irmão

Aquarela

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Mauro e eu. Casa 20.Há pessoas que quando chegam mudam o ambiente. Trazem a luz que faltava para tudo ficar mais brilhante. Trazem o vento para soprar nos cabelos e rostos num dia de calor infernal. Há pessoas magnéticas. Quando elas aparecem, puxam automaticamente para perto de si outras pessoas, que se sentem energizadas pela sua presença. Há pessoas que são rios. Levam consigo outras pessoas para frente, numa incansável marcha adiante. Não há quem não se sinta bem arrastado na sua correnteza do bem.

Há pessoas que são professores. E dão show. Porque ensinam determinação, superação, vontade. Porque os outros veem nelas modelos de que as coisas podem mudar e dar certo. Há pessoas que inutilizam a meteorologia. Porque para elas não tem tempo ruim.

Há pessoas que são vinhos. Com o tempo, vão melhorando, ficando mais apurado. E, como os vinhos antigos, guardados décadas, têm um sabor tão diferente. Por isso, todos querem dar um gole no líquido burgandy. Querem segurar a taça de cristal nas mãos e sentir os seus contornos únicos. Um cristal raro também, que cai, porque é assim a vida, mas dificilmente quebra pela plasticidade da alma.

Há pessoas que são gladiadores.  A compleição física pouco importa. Podem ser baixinhas mesmo. Mas são gigantes quando entram no tatame da vida. São super-homens brigando com todos os bandidos do mundo. Vencem sempre. São pessoas vitoriosas. Eternamente vitoriosas. Mesmo quando perdem. Porque elas sabem que perder é parte do jogo e que perder é a véspera de um novo dia.

Há pessoas que são admiráveis por sua fé. Fé na vida, fé no homem, fé no que virá. Que acreditam. Assim mesmo: acreditam. Verbo sem objeto. Acreditam e ponto. Acreditam numa vida sempre melhor para si e para o mundo. Acreditam que a mudança é sempre um lugar possível dobrando a esquina. Acreditam que ao dobrar cada esquina a paisagem é sempre mais bonita. Porque essas pessoas têm nos olhos a boniteza que falta a muitos nos dias de hoje. Porque essas pessoas têm no olhar a poesia do olhar desacostumado, que dá sentidos àquilo que é tomado por garantido e é invisível aos olhos acostumados.

Há pessoas que são especiais. Não porque são melhores do que as outras. Elas próprias não acreditam nisso. Mas paradoxalmente, elas são pessoas superlativas que, vejam só, não acreditam no superlativo. Porque superlativar pressupõe que um seja melhor do que os outros e elas sambem que ninguém é o que é sem os outros. Essas pessoas se sabem feitas de gente. Gostam de gente. Gente é sua matéria-prima. Elas sabem que a felicidade que constroem no sorriso que arrancam daqueles que estão nos seus piores dias conta no coeficiente de melhoria do mundo. Por isso estão sempre sorrindo. Há pessoas que são o sorriso por definição, que têm sua foto estampada no conceito dos dicionários. Pode ir lá na letra S, SORRISO. A foto está lá para explicar o conceito sem deixar dúvidas.

Uma dessas pessoas que se encaixa em tudo isso aí é meu irmão caçula Mauro. Hoje é aniversário dele. 41 anos. Acordei pensando nele. Pensando na gente. Em tudo que a gente passou juntos, nos carinhos e nas brigas de menino, no quintal e na goiabeira da casa 20, na cumplicidade, nos segredos cabeludos que guardamos um do outro. E pensei, olhando as araras na minha janela, o quanto o meu irmão é uma aquarela. Ele colore o mundo por onde passa. Com um pinguinho de tinta que deixa cair num pedacinho azul do papel, num instante ele imagina uma linda gaivota a voar no céu. Fiquei feliz e orgulhoso por tê-lo como irmão.

Liguei para ele agora cedo para dar os parabéns e cantar a musiquinha que sempre cantamos um para o outro: “Estou ficando velho, estou ficando feio, até a minha bunda já rachou no meio!” Não consegui. Minha voz embargou e comecei a chorar. Choro de felicidade de tê-lo como irmão. De saber que ele é luz, que ele é vento, que ele é imã. Que ele é rio, que ele é professor, que ele é um vinho raro. Que ele é um cristal raro, um gladiador e um vitorioso. Que ele é admirável, que ele é um crédulo na vida, um homem de fé no mundo. Que ele é um cara superlativo. Que ele é uma pessoa especial. Mal consegui dizer a ele o quanto eu o amo. Só consegui dizer que temos o essencial, o amor, e que eu vou almoçar hoje lá na mãe com todo mundo para celebrar a vida, vida que para ele é tão cara, tão feliz e razão suficiente para acordar todo dia e fazer tudo de novo.

