humor

Alugam-se acreanas

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Lendo os classificados de sábado passado, em busca de uma boa oferta de alguém aperreado (as boas ofertas são sempre de alguém aperreado), que me deparei com a seção de Serviços, na categoria de Turismo e Lazer. E li, então, as ofertas da seção.

O primeiro item em oferta era uma acreana. Isso mesmo, uma acreana recém-chegada, com atendimento em domicílio (no seu ou no dela). Interessante como no sex business ser acreana é um diferencial de qualidade. É mais ou menos como carro que tem ar-condicionado em Manaus. É valor agregado. Assim como as videntes recém-chagadas de Faro, no Pará, são as bambambãs da futorologia, as acreanas recém-chegadas de Xapuri são as cinco estrelas da cama. Diz até meu amigo Mateus, que trabalha com linguística indígena, que Xapuri, na língua dos índios que habitam a base do Rio Xipamanu, significa Enguia-elétrica. Fico pensando sobre as relações e imaginado essas mulheres-poraquês em ação. Ah, o nome da acreana era Aisha e fazia dança do ventre. Essas novelas dão cada idéia para essas meninas…

Além da acreana, tinha outro anúncio das patotinhas do sadomasoquismo. A chamada do anúncio dizia em maiúsculas negritadas “SADOMAZOÍCO” (sic). E seguia: “três morenas fora do comum, são elas que fazem a fantasia ser real. Saia da rotina e prove a delícia de uma boa dominação”. Bom, dominado eu já sou, pela patroa. É ela quem manda em mim e na casa. Já é a minha rotina. Mesmo assim, fico imaginado as três morenas fora do comum – teriam elas três peitos, bunda de cinco bochechas, duas vaginas cada? – mandando eu fazer só coisas que eu não gosto: “vai levar o lixo lá fora! Ajuda a enxugar a louça! Liga pro rapaz do telefone para mandar consertar! Vem me acompanhar na feirinha de roupas!”. Não, não. Já tenho minha personal sadist exercitando todo seu poder de dominação em casa. Estou fora. Fui para o próximo.

“ABC massagens: venha aprender com belas loiras e morenas”. Para quem tem fetiche por professoras é uma boa pedida. Fico só imaginando a base epistemológica da pedagogia das tias: seriam freireanas, piagetianas, skinnerianas, rogerianas? Ou estariam mais para uma pedagogia no estilo da escola Sumerhill, aquela lá na Inglaterra, onde não há  normas nem regras, onde vale tudo? Como acadêmico, acredito que devemos procurar ter coerência epistemológica em nossas escolhas pedagógicas. Mas o papo está muito cabeça e o buraco é, literalmente, mais embaixo.

Tinha uma dupla de macho lá na relação. “Beto & Douglas, recém-chegados em Manaus. Atendemos mulheres, casais e suas fantasias”. O que primeiro me chamou a atenção foi esse nome de dupla sertaneja. “Senhoras e senhores, agora com vocês: BETO & DOUGLAS!”. Outra coisa: será que ser recém-chegado tem algum poder afrodisíaco? Todo mundo é recém-chegado em Manaus. Contando essa história para um amigo meu do Twitter (cujo nome não digo porque essa sociedade em que vivemos ainda é muito hipócrita), não é que ele perguntou se eu ainda tinha o jornal? Será que o Beto e o Douglas também topam corrente alternada? Meu amigo ficou ouriçadíssimo.

Outro anúncio dizia: “As mais belas garotas de Manaus. Totalmente liberais”. Fiquei pensando. Será que elas são a favor das privatizações, das leis de mercado e tal? Garotas liberais… Será que não teriam algumas progressistas, de esquerda? Sei lá, compatibilidade ideológica pode ajudar na hora de colocar o voto na urna…

E assim iam os anúncios. Outra “morenaça” se oferecia para aqueles que curtem “um super DP”. Fiquei pensando o que seria um super DP. Depósito Pessoal, Distrito Policial, um PC com Duplo Processador, uma revisão na D Paschoal? Foi meu tio Cado, com pós-graduação em sexoantropologia aplicada aos trópicos úmidos feita na USP de Bauru, quem me disse que DP é dupla penetração. Pensei em ligar para a morena e dar o telefone do Beto & Douglas.

Por fim, tinha esse aqui: “Venha conhecer Ratirarrasya. Não vá para cama sem ela”. Primeiro que esse nome tira o tesão de qualquer um. Imaginem, na hora H: “Vem, meu amor, minha Ratirarrasyazinha linda…”. Não dá. Segundo, isso está mais para nome de remédio para dormir. “Amor, você viu meu frasco de Ratirarrasya que estava em cima do microondas?” É uma dose. De doze em doze horas. Confesso que só consegui digitar o nome dela certo depois da quarta tentativa.

Meu amigo do Twitter acaba de me ligar e confirmar, eufórico, que o Beto & Douglas topam tudo. Vai ligar para eles e contratá-los. Políticos gostam dessas demonstrações de poder, né? Freud explica…

Apelidos

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Trabalhar com a linguagem é algo que me fascina. Não fiz doutorado em Linguística atoamente, como diria Guimarães Rosa. E dentre os aspectos da linguagem que mais me chamam atenção estão os apelidos.

Você já notou as propriedades descritivas do apelido? O apelido não descreve: mostra a foto. É ouvir o apelido e ver a figura apelidada, como se fosse um holograma no mais puro 3D. E a criatividade dos apelidantes é tão espantosa quanto a imaginação de Julio Verne. Há alguns tão engraçados que nos fazem chorar de rir.

Há os apelidos mais simples, fazendo menção às partes do corpo humano. Esses tanto podem ser para mais quanto para menos: O Boquinha pode ter uma boca miúda ou uma bocarra. Cabeça, Mãozinha, Pezão, Orelha (aquele que atrapalha a visão dos outros no cinema), Zoiúdo. Tem aquelas pessoas que possuem apelidos que se referem à cor da pele ou do cabelo: Alemão (ou é louro ou negão), Índio, Japa, Turco. Há aqueles regionais: Baiano, Ceará, Gaúcho. Há outros que descrevem um atributo: há um mecânico lá perto da casa do meu pai cuja alcunha é Bonito. O cara parece o capiroto de feio. Falando em mecânico, em Campinas conheci o Sovaco Queimado. É um metido a mecânico, na verdade. Um carro ferveu e ele disse que ia consertar, abriu o radiador e levou um jato de água fervendo no sovaco.

