Manaus

Manaus dos meus contextos

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“Você não pode mudar o que as pessoas pensam sobre você. Agora, você pode controlar como vai deixar o que elas pensam sobre você ter efeito sobre você”. Essa frase me foi dita pela Dra. Ana, minha analista, há quase dez anos, numa sessão de análise numa época em que eu estava muito vulnerável às opiniões alheias.

Meia Manaus entojada com um texto de uma cara de fora que falou mal da cidade. As pessoas reproduzindo sua indignação em links no twitter e no Facebook. Não é a primeira vez, nem a última que isso acontece. Alguém vem aqui e senta o pau na cidade. A repercussão nas redes sociais é inevitável. Já vi esse filme.

A minha opinião sincera sobre isso: deixem o cara falar. É a opinião dele. Ninguém gosta que falem mal da sua cidade, claro. Mas quando vejo esses fariseus que vêm de cidades-modelos que lhes autorizam a falar das porcarias das cidades dos outros, só lembro do Michel Foucault que dizia que o sentido não estava na coisa em si, mas no comentário sobre a coisa. Ou seja, quanto mais comentamos esses tipo de texto, mas a gente ajuda a ideia a circular. É dar ibope para quem não merece. No mínimo, é falta de educação falar mal de uma terra que lhe acolheu por uns tempos. Educação não é bem universal, infelizmente.

Foucault e a Dra. Ana ajudaram a melhorar minha qualidade de vida. Hoje ignoro solenemente os maledicentes e os que batem por motivações que nem eles próprios têm consciência. Diz Manoel de Barros: “Tem mais presença em mim aquilo que me falta”. Manaus é uma merda? Em alguns aspectos, sim. Trânsito, serviços, grande parte da política e outras coisinhas mais. Mas é a nossa merda querida, ora. É minha bostinha do tacacá, do jaraqui e da murupi. Meu cocozinho da solidariedade, do calor humano da mana e do mano. É a Manaus das caboquinhas do peito roxo, da maçã do rosto protuberante e do sorriso aberto. A Manaus de Anibal Beça, Paulinho Kokay, Luiz Bacellar, Nicolas Jr, Tenório Telles e de milhares de outras pessoas que fazem dessa terra um lugar bonito de gente bonita. Deixo os problemas para os forasteiros ruminarem. Fico com as belezas que ainda são muitas. Definitivamente, na luta do Tarzan com o jacaré, eu sempre torço pelo Tarzan.

Assim, não me incomodo com o que Eugênios, Thomases e quem quer que seja que fale da minha caboquinha. Porque há sempre Antonios e Marias que falam bem da terra que os adotou. Continuo curtindo o cheiro da minha caboca, que anda mal tratada, é fato, mas que ainda leva em seu sangue o mesmo sangue que corre nas minhas veias. Sangue cor de açaí, que pulsa serelepe como os sauins, com um volume de aconchego do tamanho do Rio Negro que a banha, passando sua língua lânguida de banzeiro deliciosamente em suas areias.

Eu já decidi há tempos que não permitiria opiniões negativas a respeito de Manaus me ofenderem. Isso não elimina a crítica à cidade. E assim as compreendo, como crítica para pensá-la melhor, diferente, não como ofensa. Como diz a Dra. Ana: isso eu posso fazer. O que eu não posso mudar a opinião de alguém que a tem, seja uma opinião sincera e honesta ou motivada por uma TPM profissional. Sabe por quê? Porque é como diz o poeta: “Manaus é uma cidade diferente; ao invés de morarmos nela, é ela que mora na gente”. Mora meeeeermo. Vai uma costelinha de tambaqui aí, meu caboco?

Em nome do “pai”

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Fazia um tempo que eu não escrevia sobre política. Aliás,

quase todas as vezes em que escrevo é sob a perspectiva da linguagem, que é minha praia. É menos arriscoso, como diz o sertanejo.

O episódio do prefeito de Manaus, Amazonino Mendes, me cutucou as vontades. Resumindo para quem não sabe do que estou falando: o prefeito foi à Comunidade Santa Marta, uma área de invasão onde tinha havido mortes por deslizamento. Lá, ficou irritado quando uma moradora, Laudenice Paiva, disse que não estava ali por escolha. O prefeito disse à moradora: “Então morra! morra! morra!”. Depois, ao perguntar de onde a moça era e ouvir dela que era do Pará, Amazonino disparou, “Tá explicado!”. Aqui o vídeo na íntegra, disponibilizado pela própria prefeitura no You Tube.  http://www.youtube.com/watch?v=n7Yaq08MIZY.