Você é um ser de luz, Mauro, meu irmãozinho. Parabéns. Deus já te abençoou. E a nós, por tabela, por te fazer parte da nossa convivência. Eu te amo, mano. Pra caralho. Desculpe o palavrão, você que me lê.  É que não há outra locução na língua portuguesa que expresse tão bem o que eu sinto por esse menino. Um menino que caminha e caminhando chega no muro. Mas que sabe que ali logo em frente a esperar pela gente o futuro está…

SF,  13 de dezembro de 2012. Dia do marinheiro e dia do cego, como ele sempre lembra.

Longe perto

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A etimologia nem sempre é o único lugar para começar, mas é um lugar. Rezam os registros dos deuses da linguística que a palavra “irmão” vem do latim “germen”, semente. Irmão seria, portanto, aquele vem da mesma semente. Quando falamos em “semente”, que também é uma palavra latina, nos referimos à origem. Qualquer pessoa mais sensível para as belezas do mundo sabe que a semente aqui referida não se limita à origem biológica, mas a origem enquanto lugar de partida, o ninho.

Irmão para mim é aquele que sai do mesmo lugar, simbolicamente falando. Aquele que mesmo divergindo nos caminhos converge em princípios e em bem-querer não só para os conterrâneos de origem, mas todos os bons do mundo. Irmão chora junto e enxuga as lágrimas. Estoura a champagne e faz o churrasco da vitória. Irmão segreda segredos secretos. Irmão é cúmplice. Na fala. No silêncio. Na arte. Irmão sente a presença da ausência do outro.

Fico pensando se fosse filho único. Não ter irmão para mim é um non-sense, um não sentido. Com quem aprender a dividir? De quem sonegar no egoísmo infantil? Na cabeça de quem bater o martelo de madeira? A quem recorrer nas ausências da alma? Ser irmão é falar, mesmo no silêncio. É estar presente, mesmo na distância. É compartilhar as coisas boas do mundo e puxar da lama das ruins, quando atolamos. Ser irmão é ter códigos secretos, impenetráveis. Uma linguagem criada pela história de vida que não é compreendida por nenhum forasteiro, por mais atento que seja.

Irmão protege. Ou sendo escudo, para receber em si as pedras da existência, ou abrindo a porta, para que nosso aprendizado se dê calejando os pés em caminhos não tão macios, mas necessários no crescimento do ser. Ser irmão é dizer o que é preciso, com o carinho e a verdade dos que amam. Ser irmão é ouvir o que é necessário: ninguém que nos ama nos diria algo se não fosse exclusivamente para nos ver bem. A vida nos põe junto dos irmãos por um motivo. Ela os escolhe para nós. O segredo da felicidade é compreender as razões secretas desse quebra-cabeça. Descobrir o que aprender com cada irmão.

Segundo os dicionários, há os irmãos de leite: indivíduos amamentados pela mesma mulher que é mãe de um e ama do outro; os irmãos uterinos: irmãos filhos da mesma mãe e de pais diferentes; os irmãos consanguíneos: irmãos filhos do mesmo pai e de mães diferentes; os irmãos germanos: irmãos filhos do mesmo pai e da mesma mãe; e os irmãos siameses: biologicamente grudados. Irmão, para mim, resume-se ao siamesismo de alma. É a alma grudada que faz com que, nas nossas diferenças, sintamos a presença dos irmãos em nós, na nossa vida, na nossa existência.

Hoje é aniversário de um dos meus quatro irmãos. Pensei nele e no quanto dele tem em mim. Eu seria menos eu se não o tivesse tido. Caminhos bifurcam e se encontram sempre lá na frente. O poeta T.S. Eliot diz: “E, ao final de nossas longas explorações, chegamos ao lugar de onde partimos e o conheceremos então pela primeira vez”. O poeta Nilson Chavez reza na música que dá título a este texto: “Toda vez que eu viajar é sinal que estou aqui e, quando estiver por lá quer dizer: nunca parti. A vontade de voltar não impede a de seguir. E, por onde quer que eu vá, estarei vivendo em ti”. Vale para lugares. Vale para pessoas. Te amo, mano.

