limites

Um dia, um adeus

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Só você pra dar à minha vida direção, o tom, a cor… /Me fez voltar a ver a luz/ Estrela no deserto a me guiar/Farol no mar da incerteza… /Um dia um adeus/ E eu indo embora…/Quanta loucura por tão pouca aventura…/Agora entendo que andei perdido/ O que é que eu faço pra você me perdoar?…/ Ah! que bom seria se eu pudesse te abraçar/beijar, sentir como a primeira vez… /Te dar o carinho que você merece ter /E eu sei te amar como ninguém mais… /Ninguém mais! /Como ninguém jamais te amou/ Ninguém jamais te amou,/te amou…/ /Ninguém mais! /Como ninguém jamais te amou/ Ninguém jamais te amou,/te amou como eu, como eu…

Quando o céu é azul e o mar é plácido, o que leva alguém a buscar as nuvens pesadas? O que move alguém a caçar ondas ferozes que podem arrebentar na areia, lhe levando junto? A saída da rota conhecida na busca de estradas vicinais nos afetos pode desviar e fazer se perder do caminho sempre percorrido de forma indelével, irreparável. É só nos descaminhos que se percebe a beleza do caminho que temos por garantido.

Os novos caminhos são meras miragens. Tais quais oásis criados pela mente dos sedentos, as trilhas da aventura não trazem aventura: trazem a falta de rumo, a escuridão, a miragem, assim que se estende a mão para pegá-las. É nessa hora que percebemos, tardiamente talvez, que só aquela pessoa pode dar direção à nossa vida. Ela estava lá e nós caminhamos na direção contrária. Só ela, ali, perfeita, pode nos pôr de volta no tom correto da canção planejada a dois. Só ela pode nos avivar a cor à vida do pálido trapo em que nós, aventureiros ignóbeis, nos tornamos. Só ela nos conhece mais do que nós mesmos.

Será que não dava para ver que aquela pessoa é a luz a nos guiar no deserto desse latifúndio maluco que é a vida? Será que a cegueira pelo prazer fast-food sempre apaga mesmo a luz do farol que nos leva a salvo à terra firme das escolhas afetivas no mar das incertezas dos relacionamentos? Quanta loucura…

Mesmo com todo o calor, a certeza, a luz, a cor, o tom, a gente às vezes ousa ir. Irracional escolha. Arrisca a própria vida, o próprio equilíbrio, a própria aposta certa de duas pessoas que construíram castelos de sonhos, que desenharam seu reino perfeito e nele tudo investiram. Por tão pouca aventura…

E rotos voltamos. Mendigos de dignidade, moral esfarrapada pelos arames-farpados dos descaminhos. Retornamos fedorentos pelos odores de trilhas cheias de capim-navalha que nos cortou, além das carnes, também a alma. A alma cabisbaixa… os olhos sem força para se erguerem, com vergonha da luz, que tanto guiou, que tanto afinou o tom, que tanto retocou impecavelmente a cor…

E aí, nessa hora, cai a ficha. Tudo foi puerilmente posto em jogo. Um jogo com fichas com as quais não se joga. Um jogo em que nem se entra para jogar, porque todo jogo traz a possibilidade da derrota. E o que o leva quem já obteve a maior vitória à roleta russa da infelicidade?

Quanta loucura… e por tão pouca aventura…

Tão certo quanto o dia amanhece, no entanto, a luz ainda ilumina nosso rosto marcado por pesadas lágrimas de pesar… Caminhos negros trilham e riscam rosto abaixo nos caminhos das lágrimas… negros da sujeira que nos cobre… A luz, límpida como sempre, agora ofusca os olhos que andaram desacostumado da luz na escuridão da perdição. Sim, andamos perdidos… E agora? Sem forças… sem voz… sem chances… Como retornar à direção? Como ganhar a cor pelas mãos macias que largamos por vaidade, por desejo fugaz? Como sincronizar o nosso ao coração que, irresponsáveis, colocamos em arritmia? O farol quer se apagar e não há nada para nos apegarmos para não sucumbir… Nem voz sai. Se recusa. Não tem o que dizer… Não depende de nós… Já dependeu. E a escolha foi errada…

Ah, tanta loucura… ah, tão pouca aventura…

Perdão. Só nos resta o fio do perdão. A pergunta vem, com medo da resposta: “o que que eu faço pra você me perdoar?” Com a pergunta, no segundo antes da resposta, feito um acidentado que no minuto da iminente morte vê um filme completo passar na mente, a gente lembra da primeira vez, do beijo, do abraço, dos risos, dos amores, dos momentos, dos olhares, do carinho, do consolo, do companheirismo, dos planos… A gente lembra das milhares de borboletas que levantaram voo no nosso estômago… que bom seria poder beijar, abraçar, sentir como a primeira vez… a luz… está indo… tão pouca aventura… é insano! O farol… apagando… A estrela-guia no deserto… cadê? Quanta loucura…

Que bom seria perceber o prumo da vida que perdemos voltar a aprumar… Que bom seria se nos pudéssemos dar o carinho que essa pessoa merece ter… Nós não a merecemos… Nós fizemos escolhas pela escuridão quando tínhamos a luz presente, aquecendo a vida…

Buscamos, enfim, o apelo final: a promessa da afirmação de que nós sabemos amar essa pessoa como ninguém jamais a amou. Ninguém jamais! Ninguém jamais a amou como nós… Trincamos o cristal que nos servia o melhor champagne do mundo, apedrejamos a luz de nosso próprio farol no mar da vida, esmaecemos a nossa cor, como se estragássemos nosso Van Gogh particular… Mas ninguém jamais a amou como nós. Quanta loucura… e por tão pouca aventura…

“O que que eu faço pra você me perdoar?”…

Futuros amantes

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Não se afobe, não/que nada é pra já/O amor não tem pressa/ele pode esperar em silêncio/num fundo de armário/na posta-restante/Milênios, milênios/no ar/E quem sabe, então/O Rio será/alguma cidade submersa?/Os escafandristas virão/explorar sua casa/seu quarto, suas coisas/sua alma, desvãos/Sábios em vão/tentarão decifrar/o eco de antigas palavras/fragmentos de cartas, poemas/mentiras, retratos/vestígios de estranha civilização/Não se afobe, não/Que nada é pra já/Amores serão sempre amáveis/Futuros amantes, quiçá/Se amarão sem saber/Com o amor que eu um dia/Deixei pra você.

