mãe

Mãe, matéria e memória

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Em 1896, o filósofo Henri Bergson publicou um livro chamado “Matéria e Memória”. No ensaio, Bergson discute a relação corpo-espírito. Ele diz que essa relação é mediada pela memória, que considera algo profundamente espiritual.
Afirma o filósofo francês que existem dois tipos de memória a nos constituir: a memória-hábito e memória-lembrança. A memória-hábito replica o passado e o repete. Não é reconhecida como passado. É automática. Está inscrita no corpo por práticas cotidianas e tem fim utilitário. Como se portar à mesa, por exemplo, é uma memória-hábito. A memória-lembrança ou memória pura, por outro lado, regista o passado sob a forma “lembrança-imagem”. Representa o passado e o passado é reconhecido como passado. É da ordem contemplativa e teórica, gratuita e profundamente espiritual. É a verdadeira memória.
Trago a obra de Bergson para falar das mães. Mães são memórias puras. Mães são memórias-lembranças. Mães são pontes entre os nossos corpos – desde o empréstimo do seu – e os nossos espíritos. É lembrando das mães que o passado se presentifica e o presente se passadifica. Porque as mães estão atravessadas na nossa existência, no nosso corpo e na nossa alma.
Por ser o liame, a ligação entre o corpo e a alma, a mãe tem um lugar fundamental na constituição daquilo que somos. Não é à toa que a teoria da Psicanálise guarda um lugar crucial para a figura materna na construção do eu. A importância da mãe – por sua presença ou sua falta – na elaboração de nossa estrutura egóica é quase um dogma nas diversas teorias do desenvolvimento. Por isso que quando há excesso de mãe ou vazio de mãe a gente desequilibra e corre para a terapia. Ou deveria. Reflexões teóricas.
Filosofias e teorias à parte, mãe é mãe. Há mãe que é mãe. Há pai que é mãe. Há vó que é mãe. Há vô que é mãe. Porque mãe não é gênero, mas um lugar simbólico. Uma identidade pressuposta que primeiro acolhe, depois cuida, depois aninha, depois pede cuidado e, por fim, cumprindo o ciclo da vida, se vai.
A memória-lembrança da mãe começa no acolhimento. Não há lugar melhor no mundo do que aquelas quarenta semanas na barriga da mãe. Assim como mãe é um lugar simbólico que pode ser ocupado por pais, tios, avós etc, a barriga da mãe não precisa necessariamente ser a barriga da mãe biológica. A barriga da mãe às vezes está fora do corpo físico. O acolhimento começa na tomada nos braços de um filho concebido por outras pessoas como se seu biologicamente o fosse. “Adotar” vem do latim “adoptare”, ad+optare, ou seja, optar por ficar junto. É uma escolha consciente de querer ficar junto daquele bebê que, em princípio, não era parte sua. Adotar é encarnar nas suas uma carne externa. A mãe se faz encarnada e, ao se fazer, pare o filho que não gerou. Por pura opção. Isso é tão forte e tão lindo. Digno de mães.
Se pouco nos fica de memória-lembrança do acolhimento, seja biológico ou encarnado, muito nos toca as memórias o tempo do cuidado. É aqui que o espírito dança terno ao lembrar da mãe acarinhando nosso rosto, cantando para a gente dormir. É esse o tempo de construir nosso playlist particular da novela de nossa vida. A minha mãe nos fazia dormir no embalo da rede da casa sem forro cantando “Pica-pau atrevido que do pau fez um tambor” ou “Alecrim dourado”. Talvez essas escolhas tenham a ver com o atrevimento da minha irmã mais velha ou com a certeza que nós lá de casa temos de que sempre, em qualquer lugar, pode ser tempo de alecrim com seu cheiro bom, com sua doçura levadas pelas abelhas para fazer o doce mel dourado. Sem dúvida que nessas escolhas, nesses cuidados, as marcas da memória-lembrança são cravadas no corpo.
O tempo vai passando. A gente vai crescendo. Vem o tempo de ir cuidar da vida. Mães e filhos vivem um luto duplo, o luto necessário para que nos façamos gente. A mãe deixa de tomar conta e de decidir pelos filhos. Saímos de casa e passamos a ser responsáveis por nós e logo por outros. Tempos agridoces, de fato. Amargos porque saímos de perto daquela que nos cuidava – e é preciso dizer aqui que as mães têm formas diferentes de cuidar, umas muito estranhas até. E doces porque, afinal, a vida para a qual ela nos preparou com mantos de carinho e proteção precisa ser vivida. Hora do vamos ver, da real. Vamos para nosso canto. Compramos nossa lata de leite condensado para chupar livres. Mas sempre “lá em casa” vai ser a casa da mãe. Sempre o bife de fígado – coloque aqui a comida que ela fazia porque você gostava – vai ter um sabor único. O feijão da minha vó põe na boca da minha mãe até hoje um gosto de amor inigualável. O feijão da minha vó é o meu bife de fígado ou o seu não-sei-o-quê delicioso. Comida de mãe é memória viva. De lembrar enquanto escrevo eu salivo. Ao salivar, eu me vejo moleque comendo meu bife de fígado, sentado na mesa grande da cozinha da casa 20, uma mesa coberta com uma toalha de plástico branca com desenhos de legumes. E vejo minha mãe sentada na cadeira de macarrão, se embalando. Meu corpo respondendo ao meu espírito. Bergson estava certo.
