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Canção Pra Quando Você Voltar

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Quando o sol de cada dia entrar,/chamando por você,/querendo te acordar…/Vai ter sempre alguém pra receber,/fazer o seu jantar/dormir no seu sofá./Alguém pra olhar a casa/e alguém que regue o seu jardim/até você voltar./E como é normal acontecer,/se num entardecer a dor te visitar/vai ter sempre alguém pra socorrer,/fazer o seu jantar/dormir no seu sofá./Enquanto a noite passa por mim,/eu rego o seu jardim/Você já vai voltar…/Om mani padme hum…

Para quem ainda espera.

Uma das sensações mais lancinantes do ser humano é ir deitar à noite de um dia em que a pessoa amada se foi. Até perceber que a outra chave de si foi deixada em cima do criado-mudo demora. Por um tempo, quem foi deixado apenas com seu amor já destinado e personalizado sem ter mais a quem destiná-lo engana a si próprio, esperando a volta de alguém que é protagonista do enredo a dois de uma peça que já não está mais em cartaz. Que isso não aconteça comigo. Dei para ter pena dessa gente porque estou com tempo para pensar. Você me deixou tempo ao precisar ir por uns tempos, o que eu compreendo, claro.

Todo dia há o sol de cada dia entra rasgando a janela, chamando por você, querendo lhe acordar. O seu rasgo de luz dilacera o vácuo do quarto e o meu peito esperançoso e o seu chamado ecoa um meu pretenso grito abafado que, dizem os que desistem fácil, não quer se entregar, dar o braço a torcer. Na sua tarefa de despertar, a luz do sol em vão se esgueira entre as frestas da persiana em busca dos seus olhos, olhos de quem sempre ocupou aquela metade da cama que hoje queda arrumada. Olhos de quem sempre ocupou aquele todo de mim e que, puxa, deu uma saída, precisou de um tempo, claro. Todo mundo precisa, lógico. Mas que vai voltar, óbvio.

A certeza da sua volta preenche a misericórdia penosa da inaceitável probabilidade de uma ida sem retorno, que é um não-sentido, uma não-possibilidade. Imagina… Eu recebo o sol, sempre estarei lá para recebê-lo por você. Você deu uma saída, mas retorna, eu digo. Peço para aguardar. Como eu aguardo. Eu faço o jantar que serve dois e ponho a mesa. Guardo parte para esquentar depois, dobro a toalha, recolho talheres. Porque algo aconteceu e você não chegou. Um imprevisto, lógico. Caio no sono no sofá estrategicamente posto em frente à porta que, cedo ou tarde, óbvio, vai se abrir e me fazer entrar a pessoa que já está dentro de mim: você.

Os dias passam e não arredo o pé da casa. Alguém tem de olhar a casa. O resto do mundo pode esperar. Rego a duas mãos o jardim plantado a quatro. As rosas, estranho, tentam me dizer algo. Mas que bobagem, as rosas não falam. Simplesmente as rosas exalam o perfume que roubam de você. Cartola canta o seu jardim e a minha espera. Eu olho para o céu e, veja você, o arco-íris já mudou de cor. Uma rosa nunca mais desabrochou. Todas as músicas me ninam a espera. Mas rego, cuido, trato do seu jardim. Vou ficar aqui até você chegar…

Eu apenas me preocupo com a demora. E se tiver acontecido algo? E se você se perdeu no caminho de casa? E se estiver sentindo a mesma dor causada pela presença ostensiva da nossa ausência? Estou a postos. Para cuidar, dar beijinho, fazer carinho para passar. Depois fazer o jantar com a comida favorita e dormir com a cabeça no seu colo no sofá. Já já você estará de volta, por certo.

A noite vem e o sol vai. Continuo regando o jardim. É inconcebível descuidar das flores coloridas e cheirosas, que aromatizaram cada dia e cada noite, soprando seus aromas por sobre nossos corpos, exaustos de tanto se amar. É até você voltar. Você já vai voltar.

O tempo em silêncio me leva à meditação. Canto, enquanto rego o jardim, faço seu jantar ou deito no seu sofá, um mantra dos monges: Om mani padme hum… Om fecha a porta para o sofrimento do orgulho. Imagina… Ma fecha a porta para o sofrimento que vem da inveja. Inveja de quê? Eu que lhe tenho. Ninguém mais, né? Ni fecha a porta para o sofrimento dos humanos, que é o nascimento, a doença, a velhice e a morte, um sofrimento que vem do desejo. E eu lhe desejo. Mas, confesso, a palavra morte me incomoda. Não sei a razão. Pad fecha a porta para o sofrimento que vem da ignorância. E como tem gente que não quer ver as coisas… Me fecha a porta para o sofrimento da fome e o da sede, um sofrimento vem da ganância. Eu não tenho ganas, a não ser de você. Assim como a fome de te comer e a sede de tomar em mim. E Hum fecha a porta para o sofrimento que vem da raiva ou do ódio. Mas eu amo você. Nunca vou odiar você…

Amanheceu. O sol entrou pela fresta, querendo lhe acordar, chamando por você… Eu vou recebê-lo. Eu sempre vou estar aqui. Até você voltar. Você já vai voltar…

Pra você guardei o amor

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Pra você guardei o amor/que nunca soube dar,/o amor que tive e vi sem me deixar/sentir, sem conseguir provar, /sem entregar e repartir./ Pra você guardei o amor/que sempre quis mostrar,/o amor que vive em mim, vem visitar,/sorrir, vem colorir, solar,/vem esquentar/e permitir/quem acolher o que ele tem e traz,/quem entender o que ele diz/no giz do gesto, o jeito pronto/do piscar dos cílios/que o convite do silêncio/exibe em cada olhar./Guardei/sem ter porque,/nem por razão/ou coisa outra qualquer/além de não saber como fazer/pra ter um jeito meu de me mostrar…/Achei/vendo em você/e explicação nenhuma isso requer/se o coração bater forte e arder/no fogo, o gelo vai queimar./Pra você guardei o amor/que aprendi,/vem dos meus pais,/o amor que tive e recebi/e hoje posso dar livre e feliz./Céu, cheiro e ar na cor que o arco-íris risca ao levitar./Vou nascer de novo./Lápis, edifício, Tevere, ponte./Desenhar no seu quadril,/meus lábios beijam signos feito sinos,/trilho a infância, teço o berço/do seu lar. Guardei/sem ter porque/nem por razão/ou coisa outra qualquer/além de não saber como fazer/pra ter um jeito meu de me mostrar…/ Achei/vendo em você./E explicação nenhuma isso requer/se o coração bater forte e arder/no fogo, o gelo vai queimar./ Pra você guardei o amor/que nunca soube dar,/o amor que tive e vi sem me deixar/sentir, sem conseguir provar,/sem entregar e repartir./ Quem acolher o que ele tem e traz,/quem entender o que ele diz/no giz do gesto, o jeito pronto/do piscar dos cílios,/que o convite do silêncio/exibe em cada olhar./ Guardei/sem ter porque/nem por razão/ou coisa outra qualquer/além de não saber como fazer/pra ter um jeito meu de me mostrar…/Achei/vendo em você./E explicação nenhuma isso requer/se o coração bater forte e arder/no fogo, o gelo vai queimar…

Para você que já achou a pessoa. Como eu.