O amor é líquido. Ele se conforma com as formas possíveis. Às vezes tem a forma plena de uma mar aberto. Às vezes cabe num guardanapo de lanchonete ou num vidrinho de perfume. Às vezes se presentifica somente nas ideias. Mas o amor é. Mesmo quando ele não pode ser, ele acaba sendo.

Diz Paulo, no livro que não finda, que o amor é paciente. Sim, o amor não tem pressa, ele pode esperar milênios, milênios no ar. Quem se afoba somos nós, súditos desobedientes que não compreendemos o seu tempo. Por causa disso, quase sempre estragamos tudo. O amor verde, antes do seu tempo, é duro. Não se conhece a textura na mordida da boca. Por vezes é amargo, mas não de si, mas amargo da língua aftosa e herpética de querências fora de tempo. Não dá para apressar o rio do amor: ele corre sozinho. Aprender a esperar o tempo do amor é um segredo para poucos felizardos. Uma pérola repousa por anos na ostra.

Se o amor é paciente e devemos nos espelhar nisso, onde guardar o amor que não pode ser? Depende da história. Uns guardam num fundo de armário. Outros, na posta-restante dos Correios, que andam ariscos demais, a propósito. Para quem não sabe o que é posta-restante: a gente pode pôr uma indicação no subscrito de uma carta quando quer significar que ela deve permanecer na repartição dos Correios até que seja reclamada pelo destinatário. A posta-restante é o lugar onde ficam tais cartas, as que restam. Assim, um amor sempre tem um remetente. Às vezes o destinatário não reclama o amor. Às vezes sequer sabe sobre ele. Porque não pode. Ou não quer. Para dar um F5 no texto, podemos dizer que hoje se guarda em e-mails nas caixas de rascunhos, em SMSs no draft, em tweets soltos na timeline, em cutucões reticentes no Facebook, em posts a postos para serem publicados, só esperando a coragem. Essas são versões modernas e descafeinadas do amor. Todos lugares mais modernos de se guardar um amor quando seu tempo não chegou ainda. Ou quando não pode chegar.

Mas se o amor não chegar, ele se perde? Não, o amor não se perde. Esse é o segredo. O amor não tem dono. É um grande erro pensar-se dono do amor. Quando não se acha aqui, o amor migra para acolá. Se não pode acontecer do jeito pretendido neste tempo e espaço, o amor corre, evapora, condensa e chove em outro lugar, para outras gentes, em outra geografia, em outras épocas.

Num futuro, como diz a música, escafandristas – só o Chico Buarque para colocar com pertinência escafandristas numa música – recolherão e arqueologistas consultarão os vestígios digitais e analógicos do amor não vivido. Os sábios de então procurarão, ávidos, a Pedra Rosetta, o granito negro que lhes permitirá ver o tamanho do amor que não se plenificou. Ficou na história universal dos amores não vividos, como aquele de Verona. Como o amor não se perde, mas se trasmuta, se metamorfoseia e migra, enquanto tentam os arqueológos decifrar de onde veio, futuros amantes estarão usufruindo com delírio desse amor diferido, de feridos, sem saber que ele é herança de uma impossibilidade passada.

Nada de tristeza. Pode-se sempre usar o amor viajante, deixado pelos amores proibidos do século XVI. Se não cairmos na falácia de que tem de ser um amor específico, podemos entender que podemos ser os futuros amantes de um passado no nosso presente. Não se afobe, não. Amores serão sempre amáveis. Nada é pra já.

Catando conchas

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Em 1977, meu pai nos levou, meu irmão mais velho e eu, para férias no Rio de Janeiro. Eram tempos bicudos. Ficamos em casa de parentes para economizar. Eu tinha nove anos quando vi o mar pela primeira vez. Eu, um ser dos rios, nunca esqueci a primeira vez que meus olhos me viram no reflexo das ondas. Senti vontade de pedir para meu pai e para meu irmão para me ajudar a olhar aquele mar, de tão grande.

Minha diversão naquelas férias foi recolher conchas do mar. No primeiro dia, recolhi conchas dos mais variados tipos, cores e tamanhos. Lindas. Eram as conchas a materialização do meu primeiro contato com o mar, as lembranças vivas de que eu estivera ali. Enchi um saco plástico enorme com elas.

À noite, um fedor fenomenal tomava conta da casa da Tia Ernestina, nossa anfitriã.  Consternado, tive de jogar fora minha primeira coleta de conchas selecionadas. Foi quando aprendi que quando se retira algo do mar, como as conchas, devemos lavar com água doce. Jamais esqueci. Colecionei conchas naquele verão. Devidamente lavadas e processadas. E elas vieram comigo para Manaus e fizeram o maior sucesso com meus colegas da 4a série da Professora Polari.

Hoje, minha filha Clara foi para praia com um propósito: recolher conchas. O tempo voltou num túnel de lembranças para aquele Rio de 1977. Fui com ela da areia da barraca à areia da praia, onde as ondas lambiam o chão, trazendo e levando conchas, num jogo de manja-pega pensado por Deus para divertir pais e filhos. No caminho para o mar, lembrei-me da criança de nove anos. Molhei o rosto para misturar às lagrimas a água do mar, ambas salgadas. Recolhemos, Clara e eu, conchas dos mais variados tipos, cores e tamanhos. Lindas. A cada concha um sorriso de uma conquista e uma exclamação: “- Olha, pai! Que linda essa!”

Brincamos no mar por um bom tempo. Tanto Clara quanto Marina perdendo o medo de se soltar e enfrentar sozinhas o vai e vem das águas do Guarujá. Entre um caldo e outro, um choro, depois sorriso, entremeados. Clara não dava o braço a torcer: “- Tranquilo, pai! É só água!”, dizia passando a mão no rosto. Marina, tão mais atirada na vida, respeitou o mar com mais reverência. “- Só vou se você for comigo!” A vida requer estilos diferentes para momentos diferentes. Achei digno.

O que isso tudo significa na metáfora da vida?

Minhas filhas vão explorar terrenos novos, vão levar caldos e cair, beber água, tossir e levantar. Vão seguir em frente, tentando não sentir a queda. Por um bom tempo – queira Deus que um bem longo -, eu estarei lá para lhes segurar as mãozinhas confiante no pai. Mas vai chegar um dia em que elas vão ter de pisar no mar da vida sozinhas, sem mãos para lhes dar apoio e suporte. Vai chegar um tempo em que minhas meninas vão tomar seus rumos e decidir se vão querer ficar na areia ou ir embora para o oceano vasto do mundo. Vai chegar um dia em que elas catarão conchinhas em areias que seu pai sequer sonhou em pisar.

