limites

Textos que valem a leitura

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VEJA, 14 de junho de 2009 – Por Roberto Pompeu de Toledo

Palavras no muro

“Prepare-se o leitor para o sublime encontro entre um autor anônimo, possivelmente sujo, talvez faminto e desocupado, e um dos luminares da literatura”

O amor é importante, pombas. No original, não é “pombas”. É um palavrão, que também começa com “po”. A frase, desenhada com as letras angulosas e sem curvas dos grafiteiros, nas últimas semanas tomou conta de muros, paredes e beiradas de viadutos de São Paulo. Enfim, um grafiteiro inteligente. Ou poético, ou pungente, dependendo do estado de espírito de quem o lê. “O amor é importante, po”, de autoria desconhecida, eleva o grafite paulistano da habitual indigência ao nível dos clássicos do ramo produzidos no maio de 1968 francês – “A imaginação no poder”, “Seja realista: exija o impossível”, “É proibido proibir”.

O segredo da frase é a palavrinha que começa com “po” aposta à oração principal. É o que faz que um pensamento banal adquira vísceras e atinja o leitor. “O amor é importante”, sozinho, seria uma bobagem. Ocorre que o grafiteiro queria dizer exatamente isso, que o amor é importante. Encontrou um jeito de driblar o lugar-comum ao socorrer-se do palavrão. O palavrão contrapõe-se à pieguice do desabafo sentimental e o redime. A violência do expletivo chulo compensa a moleza do pensamento central. Produz-se o inesperado. E o rabisco na rua alcança o patamar da beleza literária.

Esse mesmo fenômeno de uma expressão secundária, na frase, sobrepor-se ao principal e salvá-la encontra-se em… (em quê? em quem? …prepare-se o leitor para saltar dos clandestinos assaltos aos muros de São Paulo para os textos antológicos da literatura universal) …em Jorge Luis Borges. Não que se queira comparar o desconhecido grafiteiro com o criador do Aleph (ou melhor: é o que se quer, sim; prepare-se o leitor para o sublime encontro entre um autor anônimo, possivelmente sujo, talvez faminto, quase certamente desocupado, cuja diversão é vagar pelas ruas da cidade nas horas vazias da noite, e um dos luminares da literatura do século XX). O recurso empregado em “O amor é importante, po” é o mesmo de dois versos do poema La Luna, de Borges:

“Según se sabe, esta mudable vida

Puede, entre tantas cosas, ser muy bella”.

A ideia central, a de que a vida pode ser bela, é simplória como a de que o amor é importante. A maravilha dos versos se deve ao “segundo se sabe” com que se abrem e ao “entre tantas coisas” que precede a qualificação da vida. Eis, de novo, a mágica de componentes secundários da frase – dois, neste caso – tomarem o lugar do principal e o modificarem a ponto de conferir-lhe estatuto de obra de arte. O “segundo se sabe” prepara o espírito para algo já muito repisado, e com isso ameniza a banalidade do que virá a seguir, mas não está aí seu efeito principal. Mais relevante é que se trata de uma expressão marcadamente prosaica, frequente em peças de argumentação, aquelas em que se procura defender um ponto, como um editorial de jornal, uma tese acadêmica ou um arrazoado de advogado. Encontrá-la num poema, a escorar um luminoso momento de encantamento com a vida, produz um contraste da mesma família do palavrão sacado pelo grafiteiro para sublinhar o recado de que o amor é importante.

O “entre tantas coisas” abre ao infinito o leque de feições que pode assumir a vida. Nenhuma surpresa. A vida pode ser bela, mas pode ser muitas outras coisas, feia inclusive. “Vida”, como mulher fácil, pode ir com qualquer adjetivo. Mas aí que está. Se a vida pode ser também feia, trágica, cruel, frustrante e dura, além de agradável, surpreendente ou reconfortante, quando nos damos conta de que, “entre tantas coisas”, ela pode também ser bela, aí sim é que se torna mais bela ainda. Se Borges tivesse apenas escrito que a vida pode ser bela, que decepção, para um escritor de sua estatura. Seria como se o grafiteiro afirmasse que o amor é importante, e ponto final. Ao escrever que a vida “puede, entre tantas cosas, ser muy bella”, ele a torna extraordinariamente bela, ofuscantemente bela.

