infância

As vitrines

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Para Ana Clara e Marina.
Quando tinham 4 e 3 anos.

Eu te vejo sair por aí/Te avisei que a cidade era um vão/- Dá tua mão!/- Olha pra mim!/- Não faz assim!- Não vai lá não!/Os letreiros a te colorir/Embaraçam a minha visão/Eu te vi suspirar de aflição/E sair da sessão, frouxa de rir/Já te vejo brincando, gostando de ser/Tua sombra a se multiplicar/Nos teus olhos também posso ver/As vitrines te vendo passar/Na galeria, cada clarão/É como um dia depois de outro dia/Abrindo um salão/Passas em exposição/Passas sem ver teu vigia/Catando a poesia/Que entornas no chão…

Ontem eu fui buscar minha filha na escola. Cheguei cedo e pelo vidro, escondido,  fiquei olhando aquela menininha, cabelo preso com um rabo de cavalo, sentada na carteira escolar, copiando a tarefa escrita pela professora no quadro. Ela está no terceiro período, sendo alfabetizada. O inusitado é isso: quando a realidade bate em sua cara com uma sandália havaiana molhada e cheia de terra.

Recobrando os sentidos, olhei e me dei conta de como é independente a minha filha de quatro anos. Já não mais chora para pedir leite, dorme sozinha, dispensando meu canto de outrora, cujos falsetes desafinados embalavam o seu sono, às vezes o nosso. Já escreve seu nome na firmeza do lápis. Já tem uma identidade que a distingue. Já tem gostos só seus. Sabe o que quer com firmeza. E o que não quer com certeza. Toma a frente para fazer as coisas, para experimentar. E só tem quatro anos, a minha menina. Em dois planos, vi duas cenas olhando para o mesmo lugar: pela janela da sala, a minha filha já sendo. Na janela da sala, pelo reflexo, um pai se dando conta de que a vida segue.

Enquanto eu escrevo, olho os vários porta-retratos de minha filha espalhados em meu escritório com suas fotos: um bebê, uma menina cambaleante, segurando as mãos do pai, uma menina em gargalhada aberta sentada no chão da calçada junto comigo a aconchegá-la, protegendo-a entre minhas pernas, numa tarde de pai e filha e velocípede. As fotos passam com um filme, quadro a quadro, lembrando que o tempo passa e ela cresce. E escapa líquida pelos meus dedos.

Fico pensando o dia em que minha criança sairá sozinha pela primeira vez. Nesse dia decretará o brado retumbante às margens de seu Ipiranga particular. Deixará um pai órfão de sua obrigação perene de pai: acompanhá-la por onde for. E eu terei que vê-la sair por aí… Não sem antes avisá-la repetidamente do abismo que é a cidade, o mundo. Definitivamente, o mundo não foi feito para pais. Pais sofrem com mundo. Ele ameaça o que têm de mais sagrado: seus filhos. Ah, filha, cuidado! O mundo é um vão…

O paradoxo de saber da necessidade de que os filhos se vão para ser gente e ao mesmo tempo em acreditar no instintivo pátrio dever da proteção eterna nos faz pensar em dizer, com rigor paterno: – Dá tua mão! – Olha para mim! Não faz assim! Não vai lá, não! – Fica aqui, deixa eu cuidar de você. Para sempre. Para sempre… Filhos são para sempre. Filhos se demoram. Essa é sua beleza. Mas o pacote traz junto com os filhos a vulnerabilidade eterna. Filhos são nossos alicerces e nossa vulnerabilidade. Sem eles, Deus nos livre, o nosso mundo desmorona, cai em pedaços. Sem eles, nossa vida se agriculturiza e vira vegetativa.

Mas tudo bem. Saiam. Ganhem o mundo. Ganhem os prados. Por via das dúvidas, vamos atrás, de longe. Só por garantia. Ficamos somente olhando. Sem se meter. Prometemos. E eles saem…

Na nossa certeza, vamos estar lá, pulando em frente de carros, lhes salvando contra ladrões, feito Sportacus avisados pelo nosso coração. Estamos prontos para intervir no primeiro susto. Mas cadê o susto que não vem?… Nossas crianças passeiam com desenvoltura pelas ruas. Os letreiros das lojas e fachadas vão lhes colorindo na passagem como se lhes saudassem a vinda e a vida. A vida de quem faz sua subjetividade na independência que, pretensiosos, julgávamos impossível sem nós. A falibilidade já nos tinha sido anunciada: quantas vezes pedimos impotentes que a febre passasse para nós?