É o ciclo da vida. É assim. Mas não deixa de me angustiar. Todo pai e toda mãe queria, se pudesse, carregar seus filhos no colo para sempre. Mente vergonhosamente quem diz que não. De vez em quando, se me conheço, tomarei minhas filhas pela mão e lhes convidarei a buscar conchas num passeio a dois. Mesmo quando forem grandes e tiverem suas famílias. Será o nosso tempo de reviver nossos encontros do hoje presente. E, tenho certeza, acharemos conchas dos mais variados tipos, cores e tamanhos. Lindas. E as lavaremos com água doce para lhes tirar o excesso de sal. Não é assim que devemos fazer com a vida?

Hoje Clara aprendeu que é preciso que a gente faça a nossa parte para as coisas saírem como planejadas. Ela já separou as conchas para levar. Farão um sucesso incrível com a turma do 3o Período. E lá na frente, quando ela estiver catando conchas com seus filhos, o vento soprará a nossa viagem ao Guarujá em sua memória. E ela, junto com os filhos, achará conchas dos mais variados tipos, cores e tamanhos. Lindas. E lembrará a eles que é preciso lavá-las para levá-las. Mas que, acima de tudo, é preciso catar conchas com os filhos.

Quando a água é muito limpa…

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O ser humano é um animal na natureza, como animais são o peixe e o pássaro. O pássaro está programado para voar e o peixe pra nadar e nós, humanos, estamos programados para falar. Possuímos a capacidade inata da linguagem. Diferente da dos outros animais, a linguagem humana é simbólica e, por isso, aprendemos com o idioma valores éticos, morais, jurídicos, enfim, uma série de parâmetros que vão guiar nossos atos para vivermos em sociedade. Aí começa a coisa.

Não podemos, como fazem os demais animais, dar vazão aos nossos impulsos e desejos na hora em que eles aparecem. Não podemos nos apropriar do bem alheio, da mulher do próximo, dizer tudo que desejamos, fazer o que nos dá na telha. Somos bloqueados nessas vontades. Confessemos: queremos muitas vezes, mas não podemos. Estamos limitados pelos filtros sociais que a linguagem nos impõe. É a linguagem que separa o homem da natureza. Até aí parece tudo normal, não é? Parece, mas há um detalhe.

O detalhe é que esse desejo não realizado, que se chama pulsão, não se apaga. Ela vai para algum lugar, uma espécie de gavetão do proibidão. É lá nesse gavetão, chamado inconsciente, que os desejos reprimidos ficam armazenados. Mas por serem pulsões, pulsam inquietos doidos para sair de lá. Como na lei da física, as pulsões vão se acumulando e o espaço vai ficando pequeno demais para tanta vontade reprimida, recalcada. É preciso aliviar. Como vem o alívio?

Quantas vezes você se pega surpreendido por si mesmo dizendo coisas ou nomes que não deveriam estar ali naquela frase? Atos falhos e lapsos são o tchiiiii da panela de pressão. É por um nome dito foras de hora ou por meio de uma frase que foge ao controle da consciência da linguagem que os desejos acham os seus caminhos para fugir da prisão do inconsciente. Sacou por que você chamou o seu namorado atual pelo nome do ex ou a sua mulher pelo nome daquela gostosa que você queria pegar? Entendeu a razão de aquela palavra vir ali por conta própria lhe embaraçando todo e lhe embaralhando a vida? Pois é. É o tchiiiii.

Mas são os sonhos os melhores palcos da vazão do recalcado. Quando dormimos, abrem-se as porteiras dos desejos e dançam-se os bailes funk do proibidão do inconsciente. Por isso você aparece em lugares que você de alguma forma quer e não pode estar, fazendo coisas estranhas que seu eu consciente nunca faria, com pessoas que os seus filtros jamais deixariam contracenar com você na vida real. Não por falta de vontade, mas por falta de possibilidade social. Vale tudo no sonho. Mas a mente é esperta e nem sempre entrega tudo de bandeja. Às vezes ela metaforiza coisas por pessoas e pessoas por lugares. Fazer amor com o presidente Lula no sonho pode representar uma vontade reprimida de dormir com o poder. Péssimo exemplo, reconheço. Desculpa. Cobrir alguém do Twitter de porrada no sonho representa uma resistência ao próprio Twitter por algum motivo ou pode ser ciúme dessa pessoa pura e simplesmente. Freud dizia que um charuto às vezes é só um charuto mesmo.

O meu ponto aqui neste texto é o seguinte: pela linguagem usada, podemos ler muito mais do que um idioma. Podemos ler o próprio sujeito e seus desejos. A linguagem vaza os desejos contidos. Saber ler essas marcas, os tchiiiiis, revela muito das pessoas com quem convivemos. Quando a gente diz, a gente sempre se diz junto.

O Twitter é um prato cheio para análises. Se tivesse som, seria uma sinfonia de tchiiiis. Os RTs quase sempre são desejos reprimidos sendo falados pelos outros. Eu não posso falar algo, mas pego carona em alguém que falou e me digo por ele, aliviando minha pulsão. DMs são pulsões seguras, que morreriam de medo de passear pela timeline. Mas nós mesmos nos traímos em 140 caracteres e vez por outra largamos algo que não era para sair, mas que encontrou seu caminho. E algumas pessoas conseguem ler o tweet aparentemente sem nexo, solto, sem sentido. Porque ele é grávido de sentidos, ligado a uma rede de memória que veio antes e que vai continuar depois. Todo sentido vem de um lugar e aponta para outro. Ninguém usa a linguagem impunemente. É isso.

Termino com esse tweet que pesquei agora: “Quando eu era criança, às vezes eu falava sozinho e todos me chamavam de louco. Eu cresci, agora não é mais loucura. Tá na moda, é Twitter”. Twitter, é vero, não é a loucura. É mais uma forma de não explodir as pulsões confinadas. Tem gente que come, tem gente que faz sexo, tem gente que joga. Tem gente que acha defeito em tudo, tem gente que tuíta. E tem gente que escreve.

Diz a letra de Há tempos, do Legião Urbana: “Lá em casa tem um poço, mas a água é muito limpa…”. Não me iludo. Sob a água limpa, há a não potável que mata a sede. Eu me escrevo aqui. Você já aprendeu a me ler, leitor? Qualquer coisa, DM 😉

A borboleta e o vulcão

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Contava-se na China a história que ocorrera há muitos e muitos anos e que fazia parte da tradição milenar chinesa: a história da borboleta cantora e do vulcão extinto.

