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A Bienal do Livro Amazonas: sobre livros, letramento e uvas

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Livros e revistas fazem parte do meu cotidiano desde que eu me entendo por gente. Sem muita opção quando criança em tempos bicudos, eu devorava os livros didáticos que meus pais, que eram professores, usavam nas suas aulas. Eu também vibrava quando meu pai, um fã do futebol, trazia para casa a Revista Placar. Passava horas lendo tudo aquilo. Minha vida mudou substancialmente quando meus velhos compraram uma Enciclopédia Britannica. Todo dia eu lia um verbete aleatório. Podia ser sobre a Antártida ou sobre o Zaire, que hoje se chama Congo, mas que naquela época em que os planetas do sistema solar eram nove se chamava Zaire. Aprendi, para o espanto de uma plateia familiar que até hoje cita isso, que em Cingapura um casal que tivesse mais de três filhos era multado pesadamente. Eu me divertia pegando as taxas de crescimento demográfico de um país e projetando a sua população para o distante ano 2000. Esperava ansioso o Livro do Ano para cotejar com o Almanaque Abril, presente garantido dos meus pais todos os anos.

Desde cedo, portanto, fui inserido na prática do letramento. Termo introduzido na década de 80 no Brasil, no livro “No mundo da escrita”, de Mary Kato, o letramento é o uso social da tecnologia da linguagem. Por um lado, temos a oralidade,  o nosso equipamento de linguagem que vem de fábrica. Por outro, temos a escrita, uma tecnologia criada pelo homem, que precisa ser adquirida. Não basta ser alfabetizado, aprender a ler, decodificar a frase “Ivo viu a uva”. É preciso compreender por que Ivo viu a uva e o Divanilson nunca vai ver. É necessário saber por que Ivo viu a uva e não o maracujá-do-mato. Letramento é diferente de alfabetização. Alfabetização é a aquisição do bê-a-bá. O que queremos para todos é letramento, que é o uso sócio-político da alfabetização. É isso que faz do sujeito um sujeito pleno, que circula socialmente.

Como se fomenta o letramento? Entre outras coisas, para além do trabalho escolar – que deve ser significativo para o aluno -, se fomenta o letramento com políticas públicas. Entre elas, as que incentivam o gosto e o acesso à leitura. Aí entra, por exemplo, uma Feira de Livros, como a I Bienal do Amazonas, que está acontecendo por estes dias.

Feiras de Livros são importantes como parte de uma política pública que se preocupa de fato com o letramento de seus cidadãos. Nelas, além do viés comercial de editoras vendendo livros com descontos, são desenvolvidos conversas, apresentações e bate-papos com escritores famosos e nem tantos, em uma interação que faz ranger o comodismo do quase sempre entediante processo da leitura obrigatória escolar.

A Bienal do Livro Amazonas finalmente aconteceu. Depois de anos de resistência interna do titular da Cultura no Estado, alguém com um poder decisório maior, creio eu, foi mais feliz e fez a coisa acontecer. Quem vive o meio literário na cidade  e conhece os bastidores, sabe da luta inglória de anos para tentar fazer algo dessa natureza acontecer e da resistência do gestor do Governo à ideia, não só não fazendo a coisa, como de certa forma boicotando quem queria fazer.  Em 2009, participei como escritor convidado da Feira Nacional do Livro de Ribeirão Preto, quando o Estado homenageado foi o Amazonas. Senti vergonha alheia quando soube que os organizadores da Feira, por onde circulam quinhentas mil pessoas a cada ano, receberam um chá-de-cadeira das secretarias de Cultura do Estado e do Município, quando vieram buscar apoio para divulgar nossa cultura. Mas isso é para outro papo. Voltemos à Bienal.

A programação está muito boa. No Tacacá Literário ou no Território Livre, Carpinejar, Eliane Brum, Marina Colasanti, Affonso Romano de Sant’anna, Cora Rónai, entre outros, se juntam aos nossos Márcio Souza, Thiago de Mello, Zemaria Pinto, Alisson Leão, Turenko Beça, Carlos Oshiro, para citar alguns, para falar de literatura, arte e questões de contemporaneidade. A despeito de alguns nomes locais que foram escolhidos muito mais por outros motivos do que pertinência à causa – e não os cito exatamente como forma de citá-los –,  no balanço geral, todo mundo só tem a ganhar. Há também o lançamento programado de dezenas de livros, algo de que as pessoas gostam de participar.

