando a hora chega é para se ir, de cabeça erguida. Porque essa hora eventualmente chega, como chega o nascimento no início e como chega a morte no final. Brincar de ser feliz na hora que é da dor é uma pantomima que faz mal ao artista da vida porque tem o pano da realidade, que sempre cai. É isso. SF

Lembra?

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E aí a gente foi se perdendo um do outro, se esquecendo de se amar, lembrando só quando tocava aquela música. De repente, a gente deixou de sentir falta, de passar perfume pra se ver, de ensaiar palavras no espelho. Quando se deu conta, a gente sequer se deu conta de que aquele amor que prometia arrebentar tudo, lacrar os amores, matar de inveja as pessoas acabou ficando por aí, largado, mambembe, roto e maltrapilho. Você não fez questão. Eu também não. Ninguém disse mais nada. A vida seguiu. Diz o Moisés, um amigo meu, que ele foi visto pedindo uns trocos no Centro, do lado da Igreja de São Sebastião. Era onde a gente ia casar, lembra?

Anjos da Morte

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Muitos anjos da morte cumprem o protocolo. Avisam antes, sinalizam, dão um tempo para a gente se preparar. Outros acham desnecessária essa burocracia. São anjos da morte no estilo fiscal. Chegam sem avisar, dão a batida e levam. Uns burocratas, eles não querem nem saber quem fica pra trás, no vazio da perda, no sofrimento abrupto rasgado no peito. E há os anjos da morte que purgam suas penas. São os que vêm para levar as crianças. Poucos sabem, mas de tão lancinante que é a morte de uma criança, até eles choram copiosamente ao cumprir sua obrigação…

Saideira

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“Definitivamente o amor tinha acabado. Eu não conseguia sentir nada por ele naquele momento. Não havia um sentimento conhecido para descrever o que eu sentia ao olhar pra ele, ali, parado, me olhando. Não era raiva, não era pena, não era nada. Percorri a lista de todos os sentimentos conhecidos e nenhum serviu. Quando a sensação não tem um nome é porque ela é grave. Escapar da linguagem não é pouca merda. Eu apostei todas as nossas fichas na gente. Eu queimei minhas pastas de planos alternativos. E ele agora me diz que é uma outra pessoa que lhe deixa as mãos suadas, que lhe dá frio na barriga. Só falta me dizer que ela goza mais do que eu. Sim, ele agora me pede pra eu apagar memórias, as sensações rasgadas na minha carne ao longo do tempo em que dividimos tudo. Filho da puta… Minha vontade era de apagá-lo da minha vida, como se fosse possível deletar porções de vida. Mas o cheiro dele estava entranhado na minha pele, no meu cabelo. A sensação daquelas mãos macias deixaram digitais por todo meu corpo. Ia levar anos pra eu tirar esse cara das minhas entranhas, abortá-lo a fórceps de mim. Eu não aguentei e avancei. Me joguei em cima dele com todas as minhas forças. Transamos feito loucos. Como no começo. Foi a visita da saúde. Antes do derradeiro suspiro, o corpo pede que se use o resto do que se tem na alma antes de morrer. Por isso as pessoas melhoram e, de repente, morrem. A gente morreu naquele dia, depois da saideira.” SF

De dentro pra fora

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Nas minhas andanças e observações do mundo, concluí que as pessoas mais felizes, mais saudáveis e com maior longevidade tendem a ser aquelas que estão criando coisas, fazendo coisas com os outros ou ajudando os outros. Parece ilógico em princípio, mas a felicidade chega pra gente de dentro para fora.

O ar frio da decepção

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Decepção é um sentimento que faz soprar, de repente, uma corrente de ar gelada dentro de nós. Quando bate, paralisa a fala e irradia o vento ruim do centro da barriga, percorrendo o corpo para cima e para baixo como se estivesse esvaziando a alma e apagando o calor do afeto. O que resta dentro da gente depois dessa devastação silenciosa é o chorume de uma mágoa sem força até para sair em lágrima.

Manja

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“E ela corria de mim. Era como se fosse uma manja. Duas crianças brincando de pique. Mas haveria a hora do repouso. Haveria a hora do silêncio. E nessa hora, eu a olharia nos olhos. E ela, tomada pela situação, se entregaria à brincadeira completamente…” SF

Apocalipse

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“O amor morno é o pior dos amores. O amor frio se mostra, o amor quente se consome. Mas o morno… O beijo é bom, bate o ponto do afeto, mas não tem projetos para o futuro. O amor morno é um burocrata. O sexo é protocolar. Não é ruim, mas não é como já foi nem é como merecemos. O amor morno é um amor acomodado. Dá pra viver com ele pro resto da vida? Dá. Mas a pergunta é: por quê? Pra quê? Viver no amor morno pode ser um sinal de desistência do amor pleno. É amor de IBGE, de censo. ‘Você ama? Sim ou Não? Amo, sim. Bota aí, moço’. Pronto. Aparece nas estatísticas, como as pessoas que mal assinam o nome e aparecem como alfabetizados. São mesmo analfabetos funcionais. É isso: o amor morno é não-amor funcional. Parece que é, mas não é. Viver no autoengano do amor morno é uma escolha. Uma das piores escolhas para quem um dia sentiu frio na barriga, mãos suadas, coração saindo pela boca. É muito pouco amor o amor morno. Ninguém merece ficar em banho-maria nos afetos… Antes fosses frio ou quente, mas porque és morno vou te cuspir da minha boca. Palavra da salvação!” SF

Click

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“Aí eu abro o browser. E vi que ele curtiu um post meu. Uma sensação de ser pega no flagra me invade porque eu não consigo disfarçar o sorriso que veio automático. Eu nunca o vi pessoalmente. Só nas redes sociais. Sei do que ele gosta, o que pensa, onde está. Sei quando está triste, quando está alegre, quando está irônico. Sei que músicas ele ouve, a que séries assiste, o que está lendo. Não, não sou stalker. Apenas fico feliz em saber que ele existe. Ai, que boba eu… Saber dele me faz bem. Desconfio de que ele me sabe também. Mas a gente mantém a distância prudente. Eu às vezes sinalizo. Ele às vezes mostra que me entende. A gente flerta veladamente, embora não admitamos. Aí ele posta uma foto com a namorada. Eu curto. Ele entende o que essa curtida quer dizer. Ele vai e curte uma foto minha de um álbum antigo. Mas ele nunca curte uma foto minha acompanhada. Eu entendo o que ele quer dizer. A gente nunca se cutucou. Quem se quer de verdade não se cutuca nunca. E assim a gente vai construindo a nossa história. Sim, a gente já tem uma história. Todo dia de manhã, quando eu entro no Face, vou direto no perfil dele e falo em voz alta para ele, meio que cantando: ‘Bom dia, meu amor!’ Não quero nunca encontrá-lo de verdade. Eu morro de medo de no encontro perder a intimidade que já temos. E que cresce a cada dia. A gente se sabe tanto já…” SF

Gotas

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“Eu fiz o café para ela. Ela puxou a xícara, sorriu, pegou o adoçante e começou a pingar. Uma, duas, três, quatro, cinco, seis, sete gotas. As gotas pingavam e eu contava silenciosamente na cabeça. Ela parou na sétima. E sorriu. Eu sorri de volta. Aí eu vi que eu a amava. Eu sabia que ela ia parar na sétima gota. A cumplicidade está nos detalhes da vida.”