Casa de mãe, melhor ninho. Colo de mãe, melhor lugar. Quarenta e sete anos no lombo e ainda corro vez por outra para deitar no colo da minha mãe. Meu conforto, minha paz. Ouvi-la dizer “Meu filho, vai dar tudo certo” na hora em que nada parece dar certo tem um poder pentecostal. Fecho os olhos, sinto o seu coração bater, volto ao seu ventre. Aconchego. É difícil quem está longe da mãe, geográfica ou afetivamente, e não tem esse lugar de reparação da alma. É complicado quem mora longe da mãe, às vezes habitando na quadra ao lado, e perde a chance de se reabastecer de gás carinhoso maternal para a vida. É doloroso quem já não a tem mais por perto. Porque mães envelhecem. E um dia se vão.
Ando lendo muito sobre a velhice. Talvez por estar me encaminhando para seu edifício. Mas muito por causa de meu pais. Eles envelheceram. E a velhice é um tempo de perda. Perda de trabalho, perda das capacidades, perda de saúde, perda de memória. Para Bergson, a perda da memória é somente desgaste do cérebro. Claro, se o cérebro não funciona a contento, isso acaba atingindo a memória-lembrança, que é o que mantém viva as pessoas. Parêntese: estou terminando de ler “Memória e sociedade: lembrança dos velhos”, da Ecléa Bosi. Que livro lindo! Reconstruir a memória social pela memória pessoal, de velhos que um dia foram jovens e construíram suas histórias. Fecha parêntese. Então, a mãe envelhece. E as coisas mudam de lugar.
É fundamental perceber quando a mãe pede cuidado. Como filhos, ocupamos nós agora o lugar simbólico de acolher, cuidar e aninhar. Somos nós que precisamos fazê-los sentir pertencer a nossas vidas para além da retórica. Somos nós que precisamos cuidar, levar no médico, sair juntos para tomar um café da tarde, fazer supermercado. Tem uma idade em que a mãe precisa de cuidado. Mesmo a contragosto – ninguém gosta de ver seus heróis falhando – as mães começam a falhar. E aí temos de segurar sua mão para atravessar a rua, temos de dar banho, temos de pentear seus cabelos, acarinhar seu rosto, cantar “Alecrim dourado” para ela dormir. É esse o tempo de cantar todo o nosso playlist particular da novela de nossa vida. É esse o tempo de acolher.
Elas se vão. Os corpos delas se vão. Não mais a colher de pau da parede. “Onde os doces da mãe?”, pergunta do poeta Aníbal Beça, chorando a ausência eterna da sua. Onde o cheiro único? Onde o abraço quente? Onde o beijo primeiro? Precisamos – porque é o que temos – aprender a amar nossa mãe de um jeito novo quando ela se vai. Carecemos de aprender a amá-la sem o estímulo de sua presença física. Desamar para reamar. Um reamor. É isso. Mas construir o reamor por perdas não é tarefa fácil. Desamar amor puro dói. Às vezes escorre sangue de tão doloroso. Meu carinho mais sincero para você que está em processo de reamor, que vai para o seu primeiro Dia das Mães sem a sua, com cada propaganda, postagem em rede social, cartaz, tudo, lembrando que ela não está mais ao alcance de um abraço. Pode chorar. Chore em homenagem à sua mãe. Deixa ela saber que ela faz falta.
Matéria, memória, lembranças, mãe. Tanta coisa junta. Se você chegou até aqui e leu o textão – um escândalo em tempos de posts curtos –, eu desejo a você e à sua mãe um Feliz Dia das Mães. Para ti também, mãe Helena. E para a mãe perfeita das minhas filhas, Fabiana. Ah, e aproveitem para resgatar as memórias-lembranças. Aproveitem para dar um abraço e um beijo se ainda a benção divina lhes permite tais coisas. Aproveitem para acolher, cuidar, aninhar. Porque um dia, queridos amigos, isso não vai ser mais possível. Aliás, será sim. De outra forma, talvez.
Dona Alice, uma das velhinhas entrevistadas por Ecléa Bosi para seu livro, diz que uma das coisas de que lembra com afeto é da época de sua primeira comunhão aos treze anos na Igreja de Santo Antonio, na Barra Funda, em São Paulo. Lá ela cantava:
Como minha mãe estarei na santa glória um dia.
Junto à Virgem Maria. No céu triunfarei.
No céu, no céu. Com minha mãe estarei…

