leitura

Bento XVI

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Bento16Engraçado… Eu sou católico. Na minha cabeça eu só conheci um Papa: João Paulo II. Ele assumiu o papado em agosto de 1978, quando eu tinha nove anos. Ele deu com a mão para mim quando veio ao Brasil. Lembro como se fosse hoje: eu estava sozinho sentado num galho de árvore quando o papamóvel passou. Ele sorriu e acenou. Sua cara rosada ainda está viva na minha memória. Quando morreu, em 2005, eu senti muito e escrevi esse texto. O Papa morreu. O Papa era o apelido do Karol Wojtyła na minha cabeça, como Bibi é o apelido do meu pai. Só tem um Bibi. Só tinha um Papa. Mas religião é fundamental e basilar na vida da gente. Aprendi a respeitar Bento XVI e sua autoridade papal indo buscar no fundo do meu catecismo o seu papel. Discordei de gente que vez por outra o agredia por discordar de suas ideias, para algumas das quais eu mesmo mantenho ressalvas. Mas não discordei das pessoas por discordar de suas ideias, mas pela agressão ao chefe da minha Igreja. Sempre acho que devemos ser impiedosos com as ideias com as quais discordamos, mas sem levantar o tom de voz com quem as pronuncia. Há os que diziam que Bento queria o poder a todo custo. Houve os que disseram que escolher não se chamar João Paulo III era uma vaidade. Com a renúncia, só consigo ver o lado humano de Joseph Alois Ratzinger. Quando decidiu não ser mais Papa, Bento XVI ainda era Papa. Deus está por trás disso em sua infalibilidade. Para mim, é o que basta. Bom retiro, Ratzinger. SF

A Bienal do Livro Amazonas: sobre livros, letramento e uvas

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Livros e revistas fazem parte do meu cotidiano desde que eu me entendo por gente. Sem muita opção quando criança em tempos bicudos, eu devorava os livros didáticos que meus pais, que eram professores, usavam nas suas aulas. Eu também vibrava quando meu pai, um fã do futebol, trazia para casa a Revista Placar. Passava horas lendo tudo aquilo. Minha vida mudou substancialmente quando meus velhos compraram uma Enciclopédia Britannica. Todo dia eu lia um verbete aleatório. Podia ser sobre a Antártida ou sobre o Zaire, que hoje se chama Congo, mas que naquela época em que os planetas do sistema solar eram nove se chamava Zaire. Aprendi, para o espanto de uma plateia familiar que até hoje cita isso, que em Cingapura um casal que tivesse mais de três filhos era multado pesadamente. Eu me divertia pegando as taxas de crescimento demográfico de um país e projetando a sua população para o distante ano 2000. Esperava ansioso o Livro do Ano para cotejar com o Almanaque Abril, presente garantido dos meus pais todos os anos.

Desde cedo, portanto, fui inserido na prática do letramento. Termo introduzido na década de 80 no Brasil, no livro “No mundo da escrita”, de Mary Kato, o letramento é o uso social da tecnologia da linguagem. Por um lado, temos a oralidade,  o nosso equipamento de linguagem que vem de fábrica. Por outro, temos a escrita, uma tecnologia criada pelo homem, que precisa ser adquirida. Não basta ser alfabetizado, aprender a ler, decodificar a frase “Ivo viu a uva”. É preciso compreender por que Ivo viu a uva e o Divanilson nunca vai ver. É necessário saber por que Ivo viu a uva e não o maracujá-do-mato. Letramento é diferente de alfabetização. Alfabetização é a aquisição do bê-a-bá. O que queremos para todos é letramento, que é o uso sócio-político da alfabetização. É isso que faz do sujeito um sujeito pleno, que circula socialmente.

Como se fomenta o letramento? Entre outras coisas, para além do trabalho escolar – que deve ser significativo para o aluno -, se fomenta o letramento com políticas públicas. Entre elas, as que incentivam o gosto e o acesso à leitura. Aí entra, por exemplo, uma Feira de Livros, como a I Bienal do Amazonas, que está acontecendo por estes dias.

Feiras de Livros são importantes como parte de uma política pública que se preocupa de fato com o letramento de seus cidadãos. Nelas, além do viés comercial de editoras vendendo livros com descontos, são desenvolvidos conversas, apresentações e bate-papos com escritores famosos e nem tantos, em uma interação que faz ranger o comodismo do quase sempre entediante processo da leitura obrigatória escolar.