Houve um cuidado com a programação infantil. Isso é muito bom também. As crianças precisam gostar de andar entre livros e precisam igualmente simbolizar um feira dessa natureza como um lugar aconchegante e desejável. Minhas duas filhas, de quatro e cinco anos, gostaram do que viram. Assistiram à peça no teatrinho e folhearam deliciosamente os livros nos stands. Eu gostei dos preços dos livros infantis, bons, diversos e baratos (mas só dos infantis. Já explico o porquê). Se se pensa seriamente em fazer de um evento dessa natureza algo para além da vitrine política – o que é perfeitamente compreensivo e justo –, pensando no já falado letramento, é indispensável envolver os pequenos leitores. Novo ponto para Bienal.

Tenho observações críticas, no entanto.

A primeira é a variedade de livros. Se pensarmos com o parâmetro de Manaus, que não possui uma cultura literária ampla estabelecida, a Bienal é um grande avanço. Mas se pensarmos comparativamente com outras feiras Brasil afora, chega a ser entediante vencer os corredores da Bienal em meia hora. Com exceção dos livros infantis, como disse, a oferta de livros mais gerais e mais específicos deixa a desejar e os preços não são convidativos, como são os da Feira de Porto Alegre e da Feira Nacional do Livro de Ribeirão Preto, que são as que conheço de perto. Tudo bem, vamos dar um desconto, coisas que muitos na Bienal não dão. Esse é o primeiro evento desse porte e Manaus tem o custo-Manaus do frete, o que inviabiliza uma comparação mais direta com as feiras do centro-sul do país. Vista grossa.

A outra observação também me faz trazer as feiras de Porto Alegre e de Ribeirão Preto como exemplos. Ambas são totalmente gratuitas. São montadas, inclusive, nas ruas da cidade, integradas à cidade, com shows musicais que encerram as programações do dia. E antes que alguém diga que o ingresso de R$ 2,00 que se está cobrando na Bienal do Amazonas é simbólico, eu contra-argumento: se é simbólico, por que colocaram? Para mim e uma parcela da população que já circula no mundo do letramento, o valor pode ser quase nada. Mas se se pensa em uma feira como uma ação de uma política pública de letramento, e não como um evento comercial isolado, uma nota de R$ 2,00 pode ser um desincentivo à população que mais precisa participar dessa política. O valor acaba sendo simbólico mesmo, simbolizando um muro invisível que insiste em excluir em vez de incluir. Pior: como uma economia de alfinete e um dinheirinho a mais facilmente absorvível pelo Governo do Estado, que está investindo R$ 20,8 milhões no Projeto Mania de Ler, com 40 ações de incentivo à leitura, sobre que vou falar em outro texto e que me parece muito legal. Mas cobrar a entrada não me convence. Pisada de bola.

Por fim, a iniciativa da Feira precisa ser desdobrada. Penso que o Governo do Estado deva sanar esses senões para ter um maior impacto social na busca da criação de uma memória de leitura na cidade. Penso também que essa ação não pode ser fragmentada e desligada de outras ações de incentivo ao letramento, como a abertura de bibliotecas públicas (como andam a estadual e a municipal, a propósito?), como a ampliação dos acervos das bibliotecas escolares para além de sobras de livros didáticos e como a ampliação das políticas públicas de acesso à Internet à população em geral, entre outras coisas. O letramento da população que precisa dessas políticas só será alcançado se o problema for pensado sistemicamente, para além das ações pessoais ou do diletantismo de quem tem o poder decisório no momento. Espero que o já citado Projeto Mania de Ler, que se propõe a articular isso, faça seu papel. Por fim, como disse a Elisa Bessa, o sotaque da Feira é estranho. Precisava importar curador?