Há duas questões principais aqui. Uma é o grave comportamento do prefeito e a outra é a séria questão de fundo, que é a das invasões urbanas. E, para começo de conversa, uma não anula a outra, como quiseram argumentar algumas pessoas no Twitter, dizendo que não interessava discutir a grosseria do prefeito e sim as invasões. Eu acho que interessa discutir as duas coisas.

Um homem público tem de ter equilíbrio, o que parece que faltou ao prefeito. “Mas tem horas que tem de ser assim, na lata!”, argumentou um tuiteiro, dando razão a Amazonino. Discordo. A paciência pedagógica é um dos requisitos daqueles que estão em função pública. Ninguém pode usar uma posição de poder para vomitar nos outros suas angústias, neuras e traumas. É isso que faz com esse país seja a terra do “você sabe com quem está falando?”. É claro que há situações em que gostaríamos de bater na cara de certas pessoas com sandália Havaiana cheia de terra molhada. Mas a posição pública exige serenidade e a educação mínima exige sociabilidade. Eu mesmo, como professor, já quis dar umas palmadas nuns alunos aí, mas a profissão exige fleuma. =). No caso do prefeito, um mínimo de sensibilidade social também não faria mal. Detalhe: fui advertido no Twitter por ter falado em sensibilidade “do conforto do meu ar-condicionado”. E é preciso ser miserável para falar da miséria? Duplo twist carpado argumentativo…

Os comportamentos acerca da atitude de Amazonino foram sintomáticos. Os oposicionistas dilentantes de sempre aproveitaram e caíram matando. Não precisam de motivo. E com motivo então… É da política. Já não gostam do Amazonino, ele levantando a bola para cortar é o paraíso. Os partidários do prefeito que tentaram explicar o fizeram pela velha estratégia da conspiração da oposição infiltrada (a paraense teria sido colocada morando ali pelo PSB há anos já prevendo esse momento, como os espiões da KGB infiltrados na CIA desde bebês). Ou ainda culpando a imprensa que, fazendo o seu papel, registrou o fato. Uma exceção foi imprensa chapa-branca, que, claro, não se culpou, mas recortou no fato o que lhe interessou ou então silenciou, como fizeram algumas pessoas que fosse o prefeito um outro estariam com a jugular tinindo e babando de ódio. Detalhe: silenciar é uma das formas mais contundentes de se pronunciar. Falar sobre outras coisas também. É da política. Bem como defender o mandatário de plantão para defender interesses particulares. Escolhas.

O prefeito ainda foi infeliz no comentário sobre a origem da moça. “É de onde?” “Do Pará!” “Tá explicado…”. E os remendos depois não deram conta do preconceito, que existe circulando por aqui e que Amazonino atualizou em sua fala. Escrevi sobre isso aqui. Muitos preconceituosos defenderam o prefeito, naquela clara transferência de identificação. Muitos prepotentes viram na atitude do prefeito uma vazão de sua própria irritabilidade com o que aquelas pessoas representam e no incômodo que elas trazem. Mas misturar Freud com Amazonino é demais para uma tarde bonita como a de hoje. Deixa quieto.

A outra questão séria que o episódio levantou é a o do crescimento desordenado e, por consequência, do crescimento sem direção da cidade. Manaus incha porque cresce e não desenvolve. A infraestrutura não acompanha. A ocupação de terra é sabidamente, além de um problema social de migração descontrolada, uma questão de profissionalização da ocupação. Líderes profissionais, por assim dizer, grilam, controlam e loteiam áreas na cidade, estimulados pela conivência de políticos populistas, muitos dos quais, fazendo proselitismo político, sentam o pau em invasões. Cinismo conveniente.

Quando estava na secretaria de educação, éramos instados pelo Ministério Público constantemente devido às invasões. Os grupos invadiam e exigiam benfeitorias sociais imediatas como escolas e postos de saúde. Como não se constroem escolas nem postos de saúde em um mês, a confusão era certa, com, muitas vezes, ajuda da falta de razoabilidade do MP, que queria que a prefeitura fosse MacGayver e tirasse leite de pedra. Resolvida a questão, os grupos migravam para outra área de invasão para começar tudo de novo, aumentando os índices de evasão escolar por conta disso. E o MP ia atrás.

