linguagem

Colhendo amoras

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“E ninguém sou eu. E ninguém é você. Esta é a solidão”.
Clarice Lispector

É clássica a história de que os esquimós têm várias palavras para se referir ao gelo: gelo para construir iglu, gelo de neve, gelo para a coca-cola. As línguas recortam o mundo de forma diferente. Os amazonenses, por exemplo, têm suas nuances na linguagem das águas. No campo semântico de “rio”, há “igapó”, “igarapé”, “furo”, “paraná”, “pari”, “braço”, para citar alguns.

Fato é que quanto mais línguas uma pessoa fala, mais relativiza os sentidos de sua língua materna. Ao entrar em outro universo simbólico e perceber que o mundo pode ser recortado e lido de outras maneiras, sai-se do (des)conforto de sua língua para o (des)conforto dos sentidos plurais que uma outra língua descortina.  Há uma inegável correlação: quem fala mais línguas tende a ser mais tolerante com os sentidos do mundo do que quem não fala. Tem mais janelas para ver a paisagem e a janela faz parte da paisagem do sentido.

Caetano Veloso exagera quando diz que “está provado que só é possível filosofar em alemão”. No entanto, há idiossincrasias linguísticas interessantes. O “saudade” do português dá de goleada na expressão do banzo pela ausência de alguém frente ao “I miss you” do inglês, ao “te echo de menos” do espanhol ou ao “tu me manques” do francês. Não é a mesma coisa. Não tem o mesmo peso.

Linguista de formação, longe de mim afirmar que há línguas melhores e piores, mais fáceis ou mais difíceis. Claro que não há. Mas há formas mais poéticas de recortar o mundo. No tupi, “catapora” quer dizer “marca de fogo”. Quem teve catapora sabe como isso é preciso. “Tupuy” significa ao mesmo tempo “ser” e “som em pé”. Nessa língua, ser e linguagem são uma coisa só. Em tupi ainda, “choram-se as pitangas” quando a dor é grande, uma expressão que o português também herdou. Pitangas são vermelhas. Metaforizam lágrimas de sangue. A dor é aguda. Dá licença, é poesia pura.

Esse preâmbulo todo é só para falar da diferença que a língua inglesa faz daquilo que a portuguesa chama de “solidão”. O que o português resume em uma, o inglês desdobra em duas palavras: “loneliness” e “solitude”.

Há momentos em que queremos alguém, buscamos companhia. Queremos dividir as dores do mundo. Ou suas alegrias. Queremos aquele abraço analgésico, um cafuné terapêutico, o ouvido para desaguarmos nossos desenganos. Queremos um ser amigo que empreste a fundo perdido o ombro ou o colo para o recosto da cabeça pesada de coisas, ardendo de ideias mentoladas a inquietar nossa paz. Mas olhamos para todas as direções e essa pessoa simplesmente evadiu-se da nossa rosa dos ventos. Ela não há. “Ninguém no caminho, e nada, nada a não ser amora”, como reclama a poetisa Sylvia Plath. É a solidão. E solidão, não se engane, não se resolve com a presença do corpo. É preciso que a alma esteja lá para dialogar. Há solidões em meio a multidões. Essa solidão de que falamos aqui é uma solidão estéril em sua busca. Queremos alguém, mas não temos. Procuramos, mas não achamos. É a “loneliness” do inglês.

Por outro lado, há o momento de saturação. O mundo transborda para dentro de nós de tal jeito que a possibilidade de sobrevivência passa necessariamente por se descolar ao máximo dele. Porque ninguém serve e todos atrapalham. Qualquer coisa é demais. Vem aquela vontade recorrente de se ausentar por uns tempos, de hibernar a alma em algum lugar inacessível às nossas redes sociais para depois, quiçá, voltar. Uns não suportam o caminho de volta e por lá ficam. Como Sylvia Plath, Virgina Woolf, Hemingway, Kurt Cobain, Raul Pompéia e tantos que prefiram a solidão eterna. É uma hora em que explicações perdem a valência: não vale a pena relatar ao mundo o que se passa porque ninguém vai entender mesmo. A única companhia que queremos é a do silêncio de nossos gritos internos. Ou do barulho de nossos silêncios externos. Buscamos o livro mais alto e mais grosso na estante de nossa vida para nos enfiar entre suas páginas de forma que fiquemos inencontráveis. O desencontro é o combustível. Quando Picasso fala que “não se pode fazer nada sem a solidão” é a esse tipo que se refere. A solidão desejada. Nós temos alguém, mas não queremos. “Solitude”.