Eu vi, saudoso, que estão vendendo a Barsa na Bienal. Mas não é preciso da Barsa para entrar no mundo da leitura. Um panfleto, um gibi, um mangá, um cordel basta. Desde que se tenha o gosto genuíno pela leitura. Marina, minha filha de quatro anos, acaba de me trazer um “livro” feito por ela com quatro folhas de papel ofício coladas com fita crepe. Tem uma história com início, meio e fim, desenhada com lápis de cor e com algumas palavras escritas do seu jeito. Certamente ela foi inspirada pelo mundo de livros que percorreu hoje. Marina viu a uva. E o Divanilson vai ver?

Amazonês

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Eis que chegou na editora o meu novo livro, “Amazonês: expressões e termos usados no Amazonas”. Produto de um trabalho acadêmico da época em que fazia doutorado na UNICAMP, o livro sai pela Editora Valer e contém, além do dicionário, um artigo sobre a fala amazonense e uma entrevista realizada por  Moisés Arruda, publicada em seu blog. Em breve estaremos fazendo o lançamento oficial. Conto com a presença de vocês. =)

“A paixão pela ciência se manifesta por meio da paixão pela linguagem. Pela linguagem somos. Pela linguagem damos sentidos ao mundo. Na linguagem podemos nos ver da forma mais verdadeira: nossas cenças, nossos valores, nosso lugar no mundo, enfim. Somos o que aprendemos a ser durante nossa vida e aprendemos a ser via linguagem, no nosso caso a língua portuguesa. É doce ilusão, no entanto, acreditar que a língua portuguesa é única e inteligível por todos os seus falantes”.

Palavras viúvas

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Para o Aníbal Beça, com poesia.

Aníbal Beça, marido das palavras...Tenho que me acostumar com o inacostumável. Dia 06 de setembro faço 41 anos. Terei, cada vez com mais frequência, a notícia de que alguém se foi. A morte é a única certeza do futuro. Por isso assusta, desafia, inquieta e nos desconforta.

Hoje se foi o Aníbal. Sempre gostei da poesia de Aníbal. Desde quando a conheci, nos anos oitenta, em uma aula de literatura amazonense na faculdade. Depois, nesses ziguezagues da vida, convivi profissionalmente com o ele quando ele foi Presidente do Conselho de Cultura da Prefeitura de Manaus, na época em que Manaus era mais feliz. O Conselho era ligado à Secretaria de Educação, da qual eu era subsecretário. Vez por outra me reunia com o poeta para tratar de coisas burocráticas. Ou nem tanto. Suas conversas de poeta desburocratizavam a vida, paralisavam o dia, me anestesiavam do corporativismo sufocante da classe. Gordo daquele jeito, Aníbal era de uma leveza…

A admiração pelo escritor, que ganhou vida concreta nessa breve convivência, virou respeito mútuo e um carinho gratuito. Sem muita razão para lhe dar – ele, ao contrário, deu-me sua poesia –, o poeta gostou de mim, gratuitamente, como fazem os poetas. Encontrávamo-nos por aí e sempre com muito afeto nos cumprimentávamos. Passei a receber seus belos poemas como scraps no Orkut, pelo seu perfil hoje cheio de justas saudades. Também os recebia por e-mail. Um deles me tocou sobremaneira. Chamava-se “A primeira falta”. Ela escrevera para sua mãe, dona Clarice, que havia partido. “Colher de pau/Solitária na parede/Onde os doces da mãe?”

A gratuidade do afeto fez com que um dia me ligasse, pedindo meu endereço para me mandar seus livros. Foi em dezembro de 2008. Fiquei envaidecido pela deferência do maior poeta amazonense, para mim sem controvérsias. Recebi os livros com as dedicatórias, cada uma aproveitando o título do livro: “Para o Sérgio Freire, uma incursão à arte oriental pelas Folhas da Selva”, “Para Sérgio Freire, estes 50 poemas escolhidos pelo autor” e “Sérgio querido, eis aqui a Palavra Parelha e outros poemas”. Todos com um desejo também de um “Natal Feliz”. Em outro encontro, sugeriu-me que resenhasse os livros em minha coluna de jornal. Nunca o fiz porque quem sou eu para falar da poesia de Aníbal Beça como crítico? Falo como leitor. Falo com sujeito de linguagem tocado pela sua sensibilidade. “Anúncio” é uma obra-prima: “Há um desejo que me faz cantor/ Há uma paixão saída da sua cor/ Há um amor na contramão da dor”.