Parte do problema se dá pela falta de um Plano Diretor articulado e pelo desinteresse público pela questão. Sem uma grande discussão envolvendo a sociedade civil organizada e o órgãos ligados à questão, estaremos vendo sempre essas tristes cenas de alagamentos e o prefeito, coitado, tendo que se declarar “pai” de Laudenices e de meia Manaus.

Estar nos Trending Topics mundiais do Twitter foi bom por vários motivos. Primeiro, levantou a questão do planejamento urbano, urgente – e o MP poderia dar uma acochada nisso. Depois, evidenciou o quanto uma ação política mal assessorada traz um dano político irreparável. Por fim, mostrou como a imprensa lida com as questões chapa-branca de forma que vai da profissional à movida a jabá. Mas isso é assunto para um outro texto.

Algumas pessoas acharam “engraçada” a cena. Não consigo achar, nem com todo esforço do meu bom humor costumeiro. Morte, miséria, pobreza e insensibilidade continuam sendo assuntos com os quais não sei lidar rindo. Desculpem, vocês que falam ou calam em nome do “pai”. Não consigo ver festa ou graça nisso. E estou com um vergonha tremenda do prefeito da minha cidade. Um quê de enojado e indignado com tudo isso.

Como não sou de desejar morte a ninguém, o prefeito poderia ao menos pedir para sair e ir, sei lá, jogar dominó, já que pedir desculpas à população e aos imigrantes que moram e trabalham nessa terra é  demais para sua vaidade. Passou da dose. Transbordou. Algo foi soterrado com essa história. Fail master. E, claro, aceito discordâncias quanto minha leitura do fato. Aguardo os comentários para saber de onde falam os interlocutores…

Amazonês

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Eis que chegou na editora o meu novo livro, “Amazonês: expressões e termos usados no Amazonas”. Produto de um trabalho acadêmico da época em que fazia doutorado na UNICAMP, o livro sai pela Editora Valer e contém, além do dicionário, um artigo sobre a fala amazonense e uma entrevista realizada por  Moisés Arruda, publicada em seu blog. Em breve estaremos fazendo o lançamento oficial. Conto com a presença de vocês. =)

“A paixão pela ciência se manifesta por meio da paixão pela linguagem. Pela linguagem somos. Pela linguagem damos sentidos ao mundo. Na linguagem podemos nos ver da forma mais verdadeira: nossas cenças, nossos valores, nosso lugar no mundo, enfim. Somos o que aprendemos a ser durante nossa vida e aprendemos a ser via linguagem, no nosso caso a língua portuguesa. É doce ilusão, no entanto, acreditar que a língua portuguesa é única e inteligível por todos os seus falantes”.

Morada do Sol

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Teatro AmazonasManaus faz aniversário. Nasci aqui. Aqui cresci. Só saí daqui para estudar e morrer de saudades. Da tua gente, do teu calor, dos teus peixes, da tua murupi, do teu caos. Não, Manaus, apesar da boca banguela não te abandono como a Cidade Sorriso. Apesar do trânsito infernal, não me perco nos teus caminhos que, certamente, são os meus.

Não, minha nega, não sou daqueles que abre os olhos para apontar para ti mirando tuas cicatrizes, teu cabelo desgrenhado, tua fome de justiça. Porque esses que o fazem por proselitismo, hobby ou qualquer outra razão apontam o dedo para o lugar errado. A minha cidade tem sido vítima, mais do que algoz. A minha cidade tem sofrido desgovernos, desmandos, desabonos, desabrigo por pessoas que num desagravo desacanhadamente desacampam de suas terras, desadornam teus encantos, desacatam tua vergonha e desacorçoam tua gente. A esses, eu  desembainho despiedoso a minha espada. Que não fresquem contigo, maninha, que eu vou pra cima.

Inocente terra, minha terra. Muitos te inventam modas que não te pertencem. Travestem-ti de penas, luzes, brilho, quando tu querias o sossego da tua rede, dos teus igarapés gelados, da sombra das castanheiras que hoje rareiam em ti. Sei que crescer é inevitável. Sei que querer-te criança para sempre é ilusão. Mas que futuro te demos, moça? Que futuro te demos?…

Quero sempre ir no anseio de voltar. Ser aquecido pelo teu sol que renasce mais quente a cada manhã. Receber teu bafo quente no peito em sinal de carinho. Te reverenciar como fazem os dois gigantes das águas, que vêm se encontrar a teus pés em reverência. Quero tomar café na estrada, comer pupunha, tucumã com queijo coalho, tapioca de coco, tomar Guaraná Baré. Quero olhar sem fala teus monumentos, da época em que tu eras a debutante abastada. Teu teatro, teus palácios, tua memória, senhorinha.