O corpo é feito de memória. Bergson estava certo. Mães – de todo tipo – sempre vão para o céu.

 

Feliz Dia das Mães.

Onde os doces da mãe? Onde o cheiro do filho?

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colher de pau
solitária na parede
onde os doces da mãe?

Aníbal Beça

Hoje é o dia das mães. Presentes, abraços, beijos, carinho. Tudo que as mães merecem. Eu vou lá dar um beijo na minha, me aninhar no seu colo, me fazer criança pelo seu cafuné. Sou absolutamente feliz com a mãe que Deus me deu. Com ela aprendi valores e atitudes que trago e levo por onde vou. Por ela ignoro todas as regras de estilo de um bom texto e tasco um grande lugar-comum: minha mãe é uma das duas melhores mães do mundo, só rivalizando com a mãe das minhas filhas, simplesmente perfeita também. Cara sortudo eu no quesito mãe.

O exercício da escrita tem me ensinado uns truques. Um bom texto é aquele que fala de temas universais sob perspectivas diferentes das que escorrem nas tintas comuns que celebram uma data. Eu, que ando escrevendo pouco, queria escrever um texto diferente sobre o Dia das Mães. Pensei, cá com meu teclado: nada das louvações justas e merecidas. Não. Essas estão subentendidas. Queria falar das mães, sim, mas fiquei pensando em como chegar no tema por um caminho alternativo. Falar algo diferente, que fosse além do que eu disse aí em cima no primeiro parágrafo. É onde entra a Zazá.

Zazá é a moça que trabalha na escola onde estou dando um curso. Ela serve o cafezinho, a água, arruma as coisas. Há mais ou menos um ano, Zazá perdeu um filho. Dengue hemorrágica. O menino tinha treze anos. O Dia das Mães de Zazá será diferente. O Dia das Mães de muita gente sempre é diferente. Sim, é sobre esse Dia das Mães que eu quero falar.

Mãe que perde um filho vive o desnatural. Quem perde pai e mãe fica órfão, quem perde o cônjuge vira viúvo, mas quem perde um filho não tem nome. As outras perdas são do processo natural da vida, mas perder um filho é uma dor sem nome. A linguagem não se atreve a nominar em respeito. A dor sem nome não lê os encartes das lojas, a dor sem nome não sabe mais o que é o calor do abraço, a dor sem nome lamenta um futuro que nunca virá, a dor sem nome chora o cotidiano que se perdeu. A dor sem nome rasga a carne ao arrumar o quarto vazio. Eu me coloco no lugar das mães que carregam em si a dor sem nome no Dia das Mães. Dói muito só de pensar. Como diz Chico Buarque, perder o filho é um sentimento reverso de um parto. Essa saudade é o pior tormento. “É pior do que se entrevar”. Ouvindo “Pedaço de Mim” e chorando. Pausa.

Rearrumar os afetos depois de perder um filho é algo que só me permito imaginar como exercício de escrita. Até na imaginação machuca. Fiquei reticente em continuar este texto, confesso. É tão lancinante a dor só de imaginar isso que nós, que temos o beijo cotidiano de nossas crias, expulsamos o pensamento ao menor vislumbre do assunto. Dia das Mães em que há um vazio impreenchível chega a ser torturante. Bem-aventuradas as mães que conseguem minimamente sobreviver ao bombardeio comercial da época. O capital faz tudo para quem tem mãe, mas o capital não tem mãe. Nem de longe pensa nas mães que carregam a dor sem nome. As mães de maio, machucadas como as da Plaza.