A Bienal do Livro Amazonas finalmente aconteceu. Depois de anos de resistência interna do titular da Cultura no Estado, alguém com um poder decisório maior, creio eu, foi mais feliz e fez a coisa acontecer. Quem vive o meio literário na cidade  e conhece os bastidores, sabe da luta inglória de anos para tentar fazer algo dessa natureza acontecer e da resistência do gestor do Governo à ideia, não só não fazendo a coisa, como de certa forma boicotando quem queria fazer.  Em 2009, participei como escritor convidado da Feira Nacional do Livro de Ribeirão Preto, quando o Estado homenageado foi o Amazonas. Senti vergonha alheia quando soube que os organizadores da Feira, por onde circulam quinhentas mil pessoas a cada ano, receberam um chá-de-cadeira das secretarias de Cultura do Estado e do Município, quando vieram buscar apoio para divulgar nossa cultura. Mas isso é para outro papo. Voltemos à Bienal.

A programação está muito boa. No Tacacá Literário ou no Território Livre, Carpinejar, Eliane Brum, Marina Colasanti, Affonso Romano de Sant’anna, Cora Rónai, entre outros, se juntam aos nossos Márcio Souza, Thiago de Mello, Zemaria Pinto, Alisson Leão, Turenko Beça, Carlos Oshiro, para citar alguns, para falar de literatura, arte e questões de contemporaneidade. A despeito de alguns nomes locais que foram escolhidos muito mais por outros motivos do que pertinência à causa – e não os cito exatamente como forma de citá-los –,  no balanço geral, todo mundo só tem a ganhar. Há também o lançamento programado de dezenas de livros, algo de que as pessoas gostam de participar.

Houve um cuidado com a programação infantil. Isso é muito bom também. As crianças precisam gostar de andar entre livros e precisam igualmente simbolizar um feira dessa natureza como um lugar aconchegante e desejável. Minhas duas filhas, de quatro e cinco anos, gostaram do que viram. Assistiram à peça no teatrinho e folhearam deliciosamente os livros nos stands. Eu gostei dos preços dos livros infantis, bons, diversos e baratos (mas só dos infantis. Já explico o porquê). Se se pensa seriamente em fazer de um evento dessa natureza algo para além da vitrine política – o que é perfeitamente compreensivo e justo –, pensando no já falado letramento, é indispensável envolver os pequenos leitores. Novo ponto para Bienal.

Tenho observações críticas, no entanto.

A primeira é a variedade de livros. Se pensarmos com o parâmetro de Manaus, que não possui uma cultura literária ampla estabelecida, a Bienal é um grande avanço. Mas se pensarmos comparativamente com outras feiras Brasil afora, chega a ser entediante vencer os corredores da Bienal em meia hora. Com exceção dos livros infantis, como disse, a oferta de livros mais gerais e mais específicos deixa a desejar e os preços não são convidativos, como são os da Feira de Porto Alegre e da Feira Nacional do Livro de Ribeirão Preto, que são as que conheço de perto. Tudo bem, vamos dar um desconto, coisas que muitos na Bienal não dão. Esse é o primeiro evento desse porte e Manaus tem o custo-Manaus do frete, o que inviabiliza uma comparação mais direta com as feiras do centro-sul do país. Vista grossa.

A outra observação também me faz trazer as feiras de Porto Alegre e de Ribeirão Preto como exemplos. Ambas são totalmente gratuitas. São montadas, inclusive, nas ruas da cidade, integradas à cidade, com shows musicais que encerram as programações do dia. E antes que alguém diga que o ingresso de R$ 2,00 que se está cobrando na Bienal do Amazonas é simbólico, eu contra-argumento: se é simbólico, por que colocaram? Para mim e uma parcela da população que já circula no mundo do letramento, o valor pode ser quase nada. Mas se se pensa em uma feira como uma ação de uma política pública de letramento, e não como um evento comercial isolado, uma nota de R$ 2,00 pode ser um desincentivo à população que mais precisa participar dessa política. O valor acaba sendo simbólico mesmo, simbolizando um muro invisível que insiste em excluir em vez de incluir. Pior: como uma economia de alfinete e um dinheirinho a mais facilmente absorvível pelo Governo do Estado, que está investindo R$ 20,8 milhões no Projeto Mania de Ler, com 40 ações de incentivo à leitura, sobre que vou falar em outro texto e que me parece muito legal. Mas cobrar a entrada não me convence. Pisada de bola.

