Marina

Catando conchas

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Em 1977, meu pai nos levou, meu irmão mais velho e eu, para férias no Rio de Janeiro. Eram tempos bicudos. Ficamos em casa de parentes para economizar. Eu tinha nove anos quando vi o mar pela primeira vez. Eu, um ser dos rios, nunca esqueci a primeira vez que meus olhos me viram no reflexo das ondas. Senti vontade de pedir para meu pai e para meu irmão para me ajudar a olhar aquele mar, de tão grande.

Minha diversão naquelas férias foi recolher conchas do mar. No primeiro dia, recolhi conchas dos mais variados tipos, cores e tamanhos. Lindas. Eram as conchas a materialização do meu primeiro contato com o mar, as lembranças vivas de que eu estivera ali. Enchi um saco plástico enorme com elas.

À noite, um fedor fenomenal tomava conta da casa da Tia Ernestina, nossa anfitriã.  Consternado, tive de jogar fora minha primeira coleta de conchas selecionadas. Foi quando aprendi que quando se retira algo do mar, como as conchas, devemos lavar com água doce. Jamais esqueci. Colecionei conchas naquele verão. Devidamente lavadas e processadas. E elas vieram comigo para Manaus e fizeram o maior sucesso com meus colegas da 4a série da Professora Polari.

Hoje, minha filha Clara foi para praia com um propósito: recolher conchas. O tempo voltou num túnel de lembranças para aquele Rio de 1977. Fui com ela da areia da barraca à areia da praia, onde as ondas lambiam o chão, trazendo e levando conchas, num jogo de manja-pega pensado por Deus para divertir pais e filhos. No caminho para o mar, lembrei-me da criança de nove anos. Molhei o rosto para misturar às lagrimas a água do mar, ambas salgadas. Recolhemos, Clara e eu, conchas dos mais variados tipos, cores e tamanhos. Lindas. A cada concha um sorriso de uma conquista e uma exclamação: “- Olha, pai! Que linda essa!”

Brincamos no mar por um bom tempo. Tanto Clara quanto Marina perdendo o medo de se soltar e enfrentar sozinhas o vai e vem das águas do Guarujá. Entre um caldo e outro, um choro, depois sorriso, entremeados. Clara não dava o braço a torcer: “- Tranquilo, pai! É só água!”, dizia passando a mão no rosto. Marina, tão mais atirada na vida, respeitou o mar com mais reverência. “- Só vou se você for comigo!” A vida requer estilos diferentes para momentos diferentes. Achei digno.

O que isso tudo significa na metáfora da vida?

Minhas filhas vão explorar terrenos novos, vão levar caldos e cair, beber água, tossir e levantar. Vão seguir em frente, tentando não sentir a queda. Por um bom tempo – queira Deus que um bem longo -, eu estarei lá para lhes segurar as mãozinhas confiante no pai. Mas vai chegar um dia em que elas vão ter de pisar no mar da vida sozinhas, sem mãos para lhes dar apoio e suporte. Vai chegar um tempo em que minhas meninas vão tomar seus rumos e decidir se vão querer ficar na areia ou ir embora para o oceano vasto do mundo. Vai chegar um dia em que elas catarão conchinhas em areias que seu pai sequer sonhou em pisar.

É o ciclo da vida. É assim. Mas não deixa de me angustiar. Todo pai e toda mãe queria, se pudesse, carregar seus filhos no colo para sempre. Mente vergonhosamente quem diz que não. De vez em quando, se me conheço, tomarei minhas filhas pela mão e lhes convidarei a buscar conchas num passeio a dois. Mesmo quando forem grandes e tiverem suas famílias. Será o nosso tempo de reviver nossos encontros do hoje presente. E, tenho certeza, acharemos conchas dos mais variados tipos, cores e tamanhos. Lindas. E as lavaremos com água doce para lhes tirar o excesso de sal. Não é assim que devemos fazer com a vida?

Hoje Clara aprendeu que é preciso que a gente faça a nossa parte para as coisas saírem como planejadas. Ela já separou as conchas para levar. Farão um sucesso incrível com a turma do 3o Período. E lá na frente, quando ela estiver catando conchas com seus filhos, o vento soprará a nossa viagem ao Guarujá em sua memória. E ela, junto com os filhos, achará conchas dos mais variados tipos, cores e tamanhos. Lindas. E lembrará a eles que é preciso lavá-las para levá-las. Mas que, acima de tudo, é preciso catar conchas com os filhos.