Numa rede, numa quarta-feira, quero ler Aníbal Beça, Luiz Bacellar, Alcides Werk, Thiago de Mello, Milton Hatoum, Ernesto Penafort. Quero num sábado à tarde dançar ouvindo Paulinho Kokay, Raízes Cabocla, Pereira, Candinho e Inês, Eliana Printes. Quero olhar para os lados e perder a respiração vendo a arte de Moacir Andrade, Turenko Beça, Otoni Mesquita, Arnaldo Garcez, Berna Andrade.

Minha caboquinha, te agradeço por acolheres nos teus centenários anos as minhas décadas de memória, de saudade, de indignação, de felicidade, de tristezas, de alegrias, de orgulho, de decepção, de participação, de omissão por ti. E te desejo, do fundo do coração baré, maninha, o melhor dos futuros, porque no teu tempo e no teu espaço coloquei para brincar de manja, de barra-bandeira e queimada os meus bens mais preciosos: as minhas duas caboquiras, minhas filhas caboclas/capiriras, que, como o pai, chiam no “S” e gostam demais daqui. Porque, como diz o Aníbal Beça em sua bela poesia, mais do que morar em ti, tu é que moras na gente…

Vai baleiar!

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Provavelmente muita gente não entendeu o título deste texto. Como não entendeu ainda as novas formas de reorganização social que têm surgido por meio dos suportes digitais da Internet.

Duas amostras: a primeira foi quando um grupo de cidadãos formadores de opinião decidiu legitimamente demonstrar sua indignação com a aprovação da taxa do lixo de Manaus. Votada pelos vereadores da cidade, a taxa mobilizou tuiteiros a fazer uma vaquinha para publicar dois outdoors com o nome dos vereadores que votaram a favor do projeto do prefeito Amazonino Mendes. Foram arrecadados R$ 1.400,00.

Alguns vereadores se sentiram ofendidos com o movimento e começaram a pressionar empresas de outdoor a não aceitar o serviço, ameaçando inclusive votar um projeto tipo “cidade limpa”, tirando as concessões de outdoor. As empresas recuaram. Uma vereadora não soube dialogar com a diferença e cometeu twiticídio, não sem antes sair atirando em muitos, por esse e por outros motivos. Triste da cidade em que vereadores sérios têm de fiscalizar vereadores venais, que deveriam fiscalizar o executivo.

O segundo fato, decorrente do primeiro, é a tentativa de intimidação. Uma das coordenadoras da arrecadação da campanha do outdoor foi visitada em seu trabalho por uma equipe de uma rádio, alegadamente a CBN Manaus. A história está aqui: www.oavesso.com.br/omalfazejo. Outros ou estão sendo processados pelo dono da rádio ou já sofreram intimidação em seus locais de trabalho.

Já faz tempo que estudiosos falam da sociedade da informação. Para quem se interessa pelo papo acadêmico, leia Pierre Levy, Manuel Castells ou Adam Schaff. A questão é que alguns sujeitos ainda se comportam como se as relações sociais fossem as mesmas do capitalismo tardio, impermeável à sociedade da informação. Não se deram conta, com suas cabeças cheias de entulho autoritário, que mudou. Antigamente, o poder que silenciava era o bélico, dos exércitos, da baioneta. Silenciava-se na aniquilação física do inimigo. Até recentemente, era o poder econômico. Para calar sobre um assunto, políticos compravam todo o estoque da revistas que o tinha como matéria e resolvida a questão estava. Aniquilava-se pela supressão da informação. Hoje, o poder migrou para a informação. Mais especificamente para a distribuição da informação. Com uma diferença: se antes ela era sólida (tira-se daqui para ali, guarda-se pra sempre), hoje ela é líquida (aperte aqui e ela escorre pelos dedos para aparecer em outro lugar, guarde aqui e ela derrete saindo do depósito para ganhar as ruas). Na sociedade 140 bytes só se aniquila alguém com a superação da informação, ou seja, pelo convencimento com argumentos.