Por fim, a iniciativa da Feira precisa ser desdobrada. Penso que o Governo do Estado deva sanar esses senões para ter um maior impacto social na busca da criação de uma memória de leitura na cidade. Penso também que essa ação não pode ser fragmentada e desligada de outras ações de incentivo ao letramento, como a abertura de bibliotecas públicas (como andam a estadual e a municipal, a propósito?), como a ampliação dos acervos das bibliotecas escolares para além de sobras de livros didáticos e como a ampliação das políticas públicas de acesso à Internet à população em geral, entre outras coisas. O letramento da população que precisa dessas políticas só será alcançado se o problema for pensado sistemicamente, para além das ações pessoais ou do diletantismo de quem tem o poder decisório no momento. Espero que o já citado Projeto Mania de Ler, que se propõe a articular isso, faça seu papel. Por fim, como disse a Elisa Bessa, o sotaque da Feira é estranho. Precisava importar curador?

Eu vi, saudoso, que estão vendendo a Barsa na Bienal. Mas não é preciso da Barsa para entrar no mundo da leitura. Um panfleto, um gibi, um mangá, um cordel basta. Desde que se tenha o gosto genuíno pela leitura. Marina, minha filha de quatro anos, acaba de me trazer um “livro” feito por ela com quatro folhas de papel ofício coladas com fita crepe. Tem uma história com início, meio e fim, desenhada com lápis de cor e com algumas palavras escritas do seu jeito. Certamente ela foi inspirada pelo mundo de livros que percorreu hoje. Marina viu a uva. E o Divanilson vai ver?

Quem paga a música escolhe a dança?

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Marisa Lajolo Prof. Titular (aposentada) da UNICAMP
Prof. da Universidade Presbiteriana Mackenzie
Pequisadora Senior do CNPq
Ex Secretária de Educação de Atibaia (SP)
Organizadora ( com João Luís Ceccantini)  do livro
de Monteiro Lobato livro a livro (obra infantil), obra que recebeu
o Prêmio Jabuti 2009 como melhor livro de Não Ficção.

 

“Caçadas de Pedrinho”, de Monteiro Lobato, está em pauta e é bom que esteja, pois é um livro maravilhoso .

Narra as aventuras da turma do sítio de Dona Benta primeiro às voltas com a bicharada da floresta próxima  e, depois, com uma comissão do governo encarregada de caçar um rinoceronte fugido de um circo. Nos dois episódios prevalecem o respeito ao leitor, a visão crítica da realidade, o humor fino e inteligente.

Na primeira narrativa, a da caçada da onça, as armas das crianças são improvisadas e na hora agá  não funcionam. É apenas graças à esperteza e inventividade dos meninos que eles conseguem matar a onça e arrastá-la até a casa do sítio. A morte da onça provoca revolta nos bichos da floresta e eles planejam vingança numa assembléia muito divertida : felinos ferozes invadem o sítio e –de novo- é apenas graças à inventividade e esperteza das crianças ( particularmente de Emília) que as pessoas escapam de virar comida de onça.

Na segunda narrativa, a fuga de um rinoceronte de um circo e seu refúgio no sítio de dona Benta leva para lá a Comissão que o governo encarregou de lidar com a questão. Os moradores do sítio desmascaram a corrupção e o corpo mole da comissão, aliam-se ao animal cioso da liberdade conquistada e espantam seus proprietários. E, batizado Quindim, o  rinoceronte fica para sempre incorporado às aventuras dos picapauzinhos.

Estas histórias constituem o enredo do livro que parecer recente do Conselho Nacional de Educação (CNE), a partir de denúncia recebida,   quer proibir de integrar  acervos com os quais programas governamentais compram livros para bibliotecas escolares . O CNE  acredita que o livro veicula conteúdo racista e preconceituoso e que os professores não têm competência para lidar com tais questões. Os argumentos que fundamentam as acusações de racismo e preconceito são  expressões pelas quais  Tia Nastácia é referida no livro, bem como a menção à África como lugar de origem de animais ferozes.