                O amor é um crédulo. Toda vez que conhecemos alguém e sentimos o frio azul da paixão, ele sempre se apresenta como o grande e definitivo amor. A vida fica leve, gritamos palavras de amor no Vale do Eco. Amamos, apostamos e… poxa… perdemos a aposta. A vida vem, sem pedir licença, e muda nossos planos. Mas o amor não desiste e segue, cabeça erguida e otimista, nos becos da vida, esperando encontrar no próximo virar de esquina o grande amor da vida, aquele que, de fato e derradeiramente, será o par com quem dividiremos os últimos suspiros.

E aí encontramos esse alguém. Com esse alguém descobrimos um amor diferente de todos os amores amados. Carinhos melhores do que todos os carinhos acarinhados. Amizade de passar horas a fio desfiando assuntos impossíveis. Cumplicidade da vontade mútua. Admiração de brilhar os olhos e disparar o sorriso. Faz um click e encaixa. Descobrimos que para essa pessoa que, imagina, andava por aí à espera do nosso momento, guardamos um amor diferente dos amores já gastos. Mobilizamos um amor que nunca soubemos dar. E nunca soubemos porque nunca foi demandado daquele jeito. Um amor que sempre tivemos e vimos de relance em nós, mas que nunca nos permitimos sentir, provar, entregar ou repartir. Faltava alguém para dispará-lo na plenitude. A pessoa chegou.

Nós guardamos para essa pessoa o amor que sempre quisemos mostrar, latente, doido para se gritar ao mundo, sem, no entanto, conseguir. Um amor que vive em nós e, paradoxalmente, vem nos visitar trazido por essa pessoa. Um amor que nos enleva a alma, que gargalha a mais pueril gargalhada, que vem colorir com sua aquarela o branco e preto dos nossos dias, que vem trazer o sol e esquentar o frio e permitir o que nunca nos permitimos antes dele. Um amor que domina quem acolher o que ele tem e traz e acolhe quem entender o que ele diz escrito no giz do seus gestos. Com essa pessoa, compreendemos de primeira o jeito pronto do piscar dos cílios que o convite do silêncio exibe em cada olhar. Os sentidos são mais do que entendidos: são perfumados, numa sinestesia que só aquela pessoa foi capaz de produzir em nós.

E sabe o que mais? Nós guardamos esse amor para essa pessoa sem ter um porquê. Não tem uma razão específica a não ser não ter sido capaz de fazê-lo ser. Achamos a chave da porta para a plenificação desse amor nas mãos dessa pessoa. Explicação? Não precisa explicar o amor, esse amor diferente, novo, que desconfiávamos haver sem conseguir olhá-lo nos olhos antes da chegada da pessoa, dessa pessoa. Basta que o coração arda forte no fogo para que o gelo queime e derreta os amores de antes, que foram bons, mas não foram como esse que guardamos para essa pessoa. Amores que se apequenam diante desse gigantismo plácido.

Nós guardamos, para essa pessoa, o amor que aprendemos . Um amor que herdamos dos nossos pais como o valor que dá liga às relações. O amor que é carne, osso e alma da vida. O amor que tivemos de quem nos amou, que recebemos gratuitamente e que hoje podemos dar livres e felizes, devolvendo-o ao mundo, como fotossíntese dessa luz que chegou e tomou conta.

Um amor do tamanho do céu. Um amor com cheiro e ar que enchem os pulmões com as cores do arco-íris ao levitar. Foi para essa pessoa que nós guardamos. Quando ela chegou, renascemos. Seu lápis nos contorna novos sorrisos; sua matemática nos constrói novos edifícios. De frente ao Rio Tevere, ela nos põe com dois riscos uma ponte sob os pés para que atravessemos seguros. Com os lápis desse amor, desenhamos corações e mares de vai e vem no quadril dessa pessoa. Rabiscamo-nos, de fato, em toda sua geografia. Tatuamo-nos e ficamos colados em seu corpo indelevelmente. Nossos lábios beijam os signos de sua linguística corporal, suas sinuosidades, corremos pelo seu corpo como a criança que, determinada, corre atrás de algo. Com nossas mãos encantadas pela magia dessa pessoa, nós tecemos o berço de seu lar, onde dormirá serenamente quem sereno nos deixa por existir.

O amor é um crédulo. Por crer, sabe quando. E quando, sabe certo. E certo, afirma firme: “Foi pra você que eu guardei esse amor que eu nunca soube dar. Único. Seu. Nosso. E que agora eu sei”.

Caçador de mim

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Por tanto amor/Por tanta emoção/A vida me fez assim/Doce ou atroz/Manso ou feroz/Eu caçador de mim/Preso a canções/Entregue a paixões/Que nunca tiveram fim/Vou me encontrar/Longe do meu lugar/Eu, caçador de mim/Nada a temer senão o correr da luta/Nada a fazer senão esquecer o medo/Abrir o peito à força, numa procura/Fugir às armadilhas da mata escura/Longe se vai/Sonhando demais/Mas onde se chega assim?/Vou descobrir/O que me faz sentir/Eu, caçador de mim…

Há dias em que nos pegamos avaliando a vida. O que foi, quem foi, porque foi. As decisões que tomamos são revividas e pesadas na balança do tempo. Por que fui por aqui e não por ali? Por que com aquela pessoa ou por que não com ela? Seja qual for a avaliação, a conclusão é sempre a mesma: vivemos tantos amores – bons e ruins. Sentimos tantas emoções – memoráveis ou esquecíveis. A vida é assim. O que somos, a vida nos fez assim.

Pensamos nos momentos que tratamos com doçura. Nos gostos amargos que às vezes  restaram nos noves fora da coisa. Ou quando fomos atrozes quando nos queriam doces e pusemos a perder apostas belas e certas, magoando quem só nos quis bem. Caçadores de nós mesmos, nunca nos achamos na selva de nossas escolhas… Queremo-nos uns e achamo-nos outros.

Quantas vezes, nessa estrada de tijolos amarelos, ficamos presos? A pessoas, a promessas, a canções… Em quantas entregas nos pusemos? Em projetos, em apostas, em paixões. Algumas que pareciam que iam ter fim, mas que ainda ecoam, perdurando em cores, cheiros, músicas, saudades com destinatários certos.  As paixões nunca têm fim. Dormem, catalépticas, à espera de uma do beijo da memória para despertá-las dos seus sonos de Branca-de-Neve.