Marina

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Hoje é o aniversário da minha caçula, Marina.

Temos, Bia e eu, duas filhas. A mais velha é a Ana Clara, que acabou de fazer aniversário bem no Dia dos Namorados. Clara foi muito desejada e esperada. Teve a ajuda da ciência em uma inseminação artificial em que tudo deu certo de primeira. Soubemos da Marina quando Ana Clara tinha apenas três meses. Diferente de Clara, Marina veio por conta própria. Quando nos tocamos, ela já estava na porta de nossas vidas com as malas na mão, olhos do gato do Shrek, dizendo “cheguei!”. O susto de sua chegada foi logo absorvido pela alegria de mais uma vida a fazer diferença na nossa. Se com uma criança era lindo demais, com duas seria lindo em dobro. E é, apesar de todo trabalho e preocupações que um filho traz a qualquer família.

Marina é o tipo de pessoinha que quando chega brilha o ambiente. Seu sorriso largo, fácil e frouxo espanta a sisudez da vida. Seu carinho gratuito, que nada pede de volta, sinaliza que sua alma é leve e brincante. Sua alegria como estilo de vida nos diz todo dia que ela foi escolhida a dedo por Deus entre os anjos que são feitos especificamente para alimentar a alegria do mundo. Seus olhos graúdos sorriem diretamente para a alma de quem os fita. Faz cócegas em nosso pensamento. Sua memória prodigiosa nos surpreende a cada dia num mundo em que, em tempos de Google, a memória passou a ser um item secundário. Ontem ela perguntou: “Pai, já é dia 2?”. “”- Ainda não. Por que, filha?” “Porque dia 2 estreia Shrek”. Ela tinha visto a informação no trailer quando fomos assistir a Toy Story. Detalhes, Marina é dos detalhes. Presta uma atenção silenciosa no mundo como ninguém.

Quando estamos os quatros deitados juntos na cama, no sofá ou no chão das brincadeiras, Marina sempre nos envolve com um abraço com o alcance que seus bracinhos permitem e grita, anunciando ao mundo: “FAMÍLIA!”. Marina é muito família. Sensível, preenche os espaços em branco. Se peço um beijo de Clara, que tem jeitos e tempos diferentes de mostrar carinho, e não recebo, logo chega um beijo de Marina, voando, como se sentindo obrigada a cumprir a tarefa a ela designada de trazer a alegria e a serenidade ao mundo. Marina é, com seus quatro aninhos, a pessoa mais solidária que conheço. Abre mão fácil do que é seu para ver o outro feliz. É dela. Assim, fácil.

Escrevo sobre a minha filha e dos meus olhos minam lágrimas silenciosas, poucas e densas, querendo transbordar. Porque sempre me quis pai, mas nunca imaginei como seria tão bom ser pai. A alegria que me dá, isso vai sem eu dizer. Mas também nunca imaginei como ser pai seria tão vulnerável. Minhas filhas são minha vulnerabilidade eterna.   Com elas aprendi a cuidar mais de mim e melhor do mundo. Com elas aprendi um novo tipo de amor que só vivencia quem é pai ou mãe. Com elas eu reaprendi a rezar.

Parei. Não saem mais letras, só lágrimas. Marina, minha filha, você é bonita com que Deus lhe deu. Termino trazendo a frase com que minha mãe sempre acordava a gente nos nossos aniversários naqueles tempos de mansidão da infância: “Eu te amo, minha criança. Deus te abençoe, te mantenha sempre assim e te faça feliz”. Na verdade, ela ainda faz isso com suas “crianças” até hoje. Como eu quero fazer até o dia em que não puder mais, Marina morena…

Constatação

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Ontem, olhando para minha filha mais velha, Clara, vi a menina rosa de Renoir, em “As Meninas Cahen d’Anvers”.

Esse post é só pra dizer que nenhum problema do mundo, nenhum mesmo, é tão grande quando eu olho e vejo que tenho uma família feliz. Fica tudo miudinho.

Um mundo propositivo

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Este texto foi escrito em 27 de junho de 2007 e publicado no jornal EM TEMPO. No dia em que Marina, minha caçula, nasceu.

Cada dia ficamos mais estarrecidos ao abrir jornais pela manhã ou escolher um canal de televisão. Barbáries, crimes sociais e ambientais, roubos de recursos públicos, um denuncismo de cunho político que não visa o bem comum e sim projetos pessoais. Um mundo, enfim, cada vez menos convidativo para nele se viver.