Há ainda aquele chato que todos chamam de Simpatia e aquele outro, mais chato ainda, a quem chamam de Bombom-de-Alho. Tem um amigo meu que operou a orelha e o apelidaram de Dobermann, pois a orelha ficou igual a do cachorro. E um outro, muito baixinho, chamado de Espirro de Pica? Ao irmão do Espirro, igualmente baixo, chamam de Lenhador de Bonsai. E os dois irmão gêmeos, moreninhos, que estudaram comigo no antigo Colégio Domingos Sávio: Faísca e Fumaça. Teve outro cara, gente muito boa, sensível, mas fechado. Um tipo raro. Apelido? Hímen. E um que trabalha aqui no posto de gasolina perto de casa: Marfins Gump. Marfins por causa dos dentes caninos avantajados; Gump porque conta cada história. Lá no mesmo posto tem ainda o Kiwi. Dizem que é porque ele é peludo por fora e fruta por dentro. E, para coroar a criatividade do pessoal do posto, tem ainda o magrinho que lava os carros: o Schwazzeneger. Schawza, para os íntimos e clientes antigos.

Da minha infância trago ainda os seguintes apodos: o Bife, irmão do Lombrado. E sua irmã, a Bifa. Claro. Hoje a Bifa é professora do Estado. É a Tia Bifa. O Mad (que a gente chamava de Mady), a cara do Newman (o personagem da revista Mad), irmão do Caroço, que, diga-se de passagem, é um apelido muito do sô ordinário. Havia o Juca (um apelido básico, um-ponto-zero), irmão do Conega e do Pinto, que parecia um pinto mesmo (a ave!).  Tinha o Walter Vovô, que jogava bola com a gente no campinho da rua seis. Ele tinha uns doze anos, mas aparentava ter uns cinquenta. Havia o Piaba, um magrelo que jogava futebol de botão nos campeonatos aos domingos na Escola Técnica, e que sempre ganhava do Alberto Gordo, que era muito gordo e depois ficou magro, mas manteve o apelido de Gordo. Vai morrer Alberto Gordo.

Hoje, faço questão de comer no Dedé, do meu amigo de infância André Conde, que tinha um biloto na orelha. O Conde é sobrinho da Dona Tetê Cabecinha. Estudei ainda com figuras como o Quibe (filho do Carrapeta), o Mamão,  o Cara-de-Égua, o Blau-Blau e seu irmão mais novo, o Blau-Blau Jr. Tinha ainda o Galocha (branco e orelhudo), o Zé Colméia (a cara do urso) e a Jorgete (um Jorge com opções sexuais diferentes). Todos nós, moleques da rua três (o endereço da minha infância), admirávamos as pernas grossas da Sandra, filha do Paulinho Super-Homem, da rua quatro. O Paulinho Super-Homem era magro, magro, um filé de borboleta. Aliás, Filé de Borboleta é também o apelido do filho do meu amigo Eliezer Peito-de-Pombo. Na mesma rua quatro das pernas da Sandra moravam os Smurfs, uma família de um sem-número de meninos, todos iguais. Tinham uma irmã: a Smurfete. Os Smurfs eram amigos do Mauro, meu irmão, que teve vários apelidos. Na época de porcão, seu apelido era Drida, aférese de podridão. O Mauro teve ainda sua fase de Toco, porque era baixinho. Bem, ainda é… Mas o Toco ficou mais velho e já é pai. O filho, Miguel, escapou de ser Toquinho.

Mas eu nunca vi apelidos tão criativos como os mencionados pela minha mãe e meu pai. Na época em que namoravam e viviam no bairro de Aparecida, havia tanta gente com apelidos tão fantásticos: Come-Cabelo, Leguelé, Tchosi-Tchosi e seu irmão Lhalhulha (que sonoridade!), as irmãs Fifica-Fogaça e as irmãs Paraibanas. Outros que povoavam o bairro: Zé Cavalo, Gaguinho, Nonato Cegueta, Urubu, Nilton Bocão (namorou minha tia Dile), o delgado Zé Vitamina, o Joreca, o Sindoca e aquele com problema na mão, o Jaime Esconde-Faca. Havia um gay que perambulava pelas ruas chamado Guilherme Porca-Vadia. As Três Virgens eram três irmãs que nunca casaram. Se eram virgens mesmo, nunca se soube. Tinha ainda o Melado, irmão do Codó e o Pirento, que quase vira meu tio, pois namorou minha tia Celeste. Eu seria sobrinho do Pirento… Poderia ter sido também sobrinho do Moska, que namorou a minha tia Céu. Não sei o que seria pior… Vagavam por lá ainda o Bate-Papo, o Rubem Rola (namorado firme da minha tia Teca), o Panelão e os irmãos Fátima Buchinho e Antônio Buchinho. O Antônio Buchinho não tinha nada a ver com o Antônio Titia, que recebeu o apelido por ser criado pelas tias. Tinha o Felinto, que sempre usava blusa e calça iguais. Hoje virou locução adjetiva familiar para descrever alguém que se veste assim: “O Paulo está de felinto hoje”. Esse é demais e autoexplicativo: Ingrid do Periquito Gordo. Genial. Ela criava pássaros obesos, acho eu.

Meu pai até hoje é conhecido por Bibi pela velha guarda do Bairro. Jefferson é coisa de cartório. O Bibi, na verdade, roubou a Lenoca, minha mãe, do Bacurau. Ainda bem, porque essa união deu na família Freire de Souza: o Biafra (Paulo), Eu, a Papau (Paula), o Drida (o já referido Toco) e a Djubi (Luciana), minha irmã caçula. E as filhas do Biafra: Érika Bodão, Mariah Noiada, Eliza Bladder (“bladder” é “bexiga” em inglês, porque a mãe é nefrologista. Se fosse menino ia ser Kidney, “rim”) e Pedro Conca, a cara do artilheiro do Fluminense.

Aliás, na família só tem apelidado: meus tios Babá, Tuta, Cado e as tias Gina, Preta, Dile, Bambi e Teca. Seus filhos (e meus primos): Rafa, Nirou, Nana, Piriri, Mana, Títi, Fabico, Rodi, Negão, Duda, Dani, Bagal, Bochecha, Baldaracci, Pupu, Zezé…

Até aqui falei de apelidos sociais. Há também os domésticos e amorosos. Marido e mulher (recém-casados, geralmente), namorado e namorado, amante e amante, todos têm um nomezinho carinhoso: Tchutchuca e Tigrão, Bê e Lá, Bimbo e Bimba, Sussu e Sassá. Você está rindo porque lembrou o seu, não é? Qual é o seu? Fofucha? Pikurrucha? Pikachu? Amore? Brankinha? Bebê? Fifinho? Ou seria Paizinho, Pitchula, Quindim, Patroa? Tem um casal que conheço que ele a chama de Cabeça-de-milho-verde e ela o chama de Cabeça-de-doritos-de-cebola. E outro que se chama de G-macho e G-fêmea. Esses apelidos são tão secretos e não têm nada demais quanto o segredo do Gerson: ninguém podia saber e foi um fiasco. Quanto a mim, não há problema, eu digo: a Bia me chama de Bliblows. Não é delicado da parte dela?

