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Tempo

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Ontem o tempo voava, escorria pelas mãos. Hoje o tempo vem e vai à velocidade dos zeros e uns, à velocidade da luz. Nossos olhos acostumados não o veem mais porque não têm fôlego para acompanhar o novo tempo, esse alucinado. Por mais destras que sejam, nossas mãos não conseguem mais pegá-lo, nem pelo instante ilusório um pouco antes de ele se esvair por entre os dedos. Porque ele não se esvai mais. Ele é impegável. O tempo, que já foi sólido lá atrás, acaba de deixar de ser líquido: agora ele é holográfico. O presente foge em fast forward e o futuro não passa de um desejo abstrato, uma ficção. Tudo é já sempre passado. Por isso estamos todos correndo para a nostalgia ou um mashup dos tempos, num steampunk que alivie as dores. Para lidar com o inelutável, nos resta viver pela intuição. Assim, perdemos menos a vida, que, como de costume, segue os caprichos do tempo.

Jogando o gelinho

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Eu cheguei, eu comecei agitar/Vi a galera com o braço pro ar/com o DJ fazendo o povo dançar/Eu vi , aquela menina passar/com o corpinho pra se apaixonar/fiquei jogando gelo pra ela me olhar/Eu vi, ela passando eu vi,Ela dançando eu fiquei só/Jogando gelo/ Vai Vai Vai eu jogo um gelinho/vai vai /Eu quero um beijinho/vai vai Eu quero um amor/Vai Vai Vai eu jogo um gelinho/Vai Vai Eu quero um beijinho/Vai Vai eu quero um alô/Eu vi, ela passando eu vi, Ela dançando eu fiquei só jogando gelo…

O mundo gira e a Lusitana roda. Se você tem menos de trinta anos talvez não entenda a frase, que veio da publicidade. Lusitana é uma empresa de transportes. A frase se tornou popular com o significado de que “o mundo dá voltas”, “a vida segue”, “os tempos mudam”, em um daqueles lances da publicidade que grudam e se incorporam na cultura brasileira. Como tudo na linguagem, expressões são assim, dinâmicas. Vêm, vão, apagam-se as histórias e a memória que as criaram. Eu gosto da memória.

Em geral, as pessoas têm a tendência de tratar com carinho o passado. Sou um nostálgico. Amei “Meia-noite em Paris”, do Woddy Allen, para você ter uma ideia do que estou falando. Acabo de curtir e compartilhar no Facebook uma foto da primeira versão do Sítio do Pica-Pau Amarelo. Marmelada de banana, bananada de goiaba, goiabada de marmelo. É gostoso evocar um tempo de felicidade. Cada um de nós tem seu álbum de memória afetiva, com seus Sítios, Menudos, He-mans e Barbapapas. Mas a vida não é feita só do passado. Ela é feita do presente, que, não esqueçamos, depois vira passado.

Se por um lado sou um nostálgico assumido, por outro sou um curioso pela vida que se apresenta. Não me permito morar no tempo que se foi. Para mim, o tempo que se foi é o meu lugar favorito para passear. Mas é no presente que você vê a vida acontecendo. Sampleando a frase famosa, dá para dizer que o presente não é mais como era antigamente. Por que mesmo que estou falando disso tudo? Pergunta justa, caro leitor impaciente.

Na minha época de jovem paquerador, eu geralmente usava a música e as palavras para chegar junto de uma menina. Eu era muito tímido para cair matando, como faziam uns amigos meus, cuja determinação e pegada eu admirava. Tudo bem que para certas coisas um pré-requisito conta: os caras eram bonitos e eu nunca fui. Então, eu tinha de compensar de outra forma. Preferia deixar subentendido. Sempre gostei de dar flores, escrever bilhetinhos, fazer sonetos. Eu e outros meus irmãos homens somos feito dessa massa. Culpa da minha mãe. Preferimos o jeito à força. Mas o mundo gira e a Lusitana roda. E os tempos mudaram.