Outros que são esquecidos no Dia das Mães são os filhos sem mãe. Deve ser perturbador viver o Dia das Mães sem ter tido a figura materna. Não me refiro à mãe biológica, mas à mãe que tece na gente o afeto com o mundo. Aquela pessoa para quem a gente corre quando pede arrego da vida, mesmo com quarenta anos. É que o mundo é feito para a normalidade. Aí as fichas que preenchemos pedem o nome da mãe, as pessoas na boa fé desejam feliz Dia das Mães, pressupondo  que você tenha uma relação com a sua. Quando não é o caso, quando  não se teve ou nem se tem, deve dar em quem tem essa ausência de mãe uma sensação de deslocamento, de não-pertencimento. Algo tipo, “nesse assunto, eu fico devendo. Vamos mudar o papo…”

Deve ser igualmente doloroso viver o Dia das Mães tendo tido uma figura materna que não está mais ao alcance dos lábios para um beijo de amor. Quem tem uma história com sua mãe, quem a tem entranhada no corpo e na alma, quem conhece de cor o poder acalmador que tem o cheiro de sua bata, sabe o valor de poder abraçar e beijar aquele corpo com rugas marcadas pelo tempo, conhece a paz infinita de pedir a bênção beijando sua mão, já cheia de manchas da pátina do tempo. Mas a vida tem ciclo. Um dia a mãe se vai. De muitos, ela se já se foi. Como é o Dia das Mães de quem não tem mais a mãe? Deve dar vontade de gritar, mesmo que psiquicamente: “Parem de falar em mãe porque a minha não está mais aqui e isso está me torturando!” É outro tipo de vazio para a mesma sensação de ausência do impossível reabraço. Saudade é a presença ostensiva da ausência.

Mães que perderam filhos, filhos que perderam mãe. Para eles, o Dia das Mães não tem o almoço do domingo. Para eles, não há a preocupação do presente para comprar no corre-corre da última hora. E como eles gostariam de tudo isso…

Para os povos andinos, como os quechuas e os aymaras,  Pacha Mama é a deusa “mãe do universo”. O mito de Pacha Mama se refere ao tempo, vinculado com a terra: o tempo que cura as dores, que fecunda a terra. Pacha significa tempo na língua kolla. Com os anos e as alterações da língua terminou confundindo-se com a terra.  O dia primeiro de agosto é o dia de Pacha Mama. Nesse dia, as pessoas enterram em um lugar próximo da casa uma panela de barro com comida cozida. Nesse mesmo dia deve-se pôr cordões de fio branco e preto, confeccionados com lã de lhama. Esses cordões se atam nos tornozelos, nos pulsos e no pescoço, para evitar o castigo de Pacha Mama.

A terra, o tempo, a mãe. Hoje é 13 de maio. Não é primeiro de agosto. Mas desejo profundamente  para quem está incompleto no Dia das Mães que Pacha Mama cuide com ternura, lamba suas feridas, fecunde suas lembranças. Que a panela de barro da mãe, enterrada com ela, renasça no amor afetuoso que ela deixou no gosto inconfundível e inesquecível de seus doces, no seu sorriso, no seu ralho, no seu olhar, um olhar que lhe compreendia como o de mais ninguém é jamais será capaz. Nesse Dia das Mães, que as mães que carregam em si a dor sem nome gastem sua saudade – porque só tem saudade quem viveu plenamente. Que atem nos tornozelos, pulsos, pescoço e coração os cordões do amor, não feitos de fios preto e branco de lã de lhama, mas de fios trançados pelos laços coloridos do amor incomensurável que só pais e mães têm pelos filhos, pelas lembranças de seus sorrisos abertos, de seus abraços gratuitos, de seus desenhos rabiscados no papel ou na parede, de suas histórias lindas, de seus segredos pactuados com confiança. Filhos que têm mãe e mães que têm filhos, se aproveitem enquanto podem. Senão Pacha Mama castiga.

Feliz Dia das Mães a todos. Feliz Dia das Mães, Zazá. Do jeito que for possível.