Dizem que tudo começou quando uma bela borboleta cantora quebrou sua asa pela segunda vez. Passeando pela floresta em busca de um remédio para sua asa quebrada, foi informada que havia um vulcão nas redondezas cuja lava poderia curá-la. Disseram à borboleta cantora da asa quebrada que o vulcão, porém, estava inativo, logo sendo inútil sua busca.

Mas a borboleta não se deu por satisfeita e passou então a procurar mais atentamente o vulcão. Localizou-o e passou a observá-lo diariamente enquanto caminhava até ele, uma vez que não podia voar, pois sua asa estava quebrada. E a borboleta seguiu, então, montanha acima, conquistando lentamente espaços e territórios que muitos diziam ter donos e donos ferozes. Mas a determinação da borboleta era algo realmente muito forte. Não se abalou e seguiu, com a asa quebrada, mas cantando belas canções. Havia algo que lhe dizia que aquele vulcão, mesmo caladinho, estava a ponto de explodir e inundar as adjacências com sua lava, o esperado remédio para a sua asa quebrada de borboleta cantora.

A cada dia, a borboleta cantora da asa quebrada subia, andando sem pressa e pacientemente a montanha onde ficava o vulcão. Era uma borboleta incansável. Andou tanto que chegou ao topo, ficando cara a cara com o vulcão. O vulcão, sempre silencioso, esperou que a borboleta, sempre falante, falasse.

“Vulcão”, disse a borboleta, “sou uma borboleta cantora e como vês a minha asa está quebrada. Vim andando até aqui, mesmo estando machucada e exausta, porque me contaram que sua lava serviria como remédio. Eu sei que dizem que você está extinto e inativo, mas como sou uma borboleta sensível sei também que há muita lava aí pronta para ser cuspida para fora, basta haver uma razão. Uma boa razão. Eu e minha música somos uma boa razão”, falou a borboleta cantora da asa quebrada.

“Borboleta”, respondeu o vulcão desconfiado, “o que queres tu de mim?”. Estou aqui quieto no meu canto, com minha vidinha definida e vens me perturbar com tua asa quebrada e tua música”.

“Não gostas de minha música?”, perguntou a borboleta.

“Na verdade gosto e muito. Gostaria que cantasses para mim todos os dias. Mas não sei se devo explodir e derramar minha lava sobre ti e sobre os campos só por causa da tua asa quebrada. Essa asa quebrada me perturba muito, confesso. Talvez a lava te cure, mas queime muito pasto e muita gente. Inclusive você e minhas amigas montanhas rochosas aqui ao lado, amigas de muito tempo”.

“Mas vulcão, que opções eu tenho?”

“Duas: ficar aqui cantando para mim e esperar que a asa se cure com o tempo ou…”

“Ou…?”, perguntou a sempre curiosa  borboleta ao vulcão, sempre misterioso e de frases incompletas.

“Ou o quê, vulcão?”, insistiu a borboleta.

Mas o vulcão não respondeu. Jogou as sobrancelhas para lado como quem diz algo que não consegue verbalizar. Tinha essa mania. Fazia sempre isso.

“Já sei. Ou canto e espero sarar ou te convenço a me cobrir de lava para me curar, mesmo afetando os pastos e as montanhas rochosas. Certo?”

“Pode ser…”, disse o vulcão, como sempre em meias palavras. “Sabe o que é, borboleta cantora: tenho a impressão de que você só veio cantar para mim, coisa que confessadamente adoro, por causa de sua asa quebrada. Que se eu ajudar a consertar sua asa, você vai voar para outras florestas e eu vou ficar aqui, em companhia dessas montanhas rochosas que já me acompanham há algum tempo. Tenho medo que isso aconteça. O medo sempre me perseguiu”.

“Entendo sua preocupação, vulcãozinho, mas devo lhe dizer uma coisa: eu gosto de cantar como gosto da própria vida. E jamais cantaria somente para ter sua lava para curar minha asa quebrada. Ela está quebrada, sim, mas minhas cordas vocais não estão e minha música é verdadeira”.

O vulcão ficou todo enrolado, em dúvidas sobre o que fazer. Como medo, como sempre. Continuar ao lado das montanhas rochosas ou explodir, curar a borboleta, mesmo com algumas baixas no processo, coisa que de fato já há muito estava com vontade de fazer.

“O que você quer de mim, borboleta? Fale. Seja sincera”, perguntou agoniado o vulcãozinho, mesmo sem demonstrar que estava. Ele não era muito bom para demonstrar sentimentos…

“Sabe, vulcão. Na minha vinda para cá confesso que pensei muito em mim e na minha asa quebrada. Mas como vim devagar e andando, confesso que me apaixonei por você”.

“Como?! Apaixonou?! Que história é essa?”

“É. Paixão. Vontade de estar junto, de cantar para dormir, de querer ficar perto, de conhecer mais. Acho que se eu for embora agora morrerei de saudades”.

“Mas eu sou um vulcão e você é uma borboleta!”.

“E paixão lá quer saber dessas coisas, vulcão! Ela simplesmente chega e invade. Pronto! Sabe, decidi uma coisa. Vou cantar para você todos os dias que você quiser. E nem precisa explodir para me curar. Acabo de descobrir que só o fato de ter chegado perto de você já melhorou minha asa. Quem sabe se você me permitir ficar perto e cantar, vez por outra, me cure completamente?”

“Estou confuso”, disse o vulcão remexendo as sobrancelhas, enquanto os outros bichos da floresta, loucos pelo canto da borboleta, gritavam: “Vulcão leso! Vulcão besta! Explode logo, cura a asa da borboleta! Assim ela vai poder voar de novo e irá aprender novas músicas para ti!”

O vulcão pensou, pensou, pensou. E disse, meio desconfiado:

“Borboleta, você gosta mesmo de mim mesmo?”

A borboleta não respondeu. Sorriu. E bateu asas e voou. Estava curada. Descobriu que não era a lava do vulcão o remédio para sua asa, mas a paixão dentro de si que acabou por curá-la. O vulcão, sob os gritos coletivos de “leso, leso!”, viu a borboleta ir embora, sem explodir. Sentiu um misto de tristeza e de alívio. Tristeza porque perdera as músicas inebriantes da borboleta, de que tanto gostava e que, apesar das tentativas, conseguia disfarçar mal e porcamente. Sentiu alívio porque não teve que mexer em nada na sua vidinha, ali sedimentadas junto às montanhas rochosas. O tal do medo.