Nos “50 poemas escolhidos”, Aníbal abre o livro dizendo “Passei a vida inteira com as palavras. Casado com elas”. É isso. Hoje elas ficaram viúvas. Aproveite os doces da mãe, amigo. Porque “há um amor na contramão da dor” que egoisticamente os que ficam sentem. E também “há uma paixão saída da sua cor”.  Ah, dá licença, poeta… Deixa eu me enxirir para falar da minha tristeza: “Caneta e papel/ Solitários sobre a mesa/ Onde os versos do Aníbal?”…

A Feira de livro e o bola murcha

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Estou escrevendo de Ribeirão Preto. Estou aqui a convite da Fundação Feira do Livro participando da 9ª FeiraCafé Filosófico na 9a. Feira do Livro, em Ribeirão Preto. Sérgio Freire. Nacional do Livro. Na segunda-feira, fui o palestrante convidado de um café filosófico, falando sobre o que sei e gosto: linguagem. Foi excelente, como no ano passado, quando estive aqui pela primeira vez.

A Feira, a segunda maior a céu aberto do Brasil, começou no dia 18 e vai até 28 de junho. Em dez dias estão programados mais de 600 eventos gratuitos, abrangendo literatura e manifestações artísticas. Há mais de 100 escritores da literatura nacional e internacional que participaram e participarão de palestras e debates. São nomes como Milton Hatoum, Carlos Heitor Cony, Fernando Morais, Thiago de Melo, Moacyr Scliar, Márcio Souza, Eliane Brum, entre tantos outros. Há mais de 60 apresentações musicais, com grandes nomes da MPB e apresentação da Orquestra Sinfônica de Ribeirão Preto, além de shows dos chilenos Tita Parra e Antar Parra e de Adriana Calcanhotto, João Bosco, Jorge Vercilo, Lenine, Luiz Melodia, Maria Rita, Oswaldo Montenegro, Paula Toller, Paulinho da Viola, Toquinho, MPB4 e Vanessa da Mata.

A cada ano, a Feira homenageia um país, um estado e uma personalidade. Este ano foram o Chile, o Amazonas e Cora Coralina. E aqui entra um misto de alegria, de espanto e de indignação.

A alegria vem pela escolha do Amazonas como Estado homenageado. Ela se estende porque represento meu Estado junto com Márcio Souza, Thiago de Melo e Milton Hatoum, grandes nomes da literatura da minha terra. O espanto se dá por ter constatado, para um Estado homenageado com uma cultura artística e literária rica, a ausência dessa riqueza. Onde está nossa música? Por que somente nós quatro? Ressalte-se a presença da Editora Valer, disseminando a publicação regional. A indignação emerge por saber que a ausência do Estado não se deu por causa da organização da Feira, mas por vaidade de quem gere a cultura no Amazonas.

A Feira enviou um emissário a Manaus para articular a presença do Estado no evento, com público de mais de 400 mil pessoas. Foram 21 dias em Manaus tentando falar com quem decide. No Município, a secretária de cultura marcou e furou, deixando o representante esperando. No Estado, os ofícios da Fundação foram solenemente ignorados pelo Secretário que, estou começando a desconfiar, tem bronca com livros. Sua vaidade não permite que uma feira de livro aconteça em Manaus. Razão: numa feira de livro quem brilha são os autores e não quem organiza, como num Festival de Ópera ou de Cinema, quando holofotes se voltam para sua figura de black-tie. E não é falta de competência. Quando ele quer, a coisa sai bonita. Quando ele não quer, no entanto, ignora o potencial de retorno estratégico e turístico que um evento como esse tem, deixando de fazer seu papel institucional.

Fico pensando nessa vaidade toda em época de copa do mundo. Ou alguém convida o secretário para dar o pontapé inicial no primeiro jogo em Manaus ou não sei não. Fica aqui a indignação dirigida ao governador Eduardo Braga, para quem a imagem externa do Amazonas parece ter algum valor. Já que falamos em futebol, pisaram na bola, Governador. E feio. E o secretário é o bola murcha do ano.