Meu casulo, meu mundo

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Meu primeiro lar foi ela. Não entendi quando me tiraram de lá.  Da seiva de seu corpo me alimentei. Sua voz me fez dormir os mais tranquilos sonos. Ele me vestiu de amor. Ela me calçou com sapatos que nunca pisaram em ninguém. Na sua linguagem compreendi o que é gostar. Nas suas histórias aprendi a força infinita da imaginação. Nas suas ações entendi o que é perseverar. Sob sua benção aprendi a decidir. No seu exemplo escolhi o que fazer na vida. No seu abraço celebrei minhas vitórias. No seu colo chorei minhas tristezas. Na sua ânsia de saber aprendi que aprender é bom. Na diversidade de seus filhos, meus irmãos, aprendi a aceitar a diferença e nela ver mais beleza que problemas. Nas suas renúncias aprendi o que é amor pela família. Na minha partida de casa vi o quanto de mim ficaria naquele lar para sempre. Nos meus casamentos, sua oração encomendou felicidade para mim. Nos meus desencontros, seu ninho me acolheu como no começo de tudo. Nas suas fraquezas aprendi o que é falibilidade humana da perfeição e aprendi a devolver colo. Nas suas fortalezas conheci a possibilidade da superação das fraquezas humanas. Nas suas certezas me soube permanente. Nas suas inesperadas mudanças me soube mutante de repente. Com sua presença, no nascimento de minhas filhas, me vi nascer pai. Na perseverança recorrente ao lado do meu pai me percebi feliz. Na frase de fé que acalmava aprendi a apostar no sucesso. Com o percurso de sua vida aprendi a gostar de gente. No seu beijo e com sua benção, eu me fiz gente. Parabéns, mãe, nesse aniversário e sempre. Eu te amo. Dindo.

Amor perfeito

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Em frente à casa da rua três, Paulo, eu, Paula e Mauro. A lu ainda tinha chegado. Atrás, a leoa.

Dona Helena aprendeu a dividir felicidades e misérias pelas durezas da vida. Esse dividir nunca foi um dividir negativo, mas um dividir-compartilhar, da divisão que soma, em uma lógica de amor que subverte a aritmética. Essa mulher aprendeu a dar o pouco que tinha e até o que não tinha como forma de mostrar que de dois faz-se quatro, de quatro faz-se oito e de oito faz-se oitenta, exercitando em frações um amor por inteiro.

Dona Helena aprendeu que a vida é um jogo entre o que queremos e o que podemos, temperado com o que ousamos. Encantou-se e casou-se com um botafoguense chamado Jefferson e com ele educou seus cinco filhos. Eu sou um deles. Dona Helena é minha mãe.

À minha mãe devo tudo, a começar pela vida. É evidente, mas mascarado por sua evidência, esse é um fato de uma beleza estonteante. É como o nascer do sol que damos por garantido todos os dias, mas que quando se permite ser sorvido no silêncio ganha um significado renovado. Ela deu-me à luz, mas ninguém é mãe só porque põe no mundo. Ela sabe disso. Mãe transcende o biológico. Mãe é concretude afetiva.

Minha mãe me ensinou muitas coisas. Minha mãe me ensinou a exercer a autoridade sem violência, a ter compaixão sem assistencialismo, a curtir as vitórias sem humilhações, a compreender as derrotas como lições. Aprendi com minha mãe que a relação entre mãe e filho pode ser de igual para igual sem que, nessa simetria, se perca o respeito. Aprendi com minha mãe que antes uma palavra indignada do que o silêncio engasgado que mata por asfixia tantas famílias. Minha mãe me ensinou a discordar sem agredir. Minha mãe me ensinou a brigar sem machucar, a viver socialmente sem morrer moralmente. Ele sempre me diz o que eu preciso ouvir, não o que eu quero ouvir.

Nesse dia das mães, quero tornar (mais) pública a minha gratidão por tudo que recebi dessa mulher que sempre soube virar o jogo da vida. Que soube a hora de estudar e arrancar para uma vida melhor com sua cria, por meio de esforços hercúleos e de uma sabedoria comparável àquela dos filósofos gregos, sugestivamente chamada de helênica. Minha mãe, não me ocorre metáfora melhor, sempre jogou o ping-pong da vida de salto alto. E sempre venceu.