À noite, quando o vulcão já estava quase adormecido (mas sem esquecer da borboleta, com quem até já sonhara), ele ouviu a suave voz da borboleta a cantar. Sentiu um frio na barriga. Ou seria um quente? Era um quente! Estava preste a explodir. A borboleta disse:

“Minha paixão por ti me curou. Voltei e voltarei quando quiseres para cantar para ti”.

“Sabes que não posso sair daqui. Minha única forma de me movimentar é explodindo, entrando em erupção, botando para fora todo esse fogo que tenho dentro de mim”.

“Então, vulcão, faça isso quando achar que deve. Não faça por mim, mas por você. Vir aqui cantar quando você quiser independe disso. É meu prazer. É minha gratidão pela cura de minha asa”.

Diz a lenda que todas as vezes que o vulcão chamava, a borboleta vinha cantar. E diz a lenda também que o vulcão chamava a borboleta através de pequenas erupções, que nem destruíam os pastos, nem as montanhas rochosas.

Não há registro de grandes erupções. Não há registro de que a borboleta cansou de cantar. Mas cada um, a seu modo, ficou curado. E cada um, a seu modo, ficou feliz. A borboleta cantora, cantando apaixonada e grata e o vulcão das pequenas erupções, sempre silencioso e mexendo as sobrancelhas quando ficava sem graça. E assim foi, apesar dos bichos da floresta terem apelidado o vulcão de vulcãozinho leso, por não ter tido coragem de explodir.

A borboleta e o vulcão, no entanto, sabiam no fundo que eles, os bichos da floresta, queriam mesmo era só ver o show de lava e explosões. E em segredo então se amaram. Até hoje só eles e eu, o narrador, sabemos da verdade. Ninguém nunca soube. Nem saberá.

Com açúcar, com afeto

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Texto escrito para o Portal D24AM.com

Com açúcar, com afeto, fiz seu doce predileto/ Pra você parar em casa, qual o quê!/ Com seu terno mais bonito, você sai, não acredito/ Quando diz que não se atrasa /  Você diz que é um operário, sai em busca do salário/ Pra poder me sustentar, qual o quê!/ No caminho da oficina, há um bar em cada esquina/ Pra você comemorar, sei lá o quê!/ Sei que alguém vai sentar junto, você vai puxar assunto/ Discutindo futebol/ E ficar olhando as saias de quem vive pelas praias/ Coloridas pelo sol/ Vem a noite e mais um copo, sei que alegre ma non troppo/ Você vai querer cantar/ Na caixinha um novo amigo vai bater um samba antigo/ Pra você rememorar / Quando a noite enfim lhe cansa, você vem feito criança/ Pra chorar o meu perdão, qual o quê! Diz pra eu não ficar sentida, diz que vai mudar de vida/ Pra agradar meu coração /E ao lhe ver assim cansado, maltrapilho e maltratado/ Como vou me aborrecer? Qual o quê! /Logo vou esquentar seu prato, dou um beijo em seu retrato/ E abro os meus braços pra você.

Eu te amo. Eu também. Escolhi você. Escolhi você. Mas onde você estava? Com amigos. Que amigos? Uns amigos. Ela estava? Estava, mas o que importa: escolhi você. Mas e se ela quiser você? As pessoas podem querer bem umas às outras sem se querer para si e eu escolhi você. Mas se ela quiser? Pode querer, mas escolhi você. E se pintar o clima? Às vezes pinta mesmo, as pessoas flertam, mas e daí se escolhi você? Mas e se lhe assediarem? Assediam mesmo, acontece, mas escolhi você. Você deu carona? Dei. Deu?! Dei. Por quê? Porque as pessoas precisam voltar pra casa, eu estava disponível para dar carona e não ia deixar que meus amigos que me fazem tão bem fossem de táxi quando eu podia lhes dar carona. Mas e o perigo? É o trânsito anda louco… Não é disso que estou falando! Estou falando do perigo de vocês ficarem juntos! Há sempre uma probabilidade lógica, mas a possibilidade se esvai porque faz tempo que escolhi você. Mas sobre o que vocês conversaram? Um monte de assuntos, inclusive como e porque eu escolhi você. Eu te amo, por isso pergunto. Eu te amo, escolhi você e por isso respondo a essas perguntas que em vidas que andam juntas não se faz. E no trabalho, tem gente que te quer? Tem, sempre tem. Tem?! Tem, mas escolhi você. E essa mensagem no seu celular? E essa DM no seu Twitter? Pois é… povo efusivo, né? O que significam essas mensagens? Significam que eu tenho amigos que gostam de mim, da minha companhia, do meu trabalho, ou que tem alguém que queria muito estar no seu lugar, tendo sido escolhida por mim para dividir o resto da minha vida, porque escolhi você. Você vai sair de novo? Vou. Sem mim? É, as pessoas saem, às vezes preciso e gosto de ficar sozinho e o fato de nem sempre fazer as coisas com você não apaga o fato de que eu escolhi você para segurar minha mão quando fechar meus olhos. Você não comete erros? Eu?! Claro que sim. Ninguém é perfeito e desculpa se não consigo por alguns instantes mostrar que com tudo o que acontece na vida o que mais  importa é que fiz uma escolha: você. Mas eu não gosto de certas coisas! Você quer que o homem que você escolheu mude para lhe agradar? Tá bom, eu mudo e mudo porque quero ficar com você. Não, não é isso, isso não é justo. Meu amor, o mundo é um moinho, pronto para destroçar nossos sonhos. Só que a dois a gente segura melhor a barra. Por isso escolhi você para segurá-la comigo. Eu sei. Eu te amo. Eu também. Porque sei disso, eu escolhi você. A gente precisa lembrar que a vida só vale a pena se a gente colocar açúcar para adoçar as amarguras. E não se esquecer do afeto, né? E do afeto. Você se importa comigo. Eu sinto isso no dia-a-dia. Por isso escolhi você como a mulher da minha vida e esteja certa de que esta frase é a que sempre prevalece e vai prevalecer nas decisões que tenho de tomar sobre a gente, sobre a vida, sobre o futuro. Não esqueça disso. Own… vem aqui e apaga a luz. Eu te amo. Eu também. Escolhi você. Escolhi você… Mas que perfume é esse?

Colhendo amoras

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“E ninguém sou eu. E ninguém é você. Esta é a solidão”.
Clarice Lispector

É clássica a história de que os esquimós têm várias palavras para se referir ao gelo: gelo para construir iglu, gelo de neve, gelo para a coca-cola. As línguas recortam o mundo de forma diferente. Os amazonenses, por exemplo, têm suas nuances na linguagem das águas. No campo semântico de “rio”, há “igapó”, “igarapé”, “furo”, “paraná”, “pari”, “braço”, para citar alguns.