Sabe-se hoje que diferentes leitores interpretam um mesmo texto de maneiras diferentes. Uns podem morrer de medo de uma cena que outros acham engraçada. Alguns  podem sentir-se profundamente tocados por passagens que deixam outros impassíveis.  Para ficar num exemplo brasileiro já clássico, uns acham que Capitu ( D. Casmurro, Machado de Assis, 1900)   traiu mesmo o marido, e outros acham que não traiu, que o adultério foi fruto da mente de Bentinho.  Outros ainda acham que Bentinho é que namorou Escobar .. !

É um grande avanço nos estudos literários esta noção mais aberta do que se passa na cabeça do leitor quando seus olhos estão num livro. Ela se fundamenta no pressuposto segundo o qual, dependendo da vida que teve e que tem, daquilo em que acredita ou desacredita, da situação na qual lê o que lê, cada um entende uma história de um jeito.  Mas essa liberdade do leitor vive sofrendo atropelamentos. De vez em quando, educadores de todas as instâncias – da sala de aula ao Ministério de Educação-   manifestam desconfiança da capacidade de os leitores se posicionarem de forma correta face ao que lêem .

Infelizmente, estamos vivendo um desses momentos.

Como os antigos diziam  que quem paga a música escolhe a dança, talvez se acredite hoje ser correto que  quem paga o livro escolha  a leitura que dele se vai fazer. A situação atual tem sua (triste) caricatura no lobo de Chapeuzinho Vermelho que não é mais abatido pelos caçadores, e pela dona Chica-ca que não mais atira um pau no gato-to. Muda-se o final da história e re-escreve-se a letra da música porque se  acredita que leitores e ouvintes sairão dos livros e das canções abatendo lobos e caindo de pau em bichanos . Trata-se de uma idéia pobre,  precária e incorreta que além de considerar as crianças como  tontas, desconsidera a função simbólica da cultura. Para ficar em um exemplo clássico, a psicanálise e os estudos literários ensinam que  a madrasta malvada de contos de fada não desenvolve hostilidade conta a nova mulher do papai, mas – ao contrário-  pode ajudar a criança a não se sentir muito culpada nos momentos em que odeia a mamãe, verdadeira ou adotiva…

Não deixa de ser curioso notar que esta pasteurização pretendida para os livros infantis e juvenis  coincide com o lamento geral  – de novo, da sala de aula ao Ministério da Educação—pela precariedade da leitura praticada na sociedade brasileira.    Mas, como quem tem caneta de assinar cheques e de encaminhar leis tem o poder de veto, ao invés de refletir e discutir,  a autoridade veta . E veta porque, no melhor dos casos e muitas vezes com a melhor das intenções,  estende suas reações a certos livros a um numeroso e anônimo universo de leitores  . .

No caso deste veto a “Caçadas de Pedrinho”  ,   a Conselheira Relatora Nilma Lino Gomes  acolhe denúncia de Antonio Gomes da Costa Neto que entende como manifestação de preconceito e intolerância de maneira mais específica a personagem feminina e negra Tia Anastácia e as referências aos personagens animais tais como urubu, macaco e feras africanas ; (…) aponta menção revestida de estereotipia ao negro e ao universo africano , que se repete em vários trechos do livro analisado e exige da editora responsável pela publicação a inserção no texto de apresentação de uma nota explicativa e de esclarecimentos ao leitor sobre os estudos atuais e críticos que discutam a presença de estereótipos na literatura.

Independentemente do imenso  equívoco em que, de meu ponto de vista, incorrem o denunciante e o CNE que aprova por unanimidade o parecer da relatora, o episódio torna-se assustador pelo que endossa, anuncia e recomenda de patrulhamento da leitura na escola brasileira. A nota exigida transforma livros em produtos de botica, que devem circular  acompanhados de bula com instruções de uso.

O que a nota exigida  deve explicar ? o que significa esclarecer ao leitor sobre os estudos atuais e críticos que discutam a presença de estereótipos na literatura ? A quem deve a editora encomendar  a nota explicativa ? Qual seria o conteúdo da nota solicitada ? A nota deve fazer uma auto-crítica ( autoral, editorial ? ) , assumindo que o livro contém estereótipos ? a nota deve informar ao leitor que “Caçadas de Pedrinho” é  um livro racista ?  Quem decidirá se a nota explicativa cumpre efetivamente o esclarecimento exigido pelo MEC ?