Manoel de Barros diz: “Do lugar onde estou já fui embora”. Porque a gente sempre está onde já esteve e não onde se está. Quando chegamos onde estamos, o rastro de vida nos leva a querer a máquina do tempo para viver o protagonismo daqueles tempos – sem anular o tempo presente, deixe-se claro! – e para, inclusive, tropeçar nas mesmas pedras do caminho… Vamos sempre nos encontrar longe dos nossos lugares. Nós, eternos caçadores de nós mesmos…

Só conhecemos o passado. Por isso ele nos encanta e nos convoca. O futuro é o desejo de ter um passado. Há uma luta diária para viver a vida. A única maneira para podermos sobreviver a isso é se não temermos nada: as pessoas que atravessarão nossos caminhos, os baixos que se alternarão com nossos altos, as marés que secarão e nos deixarão down. Nada a temer, a não ser o correr da luta, que, espera-se, sempre se apresente. Enquanto houver luta, há vida. Enquanto houver vida, nada a fazer senão esquecer o medo. Precisamos nos encontrar. Como nos encontrar sem nos jogarmos de peito aberto numa procura? Seremos capazes de fugir às armadilhas da mata escura do nosso lado desconhecido? A caça segue…

Por vezes, parados, sonhamos. Sonhamos, vez por outra, demais. E longe vamos. Mas o ceticismo da vida nos indaga, sarcástico: aonde se chega assim? Itinerários desconhecidos, caminhos abertos à foice, trilhas desbravadas do zero. Nos perdemos. Choramos sem rumo. Caímos no fosso. Mas respiramos de novo, sacodimos o pó da queda e seguimos singrando as águas da vida. Somos nós, virando o mundo, cruzando mares, numa caça incessante ao nosso eu. Caçando a nós próprios. Para descobrir, no fim da vida, que essa busca era possível, sim. Mas nos caminhos internos… Eu, caçador de mim, não posso esquecer: a presa está aqui dentro. E é arisca demais para se render… Por isso inapreensível.

Renovação

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É hora de jogar as coisas velhas fora desse quarto./Tomar nas mãos o leme desse barco. /Sair da tempestade, pôr ordem no tempo,/sair de contra o vento e cheio de vontade,/sair desses porões e cantar ao céu de novo;/A voz já não aguenta e o peito já não cabe mais./É hora de tomar nas mãos de novo a nossa geografia,/pintar de liberdade o verde desse mapa./Contar de novo a história como há muito tempo/Já não se ouve mais nem se contou verdade./Bater na mesma nota e na mesma canção,/cantar de braços dados, levantar a mão./Canta, coração,/por essa voz que canta em mim,/esse desejo sem medida e paciência,/quase já desesperado de esperar/todo esse tempo e, esse grito,/sufocando a garganta sem parar./Canta, coração,/Por essa voz que canta em mim,/e esse desejo sem medida e paciência,/quase já desesperado de esperar/Todo esse tempo e esse grito/sufocado na garganta sem sair…

Ah, como nos ancoramos no passado. Somos como o personagem de Woddy Allen em “Meia-noite em Paris”.  Sempre querendo viver no tempo que já passou. Aí, deixamos crescer à nossa volta o mato da mesmice, quando sabemos no fundo que deveríamos aparar essa grama da existência. Ela nada acrescenta à paisagem de nossa vida. Mas o mato vai tomando conta, tomando conta, tomando conta…

E as tralhas? Quantas vezes acordamos dizendo: hoje eu vou jogar tanta coisa fora. Objetos, gentes, memórias, afetos. E a hora da limpeza não chega, sempre adiada pelo medo de saber que junto daquilo vão partes importantes da gente, partes que um dia já foram absolutamente fundamentais. Mas e daí?

Pois bem! Chegou a hora. É hora de jogar as coisas velhas fora desse quarto. Respire fundo e não pense duas vezes. Faz anos que você guarda aquela cópia xerox daquele texto que você nunca usou de novo. Faz meses que você teima em guardar lembranças de alguém que te machucou. Por que resistem na sua caixa postal e-mails que lhe entristecem? Coragem! Tome nas mãos o leme do seu barco! Sem isso você não sai dessa tempestade que assusta, mas que não é imbatível. Segure forte o timão! Enfrente as ondas! Se molhe por uma boa causa. Não morra na cabine. Não espere fazer água. Corte seu capim do jardim! Deixe as rosas… As flores da memória devem ser guardadas na antologia universal do amor. Já as ervas daninhas? Mande-as para a puta que os pariu! Desculpe a falta de estilo, mas é o nome do lugar para onde devem ir. É para não errar o endereço.

Cuide! Se mexa! Ponha ordem no tempo! Arrume sua vida, suas prioridades. Ei! Prioridade é como braço: só dá para ter dois. Convoque o tempo para uma conversa, mas saiba que o tempo é um negociador duro… Beba um pouquinho para ter argumento. Lembre-se: ela vai zombar de você porque ele sabe passar e você não consegue passar de onde estar. Diga a ele, como dona da situação, que você está ali para libertar as paixões que ele aprisionou. Que você quer despertar a paixão por si que ele adormeceu. Acue o tempo. Acuar o tempo é sintoma de retomada das rédeas. Mostre quem manda.

Saia de encontro ao vento. Sinta o ar bater na sua cara e resista. Dê a outra face e siga, cheia de vontade. Para duelar com o vento, que já se achava dono do pedaço, no entanto, é preciso ranger a porta, deixar entrar a luz e sair desses porões fétidos onde você se enfiou. É preciso cantar ao céu de novo a pleno pulmões, que, a propósito, precisam do ar novo para se livrar dos ácaros afetivos que você arrumou por escolha. Jogue as coisas velhas fora desse quarto… tome nas mãos o leme desse barco… enquadre o tempo… domine o vento… cante, porque a voz já não aguenta tanto silêncio eloquente e o peito já não cabe mais de tanto querer novo!

É hora de tomar nas mãos de novo a sua geografia. Definir seus caminhos, seus rumos, sair da inércia vegetativa. É hora de pintar de liberdade o verde do seu mapa. É a sua vida, criatura! A sua! Desperte para isso! Ninguém pode direcionar seus caminhos… Conte a história! Desafie o seu Bentinho e faça-se Capitu escrevendo a sua versão. Conte a sua verdade. Para isso, bata na mesma nota, na mesma canção até ultrapassar o saber de cor. Disciplina é liberdade. É preciso, além de saber de cor, aprender. Levante as mãos e cante!

Deixe o coração cantar por essa voz que canta em você. Deixe arder o desejo sem medida e sem paciência de esperar desesperado todo esse tempo com um grito na garganta sem sair. Ponha para fora! Cuspa a bola de pelo dos fatos da vida! Renove-se!

Sabe… Um passo que você dá e você já não está mais no mesmo lugar. É hora de jogar as coisas velhas fora desse quarto… tomar na mão o leme desse barco… Cortar a grama que oblitera sua janela para o mundo. Vá e resolva logo essa coisa doida que é viver… Renovação é a palavra de ordem.

Jura secreta

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Só uma coisa me entristece:/o beijo de amor que não roubei,/a jura secreta que não fiz,/a briga de amor que não causei./Nada do que posso me alucina/tanto quanto o que não fiz./Nada do que eu quero me suprime/de que por não saber ainda não quis./Só uma palavra me devora:/aquela que meu coração não diz./Só o que me cega, o que me faz infeliz,/é o brilho do olhar que não sofri…

Na vida da gente há os amores. Eles são cantados e decantados em poesias, músicas, textos. Quanta tinta se usou para falar no amor realizado, do encontro marcado e cumprido ou mesmo do não marcado, mas magicamente acontecido por diagramação do sr. Destino! Como são ternos os amores que dão certo! Como eles nos motivam a continuar a acreditar, a ter esperança de que o mundo tem esperança e que sua salvação passa pelos encontros afetivos desse planeta complexo chamado Terra. É um todo harmonioso em sua desarmonia.