As consequências  desse descompasso de tempos (o de alguns sujeitos e do tempo em que vivem) são políticos que pagam mais de um milhão a seus testas-de-ferro achando que basta esconder a cópia do empenho e da ordem bancária que ninguém saberá. Esquecem que em sua liquidez  a informação vai para os bits públicos, dando real significado ao verbo vazar. Velhos métodos para novos cenários não funcionam. As consequências disso são pretensos coronéis de barranco se transmutando em alferes de mídia, mudando a patente (mas não suas práticas) e crendo piamente que a intimidação de outros tempos têm o mesmo efeito de outrora nessa época de liquidez. Ledo engano.

A liquidez dos suportes digitais tem efeito especular ampliado para práticas pré-digitais. Funciona como espelho. Do jeito que vem volta refletindo amplificadamente na direção do próprio emissor. Se a CBN Manaus fez isso mesmo – e se não fez precisa se manifestar publicamente sobre o fato, pois há testemunhas -, não tem ideia da jaca em que se meteu. Seu pretenso ato, covarde nessa ou em qualquer outra época, reverberará negativamente, ecoando vozes coletivas que convergem em princípios e na concisão dos 140 caracteres do Twitter. O efeito resume-se na frase de uma usuária do Twitter: “Eles jogam a merda no ventilador, a gente faz ela feder”. É por aí.

Acontece que o “feder” a que se refere a tuiteira, porta-vozeando outros indignados, é qualificado. São formadores de opinião que reconhecem o estado de direito. Pessoas devidamente letradas como cidadãos ativos que não trocam suas opiniões por dentaduras, promessas de carreta de internet ou afins. São sujeitos de seu tempo, que transitam na liquidez da informação com desenvoltura, águas essas, diga-se de passagem, em que muitos dos mimeógrafo-boys ou CDD-girls quando se metem só tomam caldo, pagando peitinhos ou se arranhando todo nos cachotes dessas ondas, se é que entendem a metáfora.

Já está no ar a campanha #ToNaFilaCBN. Por meio desse hashtag, a bela ironia de que se é para intimidar vai ter que agendar as visitas aos locais de trabalho de muita gente. Aliás, o meu é na UFAM, ICHL, Departamento de Línguas e Literaturas Estrangeiras. Só que estou de férias. Só volto dia 18. Nem precisa agendar. Estou de férias do trabalho, diga-se. Ligado na internet, no Twitter, na informação. Não tem como desligar. Ela vem até nós.

Solidarizo-me com a Bianca Abinader, a vítima dessa covardia imbecil. Porque só um imbecil para achar que algodão enxuga gelo. E não tenho a menor dúvida de que vai baleiar para eles. Duvido até que eles saibam o que ébaleiar, o que é hashtag ou o que é fake. #biafacts #carapintadafeelings. Enter.

Não sabe brincar? Não desce pro play!

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Já não é a primeira vez que uma pessoa pública sai do Twitter por estar descontente com os comentários que lê por lá. Como acompanhei a mais recente contenda ao vivo, resolvi pensar um pouco sobre o jogo de linguagem que acontece no Twitter. Tratou-se da saída da vereadora de Manaus, Mirtes Salles, depois de ver um tweet pornográfico postado por um vírus ser repercutido à exaustão pelos usuários do serviço. Quem não viu, aqui no site do Não, Senhor! tem um resumo.

Como qualquer lugar onde circula um grupo, o Twitter tem suas regras de linguagem. Quem não entra nessa ordem de discurso vira marginal, no sentido de ir para as margens do grupo, isso quando não é levado a cruzar a linha da exclusão mesmo, chegando até mesmo ao twiticídio. E quais seriam essas regras não escritas?

Ainda que careça de mais estudo, arriscaria dizer que o Twitter tem quatro regras básicas.

A primeira delas: o “sabe com quem está falando?” não funciona. Aliás, funciona inversamente. Basta um figurão se meter a besta para todos caírem matando. É como se os usuários lembrassem a ele que fora dali ele pode ter fama, dinheiro ou prestígio, mas que ali ele tem 140 caracteres como todo mundo. E se não souber usar com concisão piora tudo. Aliás, regra de ouro da linguagem: vista a roupa do ambiente. Querer ser sujeito de linguagem em lugares com relações assimétricas é pedir para ser considerado um transgressor. Experimente proferir um palavrão numa reunião de negócios ou corrigir o português de seus amigos de bar. É por aí. Encontrar o balanço da linguagem de um grupo é uma das características de uma pessoa fluente numa língua.