Lembro de nossa despedida quando fui para Campinas estudar. Malas feitas, um beijo, uma benção, um vá com Deus. Esqueço algo e volto. Na passagem para o quarto, vejo pela porta entreaberta da cozinha, na cadeira de macarrão do pátio da casa da rua três, a casa das minhas memórias, a minha mãe com olhinhos miudinhos, chorando feito um bebê. Chorando feito uma mãe. Faltou pouco para eu desistir de ir. Mas ela ficaria desapontada. Pois minha mãe sempre me disse que sonhos se sonham e se buscam. E que ela estaria sempre ali para ajudar. Por isso ela foi chorar escondido. Acabei indo, não sem antes lhe dar um beijo encharcado de amor e receber um outro com mais amor ainda. Deixei para desfazer-me em viscosas lágrimas no avião.

Hoje, como pai em relação às minhas filhas, sempre primeiro dou ouvidos a meus instintos (e aos da minha mulher, claro). Mas em segundo lugar, penso em como a minha mãe agiria. E ela só não vem primeiro lugar porque me ensinou de forma competente a acreditar em mim.

Inevitável voltar ao passado e recorrer à memória afetiva. O menino da foto, peito estufado, cantando: Andei por todos os jardins procurando uma flor pra te ofertar. Em lugar algum eu encontrei a flor perfeita pra te dar. Ninguém sabia onde estava a flor mimosa, perfeição. Ela se chama flor-mamãe. E só na nasce do jardim do coração. Enfeita nossos sonhos, perfuma nossa ilusão. Flor divina, eu suponho, faz milagre em oração. Nesse dia de carinho, quero senti-la no peito. Emoldurando a minha alma,  Flor-mamãe, amor perfeito.

Quando eu era menino, na época dessa foto e dessa música, eu achava a minha mãe a “melhor mãe do mundo”. Os superlativos de criança. Depois de quarenta anos de avaliação, com a objetividade de um pesquisador com doutorado, tenho certeza inconteste de que esse título é seu mesmo, minha mãe. Você é a melhor mãe do mundo.

Falando da minha mãe, desejo um excelente dia das mães para a mãe das minhs filhas, a Bia. Sem ela definitivamente não dá. E desejo um maravilhoso dia das mães para você que me lê. Aproveitando o incomparável cheiro de mãe no abraço, se estiver perto, ou com os olhos fechados para sentir e sorver a presença da ausência, se estiver longe. Sei que o dia das mães pode fazer o coração pesar para várias pessoas, por vários motivos. Que a leveza do amor, no entanto,  alivie esse peso e que a serenidade invada seu dia. É o meu desejo mais profundo e sincero.

Mãezinha querida, “do avental todo sujo de ovo”, se pudesse, buscava outra vez, mamãe, “começar tudo, tudo de novo”.

 Te amo. Sua benção. E feliz dia das mães.

PS: Ei, mãe, desculpa por aquele ovo frito com gema mole feito com tanto carinho que eu, na rispidez da minha adolescência, malcriadamente não quis. Sei que minha entrada no céu depende desse perdão.

Carta de recomendação de mãe

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Esta carta foi mandada por minha mãe para a Bia, sem eu saber. Eu estava viajando para Campinas para vê-la pela primeira vez, depois de já estar namorando  à distância  há quase um mês. Tinha saído em frangalhos de um casamento. Apostava todas as minhas fichas restantes na Bia.  Jackpot! Mãe é mãe. Amo as mulheres de minha vida.

A descoberta do mundo

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De repente bateu um desespero manso. Como quase todos os dias, levantei com o dia raiando para fazer as mamadeiras das minhas duas filhas. Ana Clara, três anos, sete porções de leite para uma de Sustagen Baunilha em 210 ml de água. Marina, dois anos, cinco de leite para uma de Sustagen Chocolate em 150 ml.

Uma gosta de baunilha, a outra prefere chocolate. A primeira é na dela, vem quando quer. Gênio forte que às vezes irrita. A mais nova é na dos outros, abraça de graça, de bem com o mundo. Clara adora flores, tem espírito de Cirque du Soleil, vive pulando, dando cambalhotas, se pendurando nas minhas costas. Marina gosta de chocolate – qualquer um a qualquer momento – e é uma Forrest Gump, sempre com uma história para contar. Ambas com uma sacação acima da média. E uma beleza de fazer o sol sorrir e a lua corar.