Fato é que quanto mais línguas uma pessoa fala, mais relativiza os sentidos de sua língua materna. Ao entrar em outro universo simbólico e perceber que o mundo pode ser recortado e lido de outras maneiras, sai-se do (des)conforto de sua língua para o (des)conforto dos sentidos plurais que uma outra língua descortina.  Há uma inegável correlação: quem fala mais línguas tende a ser mais tolerante com os sentidos do mundo do que quem não fala. Tem mais janelas para ver a paisagem e a janela faz parte da paisagem do sentido.

Caetano Veloso exagera quando diz que “está provado que só é possível filosofar em alemão”. No entanto, há idiossincrasias linguísticas interessantes. O “saudade” do português dá de goleada na expressão do banzo pela ausência de alguém frente ao “I miss you” do inglês, ao “te echo de menos” do espanhol ou ao “tu me manques” do francês. Não é a mesma coisa. Não tem o mesmo peso.

Linguista de formação, longe de mim afirmar que há línguas melhores e piores, mais fáceis ou mais difíceis. Claro que não há. Mas há formas mais poéticas de recortar o mundo. No tupi, “catapora” quer dizer “marca de fogo”. Quem teve catapora sabe como isso é preciso. “Tupuy” significa ao mesmo tempo “ser” e “som em pé”. Nessa língua, ser e linguagem são uma coisa só. Em tupi ainda, “choram-se as pitangas” quando a dor é grande, uma expressão que o português também herdou. Pitangas são vermelhas. Metaforizam lágrimas de sangue. A dor é aguda. Dá licença, é poesia pura.

Esse preâmbulo todo é só para falar da diferença que a língua inglesa faz daquilo que a portuguesa chama de “solidão”. O que o português resume em uma, o inglês desdobra em duas palavras: “loneliness” e “solitude”.

Há momentos em que queremos alguém, buscamos companhia. Queremos dividir as dores do mundo. Ou suas alegrias. Queremos aquele abraço analgésico, um cafuné terapêutico, o ouvido para desaguarmos nossos desenganos. Queremos um ser amigo que empreste a fundo perdido o ombro ou o colo para o recosto da cabeça pesada de coisas, ardendo de ideias mentoladas a inquietar nossa paz. Mas olhamos para todas as direções e essa pessoa simplesmente evadiu-se da nossa rosa dos ventos. Ela não há. “Ninguém no caminho, e nada, nada a não ser amora”, como reclama a poetisa Sylvia Plath. É a solidão. E solidão, não se engane, não se resolve com a presença do corpo. É preciso que a alma esteja lá para dialogar. Há solidões em meio a multidões. Essa solidão de que falamos aqui é uma solidão estéril em sua busca. Queremos alguém, mas não temos. Procuramos, mas não achamos. É a “loneliness” do inglês.

Por outro lado, há o momento de saturação. O mundo transborda para dentro de nós de tal jeito que a possibilidade de sobrevivência passa necessariamente por se descolar ao máximo dele. Porque ninguém serve e todos atrapalham. Qualquer coisa é demais. Vem aquela vontade recorrente de se ausentar por uns tempos, de hibernar a alma em algum lugar inacessível às nossas redes sociais para depois, quiçá, voltar. Uns não suportam o caminho de volta e por lá ficam. Como Sylvia Plath, Virgina Woolf, Hemingway, Kurt Cobain, Raul Pompéia e tantos que prefiram a solidão eterna. É uma hora em que explicações perdem a valência: não vale a pena relatar ao mundo o que se passa porque ninguém vai entender mesmo. A única companhia que queremos é a do silêncio de nossos gritos internos. Ou do barulho de nossos silêncios externos. Buscamos o livro mais alto e mais grosso na estante de nossa vida para nos enfiar entre suas páginas de forma que fiquemos inencontráveis. O desencontro é o combustível. Quando Picasso fala que “não se pode fazer nada sem a solidão” é a esse tipo que se refere. A solidão desejada. Nós temos alguém, mas não queremos. “Solitude”.

Aristóteles, que também supostamente foi e não quis voltar, disse que “o homem solitário é uma besta ou um deus”. A dualidade da solidão depende da incapacidade de se ter alguém ao lado ou da divina capacidade de marcar um encontro consigo e só consigo para dançar de olhos fechados as bachianas no seu interior. Antes que alguém reclame de que a solidão não combina com o amor, Rainer Rilke, poeta alemão, mata a pau: “O amor são duas solidões protegendo-se uma à outra”.

Clarice Lispector, que começou o texto lá em cima, vem para terminá-lo cá embaixo: “Fique de vez em quando só, senão será submergido. Até o amor excessivo pode submergir uma pessoa”.

É. Danço eu, dança você, na dança da solidão…

A bunda da Siemens

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[Texto publicado originalmente em 05 de fevereiro de 2004. Já discutia o bloqueio de informaçõe na internet].

Muita gente me pergunta a razão de eu não publicar os escritos em algum jornal. A resposta é que, primeiro, eu nunca ofereci e, segundo, nem sei se eles aceitariam essas mal digitadas. Até que poderia ser uma boa, pelo menos em termos de alcance de leitores. Mas enquanto eu não recebo uma proposta irrecusável da Folha de São Paulo, eu publico aqui mesmo no meu site e envio os textículos – com xis! – para uma lista de amigos, parentes e alunos que, gostando, vão passando e vão passando e vão passando…

Adoro feedback. Gosto de saber o que as pessoas pensam a respeito do que escrevo. Sempre recebo mensagens muito legais, como o gentil e-mail que me foi enviado pela mãe do meu cunhado Digão, a Dona Nazaré, se dizendo minha fã. Ganhei o dia. Mas na última semana, quando escrevi sobre reuniões de condomínio, uma resposta me surpreendeu. O e-mail era da Siemens, a fábrica. Primeiro pensei que pudesse ser obra sacana do My Doom, o vírus que encheu o saco e as caixas de entrada semana passada. De repente poderia ter vindo atachado nas infinitas e pesadas  apresentações de Powerpoint enviados pela Ana Célia. Mas como diria a Néia, que trabalhou para a minha mãe: O “peor” é que não era o vírus, não. Era um e-mail automático da empresa mesmo dizendo que meu texto havia sido sumariamente deletado assim que chegou a seus servidores pelo fato de conter a palavra “bunda”.  Parece que essa é uma palavra proibida de circular na Siemens. Será que lá ninguém tem bunda? Curioso com o fato, analisei detalhadamente o e-mail e verifiquei que se tratava de um programa censor automatizado que se baseia numa série de palavras para vetar alguns e-mails recebidos pelos funcionários, no caso em tela uma aluna minha da pós-graduação que lá trabalha e que, suponho, não recebeu o texto e, por conseguinte, não viu minha bunda passar.