Estive pensando nisso. Falar em futuro da humanidade tem sentidos diferentes para quem tem e para quem não tem filhos. Nos caminhos do pensamento que olhava ao longe da janela do meu apartamento o pôr-do-sol , percebi que não há escuro sem claro, que para haver música, o silêncio se faz necessário. Há sempre o outro lado.

Se por um lado há políticos que se vendem como guardiães da moral e, cínicos, superfaturam obras ou compras, retirando um dinheiro que iria para escolas de crianças, por outro há políticos sérios, comprometidos, que perdem amizades para não perder a decência e os princípios. Se há escolas públicas caindo aos pedaços, como a imprensa gosta de mostrar, há escolas públicas novas, cheias de projetos pedagógicos, formando os alunos que delas necessitam, com professores comprometidos, que não fazem das dificuldades cotidianas racionalizações para o descompromisso.

Se há bárbaros que matam e assustam a sociedade, há pessoas boas que encantam porque cuidam voluntariamente dos que precisam, fazendo do seu gesto gratuito sua alegria de viver. Se há dores, há sorrisos. Se há fome de justiça, há banquetes de gente bem intencionada que não desanima. Se há os nauseabundos programas vespertinos para promover políticos e pretensos nos canais locais de televisão, há uma TV Cultura para alimentar a imaginação da criança que precisa da fantasia para ser normal. Se há Calypso, há Zeca Baleiro. Se há Paulo Coelho, há Guimarães Rosa.

O problema de nosso mundo velho sem porteira é a direção. Grosso modo, não estamos indo. Estamos sempre reagindo. Um mundo reativo é um mundo ruim. Quem reage abre mão da sua direção, deixando que outros a determinem.  Um mundo reativo é um lugar do sobressalto, do medo, da ansiedade. É um mundo do band-aid na ferida profunda, fingindo acabar com um problema que só se enraíza num cancro fatal. Um mundo reativo é um mundo enclausurado na incerteza que nos espera na próxima esquina. É um mundo desconfiado.

Mas podemos mudar a direção do olhar. Em vez de reagir, podemos agir. Um mundo de ação é o mundo da solidariedade, da vida em sociedade de verdade. Um mundo da ação é um mundo que não espera, propõe. É um mundo que entende o valor da profilaxia social, evitando as mazelas sociais, essas mesmas mazelas que hoje, porque não termos cuidado antes, temos que combater a um preço muito alto. Dor, medo, angústia, ansiedade, violência não combinam com esse mundo. As suas palavras são sorriso, ação, alegria, certeza e paz.

Eu fiz uma experiência durante a semana que passou. Fixei meu olhar no mundo e nas pessoas propositivas e ignorei solenemente o mundo reativo e as pessoas negativas. Eu te digo, leitor, que foi uma experiência muito gratificante. Descobri que existe um mundo fora da mídia azeda que é melhor do que o que nos vendem, feito de gente do bem, de coração grande, que se interessa genuinamente pelo lado bom da vida e pelas outras pessoas.

É esse mundo propositivo que eu quero para a Marina, que nasce hoje. Seja bem-vinda, minha filha. Papai vai continuar lutando por esse mundo propositivo. Porque viver ainda vale a pena.

A descoberta do mundo

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De repente bateu um desespero manso. Como quase todos os dias, levantei com o dia raiando para fazer as mamadeiras das minhas duas filhas. Ana Clara, três anos, sete porções de leite para uma de Sustagen Baunilha em 210 ml de água. Marina, dois anos, cinco de leite para uma de Sustagen Chocolate em 150 ml.

Uma gosta de baunilha, a outra prefere chocolate. A primeira é na dela, vem quando quer. Gênio forte que às vezes irrita. A mais nova é na dos outros, abraça de graça, de bem com o mundo. Clara adora flores, tem espírito de Cirque du Soleil, vive pulando, dando cambalhotas, se pendurando nas minhas costas. Marina gosta de chocolate – qualquer um a qualquer momento – e é uma Forrest Gump, sempre com uma história para contar. Ambas com uma sacação acima da média. E uma beleza de fazer o sol sorrir e a lua corar.

Podem dizer que falo isso porque quem tem filho feio é coruja. Desculpem, mas não sou eu quem diz. Só reproduzo o que dizem, com um orgulho danado de ter feito, em co-autoria, dois belos exemplares da espécie humana. Belas por dentro e por fora minhas meninas.