Podem dizer que falo isso porque quem tem filho feio é coruja. Desculpem, mas não sou eu quem diz. Só reproduzo o que dizem, com um orgulho danado de ter feito, em co-autoria, dois belos exemplares da espécie humana. Belas por dentro e por fora minhas meninas.

Mas como disse no começo do texto: de repente bateu um desespero manso. Depois de colocar as mamadeiras em suas mãos e de elas as pegarem automaticamente durante o sono, tentei voltar para dormir, mas não consegui. Porque comecei a pensar sobre a celeridade do mundo.

Minhas filhas nasceram um dia desses e já estão andando, falando, escolhendo o sabor do Sustagen. Minhas filhas já têm personalidades, opiniões, desejos, preferências, medos, projetos. Minhas filhas, nessa infância linda, já contra-argumentam, já discutem, já me deixam sem resposta.

Quando foi que isso aconteceu? Quando foi que elas deixaram de ser aqueles dois serezinhos que eu fazia ninar com as mesmas músicas que a minha mãe me fazia dormir, há quarenta anos? Quando é que minhas bonecas deixaram de depender dos meus braços para ir e vir? Quando é que deixaram de usar fraldas e passaram a ir sozinhas ao banheiro e a pedir o “papel-higiene”?

Meu desespero manso é por me dar conta de que eu estou perdendo os detalhes de suas vidas. Sei que é exagero, que ninguém pode ficar 24 horas por dia do lado de alguém. Nem saudável isso é. Filhos precisam de espaço para andar e ampliar seus limites, para escorregar, cair e levantar. A vida é assim. Mas amor de pai foge à racionalidade e me deu desespero por não acompanhar cada palavra proferida, por não ler cada olhar, por não filmar cada movimento, por não estar presente em cada descoberta do mundo.

Ser pai ou mãe é desesperador, se você pensar um pouco. Quando temos filhos, ficamos vulneráveis para sempre. Não podemos, como gostaríamos, resolver todas as dores, tristezas, dúvidas e angústias de nossos filhos. No mais das vezes, não podemos consertar suas notas fora de tom no concerto de suas vidas. Como pais, fazemos o melhor que podemos, mas o melhor não é o suficiente na cabeça de um pai ou uma mãe que ama. Sempre estamos aquém. Sempre há a sensação de estar deixando algo incompleto. Porque é isso mesmo: há uma incompletude no papel de pai ou mãe. Continuo achando que o único defeito de Deus é não deixar que possamos transferir os sofrimentos de filhos para nós, pais.

Mas é no espaço aonde não chegam os pais que os filhos surgem. E surgem nas suas especificidades, moldando suas personalidades, abrindo as porteiras do seu mundo por conta própria. Sei que meu desespero é injustificável porque é mais instintivo do que pedagógico. Elas estão crescendo, estão na escola. Daqui a pouco conhecem o amor com suas cores, sabores e dores. Daqui a pouco escolhem uma profissão. Daqui a pouco casam e nos dão netos, os filhos com açúcar, como diz minha mãe. E vou – de novo – confiar em minha mãe, apesar de desconfiar de que não há nada mais doce do que filhos. Quando ela disse que não havia amor maior do que de pai para filho, eu desconfiei. Até ter filhos. Tenho dito aqui e acolá que é o amor que sentimos por filhos é um amor tão grande e tão diferente que deveria ter um substantivo específico para se referir a ele. Amor com adjetivos não serve para filhos.

E um dia eu vou embora. E a mãe vai embora. E elas vão ficar. Meu Deus! Desespero de novo! Quem vai lhes dar colo quando precisarem? A quem elas virão perguntar tudo, como fazem hoje, considerando esse pai babão o mais sábio dos oráculos? Não! Não quero ir. Mas sei que vou. É o ciclo. Contudo, vou, de onde estiver, como uma estrela, ficar brilhando a iluminar os caminhos de cada uma das minhas meninas aqui embaixo. Zelando pelos seus caminhos. Soprando nos seus ouvidos em suas dúvidas. Falando-lhes por sonhos. Beijando-lhes as faces a cada adormecer.

Escrevo chorando. Lágrimas caem comportadas e salgadas em direção aos meus lábios. Lábios que ainda vão beijar muito os pescoços de minhas filhas. Lábios que vão lhes contar alguns truques para não sofrer tanto nesse mundo feito para adultos e não para crianças. Lábios que não cansam de perguntar “sabia que eu te amo?”