Acabei de ler “Nós e eles”

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"Nós e eles", de Lúcia Lippi de OliveiraAcabei de fechar a última página de “Nós e eles: relações culturais entre brasileiros e imigrantes”. A autora, Lúcia Lippi Oliveira, faz uso de diversos relatos de histórias de vida de imigrantes e examina qual o lugar desses novos personagens nos textos de autores e pensadores brasileiros, buscando compreender como foi o contato cultural com esse “outros” e identificar a contribuição que esses homens e mulheres deram para o processo de construção de uma identidade nacional. São quatro capítulos: um sobre a imigração espanhola, outro sobre a italiana, um terceiro abordando a identidade caipira  e por fim o último falando dos portugueses. Lúcia é autora de vários livros sobre o tema, tema que, aliás, tem sido de grande interesse para mim: identidade nacional, língua, imigração. Tenho lido bastante sobre isso. O livro vale a pena para quem se interessa pelo assunto e vale a pena para os que gostam de saber mais por saber.

Livro: “O Crime do Restaurante Chinês”

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Fechei a última página de “O Crime do Restaurante Chinês”, do historiador Boris Fausto. Gostei. Fausto elege a micro-história para nos apresentar a São Paulo dos anos 30. A micro-história é o recorte sobre um caso específico de uma época que retrata, em sua descrição, o Zeitgeist da sociedade do momento em que a narrativa acontece. Para não chover no molhado, segue abaixo a resenha de VEJA sobre o livro. Boa leitura, como disse.

VEJA, 22 de abril de 2009

Caso sem solução

Em O Crime do Restaurante Chinês, o historiador
Boris Fausto rememora um episódio policial dos anos
30 para refletir sobre preconceito e justiça no Brasil


Miguel Sanches Neto

UM CRIME BÁRBARO
Nos jornais de 1938, a cena dos assassinatos, os investigadores e o suspeito Arias de Oliveira

O que leva um importante historiador a exumar uma chacina acontecida em 1938? Essa é a questão que o leitor se coloca já no início da leitura de O Crime do Restaurante Chinês, de Boris Fausto (Companhia das Letras; 264 páginas; 45 reais). Seja pelo título, pela estrutura da narrativa ou pelas ilustrações, esse ensaio histórico tem o formato dos folhetins e prende nossa atenção. O crime é apresentado já nas primeiras páginas. Um casal de chineses prospera com um restaurante próximo à Praça da Sé. Mas na manhã de Quarta-Feira de Cinzas eles e mais dois funcionários que dormiam no estabelecimento são encontrados mortos. A imprensa toda se dedica a noticiar, nem sempre com precisão, o crime bárbaro, exigindo da polícia a resolução do caso.

Em capítulos breves, Boris Fausto reconstitui cada lance da incriminação de Arias de Oliveira, um negro recém-chegado de Franca que havia trabalhado no restaurante. O que o torna o principal suspeito é o fato de ter se demitido dias antes para aproveitar o Carnaval. Num meio em que se valoriza a presença obreira do imigrante, a desconfiança recai numa pessoa identificada com a indolência e o prazer. Embora houvesse outros suspeitos, é Arias quem acaba preso. Aí está implícita a ideia do Brasil como país da preguiça, da malandragem e da festa. Um país que deve ser reprimido.

Era necessário, no entanto, provar o crime. Arias passa por um interrogatório psicológico à luz da Escola Positiva de Medicina. Mas é o clima opressivo da cultura e do cárcere que o leva a confessar tudo, embora os médicos afoitos vejam nisso um triunfo da ciência. Na ótica destes, o crime se esclarecera. Arias teria voltado ao restaurante para recuperar a colocação, pedira para dormir lá, tal como os outros empregados, e, faminto, depois de noites de farra, tivera a ideia do roubo, vendo-se obrigado a matar todos. Tal teria sido a versão oficial se não tivesse entrado em cena a União Negra Brasileira, entidade que lutava contra a discriminação racial. Ela escala um jovem advogado, Paulo Lauro, que mostra a fragilidade das provas. Ele nega as certezas científicas que transformam o jovem pacato em um perigoso facínora, devolvendo-o à sua estatura real, a de alguém em busca de trabalho.