São duas as questões que tilintam nos meus dedos por causa desse episódio: os limites da liberdade de expressão e o controle da linguagem. As perguntas que se colocam são: até que ponto podemos selecionar previamente um conteúdo para outras pessoas, seja ele qual for? Até que ponto podemos decidir para terceiros o que é ou não desejável, bonito, ofensivo ou abominável, tirando-lhe assim o direito de conhecer para escolher ou, inclusive, para não escolher? Taí: se tem uma coisa que é abominável e ofensivo na minha opinião é a censura prévia. Não concordar com algo e fazer uso de qualquer nível de poder para forçar que outras pessoas também não concordem é uma violência simbólica ferrada. Não gosta, mermão? Então não lê, não assiste, não compra, não usa, muda de canal. Há quem goste, quem leia, quem compre, quem use e até quem grave o canal. Tem gosto para tudo. Tem gente que veste amarelo. Tem até quem seja Flamengo! O direito à escolha é uma prerrogativa do seres humanos e dos Flamenguistas  e temos vários momentos na história da humanidade em que esse direito foi cerceado, estando a própria história aí para dizer como foram ruins esses momentos e como eles não deixam nenhuma saudade.

Escolher seja lá o que for não é um ato neutro. O programador – ou alguém que manda nele – listou uma série de palavras e decidiu por todos, como se tivesse procuração geral. Decidiu que eles não deveriam ler aquilo que ele acha indecente, imoral ou inapropriado, conceitos, aliás, bastante subjetivos e definidos por formações discursivas diferentes de formas diferentes. Sei não, mas eu estou mais na turma do “Deixa eu ver para ver se quero” do que na do “Vixe! Tira isso daqui! Deusulivre, mana! Pé-de-pato, mangalô, três vezes!” Recebo todo dia um monte de mensagens sobre coisas que não importam, muitas das quais não preciso, como aquelas mensagens de enlarge your penis . Eu passo a vista e decido se me útil ou não. Nesse caso, diga-se de passagem, não é. O importante disso tudo é que eu decido e não quero ninguém decidindo por mim.

Agora pára e pensa, leitor amigo: e se o programador – ou o chefe dele, ou o chefe do chefe etc – for Testemunha de Jeová e colocar “doação de sangue” na lista negra de palavras e expressões abomináveis? Quantos potenciais doadores não deixariam de participar, digamos, de uma campanha convocada pelo e-mail? Se for do PSTU e vetar “Estados Unidos”, quantos negócios a empresa não perderia? E se o censor for o meu primo Amaro Junior, webdesigner da Suframa, que enrola a noiva há treze anos, detonando toda e qualquer ocorrência de “casamento” ou “matrimônio”, como tem feito por mais de uma década? As possibilidades são infinitas. Basta fazer um rápido exercício mental e ver como é injusto o outro decidir por nós baseado em suas crenças, valores, conceitos e preconceitos. Já pensou se uma empresa chamada World Bunda Incorporated, de Singapura, digamos, manda uma mensagem a fim de encomendar negócios milionários em aparelhos de telefones da Siemens. Sua bunda não passa da porta digital. É barrada na chegada.

A empresa tem todo direito de ter suas regras, claro. Mas controlar a linguagem é uma das crenças mais pueris do ser humano. Linguisticamente, dizemos que mais do que falar a língua, é ela que nos fala através dela. E a língua é líquida. Escorre pela mãos e acha por onde escorrer. Ninguém aprisiona o sentido, pois ele sempre escapa, ele é fluido. Pode-se, por exemplo, escrever b*u*n*d*a, em vez de bunda, para burlar o bedel digital. Ou, como diria o Didi dos Trapalhões, pode-se falar “região glútea”. Mais opções? Nádegas, popozão, anca. Enfim…

É preciso saber que se pode dizer muito através do silêncio, como faziam os jornais na época do regime militar. Censurados, eles publicavam um vazio ou uma receita de bolo na primeira página, no lugar da matéria cortada. Pode-se dizer dizendo de outra forma. As músicas duplex de Chico Buarque são obras-primas nisso. A “Bárbara” da música de Chico, mais do que um nome de mulher bonita – e estou pensando na minha prima Bárbara Cyrino, para ser sincero –  era um adjetivo para a ditadura. “Cálice” falava pela homofonia: “Pai, afasta de mim este cálice/cale-se”.

A questão de fundo é: quem pratica a política do silenciamento lingüístico fomenta o silenciamento da política, entendida como a capacidade do ser humano de tomar decisões. Hoje sabemos que o que se quer é gente no mundo e nas empresas para pensar e decidir a partir das informações que chegam – que chegam! – e não somente para executar tarefas mecânicas, como o Carlitos de Charles Chaplin em Tempos modernos. Há um grande choque de objetivo quando uma empresa decide que seu empregado não precisa decidir porque já decidiram. É um contra-senso, uma verdadeira pavulice para os tempos de hoje.

Penso sinceramente que gastar dinheiro em sistemas de censura é alocar mal os recursos que já são poucos em tempo de estagnação econômica. A propósito, a palavra bunda entrou na Língua Portuguesa através de mbunda, de um dialeto da Angola, trazida pelos escravos, segundo o honesto Houaiss. Censurar a bunda é coisa de gente bun… digo, gente nadegona. Ah, deixem minha bunda em paz. E minha aluna, coitada, que não vai ler essa de novo…

Um texto antigo para recordar

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O MAR E OS SABICHÕES

“O Mar...Diego não conhecia o mar. O pai, Santiago Kovadloff, o levou para que descobrisse o mar. Viajaram para o sul. Ele, o mar, estava do outro lado das dunas altas, esperando. Quando o menino e o pai enfim alcançaram aquelas alturas de areia, depois de muito caminhar, o mar estava na frente de seus olhos. E foi tanta a imensidão do mar, e tanto o seu fulgor, que o menino ficou mudo de beleza. E quando finalmente conseguiu falar, tremendo, gaguejando, pediu ao pai:  Me ajuda a olhar!”