Mas como disse no começo do texto: de repente bateu um desespero manso. Depois de colocar as mamadeiras em suas mãos e de elas as pegarem automaticamente durante o sono, tentei voltar para dormir, mas não consegui. Porque comecei a pensar sobre a celeridade do mundo.

Minhas filhas nasceram um dia desses e já estão andando, falando, escolhendo o sabor do Sustagen. Minhas filhas já têm personalidades, opiniões, desejos, preferências, medos, projetos. Minhas filhas, nessa infância linda, já contra-argumentam, já discutem, já me deixam sem resposta.

Quando foi que isso aconteceu? Quando foi que elas deixaram de ser aqueles dois serezinhos que eu fazia ninar com as mesmas músicas que a minha mãe me fazia dormir, há quarenta anos? Quando é que minhas bonecas deixaram de depender dos meus braços para ir e vir? Quando é que deixaram de usar fraldas e passaram a ir sozinhas ao banheiro e a pedir o “papel-higiene”?

Meu desespero manso é por me dar conta de que eu estou perdendo os detalhes de suas vidas. Sei que é exagero, que ninguém pode ficar 24 horas por dia do lado de alguém. Nem saudável isso é. Filhos precisam de espaço para andar e ampliar seus limites, para escorregar, cair e levantar. A vida é assim. Mas amor de pai foge à racionalidade e me deu desespero por não acompanhar cada palavra proferida, por não ler cada olhar, por não filmar cada movimento, por não estar presente em cada descoberta do mundo.

Ser pai ou mãe é desesperador, se você pensar um pouco. Quando temos filhos, ficamos vulneráveis para sempre. Não podemos, como gostaríamos, resolver todas as dores, tristezas, dúvidas e angústias de nossos filhos. No mais das vezes, não podemos consertar suas notas fora de tom no concerto de suas vidas. Como pais, fazemos o melhor que podemos, mas o melhor não é o suficiente na cabeça de um pai ou uma mãe que ama. Sempre estamos aquém. Sempre há a sensação de estar deixando algo incompleto. Porque é isso mesmo: há uma incompletude no papel de pai ou mãe. Continuo achando que o único defeito de Deus é não deixar que possamos transferir os sofrimentos de filhos para nós, pais.

Mas é no espaço aonde não chegam os pais que os filhos surgem. E surgem nas suas especificidades, moldando suas personalidades, abrindo as porteiras do seu mundo por conta própria. Sei que meu desespero é injustificável porque é mais instintivo do que pedagógico. Elas estão crescendo, estão na escola. Daqui a pouco conhecem o amor com suas cores, sabores e dores. Daqui a pouco escolhem uma profissão. Daqui a pouco casam e nos dão netos, os filhos com açúcar, como diz minha mãe. E vou – de novo – confiar em minha mãe, apesar de desconfiar de que não há nada mais doce do que filhos. Quando ela disse que não havia amor maior do que de pai para filho, eu desconfiei. Até ter filhos. Tenho dito aqui e acolá que é o amor que sentimos por filhos é um amor tão grande e tão diferente que deveria ter um substantivo específico para se referir a ele. Amor com adjetivos não serve para filhos.

E um dia eu vou embora. E a mãe vai embora. E elas vão ficar. Meu Deus! Desespero de novo! Quem vai lhes dar colo quando precisarem? A quem elas virão perguntar tudo, como fazem hoje, considerando esse pai babão o mais sábio dos oráculos? Não! Não quero ir. Mas sei que vou. É o ciclo. Contudo, vou, de onde estiver, como uma estrela, ficar brilhando a iluminar os caminhos de cada uma das minhas meninas aqui embaixo. Zelando pelos seus caminhos. Soprando nos seus ouvidos em suas dúvidas. Falando-lhes por sonhos. Beijando-lhes as faces a cada adormecer.

Escrevo chorando. Lágrimas caem comportadas e salgadas em direção aos meus lábios. Lábios que ainda vão beijar muito os pescoços de minhas filhas. Lábios que vão lhes contar alguns truques para não sofrer tanto nesse mundo feito para adultos e não para crianças. Lábios que não cansam de perguntar “sabia que eu te amo?”