Se a frase do grafiteiro é digna de Borges, como aqui se procurou demonstrar, a recíproca é verdadeira. Borges é também digno do grafiteiro. Não. Não dá para imaginar o argentino, spray na mão, a esgueirar-se na noite, em busca do muro mais imaculado para aplicar sua marca, isso não. Mesmo porque enxergava mal e podia acidentar-se. Mas dá para imaginar o “Según se sabe, esta mudable vida…” aplicado a um muro, uma parede, uma beirada de viaduto. O efeito seria o mesmo do “O amor é importante, po”. O de uma pausa, uma surpresa e um renovador respiro, em meio à selva da cidade.

VEJA, 14 de junho de 2009 – Por Roberto Pompeu de Toledo

O ouro e a madeira

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Diferente dos outros ou igual a mim?

O ouro afunda no mar/madeira fica por cima/ostra nasce do lodo/gerando pérolas finas/ Não queria ser o mar, me bastava a fonte/ muito menos ser a rosa, simplesmente o espinho/ Não queria ser caminho, porém o atalho/ muito menos ser a chuva, apenas o orvalho/ Não queria ser o dia, só a alvorada/ muito menos ser o campo, me bastava o grão/ não queria ser a vida, porém o momento/ muito menos ser concerto, apenas a canção.

 

Arrumando meus CDs, me deparei com um chamado Samba Bom Nunca Morre. Levei para o carro para ouvir e lá pelas tantas tocou “O ouro e a madeira”, de 1975, cantada pelo grupo Nosso Samba.

Como trabalho com discurso, aponto duas posições em jogo na música. A posição de quem quer, por um lado, estar em evidência, tem como ambições as expectativas do que é socialmente mais valorizado e, por outro, a posição de alguém cuja realização subjetiva está em ser, estar e permanecer em lugares simbólicos que podem não ter apelo social, mas satisfazem a subjetividade na sua simplicidade.

Há pessoas ouro e há pessoas madeira. Ambos reais e legítimos. Ser um ou outro é resultado das querências históricas que moldam as vidas. Onde habita a melhor da vida? Na fama, sucesso, prestígio social, com bastante dinheiro? Ou na realização pessoal de uma vida fora de tudo isso, no anonimato escolhido, no encaixe social previsível, no prestígio interno e com dinheiro o bastante para viver bem? Ser mar ou fonte? Rosa ou espinho? Caminho ou atalho? Chuva ou orvalho? Dia ou alvorada? Campo ou grão? Vida ou momento? Concerto ou canção? Até que ponto a busca pela provável grandiosidade simbólica não sombreia a paz de uma escolha simples pela felicidade? Quem define o tamanho das nossas ambições, materiais ou existenciais? Nós ou os outros?

Minha tese é a de que o valorativo não é inerente ao lugar, mas surge no encontro (ou desencontro) entre ele e o sujeito. Não há um lugar melhor do que outro a priori. Parece-me que o melhor/pior só aparece na coincidência ou não entre o lugar desejado e o desejo alcançado. Há pessoas que querem ser o mar, o são e são absolutamente felizes. Há pessoas que são o mar e prefeririam ser a fonte, como o eu-lírico da música. Há pessoas que são a fonte e prefeririam ser o mar. E há pessoas que são a fonte e estão realizadas em sê-lo. As duas pontas não são problemáticas. Os miolos sim, pelas não-coincidências.

Angústia, decepções, azedume, tristeza e incapacidade de viver feliz vêm dessa não-coincidência: o sujeito deseja um outro lugar, sofrendo por habitar o seu. O que fazer então? Há duas opções lógicas: continuar tentando migrar a todo custo ou redimensionar seus desejos em função dos limites. Desconhecer o que se quer e o que se é é o primeiro problema a superar. Ser feliz passa por refletir sobre a tristeza.