Na era de redes sociais, em que a linguagem é o fio que conecta a rede, as formas de conquista vivem guinadas e reconfigurações interessantes. Os sentidos do carinho que se busca e se oferece ganharam novas formas. Eu cheguei a mandar telegrama de amor. Hoje, o telegrama de amor vem em forma de um tweet solto no Twitter, de um reblog no Tumblr ou de um curtir no Facebook. Dizemos para alguém que seu sorriso nos encanta – ainda que jamais o tenhamos visto ao vivo – numa mensagem compartilhada ou em um emoticon no inbox. Curtimos fotos postadas em tempos atrás para sinalizar que estamos ligados, stalkeando por atração. A mensagem é “estou passeando por você”.

Em tempos digitais, a atração se dá de forma invertida do que se dava nos tempos do ronca. Antes, o aspecto físico tinha um peso bem maior do que tem hoje. Àquela época, a coisa era tête-à-tête. Hoje mudou: é mouse-a-mouse. Por isso, nos apaixonamos pelo que a pessoa é, diz, pensa, comenta, ama e odeia para só depois prestar atenção no físico. E antes que os comentadores pulem no meu pescoço me criticando, eu esclareço: não estou dizendo que a atração física não conta. Claro que conta. É biológico. Até motiva o primeiro clique. O que estou colocando como ponto de reflexão é que os tratos pessoais desempenham uma função bem mais determinante agora do que nos tempos da Chispita. Isso é fato. Amores de internet tendem a dar mais certo porque surgem de encontros de alma primeiro e só depois vão para o corpo. Essa ordem é sempre mais garantida. Enfim, meu ponto aqui é de que talvez hoje, com as redes, eu tivesse mais chance com a Margareth, de quem levei um fora federal, do que o Arlino, por quem ela foi apaixonada. Ele era mais bonito. Não tinha internet. Fazer o quê? Se fosse hoje… oops! A Margareth está no meu Face! =P

Curtir, compartilhar, comentar, silenciar sobre um post. Tudo isso adquire um novo sentido quando se trata de conquista. Os internautas vão construindo sentidos compartilhados só pelos dois à medida que os mouses clicam. Sem jogar abertamente, o que estragaria o lindo processo da sedução, ambos vão se conhecendo, criando códigos, apontando caminhos, sinalizando positiva ou negativamente. Há posts que se escreve esperando uma curtida específica, que quando acontece faz a gente lamentar que o Facebook não tem a necessária opção “curtir a curtida”. O mundo digital está definindo sua semântica dos afetos. Nós, sujeitos da linguagem, estamos construindo o discurso dos afetos nesse mundo neste exato momento. Ele vem para expandir o que já sabemos – ou não – no mundo analógico, na vida fora do computador.

As coisas mudam. Um dia lá atrás, abria-se a porta do carro para a dama. Num outro, tempos depois, fazia-se tatuagem para marcar no corpo a prova do amor. No ciberafeto, transforma-se em bits & bytes os frios na barriga e manda-se pelas ondas digitais. Há pessoas que preferem a pegada direta. Há pessoas que pessoas que preferem ficar na zona cinzenta do sentido.

O mundo gira e a Lusitana roda. Fato é que quando a pessoa que mexe com a gente passa, seja perto da mesa, seja na nossa linha do tempo, o mundo para. E cada um tem a sua forma particular de ficar jogando o seu gelinho.

Semiótica dos afetos digitais

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As redes sociais reinventaram a semiótica dos afetos. Hoje curtir uma foto ou um post pode equivaler a dar um sorriso insinuante ou passar a mão nos cabelos. Cutucar alguém é tão polissêmico quanto o conceito de liberdade. Compartilhar um link tem por vezes o valor do bilhete no guardanapo. Como os sentidos da linguagem falada, esses sentidos vão sendo construído pelos atores dos jogos de linguagem. Muitos dialogam em dialetos próprios, pidgins do internetês. O sujeito digital aprendeu que pode se significar e ressignificar de muitas formas. Como na vida analógica. A linguagem é como nos falamos aos outros. Nela dizemos e nos dizemos. E vamos nos entendendo por aqui…

Mouse pintado não basta

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O Grupo de Pesquisa Discurso e Práticas Sociais (UFAM/CNPq), que coordeno, tem analisado na Universidade questões sobre contemporaneidade e redes digitais. Uma das áreas em que tenho orientando pesquisando é a da democracia na interface com o mundo digital. O que temos percebido é que as redes digitais estão sugando a indignação das pessoas quanto às questões  políticas dando a impressão de que aumentou o controle social e, portanto, a pressão política. Por que “dando a impressão”? Porque essa indignação manifesta nas redes não tem tido força para sair do mundo dos bits & bytes. Vide no Brasil casos como o “Fora, Sarney!” e toda pressão sobre Belo Monte.

