linguagem

Um texto antigo para recordar…

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Boato: desejo em forma de palavras

 

“Chega mais perto e contempla as palavras.

Cada uma tem mil faces secretas sob a face neutra

e te pergunta, sem interesse pela resposta pobre

ou terrível que lhe deres: Trouxeste a chave?”

 

Carlos Drummond de Andrade, Antologia Poética.

boato Interessante o boato. Uma palavra é suficiente para gerar uma história com a complexidade de um romance como Cem anos de solidão, de Garcia Marquez.

Antes desdenhado como assunto desprezível do interesse dos estudiosos, o boato se tornou objeto de pesquisa para lingüistas, sociólogos, antropólogos e historiadores. A abordagem quanto ao estudo do fenômeno, que podemos conceituar como “um relato curto, anônimo e não confirmado quanto a um suposto evento”, perdeu seu tom negativo e passou a ser positiva. No passado, o boato era descartado como patológico e como simples exemplo de informação indigna de confiança. Hoje, começa a ser encarado com seriedade cada vez maior, na forma de narrativa, produto coletivo para o qual muitas pessoas contribuem à medida que a história se difunde.

Uma das características do boato é a rapidez com que ele circula. Fico embasbacado como uma informação corre rapidamente e como essa carreira deixa pelo caminho e agrega detalhes. Vou exemplificar com um exemplo real, para tentar ser mais didático.

Ao assumir a subsecretaria de educação, vivi nos primeiros meses uma situação de imersão quase total no trabalho. Era preciso que nós, da equipe que estava chegando, soubéssemos onde estávamos pisando para poder diagnosticar a situação. Isso fazia com que eu chegasse ao trabalho antes das oito da manhã e só saísse quase às dez da noite. Assim foi o primeiro mês. Por conta do trabalho, fiquei ausente de casa mais do que geralmente acho razoável. A Bia, minha mulher, com razão, reclamou atenção, do seu jeito carinhoso e certeiro que só ela tem. Um belo dia, ao ir para casa depois de um dia de lida, busquei minimizar a ausência e pedi ao motorista que desviasse o caminho. Pedi que ele não fosse para minha casa direto, mas que desguiasse em direção ao cemitério. Com os olhos arregalados com o destino solicitado, mas muito respeitoso à hierarquia, ele obedeceu. Quando chegamos ao cemitério, pedi que encostasse o carro e parasse em frente à única floricultura que fica aberta 24 horas e que se localiza exatamente ali, em frente ao cemitério. Comprei um belo buquê de rosas para levar para minha patroa, num sinal de que estava atento à minha ausência. Fecha o pano.

Dois meses depois, conversando com uma ex-aluna minha no saguão da Secretaria, ouvi a seguinte pergunta: “Professor, eu soube que o senhor casou de novo. É verdade?” Perguntei à ex-aluna, que fora minha aluna no auge da minha segunda separação, como ela soube. E ela disse: “Foi a Maricotinha, diretora da escola xis, que me disse”. Não conhecia a Maricotinha da escola xis. “Ela disse, inclusive, que o senhor é muito romântico. Que todo dia, ao sair da Secretaria, passa numa floricultura e leva flores pra sua esposa”, completou. Fiquei imaginando o caminho percorrido entre o buquê de rosa do remorso e a “verdade” circulada sobre meu romantismo full-time. Nessa história eu até que fiquei bem na fita. Mas do mesmo jeito que vai, também vem.  E se o boato fosse negativo?

O boato, portanto, é ambivalente. Se tiver indo, pode ser ruim. Se tiver vindo, pode ser bom. A Dona Maria, que trabalha aqui em casa e que para tudo tem um ditado, não perdeu a deixa ao saber que o assunto do escrito era esse. Sapecou o seu: “Escreva aí que todo boato tem um fundo de verdade, seu Sérgio”. E tem. Mas aí eu vou teorizar um pouco. De que verdade falamos? Verdade para quem?

Todo mundo que lê o que eu escrevo sabe que vez por outra mergulho nas teorias psicanalíticas. É que tio Freud é fogo. Quanto mais eu leio sua obra, mas aprendo a ver o mundo de formas outras além das mais evidentes. E é na psicanálise que me ancoro para analisar a frase “todo boato tem um fundo de verdade”.