Hoje vou passar o dia inteiro colado nas minhas filhas. Registrar cada sorriso, responder a cada pergunta olhando em seus olhos. Sentar no chão para desenhar com o lápis de cor suas ideias, suas flores, seus coelhos, suas histórias. Hoje vou dar comidinha na boca de cada uma delas, aeroportos lindos para colheres-aviãozinhos. Hoje vou desligar o DVD e contar histórias, cantar-lhes “Alecrim dourado” até que caiam no sono. Não há cena que pinte a serenidade como a de filhos dormindo.

Preciso cuidar desse meu desespero. Preciso cheirar mais minhas filhas. Enquanto eu posso. Sempre que puder. Preciso cuidar do meu desespero porque preciso de calma para não errar: para a Ana Clara, sete de leite para uma de Sustagen Baunilha em 210 ml de água. Para a Marina, cinco de leite para uma de Sustagen Chocolate em 150 ml. E desde ontem a Marina só quer a mamadeira da Moranguinho e a Clara a dos bichinhos do fundo do mar. Estão crescendo, minhas meninas. Elas serão sempre “as meninas”. Porque não importa a idade, estamos sempre descobrindo o mundo.  Não é, mãe? Não é, pai?

Mãe

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[No aniversário de minha mãe, Dona Helena, um texto que escrevi para ela em 2004]

Dona HelenaQuero falar de dona Helena.  Dona Helena aprendeu a dividir felicidades e misérias pelas durezas da vida. Esse dividir nunca foi um dividir negativo, mas um dividir-compartilhar, da divisão que soma, em uma lógica de amor que subverte a aritmética. Ela aprendeu a dar o pouco que tinha e até o que não tinha como forma de mostrar que de dois faz-se quatro, de quatro faz-se oito e de oito faz-se oitenta, exercitando em frações um amor por inteiro.

Dona Helena aprendeu que a vida é um jogo entre o que queremos e o que podemos, temperado com o que ousamos. Encantou-se e casou-se com um botafoguense chamado Jefferson. Com ele educou seus cinco filhos. Eu sou um deles. Dona Helena é minha mãe.

À minha mãe devo tudo, a começar pela vida. É evidente, mas mascarado por sua evidência, esse é um fato de uma beleza estonteante. Como o nascer do sol. Deu-me à luz, mas ninguém é mãe só porque põe no mundo. Ela sabe disso. Mãe não é categoria biológica, mas concretude afetiva.

Minha mãe me ensinou muitas coisas. Ela ensinou autoridade sem violência, compaixão sem assistencialismo, vitórias sem humilhações, derrotas como lições. Aprendi com ela que a relação entre mãe e filho pode ser de igual para igual sem que se perca o respeito. Antes uma palavra indignada do que o silêncio engasgado que mata por asfixia tantas famílias. Minha mãe ensinou a discordar sem agredir. Ensinou a brigar sem machucar, a viver socialmente sem morrer moralmente.

No sue aniversário, quero tornar pública minha gratidão por tudo que recebi dessa mulher que sempre soube virar o jogo da vida. Que soube a hora de estudar e arrancar para uma vida melhor com sua cria, através de esforços hercúleos e de uma sabedoria comparável àquela dos filósofos gregos, sugestivamente chamada de helênica.

Lembro de quando nos despedimos quando fui para Campinas estudar. Malas feitas, um beijo, uma benção, um vá com Deus. Esqueço algo e volto. Na passagem para o quarto, vejo pela porta entreaberta da cozinha minha mãe, na cadeira de macarrão do pátio da casa da rua três, olhinhos miudinhos, chorando feito um bebê. Chorando feito uma mãe. Quase que eu fico. Mas ela ficaria desapontada. Sempre disse que sonhos se sonham e se buscam. E que ela estaria sempre ali para ajudar. Por isso ela foi chorar escondido. Acabei indo, não sem antes lhe dar um beijo encharcado de amor e receber um outro com mais amor ainda. Deixei para chorar no avião.

Inevitável voltar ao passado: mãezinha querida, “do avental todo sujo de ovo”, se pudesse, buscava outra vez, mamãe, “começar tudo, tudo de novo”. Te amo. Sua benção, coisa fofa. E feliz aniversário.

PS: Mãe, desculpa por aquele ovo frito com gema mole feito com tanto carinho que eu, na rispidez da minha adolescência, não quis. Sei que minha entrada no céu depende desse perdão.