As questões poderiam se multiplicar. Mas não vale a pena. O panorama que a multiplicação das questões delineia é por demais sinistro .  Como fecho destas melancólicas maltraçadas aponte-se que qualquer nota no sentido solicitado – independente da denominação que venha a receber, do estilo em que seja redigida, e da autoria que assumir- será um desastre. Dará sinal verde para uma literatura autoritariamente auto-amordaçada.  E este modelito   da mordaça de agora talvez seja  mais pernicioso  do que a ostensiva queima de livros em praça  pública, número medonho mas que de vez em quando entra em cartaz na história desta nossa  Pátria amada idolatrada salve salve. E salve-se quem puder … pois desta vez  a censura não quer determinar apenas  o que se pode ou não se pode ler, mas é mais sutil, determinando como se deve ler o que se lê  !

 


Faces secretas sob a face neutra

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[Em 2007, publiquei em minha coluna de jornal o texto “A Arca de Noé“. O texto rendeu porque muita a gente achou legal, mas muita gente achou ofensivo aos professores. Na semana seguinte, publiquei o texto abaixo para tentar explicar, do ponto de vista da linguagem, com é que a interpretação de um texto ocorre. É um texto sempre oportuno. Hoje, por exemplo, ajuda a tentar entender o fenômeno Carapucentismo, que se espalha no Twitter].

Interessante a reação dos leitores ao texto da semana passada, em que Noé tinha que salvar os vários tipos de professores na Arca. Enquanto uns gostaram do texto, reconhecendo a fauna de personalidades existentes na escola, outras odiaram a analogia.

Como meu doutorado é em lingüística, mais especificamente em Análise de Discurso, resolvi apresentar a você, leitor, como se dá o processo de construção de sentidos e por que o mesmo texto causa reações tão diferentes.

Primeiramente, nenhum texto contém o sentido em si. O sentido é uma construção que se dá no processo de leitura a partir dos olhos do leitor. Cada um de nós tem uma história de vida e durante essa trajetória aprende a ter conceitos em relação a tudo. Aprendemos o que é ser democrata, feliz, preconceituoso. Aprendemos o que é ser professor, o que é ser aluno. Aprendemos a conceituar o que é uma boa escola. Mas exatamente por termos trilhados caminhos diferentes, grande é a probabilidade de que nossos conceitos não batam com os de outras pessoas. Exemplo: a frase “eu quero terra” pode ter vários significados, dependendo do lugar do qual se fala. Na boca de um índio tem um sentido, na de um sem-terra tem outro. Assim, o texto não traz o sentido, mas dispara um processo de significação que toma forma a partir da posição ocupada pelo leitor. Por isso, falamos a mesma língua e às vezes não nos entendemos: discursos diferentes.

Se não é o texto que traz o sentido, por que uns reagiram bem e outros mal ao texto da semana passada? Os que reagiram bem leram e construíram os sentidos a partir de uma posição de reflexão e não de crítica pessoal, que foi exatamente a leitura dos que não gostaram.  No popular: a carapuça serviu. Nos estudos de discurso, há uma frase ótima para explicar isso: o velho do rio só acha o que ele já deixou lá.

O segundo aspecto é que o objetivo de um texto é causar deslocamento. Traduzindo o jargão discursivo: um texto, para valer a pena, tem de provocar certo desconforto e, quiçá, uma mudança de posição no leitor, fazendo com que ele o leia de outro lugar. Os olhos vêem de onde os pés pisam. Não há nada mais alienado do que acreditar que os sentidos que damos ao mundo são os únicos possíveis. “Alienare” significa “abrir mão de”. Abre-se mão de outras leituras e fica-se sempre significando as coisas do mesmo jeito. Há alienados de esquerda, de direita, religiosos, profissionais. Um sujeito normal circula: sabe a hora de ser pai, a de ser professor, a de ser aluno, a de ser cliente, a de ser religioso. Parar num lugar só é problemático num mundo dinâmico em que as identidades estão sendo substituídas por processos de identificação.