Mas e os quase-amores? Desses ninguém quase fala, apesar da sua onipresença na vida de cada um de nós. Os quase-amores são patinhos feios dos contos de fadas. Os quase-amores são os amores que tinham tudo para ser e nunca foram? Os amores que bateram na trave do jogo da vida. Os amores que poderiam ter sido se não fosse apenas um capricho da sincronia do tempo, de um esbarrão que não aconteceu por pouco, de um encontro naquele dia em que todos foram para aquele bar, menos eu. Como diz Raul: “Ah, os amores que a vida me trouxe e eu não pude viver”…

Os quase-amores são quase por uma infinidade de razões. Porque não tivemos aquela coragem, porque tivemos aquela ousadia ou porque, ainda que tudo conspirasse a favor, não dava mesmo por aquele pequeno detalhe. O diabo mora no detalhe. E a gente sabe porque que não dava. A gente individualmente sabe. “Um lado carente dizendo que sim e a vida da gente gritando que não…” Impossibilidades de todas as ordens das impossibilidades. Se não fosse aquele detalhe, que grande amor poderia ter sido. Mas há o limite. E o limite é uma linha tímida que se encosta em outra sem ter a coragem de tocá-la.

Se começamos a pensar nesse quase-amor, nesse universo do futuro do pretérito, às vezes até entristecemos. Porque nunca roubamos aquele beijo de amor e com ele a chave do borboletário de nosso estômago. Sim, borboletas voam em nós quando amamos e as borboletas do quase-amor nunca bateram suas asas. Ficaram presas, como naqueles vidros de colecionadores. Para quem ama, borboletas são para voar e não para ficar inertes, quase-mortas. A inércia não combina com a paixão. A paixão bate asas e é colorida.

Ficamos tristes também porque não tivemos a chance de fazer aquela jura secreta que só nós dois saberíamos. E  mais ninguém. O nosso segredo que não houve. Nada mais triste do que um segredo a dois que não houve. Que desperdício de afeto num mundo carente de gostar! Uma história não escrita, no entanto, ainda é uma história. Os quase-amores são protagonistas de nossa história não escrita. O segredo que não houve entre quase-amores é uma falha irrecuperável, incompensável. Nada compensa. Quando não houve, não teve. Simples assim. E complexo e doloroso assim. Por que não? Porque quase.

E as brigas de amor que não causamos com os nossos quase-amores? O ciúme não alimentado, o zelo excessivo, o cuidado extremado. A posse é um elo entre o desejo e o amor. Mas essa ponte nunca terminou de ser construída. Sequer começou. E a briga não veio porque você não veio. Porque não houve o terceiro, feito do encontro de nós dois, para cuidar. Não tendo havido a briga de amor, como usufruir do fazer as pazes do amor? A delícia dos consertos dos passos em falsos que culminam em concertos amorosos que formam a trilha sonora dos recomeços? Como pensar em recomeço se não houve começo? E não houve por quê? Porque foi um quase-amor. Quase.

Fizemos tanto. A nossa vida que não foi quase pode até ser um filme premiado. Nada a retocar. Mas isso não suprime a dúvida sobre o como teria sido o que foi quase. Ou que quase foi. Nada do que podemos nos alucina tanto quanto o que não fizemos. Como teria sido se? Quem de nós nunca se fez essa pergunta? Como uma conjunção de duas letras é capaz de disparar na mente a vontade de seguir em hiperlinks por caminhos que nunca percorremos, por estradas em que nunca pisamos, por corpos em que nunca tocamos, por quartos que nunca visitamos? A imaginação desembainha a espada na ilharga do seu Ipiranga particular e grita sua independência do tempo, do espaço, do real. Mas é um quase.

Há coisa que ainda não quisemos. Porque nunca as soubemos. Como querer o que não se sabe ainda? Um quase-querer ou um querer inteiro? No quase-amor, há coisas que teriam de ser inventadas, produtos do quase-encontro. Quase-desejos, quase-canções, quase-histórias, quase-sorrisos, quase-prazeres, quase-você. Meios caminhos para meios lugares, para meia lembrança. Se não fosse o quase, quase.

No universo paralelo dos quase-amores, só uma palavra nos devora: aquela que nosso coração não diz. É o sentido do silêncio. O silêncio espesso, viscoso, denso. Quem disse que silêncio não significa? O silêncio é o estado primeiro da linguagem. Por isso dizemos “quebrar o silêncio” e  “ficar em silêncio”. As palavras não ditas pelo coração para um quase-amor ficam lá nos consumindo, ruminando seu significado represado, borbulhando como num pântano do Scooby Doo. Elas nos devoram. Cardiofagia semântica.

No mundo dos quase-amores, tudo se paradoxaliza. O que cega é o brilho do olhar que nunca sofremos. Um quase-brilho. O que corta é a faca do amor que nunca foi amolada pela paixão. Uma quase-lâmina. O que mata é a vida a dois que nunca pode nascer. Uma quase-vida. Um quase-amor é o inverso de um parto. O quase-amor é um aborto de uma vida a dois. Com todas as dores e vazios inerentes à interrupção de uma vida. De uma quase-vida.

Pense, querido leitor e querida leitora, nos seus quase-amores. Rascunhem seus roteiros a dois. Escolham as suas músicas que nunca tocaram, os versos em guardanapos que nunca foram escritos, as marcas de amor nunca deixadas nos lençóis. Pensem na sobremesa nunca dividida na mesma colher, no calorzinho de corpos nunca misturados sob a coberta, nos colos nunca visitados. Quase-amores fazem parte de nossa memória afetiva. Em seu silêncio. Em sua dimensão. Em seu quase-mundo. É parte do nosso quase-eu, o eu que não pode ou não pôde ou não pode existir.

É como dizia Paulo Leminski: “Não fosse isso e era menos. Não fosse tanto e era quase”. Foi tanto. Foi quase. Ah, o quase como motor da vida! Quem quase ganhou ainda joga. Quem quase passou ainda estuda. Quem quase morreu ainda vive. Nem que seja morrer de amor. Ou de quase-amor. Qual é a sua jura secreta?

 

Cinco anos: mochilinha de porquês

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Vem, Ana, vem/Mochilinha de porquês/Que eu não sei responder/Vem, tanta gente vem/Mochilinha de porquês/Que eu não sei responder/se eu tivesse a língua doce/Te cobria de poesia/Ai, eu ressuscitaria/Aquele sol que nos queimou um dia.