Regra número dois: No Twitter, bom humor é fundamental. Ninguém aguenta um chato rabugento, a não ser que isso faça parte do role que a pessoa construiu, como o @Cardoso, por exemplo. Por isso, é fundamental rir. E mais importante: desenvolver a capacidade de rir de si mesmo. Se a vereadora risse de seu tweet pornográfico e escrevesse algo como: “Ei, acho o Marcelo Ramos hackeou meu Twitter! Hahaha! Que diabo é isso! Alguém aí me ajuda!” talvez ela ainda estivesse usando o serviço para divulgar seus atos parlamentares, além de provavelmente ter conquistado a solidariedade alheia. Porque no Twitter a solidariedade vem com empatia.

Essa é a regra número três: as pessoas entram no Twitter basicamente para diversão e informação. Eventualmente se adere ao serviço para apreciar questões profissionais mais sérias. Interação é fundamental nesse jogo lúdico. Tweet bom é tweet que nos faz ficar leves, sorrir, aquele com que se ganha algo, aquele que dá vontade de retuitar. Responder tweets diretos aumenta o seu valor social no grupo que lhe segue. Não responder leva fatalmente a unfollow, mais cedo ou mais tarde. A regra é: o que eu tenho para oferecer a quem me lê? Se não tiver nada além do “Bom dia!”, como a @SandyLeah, você se limitará a seguidores inerciais, aqueles que lhe seguem porque você é famoso. Ah, você não é famoso? Bom, então ficará sem followers. Volte para o Orkut.

A quarta regra é a variedade. É preciso variar seus tweets. Tweets sempre na mesma esfera cronotópica (o mesmo campo, o mesmo assunto, as mesmas coisas, o mesmo tema) cansam. Seja sério (com humor), ria, informe, divirja propositivamente, tire sarro e saiba ser tirado. Mas evite  fazer somente uma dessas coisas o tempo todo. Ninguém aguenta monotemáticos. Nem no Twitter nem em canto nenhum do mundo.

O @realwbonner sacou as regras rapidamente e virou sucesso. Xuxa e Ronaldo Tiradentes não entraram no jogo. A Mirtes não soube rir de si e foi infeliz ao escolher uma das comentadoras mais agudas do Twitter manauara para responder de forma prepotente. Deu no que deu.

O bom usuário Twitter é o que consegue transitar nessas regras. Pode checar. Falhou numa delas, grandes são as chances de você ganhar uma hashtag. Deve haver outras regras discursivas. Quando voltar de férias, vou pesquisar mais sobre isso. Por enquanto, ficam essas.

Na linguagem, como na vida, a gente tem de aprender as regras do jogo. Até para piar tem regras. E aí, quem não sabe brincar que não desça pro play. Não é, @bia_abinader?

Palavras viúvas

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Para o Aníbal Beça, com poesia.

Aníbal Beça, marido das palavras...Tenho que me acostumar com o inacostumável. Dia 06 de setembro faço 41 anos. Terei, cada vez com mais frequência, a notícia de que alguém se foi. A morte é a única certeza do futuro. Por isso assusta, desafia, inquieta e nos desconforta.

Hoje se foi o Aníbal. Sempre gostei da poesia de Aníbal. Desde quando a conheci, nos anos oitenta, em uma aula de literatura amazonense na faculdade. Depois, nesses ziguezagues da vida, convivi profissionalmente com o ele quando ele foi Presidente do Conselho de Cultura da Prefeitura de Manaus, na época em que Manaus era mais feliz. O Conselho era ligado à Secretaria de Educação, da qual eu era subsecretário. Vez por outra me reunia com o poeta para tratar de coisas burocráticas. Ou nem tanto. Suas conversas de poeta desburocratizavam a vida, paralisavam o dia, me anestesiavam do corporativismo sufocante da classe. Gordo daquele jeito, Aníbal era de uma leveza…

A admiração pelo escritor, que ganhou vida concreta nessa breve convivência, virou respeito mútuo e um carinho gratuito. Sem muita razão para lhe dar – ele, ao contrário, deu-me sua poesia –, o poeta gostou de mim, gratuitamente, como fazem os poetas. Encontrávamo-nos por aí e sempre com muito afeto nos cumprimentávamos. Passei a receber seus belos poemas como scraps no Orkut, pelo seu perfil hoje cheio de justas saudades. Também os recebia por e-mail. Um deles me tocou sobremaneira. Chamava-se “A primeira falta”. Ela escrevera para sua mãe, dona Clarice, que havia partido. “Colher de pau/Solitária na parede/Onde os doces da mãe?”