Essa história do ““Livro dos abraços”” de Eduardo Galeano serve de mote para abordar um assunto que vem me inquietando: o efeito socrático reverso. O aforismo “só sei que nada sei” é citado para exemplificar que quanto mais acesso ao conhecimento se tem, mais se tem também a noção da pequeneza da capacidade humana de conhecer. Dito de outra forma: quando mais se avança no conhecimento, maior deve ser a humildade de quem faz o percurso por saber o tamanho do mar do conhecimento frente à limitação do alcance de seus olhos.

A minha preocupação com o efeito socrático reverso se refere ao crescente número de pessoas que ao terminar um ciclo de sua escolaridade encharca-se de arrogância, fazendo do passo dado racionalização para o pedantismo. Vejo várias pessoas que concluíram seus mestrados ou doutorados se achando deuses. Gente que vê no título conseguido um álibi perfeito para jamais fazer o que um dia talvez tenha feito, como pisar no chão de uma sala de aula (ou qualquer chão). Pensam que são sábios, mas não passam de sabichões. Alimentam-se da teorização de idéias recicladas e costuradas em seus papers misteriosos com epígrafe de Paulo Freire, cujo conteúdo ironicamente jamais utilizam em suas práticas.

Lembro-me do corredor da sala de professores do Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp. Ali, atrás daquelas portas, estão nomes brilhantes, presentes na bibliografia de qualquer coisa que se publique sobre linguagem nesse país. O corredor era apelidado de corredor da humildade, tamanho o desprendimento dos professores em relação às vaidades. O senso comum diria que ali ela, a vaidade, deveria arder em várias fogueiras. Ledo engano. Tal qual Diego, os socráticos professores de lá têm a noção de que para ver o mar só seus olhos não bastam. Pedem ajuda a seus alunos por compreenderem que o conhecimento se dá pelo diálogo genuíno com a diferença.

Não, amigos, os sabichões não sabem tudo. Ninguém sabe. Tem gente que sempre sabe mais do que os sabichões. Não, amigos, a vida acadêmica não tem fim. A incompletude lhe é constitutiva. Sim, amigos, outros podem fazer igual ou melhor que os sabichões e isso não é demérito, ainda que os sabichões pensem que seja. Os sabichões não deveriam deixar que a visão do igarapé a que tiveram acesso lhes impeça de ver o mar. Deveriam, sim, desatolar-se do seu montinho de areia e caminhar até as dunas. Tal qual Diego, os sabichões devem respeitar o tamanho do mar, reconhecendo sua incapacidade de olhar sozinho. Quem sabe assim seus narizes se desempinem, seus corações desazedem e eles percebam que o verdadeiro sábio sente um genuíno incômodo em afirmar que sabe, verdadeiro prazer em afirmar que busca, mas sempre pedindo um olhar emprestado para fugir do caminho da iconoclastia fácil.

Saber entender o recado é meio caminho andado. Espero que reste aos sabichões autocrítica para ver o mar de Diego e para vivenciar o nada cognitivo socrático. Se não houver, é questão de tempo sabermos de seus inevitáveis afogamentos nos rasos igarapés do saber, atolados na areia da própria parvuleza.

Enxugando gelo

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[É sério o problema de se recusar a sair dos parâmetros do seu tempo e de seus ranços ideológicos. Mais sério fica quando se quer legislar sobre o novo mundo escrevendo as leis na parede da caverna, como se fossem rupestres. Olhem o que está na VEJA desta semana. Até quando enxugar-se-á o gelo?]

VEJA, 11 de julho de 2009

Brasil

Não sabem o que falam

Falta princípio de realidade ao projeto aprovado
pela Câmara que tenta disciplinar a internet durante
as campanhas eleitorais


Raquel Salgado

Roberto Stuckert Filho/Ag. O Globo
UMA OPINIÃO DINOSSÁURICA
Flávio Dino (PCdoB-MA): “Não podemos aceitar
que a internet seja um território sem regras”

A Câmara dos Deputados aprovou um projeto que faz 173 mudanças na Lei Eleitoral. Dessas, 22 tratam do uso da internet nas eleições e podem ser divididas em dois blocos. No primeiro estão as regras liberalizantes. Elas ampliam, por exemplo, o espaço na rede em que é permitido fazer campanha eleitoral, hoje restrita aos sites dos próprios candidatos. Pelo projeto, os políticos podem passar a usar blogs, redes sociais e e-mails. O restante das medidas é autoritário e está em descompasso com a realidade. Elas equiparam sites de veículos de comunicação e portais a emissoras de rádio e TV, como se os primeiros fossem também concessões públicas e, portanto, sujeitos a supervisão estatal. Não são, fique claro. No projeto, há uma regra que diz que sites e portais devem dar o mesmo tratamento a candidatos e partidos, sob pena de ser multados, e outra que chega a ser mais rígida com a internet do que com os veículos impressos. Veda a propaganda paga na rede, hoje permitida em jornais e revistas. Os deputados também querem proibir a veiculação de vídeos e áudios com montagens que ridicularizam candidatos. É uma tolice que cairá no vazio. Muitos dos sites que divulgam esse tipo de material têm sede no exterior e não são regidos pelas leis brasileiras.

Especialista em legislação de internet, o advogado Renato Opice Blum diz que os deputados tentam tolher a liberdade de expressão. “Muitos artigos do projeto não fazem sentido, como o que exige que todos os políticos tenham idêntico tempo ou espaço na rede. Ora, como isso é possível num meio que prima pela instantaneidade e por abrigar milhões de opiniões individuais?”, espanta-se Blum. O relator da medida, Flávio Dino (PCdoB-MA), rebate: “Não podemos aceitar que a internet seja um território sem regras”. Trata-se de uma opinião dinossáurica, só compartilhada por ditadores chineses, iranianos, cubanos e norte-coreanos, que tentam controlar a rede de computadores. Nas democracias dignas desse nome, a internet é indisciplinada porque sua natureza é indisciplinável. O deputado Dino, tão rígido em relação ao que vai pela rede, mostrou-se flexível em temas mais próximos aos parlamentares. Ele foi favorável a que políticos “ficha-suja”, que respondem a processos criminais, possam se candidatar e também oficializou as “doações ocultas”, feitas aos partidos para esconder o vínculo do doador com o candidato. Possibilitou ainda que erros em prestação de contas de campanha considerados “irrelevantes” sejam perdoados. Como não especificou o que entende por esse adjetivo, abriu uma estrada para absolver políticos que fraudam contas eleitorais. Espera-se que, no Senado, o projeto aprovado na Câmara sofra alterações e perca as tintas do teatro do absurdo.