P-46

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Há um planeta distante da Terra. Como todos os planetas distantes da Terra, ele é identificado por uma sigla em vez de um nome. É o planeta P-46.

Os habitantes do P-46 são diferentes dos da Terra. Não em sua forma física. Os P-46 e os terráqueos possuem a mesma forma. Tanto é que habitantes do P-46 vêm à Terra e habitantes da Terra são mandados à P-46, sem que ninguém perceba que não são nativos dos planetas para os quais são enviados. O intercâmbio existe para equilibrar o plano cósmico.

Os P-46 são poetas por natureza. Alguns raros não fazem poesias e são homens de negócio. Esses fazem parte da Academia P-46 de Homens Comuns. Mas a maioria dos P-46 vê nas seis luas do planeta motivos e razões para compor músicas e poemas, para cantar canções e decantar belezas. Não só são artistas na música, mas suas vidas são levadas dentro de uma estética muito particular. Podem até fazer outras coisas eventualmente, mas são um povo das artes.

Os P-46 possuem outra característica: eles vivem a política da nave despressurizada. Quando uma nave, como um avião, por exemplo, para usarmos exemplos da Terra, é despressurizada, máscaras de oxigênio caem automaticamente em frente aos passageiros. Passageiros adultos devem colocar a máscara primeiro em si e só depois, já seguros, devem colocar a máscara nas crianças. Caso contrário, corre-se o risco de desmaiar e não poder ajudar ninguém. Os P-46, portanto, sabem que se amar e cuidar de si é fundamental e prioritário sobre tudo. Seguram sua máscara com força na mão.

No amor, os P-46 são serial lovers. Amam muito e com muita intensidade. Não guardam rastros de antigos amores, o que não significa que não gostem nem desvalorizem quem passou antes pelo seu coração. Não. Mas são seres intensamente focados no presente. Quando amam, amam 100% e sua atenção em mostrar à pessoa que amam o quanto amam faz o resto do mundo se tornar secundário.

Embora queiram se mostrar independentes, os P-46 nunca cortam o cordão com sua família imediata. São umbilicalmente ligados e dependentes do amor fraternal, maternal e paternal. Quando têm filhos, sempre muitos, distribuem seu amor paterno de uma forma toda peculiar, mas que sempre deixa nos filhos a certeza de que ele é pra valer. Para os P-46, paternidade não é presença física – é até impossível para eles, de tão filhentos que são. Paternidade é algo que se inventa de forma diferente que só eles e os filhos sabem, de uma forma verdadeira.

Por serem seres da arte, os P-46 são inquietos. Não gostam de planos. Gostam do impulso. O impulso os move. Quando querem algo, dane-se o resto do planeta. O desejo tem de ser preenchido sob risco de explosão da cabeça ou do coração. Às vezes, eles não se entendem e vão buscar ajuda nas ciências da alma da cosmologia P-46. Nem sempre conseguem. Porque, no fundo, nem precisam. São assim. Ponto.

Poesia, amor por si, amor para dar sempre e muito, dependência afetiva e impulso. Na Terra, alguns leem isso como porralouquice, egoísmo, inconstância, imaturidade e irresponsabilidade. Mas são efeitos da leitura dos olhos acostumados dos terráqueos. Sabe-se que os P-46 têm os olhos desacostumados de poeta. Todas as crianças do P-46 são mandadas para passar a infância na Terra. Por isso crianças são poéticas. Por isso se gostam, por isso abraçam e beijam sem pedir nada em troca. Crianças são seres que precisam de afeto, de amor. E sempre agem por impulso do prazer imediato. Quando entram na idade adulta, os P-46 regressam para o seu planeta, poético, artístico, leve, para continuar sendo o que são em essência e a viver lá sua poesia. Por isso, P-46 é o planeta mais poético e de alma leve do universo inteiro.

Sabe-se que alguns P-46 acabam ficando por aqui. Eles se misturam e se passam por seres desse planeta, não sem sofrer a rotulação dos terráqueos comuns e adultizados. Mas os que ficam na Terra continuam na essência um P-46. Sabe Pablo Picasso? Sabe Vinícius de Moraes? E um tal de Elvis Presley? Mick Jagger? Tom Jobim? Fábio Junior? John Lennon? Albert Einstein? Gretchen? Ah, tem aquela Elizabeth Taylor também… Pois é. Todos P-46 que ficaram.