Deixo a pergunta aos leitores que leram o texto e não gostaram: que bichinho foi o espelho na sua leitura? Se houve identificação (e deve ter havido, para ser tomado como crítica pessoal), não é hora de fazer autocrítica e superar esse lugar que incomoda a si próprio. Porque Freud dizia – e eu estou com ele: quando não se enfrenta o problema de frente ele recalca e volta, assombrando de outras formas. Não há neutralidade na linguagem, amigo leitor. Dizia Drummond, “tem mil faces secretas sobre a face neutra”.

A Feira de livro e o bola murcha

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Estou escrevendo de Ribeirão Preto. Estou aqui a convite da Fundação Feira do Livro participando da 9ª FeiraCafé Filosófico na 9a. Feira do Livro, em Ribeirão Preto. Sérgio Freire. Nacional do Livro. Na segunda-feira, fui o palestrante convidado de um café filosófico, falando sobre o que sei e gosto: linguagem. Foi excelente, como no ano passado, quando estive aqui pela primeira vez.

A Feira, a segunda maior a céu aberto do Brasil, começou no dia 18 e vai até 28 de junho. Em dez dias estão programados mais de 600 eventos gratuitos, abrangendo literatura e manifestações artísticas. Há mais de 100 escritores da literatura nacional e internacional que participaram e participarão de palestras e debates. São nomes como Milton Hatoum, Carlos Heitor Cony, Fernando Morais, Thiago de Melo, Moacyr Scliar, Márcio Souza, Eliane Brum, entre tantos outros. Há mais de 60 apresentações musicais, com grandes nomes da MPB e apresentação da Orquestra Sinfônica de Ribeirão Preto, além de shows dos chilenos Tita Parra e Antar Parra e de Adriana Calcanhotto, João Bosco, Jorge Vercilo, Lenine, Luiz Melodia, Maria Rita, Oswaldo Montenegro, Paula Toller, Paulinho da Viola, Toquinho, MPB4 e Vanessa da Mata.

A cada ano, a Feira homenageia um país, um estado e uma personalidade. Este ano foram o Chile, o Amazonas e Cora Coralina. E aqui entra um misto de alegria, de espanto e de indignação.

A alegria vem pela escolha do Amazonas como Estado homenageado. Ela se estende porque represento meu Estado junto com Márcio Souza, Thiago de Melo e Milton Hatoum, grandes nomes da literatura da minha terra. O espanto se dá por ter constatado, para um Estado homenageado com uma cultura artística e literária rica, a ausência dessa riqueza. Onde está nossa música? Por que somente nós quatro? Ressalte-se a presença da Editora Valer, disseminando a publicação regional. A indignação emerge por saber que a ausência do Estado não se deu por causa da organização da Feira, mas por vaidade de quem gere a cultura no Amazonas.

A Feira enviou um emissário a Manaus para articular a presença do Estado no evento, com público de mais de 400 mil pessoas. Foram 21 dias em Manaus tentando falar com quem decide. No Município, a secretária de cultura marcou e furou, deixando o representante esperando. No Estado, os ofícios da Fundação foram solenemente ignorados pelo Secretário que, estou começando a desconfiar, tem bronca com livros. Sua vaidade não permite que uma feira de livro aconteça em Manaus. Razão: numa feira de livro quem brilha são os autores e não quem organiza, como num Festival de Ópera ou de Cinema, quando holofotes se voltam para sua figura de black-tie. E não é falta de competência. Quando ele quer, a coisa sai bonita. Quando ele não quer, no entanto, ignora o potencial de retorno estratégico e turístico que um evento como esse tem, deixando de fazer seu papel institucional.

Fico pensando nessa vaidade toda em época de copa do mundo. Ou alguém convida o secretário para dar o pontapé inicial no primeiro jogo em Manaus ou não sei não. Fica aqui a indignação dirigida ao governador Eduardo Braga, para quem a imagem externa do Amazonas parece ter algum valor. Já que falamos em futebol, pisaram na bola, Governador. E feio. E o secretário é o bola murcha do ano.