A gratuidade do afeto fez com que um dia me ligasse, pedindo meu endereço para me mandar seus livros. Foi em dezembro de 2008. Fiquei envaidecido pela deferência do maior poeta amazonense, para mim sem controvérsias. Recebi os livros com as dedicatórias, cada uma aproveitando o título do livro: “Para o Sérgio Freire, uma incursão à arte oriental pelas Folhas da Selva”, “Para Sérgio Freire, estes 50 poemas escolhidos pelo autor” e “Sérgio querido, eis aqui a Palavra Parelha e outros poemas”. Todos com um desejo também de um “Natal Feliz”. Em outro encontro, sugeriu-me que resenhasse os livros em minha coluna de jornal. Nunca o fiz porque quem sou eu para falar da poesia de Aníbal Beça como crítico? Falo como leitor. Falo com sujeito de linguagem tocado pela sua sensibilidade. “Anúncio” é uma obra-prima: “Há um desejo que me faz cantor/ Há uma paixão saída da sua cor/ Há um amor na contramão da dor”.

Nos “50 poemas escolhidos”, Aníbal abre o livro dizendo “Passei a vida inteira com as palavras. Casado com elas”. É isso. Hoje elas ficaram viúvas. Aproveite os doces da mãe, amigo. Porque “há um amor na contramão da dor” que egoisticamente os que ficam sentem. E também “há uma paixão saída da sua cor”.  Ah, dá licença, poeta… Deixa eu me enxirir para falar da minha tristeza: “Caneta e papel/ Solitários sobre a mesa/ Onde os versos do Aníbal?”…

61a SBPC

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Acesse aqui o artigo que usei como base para a mesa sobre cultura na 61a SBPC. Em formato PDF.

A Feira de livro e o bola murcha

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Estou escrevendo de Ribeirão Preto. Estou aqui a convite da Fundação Feira do Livro participando da 9ª FeiraCafé Filosófico na 9a. Feira do Livro, em Ribeirão Preto. Sérgio Freire. Nacional do Livro. Na segunda-feira, fui o palestrante convidado de um café filosófico, falando sobre o que sei e gosto: linguagem. Foi excelente, como no ano passado, quando estive aqui pela primeira vez.

A Feira, a segunda maior a céu aberto do Brasil, começou no dia 18 e vai até 28 de junho. Em dez dias estão programados mais de 600 eventos gratuitos, abrangendo literatura e manifestações artísticas. Há mais de 100 escritores da literatura nacional e internacional que participaram e participarão de palestras e debates. São nomes como Milton Hatoum, Carlos Heitor Cony, Fernando Morais, Thiago de Melo, Moacyr Scliar, Márcio Souza, Eliane Brum, entre tantos outros. Há mais de 60 apresentações musicais, com grandes nomes da MPB e apresentação da Orquestra Sinfônica de Ribeirão Preto, além de shows dos chilenos Tita Parra e Antar Parra e de Adriana Calcanhotto, João Bosco, Jorge Vercilo, Lenine, Luiz Melodia, Maria Rita, Oswaldo Montenegro, Paula Toller, Paulinho da Viola, Toquinho, MPB4 e Vanessa da Mata.

A cada ano, a Feira homenageia um país, um estado e uma personalidade. Este ano foram o Chile, o Amazonas e Cora Coralina. E aqui entra um misto de alegria, de espanto e de indignação.

A alegria vem pela escolha do Amazonas como Estado homenageado. Ela se estende porque represento meu Estado junto com Márcio Souza, Thiago de Melo e Milton Hatoum, grandes nomes da literatura da minha terra. O espanto se dá por ter constatado, para um Estado homenageado com uma cultura artística e literária rica, a ausência dessa riqueza. Onde está nossa música? Por que somente nós quatro? Ressalte-se a presença da Editora Valer, disseminando a publicação regional. A indignação emerge por saber que a ausência do Estado não se deu por causa da organização da Feira, mas por vaidade de quem gere a cultura no Amazonas.