“Ana Clara, o papai vai comprar remédio pros olhinhos da Nina. Quer ir comigo?” “ÊBA! QUERO!”. No carro, a caminho, do nada: “Pai, quem criou o ladrão?” “Filha, às vezes as pessoas não têm trabalho e precisam trazer comida pros filhos. Não é certo, mas aí ele pega as coisas dos outros. E o que não é nosso, a gente não pode pegar, né?”  “Só se emprestar, né? E por que ele não tem trabalho, pai?” “Porque ele não estudou.” “…porque não tinha escola? Por isso, pai?”. “Às vezes é por isso. Às vezes é porque não deu pra estudar ou não quis”. “E por que alguém não quer estudar? Estudar não é importante, pai?” “Muito importante. Mas algumas pessoas não entendem que é importante. E aí faz falta depois.” “Como não entendem, pai? Eu tenho quatro anos e entendo.” “Pois é, Clara. Mas é porque o papai e a mamãe da pessoa não conseguiriam mostrar para ele que é importante.” “Quer dizer que tem ladrão por causa do pai e da mãe do ladrão, pai?” [Pausa.] “Mas não é culpa deles, filha”. “De quem é a culpa, pai?”. “Da desigualdade social, filha”. [Não fui didático…] “O que é desigualdade social?” “Na sociedade, uns têm muito dinheiro, mas outros não têm nada”. “Nós temos muito ou nada, pai?”. “Nem muito, nem nada. Nós somos classe média. Classe média é quem está no meio”. “Mas por que uns tem muito e outros não tem nada? Quem escolhe, pai? Tem muito quem estuda mais? Mas você não estudou muito, pai? Porque que a gente não tem muito?” [Pensei nas minhas escolhas…] “Estudar é importante não só para ter dinheiro. Para isso também, mas não é só para isso.” “Mas quem escolhe quem vai ter mais e quem vai ter menos? O Deus?”. “Não, filha. Todo mundo é filho de Deus. Ele ama todo mundo igual. Foi ele criou tudo.” “Até o ladrão?” “Até o ladrão. O ladrão também é filho de Deus e Deus ama o ladrão também”. “E ele ama até o pai e a mãe do ladrão que não ensinaram que a escola é importante?” “Até eles.” “E quem criou o Deus, pai?” [Pausa grande. Essa foi profunda.] “Hein, pai?”. “Filha, você é muito pequena… um dia você vai entender…”  “Explica agora, pai!” “Tá. Ninguém criou Deus. Deus existe desde sempre.” “Ele não morre, pai?” “Não, ele não morre. Só o  homem que morre”. “E a mulher não, pai?” “O homem e a mulher. A vida é assim: a gente nasce, cresce, casa, tem filhinhos e quando está bem velhinho morre”. “E a Giulia, pai. Lembra? A gente rezou por ela. Por que ela morreu, pai? Ela não estava bem velhinha…” “Pois é, mas ela estava dodói.” “Por que as pessoas ficam dodóis, pai?” “Acontece, filha. Ninguém quer ficar doente, mas a sua irmã, por exemplo. Os olhinhos dela não estão dodói, com conjuntivite?” “Mas eu não quero que a Nina morra!” “Não, ela não vai morrer, não, filha. Fica tranquila! Tem doença mais fácil e tem doença mais difícil de curar”. “E quem decide qual doença a gente vai ter, pai?” “Ninguém decide,  filha, acontece”. “E quando a gente morre? Pra onde a gente vai, pai?” “Antes de você nascer, você era um anjinho que morava com Deus no céu. Quando a gente morrer, a gente vira anjinho de novo e volta pra lá.” “E depois?” “A gente fica lá.” “Pra sempre, pai?!” “Tem gente que acredita que é pra sempre. Tem gente que acredita que a gente volta de novo. Um outro bebezinho”. “Em outra família, pai?” “É.” “Eu não quero morrer, nem voltar em outra família!” “Filha, você tem quatro anos. Amanhã vai fazer cinco. Você não vai morrer agora. Ainda vai demorar muito, muito, muito tempo”. “Você tem quantos anos, pai?” [Medo da relação…] “Papai tem 42”. “Você já vai morrer?” “Filha, ninguém vai morrer. Estamos chegando na drograria. Eu vou comprar o remédio da Nina e você escolhe o sorvete, combinado?” “Combinado!”.

“Pai, o moço fechou a porta e trancou a gente dentro”. “Calma, é porque a drogaria vai fechar. Vamos pagar. Escolheu o sorvete?” “Escolhi, esse picolé da vaquinha. Um pra mim e um pra Nina. Mamãe prefere Cornetto, pai”. “Vamos pro carro.” “Pai, e quem não tem dinheiro pra comprar remédio?” “Clara, quem não tem dinheiro para remédio tem de ir ao Posto de Saúde”. “Tem todos os remédios lá, pai?” “Às vezes tem e às vezes não”. “E quando não tem, como é que faz, pai?” “Aí é complicado. Às vezes o pai ou a mãe pede dinheiro pras pessoas.” “Ou vira ladrão, pai?” “Ou vira ladrão. Mas não é assim também, filha.” “Como é, pai? Se você não tivesse dinheiro pra comprar o remédio da Nina, você ia ser ladrão, pai?” “Não, filha. O papai estudou e trabalha. Por isso o papai tem dinheiro pra comprar o remédio”. “Mas se não tivesse estudado, pai? Só se não tivesse estudado?” “Clara, você está muito perguntadora hoje, minha filha…” “Pai, a tia da escola disse que homem com homem dá lobisomem e mulher com mulher dá jacaré. Como assim, pai, jacaré? [Preciso conversar com a tia da escola sobre ecologia contemporânea]. “Quando ela disse isso, Clara?” “Ela estava conversando com a outra tia e eu ouvi”. “Você prefere mais esse do chocolate da vaquinha ou aquele quadradinho da caixinha azul que o papai sempre compra?” “Chicabonzinho? Não, eu prefiro o da vaquinha. É mais gostoso”. [Esqueceu]. “Chegamos, filha! Vamos subir!” “Olha, pai! O céu tá cheio de estrelas! Quem criou o céu, pai?” “Foi Deus, filha. Lindo, né?” “É. E grande. Pai, eu te amo do tamanho do céu”. [Meu coração se encheu de ternura com a declaração, apagando tudo de pesado de uma semana complicada.] “Eu também, filha. Eu também…”. “Deixa que eu aperto o botão do elevador, pai.” Minha menina faz cinco anos no dia 12 de junho. E já alcança o botão do elevador…

Um dia de domingo

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Para os Ms.

Eu preciso te falar/Te encontrar de qualquer jeito/Pra sentar e conversar/Depois andar de encontro ao vento/Eu preciso respirar o mesmo ar que te rodeia/E na pele quero ter o mesmo sol que te bronzeia/Eu preciso te tocar/E outra vez te ver sorrindo/ Te encontrar num sonho lindo/Já não dá mais pra viver um sentimento sem sentido/Eu preciso descobrir a emoção de estar contigo/Ver o sol amanhecer/E ver a vida acontecer/Como um dia de domingo/Faz de conta que ainda é cedo/Tudo vai ficar por conta da emoção/Faz de conta que ainda é cedo/E deixar falar a voz do coração.