Como disse, eu concordo com a frase da Dona Maria.  Só que a verdade é um conceito filosófico de discussão eterna. A verdade que eu acredito estar no boato daquele que boateia é a verdade que o próprio boateiro desconhece, mas que está presente no seu desejo inconsciente. Exemplo: a Célia ouviu dizer que o Celso está de caso com a Fernanda, sendo que ambos são casados. O Véio do Rio já dizia: a gente só encontra o que a gente já deixou lá. Ou seja: a Célia só “ouviu” o fato porque algo já “falava” no seu inconsciente em relação a Celso ou a Fernanda. Quem sabe um desejo inconsciente de ver no caso entre os dois a realização de seu desejo de ter um caso qualquer, um caso com o Celso ou, quem sabe nesses tempos modernos, com a própria Fernanda. E não adianta perguntar para a Célia se é isso ou não, pois ela negará, visto que é tudo um processo inconsciente.

Um boato de que alguém vai ser demitido só encontra eco e só se propaga se a pessoa que o ouve e o conduz adiante desejar internamente que tal fato se concretize, mesmo que não tenha consciência desse desejo. Senão nem mesmo como fato é percebido e registrado. É como diz Nietzsche: todo fato já é uma interpretação. Quando o desejo é coletivo, aí o boato voa. Resumindo: o boato é fruto de um desejo inconsciente que se propaga na velocidade proporcional ao compartilhamento social desse desejo.

Outra questão que caracteriza o boato é sua autoria não-identificada. Todo boato é um texto sem autor. Foi sempre o outro que disse. O anonimato garante ao boateiro a certeza de quem ninguém descobrirá seu desejo inconsciente. Juntando a garantia do anonimato com a coletivização do desejo temos uma composição tão explosiva como a do fogo com a gasolina. O resto da história é previsível.

Não estou querendo dizer que os boatos que correm na boca do povo não contenham elementos factuais verdadeiros. Pode até ser. O que estou tentando é teorizar para compreender o mecanismo de transformação de um fato em uma verdade coletiva, com atribuição de sentidos próprios a esse fato. De repente o Celso tem mesmo uma forte queda pela Fernanda e por isso são vistos juntos com certa regularidade. Pode ser também, por que não?, que essa regularidade não passe de oportunidades que duas pessoas que possuem empatia mútua criam para exercitar sua amizade. A questão é que hoje as pessoas tendem a sexualizar as relações. Pode-se querer bem alguém sem, necessariamente, querer esse alguém para si. Freud – ele de novo! – explicaria a necessidade de sexualização por uma carência de sexo, talvez.

É tolice acreditar literalmente em boatos, mas é igualmente tolo descartá-los por inteiro, porque essas histórias revelam alguma coisa sobre as preocupações, interesses, esperanças e medos dos indivíduos que as transmitem. Tente, cara leitora, exercitar a leitura psicanalítica dos fatos. Vamos a outro exemplo real: outro dia chegou ao meu ouvido que uma moça que eu conheço estava grávida. Ouvi o boato da boca de uma outra moça cuja antipatia pela protagonista da pretensa gravidez era indisfarçável. Dei um tempo para ver se o boato procedia, porque às vezes procede. Freud também dizia que um charuto às vezes é só um charuto. Mas esse não procedia. Era só boato. Minha leitura desse boato: dizer que a moça estava grávida equivalia a dizer “oba, ela vai sair de circulação” ou “ah, a boazona quebrou as regras sociais,engravidou sem casar e vai sofrer com isso. Bem feito para ela!”. Mais uma vez, afirmo que esse processo é inconsciente e como todo processo inconsciente é negado pelo sujeito. Ou pela sujeita, nesse caso.

Como a linguagem em geral, o boato diz muito mais do que ele carrega nas palavras levadas pelas línguas de vento. Mal sabe o boateiro que ele, na boataria, se revela ao mundo. Pelo seu ato de passar adiante uma história eloqüente para seus desejos, o boateiro se escancara àqueles que tenham um pouco mais de dispositivo analítico.