Meu irmão Paulo faz 46 anos de Terra. Parabéns, mano. Não volta para lá tão cedo, não, tá? Caetaneando, com a ironia dos 32 canais, “cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é…”. Eu te amo, meu irmão. Do teu irmão terráqueo que tenta, em vão, imitar os P-46 autênticos.

Longe Perto

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A etimologia nem sempre é o único lugar para começar, mas é um lugar. Rezam os registros dos deuses da linguística que a palavra “irmão” vem do latim “germen”, semente. Irmão seria, portanto, aquele vem da mesma semente. Quando falamos em “semente”, que também é uma palavra latina, nos referimos à origem. Qualquer pessoa mais sensível para as belezas do mundo sabe que a semente aqui referida não se limita à origem biológica, mas a origem enquanto lugar de partida, o ninho.

Irmão para mim é aquele que sai do mesmo lugar, simbolicamente falando. Aquele que, mesmo divergindo nos caminhos, converge em princípios e em bem-querer não só para os conterrâneos de origem, mas todos os bons do mundo. Irmão chora junto e enxuga as lágrimas. Estoura a champagne e faz o churrasco da vitória. Irmão segreda segredos secretos. Irmão é cúmplice. Na fala. No silêncio. Na arte. Irmão sente a presença da ausência do outro.

Fico pensando se fosse filho único. Não ter irmão para mim é um non-sense, um não sentido. Com quem aprender a dividir? De quem sonegar no egoísmo infantil? Na cabeça de quem bater o martelo de madeira? A quem recorrer nas ausências da alma? Ser irmão é falar, mesmo no silêncio. É estar presente, mesmo na distância. É compartilhar as coisas boas do mundo e puxar da lama das ruins, quando atolamos. Ser irmão é ter códigos secretos, impenetráveis. Uma linguagem criada pela história de vida que não é compreendida por nenhum forasteiro, por mais atento que seja.

Irmão protege. Ou sendo escudo, para receber em si as pedras da existência, ou abrindo a porta, para que nosso aprendizado se dê calejando os pés em caminhos não tão macios, mas necessários no crescimento do ser. Ser irmão é dizer o que é preciso, com o carinho e a verdade dos que amam. Ser irmão é ouvir o que é necessário: ninguém que nos ama nos diria algo se não fosse exclusivamente para nos ver bem. A vida nos põe junto dos irmãos por um motivo. Ela os escolhe para nós. O segredo da felicidade é compreender as razões secretas desse quebra-cabeça. Descobrir o que aprender com cada irmão.

Segundo os dicionários, há os irmãos de leite: indivíduos amamentados pela mesma mulher que é mãe de um e ama do outro; os irmãos uterinos: irmãos filhos da mesma mãe e de pais diferentes; os irmãos consanguíneos: irmãos filhos do mesmo pai e de mães diferentes; os irmãos germanos: irmãos filhos do mesmo pai e da mesma mãe e os irmãos siameses: biologicamente grudados. Irmão, para mim, resume-se ao siamesismo de alma. É a alma grudada que faz com que, nas nossas diferenças, sintamos a presença dos irmãos em nós, na nossa vida, na nossa existência.

Hoje é aniversário de um dos meus quatro irmãos. Pensei nele e no quanto dele tem em mim. Eu seria menos eu se não o tivesse tido. Caminhos bifurcam e se encontram sempre lá na frente. O poeta T.S. Eliot diz: “E, ao final de nossas longas explorações, chegamos ao lugar de onde partimos e o conheceremos então pela primeira vez”. O poeta Nilson Chavez reza na música que dá título a este texto: “Toda vez que eu viajar é sinal que estou aqui e, quando estiver por lá quer dizer: nunca parti. A vontade de voltar não impede a de seguir. E, por onde quer que eu vá, estarei vivendo em ti”. Vale para lugares. Vale para pessoas. Te amo, mano.

Três Irmãos de Sangue

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Capa do DVD. Vale a pena.“Ah, meu Brasil… que sonha com a volta do irmão do Henfil…”  Acabei de desligaro DVD. Havia comprado o documentário já há alguns meses, mas ficou ali, lacrado, esperando um vácuo entre as tarefas de trabalho. “Três Irmãos de Sangue”, filme sobre Betinho, Henfil e Chico Mário, me emocionou do começo ao fim. Ri, chorei, me identifiquei. Recomendo aos que se emocionam com o Hino Nacional ou se importam quando seu irmão está triste. Fantástico. Ainda bem que comprei, depois de uma breve dúvida.