Textos que valem a leitura

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VEJA, 14 de junho de 2009 – Por Roberto Pompeu de Toledo

Palavras no muro

“Prepare-se o leitor para o sublime encontro entre um autor anônimo, possivelmente sujo, talvez faminto e desocupado, e um dos luminares da literatura”

O amor é importante, pombas. No original, não é “pombas”. É um palavrão, que também começa com “po”. A frase, desenhada com as letras angulosas e sem curvas dos grafiteiros, nas últimas semanas tomou conta de muros, paredes e beiradas de viadutos de São Paulo. Enfim, um grafiteiro inteligente. Ou poético, ou pungente, dependendo do estado de espírito de quem o lê. “O amor é importante, po”, de autoria desconhecida, eleva o grafite paulistano da habitual indigência ao nível dos clássicos do ramo produzidos no maio de 1968 francês – “A imaginação no poder”, “Seja realista: exija o impossível”, “É proibido proibir”.

O segredo da frase é a palavrinha que começa com “po” aposta à oração principal. É o que faz que um pensamento banal adquira vísceras e atinja o leitor. “O amor é importante”, sozinho, seria uma bobagem. Ocorre que o grafiteiro queria dizer exatamente isso, que o amor é importante. Encontrou um jeito de driblar o lugar-comum ao socorrer-se do palavrão. O palavrão contrapõe-se à pieguice do desabafo sentimental e o redime. A violência do expletivo chulo compensa a moleza do pensamento central. Produz-se o inesperado. E o rabisco na rua alcança o patamar da beleza literária.

Esse mesmo fenômeno de uma expressão secundária, na frase, sobrepor-se ao principal e salvá-la encontra-se em… (em quê? em quem? …prepare-se o leitor para saltar dos clandestinos assaltos aos muros de São Paulo para os textos antológicos da literatura universal) …em Jorge Luis Borges. Não que se queira comparar o desconhecido grafiteiro com o criador do Aleph (ou melhor: é o que se quer, sim; prepare-se o leitor para o sublime encontro entre um autor anônimo, possivelmente sujo, talvez faminto, quase certamente desocupado, cuja diversão é vagar pelas ruas da cidade nas horas vazias da noite, e um dos luminares da literatura do século XX). O recurso empregado em “O amor é importante, po” é o mesmo de dois versos do poema La Luna, de Borges:

“Según se sabe, esta mudable vida

Puede, entre tantas cosas, ser muy bella”.

A ideia central, a de que a vida pode ser bela, é simplória como a de que o amor é importante. A maravilha dos versos se deve ao “segundo se sabe” com que se abrem e ao “entre tantas coisas” que precede a qualificação da vida. Eis, de novo, a mágica de componentes secundários da frase – dois, neste caso – tomarem o lugar do principal e o modificarem a ponto de conferir-lhe estatuto de obra de arte. O “segundo se sabe” prepara o espírito para algo já muito repisado, e com isso ameniza a banalidade do que virá a seguir, mas não está aí seu efeito principal. Mais relevante é que se trata de uma expressão marcadamente prosaica, frequente em peças de argumentação, aquelas em que se procura defender um ponto, como um editorial de jornal, uma tese acadêmica ou um arrazoado de advogado. Encontrá-la num poema, a escorar um luminoso momento de encantamento com a vida, produz um contraste da mesma família do palavrão sacado pelo grafiteiro para sublinhar o recado de que o amor é importante.

O “entre tantas coisas” abre ao infinito o leque de feições que pode assumir a vida. Nenhuma surpresa. A vida pode ser bela, mas pode ser muitas outras coisas, feia inclusive. “Vida”, como mulher fácil, pode ir com qualquer adjetivo. Mas aí que está. Se a vida pode ser também feia, trágica, cruel, frustrante e dura, além de agradável, surpreendente ou reconfortante, quando nos damos conta de que, “entre tantas coisas”, ela pode também ser bela, aí sim é que se torna mais bela ainda. Se Borges tivesse apenas escrito que a vida pode ser bela, que decepção, para um escritor de sua estatura. Seria como se o grafiteiro afirmasse que o amor é importante, e ponto final. Ao escrever que a vida “puede, entre tantas cosas, ser muy bella”, ele a torna extraordinariamente bela, ofuscantemente bela.