E quando a presença da ausência bate forte e transborda dentro de nós? A saudade é um visitante folgado que chega sem avisar numa foto, num cheiro, numa música. Num dia de domingo. Ah, essa vontade de ter o teu ouvido para ouvir minhas falas no timbre que só tu, entre bilhões de pessoas, compreende, do jeito que eu quero que se compreenda… Aí eu te busco. Insano, tento te encontrar de qualquer jeito. Eu te procuro na sala, no quarto, embaixo da cadeira, sob do lençol da cabana. Eu te procuro nos teus objetos que guardo e que guardam teus toques, teu cheiro, teu jeito. Eu te procuro nas pequeníssimas coisas que me lembram o quanto és imenso pra mim. E eu te acho em tudo, mas não te tenho aqui. A tua onipresença se esvazia frente à falta do teu sorriso que não está aqui para eu ver. Eu te quero aqui, com teus olhos a me ler e a me acariciar a alma. Eu te quero aqui, acalentado e acalentando quem te acalenta até o sono tranquilo…

Ah, como eu queria sentar e conversar. No chão da sala, no tapete do quarto, na companhia, ainda que corrida, do alimento. Como eu queria pisar na tua bagunça e me ver nos teus desenhos… Sair por aí de mãos dadas, de encontro ao assanhado vento assanhando com carinho nossos cabelos e soprando para longe nossas inquietações. Em nós juntos, tão apertados, não cabem inquietações. Só placidez. Só mansidão. Tu és minha mansidão… Na tua falta, sou só tormenta, vento desarrumado, ressaca de mar…

Meu ar não é mais o mesmo porque tu não o respiras comigo. Eu preciso respirar o mesmo ar que te rodeia, me molhar na chuva da mesma nuvem que pranteia suas dores sobre o mundo, me bronzear no mesmo sol que te bronzeia, suar junto contigo, ficar acabado, arrasado, morto de vivo pela tua companhia. Mergulhar de mãos dadas nas águas dos sonhos como mergulhamos no rio da vida. De mãos dadas. A mãozinha esticada para eu segurar, que é de?

Tua ausência me faz perceber que tentar preencher vazios com vazios não resolve. Eu invento coisas, escolhos os caminhos mais difíceis só para não ter tempo de sentir a tua falta ao meu lado. Que bobo eu! A tua falta não está ao meu lado. Está dentro de mim. Tu estás em mim. Tu és eu. Eu sou tu. Desde que tu vieste, eu passei a ser tu e não mais eu. Por isso não adianta eu viajar trilhas novas, construir castelos. Eu vou me perder de ti, os castelos cairão como cartas que empilho para o tempo passar. Inútil empreitada… Sem ti, o tempo se redimensiona. Cada segundo é dias. O tempo entre cada piscada é anos. Sem ti, não há tempo. Não há espaço. Só há vácuo.

Amar na ausência é um sentimento sem sentido. Eu não quero pensar em cada segundo que perdi por tu estares longe. O que tu fazes? Por que sorris? O que te faz brotar as lágrimas? Como foi teu dia? Me conta o que tu aprendeste hoje? Perguntas que ficam sem respostas, diminuindo a alma, amiudando o coração, a vontade de viver. Onde o som da tua voz? Não quero perder tua vida. Acompanhá-la e descobri-la contigo, como hei de? Que medo de esquecer a emoção de estar contigo… Eu quero estar contigo. Eu preciso estar contigo. É urgente. Estou mal, sofrendo de hipotu: pouco de ti me enfraquecendo… eu, Popeye raquítico; tu, espinafre da minha alegria.

Vamos ver o sol amanhecer? Vamos correr pela praia, brincar de pular onda? Se enfiar de mãos dadas embaixo da cachoeira gelada? Eu preciso urgente ver a vida acontecer. A vida de verdade. A vida que te inclui na presença, em tudo que eu penso e faço. Ainda é cedo! Não vai ainda seguir o caminho possível que a vida te deu. Que a vida nos deu. Fica, vai ter amor. Só mais um pouquinho… só para mais um cheiro no pescoço, só mais uma cosquinha na barriga, uma história inventada para eu te ensinar a vida e aprender contigo o meu papel… Suspendamos as obrigações! Vamos deixar tudo por conta da emoção… Fica, vai ter vida… Faz de conta que ainda é cedo… Vamos ficar abraçados pra sempre. Só isso que me importa. Vamos deixar falar a voz do coração… que é tão bonita quanto a tua voz nos meus ouvidos, no meu coração… Fica, vai ter um dia de domingo… Eu bem te quis, eu bem te quis… E ainda quero muito mais. Maior do que a imensidão da paz. E bem maior que o Sol. Fica. Então me beija só mais uma vez, pelo menos. Depois volta pra lá…

As vitrines

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Para Ana Clara e Marina.
Quando tinham 4 e 3 anos.

Eu te vejo sair por aí/Te avisei que a cidade era um vão/- Dá tua mão!/- Olha pra mim!/- Não faz assim!- Não vai lá não!/Os letreiros a te colorir/Embaraçam a minha visão/Eu te vi suspirar de aflição/E sair da sessão, frouxa de rir/Já te vejo brincando, gostando de ser/Tua sombra a se multiplicar/Nos teus olhos também posso ver/As vitrines te vendo passar/Na galeria, cada clarão/É como um dia depois de outro dia/Abrindo um salão/Passas em exposição/Passas sem ver teu vigia/Catando a poesia/Que entornas no chão…

Ontem eu fui buscar minha filha na escola. Cheguei cedo e pelo vidro, escondido,  fiquei olhando aquela menininha, cabelo preso com um rabo de cavalo, sentada na carteira escolar, copiando a tarefa escrita pela professora no quadro. Ela está no terceiro período, sendo alfabetizada. O inusitado é isso: quando a realidade bate em sua cara com uma sandália havaiana molhada e cheia de terra.

Recobrando os sentidos, olhei e me dei conta de como é independente a minha filha de quatro anos. Já não mais chora para pedir leite, dorme sozinha, dispensando meu canto de outrora, cujos falsetes desafinados embalavam o seu sono, às vezes o nosso. Já escreve seu nome na firmeza do lápis. Já tem uma identidade que a distingue. Já tem gostos só seus. Sabe o que quer com firmeza. E o que não quer com certeza. Toma a frente para fazer as coisas, para experimentar. E só tem quatro anos, a minha menina. Em dois planos, vi duas cenas olhando para o mesmo lugar: pela janela da sala, a minha filha já sendo. Na janela da sala, pelo reflexo, um pai se dando conta de que a vida segue.

Enquanto eu escrevo, olho os vários porta-retratos de minha filha espalhados em meu escritório com suas fotos: um bebê, uma menina cambaleante, segurando as mãos do pai, uma menina em gargalhada aberta sentada no chão da calçada junto comigo a aconchegá-la, protegendo-a entre minhas pernas, numa tarde de pai e filha e velocípede. As fotos passam com um filme, quadro a quadro, lembrando que o tempo passa e ela cresce. E escapa líquida pelos meus dedos.

Fico pensando o dia em que minha criança sairá sozinha pela primeira vez. Nesse dia decretará o brado retumbante às margens de seu Ipiranga particular. Deixará um pai órfão de sua obrigação perene de pai: acompanhá-la por onde for. E eu terei que vê-la sair por aí… Não sem antes avisá-la repetidamente do abismo que é a cidade, o mundo. Definitivamente, o mundo não foi feito para pais. Pais sofrem com mundo. Ele ameaça o que têm de mais sagrado: seus filhos. Ah, filha, cuidado! O mundo é um vão…

O paradoxo de saber da necessidade de que os filhos se vão para ser gente e ao mesmo tempo em acreditar no instintivo pátrio dever da proteção eterna nos faz pensar em dizer, com rigor paterno: – Dá tua mão! – Olha para mim! Não faz assim! Não vai lá, não! – Fica aqui, deixa eu cuidar de você. Para sempre. Para sempre… Filhos são para sempre. Filhos se demoram. Essa é sua beleza. Mas o pacote traz junto com os filhos a vulnerabilidade eterna. Filhos são nossos alicerces e nossa vulnerabilidade. Sem eles, Deus nos livre, o nosso mundo desmorona, cai em pedaços. Sem eles, nossa vida se agriculturiza e vira vegetativa.