Com o advento das tecnologias de informação e comunicação (TIC), a mobilização que tem efeito político real para políticos da era pré-internet [a maioria que ainda decide o jogo] perdeu força. Por mais que a tese seja controversa para alguns, a Internet não gera revolução via hashtags ou botão de curtir. E a Primavera Árabe? O que aconteceu na Primavera Árabe, vejam só, foi o resultado de um acúmulo de situações históricas que levaram a indignação às ruas, em efeito dominó. As TIC desempenham um papel importante não como disparadoras, mas como propagadoras. Aí sim.

Isso tudo para dizer que vimos todos os dias nas redes indignação de toda sorte. É com a segurança que assusta, com a educação de má qualidade, com o transporte que não serve, com a cidade tomada pelo lixo, com os aluguéis estranhos de casa de amigos, com shows caríssimos mal explicados, mas tudo segue do mesmo jeito. O poder público parece nem se importar com o vulcão revolto das redes porque percebeu que ele está circunscrito às telas de computadores, como a vela digital que fizeram para Steve Jobs. Vivemos com o vulcão digital em permanente erupção. Na tela do computador.

Papo de acadêmico? Pode ser. Divisão social do trabalho é assim. A saída parece não ser gritar mais alto nas redes. Nâo somente isso. Isso também. Mas mudar efetivamente a matriz política que está aí, lembrando de todas essas indignações na hora de votar. O que precisamos é fazer as indignações se materializar num quadro político que entenda que a internet não é uma coisa à parte da sociedade, mas parte integrante dessa nova sociedade. Políticos e agentes públicos em geral que vivenciam a internet têm mais condição de transformar as lavas do vulcão digital em combustível propulsor de mudanças. Os outros estão velhos demais para isso, não se importam e continuam a não se incomodar com o que rola nas redes digitais. E como eles estão numa rede de poder real, dão as cartas com a Poker Face de sempre. Vendem as ilusões de uma cidade e de um estado lindos nas propagandas, de um judiciário não corporativista e de um legislativo que vem fazendo a sua parte sem advogar administrativamente – coisas contra as quais muita gente se indigna tanto [na internet] – E seguem as estripulias.

No fundo, mudou o cenário, mas o enredo é o mesmo. No entanto, não é o cenário que temos de mudar: é a história e os protagonistas. Isso a Primavera Árabe nos mostrou lá fora. Mas temos exemplos aqui mesmo em casa, como o movimento das Diretas Já. É preciso mais do que pintar o mouse de verde e amarelo. É necessário mesmo é pintar as caras, como alguns fizeram um dia nesse país.


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Carmelitas digitais

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Caro amigo. É com grande tristeza que sinto informá-lo: você está sendo deletado desta rede social como meu amigo. O motivo é simples. Sou ciumenta e controladora – sei que isso não deve ser novidade para você – mas enfim, eu e meu namorado entramos em um acordo, e a fim de cumprir minha parte neste acordo estou deletando todos os meus amigos do sexo masculino apenas de minhas redes sociais, exceto parentes. Dou a você o direito de achar isto uma idiotice, uma puta falta de sacanagem, etc, imaturidade, etc. Chame do que quiser, mas saiba que espero continuar contando com sua amizade e vice-versa. Meu e-mail está sempre disponível e você poderá contar sempre comigo, menos para aquilo que você já sabe o que é – pedir dinheiro emprestado. Se quiser culpar alguém, não culpe a mim, que sou uma pessoa apaixonada e boboca, não culpe o meu namorado tampouco – culpe a Deus que te fez homem, porque se tu fosses mulher continuarias na minha lista. Kkkkkkkkkkkkk Um grande abraço. E um Feliz 2011.

Recebi essa mensagem de uma ex-aluna no Facebook e achei um barato. Ela é um exemplo prático da paranoia que as redes sociais trouxeram para o relacionamento a dois.  Merece alguns comentários.