Mas enquanto é apelido, tudo bem. E quando o apelido é nome mesmo? Ou o nome é um apelido por natureza?

Em Crateús, Ceará, um casal depois de longos anos de casamento conseguiu ter uma filha. Registrou a menina no cartório com o nome de Formosura Perfeita Ideal do Nascimento. A menina cresceu, mirrada e triste, e era justamente o contrário, de uma formosura verdadeiramente imperfeita. Na cidade, todos a conheciam por “Feia Perfeita”.

Em Alagoas, José Sousa Alencar, jornalista no Recife, conta ter conhecido gêmeas com os nomes de Difuntina e Finadina. E eram primas de uma certa Filosofia.

Em Pernambuco, há um cidadão chamado Gueyglysayd Brasdileiro Neto – três gerações, portanto – irmão de Gylglaskony, Greydary; Grayny, Guueythchyly e Gylrryhar, esta a irmã.

O casal pernambucano Nivaldo e Hilman Naldim deu às filhas os seguintes nomes: Hydia, Hevylda, Henylda, Hexylda. Já o filho era apenas um sem graça Nivaldo Júnior.

É isso. Dia treze agora é o aniversário do Drida, meu irmão. Vou querer estar lá em casa, largado na cama dos meus pais, junto com meus irmãos, na conferência coletiva e digestiva de depois do almoço, de depois do peixe com murupi e farinha do Uarini. Com certeza lembraremos outros apelidos que constituíram nossa teia de relações sociais. Inclusive o daquele namorado da Paula, minha irmã Papau, que gostava de ser chamado pelo sobrenome porque o nome dele era ridículo. Eu não consigo lembrar mesmo. Mas ela lembra… Para quem quiser brincar mais com apelidos, vá nesse link.

E você? Qual é o seu apelido? Diz aí…

A formatura do cunhado

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Escrito em abril de 2002

Formatura é um momento muito importante na vida de qualquer estudante. Tanto quanto o primeiro beijo ou a primeira vez que dirigimos o carro do pai devidamente autorizados. Dá um friozinho na barriga. É um rito de passagem em nossa sociedade a ser seguido por seus membros, não importando se o formando há muito já trabalha na área em que se forma e que o diploma, muitas vezes, só venha trazer contribuições formais a seu conhecimento. No fundo, no fundo, o que conta mesmo é o ritual.

Acabei de chegar da formatura do meu cunhado. E formatura, pelo seu valor simbólico, é tudo igual. Como missa: só muda a igreja (umas maiores, outras menores) e o padre (uns chatos, outros não), sendo o boletim o mesmo. O que vou narrar aqui aconteceu na formatura dele, mas podia ter acontecido certamente na minha ou na sua.

Tudo começou com um telefonema da Ka, esposa desse meu cunhado, o formando. A Ka ligou ontem para comunicar que a formatura do formando era hoje. Essa decisão assim tão “antecipada” de avisar sobre o evento não me abalou. Já me acostumei com improvisos e com a bicho-do-matice do meu cunhado, que não gosta muito de badauê, como eu. A minha mulher, coitada, que morou nos Estados Unidos, ficou em pânico. É que ela possui uma listinha com tudo que ela tem para fazer e essa tal listinha tem, digamos, “uma carência” de pelo menos uma semana. Fugiu do prazo, os nervos dela tremem mais do que a economia da Argentina. Seu senso de responsabilidade inigualável é responsável por esse problema, mas não posso nem reclamar, pois ele já me salvou de várias.

Recado dado, depois do copo de água com açúcar da patroa, fomos ao shopping. Sim, porque formatura que se preze tem sempre o “agradinho” do formando. Eu tive que ir junto porque minha mulher queria comprar um conjunto de loção pós-barba ou um perfume para o irmão, que ela deve achar fedorento, suponho eu pela escolha. Eu, na condição de homem também, serviria como seu beta-tester, seria o responsável pelo test drive das fragrâncias. Acho que ela deveria ter levado a Ka, mulher do formando, pois é ela quem vai cheirar o moço, não eu. Cherei tanto perfume na loja que não era mais capaz de distinguir um Azzaro de um Seiva de Alfazema, um Styletto de um Água de Bosco, um Paco Rabanne de Veja Pinho Sol. Segundo pesquisas realizadas pelo professor Smelly Johnson, da University of Maputo, South Africa, publicada na Nature de janeiro, o nariz humano só consegue distinguir até a terceira tirinha de papel provador de perfume. Depois disso é tudo igual. Com o presente já comprado, eu zonzo de tanto álcool, mas de nariz cheiroso, chegamos em casa para tomar banho e nos aprontarmos.

Como estamos sem carro, pegaríamos carona com meu sogro para chegar ao auditório, palco da festa. A cerimônia estava marcada para começar às sete horas. Quinze para as seis, meu sogro avisa: “Estou pronto!” Tentei argumentar que formaturas sempre atrasam, mas foi em vão. Já viu genro ter razão? Conformei-me com minha condição de genro mero caroneiro. Vesti minha calça preta de microfibra zero-bala que estava guardando zelosamente para uma ocasião social, meti a camisa mais engomada do cabide (que nós, os mais velhos, costumávamos chamar de cruzeta), joguei meu perfume Polo Ralph Lauren no corpo todo (menos no nariz, claro), penteei o cabelo para o lado e zapt!, estava pronto. Partimos. Meu sogro ligou o carro e arrancou apertando a buzina especial que mandara instalar em sua pick-up: “Seguuuuuraaaaa, peãããããããããooooooo!”, berrava a geringonça.

Quando lá chegamos, descobri que meu cunhado, o formando, sabia os detalhes da formatura tanto quanto eu. Pelo menos ele ficou sabendo que formava em Processamento de Dados e que seu nome realmente constava da lista. Essa informação lhe foi repassada pela secretária do Instituto, uma senhora que, sem brincadeira, parecia ser patrimônio da faculdade. No braço direito trazia uma plaqueta de alumínio onde se podia ler “Tombamento nº 04353/65. Propriedade da União”.

O formando vestiu a beca, ajudado pela irmã e pela esposa, como manda o ritual. Já notou que todo formando parece um Batman debilóide? Um Batman com um babador de folho, tipo aquelas capas antigas de liquidificador, lembra? Aquelas que a mãe da gente colocava sobre a geladeira, do lado pingüim. Eu observei que todos os formandos homens estavam de calça preta, da cor da beca. Menos quem? Ao meu comentário, todos olharam para mim, ou melhor, para minha calça preta de microfibra nova.