Mas tudo bem. Saiam. Ganhem o mundo. Ganhem os prados. Por via das dúvidas, vamos atrás, de longe. Só por garantia. Ficamos somente olhando. Sem se meter. Prometemos. E eles saem…

Na nossa certeza, vamos estar lá, pulando em frente de carros, lhes salvando contra ladrões, feito Sportacus avisados pelo nosso coração. Estamos prontos para intervir no primeiro susto. Mas cadê o susto que não vem?… Nossas crianças passeiam com desenvoltura pelas ruas. Os letreiros das lojas e fachadas vão lhes colorindo na passagem como se lhes saudassem a vinda e a vida. A vida de quem faz sua subjetividade na independência que, pretensiosos, julgávamos impossível sem nós. A falibilidade já nos tinha sido anunciada: quantas vezes pedimos impotentes que a febre passasse para nós?

Nossa ansiedade aumenta. Seguimos os passos de nossos filhos, mas os nossos passos vigilantes são hipérboles supérfluas de amor, desnecessárias, vãs. A cidade é um vão… Os letreiros brilham por sobre nossos filhos e embaraçam a nossa visão porque não conseguimos – ou não queremos – vê-los desenvoltos por lugares que outrora nós mesmos pisamos em falso, buscando nós próprios a nossa luminosidade.

Viramos espectros de seus caminhos. Se vão ao cinema, ficamos furtivamente na última fila, incógnitos. Estamos prontos para oferecer o ombro e o colo ao surgir o primeiro monstro na tela, um Robin Rotten, sei lá… Somos capazes de perceber a aflição suspirada, afinal conhecemos cada centímetro daquele ser, cada fio de cabelo, cada jeito de olhar, cada um dos 21 gramas daquela alma. Dizem que alma tem 21 gramas. Se tem, eu conheço cada um dos gramas da minha filha. Não duvide de um pai. Mas não… Vou me desnecessarizando de sua vida,  como as rodinhas da bicicletas, que uma dia foram fundamentais e depois, de repente, viram-se descartáveis. Com um outro, um substituto de mim, minha filha de repente sai confortada, alegre, frouxa de rir. E eu morro um pouquinho na quebra da minha certeza de que só eu era capaz de fazê-la rir daquele jeito. Sinto-me arrasado como quando trocamos amores em miúdos. Claro, mas é assim, é assim, sabemos… Componha-se!

É. Tem uma hora que a gente percebe que os filhos começam a gostar de ser. Desenham paisagens com seus próprios crayons, recortam o mundo com sua própria tesoura do desejo. Suas sombras a se multiplicar nos inquietam na impossibilidade de seguir cada uma delas. Vamos deixando de ser os pais que ocupam os espaços para  sermos pais que liberam espaços para os filhos como condição primeira para continuar sendo pais. É preciso se esvaziar de presença para estar presente: é esse o oximoro paterno.

Quando ela volta para casa, faço cafuné, abraço, beijo suas bochechas. Olhos nos olhos e nos seus olhos eu posso ver as vitrines do mundo a vendo passar nas galerias da vida, das querências, dos desejos, dos medos, das (in)certezas. Cada clarão refletido em suas pupilas é como o raiar do sol de um dia depois de outro dia depois de outro dia depois de outro dia. Olho em seus olhos os reflexos do porta-retratos do bebê risonho e do pai que o segura, feliz. Serão sempre os bebês os nossos filhos. E que abram, em cada passo que derem, mil salões de alegria, de sucesso, de ternura. Que não esqueçam a ternura ao passarem expostos ao mundo.

É com ternura que serei o eterno vigia de minha filha. Vigia que ela nunca vai ver lhe vigiando e lhe sufocando, pois precisa ganhar a segurança da liberdade. Um vigia que vai zelar sempre por ela, a cada dia, em cada galeria, no reflexo de cada vitrine, de cada vidro de janela das sala de aula da vida. Que vai estar catando toda poesia que ela derramar no chão, que será guardada naquela velha caixa cor-de-rosa onde estão depositadas as primeiras, aquelas entornadas e recolhidas naquele dia de felicidade indescritível na maternidade…

Resposta ao tempo

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O tempo gosta de nos ensinar algumas coisas quando já estamos ficando velhos. Inteligente é quem usa o aprendizado para melhorar a qualidade de vida. Triste de quem não aprende com a trilha da própria existência.

Entre algumas lições, aprendi, com a meia idade, que amor bom é o amor manso. Nada de ciúmes desgastadores, brigas agressivas, dormir sem se falar. Nenhum amor vale a pena se o sofrimento é maior do que o sorriso manhoso e cúmplice da companhia escolhida. A paixão, ao contrário do andam pregando por aí, não é agoniada, rápida, falta de controle. A paixão mesmo, que os mais velhos conhecem, é tranquila,  se demora, é dirigida e digerida. A paixão é materialização do amor real. Mas por que só se aprende isso depois de certo tempo?

O senhor tempo me ensinou também a entender a história. Um dia já fui possessivo, insuportável. Queria saber tudo de todos, controlar o mundo. Ser eu a escrever os textos alheios. Hoje, se sei o suficiente para ser feliz, agradeço ao bom Deus antes de dormir. É o que me basta para começar um  novo dia.  Não posso controlar o que os outros pensam e dizem, mas tenho absoluto controle sobre como reajo a isso. Esse é meu campo de ação. É aqui que eu me equilibro. Santa descoberta! Mas por que só se aprende isso depois de certo tempo?

Já tive ciúmes retroativos de quem amei, achando que esse ciúme de uma vida da qual não fazia parte era prova de que meu amor era grande, transcendia o tempo. Ledo engano. Boba ilusão. Quem eu amo não seria quem é sem ter percorrido seus caminhos e desviado por seus descaminhos. Como eu. Por um capricho do destino, cruzei no Twitter com a sobrinha de uma paixão antiga, minha quase ex-futura sobrinha. Foi bom lembrar. Concluo que  o que passei e senti com outras mulheres só apurou e decantou meus quereres para usar hoje, com a Bia. Simples, hein! Mas por que a gente só entende depois de certo tempo?

Aprendi que o relacionamento com quem se gosta passa necessariamente por si. Como gostar sem se gostar? Primeiro é nós, Queiróz. Egoísmo? Nada… A máscara de oxigênio primeiro na gente e depois no outro para encarar as despressurizações e pressurizações do avião da vida. Fortes, somos fortes para amar. Fracos, somos fracos para amar. Se o outro não nos fortalece, nos enfraquece. Lógica. E se enfraquece, ficar juntos não é masoquismo? Mas por que só se aprende isso depois de certo tempo?