Nossa ansiedade aumenta. Seguimos os passos de nossos filhos, mas os nossos passos vigilantes são hipérboles supérfluas de amor, desnecessárias, vãs. A cidade é um vão… Os letreiros brilham por sobre nossos filhos e embaraçam a nossa visão porque não conseguimos – ou não queremos – vê-los desenvoltos por lugares que outrora nós mesmos pisamos em falso, buscando nós próprios a nossa luminosidade.

Viramos espectros de seus caminhos. Se vão ao cinema, ficamos furtivamente na última fila, incógnitos. Estamos prontos para oferecer o ombro e o colo ao surgir o primeiro monstro na tela, um Robin Rotten, sei lá… Somos capazes de perceber a aflição suspirada, afinal conhecemos cada centímetro daquele ser, cada fio de cabelo, cada jeito de olhar, cada um dos 21 gramas daquela alma. Dizem que alma tem 21 gramas. Se tem, eu conheço cada um dos gramas da minha filha. Não duvide de um pai. Mas não… Vou me desnecessarizando de sua vida,  como as rodinhas da bicicletas, que uma dia foram fundamentais e depois, de repente, viram-se descartáveis. Com um outro, um substituto de mim, minha filha de repente sai confortada, alegre, frouxa de rir. E eu morro um pouquinho na quebra da minha certeza de que só eu era capaz de fazê-la rir daquele jeito. Sinto-me arrasado como quando trocamos amores em miúdos. Claro, mas é assim, é assim, sabemos… Componha-se!

É. Tem uma hora que a gente percebe que os filhos começam a gostar de ser. Desenham paisagens com seus próprios crayons, recortam o mundo com sua própria tesoura do desejo. Suas sombras a se multiplicar nos inquietam na impossibilidade de seguir cada uma delas. Vamos deixando de ser os pais que ocupam os espaços para  sermos pais que liberam espaços para os filhos como condição primeira para continuar sendo pais. É preciso se esvaziar de presença para estar presente: é esse o oximoro paterno.

Quando ela volta para casa, faço cafuné, abraço, beijo suas bochechas. Olhos nos olhos e nos seus olhos eu posso ver as vitrines do mundo a vendo passar nas galerias da vida, das querências, dos desejos, dos medos, das (in)certezas. Cada clarão refletido em suas pupilas é como o raiar do sol de um dia depois de outro dia depois de outro dia depois de outro dia. Olho em seus olhos os reflexos do porta-retratos do bebê risonho e do pai que o segura, feliz. Serão sempre os bebês os nossos filhos. E que abram, em cada passo que derem, mil salões de alegria, de sucesso, de ternura. Que não esqueçam a ternura ao passarem expostos ao mundo.

É com ternura que serei o eterno vigia de minha filha. Vigia que ela nunca vai ver lhe vigiando e lhe sufocando, pois precisa ganhar a segurança da liberdade. Um vigia que vai zelar sempre por ela, a cada dia, em cada galeria, no reflexo de cada vitrine, de cada vidro de janela das sala de aula da vida. Que vai estar catando toda poesia que ela derramar no chão, que será guardada naquela velha caixa cor-de-rosa onde estão depositadas as primeiras, aquelas entornadas e recolhidas naquele dia de felicidade indescritível na maternidade…

Catando conchas

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Em 1977, meu pai nos levou, meu irmão mais velho e eu, para férias no Rio de Janeiro. Eram tempos bicudos. Ficamos em casa de parentes para economizar. Eu tinha nove anos quando vi o mar pela primeira vez. Eu, um ser dos rios, nunca esqueci a primeira vez que meus olhos me viram no reflexo das ondas. Senti vontade de pedir para meu pai e para meu irmão para me ajudar a olhar aquele mar, de tão grande.