Hoje vou passar o dia inteiro colado nas minhas filhas. Registrar cada sorriso, responder a cada pergunta olhando em seus olhos. Sentar no chão para desenhar com o lápis de cor suas ideias, suas flores, seus coelhos, suas histórias. Hoje vou dar comidinha na boca de cada uma delas, aeroportos lindos para colheres-aviãozinhos. Hoje vou desligar o DVD e contar histórias, cantar-lhes “Alecrim dourado” até que caiam no sono. Não há cena que pinte a serenidade como a de filhos dormindo.

Preciso cuidar desse meu desespero. Preciso cheirar mais minhas filhas. Enquanto eu posso. Sempre que puder. Preciso cuidar do meu desespero porque preciso de calma para não errar: para a Ana Clara, sete de leite para uma de Sustagen Baunilha em 210 ml de água. Para a Marina, cinco de leite para uma de Sustagen Chocolate em 150 ml. E desde ontem a Marina só quer a mamadeira da Moranguinho e a Clara a dos bichinhos do fundo do mar. Estão crescendo, minhas meninas. Elas serão sempre “as meninas”. Porque não importa a idade, estamos sempre descobrindo o mundo.  Não é, mãe? Não é, pai?

Marina, a caçula…

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Minha filhota caçula dançando a abertura de Caminho das Índias… Habe Baba!!!

A cintilante linguagem das crianças

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Fomos ao Studio 5 ontem, onde havíamos ido para ver aula de natação na Academia Athletica  para as pequenas. Ao sair do carro, um alarme de um carro ao lado disparou e a Marina, 1 ano e nove meses, no meu colo, disparou também, apontando para o carro:

– Bê, tá barulhando!

Detalhe: Bê sou eu, que é como a mãe dela me chama. O jogo da linguagem é fascinante. O fato continua barulhando na minha cabeça.

Carnaval de pai

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Carnaval na UnimedUma fantasiada de joaninha. A outra de sapinho. A mãe cuidou de tudo para que o carnaval das meninas fosse show de bola. Comprou confete, serpentina e maquiagem. Preparou-lhes o espírito para o carnaval, de que tanto gosta e que tantas memórias lhe traz da época das baladas.

Tudo pronto para o baile infantil. Só faltou um detalhe: qual baile infantil? Perguntei à minha mulher aonde iríamos e ela disse que não tinha a menor ideia . Quatro foliões em busca de um baile, como os “Seis personagens em busca de um autor”, de Pirandello. O papai tinha de dar um jeito. Seria inadmissível um sapo e uma joaninha passarem o carnaval vendo Discovery Kids. Fomos para a casa da vovó, montamos o nosso QG e começamos a odisseia.

Primeiro liguei para o Tropical Hotel, pois sempre há baile infantil lá. Por R$35 reais a cabeça, comecei a gostar da hipótese da Discovery. Na verdade, de início, queria estabelecer no imaginário de minhas filhas que carnaval é época de descanso, para ficar em casa. Se começasse a trabalhar isso cedo talvez me livrasse da dor de cotovelo que os pais ficam quando suas filhas se entregam às folias momescas.  Mas meu estilo prafentex – que se nota pelo uso de prafrentex – e a autoridade da Bia sobre minhas decisões me convenceram que elas não podem ignorar a cultura brasileira. Mas R$ 140 nem pensar.

Plano dois: levar as meninas ao SESC. Ligamos para minha cunhada e para meu irmão, que têm filhos que regulam com os nossos, e descobrimos que a festa infantil havia sido no dia anterior. Meu irmão foi e não avisou, o traíra. R$ 140 dá cinco livros. Não.

Alternativa três: uma mãezinha da escola das meninas, que é médica, havia falado sobre o carnaval da Unimed. Tudo bem que é uma festa para os cooperados e ser analista do discurso não me credencia a ter CRM. Mas eu disse, convicto: vamos à Unimed! Com o pensamento firme em Pollyana, lembrei que o papai aqui furou várias vezes o black-tie do Rio Negro, tradicional festa de Manaus. Ao dar os retoques finais, a mãe descobre que as sapatilhas ficaram em casa. Quem vai buscar?

De volta e tudo pronto, demos tchau para o vovô e para a vovó e zarpamos. No carro, a pergunta: onde é o clube da Unimed? Silêncio. Não sabíamos. Quer dizer, eu tinha uma vaga lembrança porque há muitos anos havia ido lá almoçar no restaurante da Cida, uma prima. Mas põe tempo nisso. Meus neurônios fizeram um viradão e encontramos a festa.