Fui obrigado a ceder a calça e ficar com a dele, marrom. Acontece que nós, filhos de seu Jefferson e dona Helena, temos perninhas curtas. Nosso apelido na rua era família Mentira, não porque mentíamos mais do que todo mundo mente, mas exatamente por causa das perninhas curtas, que toda mentira tem. Eu fiquei, enfim, com uma calça pantalona, boca-de-sino, estilo “That 70´s Show”, e meu cunhado, o formando pernalonga, com uma calça preta nova, mas pega-marreca, tipo corsário. Aliás, corsário soa apropriadíssimo para um formando em Processamento de Dados, habituado a queimar CDs de programas.

Depois de enxotar uns quatro urubus de formatura (os fotógrafos que registram seu momento de glória a 25 reais a “chapa”), meu cunhado, munheca-de-samambaia, me designou como fotógrafo. Passou-me sua Olympus com um filme de 24 poses dentro, sendo que 20 já batidas durante sua viagem de lua-de-mel, feita há quatro anos. “Tem que acabar o filme!”, justificou-se, dizendo que não tinha nenhum outro adicional. Eu teria de ser um fotógrafo sintético: 4 horas em 4 fotos! Em um passe de mágica passei de convidado a serviçal. Coisas de cunhado. Ainda tive de ouvir uma senhora perguntando “para quanto” estava cada foto, moço…

Uma hora e meia depois que chegamos, a cerimônia começou. Eu ria feliz da vitória silenciosa sobre meu sogro e sua espera desnecessária. Fez-se silêncio e cantou-se o Hino Nacional, com o devido murmurinho naquela segunda parte que ninguém sabe cantar direito, seguido da velha controvérsia sobre se devemos aplaudir ou não ao final. Nisso eu notei que o auditório estava entupido de gente. Parecia missa do Padre Marcelo Rossi. Fiz o infeliz comentário de que fizemos muito bem em chegar cedo. Meu sogro riu feliz de volta, em silêncio e com sarcasmo.

Para cada dois adultos presentes, uma criança. Em cada criança, um estorvilho. Menino e formatura definitivamente não combinam. É como sanduíche de feijão. Não dá. Acho que Herodes teve aquela brilhante idéia em alguma formatura da qual ele era paraninfo. Sentado ao meu lado, um menino de uns 11 anos com uma carinha de peixe.  Sabe aquela carinha gorda, dentinho de baixo saliente, olhão esbugalhado? E de suspensório. Um pacu de suspensório. Pois o Cara-de-peixe não sossegava. Ia e vinha sem parar. Um faniquito. Minha mulher, nervosa com o peixe, chegou até a esticar a perna umas duas vezes, como uma tarrafa, para pegar o Cara-de-peixe, que não quietava mesmo. Numa dessa idas e vindas, achei por bem perguntar o nome do menino, afinal… Seu nome era Thiago. Thiago, o Cara-de-Peixe.

Entram os formandos: uma bat-reunião de uns 150, entre batmen e batgirls. Todos de babadouro com folhos e babando de felicidade, felicidade essa que só conhece quem já se formou. Iam entrando à medida que a Dona Patrimônio os chamava, um a um. TCHAC! Lá se foi a foto 21, na entrada. E, confesso humildemente, não deve ter ficado muito legal porque, na ponta da foto, peguei o cabelo laranja de uma moça que estava na frente do formando. Tudo bem, para esses casos é que existe a filosofia Omo: “não há aprendizado sem manchas”…

Já que eu era um fotógrafo, ainda que ad hoc, senti-me no direito de ter algumas regalias, como circular um pouco e sair de perto do Cara-de-peixe, irritante com seu vai e vem infindável. Fui lá para frente, de onde podia ver o público, atrás de alguma cara conhecida, que não fosse de peixe. Vi o seu Hidelfonso, tio de uma ex-namorada minha, conhecido na família dela por Chuck. É a cara do boneco do “Brinquedo Assassino”. Vi também a Dona Rita, amiga da minha ex-mulher, uma senhora da Renovação Carismática que tem locução interior, ou seja, fala com Maria, mãe de Jesus (bem, falava, pelo menos, não sei se ainda se falam). Reconheci entre os formandos o Mário, um ex-estagiário de informática do Departamento em que trabalho na Universidade. Gente boa. Está gordo, mas gente boa. E o Cara-de-peixe zanzando.

Outro que vi o Cospe-seco, um cara que jogava bola conosco no antigo colégio salesiano Domingos Sávio. Grosso para caceta, bem dizer um convocável de Felipão, o Cospe-seco era um perna de pau e cuspia seco mesmo, daí o apelido. O Cospe, todo cheio, professor da instituição, estava a rigor compondo a mesa, essa por sua vez vazia de outras autoridades chamadas para compô-la. Acho isso de uma indelicadeza e de um desrespeito paquidérmico para com os formandos. Mas tudo bem: a empáfia do Cospe-seco, sozinha, preenchia as cadeiras vazias. Por fim, vi o Ailton, um dos caras que mais invejei em toda minha vida. O Ailton, na terceira série, pegava com as mãos duas sauvonas da cabeça roxa e botava as duas para brigar. Morria de inveja. Tive vontade de perguntar se ele ainda fazia rinha de saúva, mas ele estava com a esposa e a filhinha e, talvez, pegasse mal.

Depois de um discurso breve do orador, como deveriam ser todos os discursos, e de um juramento no qual queimei a foto 22, começou o chama-chama. Um aluno universitário tem duas grandes e inigualáveis alegrias: ouvir seu nome na lista dos aprovados do vestibular e ouvi-lo de novo na dos formandos, na hora de receber o canudo. O curso do formando era o último em ordem alfabética. Imagine a espera.

Outra coisa curiosa: os gritos de “AÊÊ!”, “Muito bem!” e os assovios de parabenização da platéia são indicativos de quão difícil foi sair da faculdade. Os mais “atrasildos” são os mais festejados. Já notou? Meu cunhado, o formando, já sabendo disso, só convidou quatro pessoas. Mas foi devidamente aclamado por todos na sua vez, com direito a gritinhos orgulhosos e bregas de “meu irmão!” e “meu marido. Eu só resmunguei para mim mesmo: “meu cunhado…”. E o Cara-de-peixe circulando.