Do comentário inocente do motorista sobre a história do buquê de rosas surgiu um boato que revela uma carência de gestos afetuosos que tomou corpo por conta da generalização do desejo de um romantismo não vivido por aqueles que espalharam a história, acrescentando seus dois dedos de informação ao fato, porque ninguém é de ferro. Da antipatia velada surgiu uma gravidez que neutralizava a rival. Do desejo de transgredir, potencializado pela falta de coragem para fazê-lo, surgiu de repente na cabeça de Célia o caso amoroso de Celso com Fernanda e a condenação a ambos que, no fundo, é a condenação à sua própria vontade recalcada de transgredir.

Um último ponto a salientar quanto aos boatos envolve suas conseqüências. Os boatos muitas vezes fazem com que coisas aconteçam, porque mobilizam o populacho. O historiador Peter Burke nos lembra que o curso da Revolução Francesa, por exemplo, foi afetado pelo “Grande Medo” que varreu a França em 1789 e encorajou a ação contra a aristocracia. Os preços das ações nas Bolsas de todo o mundo flutuam em resposta a boatos. A empatia do Celso e da Fernanda pode virar amor se alimentada pelo imaginário coletivo, pelo desejo inconsciente da Célia. Tentar conter o boato é o mesmo que tentar conter o sentido atribuído às palavras: impossível. Nisso somos todos iguais a Dona Celeste, a secretária do Sukita Glauco da novela América, que não consegue barrar ninguém: incompetentes e impotentes. Relaxemos, pois, e gozemos.

Boato vem do latim boatu, que quer dizer “mugido ou berro de boi”. E é isso. Onde há identificação com o fato, há boato, há berros. Quanto mais pessoas desejarem o fato, maior a boiada berrando. Se a vaca tem um desejo e o boi também, o boato progride. Já dizia a Dona Maria: “Aonde a vaca vai, o boi vai atrás”…  Ouvi dizer que esse ditado é verdade. Eu ouvi, mas não tenho certeza…

E você aí, leitora querida? Alguma novidade? Se tiver, não deixe de compartilhar: sergio_freire@uol.com.br.  Eu guardo segredo.

 

10 de outubro de 2005

 

Ortografia

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Beleza. Alguém pensou num tira-dúvidas just-in-time: ORTOGRAFA

Millôr: na Veja de hoje

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UM

Tão mexendo de novo na tua língua. Quer dizer, na escrita, porque na língua falada e na outra, a propriamente dita, felizmente eles não conseguem mexer. E tiveram que abandonar qualquer pretensão etimológica, dava kagadas homéricas! Um competente dizia que a palavra vinha daqui, outro, mais competente, que vinha dali, o Lula não sabia de onde, mas achava que nunca antes.

Céus, o que isso dava de erudito por metro quadrado! Diria melhor, folha corrida. O próprio Aurélio, respeitadíssimo como linguista (além de ótimo escritor), caía na anedota. Etimologia e anedota, aliás, são irmãs gêmeas.

Procurem Canguru no Aurélio. Procuraram? É, taqui:

Canguru: marsupial. Nome dado por nativos australianos a um marsupial.

Segundo a versão do Aurélio, o próprio almirante Cook, ou um seu marinheiro, teria perguntado, em inglês, naturalmente, ao nativo: “What kind of animal is that one, that have a purse and jumps all the time? Has it a name?”. E o nativo, sem nenhuma dúvida, respondeu: “Kanguru (Eu não sei)”.

Isso sempre me lembra aqueles filmes de Hollywood em que os heróis americanos chegavam a uma tribo africana, ou à Índia, ou à Bessarábia, e a comunicação era facílima — os nativos, todos!, mesmo os mais primitivos, falavam inglês sem sotaque. Bons tempos. A produção saía muito mais barata.

A única curiosidade, parece, é que o nativo falou Kanguru com K. Os novos gnomonistas ainda não tinham decidido que era com C.

Pois bem, eu, que tenho orgulho de ser um leigo — aliás, a única classe gnomônica respeitável são os leigos —, vou explicar melhor de onde vem o Canguru.