Raul Junior
FANTASMAS
Boris Fausto: escrever o livro foi um modo de exorcizar a história, que ficou em sua imaginação desde a infância

Nessa mudança de olhar entram alguns elementos simbólicos, que o autor explora com propriedade e sutileza. Se o gosto pela festa carnavalesca é usado contra Arias, a disputa da Copa do Mundo de 1938 o ajuda. A seleção brasileira tem um herói, Leônidas, que é muito parecido com Arias, e que também sofre de discriminação. Há uma afirmação de nossa nacionalidade pelo futebol, e isso cria um ambiente propício para a mudança da opinião pública sobre o jovem acusado.

Depois de lances cinematográficos, Arias é absolvido pelo tribunal do júri. O crime nunca é solucionado. Arias volta ao anonimato e o leitor chega ao último capítulo, quando Boris Fausto dá os motivos que o levaram a eleger esse episódio. Além da possibilidade de estudar o preconceito e o começo de uma estabilização de nossa identidade, ele se reporta a uma passagem autobiográfica. Como participara do Carnaval de 1938, o crime ficou ressoando em sua imaginação desde a infância. Escrever a história é uma forma de exorcizar velhos fantasmas. E esse dado final dá um sentido maior ao livro.

9a Feira do Livro de Ribeirão Preto

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9a Feira Nacional do Livro de Ribeirão Preto - SP A Feira do Livro de Ribeirão Preto, em sua nona edição, virou um acontecimento nacional com a presença de grandes nomes da literatura, músicos de talento e um universo de atividades culturais. Livros, música, cinema e teatro reunidos num espaço democrático acessível à população. Nessa viagem pelo mundo da literatura, a 9ª Feira Nacional do Livro de Ribeirão Preto, que acontece de 18 a 28 de junho de 2009, vai homenagear o Chile, o Estado do Amazonas e a poetisa Cora Coralina. O patrono da Feira será o escritor e jornalista Galeno Amorim.
A Feira do Livro de Ribeirão Preto já está entre as maiores do mundo, sendo a segunda maior a céu aberto do Brasil. O evento cresce a cada ano não só em quantidade de público, mas também em qualidade, assumindo a condição de grande evento cultural, turístico e econômico projetando a cidade nacionalmente. Na edição de 2008, cerca de 312 mil pessoas participaram ativamente de todos os eventos.
Serão 11 dias de programação cultural gratuita para todas as idades. Os números desta edição impressionam: mais de 100 autores confirmados, 25 shows, 71 estandes de livreiros, além de apresentações musicais, teatrais, contadores de histórias e sessões de cinema na praça.

Eu estarei lá, como convidado para um café filosófico no dia 22 de junho. É a segunda vez que sou convidado e que participo falando sobre linguagem. Na Feira deste ano, estarão também Thiago de Mello, Miltom Hatoum, Gaitano Antonaccio e Márcio Souza.

Fica o convite. Clique aqui e baixe a programação da Feira em PDF. Estou na página 24.

Acabei de ler: “O Infinito na Palma da sua Mão”, de Rubem Alves

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Rubem AlvesUma coleção de crônicas de Rubem Alves. Leitura gostosa, daquelas que acaba rápido demais. O livro faz parte de uma quadrilogia que Rubem escreveu a partir do poema de William Blake, em que cada livro recebe o título de uma linha. Gostei particularmente do texto que ele escreve para o amigo Carlos Rodrigues Brandão, professor e pai de Luciana, amiga de Campinas da época do doutorado em Campinas. Esse texto é uma ode à amlzade. Mas o livro é todo bom. Um típico Rubem Alves, para quem acredita que crianças sorrindo valem o mundo ainda. Segue a estrofe de Blake:

“Ver O Mundo num Grão de Areia
E um Céu numa Flor Silvestre,
Ter o Infinito na Palma da sua mão
E a Eternidade numa Hora”

Acabei de ler: “Memórias de um intelectual comunista”, de Leandro Konder.