Se a frase do grafiteiro é digna de Borges, como aqui se procurou demonstrar, a recíproca é verdadeira. Borges é também digno do grafiteiro. Não. Não dá para imaginar o argentino, spray na mão, a esgueirar-se na noite, em busca do muro mais imaculado para aplicar sua marca, isso não. Mesmo porque enxergava mal e podia acidentar-se. Mas dá para imaginar o “Según se sabe, esta mudable vida…” aplicado a um muro, uma parede, uma beirada de viaduto. O efeito seria o mesmo do “O amor é importante, po”. O de uma pausa, uma surpresa e um renovador respiro, em meio à selva da cidade.

VEJA, 14 de junho de 2009 – Por Roberto Pompeu de Toledo

Flifloresta

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Foi muito bom participar do Flifloresta ontem. Estive numa mesa sobre leitura junto com o professor Marcos Krüger, mesa essa mediada pelo Gabriel Albuquerque. De novo, eis que surge a Arca. Pena não ter dado tempo de debater, pois o auditório da UEA tinha de ser entregue a outro evento. Mas vou responder as perguntas aqui. Aguardem.

Flifloresta

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Manaus vive nesta semana o Flifloresta, o Festival Literário Internacional da Floresta. O Festival, promovido pelo Instituto Valer e vários parceiros, discute duas grandes questões por meio de dois simpósios: o Simpósio de Cultura e Natureza na Amazônia e o o Simpósio de Leitura e Formação de Leitores.

A Amazônia está na agenda mundial. É necessário discutir e tomar ações propositivas em relação ao que queremos como cidadãos amazonidas, sem bairrismos imobilizantes e sem adesismo globalizantes. Assusta-me sobremaneira discursos xenófobos de proteção à Amazônia que ficam cegos aos inimigos internos, muitas vezes mais perigosos para a sustentabilidade da Região do que o perigo externo. Assombro-me igualmente com o descaso como regulador de destino, assim pensado por aqueles que acreditam não ser necessária nenhuma ação reguladora porque a coisa aconteceria numa dinâmica própria. Nem lá, nem cá. A virtude, diriam os gregos, está no meio.

Quanto à leitura, parece que o grande desafio é a ultrapassagem da tecnologia. Explico. A leitura ainda continua sendo vista e fortemente trabalhada como o processo de aquisição da tecnologia da escrita, a alfabetização. Por isso, a tristeza dos educadores com o baixíssimo nível de compreensão dos alunos em relação àquilo que lêem. Lêem, mas não entendem. Aprenderam a tecnologia, mas não sabem fazer uso dela. Segundo o IBGE, com dados da última Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios, da população brasileira, 11% são analfabetos. Isto representa 20,8 milhões de pessoas. Assustado? Mas esse é o número das pessoas que não sabem ler e escrever nada. Há aqueles que sabem ler e escrever, mas não sabem fazer sentido algum do que lêem e nem escrevem algo coerente. Aí o número é um soco no estômago: 32% da população. Cerca 60,5 milhões de brasileiros são analfabetos funcionais, segundo dados do Índice Nacional de Alfebetismo Funcional, pesquisa realizada pelo Instituto Paulo Montenegro e pela Ação Educativa. Detalhe: 2% das pessoas com nível superior são analfabetos funcionais. É para pensar e muito.

Como se altera isso? Minha aposta é na mudança conceitual. O conceito de leitura, como afirmei, deve ultrapassar o domínio da tecnologia da escrita. É preciso ir além. Além de alfabetizado, o aluno precisa ser sujeito de práticas de letramento que o introduzam na cultura da escrita não como um mero copista, mas como ele próprio produtor de textos. Assim, ele terá condições de discutir não só Amazônia e Leitura, mas também Democracia, Política, Cidadania e muitos outros assuntos constitutivos de sua subjetividade cidadã. Se sairmos da alfabetização para o letramento, o deslocamento será significativo. É necessário cada um assumir seu novo papel na mudança conceitual: professores, alunos, escola, governo, terceiro setor.

O Flifloresta é uma dessas atividades que fazem a diferença. E faz diferença porque ajuda a criar uma nova memória social sobre o ato de ler em Manaus. Sexta-feira à tarde , estarei participando de uma mesa sobre leitura juntamente com o professor Marcos Krüger, no auditório da UEA. E, claro, levarei minhas filhas ao Parque dos Bilhares para aproveitarem as atividades do Florestinha, com seus espaços dedicados às crianças. Imperdível.

Dá para dizer de outro jeito. Sempre.

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O legal da linguagem é que sempre dá para dizer de outra forma.