Aristóteles, que também supostamente foi e não quis voltar, disse que “o homem solitário é uma besta ou um deus”. A dualidade da solidão depende da incapacidade de se ter alguém ao lado ou da divina capacidade de marcar um encontro consigo e só consigo para dançar de olhos fechados as bachianas no seu interior. Antes que alguém reclame de que a solidão não combina com o amor, Rainer Rilke, poeta alemão, mata a pau: “O amor são duas solidões protegendo-se uma à outra”.

Clarice Lispector, que começou o texto lá em cima, vem para terminá-lo cá embaixo: “Fique de vez em quando só, senão será submergido. Até o amor excessivo pode submergir uma pessoa”.

É. Danço eu, dança você, na dança da solidão…

A bunda da Siemens

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[Texto publicado originalmente em 05 de fevereiro de 2004. Já discutia o bloqueio de informaçõe na internet].

Muita gente me pergunta a razão de eu não publicar os escritos em algum jornal. A resposta é que, primeiro, eu nunca ofereci e, segundo, nem sei se eles aceitariam essas mal digitadas. Até que poderia ser uma boa, pelo menos em termos de alcance de leitores. Mas enquanto eu não recebo uma proposta irrecusável da Folha de São Paulo, eu publico aqui mesmo no meu site e envio os textículos – com xis! – para uma lista de amigos, parentes e alunos que, gostando, vão passando e vão passando e vão passando…

Adoro feedback. Gosto de saber o que as pessoas pensam a respeito do que escrevo. Sempre recebo mensagens muito legais, como o gentil e-mail que me foi enviado pela mãe do meu cunhado Digão, a Dona Nazaré, se dizendo minha fã. Ganhei o dia. Mas na última semana, quando escrevi sobre reuniões de condomínio, uma resposta me surpreendeu. O e-mail era da Siemens, a fábrica. Primeiro pensei que pudesse ser obra sacana do My Doom, o vírus que encheu o saco e as caixas de entrada semana passada. De repente poderia ter vindo atachado nas infinitas e pesadas  apresentações de Powerpoint enviados pela Ana Célia. Mas como diria a Néia, que trabalhou para a minha mãe: O “peor” é que não era o vírus, não. Era um e-mail automático da empresa mesmo dizendo que meu texto havia sido sumariamente deletado assim que chegou a seus servidores pelo fato de conter a palavra “bunda”.  Parece que essa é uma palavra proibida de circular na Siemens. Será que lá ninguém tem bunda? Curioso com o fato, analisei detalhadamente o e-mail e verifiquei que se tratava de um programa censor automatizado que se baseia numa série de palavras para vetar alguns e-mails recebidos pelos funcionários, no caso em tela uma aluna minha da pós-graduação que lá trabalha e que, suponho, não recebeu o texto e, por conseguinte, não viu minha bunda passar.

São duas as questões que tilintam nos meus dedos por causa desse episódio: os limites da liberdade de expressão e o controle da linguagem. As perguntas que se colocam são: até que ponto podemos selecionar previamente um conteúdo para outras pessoas, seja ele qual for? Até que ponto podemos decidir para terceiros o que é ou não desejável, bonito, ofensivo ou abominável, tirando-lhe assim o direito de conhecer para escolher ou, inclusive, para não escolher? Taí: se tem uma coisa que é abominável e ofensivo na minha opinião é a censura prévia. Não concordar com algo e fazer uso de qualquer nível de poder para forçar que outras pessoas também não concordem é uma violência simbólica ferrada. Não gosta, mermão? Então não lê, não assiste, não compra, não usa, muda de canal. Há quem goste, quem leia, quem compre, quem use e até quem grave o canal. Tem gosto para tudo. Tem gente que veste amarelo. Tem até quem seja Flamengo! O direito à escolha é uma prerrogativa do seres humanos e dos Flamenguistas  e temos vários momentos na história da humanidade em que esse direito foi cerceado, estando a própria história aí para dizer como foram ruins esses momentos e como eles não deixam nenhuma saudade.