Longe Perto

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Toda vez que eu viajar/é sinal que estou aqui/e, quando estiver por lá, /quer dizer: nunca parti/A vontade de voltar /não impede a de seguir/e, por onde quer que eu vá, /estarei vivendo em ti/Partindo pra qualquer cidade,/tô voltando pra te ver/ficando sob essas mangueiras, /fui-me embora sem querer./Mandei trocar minha saudade /por um fato natural,/viver correndo pelo mundo /pra chegar no teu quintal/Eu sou mesmo como um rio /que se vai enquanto vem,/o reverso do navio, /que não fica, estando além./No Caribe, estou aqui; /se atravesso, fico aquém;/mas, se estou longe de ti,/tua presença me retém/Eu nunca fui embora, /mesmo quando parti,/fui voltando pra tua porta, /vivo chegando aqui.

 

A etimologia nem sempre é o único lugar para começar, mas é um lugar. Rezam os registros dos deuses da linguística que a palavra “irmão” vem do latim “germen”, semente. Irmão seria, portanto, aquele vem da mesma semente. Quando falamos em “semente”, que também é uma palavra latina, nos referimos à origem. Qualquer pessoa mais sensível para as belezas do mundo sabe que a semente aqui referida não se limita à origem biológica, mas a origem enquanto lugar de partida, o ninho.

Irmão para mim é aquele que sai do mesmo lugar, simbolicamente falando. Aquele que, mesmo divergindo nos caminhos, converge em princípios e em bem-querer não só para os conterrâneos de origem, mas todos os bons do mundo. Irmão chora junto e enxuga as lágrimas. Estoura a champagne e faz o churrasco da vitória. Irmão segreda segredos secretos. Irmão é cúmplice. Na fala. No silêncio. Na arte. Irmão sente a presença da ausência do outro.

Fico pensando se fosse filho único. Não ter irmão para mim é um non-sense, um não sentido. Com quem aprender a dividir? De quem sonegar no egoísmo infantil? Na cabeça de quem bater o martelo de madeira? A quem recorrer nas ausências da alma? Ser irmão é falar, mesmo no silêncio. É estar presente, mesmo na distância. É compartilhar as coisas boas do mundo e puxar da lama das ruins, quando atolamos. Ser irmão é ter códigos secretos, impenetráveis. Uma linguagem criada pela história de vida que não é compreendida por nenhum forasteiro, por mais atento que seja.

Irmão protege. Ou sendo escudo, para receber em si as pedras da existência, ou abrindo a porta, para que nosso aprendizado se dê calejando os pés em caminhos não tão macios, mas necessários no crescimento do ser. Ser irmão é dizer o que é preciso, com o carinho e a verdade dos que amam. Ser irmão é ouvir o que é necessário: ninguém que nos ama nos diria algo se não fosse exclusivamente para nos ver bem. A vida nos põe junto dos irmãos por um motivo. Ela os escolhe para nós. O segredo da felicidade é compreender as razões secretas desse quebra-cabeça. Descobrir o que aprender com cada irmão.

Segundo os dicionários, há os irmãos de leite: indivíduos amamentados pela mesma mulher que é mãe de um e ama do outro; os irmãos uterinos: irmãos filhos da mesma mãe e de pais diferentes; os irmãos consanguíneos: irmãos filhos do mesmo pai e de mães diferentes; os irmãos germanos: irmãos filhos do mesmo pai e da mesma mãe; os irmãos adotivos, que Deus escolhe a dedo, e os irmãos siameses: biologicamente grudados. Irmão, para mim, resume-se ao siamesismo de alma. É a alma grudada que faz com que, nas nossas diferenças, sintamos a presença dos irmãos em nós, na nossa vida, na nossa existência.

Hoje é aniversário de um dos meus quatro irmãos. Pensei nele e no quanto dele há em mim. Eu seria menos eu se não o tivesse tido. Caminhos bifurcam e se encontram sempre lá na frente. O poeta T.S. Eliot diz: “E, ao final de nossas longas explorações, chegamos ao lugar de onde partimos e o conheceremos então pela primeira vez”. O poeta Nilson Chaves reza na música que dá título a este texto: “Toda vez que eu viajar é sinal que estou aqui e quando estiver por lá quer dizer: nunca parti. A vontade de voltar não impede a de seguir. E, por onde quer que eu vá, estarei vivendo em ti”. Vale para lugares. Vale para pessoas. Te amo, mano.