Tinha também um senhor bonachão, seu Jacinto (ouvi alguém chamá-lo pelo nome), muito simpático, com uma máquina na mão, conversando sem parar com a esposa. Ela usava um perfume tipo “cheguei, meu povo!” e uma blusa verde escura com uma saia verde-limão, presente da Amazônia Celular, eu acho. Ele perguntava insistentemente onde estava a Jacineide, pois queria porque queria bater uma foto. Ficaram os vinte minutos em que eu agüentei permanecer ao lado deles tentando achar, em vão, a Jacineide, perdida no meio da bat-conferência.

“Como gastar as duas últimas fotos? Já sei!”, pensei, “Uma na hora que o presidente da mesa botar o bolo na cabeça do cunhado-formando e outra na hora em que for assinar o livro!” Se bem que a mesa ficava meio longe e em uma espécie de altar – o professor Junior ia gostar dessa comparação -, só alcançável através das escadas laterais. Lá em cima só os fotógrafos profissionais e os cinegrafistas, os já citados urubus.

De repente, quem sobe para tirar foto de uma formanda, por trás da cabeça do presidente da mesa? O Cara-de-peixe! Sempre circulando. Foi tirar foto da sua irmã, a Peixa. Será que o Cara-de-peixe era peixe de alguém da mesa? “Ora, se o Cara-de-peixe pode, eu também posso”, ponderei. A Patrimônio chamou meu cunhado, o formando, para comparecer ao altar, digo, à mesa. Subi a escadinha e, na subida, esbarro de propósito no Cara-de-peixe, que vinha descendo. TCHAC! Foto 23: O bolo na cabeça. TCHAC! Foto 24: a assinatura do livro de ata. Missão cumprida.

Na descida, encontro na base da escada com o Mário, o ex-estagiário, tirando as fotos coletivas enquanto a solenidade comia solta lá em cima. Ele ficou feliz em me ver e me apresentou para sua turma. “Pessoal, esse aqui é o professor Sérgio Freire, da UFAM. Foi meu chefe. Gente boa. Tá meio gordo, né, professor? Mas é gente boa”. Dei dois tapinhas na costa dele. Um de despedida e um, mais forte, de agressão disfarçada pela falta de consideração. E o Cara-de-peixe, já recomposto do esbarrarão, continuava flanando.

Nisso, no fundo do auditório, chegam uma formanda e sua mãe, correndo, esbaforidas e atrasadas. Se a menina chegou atrasada desse jeito para a formatura, imagina para as aulas. O cabelo impecável, mil cachos, mil madeixas, bonito mesmo. Aparência: nota dez. O rastro de perfume que ela deixou ao passar por mim, no entanto, de tão forte parecia cola-de-sapateiro. Pontualidade e perfume: zero. Ainda passou na minha avaliação, com a média cinco.

Na saída, fui meio que empurrado por um senhor rechonchudo, pedindo licença meio que empurrando. Era seu Jacinto. Tinha achado a Jacineide e queria bater uma foto dela no trono dos formandos e eu, um estorvo – falar nisso, o Cara-de-peixe ainda perambulava -, estava no quadrículo de sua Nikon. Saí da frente, até porque a Jacineide também exagerou no perfume cítrico que usava. O cheiro do perfume dela sozinho era tão cítrico, tinha tanta vitamina C, que curaria o escorbuto de toda a tripulação de marinheiros do Titanic instantaneamente.

Fui-me dirigindo à saída, ainda pisando na barra da calça pantalona, boca-de-sino, quando cruzei com Dona Patrimônio, toda orgulhosa e cheirando a pura naftalina. Devia estar usando a roupa especial das formaturas. A mesma de sempre, desde 1963. Não sei, mas acho que os perfumes do Boticário desregularam minhas narinas. Até meu Pólo, indefectível, estava enjoativo. Ou isso ou todo mundo exagera mesmo nos perfumes em formaturas. Vou fazer uma pesquisa a respeito.

Fomos todos saindo quando ouvimos um barulhão. Alguém tropeçara e caíra em cima do tripé que sustentava a filmadora do fundo do auditório, levando tudo ao chão. Era o Cara-de-peixe, estatelado. Pega! Bem-feito! Não sossega…

Saindo dali, fomos para um rodízio comemorar. A fome já colava as paredes da frente e de trás de meu estômago, em um movimento gastro-canibal. Enfim, meu cunhado, já formado, poderia saborear os louros de anos de estudos, estando oficialmente habilitado para o exercício da profissão, “visando o engrandecimento da Pátria”, conforme juramento.

Fomos deixá-los, ele e sua patroa, em casa (no carro do meu sogro, ainda rindo internamente de mim, que eu sei). Tomei um creme de cupuaçu e pedi para ver o diploma, a fim de parabenizá-lo oficialmente. Lá estava escrito “Celso Jorge da Silva Medeiros”. Esse não é o meu cunhado, agora o formado. Depois de tudo isso, o figura ainda havia recebido o diploma errado. Mas parabéns a ele, assim mesmo, e que continue tendo o sucesso profissional que já tem.

Mas ele que não me convide a ir com ele na universidade trocar o diploma. De repente o chato do Cara-de-peixe aparece…

Pollyana vai ao banco

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Por mais bom coração e cuca-fresca que uma pessoa seja, há sempre alguma coisa que consegue invariavelmente tirá-la do sério. Não tem bom: fulano está no maior astral, a coisa se apresenta e o bom humor vira uma Challenger, indo literal e metaforicamente para o espaço.

Minha tia Céu, por exemplo, se irrita se alguém tocá-la com pé em sua perna. Ainda ameaça agredir com meleca. Um nojo. Minha cunhada Zuleica morre se alguém der uma petelecada no braço dela. Se ela tiver com uma faca na mão, é capaz de enfiar no peito do petelecador no reflexo da raiva. Tenho uma amiga que entra em transe selvagem se o marido comer o carnegão da melancia, aquela parte mais gostosa e macia que fica exatamente no meio. Enfim, todos temos algo que faz com que ultrapassemos o limite tênue entre o racional e o animal. Todos.

A minha “coisa” mais irritante é ir ao banco. Falou em banco, uma baba espessa e viscosa escorre pelo canto da boca, fico vermelho, a pressão sobe, o tesão desce, enfim, o dia acaba. Ou acabava. Depois de hoje, algo mudou.

Lá estava eu no porqueira do banco. Tinha de fazer um pagamento de um boleto cujo valor excedia o permitido pela maravilha do Internet Banking, de qual sou adepto desde a época dos BBS nos velhos MSX, lá pelo final dos anos 80. Não tinha mesmo outro jeito de pagar. Só indo lá.