Kangaroo – wallaroo; wallaby são palavras oriundas de verbos aborígines australianos. Saltar ou pular. Com dois sufixos, roo e by, significando quadrúpedes.

Onde é que encontrei isso? Cara, eu disse, sou um leigo. Não tenho obrigação ética de entregar meu ouro ao bandido.

DOIS

Mas o curioso é que a linguagem “civilizada”, tanto quanto eu sei, e o tanto aí é tão pouco quanto o quanto, começou pela escrita, pelo visual. Daí passou pro fônico.

Digamos grosseiramente. O cara desenhava um sol e um dado. O cara do outro lado sabia que era soldado. Mais tarde um outro cara de bom ouvido passou a usar os mesmos símbolos como adjetivo e para chamar um soldador — sol-dado-or, bombeiro hidráulico. Isso se chama rébus. Sencillo, no mamita?

TRÊS

Durante anos gozamos, no bom sentido, os tais dos sinais diacríticos diferenciais. A gente tinha que escrever acento no medo para diferenciá-lo de medo (aquele dos medos/persas, você ainda se lembra?). E também em tôdo de todo, parece que havia um passarinho português com esse chapeuzinho.

Não me queiram mal, mas não parece linguística de bicha (perdão de novo, de gay).

Pois bem, agora, depois de amplos, profundos, gigantescos estudos, eles vêem (veem) com essa bobajada dos hifens-não hifens, que vai fundir a cabecinha dos alunos e fazer com que alunos brilhantes tenham nota baixa porque não botaram um tracinho entre as pernas (entrepernas) de duas palavras. Porque a professorinha, funcionalmente medíocre, aprendeu e descolou toda essa besteirada.

QUATRO

Bem, mas, convenção por convenção, clitóris ou clítoris, por que não deixar os diacríticos (diferenciais ou não) nas palavras? Já estávamos acostumados. Com os acentos os eruditos pelo menos orientavam o pessoal da planície quanto à acentuação certa. Quer dizer, convencionalmente certa.

Convenção que pode ser feita em meia hora. Mas e as viagens? E o doutorismo?

CINCO

Não me sigam. Acho que a linguística atual é uma ciência fantástica, que cora diante dessas bobagens, deles e minhas. Depois de Chomsky, que li muito e entendi pouco, a língua dos homens passou a ser pra mim uma coisa ainda mais complexa e mais bela.

Agora, aqui pra nós — porque Chomsky abandonou tudo e foi ser um nome cultuado internacionalmente pela esquerda. Já que — um pouco mais, um pouco menos — ele se iguala a todos nos lugares-comuns.

SEIS

E a crase, hein? Que invenção genial! Até a palavra abessa, eles conseguiram dividir, transformar em a bessa, portanto com crase, à bessa, que depois transformaram em à beça. (Não, não vou dar minha fonte. Sou um leigo.)

Só pra terminar: vocês já ouviram alguém falar com crase?

Fonte: http://veja.abril.com.br/280109/millor.shtml

Linguagens do português brasileiro

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Esse vídeo é muito legal. Mostra a diversidade dos portuguêses brasileiros.

Amazonês na Rádio Amazonas FM

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Agende aí: estarei na Rádio Amazonas FM (101,5), sábado, às 17:30h, no programa da Vivi Cariolano, falando sobre o Amazonês. Juro que o livro sai ano que vem. Assim prometeu meu editor, Tenório Telles. Quem quiser acesso à versão on-line, clique aqui. É isso, parente.

A imagem significa por si só?

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Fiquei aqui pensando no papel do verbal sobre o não-verbal…

Mais tirinhas…

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Já que estou nas tirinhas, essa tem a ver com linguagem. Em Roma com os romanos…

A cintilante linguagem das crianças

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Diálogo entre a Bia, minha mulher, e a Ana Clara, minha mais velha, de dois anos e três meses:

BIA – “Filha, a gente tem de se vestir para ir para a festa do dia dos pais“.
CLARA, depois de refletir sobre a frase – “Mãe, eu tenho dois pais?”