Por que as redes sociais digitais assustam algumas pessoas no quesito pôr em risco o relacionamento? Que perigo podem representar para uma relação do mundo real? Há perigo de fato? Fiquei pensando com minhas teclas…

Somos dependentes de nosso mapa do amor. Seguindo o raciocínio estatístico, quanto mais estivermos expostos aos círculos sociais, maior a probabilidade de encontrarmos alguém que preencha os requisitos desse nosso mapa do amor, composto das características que uma vez preenchidas fazem acender a luz: pode ser amor! Assim, quanto mais convivemos com pessoas, real ou virtualmente, maior será a nossa vulnerabilidade para que isso aconteça.

Até aqui beleza: as redes sociais são mais possibilidades de conhecermos pessoas legais que talvez nos interessem. Um achado para quem é solteiro. Dá para conhecer as pessoas a fundo porque ninguém consegue não ser si mesmo por muito tempo. Mas para os casados e comprometidos, o  potencial positivo das redes passa a ser encarado como uma bomba de nêutrons para os relacionamentos: pode fazer a pessoa amada se evaporar para outras bandas. Do jeito que vem, vai. É quando há algumas possibilidades de encarar as coisas.

A primeira: as partes do casal (ou uma delas) passam a proibir, abertamente ou não, que o parceiro participe das redes sociais. Como o casal aí em cima. É o princípio “melhor não arriscar”. Na minha avaliação, é enxugar gelo. Por essa lógica, logo estarão proibidas as amizades do trabalho, da faculdade, de infância e afins. A verdadeira liberdade do amor se encontra na certeza da reescolha no livre arbítrio. Por poder escolher é que a escolha em mim faz dessa escolha uma escolha especial. Desse jeito aí de cima, retirando espaços de circulação, ambos viverão numa mosteiro feito as irmãs carmelistas descalças: isolados do mundo. It’s trying to catch the deluge in a papercup… Fail.

Uma segunda opção: entende-se que o caminho dos relacionamentos na sociedade da informação é feito pelos nós das redes sociais e que isso necessariamente não coloca em risco o relacionamento a dois. Não é bom nem ruim. É assim. Pelo menos não há mais risco do que na própria convivência nos demais círculos sociais. Ficar monitorando à distância é o que resta ao cônjuge – casado ou não – com aquele ciuminho regulatório, aquele que não faz mal e sinaliza que a gente está ligado. Vez por outra pode vazar algo para além do aceitável e uma dê-errezinha corrige tudo. Cada casal acaba definindo sua ética online do que pode ou não. Acho digno. Faz parte da construção da vida a dois. É com o tempo que percebemos que podemos querer bem as pessoas sem querê-las para si. Quando um dos dois não está online, aí o problema se dilui consideravelmente. Só sobram os olhos de Deus a olhar nossos tweets e status.

Uma terceira opção é mais radical. O casal vive as redes sociais como se realmente elas fossem uma second life. Ali, naquele universo digital, tudo que se fala e se faz não tem nada a ver com a vida real. Ou pressupõe-se que. Acompanho alguns casais assim no Twitter. Eu acho estranho. Não dá para esquecer que entre o mundo real e o mundo virtual existe o dedo no mouse como ligação. Que o suporte é digital, mas os sentimentos são analógicos e bem humanos. Para mim, essa escolha é um ato inconsciente e sintomático de egoísmo. E sem valoração aqui. Egoísmo como escolha paradigmática subjetiva. É uma escolha válida. Não é a minha, mas está valendo também.

Nas redes sociais as pessoas podem se encantar por alguém. Podem odiar alguém. Podem se apaixonar e desapaixonar. Podem conhecer o grande amor da vida ou podem chegar a conclusão de chegaram atrasadas naquela história. Quando há compromisso afetivo, são sensações reais que vão aparecer não por causa das redes sociais, mas por causa de algum vácuo no relacionamento que se dá fora delas. Porque no trabalho, na política, na guerra e no amor é assim: quando não se ocupa o lugar vem alguém e o ocupa. É uma lei da física. Da física dos afetos, inclusive.

Mas essas são só impressões minhas. Pode discordar à vontade, leitor. Há pessoas que encontram nas redes sociais o espaço para o exercício de seus outros eus. Um eu-lírico, um eu-literário, um eu-personagem. Nesses eus abrigam-se desejos inquietos, querência contidas, deslimites. E, como num romance pós-moderno, o personagem vaga de rede em rede social, cutucando, aparecendo, sumindo, brincando de esconde-esconde, numa ludicidade que faz bem à alma. A graça está aí. Ser um nó na rede não significa que se precisa ficar parado, feito um nó-cego. Assim, forçar alguém a sair da rede sem querer sair é estragar o gozo do menino na brincadeira de roda. É igual à cena d’O Meu Malvado Favorito: dá o balão para ter o prazer de estourá-lo. Não é amor: é maldade. Fail de novo.