Como estou ficando velho (e quem não está?), para viver melhor decidi de uns tempos para cá adotar a filosofia do jogo do contente da Pollyana: Tudo bom, tudo bem, toda hora. Há sempre o lado positivo das coisas.  Exemplo: um dia desses fomos à Praça do Caranguejo para bater papo, o pessoal lá de casa e meu tio Ribamar Bessa, o Babá, de passagem por Manaus. Na saída do carro, ao colocar o pé para fora, tio Babá pisou em um bolo cheio de glacê que algum porco havia jogado ou deixado cair no meio da rua, melecando completamente sua sandália de couro de jegue, made in Crato. Normalmente é para qualquer um se irritar com uma coisa dessas. Mas decidimos olhar o fato pela versão Pollyana: “Puxa, que bom que se atolou em glacê, hein, tio! Poderia ter sido merda…”, eu disse. Viu? Tudo é uma questão de perspectiva. E o papo foi ótimo.

Essa disposição para o feliz lembrou-me até da cena antológica do filme A vida de Brian, do grupo de humor inglês Monty Python. Na cena, os crucificados no monte – inclusive Brian, o personagem principal, sempre tomado erroneamente por Jesus – cantam alegremente pedindo, a despeito da situação complicada em que se encontravam, para que todos olhem sempre o lado belo da vida (“always look on the bright side of the life”). É um filme que vale a pena ver. Diversão certa. Nele você a filosofia Pollyana funcionando. Link para a cena: http://bit.ly/pzIp1

Com a disposição ligada, fui decidido a curtir a ida à agência como quem curte um filme do próprio Monty Phyton, ou melhor, como quem vai ser entrevistado pela Patrícia Poeta. Sem stress. Só barato

Ao chegar, a primeira surpresa: nenhum menino pediu para tomar conta do carro. Comecei a desconfiar que se tratava de uma pegadinha ou de um telegrama legal. Teria a Bia armado aquele pagamento só para me ver passar por bobo, naquele típico sadismo conjugal que só quem é casado entende? Entrei mais desconfiado que cego que tem amante.

Depois de voltar duas vezes na porta giratória por causa de uma moeda de dez centavos no bolso da calça e de um mini-grampeador guardado no fecho éclair interno de minha pasta, entrei. Dei bom-dia às gerentes, muito simpáticas por sinal. Talvez porque eu estivesse de blazer, oq ue me conferia um ar de cliente importate. Talvez porque eu tenha um charme próprio mesmo. Sem saber ao certo se a razão da simpatia, fui para a fila, encarar a “mardita”.

Como todos sabem, hoje fila de banco é fila grande. Para reduzir custos, eles fazem tudo para você não ir à agência: é telebanco, disk-caixa, celular, iPad, iPod, envelope cinza, envelope branco, caixa 24 horas, fax, pombo-correio.  Então, se você for, colega, prepare-se para a vingança. Vão te deixar horas mofando, com um só caixa, mais mole que requeijão Poço de Caldas.

Havia umas dez pessoas na minha frente. E uma só caixa (a requeijão). Não podia me irritar. Tinha que reagir: “Pollyana! Pollyana!”, repetia internamente. Passei então a exercitar meu divertimento preferido para desviar a atenção: observar as pessoas. Quanta coisa, quanta riqueza! Experimente fazer isso: sente-se em um banco no shopping, em um restaurante, e observe a biodiversidade humana que transita e conversa perto de você. É um show. O verdadeiro reality show. Big Brother e A Fazenda perto disso são cappuccino.

Os dois sujeitos que estavam imediatamente à minha frente eram um professor e um de seus ex-alunos. Pelo que pude pescar, o aluno ainda mora em um interior aqui perto, onde foi pupilo do tal professor, e vem à cidade de lancha quando precisa. O professor mora em Manaus, na Praça 14. Pelo menos foi o que li no endereço de um boleto de R$ 53,34 que ele trazia na mão. O aluno, já com 30 e poucos anos, contava ao professor o destino de todos os etevaldos, darcicleys e ronildas que com eles estudaram naquela sala de aula da hinterlândia amazônica. Vejamos: um casou e foi morar em Tarauacá. A outra engravidou do filho do prefeito e sumiu ninguém sabe para onde. Um tal de Nilton agora cria peixe ornamental e vende uma barbaridade para os gringos. A Josélia, coitada, morreu num acidente no “recreio” (barco) do seu Edmilson há 20 dias. Ela, seu Edmilson e mais quatro, inclusive a Shirley do seu Dário. E o Wandson está trabalhando como motorista lá em Urucu, no negócio do gás. E por aí foi. Em meia hora deu a ficha de todo mundo.

Mas de todas, a história que me impressionou mesmo foi a que ele contou em seguida à lista de paradeiros. O rapaz narrou para o professor o seguinte acontecimento: “Outro dia, professor, o pessoal da UEA foi lá fazer um treinamento de professores e disse que o professor tem de ser capaz de brincar, de sair daquela aulinha igual todo dia. Tem de mudar a aula, ser diferente, motivar. Eu levantei e fiz questão de falar para eles que há 20 anos o professor Gerilson já fazia isso”. Havia sinceridade, gratidão e orgulho em seus olhos, marejarados. O professor Gerilson, seu interlocutor, pelo que pude observar, também ganhou seu dia.

Nisso chega uma senhora, suada e esbaforida, reclamando. Mete-se na minha frente e diz, em tom nada amistoso, como se eu estivesse furando a fila: “Eu estava aqui! Não disse que a merda dessa fila ia demorar? Fui lá no mecânico ajeitar o vidro do carro e voltei e ainda tem uns dez na minha frente. Como é que pode, meu Jesus!? É uma droga! Porque, sabe, meu filho, o vidro do meu carro não estava levantando, aí resolvi ir consertar porque aqui sempre é assim. Já falei mil vezes para minha filha mudar de banco porque tralalá, trololó, trilili… Ei, moça! Não tem água pros clientes. É que já estou aqui em pé há muito tempo e tralalá, trololó, trilili…”.

A senhora tanto reclamou que a caixa disse: “Dona Creuza, por que a senhora não vem direto ao caixa? A sua idade lhe dá direito”. A caixa foi imediatamente apoiada e aplaudida por todos, ávidos por ver dona Creuza e seu azedume longe dali o mais rápido possível. Mas dona Creuza disse que não queria, porque tinha que respeitar a fila e tralalá, trololó, trilili. Em suma: ela era uma habituée do banco e abria mão de seu direito preferencial de atendimento graças à idade porque aquele era o prazer dela: reclamar da e na fila.