Escolher seja lá o que for não é um ato neutro. O programador – ou alguém que manda nele – listou uma série de palavras e decidiu por todos, como se tivesse procuração geral. Decidiu que eles não deveriam ler aquilo que ele acha indecente, imoral ou inapropriado, conceitos, aliás, bastante subjetivos e definidos por formações discursivas diferentes de formas diferentes. Sei não, mas eu estou mais na turma do “Deixa eu ver para ver se quero” do que na do “Vixe! Tira isso daqui! Deusulivre, mana! Pé-de-pato, mangalô, três vezes!” Recebo todo dia um monte de mensagens sobre coisas que não importam, muitas das quais não preciso, como aquelas mensagens de enlarge your penis . Eu passo a vista e decido se me útil ou não. Nesse caso, diga-se de passagem, não é. O importante disso tudo é que eu decido e não quero ninguém decidindo por mim.

Agora pára e pensa, leitor amigo: e se o programador – ou o chefe dele, ou o chefe do chefe etc – for Testemunha de Jeová e colocar “doação de sangue” na lista negra de palavras e expressões abomináveis? Quantos potenciais doadores não deixariam de participar, digamos, de uma campanha convocada pelo e-mail? Se for do PSTU e vetar “Estados Unidos”, quantos negócios a empresa não perderia? E se o censor for o meu primo Amaro Junior, webdesigner da Suframa, que enrola a noiva há treze anos, detonando toda e qualquer ocorrência de “casamento” ou “matrimônio”, como tem feito por mais de uma década? As possibilidades são infinitas. Basta fazer um rápido exercício mental e ver como é injusto o outro decidir por nós baseado em suas crenças, valores, conceitos e preconceitos. Já pensou se uma empresa chamada World Bunda Incorporated, de Singapura, digamos, manda uma mensagem a fim de encomendar negócios milionários em aparelhos de telefones da Siemens. Sua bunda não passa da porta digital. É barrada na chegada.

A empresa tem todo direito de ter suas regras, claro. Mas controlar a linguagem é uma das crenças mais pueris do ser humano. Linguisticamente, dizemos que mais do que falar a língua, é ela que nos fala através dela. E a língua é líquida. Escorre pela mãos e acha por onde escorrer. Ninguém aprisiona o sentido, pois ele sempre escapa, ele é fluido. Pode-se, por exemplo, escrever b*u*n*d*a, em vez de bunda, para burlar o bedel digital. Ou, como diria o Didi dos Trapalhões, pode-se falar “região glútea”. Mais opções? Nádegas, popozão, anca. Enfim…

É preciso saber que se pode dizer muito através do silêncio, como faziam os jornais na época do regime militar. Censurados, eles publicavam um vazio ou uma receita de bolo na primeira página, no lugar da matéria cortada. Pode-se dizer dizendo de outra forma. As músicas duplex de Chico Buarque são obras-primas nisso. A “Bárbara” da música de Chico, mais do que um nome de mulher bonita – e estou pensando na minha prima Bárbara Cyrino, para ser sincero –  era um adjetivo para a ditadura. “Cálice” falava pela homofonia: “Pai, afasta de mim este cálice/cale-se”.

A questão de fundo é: quem pratica a política do silenciamento lingüístico fomenta o silenciamento da política, entendida como a capacidade do ser humano de tomar decisões. Hoje sabemos que o que se quer é gente no mundo e nas empresas para pensar e decidir a partir das informações que chegam – que chegam! – e não somente para executar tarefas mecânicas, como o Carlitos de Charles Chaplin em Tempos modernos. Há um grande choque de objetivo quando uma empresa decide que seu empregado não precisa decidir porque já decidiram. É um contra-senso, uma verdadeira pavulice para os tempos de hoje.

Penso sinceramente que gastar dinheiro em sistemas de censura é alocar mal os recursos que já são poucos em tempo de estagnação econômica. A propósito, a palavra bunda entrou na Língua Portuguesa através de mbunda, de um dialeto da Angola, trazida pelos escravos, segundo o honesto Houaiss. Censurar a bunda é coisa de gente bun… digo, gente nadegona. Ah, deixem minha bunda em paz. E minha aluna, coitada, que não vai ler essa de novo…

Quintana traduzido

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Sempre acreditei impossível a tradução de “Poeminha do Contra”, de Quintana. Adorei a tradução abaixo, no site Talqualmente, que veio me desmentir:

“Todos estes que aí estão
Atravancando o meu caminho,
Eles passarão.
Eu passarinho!”