Não busquemos atribuir nossas neuras ao suporte quando elas são dos sujeitos. Vamos resolvê-las aqui fora, numa boa conversa, com olhos nos olhos, porque o sol continua a passar pelos furos da peneira. Aliás, hoje tudo é liquido hoje e escorre pelas mãos. Quem consegue viver fechado para o mundo conectado? Nem as irmãs carmelitas descalças. Dá uma olhada no perfil do Papa no Orkut e vê lá as últimas visitas. É uma metáfora, claro. O Papa não tem Orkut. Só Facebook.

Sabe como eu respondi a mensagem da minha ex-aluna? Assim: Beleza. Feliz 2011. Até a volta. =)

Natal e as Redes Sociais

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Fantástico. É isso!

A bunda da Siemens

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[Texto publicado originalmente em 05 de fevereiro de 2004. Já discutia o bloqueio de informaçõe na internet].

Muita gente me pergunta a razão de eu não publicar os escritos em algum jornal. A resposta é que, primeiro, eu nunca ofereci e, segundo, nem sei se eles aceitariam essas mal digitadas. Até que poderia ser uma boa, pelo menos em termos de alcance de leitores. Mas enquanto eu não recebo uma proposta irrecusável da Folha de São Paulo, eu publico aqui mesmo no meu site e envio os textículos – com xis! – para uma lista de amigos, parentes e alunos que, gostando, vão passando e vão passando e vão passando…

Adoro feedback. Gosto de saber o que as pessoas pensam a respeito do que escrevo. Sempre recebo mensagens muito legais, como o gentil e-mail que me foi enviado pela mãe do meu cunhado Digão, a Dona Nazaré, se dizendo minha fã. Ganhei o dia. Mas na última semana, quando escrevi sobre reuniões de condomínio, uma resposta me surpreendeu. O e-mail era da Siemens, a fábrica. Primeiro pensei que pudesse ser obra sacana do My Doom, o vírus que encheu o saco e as caixas de entrada semana passada. De repente poderia ter vindo atachado nas infinitas e pesadas  apresentações de Powerpoint enviados pela Ana Célia. Mas como diria a Néia, que trabalhou para a minha mãe: O “peor” é que não era o vírus, não. Era um e-mail automático da empresa mesmo dizendo que meu texto havia sido sumariamente deletado assim que chegou a seus servidores pelo fato de conter a palavra “bunda”.  Parece que essa é uma palavra proibida de circular na Siemens. Será que lá ninguém tem bunda? Curioso com o fato, analisei detalhadamente o e-mail e verifiquei que se tratava de um programa censor automatizado que se baseia numa série de palavras para vetar alguns e-mails recebidos pelos funcionários, no caso em tela uma aluna minha da pós-graduação que lá trabalha e que, suponho, não recebeu o texto e, por conseguinte, não viu minha bunda passar.

São duas as questões que tilintam nos meus dedos por causa desse episódio: os limites da liberdade de expressão e o controle da linguagem. As perguntas que se colocam são: até que ponto podemos selecionar previamente um conteúdo para outras pessoas, seja ele qual for? Até que ponto podemos decidir para terceiros o que é ou não desejável, bonito, ofensivo ou abominável, tirando-lhe assim o direito de conhecer para escolher ou, inclusive, para não escolher? Taí: se tem uma coisa que é abominável e ofensivo na minha opinião é a censura prévia. Não concordar com algo e fazer uso de qualquer nível de poder para forçar que outras pessoas também não concordem é uma violência simbólica ferrada. Não gosta, mermão? Então não lê, não assiste, não compra, não usa, muda de canal. Há quem goste, quem leia, quem compre, quem use e até quem grave o canal. Tem gosto para tudo. Tem gente que veste amarelo. Tem até quem seja Flamengo! O direito à escolha é uma prerrogativa do seres humanos e dos Flamenguistas  e temos vários momentos na história da humanidade em que esse direito foi cerceado, estando a própria história aí para dizer como foram ruins esses momentos e como eles não deixam nenhuma saudade.