A Feira enviou um emissário a Manaus para articular a presença do Estado no evento, com público de mais de 400 mil pessoas. Foram 21 dias em Manaus tentando falar com quem decide. No Município, a secretária de cultura marcou e furou, deixando o representante esperando. No Estado, os ofícios da Fundação foram solenemente ignorados pelo Secretário que, estou começando a desconfiar, tem bronca com livros. Sua vaidade não permite que uma feira de livro aconteça em Manaus. Razão: numa feira de livro quem brilha são os autores e não quem organiza, como num Festival de Ópera ou de Cinema, quando holofotes se voltam para sua figura de black-tie. E não é falta de competência. Quando ele quer, a coisa sai bonita. Quando ele não quer, no entanto, ignora o potencial de retorno estratégico e turístico que um evento como esse tem, deixando de fazer seu papel institucional.

Fico pensando nessa vaidade toda em época de copa do mundo. Ou alguém convida o secretário para dar o pontapé inicial no primeiro jogo em Manaus ou não sei não. Fica aqui a indignação dirigida ao governador Eduardo Braga, para quem a imagem externa do Amazonas parece ter algum valor. Já que falamos em futebol, pisaram na bola, Governador. E feio. E o secretário é o bola murcha do ano.

O peixe não vê a água

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O peixe, de MiróHá textos que lemos que passam batidos. Há outros que nos inquietam. Ou porque falam diretamente sobre questões que nos são caras demais ou porque falam demais sobre questões que nos são muito diretas. A linha entre um texto que merece ser ignorado e um que merece ser comentado é tênue. Esse preâmbulo é para dizer que decidi comentar um texto de Márcio Souza, publicado em um jornal de Manaus, apesar do apelo para ignorá-lo.

Márcio descobriu que vivemos uma nova era. Deixamos a era da leseira baré pela era da idiotia baré. Caracteriza esse momento como o tempo da “glorificação da ignorância em detrimento da inteligência”, da troca do “diálogo civilizado” pela violência. Lamenta que Manaus tenha se tornado uma “cidade de simplórios” que elegem apresentadores de programas de TV “hidrófobos”. Critica ainda as reações locais à posição de Carlos Minc quanto à agenda politiqueira de Alfredo Nascimento sobre a BR319, lamentando as “bravatas provincianas e insultos preconceituosos”, expressão do “raciocínio indigente”, “do mais baixo oportunismo” e de um “deslavado fisiologismo político” que ignora o mérito da questão. Finaliza dizendo que o idiota baré toma como “axiomáticas as idéias de que alpinismo social, privatização da coisa pública e aparelhamento do estado são reflexo de alto realismo político”. É sua tese.

Para justificar a argumentação, de forma pouco inteligente para quem tem um percurso literário como o seu, Márcio troca o diálogo civilizado por agressões violentas contra o atual reitor e contra a futura reitora da Ufam. Critica a lentidão da resposta institucional quanto à agressão sofrida pelo professor Gilson Monteiro e o silêncio da reitora eleita – com o que concordo e sobre o que já escrevi alhures – , mas o faz por vias simplórias da desqualificação acadêmica, usando insultos hidrófobos e fugindo do mérito. Cai no caminho fácil das bravatas provincianas e no raciocínio indigente do “ad hominem” ao julgar o comportamento da reitora eleita por sua tese “ininteligível [para ele] onde (sic) excreta erudição mal digerida”. E sentencia: “A Universidade do Amazonas já foi lugar de argumentação erudita e busca pelo saber”. Quando? Quando era “grupo escolar”, rótulo atribuído ao próprio escritor? Estou na Ufam e ela está em mim. Foi aí que cruzei a linha tênue entre ignorar ou comentar. Queria que o escritor respeitasse o meu trabalho porque respeito o seu.

É complicado falar em alpinismo social quando se faz autopromoção à custa do desrespeito profissional. É estranho falar criticamente em privatização da coisa pública quando se tenta vender apresentações teatrais para o município a preço de ouro, num ato que eu e “aqueles que aprenderam a separar o joio do trigo” lemos como fisiologismo político. Mais Márcio: “A diferença entre a leseira baré e a idiotia baré [é a de que] o leso toma a incredulidade como um bem absoluto e com isso é capaz de resistir. Já o idiota baré, este é fruto dos conflitos entre o conhecimento intelectual e o mais baixo oportunismo, do rigor ético com o mais deslavado fisiologismo político”. Concordo. Não deu para ficar quieto. Ficar quieto é coisa de quem não canta. Eu canto.

PS: Márcio e eu estaremos na Feira do Livro de Ribeirão Preto. Quarta eu comento a Feira.