Mario Quintana

All them folk there over yon
My path they do defy,
They’ll tweet along.
I Tweetie Pie!

Sarah Kersley

Um texto antigo para recordar

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Mudanças sofridas

Mudar dói...Um amigo perguntou-me: “tu que és doutor em discurso, explica por que as pessoas sofrem com mudanças?” Respondi que doutorado era um título acadêmico e não uma chave a um oráculo onisciente. O máximo que poderia fazer era explicar a questão sob o prisma da linguagem, que é minha praia.

Aprendemos e apreendemos o mundo por meio da linguagem. Ela é encharcada de conceitos e valores (as ideologias) que nos são repassados durante nossas experiências na vida. Assim, colocar a mão de um adolescente numa luva com formigas tocandiras pode ser entendido ou como tortura ou como um rito de passagem, o waumat, como ocorre na sociedade Satere-Mawé. Depende do lugar de fala. Para ficar na mesma cultura, cito o debate levantado pelas declarações do governador do Rio, Sérgio Cabral, sobre a descriminalização do aborto. Para os que sustentam um discurso religioso tradicional aborto é inconcebível, daí as reações. Nesse caso, o que há é uma disputa sobre o conceito: aborto é um desrespeito à lei divina ou é a possibilidade da mulher decidir sobre seu corpo e sua vida? Apesar de aparentar ser uma só, qualquer língua pode expressar diferentes discursos com as mesmas palavras. Às vezes, apesar de falarmos todos língua portuguesa, não nos entendemos: são discursos diferentes. No caso do aborto, o discurso religioso versus o laico progressista.

Nossas verdades religiosas, profissionais, políticas etc – os discursos – não são estáticas. Elas mudam e se redefinem com o desenrolar de nossas vidas. Como católico, aprendi que casamento era para sempre. “O que Deus uniu o homem não separa”. Por isso que quando me separei pela primeira vez, sofri muito. O sofrimento veio por eu estar confrontando um discurso fundante em mim, o do catolicismo. Casei novamente e sou feliz com duas lindas filhas e uma esposa fantástica. Deus desaprova isso? Acredito que não. É suficiente para refazer o conceito anterior de casamento e reconfigurá-lo. Mas até a mudança sedimentar houve sofrimento. Abandonar certezas por outras não é fácil. Toda ruptura dói.

Assim, um sujeito tem uma verdade que acredita inquestionável. A vida vem e algo acontece para que ele passe a duvidar dessa verdade. A verdade já não é mais tão inquestionável assim. De repente há outra verdade que parece mais verdade do que aquela. E agora? Abandona-se a ex-verdade e parte-se para a nova? Fica-se com a velha verdade capenga? Discursivamente dizemos que saímos da identificação com um discurso, passamos pela fase da dúvida (a contra-identificação) e chegamos ao rompimento (a desidentificação), que coincide com a identificação com uma nova verdade. O sofrimento é maior quanto maior a identificação com um discurso que se abandona. Conflito é quando dois discursos diferentes entram em choque em nossa cabeça.

Quem compreende essa dinâmica da vida, ainda que não conheça os termos teóricos que as designam, tende a sofrer menos. É como canta Marina: “pátria, família, religião e preconceito: quebrou não tem mais jeito”. Poderia parafrasear. Discurso quebrou não tem mais jeito: já se está em outro. A passagem causa conflito, mas termina em paz. A estagnação na zona de indecisão causa neuroses e assombra. Meu amigo entendeu que “tem que morrer pra germinar”. Toca aqui, Gilberto Gil.

Sérgio Augusto Freire de Souza
Jornal Em Tempo, 31 de outubro de 2007

Linguagem e participação política

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Temos acompanhado situações que a imprensa nos tem mostrado nos últimos tempos. É o senado com manifestações políticas cínicas, bandidos que afrontam a polícia em total desrespeito ao aparato do Estado, governantes que dão explicações esdrúxulas para a não solução dos problemas públicos. Fiquei avaliando o que significa toda essa indignação, esse cinismo, esse descaso e essa esdruxularia. Como sempre, tento entender os fatos do mundo usando como referência a linguagem.