Escolher seja lá o que for não é um ato neutro. O programador – ou alguém que manda nele – listou uma série de palavras e decidiu por todos, como se tivesse procuração geral. Decidiu que eles não deveriam ler aquilo que ele acha indecente, imoral ou inapropriado, conceitos, aliás, bastante subjetivos e definidos por formações discursivas diferentes de formas diferentes. Sei não, mas eu estou mais na turma do “Deixa eu ver para ver se quero” do que na do “Vixe! Tira isso daqui! Deusulivre, mana! Pé-de-pato, mangalô, três vezes!” Recebo todo dia um monte de mensagens sobre coisas que não importam, muitas das quais não preciso, como aquelas mensagens de enlarge your penis . Eu passo a vista e decido se me útil ou não. Nesse caso, diga-se de passagem, não é. O importante disso tudo é que eu decido e não quero ninguém decidindo por mim.

Agora pára e pensa, leitor amigo: e se o programador – ou o chefe dele, ou o chefe do chefe etc – for Testemunha de Jeová e colocar “doação de sangue” na lista negra de palavras e expressões abomináveis? Quantos potenciais doadores não deixariam de participar, digamos, de uma campanha convocada pelo e-mail? Se for do PSTU e vetar “Estados Unidos”, quantos negócios a empresa não perderia? E se o censor for o meu primo Amaro Junior, webdesigner da Suframa, que enrola a noiva há treze anos, detonando toda e qualquer ocorrência de “casamento” ou “matrimônio”, como tem feito por mais de uma década? As possibilidades são infinitas. Basta fazer um rápido exercício mental e ver como é injusto o outro decidir por nós baseado em suas crenças, valores, conceitos e preconceitos. Já pensou se uma empresa chamada World Bunda Incorporated, de Singapura, digamos, manda uma mensagem a fim de encomendar negócios milionários em aparelhos de telefones da Siemens. Sua bunda não passa da porta digital. É barrada na chegada.

A empresa tem todo direito de ter suas regras, claro. Mas controlar a linguagem é uma das crenças mais pueris do ser humano. Linguisticamente, dizemos que mais do que falar a língua, é ela que nos fala através dela. E a língua é líquida. Escorre pela mãos e acha por onde escorrer. Ninguém aprisiona o sentido, pois ele sempre escapa, ele é fluido. Pode-se, por exemplo, escrever b*u*n*d*a, em vez de bunda, para burlar o bedel digital. Ou, como diria o Didi dos Trapalhões, pode-se falar “região glútea”. Mais opções? Nádegas, popozão, anca. Enfim…

É preciso saber que se pode dizer muito através do silêncio, como faziam os jornais na época do regime militar. Censurados, eles publicavam um vazio ou uma receita de bolo na primeira página, no lugar da matéria cortada. Pode-se dizer dizendo de outra forma. As músicas duplex de Chico Buarque são obras-primas nisso. A “Bárbara” da música de Chico, mais do que um nome de mulher bonita – e estou pensando na minha prima Bárbara Cyrino, para ser sincero –  era um adjetivo para a ditadura. “Cálice” falava pela homofonia: “Pai, afasta de mim este cálice/cale-se”.

A questão de fundo é: quem pratica a política do silenciamento lingüístico fomenta o silenciamento da política, entendida como a capacidade do ser humano de tomar decisões. Hoje sabemos que o que se quer é gente no mundo e nas empresas para pensar e decidir a partir das informações que chegam – que chegam! – e não somente para executar tarefas mecânicas, como o Carlitos de Charles Chaplin em Tempos modernos. Há um grande choque de objetivo quando uma empresa decide que seu empregado não precisa decidir porque já decidiram. É um contra-senso, uma verdadeira pavulice para os tempos de hoje.

Penso sinceramente que gastar dinheiro em sistemas de censura é alocar mal os recursos que já são poucos em tempo de estagnação econômica. A propósito, a palavra bunda entrou na Língua Portuguesa através de mbunda, de um dialeto da Angola, trazida pelos escravos, segundo o honesto Houaiss. Censurar a bunda é coisa de gente bun… digo, gente nadegona. Ah, deixem minha bunda em paz. E minha aluna, coitada, que não vai ler essa de novo…

Não sabe brincar? Não desce pro play!