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Memórias de um intelectual comunista

O filósofo Leandro Konder se diz um sobrevivente: comunista do século 20, tenta, neste início de século 21, reinterpretar os juízos e propostas formulados por Karl Marx no século 19.
Konder já se deu essa missão há alguns anos. Agora, lançou um livro no qual não só revisa o comunismo como a própria condição de comunista. Chama-se  “Memórias de um intelectual comunista” (Civilização Brasileira, 264 páginas, R$ 39). Acabei de ler o livro. Levei só dois dias, tamanha a fluência do conteúdo. Nele, Konder – um dos mais respeitados intelectuais do país – repassa histórias de sua vida: das lembranças de um garoto “programado para progredir” ao presente de saúde frágil (o Mal de Parkinson o obrigou a abandonar atividades políticas e acadêmicas).

Leandro Konder nasceu em 1936, em Petrópolis (RJ) – filho de Valério Konder, médico sanitarista e líder comunista. Formado em Direito, Konder exilou-se em 1972, após ser preso e torturado pelo regime militar, e morou na Alemanha e depois na França até seu regresso ao Brasil em 1978. Doutorou-se em filosofia em 1987 no Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ. É professor no Departamento de Educação da PUC/RJ e do Departamento de História da UFF. Tem vasta produção intelectual como conferencista, articulista de jornais, ensaísta e ficcionista.

Em 2002 foi eleito o Intelectual do Ano pelo Fórum do Rio de Janeiro, da UERJ. Um dos maiores estudiosos do marxismo no país é autor, entre outras obras, de “A questão da ideologia” (São Paulo, Companhia das Letras, 2000), que também já li e é referência na minha estante sobre o assunto.

Um verdadeiro presente para o leitor: Leandro Konder dá uma lição de vida, tanto no plano existencial quanto no ideológico. Por meio de suas memórias, vê-se o homem, o filósofo, o escritor, nos momentos mais amargos e duros, a ensinar a coerência da sua visão de mundo e a tolerância com as opções contrárias. Altamente recomendável para aqueles que fazem do marxismo uma arma, um dogma ou uma religião.

Da orelha: “De Leandro Konder não se poderia esperar menos: este é um livro lúcido, transparente e permeado de afeto.” – Ferreira Gullar

Acabei de ler: "O olho da rua", Eliane Brum

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Pouca gente sabe, mas quase fui jornalista. Na hora de escolher que curso fazer no vestibular, fiquei entre Jornalismo e Letras, optando pelo segundo. Mas gosto muito do tema “comunicação”, que tem sua interface com as Letras pela linguagem.

Por conta desse interesse, comprei, li e gostei do livro “O olho da rua”, da jornalista Eliane Brum. Do surgimento de uma vida no meio da Amazônia, pelas mãos de parteiras da floresta, até os últimos 115 dias de vida de uma merendeira de escola em São Paulo. É por este universo que transita a jornalista em seu livro. Essas duas histórias e outras oito presentes na obra, cujo prefácio é de Caco Barcellos, revelam o estilo da autora, marcado pela delicadeza mesmo ao falar sobre temas áridos. Todas foram publicadas em ÉPOCA, mas de forma reduzida. Agora, o leitor terá a oportunidade de conferir os relatos de Eliane na íntegra.

Em “O Olho da Rua”, a jornalista inova ao fazer uma reflexão sobre seu trabalho. Para cada reportagem, ela escreveu um texto sobre os dilemas que enfrentou, as escolhas que fez e os erros que cometeu. É um sincero reconhecimento das limitações do jornalismo.

Clique aqui para ler, na íntegra, a reportagem Casa de Velhos, na qual a autora conta a história de moradores de um asilo no Rio de Janeiro. Leia também o making of dessa história, em que Eliane relata por que essa reportagem, especificamente, é especial para ela. “A Casa de Velhos é uma de minhas reportagens preferidas – e é a que mais me dói. Ainda hoje ela dói muito. Porque errei feio.”

É o segundo livro de Eliane que leio. O primeiro, A vida que ninguém vê, é uma coletânea de histórias reais sobre a extraordinária vida das pessoas comuns, foi reconhecido com o Prêmio Jabuti 2007, na categoria melhor livro de reportagem. Recomendo ambos.