Tentando explicar o funcionamento da linguagem de forma bastante simples: valores, conceitos, ideias e verdades que cada um possui são produtos de construção de sua história de vida. Tudo se constroi e se estabelece como verdade (ou é descartada com tal) pela vivência e convivência cultural e social. E tudo entra na cabeça do sujeito via linguagem. É o que chamamos de discurso. Discurso é, portanto, prática de pensamento.

Assim, o cinismo que nos indigna é um efeito de sentido de dois discursos em contato. Dizendo de outra forma: aquilo nos indigna porque quem fala o que fala só pode ser cínico, que é o que eu seria se estivesse no lugar dele. Acontece que o sujeito da linguagem apaga que, se os seus são construídos, os sentidos dos outros também o são. Quem nós chamamos de cínico não se vê como tal. Acredita que o que faz e diz é tão possível e normal como nós acreditamos que o que faz e diz é cínico. Chamamos de cara-de-pau alguém para quem ser de madeira não é problema algum. Por isso arquivam-se processos no Conselho de Ética sem a menor cerimônia.

Nessa lógica, o bandido que afronta a lei, em sua cabeça de sujeito e em um processo apagado – porque é inconsciente e ideológico -, não afronta a lei. A lei sequer interessa a ele, até porque muita das vezes essa lei só o vê como cidadão quando ele a quebra e quase nunca o vê como cidadão para lhe oferecer os bens sociais de responsabilidade do Estado. O mesmo vale para as explicações esdrúxulas dos governantes. São esdrúxulas porque nós, no lugar desses governantes, nunca as daríamos, até porque não teríamos informações que eles têm. E é exatamente o fato de falar de outro lugar que faz com que os discursos sejam diferentes.

E aonde essa constatação leva? Leva à compreensão de que a mudança não se faz no plano da retórica. Indignar-se com os cínicos é insuficiente, ainda que desopile o fígado, porque os cínicos não vêem cinismo no que fazem. Querer pena de morte ao bandido é mais fácil do que admitir que a sociedade só permita que ele signifique desse lugar. O que é preciso é alterar a constituição dos lugares de enunciação, o que se faz por um envolvimento político efetivo que vá além de gritar palavras de ordem e pode levar a mudanças estruturais. É preciso envolver-se para ocupar os lugares dos que nos indignam para de lá falarmos de um lugar deslocado por princípios éticos e morais em que acreditamos.

Na vida, no amor e na política funciona assim: ou ocupamos os espaços ou vem alguém e os ocupa. Querer mudanças e manter-se inerte só aumenta o espaço ocupado pelos que nos incomodam. Participação política envolve tomar o leme do barco. Com todas as responsabilidades que isso traz. Topa, cara-pintada?

61a SBPC

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Acesse aqui o artigo que usei como base para a mesa sobre cultura na 61a SBPC. Em formato PDF.

A perfeição poética

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O poeta é o que consegue dizer em palavras os sentidos que correm na veia. E conseguem juntar as palavras na técnica perfeita da obra literária. Vinícius e o Soneto da Separação

De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.

De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do mometo imóvel fez-se o drama.

De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente

Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.

Acabei de ler “Nós e eles”

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"Nós e eles", de Lúcia Lippi de OliveiraAcabei de fechar a última página de “Nós e eles: relações culturais entre brasileiros e imigrantes”. A autora, Lúcia Lippi Oliveira, faz uso de diversos relatos de histórias de vida de imigrantes e examina qual o lugar desses novos personagens nos textos de autores e pensadores brasileiros, buscando compreender como foi o contato cultural com esse “outros” e identificar a contribuição que esses homens e mulheres deram para o processo de construção de uma identidade nacional. São quatro capítulos: um sobre a imigração espanhola, outro sobre a italiana, um terceiro abordando a identidade caipira  e por fim o último falando dos portugueses. Lúcia é autora de vários livros sobre o tema, tema que, aliás, tem sido de grande interesse para mim: identidade nacional, língua, imigração. Tenho lido bastante sobre isso. O livro vale a pena para quem se interessa pelo assunto e vale a pena para os que gostam de saber mais por saber.

Sentidos…

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Depende de quem interpreta...