De que, afinal, estou falando? Estou falando que uma música me diz o que minha vó dizia: “Tudo é do tamanho que você faz. Se fizer pequeno será pequeno, se fizer grande será grande”. É isso. Não dá para criticar sonhos alheios. Nem que ele seja o de não sonhar. Cada um toca sua canção, carrega seu grão, faz o seu momento. A felicidade é escolha. Cada qual no seu quadrado.

 

SF, 15.03.2009, 7:45h

Um texto antigo para recordar

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O Mar e os Sabichões

“

Diego não conhecia o mar. O pai, Santiago Kovadloff, o levou para que descobrisse o mar. Viajaram para o sul. Ele, o mar, estava do outro lado das dunas altas, esperando. Quando o menino e o pai enfim alcançaram aquelas alturas de areia, depois de muito caminhar, o mar estava na frente de seus olhos. E foi tanta a imensidão do mar, e tanto o seu fulgor, que o menino ficou mudo de beleza. E quando finalmente conseguiu falar, tremendo, gaguejando, pediu ao pai: Me ajuda a olhar!”

Essa história do “Livro dos abraços” de Eduardo Galeano serve de mote para abordar um assunto que vem me inquietando: o efeito socrático reverso. O aforismo “só sei que nada sei” é citado para exemplificar que quanto mais acesso ao conhecimento se tem, mais se tem também a noção da pequeneza da capacidade humana de conhecer. Dito de outra forma: quando mais se avança no conhecimento, maior deve ser a humildade de quem faz o percurso por saber o tamanho do mar do conhecimento frente à limitação do alcance de seus olhos.

A minha preocupação com o efeito socrático reverso se refere ao crescente número de pessoas que ao terminar um ciclo de sua escolaridade encharca-se de arrogância, fazendo do passo dado racionalização para o pedantismo. Vejo várias pessoas que concluíram seus mestrados ou doutorados se achando deuses. Gente que vê no título conseguido um álibi perfeito para jamais fazer o que um dia talvez tenha feito, como pisar no chão de uma sala de aula (ou qualquer chão). Pensam que são sábios, mas não passam de sabichões. Alimentam-se da teorização de idéias recicladas e costuradas em seus papers misteriosos com epígrafe de Paulo Freire, cujo conteúdo ironicamente jamais utilizam em suas práticas.

Lembro-me do corredor da sala de professores do Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp. Ali, atrás daquelas portas, estão nomes brilhantes, presentes na bibliografia de qualquer coisa que se publique sobre linguagem nesse país. O corredor era apelidado de corredor da humildade, tamanho o desprendimento dos professores em relação às vaidades. O senso comum diria que ali ela, a vaidade, deveria arder em várias fogueiras. Ledo engano. Tal qual Diego, os socráticos professores de lá têm a noção de que para ver o mar só seus olhos não bastam. Pedem ajuda a seus alunos por compreenderem que o conhecimento se dá pelo diálogo genuíno com a diferença.

Não, amigos, os sabichões não sabem tudo. Ninguém sabe. Tem gente que sempre sabe mais do que os sabichões. Não, amigos, a vida acadêmica não tem fim. A incompletude lhe é constitutiva. Sim, amigos, outros podem fazer igual ou melhor que os sabichões e isso não é demérito, ainda que os sabichões pensem que seja. Os sabichões não deveriam deixar que a visão do igarapé a que tiveram acesso lhes impeça de ver o mar. Deveriam, sim, desatolar-se do seu montinho de areia e caminhar até as dunas. Tal qual Diego, os sabichões devem respeitar o tamanho do mar, reconhecendo sua incapacidade de olhar sozinho. Quem sabe assim seus narizes se desempinem, seus corações desazedem e eles percebam que o verdadeiro sábio sente um genuíno incômodo em afirmar que sabe, verdadeiro prazer em afirmar que busca, mas sempre pedindo um olhar emprestado para fugir do caminho da iconoclastia fácil.