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Já não é a primeira vez que uma pessoa pública sai do Twitter por estar descontente com os comentários que lê por lá. Como acompanhei a mais recente contenda ao vivo, resolvi pensar um pouco sobre o jogo de linguagem que acontece no Twitter. Tratou-se da saída da vereadora de Manaus, Mirtes Salles, depois de ver um tweet pornográfico postado por um vírus ser repercutido à exaustão pelos usuários do serviço. Quem não viu, aqui no site do Não, Senhor! tem um resumo.

Como qualquer lugar onde circula um grupo, o Twitter tem suas regras de linguagem. Quem não entra nessa ordem de discurso vira marginal, no sentido de ir para as margens do grupo, isso quando não é levado a cruzar a linha da exclusão mesmo, chegando até mesmo ao twiticídio. E quais seriam essas regras não escritas?

Ainda que careça de mais estudo, arriscaria dizer que o Twitter tem quatro regras básicas.

A primeira delas: o “sabe com quem está falando?” não funciona. Aliás, funciona inversamente. Basta um figurão se meter a besta para todos caírem matando. É como se os usuários lembrassem a ele que fora dali ele pode ter fama, dinheiro ou prestígio, mas que ali ele tem 140 caracteres como todo mundo. E se não souber usar com concisão piora tudo. Aliás, regra de ouro da linguagem: vista a roupa do ambiente. Querer ser sujeito de linguagem em lugares com relações assimétricas é pedir para ser considerado um transgressor. Experimente proferir um palavrão numa reunião de negócios ou corrigir o português de seus amigos de bar. É por aí. Encontrar o balanço da linguagem de um grupo é uma das características de uma pessoa fluente numa língua.

Regra número dois: No Twitter, bom humor é fundamental. Ninguém aguenta um chato rabugento, a não ser que isso faça parte do role que a pessoa construiu, como o @Cardoso, por exemplo. Por isso, é fundamental rir. E mais importante: desenvolver a capacidade de rir de si mesmo. Se a vereadora risse de seu tweet pornográfico e escrevesse algo como: “Ei, acho o Marcelo Ramos hackeou meu Twitter! Hahaha! Que diabo é isso! Alguém aí me ajuda!” talvez ela ainda estivesse usando o serviço para divulgar seus atos parlamentares, além de provavelmente ter conquistado a solidariedade alheia. Porque no Twitter a solidariedade vem com empatia.

Essa é a regra número três: as pessoas entram no Twitter basicamente para diversão e informação. Eventualmente se adere ao serviço para apreciar questões profissionais mais sérias. Interação é fundamental nesse jogo lúdico. Tweet bom é tweet que nos faz ficar leves, sorrir, aquele com que se ganha algo, aquele que dá vontade de retuitar. Responder tweets diretos aumenta o seu valor social no grupo que lhe segue. Não responder leva fatalmente a unfollow, mais cedo ou mais tarde. A regra é: o que eu tenho para oferecer a quem me lê? Se não tiver nada além do “Bom dia!”, como a @SandyLeah, você se limitará a seguidores inerciais, aqueles que lhe seguem porque você é famoso. Ah, você não é famoso? Bom, então ficará sem followers. Volte para o Orkut.

A quarta regra é a variedade. É preciso variar seus tweets. Tweets sempre na mesma esfera cronotópica (o mesmo campo, o mesmo assunto, as mesmas coisas, o mesmo tema) cansam. Seja sério (com humor), ria, informe, divirja propositivamente, tire sarro e saiba ser tirado. Mas evite  fazer somente uma dessas coisas o tempo todo. Ninguém aguenta monotemáticos. Nem no Twitter nem em canto nenhum do mundo.

O @realwbonner sacou as regras rapidamente e virou sucesso. Xuxa e Ronaldo Tiradentes não entraram no jogo. A Mirtes não soube rir de si e foi infeliz ao escolher uma das comentadoras mais agudas do Twitter manauara para responder de forma prepotente. Deu no que deu.

O bom usuário Twitter é o que consegue transitar nessas regras. Pode checar. Falhou numa delas, grandes são as chances de você ganhar uma hashtag. Deve haver outras regras discursivas. Quando voltar de férias, vou pesquisar mais sobre isso. Por enquanto, ficam essas.