Pois é. Meu toque, do alto dos meus quarenta anos: apaixone-se sem controle para aprender e apreender a paixão mansa. Gaste toda sua possessividade para saber que o amor real não prende, não tira o ar. Ao contrário, o amor dos vera dá e quer pastos, quer correr nos campos, sem amarras, sem coleiras, sem cóleras. Quer ir para poder voltar. E volta porque quer. Porque se sente aconchegado. Porque se sente pertencido. Quanto ao cíume, tenha ciúmes, mas um ciúme manso, regulador de seu querer e não do querer do outro. Ciúme raivoso é a gota de fel que azeda o doce néctar da vida a dois. Por fim, se ame. Obamamente, Yes! We can! Vá lá e faça. Seja feliz. Sem ser feliz essa coisa doida de viver não vale a pena. E para isso não precisa esperar a lição do tempo. Basta olhar com olhos com querência de aprender para qualquer criança. As crianças nos ensinam que a felicidade é simples como uma caixa de fósforos, que num desejo vira uma casinha de uma família grande, de gente igual, magra e cabeçuda.

O rabisco do mapa de seus caminhos é feito por você. Ainda dá tempo de tomar o lápis dos outros. Há sempre um tempo para quem se perdeu ter nova chance de se encontrar. Há sempre tempo para tomar as rédeas de seu tempo. Tempo. É a palavra-chave. E aí? Vai ficar aí parado? Não vai dar sua resposta ao tempo?

Um dia, um adeus

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Só você pra dar à minha vida direção, o tom, a cor… /Me fez voltar a ver a luz/ Estrela no deserto a me guiar/Farol no mar da incerteza… /Um dia um adeus/ E eu indo embora…/Quanta loucura por tão pouca aventura…/Agora entendo que andei perdido/ O que é que eu faço pra você me perdoar?…/ Ah! que bom seria se eu pudesse te abraçar/beijar, sentir como a primeira vez… /Te dar o carinho que você merece ter /E eu sei te amar como ninguém mais… /Ninguém mais! /Como ninguém jamais te amou/ Ninguém jamais te amou,/te amou…/ /Ninguém mais! /Como ninguém jamais te amou/ Ninguém jamais te amou,/te amou como eu, como eu…

Quando o céu é azul e o mar é plácido, o que leva alguém a buscar as nuvens pesadas? O que move alguém a caçar ondas ferozes que podem arrebentar na areia, lhe levando junto? A saída da rota conhecida na busca de estradas vicinais nos afetos pode desviar e fazer se perder do caminho sempre percorrido de forma indelével, irreparável. É só nos descaminhos que se percebe a beleza do caminho que temos por garantido.

Os novos caminhos são meras miragens. Tais quais oásis criados pela mente dos sedentos, as trilhas da aventura não trazem aventura: trazem a falta de rumo, a escuridão, a miragem, assim que se estende a mão para pegá-las. É nessa hora que percebemos, tardiamente talvez, que só aquela pessoa pode dar direção à nossa vida. Ela estava lá e nós caminhamos na direção contrária. Só ela, ali, perfeita, pode nos pôr de volta no tom correto da canção planejada a dois. Só ela pode nos avivar a cor à vida do pálido trapo em que nós, aventureiros ignóbeis, nos tornamos. Só ela nos conhece mais do que nós mesmos.

Será que não dava para ver que aquela pessoa é a luz a nos guiar no deserto desse latifúndio maluco que é a vida? Será que a cegueira pelo prazer fast-food sempre apaga mesmo a luz do farol que nos leva a salvo à terra firme das escolhas afetivas no mar das incertezas dos relacionamentos? Quanta loucura…

Mesmo com todo o calor, a certeza, a luz, a cor, o tom, a gente às vezes ousa ir. Irracional escolha. Arrisca a própria vida, o próprio equilíbrio, a própria aposta certa de duas pessoas que construíram castelos de sonhos, que desenharam seu reino perfeito e nele tudo investiram. Por tão pouca aventura…

E rotos voltamos. Mendigos de dignidade, moral esfarrapada pelos arames-farpados dos descaminhos. Retornamos fedorentos pelos odores de trilhas cheias de capim-navalha que nos cortou, além das carnes, também a alma. A alma cabisbaixa… os olhos sem força para se erguerem, com vergonha da luz, que tanto guiou, que tanto afinou o tom, que tanto retocou impecavelmente a cor…

E aí, nessa hora, cai a ficha. Tudo foi puerilmente posto em jogo. Um jogo com fichas com as quais não se joga. Um jogo em que nem se entra para jogar, porque todo jogo traz a possibilidade da derrota. E o que o leva quem já obteve a maior vitória à roleta russa da infelicidade?

Quanta loucura… e por tão pouca aventura…

Tão certo quanto o dia amanhece, no entanto, a luz ainda ilumina nosso rosto marcado por pesadas lágrimas de pesar… Caminhos negros trilham e riscam rosto abaixo nos caminhos das lágrimas… negros da sujeira que nos cobre… A luz, límpida como sempre, agora ofusca os olhos que andaram desacostumado da luz na escuridão da perdição. Sim, andamos perdidos… E agora? Sem forças… sem voz… sem chances… Como retornar à direção? Como ganhar a cor pelas mãos macias que largamos por vaidade, por desejo fugaz? Como sincronizar o nosso ao coração que, irresponsáveis, colocamos em arritmia? O farol quer se apagar e não há nada para nos apegarmos para não sucumbir… Nem voz sai. Se recusa. Não tem o que dizer… Não depende de nós… Já dependeu. E a escolha foi errada…

Ah, tanta loucura… ah, tão pouca aventura…

Perdão. Só nos resta o fio do perdão. A pergunta vem, com medo da resposta: “o que que eu faço pra você me perdoar?” Com a pergunta, no segundo antes da resposta, feito um acidentado que no minuto da iminente morte vê um filme completo passar na mente, a gente lembra da primeira vez, do beijo, do abraço, dos risos, dos amores, dos momentos, dos olhares, do carinho, do consolo, do companheirismo, dos planos… A gente lembra das milhares de borboletas que levantaram voo no nosso estômago… que bom seria poder beijar, abraçar, sentir como a primeira vez… a luz… está indo… tão pouca aventura… é insano! O farol… apagando… A estrela-guia no deserto… cadê? Quanta loucura…

Que bom seria perceber o prumo da vida que perdemos voltar a aprumar… Que bom seria se nos pudéssemos dar o carinho que essa pessoa merece ter… Nós não a merecemos… Nós fizemos escolhas pela escuridão quando tínhamos a luz presente, aquecendo a vida…

Buscamos, enfim, o apelo final: a promessa da afirmação de que nós sabemos amar essa pessoa como ninguém jamais a amou. Ninguém jamais! Ninguém jamais a amou como nós… Trincamos o cristal que nos servia o melhor champagne do mundo, apedrejamos a luz de nosso próprio farol no mar da vida, esmaecemos a nossa cor, como se estragássemos nosso Van Gogh particular… Mas ninguém jamais a amou como nós. Quanta loucura… e por tão pouca aventura…

“O que que eu faço pra você me perdoar?”…