Já engatando a conversa na questão da idade, um jovem falante atrás de mim disse, dirigindo-se à dona Creuza: “Aproveite, minha tia! A senhora tem direito! Se fosse nos ônibus do T5 aí o bicho ia pegar. Ontem eu peguei o Tranquedo Neves-Centro e aí um velhinho entrou. Rapá…O motorista pediu a identidade, o vovô mostrou e o motora disse que ele ia ter que pagar, pois ele só ia completar 65 anos dali a dois dias. Ordem da empresa”. Pensei: se alguém nunca entendeu a lei dialética da mudança qualitativa, ali estava um bom exemplo. A quantidade leva à qualidade. Por 48 horas o velhinho do ônibus não era um velhinho de direito, mas um velhinho normal, como todos os velhinhos humilhados do Brasil.

“E aí, mano? O velhinho ficou calado?”, provoquei, para saber o seguimento da história, usando um vocativo de aproximação.

“Ficou mermo! Aí, mano, o velhinho escrotiou com o motora. Disse uma porrada de coisa pro cara, lá. Arretado o velho, bicho!”, respondeu ele no mais puro dialeto amazonense.

E a fila continuou a andar. Deu uma paradinha porque a caixa-requeijão saiu para puxar o carro dela que estava trancando outro lá fora. Coisas da nossa Manaus…

Na vez para ser atendido, estava um senhor forte, meio careca e de voz grave. E fios de cabelo saindo da orelha. Que coisa mais feia esse negócio de cabelo na orelha! Aqueles fios duros, grossos e espaçados, tipo os do cabelo do leo Moura, o jogador, saindo da cartilagem. Uma cena dantesca. Um porco-espinho. Fiquei preocupado: será que vai crescer cabelo na minha orelha? É repugnante, nojento como mocotó de véspera, de dar náuseas como dentadura em copo. IRCH!

Um outro sujeito reclamava dos bancos, em geral, e daquela fila, em particular. Mas conformava-se porque, segundo sua teoria, propagada com a autoridade de um Henrique Meirelles, presidente do Banco Central, daqui a uns dois anos só vai haver três bancos: BB, Bradesco, Itaú. E aí ele se sentirá vingado contra o banco em que estávamos, não citado na sua lista de sobreviventes. Por isso resignou-se à situação. “Só três bancos!”, repetia ele de vez em quando para alimentar sua paciência e sufocar a impaciência, num prognóstico tão pessimista para o sistema bancário brasileiro quanto o dos relatórios do Meryl Linch e do Morgan Stanley Bank.

De repente chega uma velhinha e vai lá para frente, furando legalmente a fila. Enquanto ela espera sua vez, chega outra velhinha mais velhinha ainda, perguntando se aquela era a fila dos velhinhos. A velhinha A vira para a velhinha B e confirma. A velhinha B, mais velhinha do que a velhinha A, pede para passar na frente, pois ela era a mais velhinha dentre as velhinhas. A velhinha A diz que não existe essa sub-regra na fila dos velhinhos. A velhinha B diz que existe, sim senhora. Enfim, começam uma discussão sobre filosofia da fila dos velhinhos.

Foram várias as intervenções no debate. O do cabelo na orelha (ARGH!) disse que a velhinha B deveria passar na frente porque era mais velhinha. O jovem do “causo” do ônibus discordou. Disse que se fosse assim, na fila dos comuns, os mais velhinhos – não tão velhinhos a ponto de ir para a fila dos velhinhos – tinham que passar na frente dos jovens e ele “não ia dar esse mole pros tios nem com os caceta”. O Meirelles baré, presidente do BC, disse que essa discussão será irrelevante daqui a alguns anos, pois só vai haver três bancos.

O caso só foi resolvido por dona Creuza, a reclamona. Para acabar com a discussão, ela decretou que ela, sendo mais velha que A e B, usaria seu direito e seria a primeira da fila dos velhinhos, sendo que B seria a segunda e A, a terceira, como nos velhos problemas de matemática. A não gostou muito, mas, democrata que era, cedeu. Palmas da torcida, feliz com o fim do bate-boca. Com a paz, o atento segurança colocou o revólver de volta ao coldre.

Depois das velhinhas, do cabelo na orelha (BLERGH!), do Greenspan (“só três bancos!”) e do professor e seu ex-aluno, chegou minha vez. Olhei para trás e confesso que senti aquela mórbida satisfação que quem está lá na frente da fila sente ao ver o quanto os outros “novatos” das fila ainda vão ter de esperar. Dei um riso sádico e fui até à caixa, antes que chegasse uma velhinha D.

Problema: não pude pagar porque esqueci o talão de cheque no carro e para efetuar saque com o cartão do banco tem de respeitar um limite máximo. “Pollyana! Pollyana!”. Saí da fila, fui lá fora buscar o talão. Quando voltei, a caixa disse para eu ir direto com ela, no que recebi um olhar fulminante das velhinhas D e E, que haviam chegado.

É claro que não fui. Voltei para o final da fila, onde esperei por mais 52 minutos, tempo suficiente para ouvir mil outras histórias. Mas essas eu conto numa próxima vez. Agora estou preocupado porque descobri que tenho de arranjar outra “coisa” que me tire do sério, pois com a filosofia Pollyana ir ao banco virou lazer.

Na ida ao carro, para pegar o talão, aproveitei para olhar no retrovisor: eu ainda não tenho cabelo na orelha. Blergh! Que nojo!

Reunião de Condomínio

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Reunião de condomínio  tem algumas peculiaridades que se repetem independente do local.

Ontem teve reunião aqui no meu condomínio, que começou depois da primeira convocação, claro, quando o quorum chegou. A Bia, que nunca morou em apartamento, decidiu ir comigo para conhecer a coisa por dentro. Depois que casei pela primeira vez, sempre morei em apartamento. Portanto, decidi que poderia muito bem servir de guia traquejado para explicar para a debutante do momento as coisas que aconteceriam. Além de tudo, eu sou presidente do Conselho Fiscal, eleito democraticamente durante minha ida ao banheiro na primeira assembléia. Sou autoridade, respeito é bom e eu gosto.

Didaticamente, como compete a um professor, comecei explicando que a primeira coisa a ser feita pelo recém-chegado numa reunião de condomínio é tentar identificar os mocinhos e os bandidos. Tem sempre dois grupos antagônicos que se enfrentam. Dependendo do nível de sofisticação do condomínio, esse número pode ser até maior. Quanto mais sofisticado, mais barraqueiros. São eles que animam a festa.