Minha diversão naquelas férias foi recolher conchas do mar. No primeiro dia, recolhi conchas dos mais variados tipos, cores e tamanhos. Lindas. Eram as conchas a materialização do meu primeiro contato com o mar, as lembranças vivas de que eu estivera ali. Enchi um saco plástico enorme com elas.

À noite, um fedor fenomenal tomava conta da casa da Tia Ernestina, nossa anfitriã.  Consternado, tive de jogar fora minha primeira coleta de conchas selecionadas. Foi quando aprendi que quando se retira algo do mar, como as conchas, devemos lavar com água doce. Jamais esqueci. Colecionei conchas naquele verão. Devidamente lavadas e processadas. E elas vieram comigo para Manaus e fizeram o maior sucesso com meus colegas da 4a série da Professora Polari.

Hoje, minha filha Clara foi para praia com um propósito: recolher conchas. O tempo voltou num túnel de lembranças para aquele Rio de 1977. Fui com ela da areia da barraca à areia da praia, onde as ondas lambiam o chão, trazendo e levando conchas, num jogo de manja-pega pensado por Deus para divertir pais e filhos. No caminho para o mar, lembrei-me da criança de nove anos. Molhei o rosto para misturar às lagrimas a água do mar, ambas salgadas. Recolhemos, Clara e eu, conchas dos mais variados tipos, cores e tamanhos. Lindas. A cada concha um sorriso de uma conquista e uma exclamação: “- Olha, pai! Que linda essa!”

Brincamos no mar por um bom tempo. Tanto Clara quanto Marina perdendo o medo de se soltar e enfrentar sozinhas o vai e vem das águas do Guarujá. Entre um caldo e outro, um choro, depois sorriso, entremeados. Clara não dava o braço a torcer: “- Tranquilo, pai! É só água!”, dizia passando a mão no rosto. Marina, tão mais atirada na vida, respeitou o mar com mais reverência. “- Só vou se você for comigo!” A vida requer estilos diferentes para momentos diferentes. Achei digno.

O que isso tudo significa na metáfora da vida?

Minhas filhas vão explorar terrenos novos, vão levar caldos e cair, beber água, tossir e levantar. Vão seguir em frente, tentando não sentir a queda. Por um bom tempo – queira Deus que um bem longo -, eu estarei lá para lhes segurar as mãozinhas confiante no pai. Mas vai chegar um dia em que elas vão ter de pisar no mar da vida sozinhas, sem mãos para lhes dar apoio e suporte. Vai chegar um tempo em que minhas meninas vão tomar seus rumos e decidir se vão querer ficar na areia ou ir embora para o oceano vasto do mundo. Vai chegar um dia em que elas catarão conchinhas em areias que seu pai sequer sonhou em pisar.

É o ciclo da vida. É assim. Mas não deixa de me angustiar. Todo pai e toda mãe queria, se pudesse, carregar seus filhos no colo para sempre. Mente vergonhosamente quem diz que não. De vez em quando, se me conheço, tomarei minhas filhas pela mão e lhes convidarei a buscar conchas num passeio a dois. Mesmo quando forem grandes e tiverem suas famílias. Será o nosso tempo de reviver nossos encontros do hoje presente. E, tenho certeza, acharemos conchas dos mais variados tipos, cores e tamanhos. Lindas. E as lavaremos com água doce para lhes tirar o excesso de sal. Não é assim que devemos fazer com a vida?

Hoje Clara aprendeu que é preciso que a gente faça a nossa parte para as coisas saírem como planejadas. Ela já separou as conchas para levar. Farão um sucesso incrível com a turma do 3o Período. E lá na frente, quando ela estiver catando conchas com seus filhos, o vento soprará a nossa viagem ao Guarujá em sua memória. E ela, junto com os filhos, achará conchas dos mais variados tipos, cores e tamanhos. Lindas. E lembrará a eles que é preciso lavá-las para levá-las. Mas que, acima de tudo, é preciso catar conchas com os filhos.

Memória e gênese

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Essa é a família Barbapapa...No rádio do carro toca “Hard to say I’m sorry”, do grupo Chicago. Comento com minha mulher: “essa música era da trilha de Sol de Verão, com o Jardel Filho”. Como resposta o silêncio. Em seu rosto um ponto de interrogação de quem pergunta: “Jardel quem?!”