Na linguagem, como na vida, a gente tem de aprender as regras do jogo. Até para piar tem regras. E aí, quem não sabe brincar que não desça pro play. Não é, @bia_abinader?

Os Dez Mandamentos do Twitter

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Twitter? @sergiofreire1 – Preferirás o Twitter sobre todas as outras redes.

2 – Não usarás seus 140 caracteres em vão.

3 – Guardarás o #FF e MusicMonday para esses dias.

4 – Respeitarás os old hands que chegaram antes.

5 – Não darás block ou unfollow, mesmo quando queres matar.

6 – Só adulterarás para o RT caber.

7 – Não furtarás tweets alheios.

8 – Não farás RT criticando @teuproximo com @.

9 – Não protegerás seus Tweets.

10 -Não cobiçarás os followers do @teuproximo.

Amém.

A vida online e os neoluditas

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NeoluditasA Internet veio para alterar muita coisa. Até aí morreu o neves. O que muita gente ainda não percebeu é que essas muitas coisas que estão sendo alteradas requerem a movimentação de um novo sujeito , do ponto de vista social e comportamental.

Eu não sou afetado pela greve dos bancos nem pela dos correios. Pago todas as minhas contas online, cuja segunda via também possa tirar online. Leio minhas revistas e jornais também na Web. Virtualmente tudo que me chega via correio e que posso fazer numa agência bancária, posso substituir online. Não é à toa que essas greves não têm o efeito que os grevistas desejam. Há de se pensar em outras formas de posicionamento político. Estratégias da Revolução Industrial em tempo de sociedade da informação dá nisso.

Cds, eu só compro quando gosto muito. Uma faixa ou outra, baixo o MP3. Não me aponte o dedo, leitor: tenho mais de 2 mil Cds originais. Locadora de vídeo, faz tempo que não visito. Ou compro o DVD, cujos preços caíram absurdamente, ou baixo e assisto depois apago do pendrive.  Os melhores papos que tenho levado atualmente não têm sido em mesas de bar, mas no Twitter. Gente interessante, gente nem tanto assim. Gente.

Quando a internet surgiu na década de 90, ouvia e lia muito catastrófico prevendo o fim dos livros e da televisão. Acabaria com a socialização. Hoje compro livro e vejo a programação da TV pela Internet. E vejam isso: o rádio levou 38 anos para ter 50 milhões de ouvintes. A televisão, 15 anos para ter 50 milhões de expectadores. A Internet,  4 anos para ter 50 milhões de usuários. Se o Facebook fosse um país, seria o 4º em população.  Segundo dados disponíveis na Rede, 96% dos jovens da Geração Y estão conectados a alguma rede social. Oitenta por cento das pessoas que tuitam usam celulares. São mais de 200 milhões de blogs. Um breve resumo de dados que estão aqui: http://www.youtube.com/watch?v=sIFYPQjYhv8

Fato é que toda comunicação unidirecional está perdendo espaço para a online, interativa. Os jornais de papel perdendo circulação, a TV perdendo audiência. Se hoje buscamos produtos e serviços, num futuro próximo eles nos buscarão via mídia social. Além de sujeitos coletivos, somos cada vez mais sujeitos conectivos. Foi-se a época em que éramos apenas consumidores. Hoje consumimos e produzimos. Somos prossumidores. De informação, de notícia, de tudo.

A pergunta de um milhão de dólares é: o que isso tudo altera a política, o jornalismo, as relações públicas, os serviços, os negócios, a educação, a literatura, as relações afetivas, a ecologia, a discussão dos problemas sociais? Para cada área, mil páginas de discussão. Sem uma árvore sequer derrubada. Do átomo ao bit.

Sempre há os integrados, que tudo aceitam como panaceia. Há sempre também os apocalípticos, que tudo rejeitam por catastrofismo. Nem tanto ao mar, nem tanto à terra. O lance é que os neoluditas surgem e insurgem-se contra o inevitável: uma nova subjetividade está se configurando tributário do noco cenário. A todo dia. Toda hora. O mundo não vai parar para se adequar à gente.  Só resta o contrário. Com a prudência e a canja de galinha de sempre, dá para fazer isso sem dor. E com prazer. Mas há quem prefira a fila do banco. Nesse caso, be my guest.