Uma vez mapeado os grandes grupos e decidido em qual ficar, é preciso passar a uma segunda etapa e mapear as figuras individualmente. Tem sempre o chato, o Maria-vai-com-as-outras e a antipática que acha que sabe tudo e se acha a última jujuba do saquinho. Tem sempre o japonês que fala pouco mas presta uma atenção danada. Tem também o dirigente, que gosta de estar ali naquela posição que controla as falas, exercendo o poder moderador. Tem o sujeito que sempre levanta a interminável questão dos inadimplentes. Tem os inadimplentes abusados, que não pagam, mas vão à assembléia e querem votar. Eles inexoravelmente fazem parte do grupo em que não está o levantador de questões sobre inadimplência, lógico. Tem aquele que reclama que a taxa do condomínio está alta, que é geralmente um pré-inadimplente. Tem a gostosona, que recebe olhares, fulminantes e indisfarçáveis se  vindos das esposas feias, e gulosos, se vindos da macharada. Ah, tem também sempre aquele exemplar que diz: “lá onde eu morava, era assim, ó: blá-blá-blá”. Tem aquele outro, baixinho e gordo, com uma pochete ridícula, que sempre insinua que o síndico está metendo a mão. Tem o síndico, que se injuria com as insinuações e coloca o cargo à disposição. Tem aquele casal de namorados, que não desgruda e que está junto há doze anos, um ano a menos do que o enrolão do Amaro, meu primo que é webdesigner da Suframa, noivo há treze. E tem nós, claro, que estamos fora de qualquer classificação por motivos óbvios.

Além dessa fauna, há também o comportamento do ecossistema para ser analisado. A Bia ficou intrigada com o fato das discussões se concentrarem em pontos quase sempre secundários e serem completamente repetitivas. Pacientemente, eu disse a ela que reunião de condomínio com objetividade e sem repetição não é reunião de condomínio. Faz parte do caráter da instituição ser assim. Senão esculhamba. Minha explicação sobre o assunto equivale, assim, a dizer para o neófito do buraco que o dois é curinga. Coisa básica, sabe? Isso depois de eu ter de convencê-la que ela não podia votar também.

Depois de muitos repetitiones e do saco cheio, finalmente chega-se às votações. Vota-se tudo, pois, claro, o condomínio é um espaço democrático. Mas primeiro vota-se sempre pelo adiamento de uma parte da pauta que ninguém terá paciência de discutir. Cada votação é sistematicamente seguida de uma recontagem porque parece que o japonês do 401 não levantou a mão direito – ou seu braço curto deu ilusão de ótica. Conta de novo. Mantém o braço até o gerente da mesa contar. Estica, japa! Vota-se para ver se já está na hora de votar. A sabe-tudo, tendo seu voto vencido, reclama da votação perdida e sai resmungando. O chato levanta a mão e sempre declara voto, desfiando um rosário de razões pelas quais votou na proposta do Humberto do 202 da torre 1. Nem o Humberto do 202 da torre 1 aguenta esse chacrilongo.

Quando acaba a assembleia, geralmente perto de meia-noite, tem a parte dos comentários outdoors. Cada grupo se reúne informalmente no caminho para seus apartamentos e comenta os absurdos das propostas sugeridas pelo pessoal da outro facção. Lamenta-se, claro, a ausência do Roberto do 403, que se tivesse comparecido teria feito a diferença para nosso lado na votação. O desconfiado da pochete sempre acha um momento para dizer: “sei não, mas acho que se apertar esse síndico, ele peida. Acho que aí tem!”

Para fechar o esquema, depois dos boas-noites no elevador, ao entrar no apartamento, o casal – eu e a Bia, no caso em tela  – comenta entre si o que percebeu mas não pode ter sido dito na hora. Isso porque a fofoqueira do 601, aquela do cabelo roxo, da calça de lycra colada e parecendo o bonequinho da Michelin de tanta dobrinha, estava bem atrás de nós, de trela com o louro do bloco 3, ambos prestando uma atenção danada: ela na minha conversa e ele na bunda da gostosona, encostada na porta de pé de propósito.

Depois dessa, parece que minha patroa decidiu que acha melhor morar em casa mesmo. Não gostou muito da experiência, pelo jeito. Numa casa, o sistema é outro. Nada de democracia fajuta cheia de verborragia. Em uma casa, nós somos déspotas, soberanos – “nós” modifalar: elas são. A mulher decide e está acabado. O marido, os filhos e o cachorro é que se atrevam a discordar. Paredon

Hora de dormir. Quando supero o aumento da taxa de condomínio – maldito Roberto do 403! –  e caio no sono, sou acordado pela digníssima consorte. Ela pergunta ansiosa: “Amor, amor! Pra quando mesmo foi marcada a próxima reunião, hein?”. Me abstenho de continuar escrevendo. Eu, Sérgio Augusto Freire de Souza, apartamento 603, bloco 1, lavro essa ata que, depois de lida e aprovada, deverá ser assinada por todos os presentes.

29 de janeiro de 2004

Eu, daqui a 20 anos

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Em 20 anos, ainda enxutão… http://in20years.com

Os Dez Mandamentos do Twitter

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Twitter? @sergiofreire1 – Preferirás o Twitter sobre todas as outras redes.

2 – Não usarás seus 140 caracteres em vão.

3 – Guardarás o #FF e MusicMonday para esses dias.

4 – Respeitarás os old hands que chegaram antes.

5 – Não darás block ou unfollow, mesmo quando queres matar.

6 – Só adulterarás para o RT caber.

7 – Não furtarás tweets alheios.

8 – Não farás RT criticando @teuproximo com @.

9 – Não protegerás seus Tweets.

10 -Não cobiçarás os followers do @teuproximo.

Amém.

Isso é que é

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Estraga o prazer contar a história...

Sentidos…

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Depende de quem interpreta...

Sociolinguística capitalista

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O fax do nirso

Um gerente de vendas recebeu o seguinte fax de um dos seus novos vendedores:
”Seo gomis, o criente de belzonte pidiu mais cuatrucenta pessa. Faz favor tomá as providenssa.  Abrasso, nirso.”

Aproximadamente uma hora depois, recebeu outro:
”Seo gomis, os relatório di venda vai xegá atrazado proque to fexando umas venda. Temo que manda treis mil pessa. amanhã tô xegando.  Abrasso, nirso.”

No dia seguinte:
”Seo gomis, num xeguei pucausa de que vendi mais deis mil em beraba. tô indo pra brazilha. Abrasso, nirso.”

No outro:
”Seo gomis, brazilha fexô 20 mil. vô pra frolinopolis e de lá pra sum paulo no vinhão das cete hora. abrasso, nirso.”

E assim foi o mês inteiro. O gerente, muito preocupado com a imagem da empresa, levou ao presidente as mensagens que recebeu do vendedor.
o presidente escutou atentamente o gerente e disse:  ”Deixa comigo, que eu tomarei as providências necessárias.”

E tomou. Redigiu de próprio punho um aviso e o afixou no mural da empresa, juntamente com as mensagens de fax do vendedor:
”a parti de oje nois tudo vamo fazê feito o nirso. si priocupá menos em iscrevê serto, mod vendê maiz. acinado, o prizidenti”.