Saber entender o recado é meio caminho andado. Espero que reste aos sabichões autocrítica para ver o mar de Diego e para vivenciar o nada cognitivo socrático. Se não houver, é questão de tempo sabermos de seus inevitáveis afogamentos nos rasos igarapés do saber, atolados na areia da própria parvuleza.

Jornal Em Tempo, 29 de agosto de 2007

A torneira da cozinha

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Há coisas que fazemos porque sabemos e há outras que tentamos fazer porque achamos que sabemos ou que podemos dar conta. Foi me enquadrando nessa segunda categoria que me meti a trocar a torneira da pia da cozinha, que estava vazando por cima. Comprei a nova, coloquei minha roupa de handiman, tirei as panelas do armário que fica embaixo da pia e comecei a tarefa doméstica.

Tirar a antiga foi fácil. O fator complicador de tudo era o espaço para manobra, muito pequeno entre a parede e bacia da pia. Minha mão direita ganhou calos em todas as cinco juntas. Normal, pensei. Fazer serviços domésticos sem me machucar comprometeria minha identidade. Eu sempre me esfolo. Quando tirei a torneira velha, percebi que o registro da água que, claro, eu havia fechado não vedava completamente a passagem da água. Eram apenas gotas. Mas tal qual as gotas da tortura chinesa, essas gotinhas começaram a incomodar num crescendo e começaram a alagar tudo. E eu não conseguia encaixar a mangueira na torneira nova porque não havia encontrado o meu alicate-de-pressão, a minha ultra-mega-power ferramenta que me ajuda em tudo. Culpei a empregada, liguei para a Bia em Campinas para reclamar que mexeram nas minhas ferramentas. Enfim, a razão de eu não conseguir ir adiante era da falta de ferramenta adequada. Tentei com uma chave inglesa, mas nada. Comecei às quatro da tarde.Uma da manhã dei uma pausa para levar meu irmão ao aeroporto, sem esquecer, claro, de deixar várias bacias para coletar a água que teimava em pingar. Voltei quarenta minutos depois. Às três da manhã joguei a toalha, também encharcada, como toda cozinha.

Acabei de levar o Ronaldo de volta à loja de material de construção. Ronaldo é o encanador. Fui buscá-lo de manhã cedo, depois de passar a madrugada em claro trocando as bacias de água, que enchiam de 20 em 20 minutos. Como eu acredito mesmo que não há experiência sem aprendizado, a torneira da cozinha me ensinou algumas coisas.

O ser humano tem limites e tem de reconhecer os seus. Tentei ir além da minha capacidade e meu esforço foi em vão. Perdi tempo, paciência, ganhei calos, me molhei. Quando a gente cruza a linha do possível corre o risco de se molhar, de se machucar, de transbordar para outras áreas. Viver com o conhecido, com nossas torneiras velhas, é sempre mais fácil. No entanto, mudar as torneiras por onde passam os sentidos de nossas vidas de vez em quando é preciso, pois começam a vazar de alguma forma. Mas dá trabalho, a margem de manobra é pequena e muitas vezes não conseguimos fazer isso sozinhos. Não adianta culpar as ferramentas quando o problema é a incapacidade e a falta de preparo para lidar com elas. Aceitar os limites e pedir ajuda não nos diminui. Pelo contrário,nos permite conhecer bem melhor as nossas fronteiras.

Até que escrevo direitinho, dou aulas razoáveis, sou um pai e um marido legal, manjo de linguagem. Sei disso. Mas não sei trocar torneiras. Aprendi: sempre vai haver alguém no mundo que sabe mais do que você sobre alguma coisa. Limite. Palavra da semana. Cada um na sua, o mundo gira e a Lusitana roda.

O Ronaldo trocou a torneira em 20 minutos. Cobrou 15 reais. Dei 20. Ah, antes que eu me esqueça: ele usou uma chave-inglesa. Se a dele não fosse igual à minha, teria dado a minha para ele.