A ideia era que se tentassem nos barrar nós usaríamos o nome de um tio meu, médico, casado com uma tia professora da Ufam, como eu, e engajada na campanha da Márcia Perales para reitora, como eu. Ia dizer a ela: “Ou o tio Ivan coloca a gente pra dentro ou vou fazer campanha para aquele outro candidato faraônico”. Ela ia topar. Mas não precisou. Entramos na boa e ainda recebemos dois saquinhos com confetes, serpentinas e colares havaianos.

As meninas se divertiram muito. Eu passei uma hora na fila do refri, encontrei todos os 75 irmãos da Cida lá, além de uns coleguinhas de escola das meninas com suas mãezinhas. Bati muitas fotos, como de praxe. Botamos o bloco na rua. Só teria sido melhor se a Unimed tivesse distribuído uns refrigerantes. Falta de consideração com os convidados.

Primeiro dia de aula

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[Hoje foi o primeiro dia da aula da Marina, minha caçula. Para descrever um pouco a sensação, reproduzo o texto que escrevi por ocasião do primeiro dia da Ana Clara, ano passado].

MarinaO antropólogo alemão Arnold van Gennep fez um estudo sistemático dos cerimoniais que em diversas sociedades marcam a transição dos indivíduos de um status para outro. A esses momentos chamou de “ritos de passagem”. Gennep concluiu que a maioria dos ritos analisados observava uma seqüência que incluía “separação”, “transição” e “incorporação”. Mais do que uma transição particular para o indivíduo, esses momentos representam a sua progressiva aceitação e participação na sociedade na qual está inserido, tendo, portanto, tanto o cunho individual quanto o coletivo.

Segunda-feira foi o primeiro dia de aula da Ana Clara. A teoria de Gennep se atualizou naquele serzinho de um ano e sete meses. Uniforme, merendeira, mochila, além de dois lindos pitozinhos, faziam parte de sua apresentação para a cerimônia de sua iniciação no universo da escolarização. Como prevê o processo, houve a necessária separação. O corte afetivo gradual da presença dos pais fomenta na sua pequena subjetividade a inevitável individualização. Da separação, a pequena Clara partirá para a transição entre um mundo egocêntrico e um mundo ecológico, no sentido amplo do termo, de convivência entre os iguais, no caso seus coleguinhas do pré-infantil, incluindo aí um japinha chorão. Sua inserção nessa nova ordem simbólica é um inevitável passo para a incorporação do discurso pedagógico e de seu lugar na sociedade.

Parece pouco, mas não é. A escolarização e a conseqüente individualização do sujeito e sua acomodação ao lugar escolar a ele destinado têm conseqüências perenes na vida das pessoas. O rito de passagem para a educação sistemática escolar em nossa sociedade requer um cuidado e uma responsabilidade imensa dos agentes que a executam. Seus papéis, se não desempenhados de forma a proporcionar a inserção tranqüila dos sujeitos da educação, podem bloquear seu desenvolvimento na ordem do discurso educacional, limitando também, assim, sua inserção no mundo da cidadania protagonista, que vai além da cidadania presumida de ter um documento de identidade. Na verdade, a entrada na escola é um importante momento na formatação da identidade psíquica da criança, que é o que vai balizar seus comportamentos pelo resto de sua vida.

Como pais, nossos corações ficam miudinhos. Porque para nós também se trata de um rito de passagem, com as mesmas etapas de “separação”,” transição” e “incorporação”. A necessária separação de minha filha durante o período escolar serve para me lembrar que a vida é feita de desencontros, de acomodações ao inevitável e de incorporações de novas realidades ao cotidiano. É assim o tempo todo com tudo.

Eu estudo, trabalho com e pesquiso sobre educação. Faz parte da minha profissão. Mas nenhum livro me fez ver tanto a delicadeza e a fragilidade do momento educacional quanto o dia em que soltei a mão de minha filha e a entreguei às mãos de sua professora naquela tarde de segunda-feira. Com a humildade de um doutor acadêmico, tenho que admitir que aprendi uma lição sobre educação que não sabia. Tivemos, eu e ela, nosso primeiro dia de aula. E compreendi que os ritos de passagem não são iguais. Para uns são mais tranqüilos, como para a Clara. Para outros, mais dolorosos. Como para mim e para o japinha.

Sérgio Augusto Freire de Souza
Jornal Em Tempo, 13 de fevereiro de 2008