Caiu a ficha. Percebi que estou chegando aos quarenta. É só ano que vem, mas meus 39 completados dia seis me colocam numa geração bem específica, aquela que ainda usa expressões como “cair a ficha”. Sou da geração Barbapapa.

A geração Barbapapa assistia ao Globinho, com a Paula Saldanha, e ao Sítio do Pica-Pau Amarelo, na primeira versão. Sofremos com o anjinho da asa quebrada, tivemos medo do Minotauro e da Cuca. Fomos ao fundo do mar com o Aquaman e embarcamos no Seaview, o submarino do almirante Nelson e do marinheiro Kowaski. Torcemos pelos pequeninos em Terra de Gigantes, lamentamos que Tony e Doug não pudessem voltar ao presente em O Túnel do Tempo. Paquerávamos as panteras (a Kelly era minha favorita). E o Agente 86, que foi o precursor do usuário de celular? O dele funcionava num sapato. O tema da Swat embalou muita brincadeira nas ruas do Parque Dez.

Nossos desenhos preferidos eram Mighty Thor, Os Herculóides, Os Brasinhas do Espaço, Os Jetsons, Jambo e Ruivão, Matraca Trica e Fofoquinha, além das Turmas do Zé Colméia e do Manda Chuva.  Para nós, pessoa para baixo sempre será um Hardy, a hiena: “Ó, céus! Ó, vida! Ó, dor”. Ninguém se preocupava com o politicamente correto: Tom & Jerry era uma pancadaria só.

Solidarizávamo-nos com a recorrente solidão do desamado Didi e choramos quando sua cadelinha morreu em “O Trapalhão nas minas do Rei Salomão”. Soluçamos embargados em “ET”. Fomos aos prantos com o pranto do garotinho em “O campeão”. Perguntamos, curiosos, quem matou Odete Roitman.

Brincávamos de Vai-e-Vem, cangapé, Front, Forte Apache. Havia ainda as manjas, a Barra-bandeira e o Garrafão. Lutávamos com o Falcon olhos de águia. Colecionamos os Futebol Cards do chiclete Ploc e as tampinhas com personagens Disney do Bingola. Tínhamos álbuns de figurinhas de todo tipo. Paolo Rossi foi o carrasco de nossa adolescência.

Vestimos verde limão e laranja berrante para estar na moda do New Wave. Compramos o disco da Blitz e demos de presente no dia dos namorados o compacto em formato de coração do Melô do Piano. Odiamos os Menudos e curtimos Duran Duran, Phil Collins, Cindy Lauper, Barry White e Michael Jackson, antes da metamorfose. Fomos dançar na Brilho, onde hoje é o Amazonas Shopping, e na Red Zone. No fim da noite, lanchávamos no Rock Burger ou no Barra Lanche, no Parque Dez. Genesis, Tears for Fears e Pet Shop Boys eram a trilha de nossa noitada.

Escreveria semanas sobre isso. Mas já deu para eu lembrar com saudade o tempo que passou. Estou nesse momento ouvindo a música do desenho dos Barbapapas, que recebi por e-mail. Quem quiser, me peça no sergio@sergiofreire.com.br. A nostalgia é deliciosa.

Se eu parasse no tempo, hoje não veria o sorriso de minhas filhas, que agora tecem suas memórias afetivas da infância. Quando forem mães, seus filhos perguntarão: “Backyardigans?! O que é isso?!” Recordar significa “passar de novo pelo coração”. Quem não faz isso não conhece o que lhe sustenta como pessoa, vive uma vida sem história. A vida é feita de memória e gênese. Há o que alicerçou e há os novos tempos. Vide este jornal. Vide a vida de cada um de nós. E feliz aniversário para mim.

Sérgio Augusto Freire de Souza

Jornal Em Tempo, 05 de setembro de 2007

Clássicos da infância

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Esse episódio de desenho animado é um clássico da infância. Rever o Sapo Cantor foi como voltar no tempo. Vale a pena. “Hello, my babe! Hello, my darling!”. Impagável…